Seduo Criminosa
- Nelson Demille
Romance FICO
SEDUO CRIMINOSA
Transcende o vulgar suspense.
 uma novela escrita com talento e perfeio, uma novela com profundidade e paixo... uma histria impressionante de poder, amor e morte; imprevisvel at ao virar
da ltima pgina.
Amor e crime num triler ertico e electrizante... Uma obsesso no virar de cada pgina.
- Nelson Demille
Uma das histrias de amor e mistrio mais incomparvel, invulgar e complexamente envolvente que li nos ltimos anos.
Isto  escrita autntica; uma histria forte, intrincada,
que consegue maravilhosamente ligar os seus incrveis acontecimentos de uma forma muito cativante; e com personagens, especialmente
o protagonista/narrador, que so pessoas reais, multidimensionais, genunas.
Um livro emocionante.
- F. Freedman
Um triler que ataca o corao, a mente, as entranhas.
- James Ellroy
Irresistvel.
Publishers Weekly
Copyright  Daranna Gidel, 1993
Publicado originalmente por SIGNET New American Library uma marca da Dutton Signet, uma diviso da Penguin Books USA Inc., 1994
Ttulo:
Ttulo original:
Autor:
Coleco:
Tradutor:
Capa e plano grfico: Paginao: Montagem:
Impresso e acabamento: Edio e distribuio:
Depsito Legal:
ISBN:
Cdigo de Barras:
Seduo Criminosa
Criminal Seduction
Darian North
Ler por Prazer
Orncio Nunes
Eria da Serra
Gabinete Tcnico da Editora Replicao
Gabinete Tcnico da Editora Replicao (Z. B.)
Tipografia Peres
Editora Replicao, Lda.
Rua Pedro de Sintra, 26-A
1400-277 Lisboa
Tel: 213 021 583
Fax: 213 021 584
E-mail: replic@mail.telepac.pt
198906/03
972-570-192-5
9789725701928
1a Edio, 1a impresso, Janeiro 2003
Seduo Criminosa
Romance
REPLICAO
O meu agradecimento e reconhecimento a:
Charles Fiore, advogado de defesa extraordinrio, pelos seus conselhos e conhecimentos, e Gail Fiore pela sua pacincia,
Cryna Taubman, jornalista, pela sua ajuda generosa,
Francs e Jim Bagley, Jack Bradley, Darwin e Carolyn Gidel, Lance e Arlene Gidel, Robert Tine e Karen Day, Judy Wall, e Abby e Don Westlake pelo apoio e encorajamento
durante os tempos difceis,
Todo o pessoal dos meios de comunicao social da cidade de Nova Iorque Carol, Ellen, Lisa, John, Amy, Sharon, Chris e os outros que responderam s minhas perguntas
e me permitiram entrar na sua intimidade, e David Lewis de Lewis e Fiore cujas histrias legais foram uma inspirao,
O meu agente, Aaron Priest, que est sempre presente quando preciso dele,
E um profundo e sentido agradecimento a Audrey LaFehr, o meu talentoso editor e amigo.
Para
Michael Bradley
Uns singram pelo pecado enquanto outros pela virtude caem.
- Shakespeare
A necessidade de uma pessoa se extraviar, de se destruir,  uma verdade extremamente pessoal, distante, apaixonada e turbulenta.
-        Georges Bataille
Coleco Ler por Prazer
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#
Olhando para o passado, ele verificou que sempre estivera  espera dela.  espera de ser envolvido. De ser absorvido pela escurido nos seus olhos.
Ela trouxe a queda vertiginosa, a agitao inflamada que o fez esquecer tudo o que tinha sido e o deixou a tomar o gosto da cinza. Mas agora sabia, ao olhar para
trs, que era isso que ele queria.
Que sempre estivera  espera.
1
O tempo passa devagar nos Flint Hills do Kansas.  uma regio inspita. Um mar ondulado de erva no cimo do que tinha sido uma cadeia de montanhas, to antigas que
os cumes tinham ficado reduzidos a outeiros.  uma regio de ranchos. Imprpria para a agricultura. Exposta a fortes tempestades de neve, tempestades de poeira,
tornados, secas, granizo do tamanho de uma mo fechada, ventos violentos e inundaes frequentes nas terras baixas junto aos rios.
s vezes, quando Owen Byrne andava pelos montes a cavalo, sentia que estava a regressar ao passado e que, se continuasse, encontraria colonos, bisontes e bandos
de ndios Osage, depois os dinossauros e finalmente os glaciares e vulces que tinham moldado o terreno desde o princpio de tudo. s vezes parava o cavalo e tentava
escutar o passado, com a certeza de que estava ali, a sussurrar  sua volta. E s vezes sentava-se no cho, com o cavalo e os ces a olhar para ele expectantemente,
e tentava imaginar tudo o que j tinha acontecido naquele lugar. Cada insecto errante e cada semente a germinar. Cada gota de sangue derramado no nascimento e na
morte.
Mas hoje no. Nem por vrios meses. As preocupaes tinham-no curado desses devaneios ociosos.
A jovem gua em que cavalgava percorria rapidamente o cho com o seu trote regular. Tentou evitar todo o tipo de preocupaes e concentrar-se apenas no baque surdo
e metronmico dos cascos da gua e no bater do vento na sua cara, no prazer do trote elegante e consistente que o conduzia pelo horizonte, mas no tinha sada. Aquele
zumbido persistente da ansiedade no desaparecia. Tentou fazer apelo ao optimismo cego, dizendo a si prprio que as coisas haviam de se resolver... de alguma maneira.
De alguma maneira. A expresso pareceu-lhe to vazia de sentido.
Um avio passou l no alto, no espao areo e ele obrigou a gua a ficar quieta para poder olhar para cima. A luz do sol reflectia-se no revestimento prateado. quela
distncia o avio mais parecia um pssaro do que uma mquina. Um pssaro gigante a planar em direco a um destino extico. Ele nunca tinha andado de avio e ocorreu-lhe
que talvez nunca chegasse a andar de avio. Que a sua vida j estava determinada e o que era agora, aos trinta e dois anos de idade, era tudo o que sempre seria.
#Ali colocado, um homem alto, vestido com uma tosca pele de gamo no meio do vazio desolador, o prprio Owen Byrne parecia uma viso do passado. Com o seu longo casaco
de lona e o rosto cheio de cicatrizes, o velho chapu preto do oeste, parecia o elementar cavaleiro solitrio. Como se fizesse parte do cavalo e do campo e do sonho
de uma poca anterior. Mas Owen no era um sonho nem uma viso. Era apenas um homem que estava a fazer o seu trabalho do dia-a-dia.
A gua sacudiu nervosamente a cabea e passou para um movimento lateral, como se estivesse a danar. Era ainda muito nova e a sua tolerncia para se manter quieta
era limitada. Quieta! murmurou ele, segurando-a com firmeza e obrigando-a a ficar imvel por instantes, antes de lhe fazer sinal para voltar ao trote suave de que
ela gostava. Enquanto cavalgava ia perscrutando o campo  procura de mais vitelos mortos.
Tinha encontrado mais um feto abortado precisamente naquela manh, aumentando o nmero para trinta, desde o dia de Aco de Graas. A sua esperana inicial de que
s uma pequena percentagem da manada estivesse infectada tinha dado lugar  resignao.
 um vrus novo da Amrica do Sul que  parecido com o Bangs, tinha dito o veterinrio. Transmite-se por contacto sexual. No acontece nada de especial aos touros,
mas todas as vacas infectadas vo perder as suas crias antes do fim do perodo de gestao.
Uma vez que a nica produo do rancho eram vitelos, aquilo tinha sido uma notcia devastadora. Owen ainda no se tinha consciencializado da situao, enquanto o
veterinrio continuava a falar, explicando que os touros ficariam bem aps uma quarentena e com a administrao de antibiticos, mas o vrus ia fazer com que as
vacas ficassem estreis. Nunca mais iam dar crias. O Byrne Shamrock Ranch no s ia ter uma produo reduzida de vitelos para mandar para o mercado, como ia perder
um nmero significativo de vacas que eram boas reprodutoras. E porque as vacas adultas no tinham muito valor para carne, qualquer que fosse o preo pago na venda
para o matadouro ficaria muito aqum do custo de substituio daquelas vacas na manada.
Precisamente naquela manh tinha despachado o primeiro grupo de vacas infectadas. Chegara o camio para as transportar e ele tinha tomado conta do carregamento,
despejando toda a sua angstia e desespero no esforo fsico. No era s o facto de ser um prejuzo financeiro devastador, mas tambm o facto de os animais que iam
para o matadouro serem vacas reprodutoras que ele tinha alimentado e tratado e conhecido durante anos. Vacas que estavam na sua melhor poca de reproduo.
Mas tinha de comear a fazer-se a seleco. No podiam estar a alimentar vacas estreis durante todo o inverno. Com os diabos! Pela maneira como as coisas estavam
a correr, nem sequer sabia se iam conseguir alimentar as vacas reprodutoras. Lembrou-se do ano em que um grupo de gatunos tinha fugido com meio carregamento de gado
na vspera de Natal. Tinham conseguido ultrapassar aquele prejuzo. De alguma maneira haviam tambm de conseguir ultrapassar este. De alguma maneira. L estava de
novo aquela expresso.
A gua lanou-se a galope pelo cume de um outeiro e avistaram-se os
currais, a cabana dos antigos colonos e o esqueleto sem folhas, prprio do inverno, da enorme pereira. A sua me tinha querido que cortassem a rvore a seguir ao
funeral do irmo, mas Owen tinha-a convencido a no fazer tal coisa. No s porque as rvores eram escassas nesta regio, mas tambm porque Terry adorava aquela
rvore e tinha tido o cuidado de construir os currais e as calhas de escoamento da gua de modo a proteg-la.
Para Owen, este era o verdadeiro monumento ao seu irmo, no a laje de granito ornamentada no cemitrio de Cyril. Esta era a criao mais importante de Terry construda
de modo a que a lida com o gado marcar com o ferro quente, cortar os chifres, castrar e vacinar fosse mais rpida e mais fcil do que antes. Agora que Owen fazia
a maior parte do trabalho sozinho, aquela estrutura era de um valor inestimvel. Sem ela ele no teria conseguido, e por isso pensava nessa zona como um legado que
Terry lhe tinha deixado.
Os pensamentos da morte do irmo fizeram-no sentir que estava a aproximar-se de uma vasta escurido na qual no se aventurava a entrar, por isso rapidamente afastou
aqueles pensamentos da cabea, deixando a gua correr. Ela esticou-se ansiosamente e os cachorros que a seguiam mal conseguiam acompanh-la.
L adiante nos currais encontravam-se os touros do rancho. Owen separava-os sempre da manada durante vrios meses para assegurar que nenhuma vaca procriasse a meio
do inverno que se seguia, pondo em risco a sobrevivncia das crias e em alguns casos tambm a sobrevivncia das mes. Claro que neste ano, com o vrus, a separao
era ainda mais necessria.
Estava quase a chegar  cabana quando a gua subitamente resfolegou e se desviou para o lado. Podia t-la obrigado a seguir em frente, mas os cachorros fizeram eco
do sinal de perigo. Ento tambm ele se apercebeu do leve mas inconfundvel cheiro forte e penetrante a sangue que pairava no ar.
Desmontou e prendeu a gua ao lado da cabana. Depois deu a volta e dirigiu-se para o local onde os touros andavam aos encontres e a resfolegar, lutando por lugares
de acesso s gamelas da comida e impedindo-o de ver por entre aquela barreira de corpos musculosos. Estavam sempre com fome, quando estavam encerrados no curral.
Com uma fome voraz. E tambm extremamente excitados. Muitas vezes se questionara sobre o que um cientista de cincias sociais poderia investigar com base no comportamento
do touro. Os animais evitavam-se uns aos outros enquanto andavam no meio da manada, mesmo que no houvesse vacas para cobrir durante dias ou mesmo semanas seguidas.
Porm, durante a sua permanncia no curral, estimulavam constantemente os apetites sexuais uns aos outros e montavam-se uns nos outros numa ordem descendente de
fora e tamanho. O seu irmo sempre chamara quilo a praxe do picano.
Ora digam l, rapazes, disse ele, observando-os atentamente,  procura de feridas. Quem  que est aqui a sangrar?
Eles estenderam os narizes hmidos na sua direco e farejaram ruidosamente, procurando captar o cheiro dos cubos ou do gro. Trepou parcialmente a vedao e aquela
massa musculosa comeou a deslocar-se em desassossego. Do ponto mais alto em que se encontrava pde olhar por cima dos largos
dorsos dos animais maiores que estavam  frente e ver os animais mais novos e mais pequenos que tinham sido empurrados para o fundo do curral. E conseguiu ver que
estavam a caminhar  volta de um animal que se encontrava no cho.
Muito bem, disse-lhes ele em voz alta, ficando imediatamente a saber que o touro cado no cho s podia ser o animal que o pai tinha acabado de comprar.
Owen pegou num saco de cubos de comida comprimida da cabana e encheu uma gamela no extremo oposto da srie de currais. Como se esperava, os touros precipitaram-se
para a comida, mugindo e marrando uns nos outros na tentativa de chegar em primeiro lugar. Ele fechou um porto para os impedir de voltar para trs e a seguir dirigiu-se
para o animal que estava prostrado no cho.
O pequeno touro era uma beleza, mesmo estando ali deitado num charco de sangue e de estrume, com os olhos vidrados. Owen agachou-se ao lado dele e ouviu um rudo
fraco e surdo da respirao do animal e um cheiro desagradvel das narinas cheias de sangue incrustado. Afagou o pescoo do animal, sussurrando calma amigo, calma,
mas o animal nem sequer reagiu ao seu toque. Uma profunda lassido apoderou-se do corpo de Owen.
O pai tinha voltado do leilo na noite anterior, vangloriando-se de ter feito uma compra excelente e de ter falado com algum que lhe ia transportar o animal adquirido
directamente para os currais. Owen tinha ficado to incrdulo pelo facto de o pai gastar o dinheiro que eles no conseguiam poupar, num touro de que no precisavam,
que nem lhe tinha pedido quaisquer informaes sobre as caractersticas do animal. Como por exemplo a idade. Nunca imaginando que o pai ia pr o jovem animal junto
com os touros grandes. Mas Clancy Byrne, que estava gradualmente a perder todo o senso comum que alguma vez tivera, tinha feito exactamente isso. Tinha atirado com
um pequeno animal para o meio dos camaradas grandes e o pequeno animal tinha sido montado e deitado ao cho e marrado e atropelado durante toda a noite.
Owen voltou para o cavalo e puxou pela espingarda da bainha da sela, em seguida saltou de novo para dentro do curral e caminhou pelo cho amontoado. Uma linha de
nuvens cirro eram arrastadas pelo vento atravs das montanhas distantes queimadas pelo sol. Os touros tinham acabado de devorar a comida e estavam a olhar para ele
atravs da vedao. Os cachorros andavam impacientemente de um lado para o outro,  espera de um sinal para iniciar a perseguio.
Ele voltou-se e apontou a arma com um movimento suave. A espingarda produziu um rudo seco. O animal que jazia no cho deu um safano. Os cachorros fugiram. Saiu
sangue do buraco entre os olhos vidrados. Ento acabou de dar comida aos touros e foi-se embora.
Depois cavalgou a toda a velocidade, indiferente a tudo, at sentir nos olhos lgrimas ardentes provocadas pelo vento e teve de abrandar para conseguir ver. Estava
dominado pela raiva. Consumia-o to completamente que tinha medo dela. Desmontou e levou a gua pela rdea, determinado a voltar ao normal. No havia maneira de
avaliar a extrema profundidade da sua
fria. O pai tinha com certeza feito coisas piores ao longo dos anos. Ele prprio tinha sido obrigado a fazer coisas piores.
Respirava fundo enquanto caminhava, reprimindo a raiva em cada respirao, obrigando o diabo a voltar para o inferno. Quando a raiva desapareceu, sentiu-se esgotado.
Cansado da sua prpria m disposio e de algo ainda mais forte. Qualquer coisa indescritvel que estava a aproximar-se dele, vinda de todas as direces.
Estava a tomar balano para saltar de novo para a sela quando lhe pareceu ouvir tocar. Segurou a gua e inclinou-se para a frente para ouvir. No, no tinha imaginado
o som. Algum estava a tocar o sino grande da casa. O som metlico era trazido pelo vento, ora claro e intenso, ora quase inaudvel. Por fim compreendeu o tipo de
toque. No era o som frentico de alguma emergncia, mas apenas um chamamento para ir para casa. Mudou de posio na sela, preocupado em verificar as reparaes
da vedao no vale, mas extremamente curioso por saber o motivo do chamamento.
Puxou a rdea da gua, voltando-a na direco do celeiro, da casa e do sino. A verificao da vedao podia ficar para mais tarde. Se necessrio, podia faz-lo depois
de escurecer, com a ajuda dos projectores da carrinha.
Quando chegou a casa, tratou da gua e meteu-a no estbulo. O sol de inverno estava a descer no cu. Saiu do celeiro velho e sombrio e dirigiu-se para casa. No
havia visitantes nem veculos estranhos  vista e no via qualquer explicao para a chamada do sino. A casa estava em silncio ali em baixo, um pequeno rectngulo
de pedra calcria da regio que tinha resistido durante um sculo s intempries dos Flint Hills. Estava anichada na clivagem entre os montes, com a frente voltada
para Leste, na direco da estrada que passava ao longe e as traseiras voltadas para Oeste, na direco dos celeiros e dos currais. Ambas as extremidades eram de
paredes slidas, de modo que no havia nenhuma porta nem janela a dar para os ventos e as chuvas ferozes do Norte e do Sul.
Junto da porta das traseiras estava o sino, um pesado sino de bronze de um navio, que tinha sido trazido pelos primeiros colonos. Estava suspenso entre dois altos
canos de ao, com uma corda comprida para o puxar de um dos lados. J raramente o usavam, uma vez que as pick-ups estavam equipadas com rdios CB.
As botas faziam rudo ao pisar a erva e a neve incrustada, enquanto passava pelo que restava do moinho de vento abandonado, a antiga casa dos trabalhadores onde
ele vivia e a alta vedao de arame  volta da horta. Quando chegou  porta das traseiras, limpou as botas no capacho de metal e a seguir entrou no trio fechado.
Logo que entrou, tirou as esporas e meteu as luvas no bolso do casaco. Depois despojou-se do longo casaco de lona, da camisola de l grossa e do saco com fecho de
correr, onde trazia a espingarda de caa, pendurando-os na linha de cabides ao longo da parede. Por fim tirou o chapu, passando automaticamente os dedos pelo cabelo,
para desfazer a marca deixada pela banda do chapu. Para Owen, um chapu fazia parte das peas da sua roupa de trabalho, til apenas para cobrir a cabea e proteger
os olhos do brilho intenso do sol.
Liberto dos arreios de cowboy, tinha-se transformado de uma viso do passado num homem contemporneo. Um homem de cabelo castanho escuro e olhos de um azul intenso
que eram prprios do lado irlands da famlia do pai e a natureza reservada e sria que tanto caracterizara as pessoas do lado da famlia da me.
Cheguei, gritou ele quando passou do trio para a cozinha. Foi atingido pela vaga de calor que vinha da fornalha antiga, e ouviu o zumbir da mquina de costura da
sala em frente.
Atravessou a cozinha, espreitou pela porta para a sala de estar e viu a irm mais velha debruada sobre a velha mquina Singer preta. Ellen! chamou ele, sobrepondo
a sua voz ao barulho lamuriento da mquina.
Ela tirou o p do pedal e levantou os olhos para ele. O seu spero cabelo grisalho caa desalinhado e notavam-se-lhe papos escuros por baixo dos olhos. Tinha trinta
e cinco anos mas parecia muito mais velha.
Acabaste de perder uma chamada da Mike, disse ela em tom de aborrecimento. O pai dela foi a uma patuscada e saiu no camio para ir beber. Ela receia que ele possa
desmaiar em qualquer stio e morrer de frio nesta noite to gelada.
Owen ficou surpreendido pelo facto de a irm o chamar para casa to cedo para ir ajudar os Wheelers. Ela desprezava o velho Wheeler e tratava-se de uma questo que
podia resolver-se depois do jantar, com a ajuda dos projectores da pickup. Mas limitou-se a dizer, Est bem. Eu vou procur-lo.
Voltou para a cozinha para tomar uma chvena de caf. A Ellen seguiu-o e ele pegou na cafeteira. Tambm queres?
Ela fez um gesto com a mo em sinal negativo. Tinha as unhas rodas. Ele lembrou-se do tempo em que ela tinha o cabelo brilhante e as mos tratadas e a cara sem
aquelas linhas to profundamente marcadas.
O que  que se passa? perguntou ela, observando-o atentamente. Ele ps-se a olhar para a chvena. Encontrei mais um vitelo abortado. E
houve confuso entre os touros.
O que aconteceu?
O novo touro que Clancy comprou foi atacado quase at  morte.
Ficou estropiado?
Est morto. Tive de lhe dar um tiro.
Merda! Deu um murro na mesa da cozinha. Devamos dizer ao pai que mais vale perder a maldita fazenda num jogo de poker. Seria mais rpido e menos doloroso.
Ouviu-se o som de um carro l fora no caminho de cascalho e a seguir a Meggie entrou de rompante pela porta. Com vinte e seis anos de idade, a Meggie era o mais
jovem elemento da famlia Byrne. Trabalhava trs dias por semana num Mercado e ia ter de fazer esse trabalho durante vrios anos at pagar o emprstimo do carro
que conduzia. Mas o carro era importante para ela e para a Ellen. Sem ele, elas ficavam ali desamparadas sempre que os homens saam com as duas carrinhas.
Ol a todos, disse a Meggie, esforando-se por entrar pela porta com dois sacos cheios de mercearias. O vento tinha soltado algumas madeixas do seu cabelo ruivo-escuro
que ficaram salientes.
Owen correu a tirar-lhe os sacos das mos.
Sabes daquele touro especial e caro que o pai comprou no leilo na noite passada? disse a Ellen antes de a Meggie ter acabado de desabotoar o casaco. Morreu.
No!
Ops! Ellen quase pareceu presunosa. Deram cabo dele mesmo ali no curral. Digo-vos aos dois. Em breve vamos ter de ir viver para a casa dos pobres e este rancho
vai passar para as mos de outra pessoa.
A Meggie olhou da Ellen para o Owen. O pai j sabe? Owen abanou a cabea. Ainda no o vi hoje.
Eu sei onde est, disse a Ellen. Quando estava a falar com a Mike, ela disse que o viu esta manh no banco. Ia a caminho de uma propriedade para ver uns ces de
caa que estavam  venda.
Ela viu-o no banco? perguntou Owen.
A Ellen acenou com a cabea. Na fila junto  montra, a falar em comprar ces de caa, disse ela acentuando cada palavra.
A Meggie mordeu a ponta do lbio e olhou para Owen. Houve um momento de tenso em silncio. Depois a Meggie disse, Bem, parece-me que o dinheiro  dele.
Sim, disse a Ellen irritada, e o rancho tambm  dele. Mas eu diria que todos ns ganhmos o direito de ter uma palavra a dizer nestas coisas. Sobretudo o Owen.
Ele trabalhou que se fartou para este rancho se aguentar.
Bemmm... A Meggie passou as mos pelo cabelo e encolheu os ombros petulantemente. Se o pai comprar um punhado de ces, vamos com certeza ter muita carne fresca de
touro para os alimentar, no acham?
Bolas! A Ellen revirou os olhos e foi-se embora.
Owen acabou de beber o caf enquanto pensava em Mike Wheeler e onde poderia ter ido o pai dela.
Oh... Owen... A Ellen voltou  cozinha para lhe entregar um envelope rasgado. Desculpa. Esqueci-me de te dizer o motivo por que te chamei. Telefonaram-te de Nova
Iorque. A mulher disse que era por causa das tuas histrias e que devias contactar com ela ainda hoje.
A Meggie franziu as sobrancelhas. Tens de dizer s pessoas que no te telefonem para aqui com recados desses, Owen. E se fosse o pai a atender o telefone e fosse
algum Yankie a pedir-te para ligares para Nova Iorque?
O pai nunca atende o telefone, Meg. Disse Ellen. Ele fica sempre  espera que algum de ns v atender. E alm disso, ele vai ter de descobrir o que o Owen anda a
fazer, mais cedo ou mais tarde.
Ns concordmos... disse a Meggie, falando devagar e articulando as palavras de maneira a dar-lhes mais nfase, desde a ltima vez que o pai esteve hospitalizado...
queramos evitar enerv-lo. E tu sabes como ele reagiria a esta questo da escrita e todas estas chamadas de e para a cidade de Nova Iorque.
At parece que o Owen est a cometer algum crime, declarou a Ellen. E estou farta e cansada de proteger o pai destas coisas. Ele nunca nos protegeu de nada.
Oh, com certeza...  assim que mostras a tua gratido... voltar para aqui para afastar o pai depois de teres perdido o teu marido e no teres stio onde viver e...
Basta! Num movimento brusco Owen afastou-se da mesa e da cadeira.
O que ? perguntou a Meggie cheia de indignao. Estou apenas a tentar chamar-lhes a ateno, meus caros, para a sade do pai. Caramba, eu julgava que...
Basta! Owen ps as mos na testa e pressionou os olhos fechados com a parte inferior das palmas das mos at ver formas estranhas e incoerentes. Quando voltou a
abrir os olhos, as duas irms estavam de olhos fixos nele. Estavam com o aspecto nervoso e quase assustado, que era o que normalmente acontecia nas relaes com
o pai, e Owen detestava ser o causador disso, mas no conseguiu fazer um dos seus habituais gestos de conciliao.
Vou fazer a minha chamada, disse-lhes ele com ar de impacincia. As duas mulheres fizeram um aceno com a cabea e foram para a sala de estar. Ele sabia que elas
iam ficar a escutar a sua conversa. A privacidade nunca tinha sido uma prioridade na famlia, e s havia aquele telefone fixo na parede junto ao fogo. Ainda pensou
em ir de carro at ao telefone de moedas na farmcia de Cyril, mas ficava a trinta minutos de viagem. Ps-se a olhar para o nome e o nmero escritos no fragmento
de um envelope. Bernadette Goodson. A sua agente literria. Ao ver o nome dela num rabisco da Ellen sentiu um nervosismo a percorrer-lhe o corpo. O meio habitual
de comunicao de Bernie Goodson era por carta; uma chamada telefnica tinha de significar algo de especial.
Respirou fundo, levantou o receptor e marcou o nmero. A ligao fez-se lentamente. Finalmente respondeu a assistente. Depois Bernie entrou na linha.
Owen! Como est! Como vai a vida no Kansas? Bernie nasceu numa ilha onde se falava o Ingls genuno, e conservava vestgios do seu sotaque de criana. Ele gostava
do som identificativo da voz dela e das suas expresses pouco familiares.
O costume, disse ele.
Espero no o ter interrompido em alguma coisa importante.
No.
ptimo. Bem, tive uma longa conversa esta manh sobre o seu novo manuscrito, e queria falar imediatamente consigo sobre isso. Lembra-se da editora que me recomendou
a si? Aquela que gostou muito dos seus outros artigos?
Aquela que tinha um nome caracterstico? Bernie riu-se. Sim. Arlene Blunt.
Com certeza. Lembro-me bem dela. Ainda tenho as suas cartas de rejeio fixadas com alfinetes na parede do meu quarto.
Agora, Owen, os editores nem sempre compram tudo o que querem. J lhe expliquei isso.
Sim. J me explicou. Owen sentiu um grande aperto no peito, como se tivesse acabado de fazer uma corrida. No se atrevia a investir qualquer
#esperana nesta chamada... mas apesar disso, sentiu uma animao crescente.
Bem, esta manh Arlene voltou a falar-me do seu manuscrito. E estava muito impressionada. Ela acha que voc tem um talento extraordinrio.
Ainda no conseguiu fazer com que os que mandam se interessassem por ele, mas continua a insistir. O problema que h com este livro  essencialmente o mesmo que
h com os seus outros livros. Primeiro apesar de tudo estar to bem entrelaado que se parece com uma novela trata-se de um conjunto de histrias. O que  difcil
de vender aqui. Segundo a sua escrita  muito sombria. Suicdios e mulheres desamparadas em quintas e a sua viso do campo a definhar...  tudo extremamente lgubre.
To realista. Quero dizer, at os animais so... bem... demasiado animalescos. As pessoas gostam de animais fofos e amorosos, ou pelo menos agradveis.
A esperana abandonou-o num pice. Este manuscrito tinha sido rejeitado tal como os outros e tinha como destino juntar-se-lhes na prateleira do armrio.
Bernie fez uma pausa, como se estivesse  espera que Owen falasse. Como ele no falava, ela continuou. Claro que vou continuar a enviar o manuscrito para outras
casas, mas temos de ser realistas... Arlene era a nossa maior esperana porque ela j tem uma atitude muito positiva em relao ao seu trabalho. Isto aqui est muito
difcil para os novos escritores. O mercado est mau e os editores tm os olhos fixos no lucro final. Tm medo de arriscar. No querem arriscar numa coisa que seja
muito inquietante nem muito diferente do que est a vender-se bem.
Nesse caso talvez eu devesse comear a aprender a escrever guies humorsticos para a televiso, disse ele.
Ela riu-se. Ningum pretende que chegue a esse ponto. Mas o motivo por que lhe estou a telefonar  para o encorajar a tentar um rumo diferente no seu prximo trabalho.
Talvez se pudesse pr de parte os animais. E se fizesse uma novela em vez de escrever histrias?
Ele encostou o ombro  parede decorada com desenhos esbatidos de galos a danar.
Arlene sugeriu que talvez voc devesse pr-se mais a par do que est a ter mais sada. No  que algum esteja a querer interferir na sua maneira de escrever, mas...
Eu sei o que so bestsellers, Bernie. Posso viver no meio do nada, mas vou  biblioteca e  livraria de vez em quando. Owen olhou para o tecto manchado. Nunca vou
conseguir ter um livro publicado, pois no?
Owen! Voc nunca me pareceu to pessimista. Com certeza que vai ter a oportunidade de vender alguma coisa, e quando isso acontecer vai haver mercado para a sua fico.
Com um talento como o seu, s precisa de continuar a insistir at conseguir ter sorte.
Com certeza, disse ele.
Ela soltou uma leve risada; depois ouviu-se um som de murmrio, como se ela estivesse a mudar de posio na sua secretria. Ele sups que ela estivesse a trabalhar
 secretria. Sempre a imaginara de culos e com o cabelo a ficar grisalho, sentada atrs de uma grande secretria de carvalho, como uma bibliotecria.
Parece-me que tenho de abreviar esta conversa. Arlene Blunt e eu estamos ambas a atravessar uma crise... no tem nada a ver com o seu livro, acrescentou logo ela.
 bastante triste. Um dos meus autores de longa data tinha um contrato para escrever um livro sobre um crime verdadeiro para DeMille, em que Arlene seria a editora,
mas o pobre homem teve ontem um ataque cardaco e no pode fazer o trabalho.
Crime verdadeiro?
No-fico, sabe... O Campo de Cebolas, Atraco Selvagem, A Sangue Frio. Homicdio de alta qualidade. O tipo de material profundamente pico. DeMille gosta de tragdia
americana... sensacional mas cheia de significado.
Eu li O Campo de Cebolas e Atraco Selvagem, disse Owen. Eram fascinantes.
Sim. O crime verdadeiro pode ser espantoso. Bernie deu um suspiro. O meu pobre autor est definitivamente fora de questo, mas DeMille ainda quer que o livro seja
escrito, e depressa, por isso Arlene e eu andamos  procura de um substituto. At agora todos os escritores que contactmos ou j esto comprometidos com um projecto
ou no tm possibilidade de ir trabalhar no horrio requerido.
A pulsao de Owen ficou to forte que conseguia ouvi-la e a mo que segurava o receptor ficou pegajosa e hmida. Teve dificuldade em engolir.
E eu, Bernie?
O qu?
E se fosse eu a escrever esse livro sobre o crime?
Mas no  fico e no  sobre nada do que voc conhece.
Bernie... Exps os seus argumentos, desesperado por fazer com que cada palavra fosse importante. Muito do que escrevo vem directamente da minha experincia da vida,
portanto de certo modo j escrevi alguma no-fico.
Ela ficou em silncio.
Eu sou capaz de fazer isso, Bernie. Truman Capote era um escritor de fico quando escreveu A Sangue Frio, no era?
Bem, eu sempre disse que a sua escrita  to profunda que tenho de comer batatas fritas com ela para me manter em equilbrio. DeMille ia gostar disso. Mas voc no
tem qualquer experincia com salas de tribunal, nem com o processo legal.
Nesse caso a minha abordagem vai ser novidade, e vou fazer um melhor trabalho a explicar as coisas aos leitores porque eu prprio terei acabado de tomar conhecimento
delas.
Pense nisso, Bernie... O homicdio no est assim to longe do que tenho andado a escrever. O tentar compreender as circunstncias humanas que conduzem ao homicdio
est muito prximo do que eu j fiz. Eu jamais seria capaz de me sentar a escrever um triler de espionagem ou qualquer coisa romntica, mas isto... um livro sobre
o acto derradeiro...
Owen encontrou o pai de Michelle Wheeler desmaiado na carrinha por baixo da linha de choupos que dividiam o vale entre o Wheeler Ranch e o Byrne Shamrock Ranch.
Tomou o peso do seu vizinho inerte, como fazem os bombeiros, carregou-o e colocou-o no lugar do passageiro da sua prpria pickup. Sandy Wheeler iria passar essa
noite em segurana na sua casa em vez de morrer de frio, mas na manh seguinte ia ficar como um urso, sobretudo depois de saber que tinha sido um Byrne que o tinha
levado para casa. Sandy Wheeler e Clancy Byrne odiavam-se havia quinze anos.
Aos solavancos pelo campo aberto, Owen tomou o caminho mais curto para a casa dos Wheelers. Enquanto conduzia, pensou em como era irnico que a sua escrita pudesse
ser a soluo para salvar o rancho Byrne. O seu pai achava que a actividade intelectual no tinha qualquer valor e todo o homem que passasse muito tempo com livros
era limitado na sua masculinidade. Um Western de vez em quando estava bem, mas tudo o que fosse para alm disso tornava-se suspeito. Passar muito tempo de rabo sentado
ou puxar demais pela cabea torna um homem homossexual, era uma das homilias de Clancy Byrne.
Clancy no sabia nada da escrita de Owen nem dos manuscritos no armrio. A Meggie achava que esta revelao chocante podia ser fatal, por isso tinha insistido em
que guardassem segredo. O que convinha perfeitamente a Owen. Ele no tinha prazer algum em ser constantemente ridicularizado pelo pai, nem nos sarcasmos de satisfao
maldosa que Clancy ia fazer de cada vez que no fosse bem sucedido.
E at agora Owen no tinha mais nada para apresentar seno insucesso. Insucesso atrs de insucesso. Embora tivesse conseguido atrair a ateno de uma editora e tivesse
conseguido a recomendao para a Agncia Literria de Bernadette Goodson, ainda no tinha sido publicada uma nica palavra sua.
Mas agora, depois de tantas rejeies e segredos, agora talvez pudesse ter uma oportunidade de facto. Com isto podia abrir caminho para a publicao do seu trabalho.
Sabia que era capaz. S precisava que o deixassem tentar.
Owen fez a curva, depois da qual avistou os edifcios dos Wheelers, e a sua ansiedade quanto ao que estava a ser decidido em Nova Iorque foi imediatamente substituda
pela percepo de que Michelle estava ali e ele teria de lhe contar tudo. Tinha de faz-la compreender o quanto isto significava para ele.
Os edifcios dos Wheelers eram parecidos com a sua prpria casa, exceptuando o facto de aqui ter tudo um aspecto mais decadente. Como se tudo aquilo j tivesse sido
votado ao abandono. E de certo modo tinha. A senhora Wheeler tinha-se ido embora numa noite, quando o filho mais novo ainda usava fraldas. E cada um dos oito filhos
dos Wheelers tinham-se ido embora logo que atingiram a maioridade. Agora o rancho era o refgio para Sandy Wheeler e o seu irmo, o tio Kaye, ambos j com mais de
sessenta anos, a av Wheeler, a idosa matriarca da famlia, e Michelle, que tinha voltado para casa para cuidar de todos eles, depois de ter passado sete anos na
cidade de Kansas. Sobreviviam porque o rancho no tinha quaisquer dvidas, porque o-
av Wheeler tinha deixado um seguro de vida quando morreu, e porque, at agora, a sorte tinha estado do lado deles.
Logo que Owen se aproximou da casa, Mike saiu a correr. A sua cara ficou aliviada quando viu o pai na carrinha. Mike era uma rapariga de vinte e sete anos, de cabelo
liso cor de mel escuro, olhos claros e de olhar calmo e confiante de algum que no tem incertezas. Era muitas vezes difcil para Owen relacionar a Mike que conhecia
durante o dia com a Mike com quem fazia amor  noite.
Onde o encontraste? perguntou ela.
No vale.
Ela abanou a cabea. Ele est a piorar da bebida, mas no quer que ningum lhe fale nisso. Hoje, quando a av tentou falar com ele, simplesmente foi-se embora. Estvamos
preocupadssimas. E o tio Kaye saiu na outra carrinha, por isso no tive hiptese de o ir procurar.
Owen olhou para a casota do tio Kaye. O homem dormia ali desde a adolescncia, ajudando o irmo mais velho e tornando-se cada vez mais excntrico com o passar dos
anos. s vezes Owen receava que tambm ele pudesse tornar-se o velho tonto da casa dos trabalhadores, e tinha de se convencer a si prprio de que a sua situao
era diferente da de Kaye. Owen dirigia o rancho Byrne. Dormia na casa dos trabalhadores por opo prpria. No futuro ele e a Mike haviam de casar, ter filhos e viver
na sua prpria casa.
Onde est o tio Kaye? perguntou ele.
Com um suspiro de desnimo, Mike revirou os olhos. Isto d cabo de mim.
Owen carregou com o Sandy  maneira dos bombeiros e a Mike abriu-lhe as portas a caminho do quarto de Sandy. Juntos descalaram-lhe as botas, despiram-lhe as calas
de ganga e meteram-no debaixo dos cobertores.
O que se passa a? gritou a av do seu quarto.
O Owen encontrou o pai. Estamos a met-lo na cama.
Ele est adormecido? perguntou a velhota.
Sim.
E o Kaye j chegou?
No, av.
Vou ter que lhe dizer meia dzia de verdades!
Sim, av. Agora vou sair um bocado. O Owen vai dar-me uma boleia para ir buscar a carrinha do pai.
Mike estava muito faladora a caminho do vale. Falou dos pintainhos que ia mandar vir do avirio na prxima primavera e das sementes para o jardim que tinha encomendado
e de todo o trabalho que faria mais tarde no jardim se tudo corresse bem.
Owen lembrou-se de Mike Wheeler quando era adolescente. Ela detestava tudo o que tivesse a ver com a vida no campo e sonhava libertar-se daquilo tal como os seus
irmos mais velhos j tinham feito antes. No dia em que acabou o curso do ensino secundrio partiu para Kansas City e Owen no ficou surpreendido. O que o surpreendeu
foi quando ela de repente voltou para o rancho h dois anos e abraou a vida do campo com todo o fervor. Fosse o que
fosse que lhe tivesse acontecido na cidade, ela tinha ficado completamente diferente da Mike mais nova que ele tinha conhecido.
Mike... disse Owen, interrompendo o monlogo dela enquanto estacionava ao lado do camio do seu pai. Preciso de falar contigo.
O rosto dela ficou muito srio. Sobre o qu?
Ele hesitou, sem saber como comear. Sou capaz de ter uma hiptese de arranjar trabalho.
O qu? perguntou ela mais confusa do que interrogadora.
Ele contou-lhe tudo numa verso simplificada e depois confessou, Tenho de ir para Nova Iorque e ficar l at acabar o julgamento.
Ir para Nova Iorque? Para a cidade de Nova Iorque? Ele fez um aceno com a cabea em sinal afirmativo.
No podes fazer isso Owen! No  isso que tu queres fazer! Acredita em mim, por favor! Agarrou-o pelo brao, como se isso fosse suficiente para o segurar ali. As
pessoas como tu e eu no foram feitas para viver na cidade. O nosso lugar no  aqui.!
 s por umas semanas, Mike. Talvez um ms. Eu consigo aguentar seja o que for durante esse tempo.
Tu no sabes. No fazes a menor ideia. Largou-lhe o brao e tapou a cara com as mos. Oh, Owen... h tantas maneiras de uma pessoa se magoar num stio daqueles.
Ests demasiado confiante... tambm...
Michelle, Michelle... ele puxou-a para ele com delicadeza. Eu vou ficar bem. Vou apenas fazer um trabalho. Prometo que no vou viver com nenhuns traficantes de droga,
ladres de jias nem assassinos contratados.
O seu ar de brincalho no surtiu qualquer efeito. Ela aconchegou-se nos seus braos durante alguns minutos com as mos agarradas  lapela do seu casaco; depois
afastou-se.
E quem vai tomar conta do rancho? perguntou ela.
Estamos a tentar resolver esse problema.
Com os problemas de sade que o teu pai tem, ele no est em condies de poder fazer esse trabalho. E tu no tens dinheiro para poder pagar o tipo de ajuda que
ias precisar. A sua voz intensificou-se ao pensar em todos os pretextos para ele no poder ir embora. No h ningum disponvel mesmo que tivesses meios para pagar.
As nicas pessoas que restam neste condado ou so velhas ou tm os olhos postos em algo mais fcil e mais bem pago do que trabalhar num rancho. E no tens tempo
suficiente para mandar vir algum do sul para te prestar ajuda.
Ele deixou-a desbobinar e depois disse-lhe, A Meggie arranjou uma pessoa que acha que pode fazer isso.
Ai sim? perguntou Mike com uma voz fraca.
Rusty Campbell. A famlia dele tem um rancho perto de Junction City. Ele  o mais novo de quatro irmos e todos eles ficaram em casa, por isso a Meggie acha que
ele vai querer vir para c s pela oportunidade de sair de casa e ser patro de si prprio pelo menos por algum tempo. Depois pago-lhe em dinheiro ou dou-lhe alguns
vitelos correspondentes  sua compensao.
Isso parece-me muito suspeito, Owen. Aposto que esse rapaz vem mesmo
s por causa da Meggie.
Talvez seja por isso, mas isso tambm no tem mal nenhum.
Com certeza... Quando menos esperares, a Meggie vai querer casar-se.
Owen franziu as sobrancelhas.
Agora  a tua vez de casar, Owen!
Mas, Mike, ns no podemos casar-nos, no  verdade? O teu pai no quer nem ouvir falar que vou mudar-me para a tua casa e tu no queres vir viver comigo na minha
cabana. E...
No  que me importe de ir viver na tua cabana, insistiu ela. Simplesmente no posso ficar ali e depois ter de ir para a casa principal para lavar ou cozinhar ou
para fazer qualquer outra tarefa. Aquilo  territrio das tuas irms.
Sabes... atreveu-se ele a dizer, se isto der resultado, eu podia comear uma carreira... com um rendimento independente do rancho. Talvez o suficiente para podermos
construir uma casa para ns.
Aquela ideia animou-a instantaneamente.
E onde  que amos constru-la? perguntou ela.
Sabendo como  o teu pai, teria de ser nas terras dos Byrnes.
Ela ficou a olhar para fora da janela. Quando  que tens de partir?
O julgamento comea na prxima semana. Se eles decidirem optar por mim, vou ter de partir imediatamente.
Ela olhou-o por instantes, como se quisesse dizer alguma coisa; depois voltou-se de repente e deslizou no assento para fora da carrinha. Owen ficou a observ-la
at ela virar a carrinha do Sandy e partir em direco a casa.
Logo que Owen chegou a casa, a Meggie empurrou-o para o telefone com a novidade de que Bernadette Goodson tinha voltado a telefonar e queria que Owen lhe telefonasse
imediatamente para o escritrio. A Meggie estava com os olhos brilhantes e tinha os dedos cruzados para desejar sorte.
Owen marcou o nmero. Meggie sentou-se numa cadeira da cozinha, esperando ansiosamente. Ellen voltou da sala de estar e espreitou  porta. Ele tentou ignor-las,
mas elas ainda agravaram mais o seu nervosismo.
Finalmente, disse Bernie quando ouviu a voz dele. Estava com receio de ter de sair do escritrio sem lhe dar a novidade.
Owen susteve a respirao.
Arlene gostou da ideia. DeMille no est muito convencido de que voc consiga descalar esta bota, mas eles esto receptivos. O acordo  que voc comece a assistir
ao julgamento e dentro de duas semanas apresente uma proposta de trabalho detalhada. Se a proposta lhes agradar, o contrato  seu.
E agora os inconvenientes do acordo... Uma vez que esta  uma situao muito pouco ortodoxa, Arlene e eu conseguimos convencer o editor a dar-lhe dois mil adiantados...
j... para as primeiras despesas. Se voc escrever o livro para eles, esse dinheiro ser considerado como adiantamento do seu pagamento. Se a sua proposta no for
aceite, os dois mil dlares sero anulados
e voc no ter que devolver o dinheiro. Arlene quer que voc esquea o autocarro e utilize algum desse dinheiro para comprar um bilhete de avio e vir para Nova
Iorque o mais depressa possvel, para ela poder encontrar-se consigo e para voc poder comear a sua investigao. Consegue fazer isso?
Uma enorme alegria apoderou-se de Owen e s lhe apetecia gritar para Bernie e para as suas irms e para todas as pessoas que pudessem ouvir, mas refreou tudo dentro
de si, conteve-se com todas as suas foras para que nada fosse perturbado. Para que nenhuma coisa pudesse desaparecer antes de a ter nas mos. Eu consigo fazer isso,
disse ele calmamente.
Voltou-se para as irms e acenou com a cabea a indicar que havia novidade. A Meggie levantou as mos na posio clssica de vitria e balbuciou um yes silencioso!
Ellen sorriu com alguma ironia.
Tenho mais boas notcias para si, disse Bernie. Encontrei um apartamento onde voc pode ficar. Sem pagar nada. Os donos esto na Califrnia por trs meses e no
puderam subalug-lo para no perderem o direito ao arrendamento. O que acha disto?
Parece-me ptimo. Mas tem a certeza? Quero dizer, no estava  espera de que voc se desse a tanto incmodo.
Pare. Eu s quero que isto resulte bem para si, Owen.
Eu sei. Obrigado. Vou fazer um bom trabalho, Bernie. No se vai arrepender.
S espero que voc no se arrependa. Ouviu-se uma voz a gritar para Bernie, vinda do fundo e Owen ouviu um som fraco de tilintar, ao mesmo tempo que ela respondia
num tom abafado. Isto aqui  de loucos, disse ela em tom apologtico. Bem, enviei-lhe por correio expresso um pacote com recortes de jornais e outro material relativo
aos antecedentes deste caso. Assim voc poder dar uma vista de olhos a esse material enquanto viaja no avio e estar informado acerca do que se passa quando for
encontrar-se com a Arlene. Trata-se do homicdio de Serian, sabe. Aquele a que chamam o homicdio da Viva Negra. Pode no ser uma grande notcia no Kansas, mas
 um tema muito quente aqui em Nova Iorque. Com muito sensacionalismo.
Est bem.
Mas isto no  uma coisa certa, Owen. Compreende isso, no compreende? Voc pode fazer toda esta viagem e complicar a sua vida e depois ver a sua proposta rejeitada.
Eu compreendo, disse ele, mas uma nova srie de possibilidades estendia-se  sua frente e nada mais importava.
#2
O tempo Estava claro quando Owen Byrne ia partir no avio para Nova Iorque, e o seu lugar era junto  janela. Ofereceu o lugar ao rapaz que partilhava a fila com
ele, pensando que deveria ser a criana a ter direito s vistas, mas o rapaz disse que j no se preocupava a olhar para fora, pois era sempre a mesma coisa chata.
Owen no conseguia compreender aquela atitude. Especialmente vinda de uma criana. O rapaz voltou-se para o seu jogo electrnico. Owen olhou para ele por momentos,
depois inclinou-se para a pequena janela, encostando a testa ao Plexiglass, de modo a poder ver em todas as direces. Observou a tripulao de uniforme na azfama
das actividades em terra, de preparao para a partida. Viu um rato a correr como uma seta pela pista de descolagem enquanto o avio deslizava ao longo da pista
para a posio de levantar voo, e a seguir viu o cho a ficar para trs quando eles se elevaram no ar da tarde cheia de sol.
Estava ao mesmo tempo maravilhado e assustado. Ainda mal tinha acabado de sair da sua regio, dos Flint Hills, do estado de Kansas e j tinha deixado de estar em
contacto com a terra. E sentiu-se quase como se estivesse a entrar noutra dimenso. Numa outra realidade.
Subitamente foi assaltado por recordaes de Terry. O seu irmo gostava muito de avies e tinha poupado dinheiro durante anos para pagar aulas particulares de pilotagem
num aerdromo perto de Strong City. Lembrou-se de Terry a sobrevoar o rancho num pequeno avio vermelho e branco, descendo muito baixo e depois acelerando para subir
a pique, de modo que o rudo do motor atroava por toda a casa. Inchando de orgulho e afecto, Owen saa a correr para o ptio e ficava a olhar para a barriga branca
e brilhante daquele avio, enquanto subia para o cu. Era o seu irmo que ia ali. O seu irmo que era capaz de fazer tudo.
Passado pouco tempo, Terry tinha deixado de voar. Owen nunca soube porqu.
Agora, ao espreitar atentamente para o cho da quinta l longe em baixo, que parecia um mosaico gigante de retalhos ligados uns aos outros pelas linhas direitas
e finas das estradas de terra batida, Owen imaginou como o seu
irmo ansiava por esta vista, e gostava de saber o que  que Terry teria encontrado ali. Teria sido apenas a novidade que o atrara? Teria sido a excitao do controlo
e do possvel perigo? Ou tinha sido a libertao total da terra que Terry procurara? Estas perguntas nunca teriam resposta. Owen apenas podia imaginar que sonhos
e temores teriam atrado o seu irmo. E queria, como quisera tantas vezes antes, que tivesse sido mais prximo em idade do seu irmo. Que tivesse sido mais o amigo
do seu irmo do que apenas um mido que andava atrs dele. Porque ele tinha a certeza de que, se tivesse sido amigo do Terry, o seu irmo ainda estaria vivo.
Ouviu-se um leve som sibilante e o sinal do cinto de segurana apagou-se. Rapidamente, Owen afastou da cabea aquelas recordaes perturbantes. A viagem estava a
ter nele um estranho efeito, avivando pensamentos que ele evitava habitualmente. Levantou-se para ir tirar o pacote de Bernie do receptculo das bagagens que se
encontrava por cima da sua cabea. Estava ansioso por abri-lo mas ainda no tinha tido tempo para tal, visto que tinha chegado ao posto dos correios de Cyril mesmo
a tempo de o levantar, quando ia a caminho do aeroporto.
Colocou o embrulho no lugar vazio entre ele e o rapaz, enquanto procurava os culos para ler e o bloco de apontamentos e a caneta que tinha metido na bagagem. O
envelope castanho almofadado era do tamanho de um envelope normal, cheio de autocolantes com as palavras URGENTE e EXPRESSO NOCTURNO. Foi invadido por uma onda de
dvidas, deixando-o cheio de inquietao. Ser que se tinha metido em alguma coisa com que no sabia lidar?
Abriu o envelope pelo lado do selo e virou-o, despejando um monte de recortes de jornais e cpias de recortes e folhas rasgadas de revistas em cima do assento. Os
cabealhos saltavam  vista.
INCNDIO DE SERIAN ACIDENTE OU SUICDIO?
ARTISTA AZARADO POR CASA ASSOMBRADA
SERIAN MORTO ANTES DO INCNDIO. POLCIA INTERROGA A VIVA
INCNDIO COMO COBERTURA PARA UM BRUTAL HOMICDIO COM MACHADO?
ORGIA SEXUAL ANTES DO INFERNO. ELA FICOU A V-LO A ARDER ARTISTA FAMOSO PREVIU A MORTE. A MULHER MISTRIO DESAFIA OS POLCIAS
TESTEMUNHA DESAPARECE. PADRE PROCURADO POR SER AMANTE DA VIVA
VIVA NEGRA UTILIZOU RITUAIS VOODOO COM O FOGO GOVERNANTA AFIRMA QUE A VIVA SEDUZIA OS AMIGOS DO MARIDO
Comeou a l-los. Um artigo chamava a ateno para outro, impelindo-o a continuar e estava quase a acabar o monte quando se apercebeu de que no tinha tirado nenhuns
apontamentos. Tirou os culos de aros metlicos e inclinou a cabea para trs. Apesar dos cabealhos sinistros e das insinuaes, havia de facto uma grande tragdia
naquela histria.
Owen ps-se a imaginar Bram Serian, o jovem artista, a deixar o seu ambiente rural e pobre, no levando nada consigo para Nova Iorque, a no ser o seu talento e
a sua determinao.
Sentiu que tinha algumas afinidades com Serian. Como ele compreendia bem o desejo, a inquietao, a febre, a necessidade que tinha impelido aquele jovem. Serian
podia ser a sua outra metade, uma verso mais determinada, mais implacavelmente ambiciosa de si prprio. Embora no soubesse nada que indicasse que Serian tinha
sido cruel ao abandonar a sua famlia. Na verdade havia muito poucos factos sobre o seu passado. Mesmo nos vrios obiturios que tinha consultado, a histria de
Serian anterior  sua fama era vaga e contraditria, quase como se o verdadeiro nascimento tivesse sido a sua chegada a Nova Iorque. Ou at mais tarde. A data da
sua primeira exposio de obras de arte com sucesso.
O sucesso meterico de Serian no mundo da arte dos anos setenta tinha com certeza sido extraordinrio. As suas obras tinham de repente muita procura. A sociedade
de Nova Iorque estava aos seus ps. As mulheres afluam  sua cama.
A maior parte dos jovens teriam sido rapidamente seduzidos por tudo aquilo, mas Bram Serian no. Este homem grande e austero, descrito por um escritor como uma combinao
de um fora-da-lei como o Butch Cassidy com o bblico Moiss, conservava os seus modos rudes, evitava as televises e permanecia isolado, mantendo uma atitude de
independncia que o tornava admirado por uns e odiado por outros.
Owen gostava de ter conhecido Bram Serian. Sentia muito essa falta, como se Serian fosse um parente afastado que nunca tivesse conhecido, mas mesmo assim se sentisse
ligado a ele. Como podia um homem com tanta vitalidade e to dotado morrer to inutilmente e de uma forma to horrvel quando tinha apenas quarenta e seis anos de
idade?
Claro que no havia resposta para isso, e por esse motivo Owen prestou ateno ao que j conhecia. Exceptuando os altos e baixos da carreira do artista, havia dois
outros tpicos importantes nos artigos. O primeiro era a casa de Serian, a Arcdia.
Quando Serian chegou pela primeira vez a Nova Iorque, foi viver para umas guas-furtadas em Manhattan, que funcionavam tambm como local de trabalho. Depois de ter
obtido sucesso, manteve-se nas guas-furtadas onde continuou a passar algumas temporadas, mas comprou uma quinta no norte do estado, que passou a ser a sua casa
principal. Transformou o enorme celeiro da propriedade num estdio muito bem apetrechado, com espao para os seus diversos projectos em escultura, pintura e trabalho
em madeira. Este estdio era alvo de muita curiosidade, mas ningum era autorizado a entrar l a no ser o seu assistente.
Logo que o estdio ficou pronto, Serian comeou a renovar a decrpita estrutura que ameaava cair em runas. A obra evoluiu para um projecto complexo, e Serian comunicou
aos seus amigos que toda a casa se ia transformar numa obra de arte. Os anos passaram. Serian dedicava a maior parte do seu tempo e recursos  casa, vivendo nas
partes acabadas enquanto continuava a
construir as alas laterais. Os amigos eram destacados para trabalhar, e os artistas que vinham visit-lo eram encorajados a dar a sua contribuio com alguns retoques.
O resultado foi a Arcdia, a lendria obra-prima inacabada que um crtico considerou como a maior construo artstica do sculo e outro crtico descreveu-a como
a obsessiva residncia pessoal de Bram Serian.
Depois havia a mulher de Serian, claro. A Viva Negra dos cabealhos das publicaes sensacionalistas e o tema de muita especulao na imprensa durante os sete
meses que se seguiram  sua morte. Serian tinha trinta e trs anos, um ano mais velho do que Owen, quando se casou. Toda a gente tinha ficado chocada por ele ter
escolhido aquela rapariga para sua mulher. Parece que a noiva era completamente desconhecida para os amigos e companheiros, e ia continuar a ser uma desconhecida.
Mantinha-se isolada, reservada e misteriosa, uma combinao que gerava muitos rumores entre o grupo imaginativo de Serian. Havia insinuaes de que ela era a filha
secreta de um americano de alta patente e de uma mulher vietnamita da velha gerao, que ela tinha sido uma espiadurante a guerra e, ou corria perigo, ou era provavelmente
perigosa, que a sua fuga para os Estados Unidos tinha sido dramtica e violenta. Alguns diziam que ela tinha salvo a vida de Serian no Vietname e que ele se sentira
na obrigao de casar com ela. Subjacente a estes comentrios brejeiros de mexeriquice que saam na imprensa, encontrava-se um conjunto de factos reais. Lenore Serian
era amerasitica, filha de me asitica e de um soldado anglo-americano, e tinha vindo para os Estados Unidos sem nada.
Pelo que Owen tinha lido, o casamento no mudou em nada a vida de Bram Serian. Dava a impresso que Serian trabalhava na sua casa, produzia as suas obras de arte
e depois do casamento continuou a levar a mesma vida que anteriormente. Continuava a dividir o seu tempo entre Manhattan e a Arcdia e continuava a esquivar-se aos
meios de comunicao, nunca dando entrevistas, recusando-se a ser fotografado e cortando totalmente com todas as pessoas conhecidas que se atrevessem a mencionar
o seu nome na imprensa.
Por volta do fim dos anos oitenta, a carreira de Serian comeou a cair no esquecimento. Caiu no ridculo e depois numa obscuridade relativa, continuando no entanto
a atrair um grupo de seguidores dedicados. Depois, seis meses antes da sua morte, surgiram rumores de que Serian estava a preparar o seu regresso, e finalmente foi
anunciada uma exposio numa galeria que supostamente confirmaria o seu regresso. A exposio estava prevista para Setembro.
Serian trouxe alguns convidados para a Arcdia num fim de semana, para trabalhar na casa e fazer uma festa. Toda a gente se divertiu at altas horas de Sbado 
noite, que na verdade j era Domingo de manh.
s 4.25h. da manh de Domingo do dia sete de Agosto, a governanta de Serian telefonou para os bombeiros a comunicar que o estdio estava a arder. Os bombeiros voluntrios
lutaram contra o fogo mas o estdio ficou destrudo. Como se receava, o corpo de Bram Serian foi encontrado no meio dos escombros que ainda estavam a arder a fogo
lento. Inicialmente as autoridades consideraram que tinha sido um acidente, mas a autpsia revelou que o
crnio de Serian tinha sido esmagado antes de o incndio comear, provavelmente com um machado.
Lenore Serian foi acusada do assassnio do marido. Os meios de comunicao entraram num frenesim crescente e subitamente todos aqueles que alguma vez tinham tido
contacto com os Serians queriam contribuir com informaes sobre Lenore. Foi publicado todo o tipo de especulao sobre o seu passado. O agente artstico de longa
data de Serian acusou Lenore de ter inveja da carreira do artista. Os seus seguidores acusaram-na de tudo, desde o facto de ser simplesmente rude at ser uma autntica
psicopata.
Como se tudo isso no bastasse, a governanta de Serian andou a vender histrias para numerosas publicaes sensacionalistas e para um programa de televiso, afirmando
que Lenore tratava o marido com uma frieza cruel, ao mesmo tempo que seduzia os seus amigos para a prtica de estranhos rituais sexuais no meio da floresta. Na opinio
da governanta, Lenore tinha um poder misterioso, quase sobrenatural, sobre o marido, mas com o despontar de um novo impulso na sua carreira, ele estava a tentar
libertar-se dela.
Era este o buslis da questo na opinio da polcia. Lenore matou o marido para evitar ser desalojada banida da vida de Serian e da casa a que ela se tinha apegado
to obsessivamente durante treze anos. De acordo com fontes annimas, havia provas de que o homicdio no tinha sido um acto impulsivo, um crime de paixo, mas algo
que Lenore tinha planeado, vigiando o seu marido,  espera do momento certo.
Owen folheou o que restava do material e viu a primeira pgina de uma publicao sensacionalista. Com a excepo do nome do jornal e uma linha a anunciar VIVA NEGRA
CHEGA PARA O PROCESSO-CRIME, toda a primeira pgina estava preenchida com a fotografia da mulher. Tinha sido tirada quando saa de um carro, com o vestido puxado
para cima e as longas pernas com as meias esticadas. Embora a fotografia granulada a preto e branco fosse muito escura, era evidente a sua expresso assustada e
de desorientao.
Owen observou-a. Era muito atraente, muito extica. Mas havia algo muito intenso e irritante naquele rosto com um perfil elegante. Alguma coisa que fazia com que
qualquer acusao contra ela fosse credvel.
Em voz alta, o rapaz ao lado de Owen insistia, No quero s um copo. Da ltima vez deram-me a lata inteira. Owen deu uma olhadela e viu a hospedeira na coxia a servir
bebidas. O rapaz tinha auscultadores nos ouvidos ligados a um leitor de CDs porttil e no se apercebia da altura da sua prpria voz.
Com um sorriso forado, a hospedeira de voo entregou-lhe a lata e a seguir voltou-se para Owen. O senhor deseja tomar uma bebida?
Owen hesitou.
O rapaz gritou-lhe,  grtis, sabe, como se tivesse tomado Owen por um novato.
A hospedeira de voo rangeu os dentes. Owen disse-lhe que bastava um refrigerante e, com um olhar carregado, ela pousou com alguma violncia uma lata inteira no seu
tabuleiro e continuou a andar. Ficou surpreendido com a grosseria dela.
#O rapaz voltou-se para Owen e sorriu mostrando os dentes, como que a felicit-lo por aprender to depressa. Abriu a boca para falar e Owen estendeu as mos para
lhe tirar os auscultadores e evitar mais gritaria.
Temos que apanhar tudo o que pudermos, recomendou o rapaz, tomando um gole da sua bebida.
Quem te disse isso? perguntou Owen.
O rapaz encolheu os ombros. Ningum. Sou suficientemente esperto para ver sozinho como  que as coisas funcionam.
Owen observou o rapaz. Andas muitas vezes de avio?
Sempre que o meu pai decide querer ver-me. s vezes isso acontece com alguma frequncia. Voltou a ligar o leitor de CDs. Outras vezes d-me coisas.
Quando o avio comeou a descer sobre o espao areo de Nova Iorque, Owen encostou de novo a cabea  janela. Esperava ver toda a parte leste dos Estados Unidos
pavimentada e cheia de edifcios, mas em vez disso, s viu l em baixo terrenos agrcolas. No Kansas a pequena percentagem de terreno montanhoso era utilizada como
pastagem, mas aqui os agricultores tinham os seus montes cultivados a toda a volta, de modo que a diviso dos terrenos era feita com curvas e crculos. E o terreno
que estava por cultivar no tinha nada o aspecto de pastagem, mas era de um verde escuro aveludado que lhe dava a aparncia de floresta virgem.
O avio fez uma viragem, inclinando-se para o lado de dentro e ento viu gua. Seria o mar? Aquilo l em baixo seria o oceano? A nica pessoa disponvel era o rapaz,
mas ele no podia sujeitar-se a expor a sua ignorncia perante o chato do garoto de dez anos, por isso a pergunta continuou sem resposta. E pouco depois o avio
aterrou e ele foi apanhado de surpresa no frenesim da sada. Foi tirando do receptculo da bagagem os objectos dos outros passageiros e entregando-os s pessoas
e at transportou um carrinho para fora do avio, para uma senhora que estava com um beb.
Pegou na sua bagagem e saiu. Estava um dia agradvel, com uma temperatura de pelo menos dez graus centgrados e no se sentia a mnima brisa. No era nada parecido
com o ms de Fevereiro nos Flint Hills. Quando apanhou um txi, baixou parcialmente o vidro da janela e respirou o ar de Nova Iorque, enquanto o taxista entoava
suavemente uma cano numa lngua estrangeira.
Saram da zona do aeroporto e seguiram ao longo de uma extenso de areia e erva alta que lhe pareceu ser um pntano costeiro. O ar tinha uma feculncia forte e salgada
que soube instantaneamente ser o cheiro de terreno pantanoso, e sorriu para si prprio perante a novidade e estranheza de tudo aquilo.
Seguiram pela estrada sinuosa ao longo da costa. Atravessaram pontes mveis antigas com canais a passarem por baixo delas, serpenteando para um lado e para o outro.
Viu largos canais ladeados por grandes casas e docas particulares e uma flotilha de pesca constituda por barcos de luxo. Depois os
canais e o pntano deram lugar a uma extenso de gua a perder de vista de um lado da estrada e terra firme do outro. Surgiram bairros de casas do lado da terra,
com filas de casas antigas de tijolo, de dois andares. Nunca tinha visto tanto tijolo. E rvores grandes. Enormes rvores antigas debruadas sobre as ruas. Parques
enormes. Vislumbres de crianas a brincar. Na faixa da linha da costa, entre a estrada e a extenso de gua, havia pessoas a correr e a caminhar e a andar de bicicleta.
Depois fizeram uma curva e a extenso de gua estreitou-se ficando com a forma de um gargalo de garrafa entre pontos salientes de terra. Muito alto l em cima, transpondo
a gua de brilho prateado, estava uma ponte magnificamente longa e delicada. Talvez a ponte de Brooklyn? Mas no, uma placa na estrada identificava-a como a ponte
de Verrazano Narrows que ligava Brooklyn a Staten Island. Era uma vista to espectacular e ele nunca tinha ouvido falar dela.
Passaram por baixo da parte inferior da ponte e a estrada fez de novo uma curva e a passagem estreita alargou-se dando acesso ao Porto de Nova Iorque. E ele ficou
a olhar para o brilho ofuscante do sol, ficou a olhar para os barcos de pesca e para os barcos de transporte de pessoas e para as lanchas e para os enormes navios
e para a verdadeira Esttua da Liberdade e para mais pontes, e depois viu Manhattan. Surgiu da gua como uma miragem a cintilar  luz trmula da tarde, uma autntica
Cidade Esmeralda, em parte fico cientfica e em parte catedral, uma viso espantosa e etrea. E sentiu-se como um homem que estivesse a olhar para uma sala cheia
de gente e de repente tivesse visto a mulher mais linda do mundo.
Na altura em que chegou  agncia de Bernadette Goodson, sentia-se entorpecido pela sobrecarga de experincias sensoriais. Ficou ali de p no passeio, segurando
uma mala enorme numa mo e um saco na outra, ambos da Ellen, porque mais ningum na famlia tinha malas, e ficou a olhar para um e outro lado da rua. Toda a populao
de Cyril podia ser alojada s naquele quarteiro.
A rua era calma, quando comparada com as largas avenidas comerciais por onde tinha passado antes de chegar ali, e parecia ser principalmente residencial, se exceptuarmos
a placa de lato onde se lia AGNCIA LITERRIA DE BERNADETTE GOODSON. Os edifcios tinham quatro ou cinco andares e eram construdos com pedra castanha ou cinzenta.
Com enormes blocos de pedra, que tinham sido polidos e talhados e s vezes esculpidos com muitos motivos decorativos. Ficou admirado com as paredes comuns entre
as casas e a maneira como os degraus da frente davam directamente para o passeio, de tal modo que no havia ptios. Imaginou como seria estar rodeado de pessoas.
E perguntava-se como  que as rvores podiam crescer tanto e ser to verdejantes naqueles pequenos quadrados de terra no cho pavimentado.
Observou o edifcio de Bernie. Era castanho e tinha uma vedao decorativa de ferro at  altura da cintura a separ-lo do passeio. Os degraus eram largos e flanqueados
por esculturas de lees, e havia uma insero de vidro por
cima da pesada porta de madeira. Era uma porta imponente. E um edifcio grandioso.
Naquele preciso momento abriu-se a porta e um jovem de suspensrios vermelhos espreitou para fora e sorriu. O senhor  Owen Byrne? perguntou.
Sim.
O homem riu-se e gritou por cima do ombro l para dentro,  ele! Depois desceu as escadas a correr, abriu o pequeno porto preto de ferro e estendeu-lhe a mo. Sou
o Alex, disse ele. O assistente de Bernie. A mo que estendeu era plida e macia, quando comparada com a de Owen. Deixe que eu levo um desses volumes, insistiu ele,
e Owen deu-lhe o saco.
Quando iam a subir as escadas, Alex sorriu novamente. A recepcionista trabalha ali, junto quela janela saliente da parede... e veio dizer-nos que estava ali um
indivduo vestido  cowboy, e que estava h dez minutos a olhar para ela.
Nem sequer a vi, disse Owen com algum embarao.
Ningum consegue ver para dentro atravs daquelas cortinas, mas ela pensou que voc tivesse mau olhado. Alex riu-se. Seja como for, Bernie sups que era voc.
Pararam para fazer as apresentaes logo  entrada da porta, onde uma mulher bem constituda estava sentada ao computador. Ela apertou-lhe a mo embaraada e disse
ol num tom musical, antes de atender o enorme telefone com muitos botes. Owen nunca tinha apertado a mo a uma senhora. E nunca tinha tocado numa pessoa negra.
Sentiu-se desajeitado e pouco  vontade.
Alex conduziu-o atravs de uma sucesso de salas que comunicavam directamente umas com as outras, todas elas com madeira escura polida e tectos altos. Isto  uma
antiga manso de areia castanha avermelhada, disse ele. Bernie tem o primeiro andar e o resto do edifcio est dividido em apartamentos.
Entraram numa sala com janelas grandes e portas francesas que davam para um pequenino ptio decorado com hera. A mulher que se levantou para o cumprimentar tinha
um rosto em forma de corao, um sorriso cativante, emoldurado por covinhas e uma grande quantidade de delicadas braceletes a tilintar nos braos. Tambm era negra,
como a recepcionista, embora Owen ficasse surpreendido por aquilo ser uma descrio to despropositada. A sua pele era de um castanho luminoso e s o cabelo curto
e com um penteado perfeito era negro.
Ele acenou com a cabea,  espera de uma apresentao pelo Alex, mas em vez disso ela aproximou-se e estendeu-lhe a mo. Mais um aperto de mo de uma mulher. No
sabia com que firmeza devia apertar a mo. Mas ela no se ficou com o contacto com a mo. Puxou-o para ela e, com o brao livre deu-lhe um semi-abrao e beijou-o
levemente na cara.
Eu sabia que um dia havia de traz-lo para Nova Iorque, disse ela e, ao ouvir a voz dela, sentiu um abalo.
Bernie? A senhora  que  a Bernie?
Ela riu-se. E voc  o Owen. Finalmente conhecemo-nos.
Ele ficou ali de p, sentindo-se incrivelmente estpido e esperando no ter dito inadvertidamente algo que a ofendesse durante os anos em que comunicaram. Nunca
lhe tinha passado pela cabea que ela pudesse ser negra.
Est a passar por um choque de culturas? perguntou ela enquanto Alex pegava no pesado casaco de pele de ovelha de Owen e o pendurava num cabide de madeira com a
forma de uma rvore.
Sim, minha senhora, confessou ele. H muitas coisas que preciso de assimilar.
Ela sorriu com o seu sorriso maravilhoso e covinhas nas bochechas. Embora sempre me tenha sentido atrada pelo charme do seu pas, o minha senhora tem de ficar
fora. Faz-me sentir velha e como se fosse a rainha me.
Ele riu-se, sentindo-se um desastrado, mas satisfeito.
O julgamento s comea daqui a trs dias, portanto tem algum tempo para dar umas voltas pela cidade e para se orientar. Tenho um assunto a tratar aqui e por isso
no posso ir mostrar-lhe o seu apartamento, mas  fcil dar com ele. Pensei que talvez quisesse ir para l e desfazer as malas; depois passo por l e levo-o a jantar
por volta das sete horas.
Owen acenou com a cabea em sinal afirmativo.
O Alex vai dar-lhe as chaves e a direco.  em East Village, uma zona que ou vai adorar ou vai detestar. Contornou a enorme secretria para se dirigir a uma parede
cheia de prateleiras. As suas braceletes tilintaram levemente e os seus elaborados brincos oscilaram. Calculou que ela devia ter trinta e poucos anos, prxima da
idade da sua irm Ellen, e ficou admirado com este meio, onde era possvel uma mulher negra jovem e atraente ter tanto sucesso. Em Cyril isso nunca seria possvel.
Ali a combinao de feminino e negro seria uma carga demasiado pesada.
Fiz uma recolha de alguns artigos de jornais para si e uma quantidade de livros que achei que lhe podiam ser teis. Livros sobre crimes reais, sobre actuaes da
polcia e coisas do gnero.  uma boa quantidade. Espero que consiga levar tudo.
No h problema. Obrigado.
Onde tem a mquina de escrever? perguntou ela de repente, enquanto examinava minuciosamente a bagagem dele. Trouxe a mquina de escrever, no trouxe?
No... Eu...
No h problema. Fez um aceno com a sua mo comprida e delgada. Ultimamente mudmos para os computadores, por isso tenho uma mquina de escrever metida ali no armrio,
que voc pode usar. A no ser que viesse com a inteno de alugar um computador.
No. Uma mquina de escrever est bem.
Ouviu-se a voz da recepcionista no intercomunicador. Bernie...  Lafehr na linha dois.
Bernie inclinou-se para o seu telefone da era espacial, carregou num boto e disse, Eu atendo. Depois voltou-se para Owen. Penso que j est tudo resolvido, disse
ela. Agora deixo-o com o Alex e depois voltamos a ver-nos s sete.
,
Antes de Owen ter tempo de responder, j ela estava a levantar o receptor do telefone para atender a chamada.
Alex pegou na mquina de escrever e na caixa de livros e desceram juntos pelas escadas da frente. Eu vim para aqui de Indiana, confessou Alex. No do interior como
voc, mas de uma bonita pequena cidade. Lembro-me de como me sentia confuso nas primeiras semanas. Mas no se preocupe... Logo vai adaptar-se.
E em Indiana tambm havia mulheres como Bernie? perguntou Owen.
Alex soltou um riso abafado. Posso dizer-lhe que vai passar por algumas experincias de ficar de olhos arregalados, disse ele. Esta cidade est cheia de pessoas
interessantes.
Caminharam at  esquina, porque Alex disse que era mais fcil arranjar um txi nas avenidas com muito trnsito. Enquanto Alex tentava vislumbrar um txi que estivesse
livre no meio de todo aquele trnsito, Owen observava o trfego humano que passava por ele no passeio largo. Tanta gente atraente. Havia todo o tipo de cores de
pele. Todo o tipo de cores de cabelo. Todo o tipo de corpos. Todos a andar a passos largos, confiantes, por aquela rua citadina abaixo como se fossem os donos do
mundo.
Owen! chamou Alex da borda do passeio, onde estava a abrir a porta de um txi amarelo. Ajudou Owen a carregar as suas coisas e depois, quando Owen estava a entrar
para o banco traseiro, Alex entregou-lhe uma tira de papel com a direco do apartamento, sorrindo intencionalmente com ironia, com ar de quem sabe e disse, J no
est no Kansas.
O txi seguiu a grande velocidade e parou em frente de um edifcio antigo de apartamentos com seis andares. Owen ficou de olhos abertos. A East Village tinha-lhe
parecido encantadora, mas a realidade era um pouco diferente. No havia nada da alta burguesia que caracterizava o quarteiro de Bernie. Aqui um nmero diminuto
de rvores de aspecto macilento debatia-se por oferecer alguma folhagem e estava tudo coberto por uma pelcula de fuligem.
Os passeios estavam cheios de todo o tipo de pessoas que transbordavam para as ruas, e ele ficou sobressaltado ao ver um homem a dormir em cima de um pedao de carto,
mesmo  entrada do edifcio. Descarregou a sua mala, o saco, a mquina de escrever e a caixa de livros para o passeio e o txi partiu a toda a velocidade. Uma mulher
idosa que vinha a empurrar uma cadeira de rodas cheia de ces chihuahua de olhos salientes contornou a bagagem murmurando ao passar, Deus devia limpar toda esta
escria.
Desculpe, minha senhora, disse Owen, tirando as coisas da sua frente.
Voc no me apanha, respondeu ela. Os meus bebs so assassinos.
Owen ficou a olhar enquanto ela se afastava empurrando o carro de chihuahuas trmulos, e no pde deixar de sorrir. Havia ali uma estranha energia cintica, uma
energia divertida e necessria  vida, que era diferente de tudo o que j tinha conhecido.
Incapaz de transportar tudo de uma vez, deixou a mala ao fundo dos degraus enquanto subia com a mquina de escrever, os livros e o saco at  porta
de entrada. Teve o cuidado de os amontoar junto  parede, de modo a que ningum que fosse a sair do edifcio pudesse tropear neles.
Com licena, disse ele para o homem que estava deitado em cima do carto. O senhor sente-se bem?
Preciso de dormir! gritou o homem; depois abriu um olho, elevou-se do cho apoiando-se num cotovelo para examinar Owen e disse, No tem a um dlar?
Owen pediu desculpa por incomod-lo, tirou um dlar da carteira e a seguir desceu os degraus para ir buscar a mala. S que no estava l. Olhou para um lado e para
o outro da rua. As pessoas continuavam a passar como dantes, mas a mala tinha desaparecido.
No cimo das escadas o homem tinha-se sentado e estava a rir s gargalhadas.
Ento j perdeu a virgindade, disse Bernie quando ele lhe contou da mala.
Tinha vindo a busc-lo s sete horas e ele ainda no sabia que bastava carregar no boto elctrico para abrir a porta de entrada e por isso, quando ela tocou  campainha,
ele desceu a correr os cinco lances de escadas para ir abrir-lhe a porta.
E o que acha do apartamento? perguntou ela quando iam a caminho do restaurante.
Tinha pensado que viver num apartamento na cidade de Nova Iorque devia ser emocionante, sobretudo depois de o Alex lhe ter dito que era um estdio e de Bernie se
ter referido a ele como um pied--terre, mas depois verificou-se que a casa no era mais do que um quarto e uma casa de banho num edifcio sombrio, com um elevador
avariado. Era basicamente apenas um quadrado, mais pequeno do que a sua cabana no Kansas, com uma cozinha minscula a um canto, um estrado para dormir no outro canto,
um sof e uma cadeira que estavam voltados para a nica janela do quarto, uma casa de banho tambm pequenina e um armrio ainda mais pequeno.
O apartamento  mesmo o que eu preciso, disse ele em tom de reconhecimento. E o preo  bom.
Sim. Ela riu-se. E subir todas aquelas escadas vai contribuir para se manter em boa forma fsica enquanto aqui estiver.
Sem dvida. Ento onde vamos comer? Acha que estou com a roupa adequada? Esta  a nica roupa que tenho.
Apareceram novamente as covinhas. Meu caro, voc at podia usar as suas polainas de vaqueiro por cima de um fato de dana e mesmo assim ser bem aceite na East Village.
Levou-o para a Sexta Rua, onde s havia restaurantes indo-paquistaneses por todo o quarteiro. Estavam todos amontoados, uns a seguir aos outros, todos eles muito
pequeninos e servindo todos o mesmo tipo de comida.
A minha filha acha que devem ter uma enorme cozinha nas traseiras, em que se cozinha para todos os restaurantes, disse Bernie a rir enquanto o
#condzia para uma sala comprida e estreita, parecida com uma caverna, exceptuando o facto de estar cheia de luzes coloridas e espelhos e enfeitada com toda a espcie
de decoraes com fios prateados e papel crepe. Este aqui  o Rosa da ndia, anunciou Bernie. Definitivamente o meu preferido. Se estivermos com sorte, algum vai
fazer anos, o que aqui  um autntico espectculo.
Ela encomendou para os dois e imediatamente a comida comeou a chegar. Chamuas com recheio de batata e vegetais. Gro de bico picante em po entufado. Bananas fritas.
Fatias finas de po torrado com pimenta preta. Ela ia falando enquanto comiam, fazendo-lhe perguntas sobre a viagem e sugerindo-lhe lugares onde podia comprar roupa
barata para substituir as peas roubadas. Depois ficou calada. Absorta em pensamentos.
O Alex parece ser um bom assistente, disse Owen, numa tentativa de quebrar o silncio.
Oh, sim,  bastante competente. Com capacidade para tomar a iniciativa, diria eu... s que tem tantos problemas familiares que duvido que consiga recompor-se nos
prximos tempos.
Oh, disse Owen, sentindo-se imediatamente desconfortvel com a referncia a tudo o que fosse rotulado de problemas familiares.
Bernie deu um suspiro. Ele tem uma daquelas relaes tempestuosas, ora tudo bem, ora tudo mal. Muito tempestuosas. E destrutivas, se quer que lhe diga. Mas o facto
 que todos ns j passmos por uma dessas situaes em algum momento das nossas vidas, no  verdade? disse ela, sorrindo pesarosamente.
Owen concentrou-se na chegada do frango tandori. No, ele nunca tinha tido nenhuma relao daquele gnero. A verdade era que ele s tinha tido uma verdadeira namorada
antes da Mike. Uma rapariga no ano em que era caloiro na universidade. Entretanto tinha havido outras mulheres, mas nenhuma delas tinha sido importante nem durado
muito tempo.
Ento, disse Bernie, voc ainda  solteiro, no ? Ele fez um aceno com a cabea em sinal afirmativo.
E no tem ningum significativo na sua vida?
Ningum qu?
Uma namorada, uma companheira, seja l o que for.
Ele hesitou. Era to agradvel ter este tipo de conversa como ir ao dentista, mas sentiu-se na obrigao de ser amvel com a Bernie e sobretudo no queria ofend-la.
H uma pessoa com que tenho intimidade, disse ele. Uma pessoa que  minha vizinha, Mike Wheeler.
Ah... Mike, hein? Eu nunca teria imaginado tal coisa.
Ele encolheu os ombros. Na verdade o nome dela  Michelle, mas a famlia sempre a tratou por Mike.
Bernie tapou a cara com a mo e riu-se tanto que os seus ombros at estremeceram.
O que foi? O que  que eu disse para ter tanta graa?
Ela abanou a cabea. Gostava que a minha filha estivesse aqui na cidade. Ela ia gostar de si.
E onde est ela?
Est a ter aulas. Na Universidade de Boston.
Voc ainda no tem idade para ter uma filha na universidade.
Oh, isso  que tenho. Tenho quarenta e alguns anos. Casada durante trs desses anos e divorciada h vinte, e me de uma linda filha de vinte anos.
No!
Ela debruou-se sobre a mesa na direco dele, com as divertidas covinhas a aparecer no rosto e braceletes de prata a tilintar. Sim. Depois respirou fundo, sorriu
e abanou a cabea. Mudando de conversa e falando de assuntos mais srios... Voc tem de estar no escritrio da editora amanh de manh s dez horas. O acordo relativo
ao dinheiro para despesas dever ser assinado por si, e depois vai falar-lhe sobre o que pretende DeMille e como deve comear a elaborar a sua proposta de trabalho.
Ele pousou o garfo, sem vontade de continuar a comer.
No fique nervoso. Arlene est disposta a ajud-lo. Ele fez um aceno com a cabea.
Alguma dvida?
Provavelmente. Mas agora no consigo pensar em nada.
Telefone-me sempre que quiser. Ou telefone ao Alex. Ele transmitiu-me a sua disponibilidade para lhe prestar toda a ajuda que puder e escreveu para si um pequeno
guia de sobrevivncia do escritor. Bernie estendeu-lhe vrias folhas de papel densamente dactilografadas. Conselhos teis sobre como utilizar o autocarro e o metropolitano.
Direces de boas livrarias. Localizao de bibliotecas secundrias e instrues sobre o regulamento da biblioteca central de pesquisa. Onde comprar papel barato
para mquinas de escrever. Ele riu-se. Eu disse-lhe que ele deve ter um talento por descobrir, para escrever guias tursticos.
Owen pegou nas folhas. Diga-lhe que lhe fico muito agradecido, disse ele. Fico-lhe agradecido por tudo e...
Eu sei. S espero que tudo lhe corra da melhor maneira.  que ainda tenho algumas reservas sobre este seu compromisso em aceitar este trabalho.
Owen encolheu os ombros e esboou um sorriso. O pior que me pode acontecer  eu no conseguir.
Naquela noite Owen ficou deitado naquele quarto estranho a ouvir os rudos que vinham da rua, quando estava habituado a ouvir apenas o vento. Gostaria de ter a Mike
ali na cama consigo, como na noite anterior.
Ela tinha ido  antiga casa dos trabalhadores depois da meia noite. Ele estava sentado em frente do fogo bojudo a olhar para as chamas, entusiasmado e desassossegado,
cheio de inquietao. A pensar na sua partida. Entusiasmado com a sua partida. Mas preocupado pelo facto de se ir embora. Ser que Rusty Campbell ia tomar bem conta
do rancho? Quem ia evitar as discusses entre a Meggie e a Ellen? Quem ia fazer de motorista de Clancy nos dias em que a sua perna o incomodasse? E a Mike? A quem
ia ela telefonar quando precisasse de ajuda?
De repente ouviu bater  porta e foi abri-la. Era a Mike, a sorrir com alguma hesitao, trazendo uma caixa de bolinhos quentes e usando o seu melhor vestido por
baixo do casaco. Ele tinha estado  espera que ela aparecesse, mas sabia como s vezes era difcil ela escapar-se de casa.
Surpresa. Trouxe-te bolinhos para a viagem de amanh.
Obrigado, disse ele. O rosto dela estava obscurecido com a luz da lanterna, mas ele sabia que ela estava nervosa.
Ests com bom aspecto, disse-lhe ele enquanto lhe pendurava o casaco. H meses que no te vejo com um vestido de cerimnia.
Ela afastou-se dele e envolveu-se com os prprios braos como se estivesse com frio. Podes atiar o lume?
Com certeza.
Ele agachou-se em frente do velho fogo para mexer as brasas e pr mais lenha. Depois levantou-se e voltou-se para ela. Estava nua. Ali de p, com o vestido cado
aos ps e os braos cruzados sobre os seios, como uma relutante deusa Viking.
Adoro surpresas, disse-ele, e ela sorriu timidamente.
Em quase dois anos de intimidade, Mike sempre fizera questo de se esconder debaixo dos cobertores antes de se despir, e esta nova ousadia era uma surpresa.
Farei tudo o que tu quiseres, anunciou ela com determinao.
Ele aproximou-se dela e acariciou-lhe a linha dos ombros. Tudo? gracejou ele. O que  isto, um presente de despedida?
Estou a falar a srio, Owen. Tudo o que tu quiseres. Basta dizeres e eu fao.
Mike... Ele levantou a cabea e tentou for-la a olh-lo nos olhos, mas ela atirou-se a ele num abrao muito intenso, escondendo a cabea no seu peito.
Quero casar-me, disse ela. No quero esperar mais tempo.
Est bem. Ele acariciou-lhe o cabelo fino e macio. Como vamos conseguir fazer os preparativos?
No sei. No quero saber. S quero casar-me amanh de manh, antes de partires para Nova Iorque.
Owen apoiou o queixo na cabea dela. Mike...
Estou a falar a srio. Tenho o vestido apropriado e a minha certido de nascimento e quero ficar aqui contigo at de manh, para podermos ir no carro a algum stio
e casarmos.
Mike, isso no  possvel. Para comear, no temos nenhuma licena de casamento e isso no  uma coisa que se consiga obter dum momento para o outro.
Um frmito de soluo silencioso sacudiu o corpo dela, e ele apertou-a com fora, procurando proteg-la e aliviar a sua dor, mas sem saber como.
Gostava muito que pudesses vir comigo, disse ele.
Ela afastou-se e ficou a olhar para ele, mostrando a sua incredulidade atravs das lgrimas. Para Nova Iorque? No h maneira de eu poder ir para Nova Iorque.
A afirmao incomodou-o mas manteve-se em silncio. Ela franziu as sobrancelhas. Tu tambm no irias se no tivesses de ir, no  verdade?
Eu nunca deixaria passar a oportunidade de ir, se  isso que queres saber. Sempre quis ir ver Nova Iorque. Do mesmo modo que queria ir a S. Francisco e Los Angeles
e Paris e Roma e muitos outros lugares.
Ests a deixar levar-te pela imaginao, Owen. Tens a ideia de que todos esses lugares distantes so maravilhosos, quando a verdade  que so sujos e cheios de gente,
e cheios de estrangeiros e de vidas deprimidas. Acredita em mim, quando deixei Kansas City s pensava que era uma libertao!
A lenha estalou no fogo e uma rajada de vento fez tremer a janela. Owen ficou a olhar para a mala que estava ao lado da porta. Sabia como ela receava pela sua partida.
Ela soltou um suspiro. Ambos precisamos de dormir, parece-me.
Sim, concordou ele. Acho que sim.
Quer dizer que no queres fazer amor comigo? perguntou ela com um sorriso tmido mas reservado.
Ele pegou-a nos braos, tropeou e acabou por cair com ela em cima da cama. A rir, ela enfiou-se para baixo dos cobertores e tudo voltou ao habitual.
Ele deslizou para baixo dos cobertores com ela e com as mos percorreu os contornos do seu corpo. Pressionou o pnis erecto contra as coxas e a barriga dela. Ela
estava mais agressiva do que era costume, tocando com as mos no pnis e conduzindo-o cegamente para ela, com os olhos firmemente fechados. Ele entrou nela devagar,
com todo o cuidado, observando-a  procura de algum sinal de desagrado, querendo, como sempre queria, ter a certeza de que ela estava a sentir prazer no acto.
Ele queria prolong-lo, mas ela sabia exactamente onde toc-lo e como mexer-se de modo que o seu controlo foi suprimido e ele no pde evitar atingir o clmax. Quando
terminou, ela enroscou-se nos seus braos e ele perguntou-lhe, como sempre, Foi bom? Vieste-te? e como sempre, ela disse, Sim. Claro. Mas ele nunca acreditou muito
nela.
Amo-te, disse ele. Hei-de telefonar-te todas as noites.
No te atrevas! Isso ia custar uma fortuna. No me telefones nunca. Basta escreveres-me cartas. s escritor... portanto escreve.
Mas assim vou sentir saudades da tua voz.
Ela encostou a cara ao peito dele. Vou ficar a dormir aqui toda a noite, disse ela em tom de provocao. No quero saber do que as pessoas possam dizer. E amanh
de manh fao-te a mala e...
Eu j fiz a mala.
Oh! Bem... Ento vou para casa de manh e arranjo-te um saco trmico de comida para levares. Salada de batata e couve-flor e...
Mike, Mike... Eles do comida no avio e penso que tambm tm comida em Nova Iorque.
Mas no  comida boa, parece-me. Nada que se parea com a comida daqui de casa.
No, concordou ele. No  como a de casa.
Owen tinha dito aquilo mais para lhe agradar, nunca imaginando que ia passar a sua primeira noite a comer comida estranha e maravilhosa num pequeno restaurante estrangeiro,
enquanto discutia relaes com uma mulher encantadora e inteligente de pele escura.
No era como em casa. L isso era verdade, sem dvida.
Na manh seguinte foi para o seu encontro nas Publicaes DeMille & Sons. Arlene Blunt, a editora mais antiga que tinha tanto poder sobre o seu trabalho, era afinal
uma mulher pequenina que podia passar por uma adolescente. Tinha cabelo castanho encaracolado, que lhe brotava da cabea como se fosse arame enrolado em espiral,
e pele de cor plida sem uso de cosmticos. Uma das suas orelhas estava perfurada com trs brincos e a outra com dois. O seu aperto de mo era forte.
Ela conduziu-o numa breve visita pelo seu andar, explicando que este era editorial e que DeMille tinha outros andares no edifcio para vendas e arte e relaes comerciais.
Depois levou-o para o seu escritrio e, sem mais preliminares, disse-lhe, A sua proposta de trabalho tem de ser muito, muito boa, se no pode dizer adeus a toda
esta ideia. J alguma vez escreveu um plano de trabalho?
No tinha.
Ento deu incio a um curso rpido sobre como escrever propostas de trabalho. Introduziu-o na mecnica do seu funcionamento e depois explicou-lhe que precisava de
escrever dois captulos para amostra e um resumo geral do livro, escritos de modo que at os mais cpticos dos seus chefes ficassem de gua na boca perante o seu
potencial comercial. Depois de terminada a lio, ela inclinou-se para trs na sua cadeira e fez girar um lpis nas suas mos para a frente e para trs.
O que acha deste caso at agora? perguntou ela.
Owen concentrou-se por alguns momentos. Sabia que a pergunta era um teste, por isso ps de lado a sua reticncia natural.
Bram Serian levou para casa esta mulher, uma refugiada da guerra, e tentou compens-la pelos males do passado, disse ele, mas era impossvel. Ela tinha sofrido muito,
e a relao entre eles estava desde o princpio condenada ao fracasso.
Ele lutou com ela durante treze anos, procurando ajud-la a ultrapassar os seus problemas, mesmo quando a sua carreira estava a afundar-se e os seus prprios alicerces
estavam abalados. E depois verificou que no podia continuar com o casamento.
Owen fez novamente uma pausa para pensar.
Talvez ela estivesse a arrast-lo para o insucesso e a contribuir para a destruio da sua carreira. Talvez ele se tivesse interessado por outra pessoa. Talvez ele
quisesse simplesmente libertar-se dela. Qualquer coisa... e comeou a falar em divorciar-se.
Para Lenore Serian... uma mulher intranquila e perturbada, cuja vida inteira girava  volta do marido e da casa... a ideia de divrcio deve ter-lhe
parecido aterradora. No tinha amigos. Nem parentes. E nenhuma outra existncia para alm dos limites da Arcdia.
Mat-lo foi provavelmente um acto de desespero para ela. Quase um acto de autodefesa. Estava a tentar ripostar e a agarrar-se ao nico lar e ao nico mundo que tinha
deixado.
Ummmm. Arlene passou distraidamente o lpis pelo cabelo, fazendo-o sobressair de forma ainda mais desordenada. Gosto disso. Gosto muito. Vai ter de o alterar  medida
que se desenrolar o julgamento, mas  um comeo bastante bom. Sentou-se na sua cadeira em frente e sorriu. Voc podia de facto ser bom nisto, Byrne.
Ele devolveu-lhe o sorriso sentindo um intenso alvio.
Ela apertou-lhe de novo a mo, depois acompanhou-o at ao elevador. Quando saiu do edifcio para o passeio cheio de gente, apercebeu-se de repente de que no passava
de um rapaz do campo no meio de uma cidade monstra, que tinha acabado de escrever o seu nome numa linha penteada de um contrato de publicao, e que no sabia o
que diabo estava a fazer. Mas estava to entusiasmado que parecia que tinha de novo dezoito anos.
#3
Owen no utilizou os seus trs dias para fazer uma visita  cidade. Debruou-se atentamente sobre os livros que Bernie lhe tinha disponibilizado, dissecando-os num
esforo determinado de ficar a saber o que fazia com que uma histria de crime real tivesse sucesso. E deixou-se absorver pelo material que dizia respeito ao caso
de Serian, lendo e relendo os recortes de jornais e artigos de revistas at saber de cor algumas passagens. Foram raras as vezes que se permitiu satisfazer os seus
desejos. Fez uma visita  Catedral de S. Patrcio em memria da sua me. Deu alguns passeios pela East Village sempre repleta de gente. Entrou em algumas livrarias.
Saboreou comida chinesa e polaca e rabe em restaurantes baratos. E, por necessidade, reabasteceu o seu guarda-roupa.
Depois de comprar a roupa, voltou para o apartamento e vestiu uma camisa nova. Depois abriu a porta do armrio para se ver ao espelho, coisa que raramente fazia
quando estava em casa, pois no havia espelhos na antiga casa dos trabalhadores, para alm de normalmente no se preocupar com a sua aparncia. Mas quando se confrontou
com a sua imagem reflectida, esqueceu-se da camisa e concentrou o seu olhar apenas no rosto que estava  sua frente.
Na mente trazia uma imagem de si prprio como sendo muito parecido com o pai, mas ao ver a sua imagem reflectida naquele espelho estranho, naquela estranha cidade
e naquele estranho momento decisivo da sua vida, no conseguiu encontrar quaisquer traos de Clancy Byrne. Mesmo o cabelo castanho escuro e os olhos azuis j no
tinham importncia, agora que o cabelo e os olhos do pai j tinham perdido a cor, devido  sua idade.
Tambm no conseguia encontrar semelhanas com o seu falecido irmo naquele rosto. Nem com nenhum outro Byrne. De alguma maneira, aquele rosto tinha-se tornado o
seu prprio rosto.
Na Tera-Feira de manh, Owen saiu para a sesso de abertura do julgamento do homicdio de Serian. Antecipao e medo acompanhavam-no em igual medida.
Equipado com mapas e horrios de comboio e os conselhos do Alex, apanhou um autocarro para a parte alta da cidade, para a Rua 42. Dirigiu-se para
a Grand Central Station, um nome que lhe era familiar do tempo da sua infncia, de quando a me gritava, Isto aqui no  a Grand Central Station! sempre que os filhos
andavam a correr pela sala de estar. Esperava encontrar uma estao de caminho de ferro movimentada e barulhenta, semelhante aos terminais das linhas areas por
onde tinha passado quando chegou a Nova Iorque mas, ao v-la pela primeira vez, parou no meio do caminho e ficou a olhar, esquecendo-se do movimento das pessoas
que passavam por ele no passeio. A artstica fachada exterior, embora com algumas fissuras, era to slida e intemporal que lhe fazia lembrar as imagens do Partenon
em Atenas ou do Coliseu em Roma.
Retomou o objectivo da sua viagem e entrou no edifcio, juntando-se ao movimento das pessoas que se precipitavam para as portas do lado sudoeste. Foi arrastado por
vrios corredores desinteressantes, depois para o meio de um espao onde havia uma enorme multido crescente, que o maravilhou tanto como o exterior. L no alto,
por cima do extenso espao amplo, havia um tecto espantoso em forma de abbada, onde se viam as constelaes do cu nocturno. Inclinou a cabea para trs e ficou
ali a olhar para cima descaradamente, de boca aberta. E concluiu que este devia ser um monumento de um sonhador. Este edifcio era mais do que o somatrio de arquitectura,
dinheiro e poltica, era um tributo  civilizao. Uma viso digna de respeito. Um milagre.
F-lo desejar fazer construes. E perguntou-se se Bram Serian no teria sentido algo semelhante quando comeou a construir a Arcdia.
Depois de comprar um bilhete para o comboio que fazia ligao para o norte, foi  procura do seu cais de embarque. No caminho passou por uma padaria e ps-se na
fila para comprar um po fresco com queijo e uma chvena grande de caf para levar consigo.
 hora da partida do comboio da manh, havia muito mais passageiros a chegar para irem para o trabalho em Manhattan do que a partir, e ficou com uma seco inteira
de uma carruagem s para si. Instalou-se num lugar com espao para poder esticar as pernas e tirou o pequeno almoo do saco. O prazer que sentiu era to elementar
que quase parecia infantil. Uma viagem num comboio verdadeiro. O cheiro a caf bom. Um assento confortvel. Sorriu para si prprio enquanto desembrulhava o po.
As portas fecharam-se e o comboio comeou a mover-se lentamente pelo interior escuro da Grand Central. A escurido continuou e ele ps-se a olhar para o escuro,
captando de vez em quando um vislumbre de movimento de sombras. Perguntou-se se haveria pessoas nos tneis ou se seria apenas uma iluso provocada pela escurido.
Depois, o comboio saiu de repente para a luz do sol e ganhou velocidade, oscilando suavemente num ritmo ruidoso e calmo.
Tentou visualizar o trajecto da viagem, lembrando-se que Alex lhe tinha dito para imaginar o estado de Nova Iorque em forma de funil, com Manhattan l ao fundo na
parte mais estreita. Estavam na direco do gargalo do funil, ao longo do rio Hudson.
Com a ajuda dos mapas e de um condutor conversador, identificou Harlem, por onde passaram a grande velocidade, depois foi observando 
medida que viajavam atravs dos subrbios dinmicos cheios de gente a ir para o trabalho, atravs da faixa exterior de propriedades exuberantes e quintas com cavalos
e finalmente entraram na zona rural. A zona rural de Serian. Uma terra de montes ondulados e densas florestas intervaladas por uma ou outra quinta de produo de
leite e um ou outro pomar de macieiras. Alex tinha descrito aquela zona como luxuriante e pitoresca, mas naquele dia de Fevereiro o ar estava enevoado, viam-se manchas
de neve nas vertentes dos montes que se derretia por entre pedregulhos desordenados e rvores de ramos despidos perfuravam a neblina como dedos deformados de bruxas.
Num estado de ansiedade, com medo de perder a sua paragem, Owen pegou no saco de viagem, que agora fazia de carteira, e j estava  porta  espera quando o condutor
anunciou Stoatsberg.
Na pequenina estao de comboios Vitoriana, Owen perguntou  nica pessoa que ali se encontrava qual era a direco para o tribunal. O homem chupou os dentes, olhou
para Owen e disse, Vai ao julgamento, ? Se quer que lhe diga, aquilo  tudo um desperdcio de dinheiro dos nossos impostos. Aquela mulher  to culpada como o prprio
pecado e  um crime que ns, cidados, tenhamos de suportar as despesas de algum advogado bem falante para a safar da condenao.
Owen foi apanhado de surpresa pela m disposio do homem. Provavelmente aquela mulher tambm pagou muitos impostos ao longo dos anos, realou ele.
O tipo olhou para ele com ar irritado e furibundo e a seguir fez um movimento com a cabea numa determinada direco. Siga em frente por essa rua e logo d com ele.
Owen virou a gola do casaco para cima e saiu para a rua sem movimento. Em Stoatsberg estavam vrios graus de temperatura mais baixo do que em Manhattan. O passeio
estava cheio de lama de saibro e o nico som que se ouvia era o correr da gua fria que saa das caleiras. Passou por um depsito de madeiras deserto e um bar fechado,
a seguir viu-se rodeado de casas velhas, algumas delas bem cuidadas, voltadas para os passeios rachados, com pequenos ptios rectangulares cheios de peas de carros
e brinquedos cobertos de neve. No havia movimento nas ruas, nem humano, nem de qualquer outra espcie.
Quarteiro aps quarteiro era tudo a mesma coisa, e ele pensou como o inverno era com frequncia pouco atractivo nas pequenas cidades. Em Cyril o tempo muito frio
fazia com que as pessoas ficassem em casa e reduzia o espectro das cores a cinzentos escuros e brancos, alguns pretos e castanhos. Mas aqui a temperatura era to
baixa e a frialdade era to penetrante que ele duvidava que uma mudana de estao pudesse ajudar. Era difcil acreditar que um artista tivesse optado por viver
perto de um lugar daqueles.
Prximo do tribunal sombrio e coroado com uma cpula, tinham deitado sal nas passagens de pees e estas tinham sido limpas. O parqueamento  beira do passeio estava
cheio e as pessoas apressavam-se a atravessar a praa do tribunal, dirigindo-se para um dos edifcios baixos de escritrios de tijolo que flanqueavam a praa ou
para os largos degraus de granito do tribunal. De um
dos lados encontrava-se estacionada uma carrinha bem apetrechada, com logotipos de televiso nas portas.
Subiu os degraus e entrou no tribunal.  entrada havia um trio espaoso em mrmore. O cho era em mrmore castanho, os ornamentos das cornijas e lintis em mrmore
cinzento, as colunas em mrmore branco. Macio, slido, intemporal, mas com o inevitvel barulho das mquinas automticas de venda e tabuletas de plstico barato.
Um posto temporrio de segurana controlava o acesso  larga escadaria central e ao pequeno elevador posteriormente instalado. Juntou-se  fila de pessoas que esvaziavam
os bolsos e abriam os sacos e pastas para serem inspeccionados.
A agente policial que apalpou o saco de Owen tinha uma expresso de aborrecimento. O senhor traz aqui um gravador, disse ela, sem sequer levantar os olhos para a
sua cara.
Sim. Estou a fazer investigao para escrever um livro e...
No quero saber do que o senhor anda a fazer, meu caro. Por mim no passam gravadores nem mquinas fotogrficas. Vocs julgam que podem vir para aqui e passar com
tudo o que querem, no  verdade?
Desculpe. No sabia...
Ela fez um movimento brusco com o polegar para a direita. Diga isso ao sargento.
O sargento tambm no lhe prestou ateno. Tirou o gravador e escreveu um recibo a Owen sem sequer confirmar a sua presena. O incidente deu resposta a uma das dvidas
de Owen sobre julgamentos. No era permitido fazer gravaes.
A sala nmero 6, que era a sala de audincias do Juiz Martin J. Pulaski, no foi difcil de encontrar. Era a que estava cheia de gente. Havia trs oficiais de diligncias
que estavam de sentinela, de braos cruzados e rostos srios, enquanto observavam a avalanche de pessoas. Tinha sido colocado um dispositivo de cordas de belbutina
e postes de metal cromado para manter a ordem, mas mesmo assim havia alguma confuso. Owen dirigiu-se para o que parecia ser o fim da fila. A mulher que estava 
sua frente fez-lhe sinal com os olhos. O seu cabelo parecia algodo de acar e tinha seios abundantes por baixo de uma camisola decorada com ursinhos infantis a
danar.
 esta a fila para o julgamento de Serian? perguntou Owen.
Precisamente, assegurou-lhe ela; depois, apontando com a mo para um letreiro na parede, disse, Era melhor o senhor tirar o casaco.
Ele leu o letreiro escrito  mo PROIBIDO TRAZER COMIDA, BEBIDAS E ANIMAIS DE ESTIMAO. PROIBIDO FUMAR, MASCAR PASTILHAS ELSTICAS E CUSPIR. TIRAR TODOS OS CASACOS
E CHAPUS ANTES DE ENTRAR despiu o casaco e agradeceu-lhe.
Estou  espera da minha irm, disse ela. Se ela no chegar depressa, parece-me que vou ter de tentar guardar-lhe um lugar l dentro.
Ele esboou um sorriso por delicadeza.
O senhor no acha horrvel estarmos c to atrs? Provavelmente vamos ter de nos sentar nas empenas. Esto ali umas raparigas que conheo mesmo  frente da fila...
est a ver aquele grupo em que esto todas a fazer
croch? Mas no vejo maneira de lhes pedir para dar um golpe. So todas muito senhoras de si. De qualquer modo ficamos a saber que amanh temos de vir mais cedo,
no  verdade?
Com certeza. Tirou do bolso um bloco de apontamentos e comeou a tomar nota de tudo o que lhe vinha  mente, esperando parecer to absorvido e ocupado que ela se
sentisse desencorajada.
Pelo contrrio, aquilo provocou nela ainda mais excitao. O senhor  dos jornais?
No.
Ento para que  tudo isso? Aproximou-se dele, numa tentativa de conseguir ler as suas notas.
Ele fechou o bloco de notas.  investigao, disse ele, tentando manter alguma indefinio.
Est a brincar! O que  o senhor, escritor ou coisa parecida?
Coisa parecida.
Eu sou a Phyllis. E o senhor como se chama?
Owen Byrne.
Ela franziu a cara por momentos a pensar, depois disse, Nunca ouvi falar de si. No entanto no me surpreende que esteja aqui. Ela  o tipo de pessoa que pode fazer
uma boa histria.
Ela?
Phyllis franziu as sobrancelhas e revirou os olhos. Sabe... baixou a voz, a Viva Negra... Lenore Serian. Olhou desconfiada  sua volta, depois baixou mais um pouco
o tom de voz. O meu filho Tommy  uma das testemunhas. Trabalhou muito naquela casa e viu-a a queimar coisas e a fazer feitios.
A fazer feitios?
Feitios de bruxas e coisas voodoo. Ou como lhe chamam l na terra donde ela veio.
Owen tentou manter uma expresso neutra.
Devia entrevistar o meu filho. As coisas que ele lhe podia contar... Os seus traos fisionmicos alteraram-se subitamente de alegria. Olhe! Ali est Spencer Brown.
Eu j sabia que ia ser ele quem ia participar neste julgamento. Aquele velho catavento do Ministrio Pblico est apavorado por ter de enfrentar um advogado de defesa
famoso e por isso fez-se substituir por Spencer Brown.
Spencer Brown, primeiro assistente do gabinete do Ministrio Pblico, atravessou o trio a passos largos, com ar confiante e calmo. Devia ter trinta e poucos anos,
cabelo ruivo, corpo de jogador de futebol  defesa e cara de menino de coro.
Agarra-os, Spence! algum gritou, e Brown fez uma saudao de vitria antes de desaparecer pelas portas duplas que davam acesso  sala de audincias.
A multido aplaudiu.
Seguindo atrs de Brown, ia um homem atarracado, de cabelo escuro, empurrando nervosamente um carrinho de metal cheio de caixas. GABINETE DO
#MINISTRIO PBLICO, lia-se numa chapa fina de metal que estava no lado de trs.
Aquele deve ser Dapolito, disse Phyllis. Ele no  realmente um dos nossos. Ouvi algum dizer que foi criado em Brooklyn.
De um e de outro lado da fila ouviam-se as pessoas a queixarem-se umas s outras pelo facto de a imprensa ser autorizada a ficar  frente dos espectadores, mas a
resmunguice de descontentamento era pouco animada. A sua ateno estava concentrada no trio da entrada.  espera que os outros actores subissem ao palco.
Apareceu um jovem negro impecavelmente vestido, empurrando um carro porta-bagagem de duas rodas com caixas enormes de pele do processo, seguras com correias. Um
dos oficiais de diligncias abriu-lhe a porta.
Este s pode ser do lado dela, disse a Phyllis. O gabinete do nosso Ministrio Pblico no tem pessoas negras a trabalhar para eles.
Reparei que isto aqui era muito descolorido, disse Owen, mas o seu sarcasmo discreto foi direitinho a ela. Era penoso para ele acreditar que tivesse viajado de to
longe e que estivesse to perto de Manhattan, para afinal vir a parar a uma cidade pequena e triste, cheia de atitudes to mesquinhas como aquelas em que tinha crescido.
Passaram vrios minutos. A tenso foi aumentando ao longo da fila. Depois, ao virar da esquina surgiu um indivduo de ombros cados e um pouco desgrenhado, com o
cabelo bastante raro e uma expresso calma e bem disposta. Aquele  Rossner! murmurou algum, e Owen fez uma dupla tentativa. Este era Charles Rossner? O advogado
barracuda de defesa?
A chegada de Rossner deu origem a uma agitao de sussurros seguidos de silncio. Lenore Serian tinha de vir a seguir. As caras dos espectadores brilharam de excitao
predadora.
Foi rpido quando aconteceu. Ela surgiu ao virar da esquina, ladeada por dois homens de aspecto robusto que a conduziram pelo meio da multido. O seu cabelo escuro
estava firmemente enrolado atrs da cabea e trazia um simples vestido castanho. Na fotografia do jornal ela tinha aparecido como uma ameaa glacial, com a aura
de uma mulher insensvel, com experincia do mundo e da sociedade, mas agora no parecia nada disso. O seu rosto era mais afvel e com um aspecto muito mais jovem
do que tinha aparecido na fotografia dos jornais. No se notava qualquer maquilhagem. No trazia jias. No usava vesturio sensual. No se notava nenhum brilho
feroz ou malicioso. Lenore Serian no era de modo algum a mulher perversa e ameaadora por que a multido esperava to avidamente.
Ela passou por Owen, to prxima por instantes que ele podia ter estendido o brao e tocar-lhe, e a realidade da sua presena atingiu-o com a fora de um soco. Lenore
Serian no era apenas uma personalidade forjada para divertir o pblico ou uma personagem inventada para o seu livro. Era um ser humano real. To real como ele.
Uma pessoa em carne e osso, que podia ser um monstro impiedoso, ou uma mulher inocente, a passar por uma terrvel provao. Em ambos os casos a realidade era deprimente.
Depois ela desapareceu, engolida pelas pesadas portas que davam acesso
 sala de audincias nmero 6. Houve um alvio colectivo da respirao e uma troca de olhares de conivncia de um e de outro lado da fila. A culpa de Lenore Serian
estava ali a pairar, implicitamente combinada por tcitos desconhecidos.
Ela vai ter aqui o que merece, proclamou Phyllis com ar de satisfao. No vai haver coraes a sangrar entre os nossos jurados.
Queria escapar-se de Phyllis, mas no podia sair dali, a no ser que desistisse do seu lugar na fila.
As portas abriram-se de repente e um oficial de diligncias gritou, Por favor, entrem ordeiramente! A precipitao que se seguiu levou-o para a frente e empurrou-o
para dentro de um dos bancos fixos de madeira, semelhantes aos de uma igreja, acabando por ficar ao lado de Phyllis. Um oficial ordenou  sua fila para se juntarem
mais, e ele obedeceu com alguma relutncia, enquanto Phyllis resmungava por no lhe ser possvel guardar um lugar para a irm.
Felizmente a excitao da sua primeira vez numa sala de audincias deulhe a possibilidade de rapidamente ignorar Phyllis. Era isso. Um templo do sistema de justia.
De alguma maneira conseguia ser ao mesmo tempo mais e menos do que tinha imaginado.
Havia lustres impressionantes de lato, mas faltavam metade dos globos de vidro. Os candeeiros de parede a condizer estavam decorados com fios elctricos dos microfones
colocados ao acaso e aquecedores portteis. E as graciosas janelas em arco que flanqueavam um lado da sala tinham sido grampeadas com plstico isolador. Era o tipo
de trabalho que o seu pai teria engendrado, dizendo com ar de desafio, Resolve o problema, no resolve?
No entanto, apesar das recentes profanaes, a dignidade da sala sobrevivia. Tinha sido construda para durar sculos uma combinao majestosa de pau-rosa, nogueira
e mrmore com os pormenores trabalhados  mo que j no se viam em edifcios pblicos. Os suportes para a bandeira tinham sido feitos em lato cheio de decoraes,
com guias pousadas no topo, e os caracteres de EM DEUS CONFIAMOS tinham sido esculpidos em bronze. Havia trs enormes retratos magistrais nas paredes, com os leos
escurecidos pelo passar do tempo.
A sala estava cheia de passado. Pairava no ar com o p e o leve cheiro da madeira envelhecida. Imaginou os construtores. Mesmo nos seus momentos mais brilhantes
este tribunal singular nunca tinha sido to grandioso como a Catedral de S. Patrcio nem to imponente como a Grand Central Station, mas ele ps-se a imaginar que
os homens que tinham projectado e suado com o seu trabalho, que tinham esculpido com dedicao a madeira e o mrmore, tinham trabalhado por algo mais importante
do que a simples remunerao semanal. Mesmo num ambiente tradicional como o de Cyril, isso no aconteceria hoje em dia. Se era preciso um tribunal, encomendavam
um equipamento pr-fabricado e encaixavam-no com parafusos e calafetagem. E no dia da abertura j estaria a cair aos bocados.
No  emocionante? Phyllis agitou-se ao seu lado para ilustrar o seu estado de esprito. Nunca estive num julgamento de um homicdio!
Phyllis. Teve pena dela, mas isso no a tornava mais agradvel. Com um pequeno encolher de ombros de forma discreta, afastou-se dela e abriu o bloco de apontamentos
para fazer um esboo geral da sala.
Ignorou as pessoas que enchiam a sala e concentrou-se na disposio da mesma. Os seus olhos foram atrados em primeiro lugar pelo assento do juiz, o local mais alto
na sala de audincias. Elevava-se l na frente ao centro, alto e slido e imponente, ao mesmo tempo altar e trono. Vrios degraus abaixo, junto  parede do lado
direito, estendia-se a bancada dos jurados, duas filas de cadeiras vedadas por um corrimo. Entre a bancada do jri e a cadeira do juiz encontrava-se, isolada, a
barra das testemunhas. Era muito fcil imaginar como aquele lugar podia ser intimidativo.
Ao nvel mdio, coladas  base do lugar do juiz, estavam duas pequenas secretrias. Owen imaginou que deviam ser para o oficial de justia e para o secretrio do
juiz. Depois havia o lugar do escrivo em frente, mas vrios degraus abaixo da barra das testemunhas. E, finalmente, ao nvel do cho, estavam de um e outro lado
as mesas destinadas  defesa e  acusao. A mesa da defesa do lado esquerdo. A mesa da acusao do lado direito, mais prxima do jri.
A barreira que separava tudo isto da seco da assistncia era uma balaustrada de madeira, um nmero substancial de pesados balastres, com um torneado clssico,
com um corrimo gasto e sem brilho, devido ao contacto das mos humanas. Para c desta barreira estavam os bancos fixos, onde ele se encontrava sentado. Estes preenchiam
dois teros da sala, fila aps fila, com uma passagem central desde a porta da balaustrada at s portas duplas ao fundo da sala.
Embora j tivesse visto este tipo de disposio em filmes e em fotografias, nunca tinha presenciado o verdadeiro impacto de uma sala de audincias. Havia ali um
poder incrvel mesmo quando a sala no se encontrava em funcionamento.
Contrariamente ao que tinha imaginado que iria acontecer, o juiz Martin Pulaski j se encontrava sentado. Parecia que estava a ler livros de direito. De tempos a
tempos levantava os olhos para olhar com um ar irritado e furibundo para os assistentes especialmente barulhentos. Ao aproximar-se a hora do julgamento, fechou os
seus livros e debruou-se para a frente para falar com o seu secretrio de direito.
Owen observou Pulaski. Sem o seu formidvel assento e o seu manto preto, o juiz devia ser um homem simples, com mais de sessenta anos, com um rosto de feies delicadas,
quase efeminadas. Tanto o cabelo, que estava a ficar grisalho, como o bigode estavam aparados com um estilo militar rude e usava culos com pesados aros negros.
Todos os participantes estavam presentes, com excepo do jri. O escrivo estava a pr papel na sua mquina. O oficial de justia estava de costas arqueadas a escrever
num enorme livro que parecia um livro de registos. E o secretrio de direito estava de p, junto ao lugar do juiz, a prestar ateno ao que o juiz dizia. Todos eles
eram homens com mais de trinta anos, de cabelo castanho e com um ar srio.
Owen era suficientemente alto para poder ver tudo bastante bem. At as mesas dos advogados que estavam ao nvel do cho. Conseguia ver mesmo  sua frente onde estavam
sentados Brown e Dapolito,  mesa da acusao.
Estavam voltados para a tribuna do juiz. Um de costas largas e o outro de costas estreitas. Brown parecia estar descontrado, inclinado para trs na sua cadeira,
com os cotovelos levantados e os dedos das mos cruzados atrs do pescoo, mas Dapolito parecia uma pilha de nervos, lanando olhares por toda a sala, enquanto remexia
no monte de pastas que se encontravam ao seu lado.
 esquerda de Owen conseguia ver o territrio da defesa. O banco da frente tinha sido vedado por uma corda e estava ocupado pela escolta intimidante de Lenore Serian
e o jovem negro com as caixas do processo. Numa mesa estreita encostada  balaustrada em frente deles estavam montes de pastas e caixas com etiquetas onde se lia
PROVAS. A prpria mesa da defesa estava ocupada por Lenore e o seu advogado. Rossner estava voltado para ela, a conversar, mas ela estava a olhar fixamente para
a frente, de ombros direitos e de cabea erguida. Owen no conseguia ver-lhe o rosto.
Que vestido, heim? disse Phyllis em voz alta. A mim parece-me mais um saco de batatas.
Owen respirou fundo e continuou a fazer esboos e a tomar notas.
Custa muito acreditar que algum que tem muito dinheiro use aquilo para vir ao tribunal, disse uma mulher sentada do outro lado dele. Ela tinha-se inclinado para
o seu lado para concordar com a Phyllis.
Owen sugeriu  mulher que talvez quisessem ficar juntas e ficou aliviado ao verificar que ambas gostaram da ideia. Levantou-se e deixou a segunda mulher deslizar
para o seu lugar, ao lado de Phyllis. A gratido efusiva das duas mulheres trouxe-lhe uma pequena pontada de remorso, mas depressa desapareceu.
Seis oficiais de diligncias tinham tomado posio em volta da sala. Silncio no tribunal! anunciou um deles com uma voz ribombante.
O oficial de justia levantou-se. O Povo do Estado de Nova Iorque contra Lenore Serian. O Povo est pronto?
Sim, o Povo est pronto! responderam Brown e Dapolito de forma enrgica.
A defesa est pronta?
Sim, estamos. A resposta de Rossner foi fraca mas reverente.
Vamos trazer o jri e dar incio ao processo, perguntou o juiz de maneira spera, quase de desafio, ou h algum problema que seja preciso resolver primeiro?
Prontos para o jri, senhor Doutor Juiz, responderam os trs advogados em unssono.
Bom. Gostava de ouvir as duas declaraes de abertura ainda hoje. O juiz fez um gesto para um oficial de diligncias que se encontrava junto da bancada do jri.
Traga-os para dentro, por favor.
Brown e Dapolito levantaram-se. Lenore e Rossner levantaram-se. Ela parecia estar deslocada  frente da sala, rodeada de madeira escurecida devido
ao envelhecimento e por advogados vestidos de negro ou azul marinho. Parecia demasiado delicada, demasiado diferente, demasiado frgil ali no meio deles com o seu
simples vestido castanho. E Owen ficou chocado com o facto de tudo isto ser um ritual de homens. O juiz com o manto negro, o oficial e o secretrio e o escrivo,
os advogados de fato preto e os assistentes eram todos homens. E ela parecia estar ali muito sozinha.
Que entre o jri, chamou um oficial de diligncias, quando abriu uma porta ao fundo, no canto direito da sala.
Os doze jurados e quatro representantes entraram com alguma hesitao, tomaram os seus lugares e concentraram-se no juiz, como se tivessem medo de olhar para mais
algum stio. Eram uma mistura de novos e velhos, homens e mulheres, todos com um aspecto marcado de classe mdia muito trabalhadora. No havia asiticos, nem hispnicos,
nem negros no grupo, mas se as atitudes de Phyllis fossem representativas da comunidade, ento os dois indivduos mediterrnicos e a mulher de cabelo ruivo tambm
contariam como minorias. Era exactamente como em Cyril, no Kansas. E no havia muito tempo, tambm ele provavelmente nem sequer teria reparado.
Bom dia, senhoras e senhores.
O jri murmurou uma resposta, como se fosse uma turma perante o professor.
O juiz observou atentamente a sala por alguns momentos em silncio, pigarreou ruidosamente, depois voltou-se na direco da bancada do jri. Pousou os antebraos
no assento, apertou as mos uma  outra e assumiu uma atitude de ternura e benevolncia paternal, enquanto observava os jurados reunidos.
Estamos aqui reunidos hoje nesta sala de audincias, para empreender uma misso muito sria... A justia. Vs, membros do jri, estais aqui para cumprir uma obrigao
legal que  sagrada para a nossa nao. A obrigao do jurista. Este dever est no corao do nosso sistema de justia e so pessoas como vs que mantm vivo este
sistema.
Pulaski aclarou de novo a garganta e impeliu com fora o queixo para a frente. O seu olhar nunca se desviou dos dezasseis rostos profundamente atentos que estavam
 sua frente.
A partir de hoje ser-vos- pedido que pondereis cuidadosamente a causa contra Lenore Serian. Mas antes de iniciar uma tarefa to sria, primeiro tendes de partir
do princpio de que esta mulher, Lenore Serian, est inocente. Quero que olheis para ela neste momento e digais para vs prprios esta mulher est inocente. Compete
 acusao provar o contrrio... provar-vos que ela  culpada e apresentar-vos provas para alm de toda a dvida razovel.
O juiz transferiu a sua ateno para os promotores de justia do Ministrio Pblico, Brown e Dapolito, e a sua expresso mudou, ficou de sobrancelhas carregadas
enquanto os observava atentamente.
Agora ides ouvir a declarao de abertura do Dr. Brown. As declaraes de abertura no fazem parte das provas testemunhais e no so aceites como tal. So apenas
promessas... antecipaes do que cada parte espera mostrar-vos. A vossa reaco a tudo o que o Dr. Brown disser deve ser, Prova-o.
A sala de audincias ficou em silncio.
Brown inclinou-se a sussurrar para Dapolito. Os gestos do seu corpo transmitiam algum aborrecimento para com o discurso do juiz.
Dr. Brown, disse o juiz rispidamente, vamos comear?
Todos os olhares na sala convergiram para Spencer Brown. Levantou-se. A insolncia pretensiosa da sua postura fez lembrar a Owen um capito da equipa de futebol
da escola secundria, e Owen perguntou-se como podia o juiz permanecer imparcial em relao s personalidades no seu tribunal.
Houve um breve perodo de perturbao, enquanto o pdio que estava encostado  parede era arrastado e colocado no lugar adequado e se fazia um teste ao microfone.
Finalmente, Spencer Brown, primeiro assistente do procurador distrital, deu uma leve pancada no microfone, colocou as suas notas no lugar e passou rapidamente os
olhos pela sala.
Dr. Brown, disse o juiz com alguma impacincia, parece-me que estamos todos  sua espera. Owen pensou que talvez o juiz no fosse to imparcial no fim de contas.
Obrigado, Meritssimo, respondeu Brown. Senhoras e senhores... h seis meses, no dia sete de Agosto... uma vida foi roubada a vida de Bram Serian, marido, vizinho,
membro da comunidade e artista bem conhecido. Houve manifestaes de pesar em todo o mundo pela sua morte e o choque dessa morte foi to grande que no princpio
ningum parou para levantar a questo sobre se tinha sido acidental ou no. Toda a gente sups que esta tragdia horrvel tivesse sido acidental.
O facto de um velho edifcio de madeira ser de repente devorado pelas chamas  uma ocorrncia lamentavelmente frequente nas nossas zonas rurais. S mais tarde 
que uma autpsia nos forneceu a terrvel revelao de que o crnio de Bram Serian estava profundamente fracturado e que Bram Serian j estava morto quando aquela
mecha fatal foi arremessada. S ento, senhoras e senhores,  que a terrvel verdade veio  superfcie. Bram Serian foi assassinado. E a pessoa que tinha o motivo,
os meios, e a oportunidade para cometer esse crime est aqui sentada hoje nesta sala... Lenore Serian.
Quando Brown pronunciou o nome da arguida, deu uma volta para apontar para ela um dedo acusador, mandando todos os jurados olhar. Owen teve a impresso de ter visto
a mulher estremecer, mas depois ela endireitou os ombros e levantou o queixo em ar de desafio.
Spencer Brown tornou a voltar-se para o jri, cheio de confiana e de justificada indignao. Lenore Serian planeou o assassnio do seu marido a sangue frio, esperou
pela oportunidade perfeita e ento ps o seu plano em prtica. No h nenhuma testemunha que possa vir provar a sua culpa e tambm no existe nenhuma prova testemunhal,
mas ns conseguimos juntar as peas de um quebra-cabeas que vai demonstrar absoluta e conclusivamente que Lenore Serian  a assassina do seu marido.
A partir dali Brown partiu para uma viso geral do casamento de Serian. Contou como viviam juntos e como tinham uma vida confortvel, possuindo no s a casa grande
mas tambm umas guas-furtadas na zona de Soho da cidade de Nova Iorque. Quando Brown se instalou no pdio, as suas palavras
assumiram um tom montono que quase fazia adormecer.
Temos testemunhas que vo demonstrar que Bram Serian era mais velho do que a sua mulher. Ela era uma refugiada da Guerra do Vietname e estava sem vintm quando Bram
Serian a introduziu na sua casa e no seu corao. Bram Serian era o gnero de homem que punha o seu dinheiro onde tinha a boca. Sentia uma profunda obrigao em
ajudar as pessoas que tinham sido afectadas pela guerra e foi isso que o conduziu em primeiro lugar a esta mulher. Mas Lenore Serian no estava satisfeita com o
amor e a generosidade deste grande homem. No se sentia satisfeita pela pacincia continuada do seu marido, pela sua compreenso e lealdade ao longo dos anos.
A actividade artstica de Bram Serian tinha-se tornado muito valiosa e granjeara-lhe um lugar na sociedade e os benefcios de um elevado rendimento e tempo de lazer.
A maior parte das esposas ter-se-iam sentido felizes com isto, mas teremos depoimentos que vo demonstrar que Lenore Serian no era feliz. Ela queria o marido s
para ela. Ela era insensatamente ciumenta. At ficava melindrada com os encontros do marido com o seu agente artstico de longos anos. Recusava-se a aparecer em
pblico com ele e a assistir s suas exposies de arte ou quaisquer outras solenidades onde a sua presena fosse muito exigida, e tentava manipul-lo e impedi-lo
de participar nessas importantes cerimnias. Ela queria mant-lo isolado apenas com ela na sua propriedade, e embora lhe permitisse ter convidados com frequncia,
ela nunca participava na recepo desses convidados. Nunca se descontraa nem se divertia. Ela fazia a sua ronda, vigiando o marido como um falco, e fazia com que
toda a gente  sua volta se sentisse desconfortvel e importuna.
Brown respirou fundo e fez uma pausa para olhar para a arguida. Owen imaginou o que ela estaria a pensar naquele momento.
A verdade, senhoras e senhores,  que Bram Serian era obrigado a enfrentar as tentaes que muitos homens famosos enfrentam. Estava rodeado de mulheres bonitas para
onde quer que fosse e talvez algum do ressentimento bizarro da sua mulher fosse provocado por isso. Mas isso no desculpa as atitudes de Lenore Serian.
Tambm  verdade que Lenore Serian no tinha tido uma vida fcil e tudo indica que era incapaz de ter o tipo de relao que um bom casamento exige. As testemunhas
dir-nos-o que ela era incapaz para o amor. Incapaz at para a amizade! Mas isso no desculpa as suas atitudes. Ela era e  uma pessoa adulta e equilibrada que compreende
perfeitamente a diferena entre o que est certo e o que est errado.
Owen fez uma pausa nos seus apontamentos para observar novamente Brown. Estava a repetir os seus pensamentos. Cobrindo e recobrindo o mesmo cho. A falar da relao
de Serian com a sua mulher e depois a martelar na questo de um divrcio iminente. Ao desviar-se do sentido exacto do seu texto preparado, enredou-se nas suas frases
e distorceu-as de vrias maneiras em confusas convolues.
De repente Brown mudou de posio, olhou para baixo, para os seus apontamentos e levantou a voz, - o que significava isto para Lenore Serian?
#Significava que ela estava a perder o domnio sobre o seu marido. E que corria o risco de perder tudo! Tudo!
Havia brigas sem fundamento que chegavam aos ouvidos de Natalie Raven, a governanta. Ouvia-se Lenore Serian a gritar, No te admito que faas isso!
Foi com esta ideia na cabea que a arguida se deslocou  cidade com Natalie Raven e foi sozinha ao armazm de ferragens, como o dono da loja vai testemunhar, comprou
um candeeiro de vidro a petrleo e duas garrafas de petrleo para candeeiros, para o estdio do seu marido.
Bram Serian tinha transformado um velho celeiro que estava na sua propriedade, no seu estdio de arte. Este estdio era o seu lugar particular e ningum podia entrar
l.
A governanta dos Serians de h quatro anos testemunhar que Bram Serian fazia ele prprio a limpeza e o aprovisionamento daquele estdio e nunca teria pedido que
quer ela quer Lenore comprassem qualquer coisa para ele. Para alm disso ele estava sempre preocupado com possveis estragos que pudessem causar aos seus quadros
e no passado tinha recusado velas para o estdio porque, dizia ele, a pequena quantidade de fumo que produziam podia estragar uma pintura.
Vamos ouvir testemunhos de que Serian tinha medo do fogo e preocupava-se com a natureza inflamvel de alguns dos seus materiais de trabalho. Um ano antes da sua
morte tinha deixado de fumar, em parte por motivos de sade e em parte porque se preocupava at com um cigarro aceso junto das suas obras. Quando andava a construir
o estdio, rejeitou a ideia de um fogo que queimasse lenha e tinha-se dado a grandes trabalhos para instalar um fogo elctrico com a aparncia de lume a arder
l dentro mas sem chamas verdadeiras.
Brown abriu os braos.  este o homem que subitamente ia querer um candeeiro a petrleo para o seu estdio!
O promotor de justia fez uma pausa para permitir que a sua incredulidade desdenhosa penetrasse na mente das pessoas.
Mas Lenore Serian gostava do fogo. Ouviremos pessoas que vm testemunhar que esta mulher era fascinada pelo fogo. Que andava constantemente a queimar coisas e a
acender os foges de sala e tinha velas acesas em casa tanto de dia como de noite.
Remexeu nas suas notas.
Agora vamos aos acontecimentos que conduziram directamente a este crime hediondo. No dia anterior ao assassnio, Bram Serian convidou vinte e duas pessoas de Manhattan
para passarem um fim de semana divertido no campo. Ele era conhecido pela sua hospitalidade e muitas pessoas no mundo da arte tinham sido seus convidados ao longo
dos anos. Para alm de se divertirem, Serian esperava que os convidados contribussem com o seu trabalho para a sua famosa casa.
O grupo trabalhou at meio da tarde, depois do que houve um intervalo para nadar num lago e de um modo geral foi um tempo bem passado.
Fizeram um cozinhado para o jantar ao ar livre e acabaram por volta das oito
horas. A seguir, alguns saram numa tentativa de pescar durante a noite e outros ficaram por ali a beber cerveja e a ouvir msica. Bram Serian estava bem disposto.
Toda a gente falava da sua prxima exposio. Quando comeou a anoitecer o pessoal foi-se juntando no exterior em alegre camaradagem.
Lenore Serian no se tinha associado s festividades e nem sequer tinha participado nas mais simples conversas de simpatia com qualquer dos convidados. Manteve-se
sempre distanciada e a nica vez que se ouviu a sua voz em toda a noite foi quando se ps a gritar com o marido.
Serian comunicou aos convidados que se ia deitar e sugeriu que os outros fizessem a mesma coisa, uma vez que j passava das duas horas da manh. Havia quartos de
hspedes no piso principal e na cave havia ainda uma espcie de dormitrio para os convidados. O quarto da governanta era no segundo piso e ela j tinha ido para
a cama.
s duas horas e quarenta e cinco minutos da manh ouviu-se uma discusso acalorada entre Lenore e Bram Serian no ptio, junto da porta do seu estdio e esta discusso
acordou a governanta. Esta olhou para fora da janela e ficou a observar at ao fim da discusso, depois viu Bram Serian abrir a porta do estdio, entrar e voltar
a fechar a porta. Sups que ele ia passar ali a noite, uma vez que isso j vinha sendo habitual da parte dele.
Durante a hora seguinte o crnio de Bram Serian foi amachucado com uma pancada. Ele tinha estado a beber e estava muito cansado... muito provavelmente a dormir profundamente,
quando foi dado o golpe fatal. No  preciso muita fora para desferir um golpe fatal num crnio humano que se encontra no cho. A gravidade est do lado do atacante
e at uma pessoa pequena  capaz de baloiar um objecto pesado para baixo, para o cho. Junto ao corpo foi encontrado um machado e um machado teria constitudo a
arma perfeita. Um movimento para baixo teria posto fora de combate ou at matado a vtima.
A seguir, num plano diablico para fazer o assassnio parecer um acidente, Bram Serian foi molhado com petrleo de candeeiro. O candeeiro de vidro que Lenore Serian
tinha comprado apenas umas semanas antes estava desfeito ao lado dele. E o fogo foi ateado. O assassino acendeu um fsforo e Bram foi engolido pelo fogo. A beleza
deste plano, do ponto de vista do assassino, era que no importava se Bram estava morto ou vivo quando o incndio comeou, porque em qualquer dos casos o assassino
estava convencido de que seria aceite como acidente.
A rapidez e intensidade do incndio devem ter surpreendido o homicida, tendo-o levado a cometer alguns erros. A chave foi deixada na porta. Vrios quadros foram
levados para fora do edifcio, mas depois foram abandonados no meio das rvores.
s quatro horas e quinze minutos a governanta voltou a acordar. Olhou para fora da janela e viu labaredas a sarem do estdio. Lenore Serian estava no ptio a ver
o fogo a alastrar. A governanta debruou-se para fora da janela e gritou para Lenore, e s ento  que Lenore Serian gritou fogo e pediu ajuda.
Foi a governanta, Natalie Raven, quem telefonou para o servio de incndios e foi a governanta quem acordou os convidados e os organizou numa
brigada de baldes. Foi a governanta quem procurou por toda a casa e pelos jardins, na esperana de que Bram Serian no estivesse dentro do edifcio a arder. O que
fez Lenore Serian? Ficou-se por ali nas proximidades a observar.
Uma testemunha vir testemunhar que a porta do estdio estava aberta, quando Bram Serian nunca deixava a porta aberta nem destrancada. Vamos ouvir o testemunho de
que na fechadura da porta s se encontrava uma chave, quando Bram guardava as suas chaves numa argola grande.
O homicida deixou a porta aberta. O homicida utilizou uma cpia da chave e depois esqueceu-se de a tirar da porta. O homicida retirou aqueles quadros para fora,
para os salvar do fogo. A prova demonstrar que essa  a nica explicao aceitvel. E a evidncia tambm demonstrar que a nica pessoa com os meios, o motivo,
e a oportunidade para entrar naquele estdio e agredir mortalmente Bram Serian, derramar petrleo por cima dele e acender um fsforo era Lenore Serian, uma mulher
que queria controlar o seu marido e manter a todo o custo a sua casa.
Obrigado.
Spencer Brown voltou-se e dirigiu-se para o seu lugar com o ar justificado de um cruzado.
Logo que se sentou, a sala irrompeu numa agitao de barulho e movimento. Os reprteres da rdio apressaram-se a sair da sala para ir comunicar com as suas estaes.
Silncio! gritou um oficial de diligncias.
O juiz voltou-se para o jri. Obrigado pela vossa ateno durante esta longa sesso, senhoras e senhores. Depois das audincias preliminares, no tereis de ficar
a sentados durante tanto tempo sem fazermos um intervalo. Aclarou a garganta e a sua boca moveu-se num leve sorriso controlado. Interrompemos a audincia para o
almoo. Se tiverem alguma pergunta a fazer sobre os vossos planos para o almoo, podem perguntar ao oficial de diligncias que vos acompanhar at  sala dos jurados.
Voltou a aclarar a garganta e assumiu um ar de seriedade Lincolnesa. No devem discutir este caso, advertiu-os, especificando os regulamentos e terminando com uma
advertncia de que no deviam ler sobre este caso nem ouvir reportagens noticiosas na televiso. Owen pensou como devia ser difcil estar sentado naquela bancada
do jri e evitar discutir o caso com a famlia e com os amigos todas as noites.
Foi ordenado  assistncia que permanecesse sentada, enquanto os jurados saam da sala. Logo que as duas filas de pessoas saram em silncio, toda a gente se levantou.
Saiam da sala, por favor. Saiam da sala!
Owen encostou-se para trs para deixar passar a Phyllis e a sua amiga em primeiro lugar. A sala esvaziou-se rapidamente. Quando ele finalmente se levantou, era dos
ltimos a sair. Abriu completamente a porta e deu um passo atrs para que a pessoa que vinha logo atrs dele pudesse sair primeiro. Obrigado, disse ela, caminhando
devagar, acabando os dois por sair um ao lado do outro.
Em trabalho? perguntou ela.
Ele olhou  volta. Est a falar comigo?
Sim. Perguntei se est aqui a cumprir uma tarefa.
Ela tinha um rosto brilhante e fresco, cabelo macio, louro escuro e seios bem definidos sob um casaco justo. Nova Iorque parecia estar cheia de mulheres atraentes.
No sei se compreendi a sua pergunta.
Desculpe. Ela sorriu. Estou a ser muito indiscreta. Eu estava atrs de si ao passarmos na segurana e ouvi-o dizer que estava a fazer investigao para um livro.
O sorriso dela tinha um brilho equivalente a cem watts, com todos os dentes branqussimos, e embora no fosse provvel que a conhecesse, parecia-lhe vagamente familiar.
Daqui  a Holly Danielson, no julgamento da Viva Negra.
Aquela frase no lhe dizia nada e a sua expresso deve ter demonstrado isso, porque a pose profissional desintegrou-se. Sabe... ela fez um breve encolher de ombros
Metro Eye at Five. Ou como dizemos s vezes, Jive at Five.
 reprter de televiso?
 possvel que eu tenha uma aparncia diferente fora das cmaras, heim?
Para lhe dizer a verdade, eu no sou de Nova Iorque... e mesmo que fosse... no costumo ver o noticirio na televiso. Mas... apressou-se a acrescentar, ontem 
noite dei uma volta pelos canais e provavelmente tive um momentneo vislumbre da menina.
Oh... Ela recuperou o seu sorriso. Estou aqui a fazer a cobertura do julgamento. E voc? Est a trabalhar por contrato, como independente ou o qu?
Um pouco de cada, confessou ele, comeando a descer a extensa escadaria para a calma do trio do tribunal durante o intervalo do almoo.
Isso parece muito misterioso, disse ela, comeando a andar de novo ao lado dele.
A curiosidade dela f-lo sorrir. No h nenhum mistrio, apenas incerteza.
Mas voc  escritor?
Acessoriamente.
Est a especializar-se em julgamentos?
Mal. Este  o primeiro.
No se preocupe. Vai adaptar-se num instante. Depois de ter feito o segundo, sentia-me como se fosse capaz de exercer a profisso de advogada.
Faz mais algum tipo de reportagens para alm de julgamentos?
Com certeza. Tudo o que conseguir. Mas este caso do Serian  um grande furo para mim. Proporciona-me muita exposio.
Ao passarem pela segurana, ele imaginou o que faria uma pessoa querer estar em frente de uma cmara de televiso a falar para uma audincia invisvel. No conseguia
imaginar-se a fazer uma coisa daquelas.
Portanto... voc vai provavelmente escrever um livro, certo? Senhor...?
Byrne. Owen Byrne.
Os olhos dela dilataram-se.  um nome irlands! Bem me parecia que voc tinha o aspecto de irlands.
Tenho?
Com certeza. O cabelo e os olhos. Nunca vi tantos olhos azuis maravilhosos como quando estive na Irlanda. Exactamente como os seus.
Ele parou e olhou  sua volta com algum embarao. Desculpe... mas tenho mesmo de ir embora.
Ahhhh... embaracei-o, no foi? Parece-me que estou demasiado habituada a conviver com os outros reprteres. Estamos sempre a meter-nos uns com os outros.
Owen sentiu-se lisonjeado pela sua ateno mas extremamente desconfortvel. Mudou o saco para a outra mo. Vou tentar v-la na televiso logo  noite, disse ele
enquanto se voltava e se dirigia para a porta.
Espere, onde vai?
Procurar um stio para almoar.
Venha comigo, ento. Vou apresent-lo a alguns tipos novos.
Obrigado na mesma, mas acho que vou apenas...
Estou a fazer-lhe um favor, insistiu ela. Se quer actualizar-se em relao ao tipo de conversa sobre os julgamentos e fazer alguns bons contactos, esta  a melhor
maneira. Acredite.
Enquanto caminhavam para a Rua Principal, Owen ouviu toda a histria da vida de Holly Danielson. Que era do sul da Califrnia. E de como tinha tirado um curso de
comunicao na universidade e tinha trabalhado numa pequena estao em Los Angeles, antes de finalmente aterrar em Nova Iorque. E de como tinha mandado arranjar
os dentes ao mesmo dentista que tratava as estrelas de cinema. E de como ela nunca tinha sido eleita chefe da claque na escola secundria, mas isso tambm j no
interessava.
Ela fez-lhe perguntas sobre o seu passado e ele confessou que tinha sido criado no Midwest, antes de desviar a ateno dela novamente para a sua prpria histria.
Felizmente ela era fcil de distrair. No entanto ele no se sentiu  vontade at chegarem ao caf e ficar livre de mais perguntas que ela pudesse fazer-lhe.
O restaurante tinha compartimentos com bancos vermelhos revestidos com uma imitao de couro e uma mesa de almoo arredondada, com as bordas cromadas, que podia
ter sido transposta directamente de uma pequena cidade do estado donde ele vinha. A afluncia de pessoas para o almoo estava em plena actividade e a sala estava
cheia de gente, a maior parte da qual parecia ser conhecida da Holly. Ela acompanhou-o atravs do barulho e das nuvens de fumo dos cigarros a pairar no ar, at 
mesa perto do fundo e apresentou-o ao Ray, do jornal News e a Sharon, de uma estao de rdio-notcias e a Marilyn que escrevia uma coluna para um jornal cujo nome
Owen no percebeu. Holly deslizou para o banco do compartimento e trouxeram uma cadeira extra para Owen. O centro da mesa estava ocupado por trs cinzeiros a transbordar.
Voc  escritor, heim? perguntou Ray. Era um homem corpulento e gordo, com uma barbela por baixo do queixo, que se mexia quando falava.
Estou a tentar ser, confessou Owen.
Vocs os jqueis dos livros so todos uns sortudos. Conseguem ter fama e muitos dlares. Um dia destes vou escrever um livro. Logo que consiga ter algum tempo livre.
Owen fez um aceno com a cabea.
O Ray acendeu um cigarro com o isqueiro de Marilyn e esboou um sorriso pretensioso. Voc acha que eu sou um palerma, no  verdade?
Owen sentou-se na cadeira sem saber como havia de responder, mas ento Ray soltou uma risada e acrescentou, Porque voc sabe que eu nunca conseguiria vender um nico
livro se no tivesse um bom agente, no  verdade?
Owen hesitou, mas antes que pudesse responder, o grupo entrou numa discusso sobre o julgamento, como se o seu nico interesse fosse o homicdio. Para Owen foi ptimo.
Pde ficar sossegado e gostou daquela mudana repentina.
Descobrimos que Rossner no s contratou um psiclogo de jris, como mandou fazer uma sondagem qualquer.
Ests a brincar!
O Rossner  um tipo cheio de truques.
Foi por isso mesmo que ela o contratou, meu caro.
E achas que tudo isso teve alguma influncia na seleco do jri?
No. Pelo menos a longo prazo.
O que queres dizer com isso? Claro que fez diferena. O psiclogo esteve a dizer-lhe quais os jurados com que devia contar. Isso tinha de alterar a configurao
da seleco.
Com certeza. Mas no me parece que algum possa prever quem vai ser um jurado favorvel e quem no vai. Mesmo as antigas normas segundo as quais os liberais eram
melhores para a defesa j no se aplicam. Raios, actualmente no h regras nenhumas.
Por falar em negros, achas que Rossner est a prejudicar-se por trazer um assistente negro para esta sala de audincias?
Boa pergunta.
Nem podia ser pior, disse a Marilyn. Podia ao menos ter trazido uma mulher negra.
Todos riram com o comentrio da Marilyn, cuja prpria compleio era cor de caf com leite. Owen perguntou-se se ela seria considerada negra. Tinha visto tantos
tons de pele nos ltimos dias que estava a ficar confuso quanto  diviso entre categorias.
A comida chegou mas no os acalmou.
Ele  muito bom, digo-vos aqui. Provavelmente arranjou um gajo negro s para chamar a ateno. Provavelmente espera que isso provoque alguma perplexidade.
No me parece. Acho que Jacowitz j est com ele h algum tempo.
Esquece isso. O que acharam da introduo de Brown?
Tecnicamente foi boa. Mas o gajo  um bocado montono, no ?
 uma pena. Esperava-se que um homem como aquele fosse capaz de pr algum entusiasmo na sua maneira de apresentar um discurso.
Ray revirou os olhos e as mulheres riram-se.
A grande questo  saber se Brown ps todas as suas cartas na mesa ou se est a guardar algumas surpresas para mais tarde.
Eu aposto que o Rossner vai fazer mesmo isso. Vai dizer apenas o suficiente para expor os seus argumentos nas alegaes preliminares, mas sendo ele to dissimulado...
podem ter a certeza de que vai ficar com alguma na manga.
Est bem...Est bem... Vamos agora falar do motivo. Estou convencido que ela assassinou o marido. Ela fez mesmo isso. No tenho dvidas. E planeou tudo com antecedncia,
pensando que podia usar o candeeiro para fazer com que parecesse acidental e servindo-se de uma festa como uma espcie de camuflagem. Ela foi astuciosa e agiu com
sangue frio e perfeitamente controlada. Concordo plenamente com a acusao em tudo isso. Mas no alcano o motivo da possessividade. Acho que foi exclusivamente
por dinheiro.
No! No pode ser s por dinheiro.
Porqu? O dinheiro  um dos trs motivos principais para cometer qualquer crime, no ?
Com certeza. E ela casou com ele por causa do dinheiro que ele tinha... e do seu nome e posio social e tudo o mais. Quero dizer, tinha de ter, no tinha? Era uma
refugiada sem nada, por isso naturalmente agarrou-se a ele como se fosse um ganso de ouro.
Muito bem, mas o que ia ela ganhar em mat-lo? O ganso j no est vivo para produzir os ovos de ouro. Exceptuando alguns dos seus novos quadros, arderam todos no
incndio. No h seguro de vida e no h dinheiro, nem ttulos de obrigaes, nem aces, nem nada. E a famosa casa no est acabada, provavelmente no  vendvel
e, segundo parece, est com dvidas. Portanto como  que o motivo podia ser o dinheiro? A possessividade  que faz todo o sentido.
No havia seguro contra incndio?
Se ela conseguir receb-lo o que no acontecer se se provar que foi ela quem pegou o fogo.
Ento talvez haja dinheiro escondido algures, sem ningum saber.
Sim. L naquelas ilhas onde os traficantes da droga escondem o seu dinheiro.
Ou talvez as coisas tenham simplesmente corrido mal? Talvez ela pensasse que podia tirar para fora todos os quadros antes de o celeiro ser envolvido pelas chamas.
Talvez pensasse que no haveria qualquer problema por parte da companhia de seguros quanto ao incndio. Quem sabe... talvez pensasse que o seu maridinho tivesse
um seguro de vida.
Mas ainda agora estavas a dizer que ela era muito astuta. Se fosse assim to astuta, no teria cometido todos esses erros.
Oh diabo, no sei. Mas ela podia t-lo deixado em qualquer altura, podia ter-se divorciado dele com uma generosa penso, depois de todos aqueles anos de casamento.
Para qu correr o risco de cometer um homicdio? Eu gosto mais do ponto de vista da possessividade.
O que transforma isto num crime de paixo, no  verdade?
#Paixo? Duvido. Aquela mulher tem os olhos mais frios que jamais vi. Acho que ela no tem quaisquer sentimentos. No tem paixo. No tem amor. Nem mesmo capacidade
para gostar. Olhem s para a audincia de hoje. No havia ali um nico amigo ou membro da famlia a apoi-la.
 verdade?
Foi o que disseram os oficiais de diligncias.
Owen estava completamente absorvido pelo dilogo quando, sem nenhum sinal que ele pudesse notar, todos se levantaram. De acordo com o relgio de parede, tinham estado
sentados  mesa exactamente trinta e sete minutos. Seguiu atrs deles para a caixa registadora, onde metodicamente dividiram a conta. Depois a Sharon e a Marilyn
apressaram-se a sair  procura de telefones, deixando o Ray, a Holly e Owen a caminhar juntos para o tribunal.
O nevoeiro tinha-se dissipado e no cu da tarde comeava a aparecer o sol. Ele seguiu atrs da Holly para fora do restaurante com restos da conversa a repercutir
no pensamento. A parte sobre os olhos de Lenore Serian preocupava-o. No havia olhos frios. Se alguma caracterstica eles tinham, era o facto de serem demasiado
intensos. Demasiado ardentes.
J consegue decifrar todo este palavreado legal, Byrne? perguntou o Ray. O Ray caminhava a um lado de Owen e a Holly ia do outro lado.
Ainda no, confessou Owen.
Ora vamos l, disse o Ray expressivamente. No h nenhum contador a funcionar. Ponha-me uma questo. Pergunte qualquer coisa.
Owen fez perguntas sobre as audincias que tinham tido lugar antes do julgamento e obteve uma lio interminvel sobre como as audincias antes dos julgamentos eram
usadas para estabelecer as regras fundamentais para o julgamento do jri e como essas audincias tratavam de coisas como a ocultao de provas e declaraes obtidas
ilegalmente e como todas as audies eram nomeadas de acordo com os casos originais que tinham estabelecido os precedentes e como raio podiam ser prolongadas e aborrecidas.
O Ray no parou de falar at estarem  vista do tribunal. Acendeu um cigarro. Se quiser saber mais, pode ouvir a opinio do empregado do juiz e procurar obter uma
lista das audies extraordinrias que realizaram para este julgamento.,
J tenho todas as notas sobre o pr-julgamento, disse Holly a Owen baixinho. Eu fao-lhe cpias.
O Ray lanou um olhar para ela com as sobrancelhas levantadas. A fase do pr-julgamento  como observar um treino de crquete. No h jri, nem assistncia, nem
drama...  s o juiz e os advogados todos a tentar confundir-se uns aos outros com a mais incrvel verborreia legal. S vo assistir aqueles que so mesmo dedicados.
Como aqui a nossa Holly. E ela no costuma partilhar os seus apontamentos.
Ele no  reprter, protestou a Holly.
Est certo. O Ray voltou-se para Owen como se estivesse a confidenciar-lhe um segredo. H reprteres que partilham informaes. Mas a Holly no. Voc tem sorte porque
no  reprter.
Ray!
O que ? Estou apenas a dizer ao tipo que ele tem muita sorte. O Ray aspirou uma lufada de fumo e depois, com um piparote, atirou com o cigarro para a valeta. Por
que est a franzir as sobrancelhas? perguntou a Owen. No gosta que lhe digam que  um indivduo com sorte?
No... No. No gosto de ver pessoas a atirar lixo para o cho.
O qu? O Ray olhou para o cho com uma expresso de quem ficou magoado. Meu Deus! Por que acha que inventaram as mquinas de varrerr
Em sua casa no deita lixo para o cho, ou deita? perguntou Owen.
Sim, raios! Para que acha que inventaram as mulheres e as mes? O Ray bateu na coxa com a palma da mo e desatou s gargalhadas.
A Holly aproximou-se e tocou na manga do casaco de Owen, num pedido para que desistisse.
Est bem, est bem, disse o Ray. Vejamos... onde  que eu ia? Oh, sim... Estava a chegar  seleco do jri. Tirou um cigarro e segurou-o entre os dedos. A seleco
do jri  um pouco mais divertida. Comeam com uma reunio de jurados possveis.
Um grupo enorme para o julgamento de Serian, acrescentou Holly. Eles estavam a ter muito cuidado por causa de toda a publicidade. Tinham medo que tivessem de dispensar
um grande nmero de pessoas por serem preconceituosas, devido ao que j tinham ouvido.
O Ray acendeu o cigarro antes de continuar. Primeiro, reduzem o grupo com base em generalidades. Problemas ou obrigaes que tornariam muito difcil servir num jri.
Ligaes pessoais a princpios no caso. E por a adiante. Depois constituem ao acaso um painel de doze pessoas, colocam-nas na bancada dos jurados e deixam os advogados
concentrar-se nos indivduos. Chama-se Voir Dire, o que significa contar a verdade em francs. E ouvi dizer que o Rossner e o Brown transformaram-no num espectculo
muito bom.
Eu tenho tudo isso, Owen. A Holly contornou uma poa de lama e gua para proteger os seus sapatos de camura. Folhas biogrficas sobre os jurados tambm. Tambm
pode copiar isso.
Meu Deus, Holly... estamos muito generosos.
Ele no representa nenhum tipo de competio.
Como  que sabes? Ele pode ser um espio de um jornal sensacionalista ou um correspondente infiltrado para os Britnicos ou...
Oh, cala-te, Ray. O Ray calou-se.
Eu no quero aproveitar-me de ningum, disse Owen com indiferena. A verdade era que ele gostava muito de ver as notas da Holly.
Voc no est a aproveitar-se, insistiu a Holly. O Ray est apenas a falar demais. Se quiser usar o material, ser para um livro, daqui a vrios meses, portanto
no existe qualquer conflito. Lanou ao Ray um olhar irritado e ele escondeu o queixo no casaco como uma tartaruga a tentar escapar.
O cabelo da Holly brilhava com reflexos dourados  luz do sol, e as suas bochechas estavam coradas com o frio. Ela tinha uma beleza genrica, tipo
torta de ma, que fazia lembrar a Owen os filmes antigos e os concursos de beleza dos anos cinquenta.
Ento por que estava sentado na galeria geral? perguntou-lhe a Holly. Por que no est na seco da imprensa?
Eu no sou membro da imprensa, disse Owen.
O que quer dizer com isso? Voc  escritor. Est habilitado. Vou dar-lhe um nmero para onde deve telefonar para obter um passe de imprensa. Entretanto pode sentar-se
ao meu lado. Vou fazer com que o deixem passar com o meu passe de tcnico.
Voc pode, disse o Ray. H lugares livres e voc tem todo o direito de fazer isso? Pareceu a Owen que a sbita solicitude do Ray tinha como objectivo agradar  Holly
ptimo. Obrigado. A assistncia vai ser to grande depois do almoo como foi esta manh?
Com certeza. A Holly riu-se. E foi bom eu t-lo convidado a sentar-se ao p de mim, porque est demasiado atrasado para conseguir um lugar nos bancos da assistncia.
Quer dizer que eu no tinha direito ao mesmo lugar desta manh?
No. As pessoas tm de esperar em fila e arranjar de novo um lugar. S os meios de comunicao social  que tm lugares reservados.
Ento, obrigado mais uma vez.
No tem de qu. A Holly sorriu e o Ray fez tambm um riso forado. Enquanto subiam as escadas do tribunal, Holly passou por detrs de Owen para ir acotovelar o Ray.
Estou ansiosa por ouvir o discurso do Rossner, e tu? Mister Slick em pessoa. Sinto-me como se estivesse a ir para um espectculo de Gunther Gabel-Williams a domar
lees.
Ou Michael Milken a vender velharias, resfolegou o Ray Meteu a mo no bolso para tirar um cigarro. Vemo-nos l dentro, midos. Preciso de um pouco mais de veneno
antes de entrar.
Owen segurou uma das enormes portas para a Holly entrar. O Rossner no pode ter nada de muito surpreendente para dizer, pois no? Nesta altura no so j todos os
factos do conhecimento geral?
Espere s para ver, assegurou-lhe ela. Ele vai torcer tanto as coisas, que quando terminar voc no vai distinguir o negro do branco ou o que est em cima do que
est em baixo.
Duvido que consiga influenciar-me assim tanto. As acusaes de Brown eram todas muito lgicas e credveis.
Veremos, disse ela, veremos.
Senhoras e senhores do jri, o meu nome  Charlie Rossner, advogado de defesa de Lenore Serian. Rossner estava de p, ao lado do pdio, com o cotovelo apoiado nele.
Brown tinha sido formal, hipcrita, autoritrio. Rossner era informal o vizinho elegante, pronto para uma conversa.
Eu vim para o magnfico e histrico tribunal do vosso condado para lutar pela justia, tal como todos vs, bons cidados do jri, estais a lutar pela
justia. Mas tenho de dizer-vos agora mesmo Rossner coou o lobo da orelha e olhou para o jri com uma expresso enigmtica Pergunto-me por que estamos todos aqui.
Voltou-se para Lenore e a perplexidade confundiu-se com a comiserao e alguma incredulidade. Esta mulher no devia estar num tribunal a defender-se de uma acusao
de homicdio. Qual homicdio? As provas vo pr em evidncia que ningum tem a certeza de ter havido um homicdio.
Bram Serian morreu e houve um incndio horrvel. Sim. Mas os testemunhos demonstraro que Bram Serian estava bbado quando entrou para o seu estdio naquela noite,
aos tropees, a cair de bbado. E embora ele estivesse a tentar deixar de fumar, no conseguia cortar com o hbito.
Rossner fez uma pausa, para permitir que esta ideia fosse mentalizada.
A tropear de bbado e a fumar s trs horas da manh, num velho edifcio de madeira, cheio de materiais inflamveis e de um candeeiro de petrleo quebrvel! Aqui
est a receita para um trgico acidente.
O advogado acomodou-se novamente junto ao pdio, calmo e bem disposto. Puxou as calas e olhou de um jurado para o outro com uma expresso de estamos-todos-metidos-nisto.
Vejamos a situao... Lenore e Bram Serian no tinham propriamente um casamento de um livro de histrias. Mas quantos casais tm? Se todos ns pudssemos ver o que
se passa do lado de l das portas dos quartos dos nossos vizinhos, quantos casamentos perfeitos encontraramos? No muitos, parece-me. A diferena neste caso, 
que os Serians so figuras pblicas, por isso as imperfeies do seu casamento so ampliadas e expostas  luz do dia.
Rossner realou isto levantando as duas mos no ar. Owen estava impressionado. Rossner projectava a imagem do advogado sem fantasias, tico, idealista sobre quem
tinha lido e admirado quando era jovem.
Lenore pode ter sido uma m dona de casa e pode ter aborrecido o seu marido com algumas questinculas e pode at ter ficado cheia de cimes de vez em quando. Mas
isso no so actos criminosos. Bram Serian tambm tinha os seus defeitos. Como todas as pessoas com talento, ele era uma pessoa cheia de subtilezas e nem sempre
era fcil conviver com ele.
Mas a verdade  que os Serians tinham conseguido levar uma vida em comum durante treze anos e as provas demonstraro que nenhum deles tencionava acabar com esse
relacionamento, que com tanto esforo tinham tentado construir. Indiferentes ao que tinha acontecido nas suas vidas caticas, este casal manteve-se unido. Havia
entre eles alguma coisa que os unia e nenhum deles queria levar a vida sem o outro. Eram um casal dedicado. Um casal estvel.
Quanto a essa questo do candeeiro... vamos ouvir contar como so vulgares esses candeeiros e quantas esposas os compram para os seus maridos e quantas pessoas os
usam em oficinas e em alpendres onde guardam as ferramentas. Aquele candeeiro era para ser utilizado exactamente da mesma maneira que a maioria das pessoas o usa,
uma luz para uma noite de temPestade, quando deixa de haver luz. E as provas demonstraro que o estdio de Bram Serian j estava to cheio de materiais inflamveis
que um fogo
acidental podia acontecer em qualquer altura, sem a ajuda de um candeeiro de petrleo.
Se ela estava a planear qualquer coisa diablica, podia ter usado o que tinha disponvel, sem chamar a ateno para si prpria. Sendo a esposa de um artista, ela
sabia perfeitamente que ele havia de ter l dissolvente para pintura e todo o gnero de materiais qumicos perigosos.
E depois, uma vez que estamos enredados em todo este disparate, vamos ouvir falar da noite do incndio. Vamos ouvir contar quantas pessoas se encontravam a vaguear
junto do estdio, antes de ter comeado o incndio. Outras pessoas com mais oportunidade para atear um incndio, se de facto houve um incndio ateado pela mo de
algum que no a de Bram Serian.
Vamos ouvir falar de acidentes que acontecem a pessoas que fumam e bebem para alm dos limites do bom senso. E finalmente vamos ouvir um mdico que nos vai contar
que as mos e os braos de Lenore Serian ficaram gravemente queimados ao tentar abrir caminho pelo meio do fogo, para salvar o marido... uma tentativa herica de
salvamento, que nenhuma outra pessoa fez. Nem a devotada governanta. Nenhum dos vinte e dois convidados de Bram Serian. Nem os bombeiros treinados que acorreram
to corajosamente a esta emergncia.
E vamos ficar a saber que o motivo por que no deu sinal de alarme... o motivo por que ela ficou ali naquele ptio, como uma pedra, a ver o fogo destruir a sua vida,
enquanto toda a gente gritava e disparatava... o motivo foi que Lenore estava abatida e exausta e em estado de choque.
Ele empertigou-se, com os olhos ardentes perante a injustia da situao.
Vamos ouvir, senhoras e senhores, que Lenore est inocente... to vtima desta tragdia como o seu querido marido, e que no h aqui ningum a quem se possa imputar
qualquer culpa. Digo-vos eu, que as provas no corroboram nenhum crime. Que, de facto, o nico crime cometido foi o crime de acusar Lenore Serian e de a trazer perante
este tribunal.
Rossner sentou-se. A sala de audincias estava em silncio absoluto. Owen olhou para a Holly ao seu lado e ela sorriu para ele, com o ar de quem j sabia, Eu disse-lhe.
Mais tarde, naquela noite, depois de ter apanhado o transporte pblico para a cidade e passado  mquina os seus apontamentos, Owen desceu do apartamento para ir
a uma cabine telefnica na esquina da rua e telefonar para casa. Foi a Ellen quem atendeu o telefone.
No devias telefonar, advertiu ela. Tu no tens dinheiro para andar a fazer chamadas de longa distncia.
Preciso de saber o que se passa por a, Ellen.
Bem... parece-me que j posso falar. O pai est a dormir na sua cadeira e a Meggie saiu para ir fazer uma visita ao Rusty na antiga casa dos trabalhadores.
O Rusty est a sair-se bem? Ele est a fazer um bom trabalho?
Est a fazer exactamente o que tu lhe disseste e faz tudo to bem como
tu. Disse ela num tom sarcstico. Mas quase parece que temos uma visita de John Wayne. A Meggie e o pai comportam-se como se o tipo fosse o dono da lua. O pai at
o deixa ganhar ao domin.
Ele j encontrou mais vitelos abortados?
No. O veterinrio diz que o problema pode ter terminado. Ela hesitou. O Rusty tem andado a falar em fazer reproduo artificial. A falar ao pai das vantagens de
no ter as dores de cabea de manter os touros e de no ser preciso preocupar-se com a propagao das doenas venreas, quando se introduz o esperma congelado nas
vacas.
O Clancy no est a dar ouvidos ao Rusty pois no?
Est, sim senhor. Esteve sentado com o Rusty depois do jantar a folhear um catlogo AL. Estiveram a tomar nota dos preos do smen de certos touros e todo esse gnero
de coisas.
Isso  uma loucura. A inseminao artificial no  rentvel quando se criam vitelos para irem para a engorda.
Bem... isso  outra questo. O Rusty tem andado a falar sobre a vantagem de mudar para uma operao registada. Diz que est na altura certa de fazer isso, uma vez
que muitas vacas tm de ser substitudas de qualquer modo.
Owen ficou to estupefacto que no conseguiu responder.
O pai no concordou propriamente com isso, disse a Ellen para o animar. Mas tambm no discordou.
Nem posso acreditar numa coisa dessas. Alguns anos atrs, quando ele tinha dinheiro para alterar as coisas e eu mencionei a possibilidade de termos uma manada registada,
ele at subiu aos arames.
Eu sei, concordou a Ellen.
Qual  a sugesto de Rusty Campbell para pagarmos vacas de criao de raa pura e um programa LA.?
Ainda no se falou nisso.
Tu ou a Meggie deviam explicar-lhe que estamos falidos, antes que meta mais dessas ideias na cabea do Clancy.
Ento a Ellen lanou-se num monlogo cheio de amargura, dizendo que no conseguia explicar nada ao Rusty porque a Meggie monopolizava-o completamente, dizendo que
tudo tinha mudado desde que o Owen tinha ido embora, dizendo que no ia continuar a cozinhar e a fazer limpeza para pessoas que a tratavam como se fosse um co rafeiro.
Owen procurou acalm-la. Depois de a ter acalmado, perguntou-lhe por Michelle Wheeler.
No a tenho visto nem ouvido nem tenho tido notcias dela, disse Ellen.
Eras capaz de lhe telefonar... para saber se est tudo bem... por favor? Vou tentar, disse a Ellen. Agora tenho de desligar. O pap acordou. A linha foi desligada.
Pousou o receptor e ficou ali na avenida barulhenta
durante alguns minutos, a olhar para o vazio. Quando voltou para o apartamento e comeou a subir as escadas, ia a caminhar devagar, levando consigo um fardo de culpa
e de preocupao.
4
Na quinta-feira dia do julgamento, Owen entrou no tribunal com um pouco mais de confiana e subiu rapidamente as escadas apinhadas de gente e penetrou no mar de
gente que estava  entrada da sala de audincias nmero 6. A fila de espectadores ia-se deslocando impacientemente atrs das cordas de veludo. Os reprteres estavam
em grupos, verificavam os blocos de notas e engoliam o ltimo caf antes de ir para dentro.
Quando chegou s portas duplas, mostrou de relance o seu novssimo carto de imprensa e fizeram-lhe sinal para passar  frente da fila de espectadores e das mulheres
que faziam croch. Viu Phyllis e baixou a cabea enquanto passava lentamente por ela atravs das portas duplas. L dentro havia uma atmosfera de silncio semelhante
 de uma biblioteca. A seco da imprensa estava escassamente ocupada, mas todos os artistas importantes estavam no seu lugar, o juiz e os seus lacaios, a defesa
e a acusao e a maior parte dos oficiais de diligncias.
. Viu Holly mesmo  sua frente e hesitou, sem saber se devia dizer ol, ou deslizar discretamente para um lugar na fila da retaguarda, mas ela avistou-o e fez-lhe
sinal para ir para a frente.
Sente-se aqui, ordenou-lhe ela, chegando-se para o lado no banco, para lhe dar lugar junto  passagem. Ele guardou o seu saco por baixo do banco fixo e olhou  sua
volta. Era um lugar espectacular. Mesmo  sua frente estavam Brown e Dapolito.  sua direita tinha uma vista sem obstculos para a bancada do jri.  sua esquerda
estava a mesa da defesa.
Encontrava-se suficientemente prximo para poder ver todos os pormenores. Via os semi-crculos humedecidos por baixo das mangas do casaco do fato de Spencer Brown
e as manchas de cabelo rarefeito na cabea de Charlie Rossner. Os ganchos que seguravam o cabelo de Lenore Serian e a linha delicada dos seus ombros por baixo da
camisola grossa. Se ao menos ela se voltasse para o lado. Ficou a olhar para as costas dela, desejando que se voltasse. Ou pelo menos que se virasse para Rossner,
de maneira que pudesse ver-lhe parte do rosto.
A examinar a estrela principal? perguntou-lhe a Holly.
A tentar.
#Ela no  assim to atraente. No consigo compreender toda esta excitao de ela ser considerada uma deusa do sexo.
Dapolito coava furiosamente o pescoo, Brown murmurava por entre dentes o hino da fora area sob a respirao e Rossner lia um monte de papis que lhe eram passados
pelo seu assistente.
Owen inclinou-se para a Holly para lhe sussurrar, Sinto uma certa estranheza em estar aqui sentado to prximo de todos eles.  como se estivssemos a comportar-nos
como intrusos.
Logo se habitua a isso.
Na verdade at podamos falar com eles daqui.
No faa isso. O juiz Pulaski no ia gostar nada.
Relanceou os olhos para trs, para os outros reprteres a entrar em fila para os bancos atrs dele. Eu devia sentar-me muito mais atrs. No preciso de estar aqui
 frente.
Esquea, disse a Holly. Voc est comigo e este  o meu lugar. O nico motivo por que no nos sentmos aqui ontem depois do almoo, foi porque o pessoal daquela
ranhosa revista francesa ocupou todo este banco durante a tarde inteira.
Esto todos os lugares reservados?
No. Mas ns, os profissionais habituais, temos todos os nossos territrios marcados.
Virou a cabea para incluir uma mulher que estava sentada do outro lado dela. No  verdade, Pat? Todos ns temos os nossos territrios, no temos?
Tal como as hienas. A mulher soltou um riso abafado e inclinou-se para a frente de Holly para estender uma mo toda guarnecida de prata e turquesas. Eu chamo-me
Pat Melville, disse ela. Patricia Velez Melville. Voc deve ser o escritor de quem a Holly me esteve a falar esta manh.
Owen Byrne, disse ele, devolvendo-lhe o forte aperto de mo e pensando que apertar as mos s mulheres estava a comear a parecer normal.
A Pat  reprter do jornal regional e colaboradora da Imprensa Associada. A Holly piscou os olhos para ele. Ela  uma fonte de informao nesta rea, para o caso
de voc querer respostas para algumas das suas perguntas.
Ento voc  uma habitante local? perguntou ele.
A Pat riu-se. Depende de quem faz a pergunta. Vivi aqui durante nove anos. Sepultei o meu marido aqui no cemitrio. Mas ainda se referem a mim como aquela mulher
mexicana do Arizona.
De algures na sala, ouviu-se uma voz licenciosa a perguntar, Descreveria a camisola de Lenore como cor de ferrugem ou arruivada?
A cor arruivada sempre me fez lembrar batatas, algum respondeu.
Mantenham-se em silncio, gente! advertiu um oficial de diligncias.
Ouviste dizer se o juiz j decidiu quanto ao depoimento de Nellicliff? sussurrou Pat.
Ainda no tomou nenhuma deciso, respondeu Holly.
Mas eles vo prestar declaraes hoje?
Supostamente.
Um homem que estava atrs da Pat tocou-lhe levemente no ombro, e ela voltou-se para conferenciar baixinho com ele. A Holly inclinou-se para o outro lado e encostou
a sua cabea  de Owen. Ento est ou no a escrever um livro sobre isto?
No sou eu quem decide, confessou ele. Tenho de formular uma proposta de trabalho e  preciso que o editor goste dela.
Ena, que grande tenso, heim?
Sim.
Mas tambm est a divertir-se, no est? A Holly fez um largo sorriso. Quero dizer, no  assim to difcil de resistir ao homicdio.
Ouviu-se o som de uma pancada, vinda de um canto do fundo da sala. Todas as cabeas se viraram para olhar e ele seguiu-as automaticamente. Um par de tcnicos de
som estavam a resolver o problema de alguns fios cados no cho e a procurar uma boa posio para colocar uma cmara de televiso. A televiso no era autorizada
no julgamento, mas ia haver um breve perodo de filmagem mais tarde, para um documentrio sobre o sistema judicial em Nova Iorque. Ele olhou por instantes, depois
voltou-se para trs. Toda a gente na frente ficou a olhar para o motivo da distraco. O juiz tinha levantado os olhos de um mao de papis e estava a olhar para
o movimento com um olhar severo, os oficiais de diligncias, o oficial de justia e o escrivo estavam todos paralisados. Dapolito e Brown olharam por cima dos ombros.
Rossner tinha mudado a cadeira de posio. E Lenore... lentamente, Lenore Serian voltou-se.
O olhar dela roou mesmo por ele. To perto que ele podia ter chamado a sua ateno com o mais leve movimento. Mas ficou muito quietinho. A observ-la, como teria
observado uma criatura rara que tivesse vislumbrado na floresta. E viu que ela no era a sereia cruel da fotografia do jornal nem a criana-mulher vulnervel do
dia anterior. Ela era forte e com compostura e senhora de uma elegncia comedida.
De repente as portas abriram-se de par em par para os espectadores e Lenore voltou de novo o olhar para a frente. Ele retomou a respirao. Foi posta ordem no tribunal
e o jri foi anunciado dois a dois. Hoje estavam calmos, passando os olhos pela sala enquanto tomavam os seus lugares. Alguns lanaram olhares furtivos  arguida,
antes de prestar ateno aos comentrios do juiz naquela manh.
O jurado nmero sete parece muito preocupado, sussurrou a Holly. Antes de Owen poder contar os lugares e saber quem era o nmero sete, a
Pat inclinou-se a dizer, Descobri que a nmero trs faz pinturas a leo de animais de estimao das pessoas.
No! A Holly folheou o seu bloco de notas. Pensei que a trs fosse aquela que tem a loja de produtos de beleza na garagem.
A Pat abanou a cabea. Ests a confundi-la com a dez. Lembra-te em Voire Dire...
Owen ouviu e escrevinhou algumas notas, espantado com o facto de hoje perceber muito mais do que ontem. Conseguia seguir a conversa enquanto as
duas mulheres saltavam dos jurados individuais para uma caracterstica da seleco do jri, para a deciso do juiz de que no daria autorizao  acusao para questionar
as testemunhas da brigada de salvamento sobre visitas anteriores de auxlio a casa dos Serians.
Para Owen, o processo criminal tinha assumido a simetria geomtrica de um jogo de mesa. Comeou com o crime, depois saltou sucessivamente para o jri de acusao,
para o processo-crime, as audies antes do julgamento, a seleco do jri, as declaraes de abertura, o corpo do julgamento, as alegaes finais, as deliberaes
do jri e finalmente o veredicto. Era um jogo entre duas equipas a acusao contra a defesa e embora fosse a acusada quem ganhava ou perdia, parecia que ela no
participava no jogo.
Owen saltou uma pgina em branco no seu bloco de notas. A Holly tinha-se oferecido para partilhar com ele as transcries reais do julgamento, mas mesmo assim ele
queria tomar as suas notas. Queria as suas prprias impresses no papel e no queria ficar demasiado dependente da generosidade da Holly.
O oficial de justia levantou-se e pigarreou com bastante intensidade. O povo chama Reggie Howland.
No era permitido s testemunhas estarem na sala de audincias excepto enquanto estavam a prestar declaraes, por isso um guarda tinha de se inclinar para a porta
e fazer sinal para a testemunha entrar. Howland, um homem de rosto anguloso, com uma ma de Ado proeminente, deslocou-se ao longo da passagem central com um ar
constrangido, passou pela porta da balaustrada de madeira e subiu para o banco das testemunhas. Colocou a mo direita sobre uma velha Bblia, segurada pelo oficial
de justia, e levantou a mo esquerda para o alto.
Jura dizer toda a verdade e nada mais que a verdade assm Deus o ajude? As palavras do funcionrio foram ditas em srie, de modo que lhes faltou tanto a entoao
como o significado.
Juro, disse Howland, enquanto as suas orelhas adquiriram um vermelho carregado.
Sente-se por favor.
Howland sentou-se no banco das testemunhas e o oficial de justia voltou para a sua secretria, abriu o livro de registos e disse, Em voz alta e clara, diga por
favor o seu nome completo e a sua morada, para que fique registado e soletre por favor o seu ltimo nome. Tanto o oficial como o escrivo registaram a informao
ao mesmo tempo que era dita pela testemunha.
Spencer Brown levantou-se de um salto do seu lugar, com o fato retesado nos seus ombros largos, como se de repente se tivesse dilatado.
Bom dia, senhor Howland. Brown sorriu. Podia dizer-nos qual  a sua profisso e em que outras actividades ocupa o seu tempo?
Sou agricultor e bombeiro voluntrio. H quanto tempo  agricultor?
H cerca de quinze anos.
E h quanto tempo  bombeiro voluntrio?
H cerca de quatro anos.
Durante esses quatro anos como bombeiro, teve algum treino especial relativamente aos seus deveres de bombeiro?
Com certeza. Estamos sempre a ter reunies e sesses de treino com especialistas vindos de toda a parte.
Esse treino inclui instruo na utilizao do telefone?
Algum. Temos de saber o que devemos perguntar s pessoas que telefonam e como acalm-las e como obter informaes. Esse tipo de coisas.
Portanto o senhor tem experincia e est bem preparado para obter informaes das pessoas que lhe telefonam.
Faz parte do meu trabalho.
E qual  o procedimento para o registo de uma chamada de emergncia? Toma notas ou existe algum procedimento formal escrito?
Temos um dirio de registos mesmo ao lado do telefone. Preenchemos o nome e a direco e as indicaes do caminho para l chegar, e depois h uma seco de notas.
Qualquer coisa de especial sobre as indicaes ou sobre o que as pessoas dizem, como por exemplo, se h eventuais leses ou se o incndio est a propagar-se ou outra
coisa qualquer.
Dapolito entregou a Brown uma folha de registo rectangular e Brown exibiu-o. Houve uma troca de impresses em que o juiz falou com Brown e Rossner a respeito do
registo. Depois disso foi tomada em considerao como prova testemunhal, foi registada e foi-lhe atribudo um nmero de identificao pelo oficial de justia.
Agora, senhor Howland, o senhor estava de servio na manh do dia sete de Agosto?
Com certeza que estava. Fui eu que atendi o telefone quando chegou a chamada de casa dos Serians.
Pode indicar-nos essa chamada no dirio de registos, por favor?
Aqui est. Mesmo aqui.
Pode pegar neste lpis vermelho e fazer um crculo  sua volta, por favor?
Quer que faa um crculo em volta de tudo, ou s do princpio ou o qu, porque eu no quero escrever onde no devo.
E se colocasse simplesmente a chamada entre parnteses?
Como?
Coloque simplesmente uma marca onde comea o registo e outra marca onde acaba.
J percebi. Aqui. Pronto.
Pode ler, por favor, o que assinalou entre esses parnteses?
Ahh... quatro horas e vinte e cinco minutos da manh. Quinta dos Serians. Estrada nacional nmero 13, cinco milhas a sul da mercearia do Gruber. Estdio de arte.
Possvel morte. Casa em perigo. Mulher que deu a informao Natalie Raven.
Quando registou a entrada no dirio de registos?
Fi-lo enquanto estava a falar com a mulher.
Enquanto ela estava a falar consigo ao telefone?
Ou talvez tenha escrito algumas palavras depois de ter desligado, mas foi principalmente enquanto ela estava a falar.
Posteriormente a ter registado isto, o que  que fez?
Depois disso, quer voc dizer?
Sim.
Dei o alerta a todo o pessoal e chamei a brigada de salvamento e pus o camio a trabalhar.
Ento o tempo  essencial, quando recebe uma chamada de emergncia como esta.
Com certeza.
Consegue, de um modo geral, registar todas as palavras que diz a pessoa que telefona, numa chamada de emergncia?
No. Receio bem que no. Algumas pessoas tornam-se muito faladoras quando esto nervosas.
Houve alguma coisa que a pessoa que telefonou por causa dos Serians tivesse dito e que voc no tivesse tido oportunidade de registar?
Com certeza. A menina Raven... a pessoa que telefonou... estava a berrar e a gritar e tudo isso.
Recorda-se do que ela disse quando estava aos berros e aos gritos que no conseguisse registar no dirio?
Nem tudo. Mas houve coisas que me deixaram perplexo. Ela sucumbiu logo depois de me dar as orientaes... a gritar que nos despachssemos... dizendo, Ela est a
queim-lo. A queimar tudo. Eu sei que ele est morto. Esse gnero de coisas ficam gravadas na cabea dum gajo.
Foram exactamente essas as palavras? Ela est a queim-lo. Ela est a queimar tudo. Eu sei que ele est morto.
Foi isso mesmo que ela disse.
O senhor reagiu de alguma maneira na sequncia dessas palavras?
Desculpe, no estou a compreender.
Tomou algumas providncias especiais por causa do que ela disse?
Chamei a brigada de salvamento por causa da gritaria dela de que algum estava morto, se  isso que quer dizer.
Obrigado, senhor Rowland. Brown voltou-se e dirigiu-se para a mesa de acusao.
Rowland levantou-se.
Rossner levantou-se.
O juiz, que tinha estado debruado sobre um bloco de apontamentos do tribunal, a tomar notas, empurrou os culos para cima do nariz e inclinou a cabea para a testemunha.
Senhor Rowland, mantenha-se sentado, por favor. Parece-me que o advogado de defesa tem algumas perguntas para si.
Oh... com certeza. Com certeza. Com as orelhas a ficarem vermelhas mais uma vez, Rowland deixou-se cair novamente na cadeira e pestanejou muito.
Charles Rossner hesitou por instantes, como se estivesse absorto em pensamentos. Ficou a meio caminho entre a mesa da defesa e a testemunha, com as calas amarrotadas
e a gravata um pouco torta, a olhar para as janelas cobertas de plstico por detrs do jri. Depois coou o queixo e voltou-se para a testemunha com um sorriso.
Ol, senhor Rowland. Eu sou Charlie Rossner. Como est o senhor?
Ah... bem. Estou bem, obrigado.
H quanto tempo disse que era bombeiro voluntrio?
Cerca de quatro anos.
Isso  digno de louvor.  um trabalho duro, no ?
Oh, com certeza. s vezes  mesmo muito duro.
E dir-se-ia que  um trabalho que gera muita tenso?
A coisa com mais tenso que eu j fiz, com toda a certeza.
Alta tenso no local de um incndio?
Pode crer.
Mas comea ainda antes disso, no  verdade? No momento em que atende uma chamada de emergncia existe tenso, no existe?
Com certeza. A chamada  mesmo importante.  preciso obter a informao certa e se o incndio  fora, no campo, temos de certificar-nos de que as indicaes para
chegar ao local so claras.
Quanto tempo da sua instruo  de facto dedicado  recepo de chamadas telefnicas?
Bem, ouvimos uma pessoa a discursar sobre isso e deram-nos algumas instrues sobre o que devemos perguntar  pessoa que telefona.
Houve alguma simulao do trabalho de atendimento do telefone durante a qual pudesse praticar o atendimento de chamadas?
No.
Foi-lhe dada alguma instruo sobre o modo de proceder no atendimento do telefone?
No propriamente.
Atendeu muitas chamadas telefnicas durante os seus quatro anos? Howland hesitou. H outros indivduos que fazem mais atendimento do telefone do que eu.
Oh? Ento o senhor no  habitualmente a pessoa que atende as chamadas de emergncia, como a chamada de casa dos Serians?
Podia colocar as coisas dessa maneira, mas isso no quer dizer que eu no seja capaz de lidar com a situao.
Rossner fez uma pausa, torceu a cara numa expresso pensativa e confusa e coou a cabea.
Vamos recapitular. O senhor atendeu muitas chamadas de emergncia durante os seus quatro anos?
Algumas.
Como descreveria essas chamadas?
O que quer dizer com isso?
As chamadas so de algum modo semelhantes?
Todos os incndios tm uma histria diferente.
As chamadas so calmas e racionais?
s vezes. Se for um incndio num matagal ou num barraco abandonado ou qualquer coisa do gnero.
E quando  numa casa ou num celeiro? Esses telefonemas so calmos?
No.
Ser correcto dizer que essas chamadas so histricas? Difceis de compreender?
Podem ser.
Como a chamada dos Serians?
Sim, como a chamada dos Serians.
As pessoas que telefonam costumam estar assustadas?
Sim.
Perturbadas... nervosas?
Normalmente.
E essas pessoas que telefonam... as que esto assustadas ou perturbadas... falam com clareza?
A maioria delas no.
O que dizem faz sempre sentido?
No.
Mesmo para algum com experincia... pode ser difcil compreend-las?
Com certeza.
Por exemplo, quando escreveu o nome da pessoa que telefonou no dirio de registos, o que escreveu?
Natalie Raven.
Rossner sorriu condescendentemente. Por que no abre o dirio e refresca a sua memria, senhor Rowland.? O que foi que escreveu primeiro? A parte que foi apagada
e corrigida posteriormente. Todo o rosto de Rowland ficou vermelho escarlate. Escrevi Nellie Raymond e mais tarde algum corrigiu-o com o nome correcto. Isso no
tem nada de mal.
Quando estava a atender o telefone e a falar com a outra pessoa, o senhor pensou que ela tinha dado o nome como sendo Nellie Raymond?
Sim.
Porque no conseguiu compreender a mulher a dizer Natalie Raven no  verdade?
Exactamente! Ela falava depressa e estava a choramingar. Mas eu cumpri a minha tarefa. Mandei o camio para onde era suposto ir.
E graas a isso a casa dos Serians foi salva.
Parece-me que se pode dizer que sim.
E isso  que  importante, no ? E no o que foi dito ao telefone.
Tem toda a razo.
No pode dar-se ao luxo de perder muito do seu valioso tempo a ouvir pessoas histricas, no  verdade?
No. Temos que pr a organizao a funcionar.
Por isso no tem tempo para se preocupar se ouviu Nellie Raymond em vez de Natalie Raven?
Exactamente.
Ou se a pessoa que telefona diz ele ou ela... duas palavras que tm um som parecido?
Exacto.
Portanto a pessoa que telefonou podia ter dito, Ele est a queim-lo. A queimar tudo. Eu sei que ele est morto?
Rowland olhou para Spencer Brown com ar apologtico. Sim, parece-me que sim.
E no tem tempo para reconsiderar o que ouviu, ou se ouviu alguma coisa correctamente, pois no?
No.
Muito bem, agora, depois de ligar o alarme, o que fez?
Peguei no meu material e subi para um camio para ir combater o incndio.
E foi o primeiro a chegar?
No. Ted Waterhouse vive para aqueles lados e chegou l antes de ns.
Falou com ele ou com qualquer um dos outros bombeiros sobre a chamada telefnica?
No.
No falou com ningum sobre a chamada? A dizer que estava preocupado com o significado daquilo?
No.
Ento naquela altura, fosse o que fosse que pensasse ter ouvido, no lhe parecia assim to sinistro nem suspeito?
Acho que no pensei muito nisso naquela altura.
No pensou que parecesse suspeito?
Parece-me que no.
Quando comeou a pensar nisso?
Depois de o xerife comear a fazer-me perguntas.
Quantos meses depois do incndio teria sido isso, senhor Howland?
Oh, talvez dois.
O senhor no tinha a certeza do que tinha ouvido e no achou que parecesse suspeito at dois meses depois do incndio, quando o xerife comeou a fazer-lhe perguntas?
Acho que foi mesmo isso.
Obrigado senhor Howland.
Foi chamada a segunda testemunha de acusao. Mais uma vez houve os preliminares de rotina; depois Brown aproximou-se da testemunha. Ted Waterhouse era to parecido
com Spencer Brown que podia ser o seu irmo mais novo.
Bom dia, senhor Waterhouse.
Dia, Spence.
Pode dizer-nos qual  a sua profisso?
Fao reparaes de aparelhos elctricos... mquinas de lavar roupa, secadores, frigorficos... fao tudo. At fiz uma reparao do seu aparelho para exerccios de
remo, no fiz? Sorriu orgulhosamente. E tambm sou bombeiro voluntrio.
H quanto tempo est na actividade de reparao de aparelhos elctricos?
Desde que sa da escola secundria. Fez cinco anos no passado ms de Junho.#H mais ou menos um ano. De certo modo senti que o meu nome... Waterhouse... estava de
acordo com o trabalho. Sorriu e olhou para a assistncia  espera de uma reaco  sua observao jocosa.
Houve alguns risos abafados por toda a sala de audincias. A boca de Brown rasgou-se num sorriso firme e mecnico.
Acorreu ao incndio em casa dos Serians?
Sim. Vivo para aquelas bandas, sabe, e quando recebi a chamada estava a menos de cinco minutos dali.
J alguma vez tinha tido a oportunidade de visitar a casa dos Serians antes da chamada por causa do incndio?
Sim, tinha. Tinha feito a reparao do frigorfico algum tempo antes. E precisamente duas semanas antes do incndio Natalie chamou-me para reparar a mquina de lavar.
Portanto estava familiarizado com a casa dos Serians. Sabia qual era o seu aspecto em circunstncias normais.
Exactamente.
Diga-nos, por favor, o que observou quando chegou.
Bem, entrei no ptio e a primeira coisa que vi foi o incndio. S metade do celeiro, ou estdio, parece-me, estava a arder quando l cheguei.
Dapolito apresentou um diagrama do estdio do tamanho de um pster e deu-se incio ao processo da sua apresentao como prova. Depois foi colocado num cavalete de
pintor e Brown perguntou  testemunha, Qual a parte do estdio que viu a arder?
Waterhouse indicou a parte do estdio onde tinha sido a rea de convvio de Serian e onde a posio do corpo estava marcada com um desenho linear.
Conseguiu olhar para o interior deste edifcio em chamas? perguntou Brown.
Sim. A porta estava completamente aberta e olhei l para dentro e toda aquela parte era uma muralha de chamas. Sabia que se havia l algum, j tinha passado o momento
em que o salvamento era possvel.
Ento o senhor conseguiu olhar para o interior porque a porta do estdio de arte de Bram Serian se encontrava completamente aberta?
Sim.
Que mais notou  sua chegada?
Vi toda aquela fila de gente a tentar fazer uma brigada de baldes e vi a senhora Serian de p, junto s rvores.
E reparou no que a senhora Serian estava a fazer?
Ela estava simplesmente a olhar.
Quando chegou ao local com o seu material e vestido de uniforme, ela correu para si e...?
Protesto! gritou Rossner. Est a conduzir a testemunha.
Deferido, respondeu o juiz imediatamente. Reformule, Dr. Brown. Com um ar de aborrecimento indulgente, Brown perguntou  testemunha
Se tinha consigo toda a parafernlia oficial de combate ao incndio.
Com certeza. Tinha o meu chapu na cabea e o casaco vestido e as botes caladas e transportava o material.
Ento o senhor era imediatamente identificvel como a primeira figura oficial que tinha chegado ao local?
Sim.
Qual foi a reaco, quando foi reconhecido pelas pessoas que se encontravam no local?
Algumas comearam a gritar coisas como Graas a Deus, ou faa qualquer coisa. A menina Raven veio a correr e a gritar e a chorar, tentando arrastar-me para junto
do incndio. Dizendo-me que entrasse no edifcio e salvasse Bram Serian.
E o que fez a senhora Serian?
Nada. Limitou-se a ficar a olhar, mesmo com o aspecto de quem estava muito calma.
O que aconteceu a seguir?
Ouvi outros carros a chegar e corri a contar aos outros camaradas o que se estava a passar.
Brown agradeceu  testemunha e foi sentar-se; ento Rossner levantou-se e afastou-se sem pressa da mesa, com as mos nos bolsos e um sorriso afvel no rosto. Dia,
senhor Waterhouse. Eu sou Charlie Rossner.
Waterhouse encostou-se para trs e cruzou os braos. Eu sei quem  o senhor, disse ele.
Muito bem, muito bem. Porque eu tambm sei quem  o senhor, o senhor  o melhor tcnico de reparaes nesta cidade, no  verdade?
 o que dizem. Waterhouse encolheu os ombros e deixou descontrair os braos.
O senhor reparou a mquina do Dr. Brown e reparou o frigorfico dos Serians, no  verdade?
 verdade.
E os Serians ficaram to satisfeitos com o trabalho que o senhor fez no frigorfico que voltaram a cham-lo para reparar a mquina de lavar, no  verdade?
 verdade.
Rossner sorriu. Parece-me que os artistas famosos tambm tm os seus aparelhos avariados tal como todos ns.
Isso  verdade. Waterhouse sorriu e vrios membros do jri soltaram risos abafados.
Quando  que foi l reparar a mquina de lavar?
Na semana antes do incndio.
Uma semana antes?
Mais dia menos dia. Teria de verificar para dizer com exactido.
Assim est muito bem. Ento e o que se passava com a mquina de lavar roupa de Bram Serian?
A sada de gua estava obstruda e no conseguia fazer o escoamento durante o ciclo do movimento rotativo.
Podia explicar-nos melhor?
Brown levantou os braos com ar de indignao. Meritssimo... esta linha de interrogatrio no leva a lado nenhum. O Dr. Rossner est a pescar.
Pulaski relanceou um olhar para Rossner.
Eu asseguro, Meritssimo, que podemos andar  pesca na mquina de lavar roupa, mas sabemos o que procuramos e  relevante.
Indeferido, disse o juiz bruscamente. Mas no brinque com o tribunal, Dr. Rossner.
Rossner fez uma vnia com a cabea para o juiz, depois voltou a sua ateno de novo para a testemunha. Continue... por favor... insistiu ele.
H um tubo de borracha mais ou menos deste tamanho, Waterhouse serviu-se do polegar e do dedo indicador para formar um crculo, que vai do fundo da cuba da mquina
para a bomba. Quando a mquina escoa, a gua tem de passar por aquilo. Mas havia qualquer coisa no tubo e por isso a gua no conseguia escoar to depressa como
devia.
Muito bem. Estou a perceber o que est a dizer. Ento o senhor teve de colocar-se ali por baixo e tirar o que estava a obstruir o tubo de borracha.
Exactamente.
O que era?
Waterhouse ficou perplexo e relanceou um olhar para Brown, como que a pedir-lhe conselho.
O que era senhor Waterhouse? repetiu Rossner.
Deixe-me ver... Tiro tantas coisas... Ficou de olhar carregado, em sinal de concentrao mental, mas alguma coisa nesta expresso fez Owen desconfiar que a testemunha
estava a fingir e que a sua memria era perspicaz. Finalmente disse, Um isqueiro. Foi isso. Um isqueiro para acender cigarros.
Pode descrev-lo para ns?
Bem, era mesmo bonito. De prata. Com trabalho de gravao. Como por exemplo uma fivela de um cinto de fantasia. E a inicial S mesmo no meio.
Como acha que o isqueiro foi parar ao tubo de borracha da mquina de lavar?
Isso  fcil. Acontece a toda a hora. As pessoas deixam coisas nos bolsos e a roupa  atirada para a mquina e l vai.
O que fez com o isqueiro?
Dei-o a Natalie.
A Natalie Raven, a governanta?
Acho que sim. Quero dizer, nessa altura eu no sabia que ela era a governanta, mas foi a ela que o dei.
Que posio achava que ela tinha naquela casa?
Desta vez o protesto de Brown foi aceite. Rossner ficou com ar pensativo por momentos, depois recomeou o seu interrogatrio de uma forma um pouco diferente.
Natalie Raven disse-lhe que ela era qualquer coisa mais do que uma governanta?
Waterhouse manifestou-se constrangido. No... no exactamente.
O que lhe disse ela exactamente?
No foi to importante o que me disse, mas mais a maneira como se comportou.
E como se comportou ela?
O protesto de Brown foi dito num tom lamuriento que Owen achou incmodo, mas o protesto foi aceite.
Rossner fez novamente uma pausa, depois abandonou aquela linha de interrogatrio para voltar  sequncia original. Natalie Raven disse alguma coisa quando o senhor
lhe deu o isqueiro?
Waterhouse hesitou e relanceou novamente um olhar para Brown. Brown colocou a mo em frente dos olhos a servir de escudo, como se estivesse a esconder-se.
O que fez Natalie Raven quando o senhor lhe entregou o isqueiro? repetiu Rossner.
Praguejou e disse que o Bram tinha comeado novamente a fumar.
Consegue recordar exactamente como ela disse isso... praguejar e tudo?
Waterhouse levantou os olhos para cima, para o juiz, como que a pedir autorizao e o juiz acenou-lhe com a cabea em sinal de assentimento. Ela disse, Aquele Serian
maldito e covarde comeou novamente a fumar, ou qualquer coisa parecida com isso.
Aquele Serian maldito e covarde comeou novamente a fumar? Waterhouse baixou os olhos, para as mos. Sim.
Muito bem... Rossner fez uma pausa e fez alguns movimentos. Voltando  noite do incndio...
Rossner conduziu a testemunha atravs da noite do incndio mais uma vez, sem revelar nada de novo; ento o juiz anunciou a suspenso das actividades para o intervalo
do almoo.
Owen foi almoar com a Holly e Pat Melville. A insistncias da Pat, foram a um restaurante chins, onde a comida tinha o sabor da variedade enlatada que a Ellen
servia s vezes em casa. Comeu o prato especial do dia e escutou o que Pat Melville dizia enquanto falava do panorama local.
Bram Serian sempre se ajustou bem por estes lados, disse a Pat. No  que tivesse feito amigos ntimos... No era isso. Ele era propriedade da comunidade. Era a
celebridade desta regio. E toda a gente gostava muito dele porque no se metia onde no era chamado e vestia-se como um rapaz do campo e falava a linguagem apropriada
no armazm de raes. Mas a Lenore
a Pat abanou a cabea a Lenore colheu sempre antipatias. As suas origens eram suspeitas, bem como a sua relao com o Serian e toda a gente achava que ela era fria
e arrogante.
Como era de facto a vida deles na Arcdia? perguntou Owen.
Pelo que tenho ouvido, o Serian tanto estava em casa como estava fora,
explicou a Pat. Mas a Lenore no saa de l.
Ela tinha amigos na localidade?
No. Nem um. E raramente se via na cidade com ele. Ouvi dizer que ela no sabia conduzir, portanto isso talvez explique que assim fosse. Mas as pessoas que tinham
contacto com ela dizem que ela era como um autntico fantasma e que gostava de ficar l escondida.
Acho isso difcil de acreditar, disse a Holly. Uma mulher precisa de ter  sua volta amigos ou familiares. Especialmente quando est encravada ali no campo e o marido
passa muito tempo fora de casa. Deve ter tido algum para lhe fazer companhia.
Achas que o Ted, o tcnico de aparelhos domsticos, fazia outras coisas por l, para alm de reparar mquinas de lavar roupa? perguntou a Pat sarcasticamente.
Bem,  possvel, no ? disse a Holly. Toda a gente diz que ela tinha relaes sexuais com os amigos do marido... por que no tambm com indivduos das redondezas?
Talvez, concordou a Pat. Mas por que no apareceu nenhum indivduo que avanasse a reclamar a conquista? Agora que o Serian est morto, esperava-se que pelo menos
um desses amantes secretos desse um passo em frente e se vangloriasse.
A Holly encolheu os ombros. Quem sabe se ele no teria motivos para se manter em silncio. E mesmo que avanasse, Rossner podia arranjar maneira de impedir que prestasse
depoimento. Olha para os Nellicliffs... eles tm informaes a acrescentar mas ele est a tentar impedir que sejam ouvidos.
No caminho de regresso para o tribunal, Owen reparou que tinha aprendido muito pouco com os testemunhos at agora e que todo o procedimento era ineficaz e em muitos
casos absurdo; as horas de interrogatrio para esclarecer factos que pareciam to insignificantes como gros de areia na praia, seguidos de uma enorme energia perdida
em especulao e falatrio.
Porm, isso tambm era necessrio. E ele no queria perder um nico momento.
Depois do almoo, o juiz finalmente tomou uma deciso sobre o testemunho dos Nellicliffs. A deciso foi anunciada antes de o jri entrar, de modo que o jri no
fazia ideia do que se estava a passar, nem que tinha havido uma discusso sobre a prxima testemunha a depor.
Earl e Ida Nellicliff eram enfermeiros reformados que dirigiam um servio mdico voluntrio de ambulncias. Estavam entre os muitos que convergiram para a Arcdia
naquela manh de Agosto e presumivelmente tambm tinham os seus gros de areia a acrescentar ao caso da acusao. No entanto, o depoimento em que Spencer Brown estava
interessado em registar eram as consideraes do casal sobre anteriores chamadas de emergncia a casa dos Serians. Havia rumores de que estes relatos eram extremamente
prejudiciais para Lenore Serian.
A sala de audincias estava em silncio absoluto no momento em que o juiz tomou a deciso e leu uma declarao a explicar essa deciso. Os Nellicliffs no poderiam
falar das visitas anteriores. No tinham valor probatrio, disse o juiz, citando vrios casos legais.
Rossner tinha ganho.
Mandaram entrar o jri e Brown abordou todos os movimentos com os Nellicliffs mas o seu depoimento foi pouco significativo. Ambos tinham
concentrado os seus esforos a tratar de leses menores, apoiados pelos bombeiros e pelos convidados no meio de todo aquele caos, e nenhum deles tinha tido contacto
com Lenore Serian.
Rossner no fez o contra-interrogatrio a nenhuma das testemunhas.
O tribunal deu por terminada a sesso do dia s 16.45 horas e a Holly correu a telefonar ao seu produtor de uma cabine telefnica. Owen ignorou o oficial de diligncias
que estava a tentar fazer sair as pessoas da sala e deixou-se ficar na seco da imprensa com os retardatrios que estavam a trocar impresses e estavam a juntar
os seus haveres. Ele estava  espera de que Lenore Serian abandonasse a sua cadeira e se voltasse.
Vamos, pessoal, para fora! ordenou o oficial e Owen, lentamente, pegou no seu saco e levantou-se.
Naquele preciso momento dois guarda-costas avanaram e colocaram-se ao lado de Lenore e ela levantou-se. Voltou-se na sua direco. E Owen podia ter jurado que ela
olhou directamente para ele, embora ela lhe dissesse mais tarde que no o tinha visto. O homem corpulento de rosto avermelhado colocou nos ombros dela uma longa
capa negra com capuz e o homem pequeno de cabelo escuro agarrou-a pelo cotovelo e saram. Caminhando juntos.
Owen caminhou atrs deles. O homem mais pequeno relanceou os olhos para trs, com os seus olhos penetrantes de falco, a avisar Owen para que se mantivesse  distncia,
com um olhar ameaador. O seu nome era Joe Volpe, o que quer dizer raposa em italiano. O seu parceiro de mos fortes e musculosas e de cara avermelhada era Frank
Riley. Eram polcias reformados da cidade de Nova Iorque, que trabalhavam juntos na prestao de servios to especializados e exclusivos que a sua agncia tinha
um nmero de telefone que no vinha na lista. Owen tinha sabido tudo isto pela Holly e pela Pat ao almoo.
Aquele Brown est a suar, ouviu Riley dizer. Devamos comprar ao homem um desodorizante melhor.
Um lado da boca de Volpe fez um trejeito para cima com ar divertido.
Quando chegaram s portas duplas que davam para o corredor, Lenore hesitou. Ento puxou para cima o capuz da capa e fez um aceno com a cabea. Volpe abriu a porta.
Foram atingidos pelos gritos como se fosse uma onda de calor.
Vamos, Lenore! S uma breve declarao.  verdade que consultou outro advogado para alm de Rossner?
Um oficial de diligncias interveio. Vamos l para fora, pessoal! gritou ele, e o pequeno grupo de persistentes reprteres dirigiu-se ruidosamente para as escadas.
Volpe e Riley apressaram-se a levar Lenore para o elevador. Estavam voltados para a frente quando as portas se fecharam e Owen viu que Lenore estava a segurar o
capuz de tal forma que apenas se viam os olhos. Sentiu um arrepio a percorrer-lhe o corpo. Ela parecia um anjo da morte envolvido nas suas vestes negras.
#5
Owen seguiu Lenore Serian at  sada do tribunal e observou a massa de jornalistas e fotgrafos que desciam as escadas e a engoliram logo que ela deixou a relativa
segurana do edifcio. Depois ficou a observar os reprteres de televiso a pr em vdeo as peas para as notcias da noite.
Tomaram posio. Duas equipas tcnicas instalaram-se no interior do trio e os restantes ficaram dispersos l fora ao frio, nas escadas e ao fundo na praa, de maneira
que o tribunal aparecesse em segundo plano. Andou por ali de equipa em equipa, observando e escutando. Havia uma agitao de pessoas a pentear o cabelo e um brilho
repentino de espelhos enquanto se prestava ateno  maquilhagem e aos colares e jias. Uma das mulheres que estava l fora tinha insistido em despir o casaco e
estava a fazer um grande esforo para no tremer de frio enquanto falava ao microfone. Um dos homens estava a discutir com a sua equipa sobre se deviam atravessar
a rua e gravar em frente do hotel para onde se tinham retirado Lenore e a sua equipa de defesa.
No fim cada um deles cumpriu a sua tarefa, terminando com a expresso habitual. Foi Holly Danielson para..., daqui foi Amy Chang para..., daqui foi Gil Flores para...,
foi Leland Wilson para... Todos eles a fazer a reportagem do julgamento do homicdio da Viva Negra. Mas cada uma das reportagens tinha um ponto de vista ou salientava
um aspecto diferente e Owen verificou que os espectadores teriam diferentes percepes do julgamento, consoante o canal que sintonizassem nas suas televises naquela
noite.
Depois de gravar a sua pea, a Holly tentou persuadi-lo a ir jantar com o seu grupo, mas ele disse que no, que estava ansioso por voltar para o seu apartamento
e passar  mquina as suas notas, enquanto estava tudo ainda fresco. Porm, havia outros motivos para a sua recusa. Coisas que no podia dizer  Holly. Que estava
preocupadssimo quanto  maneira como elaborar o projecto que esperavam dele. Que tinha medo do insucesso. E mais. Estava preocupado com a rapidez e facilidade com
que se tinha adaptado quele ambiente. De alguma maneira parecia estar errado. Como se estivesse a trair a sua outra vida. A sua vida real.
Quando chegou a East Village, pouco depois das oito, resistiu aos aromas rantalizantes de comidas exticas e, depois de muito procurar, conseguiu
encontrar um restaurante onde podia comer um hambrguer, ervilhas enlatadas e pur de batata instantneo ensopado em molho de carne, uma refeio to parecida com
as refeies cozinhadas pela sua irm Ellen, que podia fechar os olhos e fingir que estava em casa. S o hambrguer  que no sabia bem. Era melhor o que comiam
em casa porque a carne que tinham no frigorfico vinha de animais do campo, animais que estavam feridos e para os quais no havia remdio, tinham de ser mortos a
tiro e transportados para um talho local. A sua famlia nunca provou a carne seleccionada de novilho alimentado com raes, que era criado para ser consumido pelo
pblico americano.
O jantar no melhorou o seu estado de esprito. Voltou para o seu prdio mas no conseguiu decidir-se a subir. Ps-se a caminhar, circulando pelos quarteires vizinhos
e voltando atrs, at que finalmente trocou algumas notas por moedas e marcou o nmero de Michelle Wheeler de uma cabine telefnica de uma esquina.
Owen! No era suposto telefonares-me.  excessivamente caro.
Sinto saudades de ti, Mike. Queria ouvir a tua voz.
Uhmm... devo ficar desconfiada? Ests a sentir-te culpado por alguma coisa?
No. Apenas tenho saudades tuas.
Eu tambm tenho saudades de ti. Parece to estranho no te ter aqui.
Deves estar sozinha em casa. No ests a falar baixinho, nem a dizer que sou o vendedor de comida para frangos.
Ela riu-se. Tens razo. No h ningum em casa para alm de mim. O pai levou a av a Emporia para ir s compras no Mercado. No sei por que  que ela no pode comprar
a roupa por catlogo, como eu fao.
Talvez seja uma desculpa para ela sair do rancho de vez em quando.
No. Ela nasceu e cresceu neste lugar. At podia morrer sem sentir necessidade disso.
Segundo parece, no no tempo que leva a ir ao Mercado e voltar.
Alto! O que estou a ouvir? J ests a tornar-te um convencido de Nova Iorque?
Owen riu-se.  possvel. Isto  um lugar perigoso para isso.
Uhmm, bem, sendo assim no s castigado. E no digas essa palavra perigoso, j estou suficientemente preocupada contigo. Tens visto muitas... tu sabes... pessoas
negras e drogados e homossexuais e tudo isso?
Mike... Deu um suspiro e reconsiderou o que ia dizer-lhe. As coisas no so como tu pensas que so. As pessoas no so como tu pensas que so. Quem me dera... Mas
como podia ele faz-la compreender que a maior parte das coisas que lhes tinham ensinado e levado a pensar estavam erradas. Pura e simplesmente erradas.
Ele sempre desconfiara que estavam erradas. No, mais do que isso. Sempre acreditara que estavam erradas. Mas agora sabia-o em primeira mo e tinha os rostos reais
das pessoas na sua mente a prov-lo.
Uma voz mecnica interrompeu-os a pedir mais moedas e Owen enfiou a sua ltima moeda na ranhura.
Quem me dera que estivesses aqui, disse ele.
Eu no! Mas gostava que tu estivesses aqui em casa.
No vou demorar, assegurou-lhe ele.
Sim, e eu continuo a pensar na casa. Na nossa casa pequenina. Ser como um milagre.
A minha proposta pode no ser aceite, Mike. Posso ter de voltar para casa sem um vintm.
Nem penses nisso. Tu vais conseguir. Sempre fizeste o que estava certo. A voz mecnica interrompeu novamente e a Mike gritou mais alto, Adeus! Poupa o teu dinheiro
e escreve!
Pousou o telefone e fez um esforo para voltar para o apartamento, mas o telefonema no o tinha acalmado. Se alguma coisa tinha feito, era ter piorado a sua disposio.
Enquanto subia as escadas para o apartamento, pensou que provavelmente devia ter ido jantar com a Holly e a sua cambada. No teria perdido mais tempo do que j tinha
desperdiado e no estaria to deprimido.
Na quinta-feira de manh Owen fez a viagem para cima e entrou no tribunal como se fosse um profissional com experincia que seguia uma rotina. Quando entrou no tribunal,
foi recebido pelos sorrisos de Marilyn, Ray, Sharon e Gil como se fizesse parte do grupo e quando se sentou no lugar junto  coxia, que tinha sido guardado para
ele, a Holly e a Pat cumprimentaram-no calorosamente e envolveram-no na sua conversa em voz baixa sobre os desenvolvimentos.
Chegou Lenore. Ao v-la subir, seguida atentamente por Volpe e Riley, aquilo fez lembrar a Owen um casamento. S que no havia sorrisos nem caras coradas nem hesitaes
envergonhadas. Os passos de Lenore eram regulares e as suas costas estavam direitas e, embora mantivesse os olhos voltados para baixo, havia no seu porte uma atitude
de desafio.
Algures nas filas atrs dele, conseguia ouvir vozes de mulheres a discutir sobre o cabelo de Lenore perguntando-se se ela o usava sempre enrolado daquela maneira,
imaginando que comprimento teria quando estava solto, imaginando se o brilho era natural ou obtido atravs de algum produto de cosmtica. Quando acabaram com o cabelo,
lanaram-se num ataque s suas roupas. Hoje ela trazia mais uma vez um vestido assexuado e deselegante. Desta vez era castanho escuro, e fazia lembrar a Owen os
vestidos que algumas mulheres Amish usavam no Kansas.
Rossner acha que consegue enganar o jri trazendo-a vestida daquela maneira, ouviu dizer uma voz desconhecida.
O Povo contra Lenore Serian!
O anncio familiar era divertido. Era como dizer Vamos jogar  bola! no comeo de um jogo, ou Vamos p-los daqui para fora! quando se comeava a conduzir a manada
de gado. Observou os advogados atentos nas suas cadeiras e pensou como era fcil perceber a sua motivao. Quase conseguia sentir os seus acessos de adrenalina e
as emoes que sentiam por cada Ponto que marcavam.
O jri no foi chamado como habitualmente. Em vez disso, todos os advogados, a arguida, o escrivo e o oficial de justia juntaram-se ao lado do assento do juiz
para uma longa conversa em surdina com este ltimo.
Isto  uma audincia privada, sussurrou a Holly. Logo vou saber qual era o assunto e depois digo-lhe.
E o jri? perguntou Owen.
O objectivo de uma audincia particular  precisamente o jri ficar fora do assunto tratado.
Mas como se pode esperar que um jri faa um julgamento justo se as coisas no lhe so dadas a conhecer?
Justo? Holly repetiu a palavra como se estivesse divertida.  a estratgia que conta, Owen. No  de maneira nenhuma a justia que conta.
Trinta minutos mais tarde, a audincia privada terminou e o jri foi mandado entrar. Owen observou os seus rostos e imaginou quantos teriam vindo para aquele lugar
convencidos de que o seu primeiro dever era fazer justia.
A primeira testemunha da manh foi o Delegado do Xerife Kenneth Havlik. Era um homem novo e de aspecto afvel. Se no fosse o uniforme, podia ter sido alvo de rixas.
Limpou as palmas das mos nas pernas das calas, jurou dizer a verdade e depois limpou-as mais uma vez enquanto dizia o seu nome, morada e posio no departamento
do Xerife, para ficarem registados.
O juiz voltou-se para ele. Tenha calma, Kenneth. Nenhum de ns aqui est armado. Houve uma srie de risadas mas Havlik no se acalmou.
Brown caminhou lentamente e sorriu.
Senhor Delegado Havlik, podia dizer-nos h quanto tempo estava empregado... isto , h quanto tempo se encontrava sob as ordens do Xerife Bello na altura em que
se deu o incndio em casa dos Serians?
Sim senhor.
H quanto tempo?
Quatro meses.
J tinha tido a oportunidade de visitar o local do homicdio antes deste incidente?
Protesto, meritssimo, gritou Rossner. Ainda no foi provado que houve um homicdio.
Brown revirou os olhos. Meritssimo... queixou-se ele.
Aproximem-se! gritou o juiz.
Depois de uma troca acalorada de protestos em surdina, o juiz mandou-os embora, Protesto aceite! O jri dever ignorar a referncia ao homicdio, e Brown voltou
para o pdio com as maxilas cerradas.
Brown consultou as suas notas. Podia contar-nos o que fez naquela manh, Kenneth?
Onde quer que comece?
Desde o momento em que pensou que os seus servios podiam ser necessrios na casa dos Serians.
Parece-me que foi quando ouvi os meus ces. Eu estava a dormir quando todos os meus ces de caa comearam a fazer uma grande algazarra no canil. Vesti-me e fui
ver o que se passava com eles e a acalm-los. Quando l
cheguei, vi o trfego que passava na estrada... carros dos bombeiros para apagar incndios e tudo o mais. Depois vi as chamas ao longe na casa dos Serians. Pelo
aspecto das coisas, calculei que iam precisar de ajuda e por isso dirigi-me para l.
O senhor foi o primeiro elemento das foras da ordem a chegar ao local?
Fui, sim senhor.
E o que lhe pareceu que estava a acontecer no momento da sua chegada?
Havlik engoliu apressadamente o copo de gua que lhe foi trazido por um oficial de diligncias. Entrei no ptio e vi pessoas a correr de um lado para o outro aos
gritos e berros e indivduos a tentar apagar o fogo. Dirigi-me aos bombeiros e identifiquei-me como delegado e perguntei se havia alguma coisa em que eu pudesse
ajudar. Um deles disse-me que era possvel que houvesse um homem dentro do edifcio e talvez eu devesse ir ver como estava a esposa.
E o senhor foi procurar localizar a senhora Serian?
Fui, sim senhor.
Pode descrever-nos, por favor, o seu contacto com a senhora Serian?
Ela estava um pouco afastada para o lado, sozinha, estava toda tisnada e estava simplesmente a olhar e perguntei-lhe se era a senhora Serian e ela acenou que sim
com a cabea, mas parecia to calma que eu no sabia se devia ou no acreditar nela. Ento disse-lhe quem eu era e perguntei-lhe se tinha a certeza de que havia
algum no celeiro. Ela no respondeu e por isso voltei a fazer-lhe a mesma pergunta e ela disse que sim, que o seu marido tinha estado a dormir l e que no tinha
sado. Perguntei-lhe se tinha a certeza de que ele no tinha sado e ela disse que tinha a certeza.
E qual foi a sua reaco a seguir, delegado?
Perguntei-lhe se havia alguma coisa que eu pudesse fazer por ela e ela disse, No. A no ser que consiga falar com espritos.
Continue, por favor, Delegado Havlik. O que aconteceu depois disso?
Fiquei como que assombrado e pensei que talvez no devesse dizer mais nada, por isso afastei-me e foi quando vi os quadros encostados  rvore.
Pode descrever-nos a sua descoberta desses quadros e que providncias tomou?
Sim, senhor. Eram trs. Sem moldura nem nada. Simplesmente ali encostados  rvore. Sabendo o que eu sabia... que o indivduo era um artista famoso... fiquei preocupado
que alguma coisa pudesse acontecer queles quadros... um carro de combate ao incndio podia acidentalmente fazer marcha atrs no escuro e passar por cima deles ou
qualquer coisa parecida, por isso levei-os para dentro de casa.
Em que altura achou que era necessrio mandar chamar o xerife?
Logo depois daquilo. A menina Raven veio a correr, a gritar e a chorar Pelo facto de o maior artista do mundo ter sido queimado vivo e eu pensei que era melhor chamar
o Xerife Bello e contar-lhe o que estava a acontecer ali.
#Depois disso aconteceu alguma coisa que envolvesse a senhora Serian, antes da chegada do xerife?
Aconteceu, sim senhor.
Brown suspirou com ar de impacincia. Pode contar-nos o que se passou, por favor?
Com certeza. Logo depois de ter chamado o xerife, vi a senhora Serian e a menina Raven envolverem-se numa luta. No sei quais foram as primeiras palavras, mas a
menina Raven estava mesmo transtornada e qualquer coisa que a senhora Serian disse transtornou-a ainda mais e ela deu uma bofetada na senhora Serian e a senhora
Serian atirou-se a ela e deitou-a ao cho e ambas rolaram pelo cho no meio da lama.
Qual foi a sua reaco perante este espectculo?
Corri para elas e alguns dos homens que ali estavam correram tambm e separmo-las. A menina Raven parecia histrica, mas a senhora Serian estava absolutamente calma,
como se fosse um simples dia normal cheio de sol.
Owen relanceou o olhar para a Holly e ela levantou as sobrancelhas como que a confirmar que isto que estavam a ouvir era bom material.
Rossner levantou-se e Owen verificou que Brown tinha terminado o seu interrogatrio com o delegado. Havlik estava nervoso e chupou o lbio inferior quando Rossner
se dirigiu para ele.
Delegado Havlik, disse que estava a dormir na noite em questo e que os seus ces o acordaram e imediatamente deduziu que havia problemas em casa dos seus vizinhos.
Sim, senhor.
Est sempre to alerta e  to perspicaz?
Tento ser. Foi para isso que fui contratado.
Nesse caso,  evidente que teve muito cuidado em reparar no estado em que se encontrava a senhora Serian quando falou com ela naquela noite.
Bem... sim.
Pode descrever-nos esse estado.
O senhor quer dizer... se estava suja e tudo isso?
Sim. Descreva-a simplesmente para ns. Como agente das foras da ordem, deve ser um observador com experincia, portanto conte-nos simplesmente tudo o que consegue
recordar sobre ela naquela noite.
Est bem... como j disse, ela estava toda suja e coberta de fuligem. Tinha a cara toda manchada e os seus braos estavam negros.
Havia muita luz no lugar onde ela se encontrava?
No. Estava bastante escuro, porque ela estava junto das rvores.
Ento voc no conseguiu ver se ela estava ou no ferida?
No.
Conseguiu ver-lhe a cara com ateno? Ver se estava plida ou ver as pupilas dos olhos?
Havlik ficou com uma expresso confusa. No.
O departamento da polcia d alguma preparao paramdica?
No.
Ento, mesmo que lhe tivesse sido possvel v-la com clareza, provvelmente
no conseguiria saber se o seu comportamento estranho era consequncia do choque, pois no?
Protesto, Meritssimo, disse Brown, levantando-se da cadeira e deitando para o cho vrios papis que estavam em cima da mesa.
O juiz franziu as sobrancelhas, mas deferiu o protesto.
Seguiu-se uma audincia privada, que se arrastou por muito tempo.
Quando recomeou o processo, Rossner declarou que tinha terminado o interrogatrio ao delegado Havlik e Brown levantou-se para lhe colocar mais algumas questes.
Delegado Havlik, comeou ele, alguma vez teve oportunidade de ter formao em primeiros socorros?
Bem, fiz um pequeno curso sobre isso na escola secundria. Ensinaram-nos os rudimentos, por exemplo, como dar aquele abrao a pessoas que esto em choque e esse
tipo de coisas.
Recebeu instruo sobre a situao designada por estado de choque?
Sim, senhor. E mesmo que no pudesse ver a senhora Serian muito bem... pelo que me ensinaram sobre o estado de choque, no diria que uma pessoa que se envolve numa
rixa esteja em estado de choque.
Protesto, Meritssimo, gritou Rossner. Ps-se de p e abriu as mos. Com o devido respeito pelo curso de primeiros socorros do Delegado Havlik, ele no tem qualificaes
para nos dar pareceres mdicos.
Houve mais uma discusso entre os advogados e os comentrios de Havlik foram retirados do registo, mas claro que o jri j os tinha ouvido. Owen perguntou-se se
Rossner teria ganho alguma coisa.
 hora do almoo Owen juntou-se a um grupo do qual faziam parte a Holly, a Pat, o Ray, a Marilyn a colunista, a Sharon a reprter de rdio e o outro reprter de
televiso, Gil Flores. Caminharam juntos para o restaurante de pizzas na cidade.
O que prova que ela  capaz de violncia, disse a Holly.
Sim, concordou o Ray com um riso abafado. Gostava de ter estado l para ver aquelas duas a lutar no meio da lama.
Raios partam se acredito nessa de ela estar em estado de choque, disse a Marilyn e houve uma imediata concordncia geral. Owen suspeitou que as atitudes dos reprteres
fossem semelhantes s do jri.
Durante o almoo especularam sobre o assunto das audincias privadas; depois, no caminho de regresso, a conversa desviou-se para a tagarelice do costume entre o
pessoal da comunicao social quem estava a fazer a cobertura para quem e que colunista tinha andado a escrever sobre o julgamento sem de facto ter assistido a ele
e que reprter casada da rdio andava a flirtar com o secretrio do juiz.
Logo que chegaram ao tribunal, Owen telefonou para o escritrio de Bernie para trocar impresses com ela. Ela tinha sado para o almoo, por isso falou com o Alex,
que estava ansioso por saber pormenores do julgamento. Owen quis ser agradvel e comeou a fazer-lhe um relato pormenorizado, mas acabou por dar a Alex uma verso
condensada, pensando que o Alex no ia apreciar todas aquelas complexidades. O julgamento tinha acabado por lhe
dar a impresso de estar num mundo diferente que as pessoas alheias provavelmente no conseguiam compreender.
Quando o tribunal se reuniu novamente s 13:30, um xerife de uniforme, Vincent Bello, caminhou com passos pesados para a barra das testemunhas. Era um homem entroncado
e forte, com mais de cinquenta anos, com cara de lua cheia, um nariz grande picado das bexigas, com um ar todo cheio de importncia e maneiras autoritrias.
Xerife Bello, comeou Brown, por favor, pode dizer-nos a que horas foi chamado e que providncias tomou a seguir  recepo da chamada do Delegado Havlik?
Recebi a chamada s cinco horas e parti imediatamente para a quinta dos Serians.
E qual era a situao quando l chegou?
Uma completa confuso. Toda a energia elctrica das lmpadas que havia no ptio vinha do estdio, por isso s tnhamos os faris dos carros e lanternas elctricas
portteis para se poder ver. Havia gente por todo o lado... vizinhos e bombeiros e convidados do falecido. Avistei o meu delegado, Kenneth Havlik; depois encontrei
o homem que comandava a equipa de bombeiros... Pete Gadding, e comecei a organizar o pessoal.
Brown atrapalhou-se ao pegar nas suas fichas de notas. Pete Gadding. Est a referir-se ao Comandante dos Bombeiros Peter Gadding?
Exactamente.
Gadding informou-o do ponto da situao?
Sim. O Pete disse-me que o edifcio ardeu to rapidamente que no tinha sido possvel salv-lo. Disse que tiveram sorte em conseguir evitar que o fogo alastrasse.
E disse que parecia que havia um homem l dentro.
Nessa altura havia alguma razo para suspeitar de crime?
No. Naquela altura apenas parecia ser um fogo de rotina em que tinha morrido uma pessoa. Est sempre a acontecer, sabe.
Que providncias tomou depois de falar com Peter Gadding?
Dei uma volta por ali, passando em revista a situao e  procura da senhora Serian.
J conhecia pessoalmente Lenore Serian naquela altura?
No... no posso dizer que nos conhecamos. Mas conhecia-a de vista. J a tinha visto na cidade e ela no  o gnero de mulher que se veja com frequncia, por isso
naturalmente reparei nela.
Foi bem sucedido ao tentar localizar a senhora Serian?
No, eu andava ali de um lado para o outro, a passar em revista a situao e de repente aparece aquela mulher a correr. Estava coberta de lama e com um olhar desvairado
e a soltar gritos agudos. Mas no era a senhora Serian.
Ficou surpreendido ou sentiu-se ameaado com o comportamento da mulher?
No. Estou habituado a mulheres perturbadas quando acontecem tragdias. De facto diria que o seu comportamento era normal.
O que aconteceu a seguir?
Apareceu um indivduo. Agiu como se tivesse andado a persegui-la e a tivesse apanhado. Disse-lhe que tinha de se acalmar e que devia voltar para casa e esperar pelo
mdico.
E esse homem informou-o da identidade da mulher?
Sim. Pediu desculpa e disse-me que a mulher era Natalie Raven, a governanta dos Serians e que estava muito nervosa por causa da morte do patro. Ora aquilo surpreendeu-me,
porque eu conhecia Natalie Raven de vista e agora no a tinha reconhecido. Depois perguntei-lhe quem era ele e ele disse que se chamava Bello levantou os olhos para
o juiz posso consultar as minhas notas...  que tenho alguma dificuldade em memorizar nomes, senhor Dr. Juiz.
Houve uma pequena interrupo enquanto as notas de Bello eram examinadas e discutidas numa conferncia em voz baixa entre o juiz e os dois advogados. Por fim foram
devolvidas a Bello com um aceno de cabea em sinal de aprovao. Bello olhou para eles e depois continuou. Clay Southey era o nome da pessoa, e disse que era um
dos convidados de Manhattan. Perguntei-lhe se tinha visto a senhora Serian e ele apontou para a casa.
Ento dirigiu-se para a casa, xerife?
Sim.
E conseguiu falar com Lenore Serian?
No. Estava fechada num quarto e recusou-se a falar comigo.
Quem mais estava l dentro de casa?
Alguns bombeiros estavam a descansar e havia l alguns convidados, e quando ia a sair, para ir orientar a retirada dos veculos do ptio, chegou um mdico.
Algum tinha mandado vir esse mdico?
Sim. A menina Raven tinha-lhe telefonado.
O senhor deixou ento a casa e esteve ocupado a ajudar os veculos a sair do ptio... estou correcto?
Sim.
Que horas eram quando terminou a remoo dos veculos?
Terminmos mais ou menos ao romper da aurora.
A luz era... quero dizer, a luz do sol... suficiente para lhe permitir ver bem o estdio nessa altura?
Conseguia ver-se o que restava dele.
O Chefe Gadding abordou-o desta vez para entrar com ele no estdio?
Sim. Disse que aquilo j tinha arrefecido e queria que eu fosse l dentro com ele para procurarmos o corpo.
Nessa altura ainda no tinham a certeza se iam descobrir um corpo l dentro, pois no?
Exactamente. Nunca se sabe. L porque a esposa pensava que o tipo estava a dormir l dentro, no queria dizer que estivesse.
E o que constatou quando entrou no estdio?
Estava tudo negro e queimado. Do lado sul, onde os estragos eram maiores e onde nos tinham dito que o sujeito em questo estava a dormir, o chefe Gadding localizou
o corpo.
O falecido estava muito queimado?
Como um bocado de carvo.
Isto provocou um murmrio de lamentaes na seco da assistncia e Owen notou que alguns jurados olharam imediatamente para Lenore, para ver qual era a sua reaco.
Tanto quanto Owen pde ver, ela no teve qualquer reaco.
Brown aclarou a garganta. O senhor e o Chefe Gadding discutiram alguma suspeita quanto ao fogo naquela altura?
Quando a vtima  famosa e rica, h sempre perguntas, mas eu no diria que tivssemos qualquer preocupao relativamente ao incndio naquela altura.
Havia alguma coisa ao lado do corpo que lhe chamasse a ateno?
Havia um grande bocado de metal no cho, a uma pequena distncia do corpo. Peguei nele e mostrei-o a Pete Gadding e concordmos que parecia a cabea de um machado,
que naquela altura pensmos, ou presumimos, que talvez o falecido tivesse estado a tentar lutar contra o fogo.
O pedao de metal foi apresentado como prova e identificado por Bello.
Qual foi a sua atitude naquela altura?
Sa pela porta... a porta era de ao e  prova de fogo e ainda estava de p... e vi que havia uma chave na fechadura.
Pode descrever a fechadura, por favor?
Era uma daquelas fechaduras com um ferrolho por cima do puxador.
E  capaz de descrever a chave?
Era apenas uma chave, no estava ligada a nenhuma argola nem a outras chaves e era do tipo normal de chave de lato.
A chave foi retirada de um saco de plstico para ser identificada por Bello.
Nessa altura saiu das proximidades do estdio?
O Pete ficou l  espera de John Bagley, o magistrado do Ministrio Pblico e eu fui para dentro de casa tomar um caf e falar com os convidados e tomar nota de
nomes e moradas.
Achou que foram todos cooperativos?
Todos, excepto a senhora Serian. Continuava a recusar-se a sair do seu quarto.
O mdico j tinha chegado ao local?
Sim, mas ela recusou-se a falar com ele, por isso ele prestou os primeiros socorros a todas as leses e cortes que os Nellicliffs tinham tratado e cuidou da menina
Raven, que estava num estado emocional lastimvel.
Meritssimo... Rossner levantou-se e seguiu-se mais uma sequncia de consultas em surdina.
Passados vinte minutos, o juiz mandou embora o jri por aquele dia e dispensou a testemunha. Os sussurros continuaram. Os assistentes comearam a ficar aborrecidos
com aquilo e foram saindo pouco a pouco. Por fim a imprensa desistiu e comeou tambm a sair.
Por hoje isto acabou, disse a Pat.
Owen abanou a cabea. Nem posso acreditar que haja tantas confidncias, tantos intervalos de quinze minutos e to poucas testemunhas num dia.
E este  um juiz eficiente. Enquanto a Holly falava, voltou-se para ele e os seus seios tocaram-lhe no brao. Owen tentou ignorar o facto e concentrar-se no que
ela estava a dizer. H alguns juizes que todos os dias comeam tarde as audincias e do-nas por terminadas bastante mais cedo, com duas vezes mais suspenses das
actividades, entretanto.
A conversa continuou enquanto desciam e saam para a neve macia. Owen inclinou a cabea para trs, para deixar que os flocos leves como penas lhe cassem no rosto.
Nunca tinha visto neve como aquela. Aquilo era uma coisa prpria de postais ilustrados e contos de fadas. Pairava no ar, vinda dos limites mais altos do cu, sem
vento, voando como se fosse penugem de ganso atravs de uma luz prateada.
Com certeza que no Kansas tambm h neve, comentou a Marilyn secamente.
Mas no como esta. Estendeu a mo para apanhar os flocos macios de neve. Nos Flint Hills temos tempestades. Enormes e fortes tempestades sbitas de neve batida pelo
vento. Normalmente toda a gente vai a correr para casa e fica ali a fazer jogos e a comer at passarem.
O comer soa-me bem. Holly olhou para o relgio. Samos to cedo. Eu podia fazer j a minha pea, voltar  estao de televiso com o meu operador de cmara, e ficava
com imenso tempo livre para passarmos uma noite divertida. Algum quer ir a Chinatown?
Eu vou. Marilyn olhou para Owen. Era uma mulher sensata, com rugas vincadas  volta dos olhos e da boca. J esteve em Chinatown?
No, pensava que...
A Marilyn cortou-lhe a palavra. Ento no h melhor altura do que esta.
Como Owen no concordasse de imediato, a Marilyn franziu as sobrancelhas com ar srio. Owen, voc come, no come?
Claro.
Bem, ento esta noite vamos comer comida chinesa. Boa comida chinesa.
Na sexta-feira de manh, o Xerife Bello estava de novo sentado no banco das testemunhas para o contra-interrogatrio. Rossner aproximou-se do homem com alguma hesitao
e comeou a lev-lo atravs da descrio da cadeia de acontecimentos que conduziram ao facto de Lenore Serian ser acusada. O advogado quase parecia estar intimidado
pelo xerife e a presuno de Bello aumentou  medida que o interrogatrio progredia.
Andou por ali  volta do que j tinha sido dito. Rossner obrigou Bello a voltar atrs e a repetir tudo o que tinha dito a Brown durante o depoimento inicial, e 
medida que se ia repetindo, o prprio Bello comeou a manifestar abertamente menosprezo pelas perguntas de Rossner.
E ento, xerife, deixe-me ver se compreendo bem isto... o senhor diz que esteve ali fora at ao romper do dia a tirar os veculos do ptio?
Sim.
Por que foi to difcil tirar todos os veculos?
Bello deu um suspiro de impacincia. Aquilo ali era um mar de lama. Para comear, o cho estava molhado porque tinha sido uma semana chuvosa; depois havia toda aquela
gua que foi deitada no incndio. O ptio era um autntico pntano... escorregadio em alguns stios e suficientemente profundo noutros para inundar as nossas botas.
Estvamos fartos de empurrar com as mos os veculos para o cho seco. Tivemos at um carro dos bombeiros atolado.
E o senhor tambm disse que aquilo era uma confuso porque estava escuro e havia gente por todo o lado?
Exactamente.
Quantos convidados disse que havia em casa dos Serians naquela noite, xerife?
Bello pegou no seu bloco de notas e abriu-o e leu directamente dele. Vinte e dois convidados.
 isso que tem nos seus registos? Os registos que foram apresentados antes como prova?
Exactamente.
E tem a certeza de que o nmero era de vinte e dois?
Foi isso que eu disse.
Mas no disse que esperou at ao romper do dia at ter retirado todos os veculos da lama e de ter encontrado o corpo e de ter tomado caf para reunir os convidados
e recolher informaes?
Sim. Bello mudou de posio na cadeira e houve tambm uma alterao subtil na sua expresso.
Ento algum podia j ter ido embora por essa altura?
Sim.
Falou com Natalie Raven para ver se tinha os nomes de todos os convidados?
Sim, falei. Mas ela disse que no tinha a certeza de quantos tinham l estado.
Ento mais algum... algum que no teve oportunidade de interrogar... algum de quem no sabe nada... podia ter l estado naquela noite?
A boca de Bello torceu-se, como se a resposta tivesse um mau sabor. Tudo  possvel.
Portanto est no reino das possibilidades, que outros pudessem ter estado e tivessem tido acesso ao estdio de Bram Serian naquela noite?
Como eu j disse, tudo  possvel.
Isso  um sim, xerife?
Sim.
Rossner fez uma pausa e coou a cabea. Ento o senhor interrogou aquelas vinte e duas pessoas?
Sim.
No local?
Algumas no local.
E algumas mais tarde?
- Sim. Depois de a autpsia demonstrar que o falecido tinha sido atingido na cabea, nessa altura interrogmos minuciosamente todas as pessoas.
- Todos os vinte e dois convidados foram interrogados pormenorizadamente?
Bello mostrou alguma inquietao. - Todos menos um, que no conseguimos encontrar.
- No conseguiu encontrar um dos convidados? Uma testemunha que podia ter informaes crucais sobre o que tinha acontecido naquela noite?
- Sim. Um homem chamado James Collier desapareceu antes de o podermos interrogar.
- Desapareceu?
o queixo de Bello levantou-se e o nariz inchou. - o senhor sabe que ele desapareceu, Rossner. No fazemos nenhum segredo nem fazemos truques sujos.
- Xerife, - advertiu o juiz, - limite as suas respostas s perguntas. Rossner ergueu a cabea e simulou uma expresso perplexa de inocncia. -Agora, quanto ao facto
de o senhor e o Chefe Gadding terem encontrado o corpo... o senhor disse que vocs os dois no tinham qualquer suspeita em relao ao fogo naquela altura?
- Eu disse que tinha dvidas, porque o homem era famoso mas ainda no tinha suspeitas.
Rossner consultou um carto com apontamentos. - o senhor disse que tinha falado com o Chefe Gadding sobre vrias coisas, e depois o senhor disse que ns ainda no
tnhamos suspeitas... esse ns referia-se a si ou ao chefe?
- Eu no posso falar por Gadding, - respondeu Bello rudemente. Tem que traz-lo aqui e colocar-lhe a pergunta.
- Ser correcto afirmar, nesse caso, que tudo o que o senhor pode dizer,  que voc no tinha quaisquer suspeitas. Est certo?
- Certo.
- Muito bem... voltemos  chave. - Houve uma interrupo, enquanto a chave era apresentada a Bello.
Pode descrever esta chave, por favor, xerife?
 apenas uma vulgar chave de lato que se pode encontrar em qualquer armazm de ferragens.
- Est a referir-se s chaves de lato em bruto que as lojas de ferragens possuem em grandes quantidades para fazer cpias de chaves para os clientes?
- Sim.
- Isto , ento, uma cpia de uma chave, feita por uma loja de ferragens e no uma chave original que tivesse vindo com a fechadura?
A cara de Bello ficou intensamente corada, de tal modo que parecia estar adoentado. - No sei, - disse ele por entre dentes.
- Desculpe. Pode falar mais alto, por favor?
o xerife parecia estar a diminuir de tamanho. - No sei se  ou no uma cpia.
- No verificou a chave para determinar se era uma cpia ou uma chave original?
#No.
Foi verificada a existncia de impresses digitais na chave?
Sim.
E havia nela algumas impresses identificveis?
Sim. Foi recuperada a impresso de um dedo polegar, mas no tinha qualquer utilidade.
De quem era a impresso do polegar, xerife?
Minha.
Rossner olhou para o tecto por instantes e bateu com o dedo no queixo. Xerife... tinha conhecimento da identidade de Bram Serian na altura em que se deu o incndio?
Com certeza.
A identidade dele afectou-o de alguma maneira durante aquelas horas em que esteve no local do incndio?
Parece-me que eu estava um pouco nervoso... e acho que todas as outras pessoas tambm estavam nervosas... devido  pessoa de quem estvamos a tratar. Aquele artista
era famoso e rico e toda a gente desejava que pudssemos limpar a porcaria e pusssemos tudo em ordem antes que a imprensa nos casse em cima.
Ento ser correcto afirmar que o senhor estava com pressa de resolver a situao?
Sim.
J alguma vez ouviu o provrbio antigo que diz que estar com pressa pode provocar erros... J ouviu dizer que a pressa  m conselheira?
Sim.
Acha que foram cometidos erros naquela manh? Bello baixou os olhos. No sei.
O senhor falou-nos da lama e da luta contra o fogo e do nmero de pessoas presentes... Com tudo isso, era possvel verificar se havia pegadas ou marcas de pneus
de carros suspeitos?
Bello endireitou-se de repente, agarrando a sua oportunidade de se ilibar de qualquer culpa. Teria sido completamente impossvel. O local do crime j estava aniquilado
na altura em que eu l cheguei.
Em algum momento, posteriormente, voltou l e examinou o local?
Sim. Aps os resultados da autpsia voltmos l e realizmos uma investigao no terreno. 
Que tipo de investigao fez?
Uma investigao minuciosa. Com a participao de todos os meus homens.
Dividiu a rea em quadrantes? Foi uma pesquisa em grelha?
No sei bem se estou a perceber o que quer dizer.
O senhor sabe qual  a tcnica que a lei manda que se use, conhecida por busca em grelha?
Bem... Estou familiarizado com esse termo, mas no  alguma coisa... no acho...  aquela com os quadrados, no ?
No podia ter usado essa tcnica. Isso  quando uma rea  dividida em quadrados e pesquisada quadrado a quadrado; porm, isso no teria sido possvel naquele espao
amplo  volta da casa dos Serians.
Por que no?
Porque aquele espao no  plano, portanto no podia ser dividido em quadrados.
Rossner voltou-se para trs, para a mesa da defesa e passou a mo pela boca para ocultar um sorriso. Alguns dos jurados reviraram os olhos e do fundo da seco da
assistncia vieram alguns risos abafados. At o juiz baixou a cabea e escondeu a cara com as mos por momentos.
Rossner voltou-se de novo para a testemunha e continuou. Mas fez uma busca naquela zona?
Sim.
Na rea do local do crime, que j tinha sido comprometida antes de o senhor ter chegado na manh do incndio... correcto?
Est correcto, e eu penalizei os meus homens por isso e chamei a ateno do Detective Kilgren para o facto.
O Detective Kilgren da polcia estadual que mais tarde participou na investigao?
Sim.
O que esperava encontrar naquela investigao?
Qualquer prova relacionada com a morte.
Que tipo de prova?
O habitual... pontas de cigarros... marcas de pneus... qualquer coisa.
Marcas de pneus, pontas de cigarros e o habitual... repetiu Rossner com incredulidade. Numa rea que tinha sido uma confuso de lama e percorrida por cinquenta ou
mais pessoas com carros e carrinhas dos bombeiros?
Bello limpou a garganta. Faz parte da rotina.
E qual era o objectivo dessa pesquisa?
Como j disse, era para procurar provas relacionadas com a morte.
Mas o senhor acusou Lenore Serian, e com certeza no estava ali  procura de marcas de pneus e pontas de cigarros para usar como prova contra ela.
No.
J tinha testemunhas que a colocavam no local, por isso no precisava de mais provas para isso, no  verdade?
Sim. Mas isso foi antes de a acusarmos e ainda no estvamos concentrados nela e andvamos  procura de outro autor do crime.
Quer isso dizer que pensava que havia outra pessoa que podia ter feito aquilo?
Sim. Era esse o nosso pensamento inicial.
Mas mudou de opinio?
Sim.
O que fez com que mudasse de opinio?
Foi um conjunto de coisas... factos que rodeavam a morte e a arguida e o seu marido que os levaram a seguir naquela direco.
Foi Natalie Raven que os conduziu naquela direco?
Eu diria que o seu depoimento contribuiu para isso.
E estava ansioso por encontrar um bode expiatrio, por causa de toda a presso dos meios de comunicao?
No prestei nenhuma ateno aos meios de comunicao.
Mas o senhor disse anteriormente que estava ansioso por evitar que o incomodassem, no disse?
No lhes prestei ateno. Isso no quer dizer que goste de os ver por a.
Ser correcto dizer que chegou a Lenore Serian como suspeita s depois de ter sado frustrada qualquer tentativa de encontrar alguma prova no comprometido local
da morte e depois de Natalie Raven lhe ter prestado declaraes e depois de os meios de comunicao o terem pressionado... ser correcto dizer isso?
Bello cruzou os braos e olhou para Rossner com ar irritado. Nada disso  correcto.
Xerife Bello, repreendeu-o o juiz com brandura.
- Desculpe senhor Dr. Juiz.
Agora, continuou Rossner, sim ou no? Chegou a Lenore Serian como sua arguida apenas depois de no ter conseguido qualquer prova no local e depois de Natalie Raven
o ter arengado e depois de os meios de comunicao social o terem pressionado?
Bello mordeu os lbios e os seus olhos diminuram. Por momentos parecia que no ia responder. Depois, com um pesado suspiro, disse, Sim.
J no se punha qualquer questo quanto a Owen ir almoar com a Holly e companhia. Simplesmente foi. Hoje acabaram por se encontrar de novo no caf cheio de fumo.
Deslizou para o recanto, sentou-se e seguiu atentamente a discusso que se seguiu acerca do incndio.
Owen estava agora to ambientado s pessoas que estavam  sua volta e  conversa agressiva e sem restries  hora do almoo, que reparava em mais pormenores individuais
do que antes. Reparou que o Ray olhava muitas vezes para a Holly e a Holly no prestava qualquer ateno ao Ray. Reparou que as opinies da Pat pareciam chamar toda
a ateno para si e que a Sharon mudava com frequncia de opinio e que o sarcasmo mordaz da Marilyn s vezes se aproximava muito da crueldade, mas ela sempre se
detinha antes de derramar sangue. E notou que a Holly era a estrela deles. Todos a adoravam e em troca ela obsequiava-os com sorrisos deslumbrantes e prendava-os
em tudo o que faziam com uma aura de galhofa.
Toda a gente estava entusiasmada com o interrogatrio de Rossner ao Xerife Bello. Todos eles tinham percebido que Rossner pretendia levantar dvidas sobre se a morte
tinha de facto resultado de um homicdio e no de um acidente, mas com este interrogatrio Rossner tinha aberto a possibilidade de homicdio por um criminoso desconhecido.
As opinies dos reprteres sobre isto eram muitas e variadas. Foram apresentados argumentos nas mais variadas
direces. Ento a Marilyn fez um comentrio que os fez parar a todos. Rossner apresentou Bello como um parvo e fez a sua investigao parecer uma comdia de arlequim,
mas isso no quer dizer que Lenore Serian esteja inocente. Com aquilo-todos eles se voltaram imediatamente para a suposio de culpa de Lenore.
Depois do almoo o promotor pblico chamou o magistrado John Bagley, que anunciou orgulhosamente que tambm era dono do Daisy Septic Cleaning Service e continuou
a fazer um pouco de publicidade comercial para o seu negcio. Bagley relatou pormenorizadamente como tinha sido chamado e como tinha inspeccionado a recuperao
do corpo. No fim do interrogatrio de Brown, Owen pensou que o depoimento tinha sido to claro e simples que Rossner talvez se abstivesse de fazer o contra-interrogatrio.
Mas Rossner levantou-se sem pressa, e como que por acaso, conduziu Bagley  repetio do relato da sua actuao.
Aquilo deve ter sido uma grande confuso, heim, todos aqueles detritos e os charcos de gua? perguntou Rossner, assumindo de repente um ar solene e complacente.
Foi horrvel. E eu nem sequer tinha botas.
Pode dizer alguma coisa sobre o que havia  volta do corpo?
No. Estava tudo destrudo e o que tinha ficado foi remexido e vasculhado por todos ns.
Pode dizer exactamente como  que o corpo tinha cado? Onde estava a cabea, por exemplo?
Oh, sim. Com certeza.
Paul Jacowitz levantou-se e entregou a Rossner um diagrama do tamanho de um pster com o esquema do soalho do estdio de Bram Serian. Rossner levou o pster ao juiz
que o examinou e em seguida procedeu-se ao processo formal de numerao do documento apresentado em juzo. Depois disso Rossner exibiu-o de maneira que o jri pudesse
v-lo e entregou  testemunha uma pequena gravura negra que representava o corpo, enroscado numa posio fetal, mas com a cabea perfeitamente identificvel.
Isto tem cola na parte de trs, senhor Bagley. Pode, por favor, inclinar-se e colar isso aqui, para mostrar exactamente em que posio se encontrava o corpo?
Bagley colocou cuidadosamente a gravura no diagrama do soalho. Um jurado deu um espirro forte e tanto Rossner como o juiz disseram santinho
um a seguir ao outro.
Rossner observou a gravura negra que Bagley tinha colocado no pster. Pode descrever-nos, por favor, senhor Bagley, onde se encontra a cabea em relao aos elementos
que sobreviveram ao incndio e que eram identificveis?
Com certeza... Bagley examinou o diagrama por momentos. A cabea estava a cerca de trinta centmetros dos tijolos aqui.
A plataforma elevada de tijolo onde assentava o fogo?
Sim.
Conseguia ver claramente a plataforma de tijolo e o fogo?
Sim. Havia algumas vigas queimadas em cima dele, mas mesmo assim conseguia v-la perfeitamente.
Pode descrev-la para ns?
Era perfeitamente vulgar. Um fogo de aquecimento grande, de luxo, de aspecto antigo, instalado em cima de uma plataforma que tinha a altura de dois tijolos e cerca
de dois metros de dimetro.
E Bram Serian estava deitado com a cabea aqui? Rossner apontou para o diagrama.
Sim.
Quando um corpo se queima desta maneira,  normal enroscar-se numa posio fetal?
 muito frequente.
Ento o corpo podia ter cado e ter ficado estendido direito mas depois enroscou-se quando foi queimado pelo fogo?
Sim.  isso mesmo.
E se estava estendido e direito, tendo em considerao o peso de Bram Serian, onde  que ficaria a cabea?
Bagley observou o pster, depois olhou para Rossner, como se de repente tivesse compreendido alguma coisa. A cabea ficaria mesmo  beira dos tijolos.
Mesmo  beira da plataforma de tijolos, com a altura de dois tijolos?
Sim.
- Uma aresta perigosa para se bater com a cabea?
Com certeza. Muito perigosa.
Rossner fez uma pausa para permitir s pessoas assimilarem as implicaes daquela afirmao. Os jurados estavam a olhar com toda a ateno. Owen voltou-se para ver
se a Holly ou a Pat ou a Marilyn estavam to surpreendidos como ele. Todas as mulheres estavam a escrevinhar a toda a velocidade nos seus blocos de apontamentos.
Imediatamente, Brown levantou-se para um novo interrogatrio e conseguiu remediar a situao, levando o magistrado a fazer afirmaes que faziam com que a teoria
de a cabea bater nos tijolos parecesse ridcula. Mas mesmo assim ainda parecia a Owen que Rossner tinha marcado pontos.
O Chefe Peter Gadding foi chamado a seguir. Era um homem de poucas palavras, e Brown teve de arrancar  fora o seu testemunho. A descrio feita por ele, daquela
noite, no tinha adjectivos de embelezamento de nenhuma espcie. Os pensamentos de Owen divagavam. Observou o lado de trs da cabea de Lenore Serian. Em que pensaria
ela  noite quando estava afastada do julgamento? Sentava-se a ver televiso ou enroscava-se em frente da lareira a ler um livro, como se fosse mais uma noite normal?
E ento, Chefe Gadding, disse Brown, o que aconteceu quando o Xerife Bello encontrou o objecto de metal que mais tarde foi identificado como a cabea de um machado?
O xerife segurou-o nas mos e disse, Acho que encontrei a cabea de um machado. O nosso cadver deve ter tentado fazer de bombeiro.
E qual foi a sua reaco?
Eu disse, pe isso no cho, Vinrde, ests a destruir provas.
Brown pareceu estar um pouco nervoso mas recomps-se rapidamente. Nessa altura tinha algumas suspeitas de o fogo no ser acidental?
Sim. Foi por isso que chamei Kelvin Mullin, o inspector de incndios. Brown deu por terminado o seu interrogatrio e Rossner colocou-se em posio. O advogado de
defesa foi respeitoso para com o Chefe Gadding, sem ser deferente. Depois de colocar  testemunha algumas questes gerais sobre o incndio, perguntou-lhe, Comunicou
as suas suspeitas quanto ao incndio ao Xerife Bello?
Sim.
E qual foi a reaco dele?
Exactamente ou devo parafrasear?
To exactamente quanto lhe for possvel.
Bello disse, Ento o artista cozinhou-se a si prprio. Ele no  um dos nossos. Vamos evitar provocar mais confuso do que o necessrio.
Ficou chocado com essa afirmao por parte do xerife?
No.
Por que no?
J o conhecia h muito tempo.
Rossner esperou que os risos abrandassem. Vamos voltar a nossa ateno mais uma vez para a cabea do machado. Quando avisou o xerife de que estava a danificar provas,
qual foi a reaco dele?
Que a morte foi um acidente e no eram necessrias quaisquer provas.
Portanto, na manh do incndio, quando ainda podiam existir provas que foram posteriormente perdidas ou destrudas, como consideraria a atitude do xerife?
Ele mostrou-se desinteressado.
Logo que o Chefe Gadding saiu, a sesso foi encerrada at segunda-feira de manh.
Holly voltou-se e dardejou um sorriso a Owen, e ele percebeu que ela devia ter alguma grande proposta para a noite e, sem se permitir reconsiderar, murmurou as suas
desculpas e apressou-se a sair. Subitamente sentiu necessidade de se ir embora.
Voltou de comboio para Manhattan, sentado sozinho a olhar para fora, para a paisagem de inverno. De vez em quando surgiam breves vistas do rio no percurso do comboio
e ele estava sempre  espera delas. O rio tinha o mesmo aspecto. Blocos de gelo flutuavam na gua cinzenta que corria lentamente, tal como da primeira vez que fez
a viagem. \Tinha sido apenas quatro dias antes? Parecia que tinha sido h meses. Ou ainda hmais tempo.
Sentiu um sentimento sbito de angstia, de saudades de casa. No pela casa que tinha deixado recentemente, mas pela casa da sua infncia, quando toda a sua famlia
estava intacta e em segurana, e o resto do mundo existia apenas entre as capas dos livros que lia. Fechando os olhos, conjurou o irmo, de ombros largos e sorridente,
enquanto olhava para um Owen mais novo.
E quase com a mesma facilidade conseguiu imaginar a me, com os braos cheios de p de farinha enquanto trabalhava na mesa da cozinha, dirigindolhe um sorriso suave
e triste enquanto dizia, Tens de aprender a no fazer tantas perguntas, Owen.
As velhas fotografias estavam mesmo ali  sua frente, mas quando tentava apagar o passado e substitu-lo pelo presente, tinha grande dificuldade. Era difcil imaginar
as irms, o pai ou mesmo Michelle Wheeler tal como eram agora, apesar de ter estado com elas at uma semana antes. Os rostos da sua famlia eram imprecisos. E a
Mike, a mulher com quem tinha feito amor e com quem tinha feito planos... mal conseguia visualizar uma imagem do seu rosto.
Por que era o passado, que ele sempre tentara evitar, de repente muito mais imediato e poderoso do que o presente?
Abriu o seu bloco de notas, escreveu Mike, depois sorriu, porque no lhe tinha escrito nada desde o tempo da faculdade. Quando ainda a considerava como uma mida
da vizinhana. Rasgou aquela folha e comeou de novo.
Querida Mike.
Tenho saudades tuas. Tenho saudades da tua fora calma e do teu sorriso e da viso que tens do nosso futuro. Tenho saudades de te abraar.
Rasgou a folha e amarrotou-a numa bola compacta. A Mike ia detestar uma carta daquelas. Ela no gostava de sentimentalismos de nenhuma espcie. Mesmo a poesia. No
suportava poesia.
Comeou de novo. Escreveu sobre a neve macia e os dias sem vento e o terreno agrcola que tinha visto do avio. Escreveu-lhe um pouco sobre a cidade e um pouco sobre
o julgamento e sobre o facto de conhecer tantos reprteres. Depois concluiu com amor, dizendo que esperava v-la dentro em breve.
Dobrou a carta e meteu-a dentro do bolso do peito do casaco para a pr no correio mais tarde. F-lo sentir-se melhor, t-la ali junto ao corao, como um talism...
um lao, uma ligao tangvel  sua vida real. Tinha de se agarrar quilo. Tinha de se agarrar quilo para no se perder no caminho de regresso a casa. Porque esta
no era a sua vida. Este julgamento e esta cidade situavam-se numa outra dimenso. Esta era a realidade da toca do coelho. Um sonho da realidade vista ao espelho,
que em breve ia desaparecer.
Abriu de novo o bloco de notas.
Queridas Ellen e Meggie. Olhou para aquilo e mudou-o para se ler, Queridos Ellen, Meggie e Clancy. Sempre chamara o pai pelo nome, mas ao v-lo escrito ali parecia
estranho. E Rusty Campbell? Deveria incluir o Rusty? Por fim comeou uma nova folha e escreveu simplesmente, Ol a todos. Depois, no caminho para a Grand Central
procurou pensar em alguma coisa para escrever.
#6
No sbado de manh Owen estava desorientado. Por momentos, ao acordar, pensou que a viagem para Nova Iorque no tinha passado de um longo sonho fulgurante.
O relgio marcava 7:55. Tinha ficado a trabalhar at tarde, a transcrever as suas notas e a trabalhar na estrutura da proposta e tinha decidido permitir-se o luxo
de dormir at tarde. Mas aps anos a levantar-se com o sol, no conseguia ficar na cama para alm das 7:55.
Comeou por fazer caf e sentou-se em frente do trabalho que tinha abandonado na noite anterior. Havia qualquer coisa que no estava bem. A proposta no tinha vida,
faltava-lhe alma. Apoiou o cotovelo em cima da mesa junto  mquina de escrever e olhou para a fotografia de Lenore Serian que tinha recortado do jornal e afixado
na parede.
Se ele fosse um jurado e tivesse que votar naquele dia... Tentou imaginarse a julg-la. Ela seria inocente ou culpada? Ou integrar-se-ia em alguma categoria intermdia
inocente por motivos de insanidade provavelmente, ou inocente devido a circunstncias atenuantes... Talvez o golpe na cabea de Serian tivesse realmente sido um
acidente e depois ela tivesse entrado em pnico e tentado encobri-lo com o fogo. Ou talvez fosse mesmo culpada. Como Spencer Brown e o gabinete do Ministrio Pblico
e a polcia achavam que era.
Ficou a olhar para a imagem granulada do jornal. As linhas marcadas e as sombras, os ossos angulosos do queixo e os olhos escuros em forma de amndoa. Olhar para
ela era como olhar para um rio de gua escura. Quase conseguia sentir a turbulncia e as correntes inferiores sob a aparncia exterior.
O caf estava pronto e bebeu-o com prazer, a pensar no dia que se estendia  sua frente. Primeiro, tinha de fazer algum exerccio. Uma semana inteira sem suar e
sem fazer esforo tinha feito com que se sentisse como que enjaulado. Tinha de sair dali. Dar uns saltos. Libertar-se de alguma maneira. E dePOS tinha de fazer
uma proposta melhor. Mas como?
Talvez precisasse de aprofundar a sua pesquisa sobre a maneira de ser de Lenore Serian e de a compreender... estabelecer empatia com ela... conhec-la melhor como
ser humano em carne e osso e no como a mitolgica Viva
Negra de que a imprensa tanto gostava. Tentou imaginar Lenore como a me ou a irm de algum. Como me no deu resultado e como irm tambm era difcil. Ela parecia
absolutamente distanciada de laos to banais.
Irm.
Com alguma relutncia pegou na carta que estava na sua caixa do correio quando chegou a casa a noite anterior. Era da Ellen.
Querido Owen,
Espero que te encontres bem e que no tenhas muito trabalho, embora eu esteja convencida de que ests a trabalhar muito. Como  o julgamento de um homicdio? Tens
de ficar ali sentado o dia inteiro, dia aps dia? Devias tirar algum tempo para ti e ir ver coisas, pois seria um crime estares num lugar to famoso e no ires ver
as coisas mais importantes. Quem me dera estar a contigo. Havia de te arrastar at ao Empire State Building e a Ellis Island e  Esttua da Liberdade e por a fora.
As coisas por aqui no vo bem, desde que te foste embora. Mas no te preocupes, no tem nada a ver com o gado,  s comigo. A Meggie faz-me sentir como se aqui
j no houvesse lugar para mim, e definitivamente j no h lugar para mim como esposa, por isso no sei mais onde  o meu lugar.
Enquanto estavas aqui permanentemente a acalmar as coisas, eu no me entregava muito a estes pensamentos, mas agora penso muito nisso. Estou a tentar lembrar-me
do que queria fazer quando andava na escola secundria (para alm de ser chefe de claque e de me casar com o Danny). Lembras-te? Acho que se pudesse voltar atrs
at quele tempo da minha vida, talvez pudesse comear de novo. s vezes tenho medo de acabar como o Terry.
Escreve depressa,
(Nada de chamadas de longa distncia!)
Um abrao, Ellen
Owen ficou preocupado com a carta. Acabar como o Terry? At que ponto fazia intencionalmente aquela referncia ao seu irmo falecido?
Gostava de lhe responder imediatamente com algum conselho sensato que a acalmasse, mas no conseguia pensar no que havia de lhe dizer. E ele nunca soubera o que
ela queria quando andava na escola secundria. Conseguia lembrar-se bem daquele tempo, mas no sabia dizer o que ela queria. Ela tinha sido uma daquelas crianas
muito activas e populares e ao mesmo tempo tinha conseguido ter boas notas. Porm, no conseguia estar sem arranjar problemas. As suas piadas irreverentes e a sua
atitude em relao  autoridade mantinham-na num estado de constante castigo.
Owen receava por ela naquele tempo. Era apenas trs anos mais velha do que ele, mas a diferena entre um e o outro parecia abismal. Ele acreditava
que ela estava destinada a coisas grandiosas, que havia de explodir para o mundo e fazer qualquer coisa importante quando chegasse  idade apropriada. Mas depois,
quando fez dezoito anos naquele vero que se seguiu  concluso do curso do ensino secundrio, fugiu de casa com Danny Langmore e mudou-se para o Texas.
No princpio parecia ser feliz. O Danny encontrara um trabalho muito bem pago nos campos petrolferos e Ellen estava entusiasmada por ter arranjado um emprego em
part-time numa grande loja muito selectiva. Escrevia longas cartas efusivas sobre os seus clientes endinheirados e o guarda-roupa que ela estava a fazer com os descontos
generosos que a loja fazia aos empregados. Escrevia sobre os seus jantares em restaurantes e bailes e festas onde actuavam cantores famosos de msica country.
Nos primeiros dois Natais aps o seu casamento, veio de avio para casa sozinha e participou na decorao de bolos e nos torneios de domin e de crquete com o seu
antigo entusiasmo. No terceiro Natal estava a recuperar de um aborto espontneo e no estava em condies de poder viajar. Depois disso as suas longas cartas semanais
degeneraram em bilhetes mensais que eram moderados e vagos. No tornou a vir a casa at ao funeral do Terry.
Na noite anterior ao funeral, Owen foi busc-la ao aeroporto. Procurou-a no meio da torrente de passageiros que saam, na expectativa de ver a irm irrequieta e
cheia de energia que tinha visto da ltima vez, mas a mulher que saiu do avio era uma imitao ridcula, hesitante, nervosa e mal arranjada da rapariga que recordava.
Ele tinha apenas vinte anos naquela altura e estava devastado pela perda do irmo e tinha-se conformado, pensando que a mudana terrvel da Ellen fosse consequncia
do seu sofrimento profundo pela morte do irmo.
A sua prxima visita a casa foi para ir ao funeral da me. Ela e o Danny foram juntos de carro. Mais ningum reparou naquilo. Mas daquela vez Owen no pde evitar
reparar nas mudanas na sua irm, nem acreditar que a dor fosse a nica responsvel. Ela fazia-lhe lembrar um co que tivesse sido vergastado tantas vezes que se
agachava a cada som que ouvia.
Tentou falar com ela. At a levou a sair uma noite, numa tentativa de recriar as noites longas e quentes da sua infncia, quando eles se esgueiravam das suas camas
e se retiravam silenciosamente para as traseiras do celeiro a sufocar com cigarros roubados e a conversar at ao romper do dia. Nada deu resultado. Ela estava fechada
para ele. E a sua preocupao apenas parecia assust-la.
Um ms mais tarde Owen estava  espera do pai e da Meggie que voltavam de uma exibio de fogo de artifcio do dia Quatro de Julho na cidade, quando o telefone tocou.
A sua voz era to rouca que ele teve de fazer esforo para tentar compreend-la. Num monlogo longo e inexpressivo, ela disselhe que o Danny tinha tentado estrangul-la
na noite anterior e a polcia tinha sido chamada e o Danny tinha fugido e ela sabia que, se continuasse ali, ele Poderia eventualmente mat-la e a polcia no ia
impedi-lo e perguntava se a deixavam vir imediatamente para casa.
Owen deixou um recado a dizer apenas que tinha ido buscar a Ellen e a seguir meteu-se na carrinha e partiu para o Texas. Conduziu durante catorze
horas seguidas, tendo chegado ao apartamento duplex da irm em Houston mesmo antes do meio-dia do dia seguinte. Ellen estava sentada no sof a olhar distraidamente
para a televiso quando ele entrou pela porta que se encontrava aberta. O pescoo dela estava marcado com manchas escuras e tinha um olho inchado e roxo.
Tens as malas prontas? perguntou Owen. O seu cansao por ter conduzido durante toda a noite foi imediatamente substitudo por uma raiva profunda, de revolver as
entranhas, provocada pelas marcas de violncia na sua irm. Ela abanou a cabea. Tentei telefonar-te de novo mas ningum atendeu.
O seu rosto parecia estar calmo, mas as mos tremiam no seu regao, como se tivessem vontade prpria. No devia ter-te arrastado para isto.  tudo culpa minha. Tenho
de ficar aqui e tentar resolver a situao com o Danny.
Ellen... o Danny pode ser teu marido, mas ele no tem o direito de te magoar... nunca... por nenhuma razo. No  culpa tua e no tens nada que ficar aqui.
Ela olhou para ele. Tinha uma expresso semelhante  de uma criana cheia de medo.
Vamos empacotar as tuas coisas, Ellen. Podes vir para casa e descansar por algum tempo. Depois podes decidir o que fazer em relao ao Danny.
Mas, e se o Danny chega e me apanha a fazer as malas? Vai ficar furioso. Eu nem posso ir  mercearia sem a sua autorizao.
Owen no deixou mostrar a sua reaco. Se o Danny chegar, eu falo com ele. No te preocupes.
Juntos encheram as malas e caixas com os seus pertences. No eram muitas coisas. Ela disse que o Danny s vezes deitava fora as suas coisas para a castigar, em vez
de lhe bater. A nica pea de moblia que queria levar era uma cadeira de baloio que tinha sido da av. Tinha sido partida e depois colada toscamente. Owen no
lhe perguntou o que tinha acontecido.
Estava a carregar a parte de trs da pick-up quando o Danny chegou num vistoso carro desportivo de cor vermelha. Danny Langmore era um homem, bonito, elegante e
em plena forma, devido ao esforo fsico, bronzeado e louro e vestido com roupa cara. Subiu pelo caminho de acesso, trazendo um ramo de flores e uma caixa de bombons,
como se fosse um autntico pretendente.
Ol, Owen! Mas que surpresa. Eh p, nunca pensei que conseguisses vir at  nossa casa. Owen conteve a raiva violenta que sentia pelo Danny, colocou uma mala na
carrinha e voltou-se para enfrentar o cunhado. Vou levar a Ellen para casa, disse ele. A cara do Danny alterou-se. Oh, v l. S porque tivemos uma pequena briga?
Como pudeste fazer-lhe aquilo, Danny? Como foste capaz de a magoar daquela maneira? Raios, ela tem estado a encher-te a cabea de tretas. Eu nunca lhe faria ] mal.
#Ento onde  que ela arranjou aquelas ndoas?
O Danny riu-se cheio de confiana. Tu conheces a Ellen... ela  desajeitada como um sapo com trs pernas... anda sempre a cair ou a tropear em alguma coisa.
Owen voltou as costas ao Danny e entrou em casa. Est aqui o Danny, avisou a irm num tom calmo. J acabaste de empacotar tudo?
Ela fez um aceno afirmativo com a cabea. A sua expresso era de autntico terror.
Continua e fecha-te num quarto qualquer que tenha chave. Eu acabo de carregar as coisas e a seguir samos daqui. Est bem?
Ela desapareceu para a casa de banho no preciso momento em que o Danny entrou.
Querida, chamou o Danny em frente da porta fechada. Tu no te vais mesmo embora, pois no? Trouxe-te umas flores e chocolate do See de que tu tanto gostas. V l
querida... Sai da. Estou arrependido por termos tido aquela briga. Relanceou um olhar para Owen. Ellie, tu sabes que tudo o que aconteceu foi um acidente. Sabes
que eu nunca te magoaria de propsito.
Owen levou para fora as duas ltimas caixas, meteu-as  fora na carrinha e apressou-se a voltar para casa. O Danny estava a tentar abrir a porta da casa de banho
aos pontaps, mas parou logo que viu Owen.
Raios, disse o Danny timidamente. Estas mulheres sabem mesmo como pr um gajo fora de si, no sabem?
Ellen, est tudo pronto. Podemos partir, disse Owen.
Ela abriu um bocadinho a porta, viu Owen e ento saiu para o trio da entrada.
Vai para o carro, disse Owen. Falta-me levar estas duas coisas. Ellen passou pelo Danny sem notar o olhar furioso do marido. O Danny esperou um pouco, depois seguiu
atrs dela. Owen pegou nos dois volumes, um saco de pele e uma pequena mala. Ambos pareciam estar cheios de pedras. Quando chegou ao fundo do corredor, conseguiu
ver, atravs da porta da frente que estava aberta, o local onde ela estava a subir para a cabina da pick-up. O Danny estava todo atrapalhado a procurar qualquer
coisa no armrio dos casacos que estava ao lado da porta da entrada. Owen comeou a atravessar a sala. Depois o Danny saiu do armrio e ps-se  porta com uma espingarda,
e quando estava a levantar a espingarda, Owen precipitou-se para a frente, tomou balano e atirou com o saco  cabea do Danny que se estatelou no cho de cimento.
Aconteceu tudo to depressa que Owen teve dificuldade em aceitar que tinha acontecido de facto, embora soubesse que era verdade e s vezes tivesse pesadelos em que
no acertava com o saco na cabea do Danny e o Danny disparava aquela arma. Mas quando estava acordado e consciente, recusava-se sequer a aceitar que a arma estivesse
carregada. O Danny estava apenas a tentar assustar a Ellen. Era s isso. E Owen s vezes sentia remorsos por lhe ter dado uma pancada to violenta com aquele saco.
Talvez Lenore Serian tivesse sido apanhada numa situao semelhante aquela. Em ambas nenhum dos dois tinha inteno de magoar o outro, mas as
coisas correram mal. Talvez ela estivesse apavorada como a Ellen. Talvez ela tivesse sido maltratada como a Ellen? No tinha lido nada que indicasse que Bram Serian
fosse capaz de um tal comportamento mas, por outro lado, a sua experincia com Danny Langmore tinha ensinado Owen a no dar importncia s aparncias. Com o Danny
tinha aprendido que se pode conhecer uma pessoa, trabalhar ao seu lado, conhecer at a sua famlia e no entanto no fazer ideia do que essa pessoa seja capaz de
fazer, ou de como se comporte nas relaes ntimas.
De repente Owen saltou da cadeira, estimulado com renovada energia. Era daquilo que ele precisava! Compreender Bram Serian. Descobrir mais coisas a seu respeito.
No sobre a sua carreira, ou a sua arte, ou a sua casa misteriosa, mas sobre ele, o homem. Que gnero de pessoa tinha sido Serian? O que o tinha impulsionado? O
que o teria inspirado ou emocionado? Algures devia haver respostas. Ou pelo menos, indcios. Estava ali a chave para ele fazer uma proposta com vida tinha de dar
vida a Bram Serian.
A enorme biblioteca central de pesquisa na Quinta Avenida era outro edifcio de fazer uma pessoa ficar maravilhada. Owen subiu os degraus de pedra macia e passou
pela esplndida entrada com vrias colunas erguidas com magnificncia e tantalizadas por pensamentos da grande riqueza de informao que um lugar como aquele tem
para oferecer. Pegou numa brochura e passou uma vista de olhos pela lista de coleces e exposies. Depois foi pela escadaria de mrmore de forma arredondada e
subiu trs pisos, para as principais reas de leitura.
Caminhou pelas salas majestosas, respirando os odores da madeira antiga e dos livros velhos e da intensa humanidade, que lhe enchiam os olhos com a beleza e o alcance
e a promessa daquele lugar e a seguir deu incio  sua pesquisa. Dentro de um templo venervel da palavra impressa como aquele, havia de encontrar Bram Serian, o
homem por detrs do artista, e havia de ver tudo com mais clareza. Havia de ter um ponto de convergncia. E a tragdia assumiria uma dimenso mais humana.
As horas passaram. Trabalhou com catlogos e monitores de computador. Rabiscou notas nos seus blocos de apontamentos. Mas no encontrou quase nenhuma informao
nova. Se alguma coisa encontrou, foram novos quebracabeas.
Desceu as escadas e foi para a assombrosa sala dos peridicos actuais, mas tambm ali no conseguiu obter melhores resultados. No lhe parecia possvel que uma celebridade
to excntrica como era Bram Serian tivesse escapado a dissecao por parte da imprensa no decorrer da sua carreira, mas a verdade  que tinha. Estava ali tudo sobre
a sua versatilidade artstica e as suas pinturas cheias de clera e de tormento, sobre a sua casa e a sua influncia nos outros artistas, mas pouco sobre o homem
real. Ao longo dos mais de vinte anos em que o nome de Bram Serian tinha sido merecedor de reportagens, tinham sido mencionadas cinco datas diferentes de nascimento
e uma variedade de locais de nascimento imaginrios. Uma criao de carneiros no interior da Austrlia, um rancho antigo de criao de gado em Montana, um acampamento
de abate de rvores no Noroeste, a sede
de uma empresa de criao de gado para rodeos no Texas e uma cabana nas regies selvagens do Alaska. Owen achava provvel que o prprio Serian tivesse alimentado
os rumores e as reportagens errneas sobre a sua histria, e se assim fosse, ou o artista tinha andado a divertir-se com a inveno de uma autntica anedota gigante
ou tinha sido apanhado nas suas prprias fantasias. Ou ento tinha andado deliberadamente a ocultar a verdade. No havia indicao de que algum daqueles factos fosse
correcto. E os diferentes obiturios que tinham aparecido depois da sua morte eram apenas uma nova verso da informao antiga.
Owen tirou os culos de leitura e encostou-se para trs na cadeira para esticar as articulaes. Tinha chegado e passado a hora do almoo e esse facto estava a fazer
o registo no seu estmago vazio, por isso saiu para o exterior, para um dia maravilhosamente temperado do fim de Fevereiro, para ir comprar um cachorro quente a
um vendedor ambulante. A Quinta Avenida fervilhava com o trfego de Sbado. Juntou-se  multido divertida que estava sentada nos degraus de pedra macia a comer
e a observar.
Os seus pensamentos vagueavam. Imaginava como seria viver numa cidade como aquela e ter acesso a todas as bibliotecas e museus e divertimentos. Viver diariamente
no meio de tanto drama humano. Absorver a energia e a velocidade e a agressividade que pairava constantemente no ar.
Depois tentou imaginar-se sentado ao lado de Bram Serian. O que teria Serian para dizer sobre a vida em Manhattan? O que diria ele sobre a pesquisa que Owen andava
a fazer? Ficaria aborrecido ou divertido com os esforos de Owen?
Se algum soubesse a verdade sobre Bram Serian, seria provavelmente a viva. Mas mesmo que Lenore Serian no fosse to solitria, ele no podia aproximar-se de uma
mulher que estava a lutar pela prpria vida.
Owen voltou para dentro. Depois de ponderar as suas opes, dirigiu-se para a seco mais especializada em arte, desencorajado mas mesmo assim relutante em aceitar
que uma biblioteca to vasta no tivesse o que ele precisava de saber.
Os peridicos na coleco de arte continham uma lista de registos sobre Serian. Owen leu-as e tomou apontamentos e fez fotocpias. Depois, com a ajuda de um bibliotecrio
bem informado, conseguiu passar em revista o material genrico sobre o mundo da arte dos anos setenta e oitenta, esperando encontrar referncias a Serian, assim
como obter uma perspectiva do seu meio.
Quando terminou, ficou a saber que a arte contempornea estava dividida por regies, assim como por teorias. Ficou a saber que, para alm dos estilos de arte, havia
estilos de exposio e de venda de arte. At havia estilos de discusso sobre a arte. Ficou a saber o que Serian pensava do trabalho de outros artistas e do rumo
da arte e de vrios conservadores de museus e crticos e proprietrios de galerias. Tomou nota de uma lista de livros de referncia para comprar e uma lista de museus
e galerias para visitar. Tomou nota dos nomes de todas as pessoas no mundo da arte que tinham aparecido na vida de Serian. Mas apesar de todos os blocos de apontamentos
que tinha enchido e das pastas que tinha atestado de fotocpias, a sua fonte de informao ainda
estava a escapar-lhe. Ainda no tinha adquirido um bom conhecimento do homem que tinha sido Bram Serian. As respostas no podiam ser encontradas no material da imprensa.
Com alguma relutncia, Owen perguntou onde eram os telefones de moedas da biblioteca. Nunca gostara de tratar de assuntos pelo telefone e certamente nunca tinha
telefonado a pessoas completamente estranhas para lhes fazer pedidos, para lhe dispensarem algum do seu tempo, mas no tinha outras alternativas. Tinha de falar
com os colegas e os amigos de Serian. Depois de procurar na lista telefnica, Owen comeou a marcar os nmeros. A tarefa no se tornava mais fcil  medida que prosseguia.
Havia linhas desligadas e linhas em que o telefone tocava mas ningum atendia. Praguejou enquanto desligava o telefone. Mas quando tinha acabado, tinha algumas marcaes
consistentes de entrevistas para aquela mesma noite.
Saiu da biblioteca. O sol j ia baixo no cu, mas a temperatura do ar ainda estava agradvel. Ficou parado ao cimo dos degraus de pedra, flanqueados pelos enormes
lees e respirou fundo, enquanto olhava para o espao extenso da Quinta Avenida e para o passeio movimentado por baixo dele. Sentiu a mesma sensao de tranquilidade
e bem-estar que s vezes se apoderava dele quando estava a olhar para baixo do cimo de um outeiro ventoso dos Flint Hills. O que o fez sorrir, porque parecia quase
perverso que dois polos opostos pudessem provocar nele a mesma sensao.
Um sussurro aterrador comeou l no fundo do seu ntimo e enquanto permanecia ali a olhar para baixo, o sussurro ia aumentando. Ele seria o primeiro a capturar Bram
Serian na imprensa. Este livro no seria apenas sobre a morte de Serian ia esclarecer o mistrio da sua vida.
Pensou numa coisa que tinha lido e copiado para o seu caderno de exerccios muitos anos atrs. Uma coisa de Rilke. Aquilo a que chamamos destino no vem para ns
do exterior: parte do nosso interior. E sentiu como aquilo era verdade, sentiu que ele tinha estado  espera disto, que tinha havido uma corda invisvel a pux-lo
para este livro e este homem e que de alguma maneira Bram Serian tinha estado  espera dele.
Owen chegou cedo para a sua entrevista no sbado  noite e ficou  espera no passeio frio durante quinze minutos antes de entrar.  entrada do edifcio estava um
porteiro vestido de uniforme e uma grande tabuleta onde se lia, TODOS OS HSPEDES DEVEM SER ANUNCIADOS. Deu o seu nome ao porteiro e esperou. Este era o primeiro
edifcio com servio de porteiro em que alguma vez tinha estado. Pior, era a primeira entrevista que ele j alguma vez tinha conduzido. Tinha esperana de que o
nervosismo e a falta de experincia no fossem demasiado evidentes e estava preocupado que Hillyer pudesse no colaborar, se percebesse que estava a lidar com um
amador.
Gregory Hillyer tinha sido um artista de nvel mdio dos anos sessenta e tinha sido professor na lendria Sociedade dos Estudantes de Belas-Artes na Rua 57, em Manhattan.
Hillyer tinha sido o mentor de quem Bram Serian mais se tinha aproximado.
Finalmente, o porteiro fez-lhe sinal com a cabea e ele subiu num elevador estreito. Quando as portas se abriram, Owen viu um homem muito velho a espreitar  porta
de um apartamento ao fundo do corredor.  o senhor Hillyer? perguntou Owen. O homem confirmou com uma reaco brusca.
Gregory Hillyer era da cor do velho pergaminho. Os seus olhos eram remelosos e as suas mos estavam deformadas. Estava vestido com um pijama de flanela amarelo sob
um sobretudo castanho de l escocesa. Mas, apesar de toda a sua aparncia frgil, tinha um comportamento rude e falou com uma voz firme ao mandar Owen sentar-se.
Ento voc est a escrever sobre Bram Serian, disse Hillyer.
Sim.
Gregory Hillyer instalou-se na sua cadeira, pegou num copo de qualquer coisa que parecia usque escocs e disse. Ento vamos a isso. O que  que quer saber?
Importa-se que grave a nossa conversa?
 vontade. No tem nada que me afecte.
Owen ligou o gravador. No fazia ideia de qual seria a maneira mais apropriada de comear uma entrevista, mas tentou dar um ar de confiana. Por que no me fala
de como conheceu Bram Serian, como travou conhecimento com ele... tudo o que se lembrar sobre isso.
Hillyer pigarreou com um rudo surdo e tomou um pequeno gole de usque. Bram Serian deu nas vistas desde o princpio, mas no por causa do seu talento. A sua arte
era crua. Banal. Masturbadora. No  que muita arte no seja masturbadora. Todos ns a fazemos at certo ponto. Mas as suas primeiras tentativas estavam abaixo do
que  aceitvel.
O motivo por que ele fez tanta sensao quando apareceu pela primeira vez na Sociedade dos Estudantes de Belas-Artes no foi pela sua arte de modo algum. Foi pela
sua presena fsica. Ele sobressaa no meio dos outros estudantes de arte. Ele tinha bem mais de um metro e oitenta de altura e era forte como um boi e vestia-se
como se fizesse as suas compras nos mercados de roupa em segunda mo. Com certeza que ningum ia adivinhar que era um veterano do Vietname. Ele dava uma impresso
de frescura dos montes. Como se tivesse acabado de tirar a palha do cabelo.
Mas logo que comecei a trabalhar com ele, fiquei a saber que ele tinha qualquer coisa que faltava a tantos dos meus outros estudantes... desejo. No s o desejo
de criar, porque para um artista esse desejo surge sem qualquer esforo consciente como o apetite sexual. No, o seu desejo era de grandeza, de reconhecimento, de...
significado.
No quer dizer que a sua arte no tivesse importncia para ele. Era vital. O acto de criar. O acto de fazer. De construir. Era o seu modo de expresso e o seu prprio
meio pessoal de psicoterapia. Uma situao comum entre os artistas.
Hillyer soltou um riso seco de satisfao.
S Deus sabe quantos assassinos de esprito transtornado podia haver no mundo se no fosse a arte.
Mas quanto a ser dotado... no era. Havia outros estudantes como Jonas Watkins, por exemplo, que tinham dentro de si autnticos gnios naturais.
Mas Serian no. O seu trabalho era fruto de grande esforo e estava marcado pela frustrao.  claro que ele ainda no tinha comeado a pintar a srio. As aulas
de pintura e de desenho em que participava eram de pouca importncia para ele naquela altura. Os seus interesses estavam no acto de moldar e de modelar e de construir
com as mos... actividades enrgicas e tcteis... e ele no tinha pacincia para pincelar cor numa tela. De facto, lembro-me de ele demonstrar mesmo desdm por essa
actividade.
Hillyer aclarou a garganta, depois foi acometido de um ataque de tosse. Quando esta passou, tomou uma longa bebida antes de continuar.
Jonas Watkins...  um homem com quem devia falar, se conseguir encontr-lo. Foi colega de quarto do Serian durante algum tempo e eles pareciam ser amigos. At que
Watkins se afastou...
Foi o que aconteceu com a maior parte deles. Ensinei tantos ao longo dos anos, trabalhei com tantos... vi tanto talento... O gnero de talento natural que nos faz
suster a respirao. Eles vinham ter comigo... jovens e ansiosos e ambiciosos... sem a menor ideia do que os esperava no mundo... ou de como era difcil aguentarem-se
naquele avio celestial, onde a nica realidade  aquilo que se adquire com os sentidos, para o transformar em arte.
Depois as rodas da vida esmagaram-nos com os fardos da respeitabilidade e da criao dos filhos e impostos e hipotecas e eles voltaram-se para a anestesia da televiso
e consumo comercial... e caram. Como anjos. Caram nos dentes da engrenagem da mquina e tornaram-se pessoas indolentes e limitadas, apenas com uma recordao daquele
avio mais alto onde um dia tinham vivido.
Foi isso que eu testemunhei repetidas vezes ao longo dos anos. A seduo dos meus estudantes. A perda do seu estado de graa. No conseguiram resistir  tentao
como eu... e como o Serian conseguiu.
Olhe  sua volta, senhor Byrne. Para alm das obras de arte e da roupa que trago vestida, nada nesta sala me pertence. Estou desembaraado. Vivo com a minha irm.
Nunca me permiti ser tentado pelo casamento nem pelo materialismo.
E podia afirmar que tinha ensinado esse discernimento a Bram Serian, mas no ensinei. Ele j o possua. Pode ter aprendido a compreend-lo mais profundamente atravs
de mim, mas ele j tinha o tacto natural no seu interior.
Oh no... estou a v-lo nos seus olhos. Est a pensar que este velhote no sabe nada sobre como o Serian enriqueceu e arranjou uma esposa e tudo isso. Mas sei. Continuei
a ser o guru do Serian, o seu apoio espiritual, mesmo at ao fim. Isso no quer dizer que eu fosse o seu confessor pessoal ou confidente. Ele no era essa espcie
de homem. S falvamos de arte. Mas eu passava muito tempo na Arcdia e via como eram as coisas.
Para quem est de fora ele pode ter parecido ter todas as caractersticas de um falhado, mas isso no passava de uma iluso. O dinheiro tinha pouca importncia para
ele. Era superveniente. A casa grande no era o tpico bangal hipotecado do animal suburbano era uma obra de arte em progresso. E o casamento... no era real.
No compreendo, disse Owen. Eles no estavam casados legalmente?
Hillyer riu-se por entre dentes, com ar de quem sabe. Quem  que sabe ou se interessa? Estou a falar de questes espirituais. O casamento no tinha domnio sobre
ele, no o preenchia, portanto no interferia com a sua criatividade. Eu sempre acreditei que fosse por causa do sangue oriental dela. So muito submissas, sabe.
 por isso que as mulheres orientais so to populares como noivas por correspondncia. Muito submissas... Sorriu sugestivamente. Sexualmente tambm. Ouvi dizer
que fazem tudo o que um homem quer.
Ento acha que o Serian casou com a Lenore porque ela era submissa e no fazia qualquer exigncia relativamente ao seu tempo?
No. No. No. Eu no disse que foi por isso que ele casou com ela. Eu disse que era isso que fazia com que estar casado com ela fosse to fcil para ele. Hillyer
assumiu um ar severo em pensamento. Tanto quanto me lembro, ele casou com ela por uma questo de compromisso. Uma espcie de promessa durante a guerra.
Quer dizer que ele conheceu a Lenore quando esteve no Vietname?
Obviamente, deve t-la conhecido naquela altura.
Tem a certeza disso? perguntou Owen entusiasmado. Aquilo era a primeira prova de que alguns rumores sobre Lenore podiam ser verdadeiros, e insistiu para que Hillyer
contasse mais.
Esta  a primeira vez que falo nisso. Hillyer soltou um suspiro profundo. Agora, depois que o Bram se foi, que mal pode ter se um velhote como eu falar? Ele j c
no est para ficar zangado, no  verdade?
Acho que a mulher deve ter tido uma espcie qualquer de passado duvidoso. Talvez fosse uma espia ou uma prostituta. Porque ele preocupava-se muito em proteger a
sua identidade. E porque era desse gnero de mulheres que ele gostava.
Espias e prostitutas?
Especialmente as prostitutas. Tinha uma preferncia por mulheres maculadas.
Owen sondou-o, tentando suavemente determinar se Gregory Hillyer tinha alguns factos reais que apoiassem a hiptese do Vietname, mas o velhote no tinha.
Digo-lhe que aquilo no foi um casamento romntico, insistiu Hillyer. O Bram estava a compens-la por qualquer coisa que tinha acontecido no Vietname. Voc devia
procurar falar com alguns dos seus camaradas militares, se quer saber mais. Tudo o que lhe posso dizer  que o prprio casamento no significava nada para ele. Ele
vivia para a sua arte... e a sua identidade como artista. Vivia para o poder e o respeito que a sua arte lhe proporcionava.
Isso era verdade no princpio e era verdade no fim. E foi por isso que a mulher acabou por mat-lo. Porque ele estava para alm do seu alcance. Porque ela no conseguia
mago-lo de nenhuma outra forma.
Gregory Hillyer esvaziou o copo, levantou-se da cadeira e dirigiu-se lentamente para um armrio, para o encher de novo. Era de facto usque escocs.
#No ofereceu nada a Owen.
Depois de Hillyer ter voltado para a sua cadeira, Owen perguntou-lhe que mais sabia sobre Lenore.
- Oh, ela  um enigma,  isso que ela . No existe nenhuma actriz que conseguisse fazer um melhor trabalho a ser misteriosa do que a Lenore. Como  que ela  misteriosa?
 difcil de explicar. Nunca participava nas conversas, e se algum lhe perguntasse alguma coisa, ela normalmente devolvia a pergunta. Se algum dissesse, No est
um dia bonito, Lenore? ela olhava para ele e respondia Acha que est um dia bonito? e nunca se associava s risadas dos outros. Nunca era assim espontnea. - Hillyer
hesitou. - Veio-me mesmo agora  cabea que ela era muito parecida com uma modelo artstico. J alguma vez observou uma modelo artstico com experincia?
Owen abanou a cabea em sinal negativo.
- Quando esto em pose, elas so o ponto de convergncia de todos os olhares de uma sala cheia de gente, mas agem como se no se apercebessem de que esto perante
uma assistncia. As que so mesmo boas conseguem criar uma aura incrvel  sua volta com a sua linguagem corporal, no entanto parecem no notar nem dar importncia
ao efeito que tm sobre aqueles que esto a observ-las. A Lenore era assim. Atraa a ateno com a sua singularidade e a sua aura sexual, mas era indiferente a
essa ateno.
- Como era a relao entre ela e o Serian?
- Como j disse, ela era-lhe submissa. Respeitosa. Bastava um olhar dele para ela ficar subjugada. Ela sabia qual era o seu lugar.
Hillyer bebeu um longo trago de usque. - A minha irm no gosta que eu beba, - explicou ele. - Quando ela vir a quantidade de lquido que desapareceu da garrafa,
vou dizer-lhe que foi voc, o meu convidado, quem foi o responsvel. Se voc ainda estiver aqui, por favor, no me desminta.
Owen olhou nervosamente para a porta.
- No se preocupe. Temos cerca de uma hora at que ela desa. - Os olhos de Hillyer estavam a ficar vidrados e as suas palavras estavam a perder a tonalidade rspida,
mas ele parecia estar ansioso por continuar a falar.
Owen verificou os seus apontamentos. - Encontrei informaes contraditrias sobre as origens de Serian... data de nascimento, local de nascimento, famlia...
Hillyer sorriu. - o Bram era bastante dissimulado em relao a essa questo. Queria que o seu passado permanecesse passado e, ou evitava falar nesse assunto, ou
mentia. Uma vez disse a algum que tinha aparecido completamente criado no autocarro que o trouxe para aqui, e provavelmente isso  mais verdadeiro do que qualquer
outra coisa que eu lhe tenha ouvido dizer sobre esse assunto. -Alguma vez fez alguma referncia aos pais?
- No.
- o senhor tinha a impresso de ele ter tido uma infncia muito m ou de estar a fugir de alguma coisa?
-        Em todos os anos que o conheci, nunca obtive indcios suficientes para formar uma opinio sobre o seu passado. Ele vestia-se como um rstico no
-        princpio e mais tarde mudou para o estilo de roupa de cowboy. Ambos podem ter sido estilos afectados. No sei. A sua maneira de falar no era prpria do
Leste, mas tambm no era propriamente do Sul, nem do Texas, nem canadiana, nem daquele estilo suave da Califrnia. Tanto quanto sei, ele cresceu algures num subrbio
de classe mdia e toda a sua recusa do passado pode estar radicada numa espcie de horror  mediocridade.
Como tantas outras pessoas criativas, ele veio para Nova Iorque e reinventou-se a si prprio. No  fora do comum.
Consegue recordar-se de alguma aluso, por mais pequena que fosse...?
Nada mais para alm do que j lhe contei.
Alm de Jonas Watkins, ele tinha alguns amigos com quem eu pudesse ter interesse em falar?
O Serian no era propriamente dado a intimidades. Ele tornou-se um bom lder entre o grupo de estudantes de artes mas, para alm de Watkins, no criou nenhumas ligaes
especiais de que me tenha apercebido.
E raparigas? Ele tinha namoradas?
Hillyer sorriu. Namoradas. Esse  um termo to frvolo e Bram Serian nunca foi frvolo. Teve a sua quota parte de aventuras sexuais. Como j referi, ele era fascinado
por prostitutas. E teve uma ligao durante algum tempo com uma modelo artstico. Uma mulher alta e negra que era considerada um grande prmio. Eram completamente
inadequados um para o outro. Tenho a certeza de que Watkins vai lembrar-se do nome dela.
Owen voltou a verificar o bloco de notas, embora no tivesse quaisquer outras perguntas escritas.
O senhor diz que continuou a ser o seu conselheiro criativo. Pode explicar como se deu a sua mudana da escultura para a pintura?!
Ah... Hillyer bebeu o que restava do usque. A interveno divina  a nica forma para explicar isso.
Ele nunca tinha realmente gostado da pintura, embora tivesse feito um pouco aqui e ali. Lembro-me de uma vez em que estivemos a beber juntos depois das aulas. Havia
cerca de uma dzia de estudantes e eu prprio e outro professor juntmo-nos a um canto do nosso barzinho escuro preferido e o assunto deu origem a uma discusso
sobre qual seria a forma mais pura de arte, a escultura ou a pintura. A discusso prolongou-se indefinidamente, com os pintores a acusar os escultores de serem artesos
exaltados, apenas a um grau acima de tricotadoras e pedreiros e os escultores a acusar os pintores de serem amadores incapazes, baseando-se nas tintas para realizar
o seu trabalho. Como de costume, o Bram no tinha dito nada. Estava encostado  parede com aquela expresso divertida, que fazia com que muitas pessoas pensassem
que ele j tinha as respostas para tudo... mas que realmente era porque ele no se importava com essas respostas... e algum insistiu que ele devia explicar por
que  que no gostava de pintar. E o Serian disse que era por causa da ausncia de relevo. Disse que detestava a planura... quer fosse numa mulher, numa tela ou
num terreno.
Rimo-nos durante muito tempo por causa disso. Foi uma daquelas afirmaes que toda a gente repetiu durante anos. E nunca ouvi dizer que tivesse
mudado de opinio.
Ento um dia ele convidou-me a ir  sua quinta para ver uma coisa. Fui l, na expectativa de ver o que era habitual mas, em vez disso, ele mostrou-me algumas telas.
Isto foi antes da casa grande... e ele nunca levou pessoas ao estdio ou  antiga casa da quinta que ali havia... por isso montmos aquelas telas em suportes c
fora. Ele afastou-se e foi para dentro do estdio por algum tempo e assim eu pude examin-las sem ser incomodado. Depois, quando voltou e me perguntou o que eu pensava,
eu estava quase sem fala. O trabalho era brilhante.
Owen franziu as sobrancelhas absorto em pensamentos. Se tivesse de explicar que tipo de homem era o Serian que espcie de pessoa era como o descreveria?
Ele era muito activo. Mesmo muito activo. E acredito que ele podia ter sido bastante feliz sem ter nenhuma intimidade na sua vida. Ele gostava de ter seguidores
e de ajudar os jovens e os lutadores, mas ficava muito desconfortvel com a proximidade. E no gostava que lhe tocassem.
Hillyer agarrou-se aos braos da cadeira e debruou-se para a frente, como se fosse a cair da cadeira.
Ela vai voltar para casa em breve e tenho de me escapar para a cama, declarou.
Owen ajudou Hillyer a levantar-se da cadeira e segurou-o pelos braos enquanto o velhote seguia lentamente o caminho para o quarto. Quando j estava em segurana,
empoleirado na cama, Owen disse-lhe, Obrigado pelo seu tempo.
Tire-me este casaco, ordenou-lhe ele, e Owen libertou-lhe suavemente os frgeis braos. Pode voltar noutra altura se precisar, disse Hillyer. Mas aviso-o... fico
 espera da oferta de um exemplar do livro, quando for publicado.
Terei todo o gosto, disse-lhe Owen, e encaminhou-se para a porta.
Com quem vai falar a seguir? perguntou Hillyer.
Owen voltou-se para trs. Amanh tenho uma entrevista marcada com Edie Norton. A mulher que...
Hillyer carregou o sobrolho. Eu sei quem  Edie Norton. Aquela cabra vampira. -
7
Owen passou o resto da noite de sbado a organizar as suas notas sobre o julgamento, a passar  mquina a transcrio da entrevista com Gregory Hillyer e a trabalhar
na proposta. Trabalhou at tarde mas, mesmo assim, quando foi para a cama no conseguia dormir. Ficou ali deitado no escuro a ouvir os rudos que vinham da rua l
em baixo.
No princpio Lenore tinha-lhe parecido o grande mistrio. Tinha imaginado Bram Sedan como um homem muito parecido consigo prprio e tinha imaginado um carcter para
Serian que agora verificava estar errado. No dia seguinte tinha uma entrevista com Edie Norton, proprietria das Galerias Norton e que fora durante muito tempo agente
artstica de Bram Serian. Certamente ela ia ter respostas para as suas questes.
O seu pensamento precipitou-se em antecipao. Os ponteiros iluminados do relgio marcavam a passagem das horas.,
O comentrio de Bram Serian sobre detestar a ausncia de relevo numa mulher, numa tela ou num pedao de terreno continuava a repercutir nos seus pensamentos. Serian
s podia ser de uma regio agrcola para ter dito aquilo.
O prprio CHven tinha nascido numa regio plana. Numa zona de cultivo de trigo a vinte quilmetros de Maynard, no Kansas. Sete hectares de terreno agrcola de primeira
qualidade, delimitado por laranjeiras Osage e interrompido apenas pelas casas da quinta e por uma extenso de folhas secas de cedro do lado norte do ptio.
As sebes constitudas por rvores e os arvoredos naquela regio tinham sido plantados pelos colonos num passado longnquo, presumivelmente para marcar as linhas
divisrias dos terrenos e abrandar a velocidade do vento sempre presente, mas CKven suspeitava que os primeiros colonos as tivessem plantado tambm por outros motivos.
Achava que tinha sido uma maneira de aproveitar o terreno e torn-lo inofensivo, pois podia ser embrutecedor enfrentar aquele terreno plano inflexvel, olhar para
o horizonte sem relevo, sem uma interrupo da linha que conduzisse os olhos ou o esprito para as alturas.
A propriedade da sua famlia chamava-se a quinta dos Hadleys. Os Hadleys eram da famlia da sua me; tinham sido donos daquelas terras
#durante geraes antes de passarem para ela. Havia um porto de ferro forjado que dava para o jardim, com as letras do nome HADLEY integradas no design do porto.
O canteiro em frente da casa tinha roseiras com rebentos irregulares e dos tempos antigos, que tinham vindo do Leste numa carroa coberta em que vieram os primeiros
Hadleys. Ao lado do caminho de acesso estava uma caixa de correio feita de uma vasilha de leite, onde se lia HADLEY em letras de lato.
Clancy Byrne nunca mudou uma nica coisa, nem colocou o nome BYRNE. Devia ter sido talvez um aviso, mas a falta de sentido de posse de Clancy combinava muito bem
com as suas outras atitudes despreocupadas, de cuja origem ningum suspeitava. Talvez o prprio Clancy no tivesse conscincia das suas intenes. Alm disso, mais
uma vez, talvez o objectivo fosse bem claro na sua mente, desde o princpio. Desde o dia em que conhecera a me deles.
Stella Hadley era uma rapariga triste de dezanove anos, que estava desolada pela morte dos pais e do irmo num curto espao de tempo, quando conheceu Clancy Byrne
num piquenique do Dia Quatro de Julho. Ele estava apenas de visita  regio e por isso gerou-se  sua volta um ar de mistrio. O que combinava com o seu charme e
os seus lendrios olhos azuis que faziam com que todas as mulheres do piquenique ficassem curiosas. Terminou num impressionante segundo lugar a corrida a p para
homens e ganhou a competio de cravar uma ferradura. Depois tirou o bandolim das mos de um tocador e divertiu toda a gente com uma sucesso de canes populares
irlandesas.
Stella Hadley ficou fascinada por ele.
Aquela era a histria que todos tinham ouvido vezes sem conta durante a infncia. O conto da princesa triste e definhada a ser arrebatada pelo prncipe encantador
e elegante. Mesmo para o fim da sua vida, quando era evidente que o conto de fadas no tinha acabado em felicidade, a me deles ainda adorava contar a histria daquele
encontro de seduo.
Stella e Clancy casaram-se passados que foram trs meses aps aquele encontro. A noiva, que no tinha o menor sentido da realidade, converteu-se ao catolicismo e
assinou a escritura de transferncia da quinta que recebera por herana, no dia do casamento. Nenhuma das suas tias ou tios conseguiu dissuadi-la daquelas atitudes
drsticas. Stella estava determinada a provar que a sua confiana em Clancy era muito forte. Ou talvez estivesse decidida a prend-lo to firmemente a ela, de tal
maneira que ele nunca mais pudesse libertar-se dela.
At Owen ter nove anos, Ellen doze, Terry dezasseis e Meggie trs, viveram na quinta rodeados de tias-avs senis e uma comunidade onde os pais e os avs da sua me
se tinham estabelecido e gostado. Havia muito trabalho para fazer, mas a maior parte era sazonal concentrado nas tarefas da plantao e da colheita. Cultivavam trigo
do inverno, o que significava que faziam a sementeira no Outono, concediam os direitos de pastagem de maneira que os criadores locais de gado leiteiro pudesse levar
o gado a pastar no marfolho tenro, depois observavam a cultura a recuperar milagrosamente da pastagem e os meses em que ficava coberta por uma grande camada de neve,
para se
desenvolver com o sol da Primavera e transformar-se num mar dourado ondulante que cobria todas as fazendas do Kansas.
Os rendimentos do trigo, combinados com o lucro pequeno mas estvel da concesso do petrleo no sector quarenta, proporcionavam um modo de vida decente para toda
a famlia, apesar de o pai ser um pssimo agricultor. Os terrenos eram frteis, portanto no era preciso grande competncia para conseguir uma boa produo. A terra
escura argilosa daqueles campos tinha sido enriquecida ao longo dos sculos pelos sedimentos arrastados pelos afluentes transbordantes, e os antepassados da sua
me tinham sido responsveis cuidadosos, preservando o terreno com estrume e deixando periodicamente um campo em repouso, fazendo a rotao com sorgo ou com centeio
e trigo. Numa nica gerao no era possvel que Clancy desfizesse tudo aquilo.
Para sermos justos, Clancy no era tanto um mau agricultor mas antes um agricultor desinteressado. A agricultura aborrecia-o. Owen recordava-se perfeitamente das
tcnicas de plantao do pai. A estao comeava com Clancy a passar o tempo no caf, perto do elevador do gro, supostamente a recolher sugestes para a plantao.
Depois era para ele um momento importante, quando ia buscar a mquina de semear ao barraco do equipamento e ia comprar as sementes. Quando chegava o grande dia,
levava o Terry, a Ellen e o Owen para o campo e fazia um pequeno discurso sobre Deus e os santos serem bons para eles. Depois saltava para o tractor e dava aquela
primeira volta cerimonial, fazendo o esboo de um desenho que Owen agora sabia que podia ser visto pelos passageiros de um avio que passasse l no alto. Logo que
esse primeiro passo de diverso terminava, parava o tractor e ordenava a um dos filhos que tomasse conta dele.
Trabalhavam normalmente por turnos, caminhando de casa para os campos e dos campos para casa e acenando uns aos outros para serem substitudos. Durante os ltimos
trinta minutos do turno de Owen, ele ficava sempre ansioso, imaginando repetidas vezes o seu alvio ao acenar com o leno vermelho do outro lado do campo.
Lembrava-se de conduzir uma mquina que fazia um barulho ensurdecedor, enquanto se deslocava pesadamente em crculos  volta de um extenso campo aberto como uma
das actividades mais entorpecedoras da mente e mais abaladoras da coluna vertebral que era possvel imaginar. Mesmo no havendo vento, o p levantava-se para cobrir
cada centmetro de pele e de roupa, e no Kansas havia quase sempre vento. Outros agricultores no lavravam nos dias maus, com receio de que o seu precioso solo fosse
levado pelo vento, mas o solo no era um conceito importante para Clancy. Owen lembrava-se de andar aos solavancos pelo campo, sentado s vezes ao volante do tractor,
quando a imundcie levantada pelo vento lhe batia com tanta fora no rosto que ele ficava cego e os sulcos abertos pela charrua ficavam aos ziguezagues e o campo
ficava com o aspecto de arte moderna agrcola. Quando aquilo acontecia, Terry fazia sempre um turno duplo, para refazer o trabalho.
Havia tambm outros pequenos trabalhos. Tinham uma vaca Jersey que tinha de ser ordenhada duas vezes por dia, e os ces tinham de ser alimentados, e havia sempre
um porco ou um cordeiro ou um novilho a ser engordado no
curral atrs do barraco onde guardavam o equipamento. Era preciso fazer a manuteno das vedaes e do equipamento, embora os baixos nveis de exigncia de Clancy
no fizessem muita presso nesse campo. O inverno trazia montes de neve que tinham de ser limpos com a p e a primavera significava que o caminho de acesso tinha
de ser de novo coberto de gravilha. Durante o vero todos eles tinham de ajudar na horta da me e na preparao de conservas e na produo de geleia com os produtos
da horta. Mas no meio de tudo aquilo eles ainda conseguiam divertir-se. E, se bem que o trabalho fosse frequentemente esgotante, no havia nele qualquer amargura.
Eram felizes.
O pai estava muitas vezes fora de casa. Era cliente assduo do caf e sobretudo de todo o tipo de jogos de domin. s vezes ficava fora durante vrios dias, quando
ia  caa do coiote ou a fazer uma compra de ces ou tratar de outro assunto qualquer. Apesar da sua ausncia ser de alguma maneira um alvio, ficavam sempre contentes
por v-lo regressar. Ele trazia boa disposio para o ambiente da casa com as suas histrias engraadas e fazia a sua me ficar com os olhos a brilhar. Ficavam orgulhosos
por ter um pai que era to charmoso e to divertido.
Foi o nascimento da Meggie que alterou tudo.
Clancy partiu para ir tratar de um assunto qualquer naquela manh. As previses anunciavam neve, a pick-up estava imobilizada  espera de uma nova bomba de combustvel
e a sua mulher estava com nove meses, mas ele foi-se embora a acenar da janela do carro familiar com a promessa de voltar em breve.
A neve prevista abateu-se sob a forma de uma forte tempestade de neve batida pelo vento. Houve uma avaria da rede telefnica, como sempre acontecia quando havia
grandes tempestades. A seguir foi a energia elctrica. Estavam todos juntos  volta do velho fogo de ferro a lenha, a contar histrias de fantasmas, quando a me
teve a primeira contraco. A sua me, que normalmente era to corajosa, entrou em pnico.
Terry vestiu duas camadas de roupa interior comprida e um fato-macaco isolador e dois pares de luvas e um protector para o rosto, feito  mo, que s tinha buracos
abertos para os olhos e partiu no tractor  procura de ajuda. Owen estava preocupado com a sua me, mas aps anos a assistir ao nascimento de vitelos, ou de potros,
ou de cordeiros, o nascimento parecia-lhe um acontecimento natural e no compreendia bem os perigos que a me estava a correr.
Foi a partida de Terry no meio daquela violenta tempestade que realmente aterrorizou Owen. Owen saiu com o irmo para ir ao barraco do equipamento. O vento soprava
com tanta fora e a neve j estava to alta que tiveram dificuldade em abrir a porta das traseiras da casa e percorrer o espao entre a casa e o barraco do equipamento.
O tractor parecia pequeno no meio da escurido. Mesmo  velocidade mxima, era lento. Muito, muito lento. E era um tractor normal, antiquado, sem cabina nem aquecimento
para proteger o Terry da tempestade.
Quando o irmo finalmente se deslocou ruidosamente e se embrenhou no meio da noite cheia de neve, Owen teve subitamente a percepo de que podia morrer. O pai e
o irmo da me tinham ambos morrido num acidente com
o tractor, em condies muito menos perigosas. Sabia que Terry podia ficar cego com a neve, sair da estrada e ficar atolado e morrer de frio antes de conseguir obter
ajuda. Sabia que a neve no cho e a fraca visibilidade podiam fazer com que Terry se enganasse em relao ao terreno e se aproximasse demasiado de uma vala profunda,
fazendo o tractor inclinar-se e cair para o lado. De tal maneira que o condutor ficasse esmagado por baixo dele, ou fosse projectado e ficasse desamparado na noite
gelada. E foi naquele momento que tudo mudou para Owen. Daquele momento em diante nunca mais sentiria o mesmo em relao ao pai encantador e voluntarioso.
Ellen e Owen humedeciam a testa da me com uma esponja e deixavam que ela lhes apertasse as mos durante as contraces, e diziam todas as oraes que tinham aprendido
durante as espordicas aulas de catequese. No fazia ideia do tempo que tinha passado pareceu-lhe uma eternidade at ouvir o som de socorro. O abenoado bramido
do limpador da estrada. O Terry tinha ido ter com a nica pessoa que podia levar a sua me ao hospital, o homem responsvel por fazer a manuteno das estradas arenosas
e sujas. Mantinha a estrada limpa para a sua quinta e esta mquina monstruosa tinha a fora e a potncia de um carro de assalto.
Aconchegaram a me na cabina aquecida do limpador de estradas. Um Terry semi-gelado tinha ficado em casa do homem a aquecer-se, por isso foi a Ellen quem subiu para
o limpador de estradas, para ir com a me para o hospital e gritar com ela no nascimento da Meggie.
Clancy no apareceu durante vrios dias. S apareceu ao fim do dia em que a me voltou do hospital.
Estava na cama com o beb, quando ouviram o carro e ela levantou-se e saiu para a varanda. Owen correu atrs dela, a colocar-lhe um cobertor nos ombros. E ambos
pararam a meio do caminho. Do outro lado, a fix-los de olhos esgazeados da parte de trs do carro, estavam cinco longos focinhos cinzentos. Ces. Provenientes do
cruzamento entre galgos de raa e ces russos de caa ao lobo. Aquelas criaturas muito sorrateiras, cabeludas e inexpressivas, que correm como o vento e matam como
mquinas. Clancy Byrne tinha perdido o nascimento da filha e tinha deixado a famlia abandonada durante uma semana para ir  procura de ces de caa.
Stella Byrne encostou-se ao filho por momentos, depois recomps-se e colocou a boca naquela posio que se tornou to caracterstica durante os anos que se seguiram.
Diz-lhe que estou a descansar, disse ela e voltou para dentro de casa, deixando Owen a cumprimentar Clancy e a ouvir a sua longa histria de como soube que um agricultor
tinha sufocado dentro do seu silo e de como obteve informaes de que aquele agricultor possua alguns dos melhores ces de caa ao coiote do estado, de como seguiu
a viva e finalmente conseguiu apoderar-se deles por trapacice. Intrujei-a, tinha dito Clancy em triunfo. Ainda bem que a enganei.
S mais tarde  que descobriram como  que cinco ces crescidos tinham sido metidos no assento de trs do carro novo da famlia o primeiro carro novo que tinham
e o nico automvel que alguma vez tinha sido escolhido Pela me.
Quando Clancy finalmente firmou o negcio com a viva, ela dissera que queria que levasse os ces imediatamente, por isso, sem hesitar, Clancy foi a uma oficina
e mandou o mecnico arrancar o assento de trs da carrinha. Depois carregou aqueles ces infestados de pulgas dentro do espao de carga que tinha acabado de criar
e meteu-se  estrada. Pensou que tinha sido uma soluo inteligente, e claro que tencionava voltar l para recuperar o assento.
A sua me manteve-se fechada durante vrios dias com a beb. Clancy pedia e implorava  porta, prometendo que o carro ia ficar como novo, prometendo que ia mand-lo
limpar por profissionais e ia mandar reinstalar o assento numa oficina. At foi a Hutchinson e comprou-lhe um presente, uma caixa de madeira dispendiosa para jias,
que era uma miniatura de uma cmoda e era suficientemente grande para meter l o contedo de uma exposio inteira de uma loja. Mandou o Terry levar-lha atravs
da linha de batalha do limiar da porta do seu quarto.
Embora ela no possusse quaisquer jias para alm da aliana de casamento e um pregador que a me lhe tinha deixado, o presente fez o seu trabalho de magia e Stella
abriu a porta. Parecia no se sentir incomodada pelo facto de Clancy ter obviamente comprado a primeira coisa que viu, sem ter em considerao o que ela pudesse
porventura querer ou precisar. Guardou aquela comodazinha como se fosse um tesouro, enchendo as gavetas forradas de veludo com as suas mais preciosas recordaes.
Para alm do pregador que tinha sido da famlia por vrias geraes, guardou l dentes de beb e os caracis do primeiro corte de cabelo e o dlar de prata que o
seu pai lhe tinha dado quando terminou o curso do ensino secundrio, a fita azul que o Terry usou no concurso ortogrfico do oitavo ano, a bala que tinha sido extrada
da coxa da Ellen depois de Clancy a ter atingido acidentalmente enquanto andava  caa, e ao longo dos anos acrescentou a medalha de despedida da turma do Terry
e o alfinete de cabea da Ellen quando foi chefe de claque e o lpis de ouro com uma inscrio gravada que Owen ganhou no concurso de dissertaes do condado.
Clancy mandou limpar o carro e desinfest-lo das pulgas. Mas nunca conseguiu restaur-lo. Passaram meses antes que ele voltasse para reaver o assento e nessa altura
o mecnico da paragem de camies j tinha desistido de devolv-lo e tinha-o vendido. O Terry fez uma grade de madeira e segurou-a com arame no espao vazio do carro,
depois colocou em cima almofadas de cama e foi o que serviu de banco traseiro durante os restantes dois anos em que tiveram o carro. Terry e Owen e a me nunca falaram
daquilo, mas a Ellen proporcionou a Clancy preocupaes infindas, servindo-se daquele carro arruinado contra o pai de maneiras que teriam feito rir o prprio diabo.
Planuras. As planuras faziam parte da infncia de Owen. Faziam parte do seu passado, que permanecia gravado na sua memria. Mas compreendia muito bem o dio de Bram
Serian.
Ficou a olhar para o meio da escurido do seu barulhento quarto citadino. O que pensaria Serian dos Flint Hills, imaginou ele. E sorriu para si prprio. Porque pensou
que sabia. Pensou que finalmente tinha a chave para o carcter de Ram Serian
Owen tinha uma entrevista marcada com Edie Norton para as quatro horas na sua galeria, no SoHo. Depois de fazer o seu trabalho de casa, sabia que havia outra Galeria
Norton na alta da cidade e que os Nortons eram muito conhecidos na sua especialidade.
Como era seu hbito, Owen chegou cedo. Deu uma volta pelas salas espaosas. Pareciam semelhantes a outras galerias por onde tinha passado no caminho para ali, com
tectos altos e paredes brancas e soalhos de carvalho polido. Havia dois quadros de Serian em exibio. Um deles era uma pintura abstracta escura e inflamada, e o
outro era uma mistura sbria mas violenta de corpos a fundirem-se.
Atrs da secretria estava uma jovem mulher com um ar mal-humorado mas arrogante, com um vestido de malha apertado. Owen sorriu para ela. Ela desapareceu durante
alguns minutos, depois voltou e acompanhou-o at ao escritrio. Enquanto Owen seguia atrs dela para a parte de trs do edifcio, perguntou-se como  que uma pessoa
com aquela atitude conseguia manter um emprego.
Quando entrou no gabinete exuberantemente decorado, foi recebido por uma mulher que devia ter mais de cinquenta anos, embora estivesse to elegantemente produzida
que a sua idade se tornava uma questo secundria. Estendeu-lhe a mo e disse, Ol, Owen. Eu sou Edie Norton, enquanto o seu olhar o avaliava atrevidamente centmetro
a centmetro.
Posso oferecer-lhe ch ou caf?
Owen recusou e ela sentou-se  sua secretria cheia de motivos decorativos.
Bonita moblia, comentou ele. 
De um antiqurio francs.  a minha segunda paixo a seguir  arte. Ele fez um aceno com a cabea. Ela sorriu.
Mandei investig-lo com muito cuidado, Owen, mas mesmo assim acho que devo avis-lo... se alguma coisa do que aqui dissermos for vendido a publicaes sensacionalistas
ou usado para algum propsito que no seja o seu livro, as Galerias Norton vo causar-lhe muitos aborrecimentos.
Oh?
Sim. Temos de ser muito cuidadosos, sabe. Todas as pessoas que conheciam o Bram tm recebido propostas, e como ns ramos muito ntimos dele- Ela encolheu os ombros
delicadamente.
Owen ps de lado estas notcias inquietantes e concentrou-se no seu objectivo. Ouvi dizer que est previsto a senhora ir prestar depoimento no julgamento, disse
ele.
Sim. Sou obrigada a testemunhar. Se o meu marido, Barry, no estivesse na Europa em viagem de negcios, tambm iam obrig-lo a ir l. Ela franziu as sobrancelhas,
mas a pele do seu rosto era to firme que no apareceram nenhumas rugas verticais. Fale-me desse livro para o qual anda a fazer pesquisa, Owen.
Havia qualquer coisa de estranho na maneira como Edie Norton pronunciou o seu nome que fez Owen querer manter-se distanciado dela. Tentou evitar qualquer troca de
olhares.
Como lhe expliquei ao telefone, trata-se fundamentalmente de um livro sobre um crime verdadeiro. Neste momento estou a concentrar-me no julgamento e na tragdia
da morte de Serian, mas tambm queria falar da vida de Serian. Queria que as pessoas soubessem quem era Serian. No apenas como artista mas como homem.
Uhmm... Ela entrelaou as mos sobre a secretria e contraiu os lbios a pensar. Qualquer coisa como... como pode esta morte trgica fazer sentido sem se conhecer
o lado humano do gnio criativo que foi destrudo?
Owen pestanejou. Sim.  mais ou menos isso. Posso citar o que a senhora disser?
O riso dela foi frio e automtico.
Parece-me que lhe disse que o meu tempo hoje  muito limitado.
Sim.
E pode pr esse gravador de lado. Nada de gravaes.
Est bem. Owen abriu o seu bloco de apontamentos.
E sabe quais as reas que no estou disposta a discutir.
Se eu alguma vez ultrapassar os limites, por favor, chame-me a ateno... senhora Norton.
Edie, insistiu ela.
Muito bem, disse ele, sentindo-se desconfortvel sob o olhar perscrutador dela. Vamos comear pelo princpio. O que sabe a senhora da infncia de Serian?
No muito. Ele guardou para si prprio os seus primeiros anos.
Donde era ele?
De algures por a. Com a mo cheia de jias fez desdenhosamente um gesto a indicar as regies do interior do pas. Do outro mundo. Da terra onde os homens crescem
para serem homens. Sorriu. Como voc.
Eu... ah... Quando contactou com ele pela primeira vez, ele tinha algum sotaque ou modo de falar que pudesse lev-la a adivinhar donde vinha?
No.
Ele falou alguma vez dos pais?
No. Mas tinha sempre aquela coisa relacionada com os rfos. Nada em concreto... mas... bem, por exemplo, ficava furioso com aquelas histrias nos jornais em que
as pessoas abandonam os bebs. E sempre que havia um filme em que entrava um rfo ou um orfanato, ficava ansioso por ir v-lo. Por isso sempre me perguntei se algum
dos pais seria rfo ou se ele prprio seria rfo.
Perguntou-lhe alguma vez?
Ela suspirou impacientemente. Tem de compreender como era o Serian. Ele nunca, mas mesmo nunca, discutia fosse o que fosse que tivesse a ver com o seu passado. Franziu
as sobrancelhas com ar pensativo. Nem sequer tenho a certeza se eu queria que se soubesse alguma coisa do seu passado neste momento. Tenho um considervel investimento
financeiro na imagem de Bram Serian e no quero correr riscos.
Owen reflectiu sobre isso. Sim. Compreendo o que est a dizer. Mas como pode a imagem de Bram Serian ser prejudicada por se restaurar a sua
#humanidade? Qualquer que seja o seu passado... por mais complexo ou mundano que seja... o facto de o revelar no vai alterar o respeito e o fascnio que as pessoas
tm pelas suas obras. Se alguma coisa acontecesse, o mistrio que ele criou  sua volta provocaria ainda mais interesse. Ela olhou para Owen em silncio.
Senhora Norton... Edie... As pessoas como o Serian, as pessoas que vo atrs dos seus sonhos e se elevam acima de todos ns... as suas vidas so tesouros que deviam
fazer parte do domnio pblico. Podamos aprender com ela. Ser inspirados por ela. Sermos estimulados a ter compaixo ou a compreender algum aspecto da condio
humana que de outro modo nunca teramos compreendido. A histria de Serian  importante.
Edie Norton esboou um leve sorriso. Afinal voc consegue ser to eloquente quando fala como quando escreve, gracejou ela. Parecia estar a deixar-se arrastar para
as recordaes daquele momento, pois o seu olhar perspicaz estava a ficar desfocado. Quando recuperou, sorriu melancolicamente para Owen e disse, Meu Deus, o que
eu poderia fazer consigo se voc fosse artista em vez de ser escritor. Toda essa sua sinceridade natural e esses olhos azuis e essas bonitas mos calejadas. Faz-me
lembrar o Bram quando era jovem.
Owen aclarou a garganta e olhou para o seu bloco de apontamentos.
Ela suspirou. Bem, suponho que um livro sensacional sobre o Serian vai atrair mais ateno para as suas obras... e publicidade para a galeria. Debruou-se para a
frente, por cima da capa protectora de pele cor de rosa da secretria e cruzou as mos. Ento vamos a isso. O que quer saber?
Owen deu incio  lista de perguntas que tinha preparado.
Bram Serian era o nome completo dele?
Duvido. Mas foi o nico nome que usou. ^
Sabe qual era a sua data de nascimento?
No. E duvido que mais algum saiba. Ele mudava-a com frequncia.
E o seu local de nascimento?
No fao a menor ideia. Mas a minha verso preferida  aquela do acampamento dos lenhadores.
Ele fez alguma vez referncia a pessoas do seu passado? Conhecidos, familiares, professores...
Ela hesitou. Depois de ter feito a sua primeira grande venda de obras dele, estvamos todos a beber champanhe e ele disse qualquer coisa sobre desejar poder esfregar
o seu sucesso no nariz da sua professora de arte. Eu disse-lhe que teria muito gosto em enviar-lhe uma notcia impressionante e ele ficou muito zangado. At me partiu
uma das minhas taas de champanhe de cristal e disse-me que me metesse na minha vida.
Foi uma reaco forte.
O Serian era um homem de reaces fortes.
Consegue recordar-se de alguns indcios que conduzam  sua vida de juventude?
Ela abanou a cabea. Apenas... muita gente achava que a sua postura de homem do campo-cowboy era unicamente por pretenciosismo. Mas sempre
me pareceu autntico. Nunca acreditarei que ele tenha crescido num subrbio. Era o gnero de pessoa forte, profunda e calma, sabe? Como voc. S que o Serian tinha
qualquer coisa de misterioso. Podia sentir-se nele a capacidade de ser cruel. E tinha muitos problemas em relacionar-se com as pessoas. Ou as ignorava, ou esperava
demasiado delas e ficava constantemente decepcionado, ou furioso, ou acrescentava um nome  sua famosa lista negra.
Owen esperou, deu-lhe tempo para continuar se assim o desejasse; depois perguntou, E quanto ao Vietname? Qual  a histria do Vietname?
Acho que qualquer coisa que lhe tenha acontecido no Vietname, foi uma coisa m. Acho que aquilo lhe trouxe muito sofrimento.
Em que ramo do servio militar estava ele?
No fao ideia. Ele nunca era explcito.
O que dizia ele sobre a guerra?
Oh, coisas imprecisas. Falava da vida, da morte, da injustia, incluindo a hipocrisia do governo. Coisas assim. Mas se algum levantasse a questo do Vietname, o
Bram ia-se embora. No queria ouvir os outros falar nisso.
E a Lenore? Ouvi dizer que o Serian a conheceu no Vietname durante a guerra e que provavelmente casou com ela como pagamento de uma dvida.
Isso  um disparate completo! Lenore Serian no veio do Vietname. Ela s disse isso ao Bram para captar a sua simpatia. Voc viu-a. Ela podia ser meio japonesa,
meio coreana, meio filipina... Ela podia ser uma dessas patetides da Califrnia que so um pouco de tudo. Que provas existem de que ela seja meio vietnamita? Nenhumas.
E aquele sotaque dela! Ela atenuou-o ao longo dos anos, mas costumava parecer-se com algum de Toledo a imitar um filme francs muito mau. Edie Norton revirou os
olhos e deu um estalido com a lngua em sinal de descontentamento. Tudo na Lenore  falso. Ela criou uma personagem inteira s para caar Bram Serian. E deu resultado.
Conseguiu engan-lo tal como conseguiu enganar muitos outros.
Owen tentou conter a sua surpresa. Se ela  uma impostora, por que  que o procurador do ministrio pblico no apresentou essa questo no julgamento?
Hah! Aqueles idiotas cabeudos naquele gabinete atrasado do delegado do ministrio pblico nunca vo descobrir nada sobre uma mulher to esperta como  a Lenore.
E tambm j comecei a questionar-me se o Bram no a protegeria... se no teria descoberto a verdade sobre ela em qualquer altura e, em vez de enfrentar a humilhao
de esse facto se vir a saber... se no a teria ajudado a enterrar ainda mais fundo a sua verdadeira identidade.
Edie Norton lanou um olhar para o relgio de pulso e franziu as sobrancelhas, como se desejasse que o seu tempo terminasse. A Lenore, disse ela amargamente. A questo
acaba sempre por andar  volta da Lenore, no  verdade?
A senhora parece estar cheia de ressentimentos contra ela.
Edie levantou-se e caminhou pela sala, passando os dedos pela moblia requintada.
Quando conhecemos o Serian, ele estava inscrito na Sociedade dos Estudantes de Belas-Artes e vivia em West Village. Ainda no havia muito
tempo que tinha vindo para Nova Iorque. As suas obras eram de importncia secundria, mas vimos que tinha um potencial enorme, por isso aceitmolo. Tentmos orient-lo.
Procurmos ajud-lo a conhecer o seu prprio esplendor, por assim dizer. A sua escultura melhorou e conseguimos finalmente vender alguns dos seus trabalhos, mas...
oh, sabe... ele no se enquadrava em lado nenhum. No era minimalista, no era realista, no era surrealista. Simplesmente no havia maneira de conseguir enquadr-lo.
Mas no o abandonmos. Ele andava cada vez mais preocupado com a sua incapacidade de encontrar um pblico, e entrou numa fase em que quase desapareceu durante algum
tempo, comprou aquela quinta e transformou-se num eremita. Ento descobriu o seu gnio para a pintura e tornou-se o Bram Serian.
Durante todo aquele perodo, ele esteve relacionado com uma modelo qualquer, mas eu poucas vezes a vi e ele nunca falou nela. Se no fosse por causa do falatrio
do mundo artstico, eu nem teria sabido que ela existia. Est a ver, naquela altura ele tinha absolutamente uma viso restrita das coisas e no deixava que as trivialidades
pessoais interferissem com a sua criatividade.
Depois casou com a Lenore e ela destruiu a sua capacidade de fazer isso. Desgastou-o com as suas manipulaes e o seu comportamento infantil e neurtico e eventualmente
ter destrudo a sua capacidade de criar. Quando ele j no conseguia criar, ela destruiu-o.
Edie Norton tapou a cara com as suas mos perfeitamente tratadas. Owen sentou-se em silncio. Quando se recomps, estava furiosa.
Lenore Serian no  assunto que eu esteja disposta a discutir!
Peo desculpa, disse Owen. Esperou para ver se ela o mandava embora, o que no aconteceu. Pelo contrrio, ela voltou para a sua cadeira e deixou-se cair nela como
se se sentisse frustrada.
Sabe o nome da modelo?
No. Ela no era relevante.
Mas parece que o Serian andou envolvido com ela durante vrios anos...
Ela era irrelevante! interrompeu Edie.
- Muito bem. Owen olhou para os seus apontamentos, enquanto pensava que direco havia de tomar. Por fim perguntou, Depois de o Serian ter mostrado os seus quadros
a Gregory Hillyer, ele trouxe-os imediatamente para a galeria?
Edie Norton riu-se desdenhosamente. Ento voc esteve a falar com o velho Hilly, no esteve? Eu nunca recorreria a ele como fonte de informao, Owen.
Por que no?
Digamos apenas que os alcolicos de oitenta anos no tm memrias em que se possa confiar.
Mas ele parecia estar lcido.
Os olhos dela diminuram. Eu podia contar-lhe algumas coisas sobre ^reg Hillyer... ento ela parou de falar e esboou um sorriso sem graa.
Mas assim estaramos a desviar-nos do assunto, no  verdade? Olhou para o relgio de pulso.
Owen voltou atrs nos seus apontamentos. A senhora foi muitas vezes  quinta?
No princpio no. Ele no queria que ningum l fosse. Andava a trabalhar no estdio e as condies eram rudimentares.
Ele remodelou o celeiro sozinho?
No totalmente. Contratou profissionais para fazerem a instalao elctrica e a canalizao e todas aquelas luzes celestes no telhado. E depois tambm havia o Al.
Ele ajudou-o no estdio.
Quem  o Al?
O Al? Porqu? Ele foi ali um elemento constante durante vrios anos. No sei onde  que o Bram o descobriu. Havia rumores de que o Al podia ter sido um primo afastado
ou coisa parecida, mas duvido que fosse alguma coisa desse gnero. Seja como for, o Al era uma pessoa incapacitada. Um dbil mental. No havia maneira de o homem
poder funcionar neste tipo de sociedade. O Bram tomou conta dele e deixou-o viver no estdio como uma espcie de ajudante para todo o tipo de tarefas e assistente
criativo.
O que  um assistente criativo?
Oh, sabe... algum que estica as telas, toma conta dos maaricos, limpa os restos de tinta. Esse gnero de coisas. Um artista com muito trabalho pode dar trabalho
a vrios assistentes.
O que aconteceu ao Al depois de o Bram morrer?
O Al tinha-se ido embora muito antes disso. Edie Norton entretinha-se a brincar distraidamente com o anel com uma grande esmeralda que tinha no dedo, depois voltou
a olhar para o relgio.
Rapidamente Owen perguntou, Como  que as pinturas-revelao do Serian lhe chamaram a ateno? Hillyer telefonou-lhe?
Hillyer? Certamente que no. Aquele velho louco no teve nada a ver com isso.
Respirou fundo e a sua expresso tornou-se mais suave. Depois de o Bram ter comeado a trabalhar na quinta, quase se tornou um eremita. Era muito difcil conseguir
que viesse  cidade. Tanto o Barry como eu andvamos preocupados. Passavam-se meses sem lhe pormos a vista em cima. E ele disse-nos em termos bastante incisivos
que no queria que aparecessem visitas por l. Depois, um dia o Bram telefonou-lhe e ele disse que tinha umas coisas para nos mostrar e que gostava que fssemos
l a casa.
Deixmos tudo e fomos a correr. Foi a nossa primeira visita  quinta e de certa maneira ficmos chocados. To longe, ali no meio de nada e com aquela casinha lastimosa...
Isso foi antes de ele ter comeado o projecto do edifcio grande. Mas ele tinha um grande orgulho na sua casa e especialmente no estdio que j tinha acabado. Era
enorme. Um autntico celeiro de facto, que ele tinha remodelado e transformado definitivamente naquele estdio, com uma iluminao perfeita por meio de clarabias
e tudo. Pelo menos foi o que ele disse. No nos deixou ir ver l dentro. No permitia que ningum l entrasse. Com a excepo do seu assistente, claro.
Tambm no nos levou a casa. Acho que se sentia embaraado. Havia uma varanda de madeira descada no meio,  frente da casa, e ele mostrou-nos uma quantidade de
telas e pediu-nos para lhes darmos uma vista de olhos. O Barry olhou para mim e ficmos os dois a pensar, Oh, no... o que ir sair daqui... porque o Serian nunca
se tinha interessado por pintura, e ento comemos a ver as telas e ficmos estupefactos. Estupefactos! O Barry ficou to entusiasmado que comeou a gaguejar.
Edie Norton sorriu perante aquela recordao. Aquelas pinturas representavam o ponto de viragem. Organizmos uma grande exposio e fizemos do Bram uma estrela.
Desde ento ele passou a ser solicitado incessantemente. Dividia o seu tempo entre as guas-furtadas em Manhattan e a casa de campo, e tinha todos os encontros sociais
na cidade, por isso os anos passaram sem que ningum fosse  sua quinta. Anos, quando todos ns sabamos que era l que tudo acontecia, se bem que estivesse em Manhattan.
Depois comeou a falar da casa que estava a construir e as pessoas mostraram-se interessadas e ofereceram-se para ir ajud-lo e assim comearam as festas de trabalho
duro do Bram aos fins de semana. Apareciam grupos de pessoas e toda a gente martelava e pintava e comia grelhados e fazia loucuras.
No vero o Bram alugou uma carrinha para levar as pessoas da cidade na sexta-feira  tarde e traz-las de volta no domingo  noite, de maneira que havia uma frequncia
regular de festas de trabalho. Toda a gente queria ir, mas o Bram era muito selectivo na escolha das pessoas.
Quando  que a Lenore foi para l?
No sei. Costumvamos sair de vez em quando e ocasionalmente conseguamos v-la por momentos. Ela gostava de ficar nos bastidores, movimentando-se em silncio antes
de todos se levantarem de manh e esse tipo de coisas, e ns simplesmente supnhamos que ela tinha vindo como empregada em part-time para fazer as tarefas da casa.
Por fim compreendemos que ela vivia l, mas ainda no pensvamos nada daquilo. Ela era uma espcie de criatura maltrapilha nessa altura e toda a gente pensava que
ele tivesse arranjado uma daquelas trabalhadoras ilegais da Coreia ou das Filipinas para lhe fazer as tarefas da casa. Raramente a vamos. Ela mantinha-se afastada.
A maior parte do tempo a gente esquecia-se de que o Bram tinha mais duas pessoas a viver ali com ele, porque tanto a Lenore como o Al eram muito bons a manter-se
afastados, sem serem vistos. O Barry dizia sempre que eles correspondiam  ideia que ele tinha dos empregados perfeitos silenciosos e quase invisveis.
Finalmente, ouvimos dizer que ela devia ser uma espcie de refugiada da guerra. Uma daquelas rfs semi-vietnamitas.
Logo que ouvi dizer isso, fiquei desconfiada de qual seria o estratagema dela. Sabia que andava atrs dele. Quero dizer, o Bram sentia uma grande atraco por rfs,
para comear, e tinha aqueles vestgios de bagagem cultural do Vietname, portanto ela estava realmente a aproveitar-se de toda a sua fraqueza.
Ento ele organizou uma grande festa num fim de semana, convidou um grupo de ns para o campo, para passarmos l a noite e vermos a parte da
casa que j estava acabada de fazer. E enquanto l estvamos, a rapariga apareceu por acaso. S que j no era uma rapariga. Tinha-se transformado nessa criatura
dramtica. E o Barry disse, Estou a ver que ainda tens a tua refugiadazinha a viver aqui, e o Bram olhou  sua volta por momentos, como se no soubesse do que
o Barry estava a falar; depois disse, Oh, sim. Casei com ela. Edie Norton respirou fundo.
Ficmos todos estupefactos, mas o Bram continuou a falar como se aquilo no tivesse uma grande importncia. De facto, mais tarde nessa mesma tarde, levou-nos para
um lago a ver uns patos exticos que tinha comprado e estava mais entusiasmado e animado com os patos do que com a questo do seu casamento.
Nunca compreendi por que teria ele casado com ela. Ela  esteticamente interessante, claro. Voc viu-a. Aquela aparncia de frescura e a estrutura ssea... Para
um artista, suponho que fosse natural v-la como uma pea de arte. Arte viva. E percebi como ela o atraiu pelo lado de rf do Vietname... mas porqu o casamento?
Ela j l estava. J estava  sua disposio. Provavelmente dormiam juntos desde o princpio. Ento por que diabo casou com ela?
Edie dirigiu a pergunta a Owen, como se ele tivesse a resposta.
Eles no pareciam estar apaixonados quando casaram? perguntou Owen cautelosamente.
Definitivamente no! Foi a coisa mais bizarra. Ningum conseguia explicar aquilo. At os outros homens achavam aquilo inexplicvel. Toda a gente falava constantemente
naquilo.
A senhora alguma vez lhe perguntou quais tinham sido os motivos?
Jamais me atreveria a fazer tal coisa. Por essa altura o Bram j tinha revelado o seu lendrio mau temperamento e at eu tinha algum receio dele.
E a Lenore? Alguma vez teve com ela uma conversa pessoal que lanasse alguma luz sobre o assunto?
Ningum tinha conversas com a Lenore, nem pessoais nem de qualquer outro tipo.
Ela no tinha amigos ntimos?
No tinha amigos, ponto final. Se quer que lhe diga, Lenore Serian era e continua a ser uma pessoa mentalmente perturbada. Porqu? Mesmo depois de comear... Edie
Norton controlou-se e olhou para ele de olhos arregalados. No lhe vou dar informaes pessoais sobre Lenore Serian.
Muito bem... vamos voltar atrs... a senhora disse que a Lenore s se envolveu com o Serian muito depois de ele ter voltado do Vietname. Portanto os rumores de que
ele a conheceu l, de se ter envolvido l com ela, ou de sentir que tinha algum compromisso para com ela, por algo que aconteceu l, so totalmente desprovidos de
fundamento?
Sim. Edie mudou de posio na cadeira e rodou a bracelete do relgio de pulso para ver as horas. Tem mais cinco minutos, disse ela.
Est bem. Ento agora fale-me do Serian. Como era ele quando o conheceu e como  que ele mudou  medida que progrediu na sua carreira.
Ela sorriu. Lembro-me da primeira vez que o vi. Foi numa festa. Oh, ele
era magnfico. Tinha uma aura artstica que pode dizer-se que brilhava. E era inocente e simptico e incrivelmente sensual.
Olhou  sua volta, como se tivesse receio que algum pudesse estar a observar; depois estendeu a mo para uma gaveta ao fundo da secretria e tirou uma fotografia
com uma moldura de oito-por-dez. O Bram matava-me se soubesse que eu tinha isto, disse ela. Mas tem tanto significado para mim.
Entregou a fotografia a Owen. Era a primeira fotografia de boa qualidade que via do rosto de Bram Serian e ficou a observ-la atentamente. O homem tinha cabelo forte
e louro, um bigode comprido e forte virado para cima em cada uma das pontas e um rosto que ficaria perfeito num desenho feito em spia, num modelo de estanho do
sculo dezanove. Tinha um olhar distante, como se no se apercebesse da cmara a foc-lo. Havia vrias mulheres  sua volta, todas elas com os olhos postos nele.
Uma delas era uma verso mais nova de Edie Norton. Ao fundo via-se o perfil de uma mulher negra muito atraente.
Por que detestava ele que lhe tirassem fotografias? perguntou Owen.
Ele dizia que queria que as pessoas se concentrassem na sua arte e no nele. Encolheu os ombros. Quaisquer que fossem as suas razes, ele era inflexvel nesse ponto.
Esta  a senhora, no ? perguntou Owen.
Edie sorriu. Sim. Foi tirada numa das primeiras exposies do Bram. E essa ... Apontou para a mulher ao lado dela. Oh, no consigo lembrarme do nome dela. Do tipo
mundano. A cabra atirou-se ao Bram durante toda a noite, mas eu consegui impingir-lhe um quadro.
E quem  esta? perguntou Owen, apontando para a mulher que estava em segundo plano.
Essa  Geneva, respondeu Edie; depois calou-se e olhou para Owen com ar irritado.
 a modelo com que ele se envolveu?
Claro! Essa  Geneva Johnson.
Edie arrebatou a fotografia das mos dele, ficou a olhar para ela por instantes e depois guardou-a enquanto dava um suspiro. O Bram perdeu a sua inocncia mas continuou
a ser muito sensual. E com o passar dos anos no perdeu a sua simpatia. Sabe Deus quantos parasitas estavam a viver  sua custa. O assistente atrasado que tinha
no estdio e outros artistas sem sucesso que tinha conhecido na Sociedade dos Estudantes de Belas-Artes... Ela bufou de indignao. E aquele velho porco, Greg Hillyer...
aquele homem deve ter vivido  custa do Bram durante vrios anos... E claro, ele era sempre generoso para com os jovens artistas e para com os programas de arte
e os grupos. Mas era difcil para a maior parte das pessoas recordar a sua benevolncia, porque ele tinha-se tornado to... terrvel. Toda a gente tinha medo do
seu temperamento.
E a Lenore tinha medo dele?
Quem sabe.  evidente que no havia interaco entre eles quando eu estava por perto.
#Mesmo nas festas, nas inauguraes, em acontecimentos pblicos?
Meu caro Owen, a Lenore nunca o acompanhava em Manhattan. Ela era como um dos seus patos exticos. Ficava prximo do lago.
Por que acha que era assim?
A minha suposio  que ela era um objet dart para a sua esplndida casa e as pessoas no costumam andar com decoraes domsticas atrs delas. Mas este  definitivamente
o meu ltimo comentrio sobre a Lenore.
Gostava de ouvi-la falar mais sobre as amizades de Serian e...
Tem de ficar para a prxima oportunidade. Hoje tenho uma agenda muito carregada.
Ento posso voltar a telefonar-lhe? perguntou Owen.
Ela sorriu sugestivamente. Talvez devssemos encontrar-nos para tomar uma bebida na prxima vez.
Owen saiu do seu gabinete, cogitando sobre o que tinha e no tinha ficado a saber. A jovem com o vestido justo e de atitude afectada estava  espera para o acompanhar
at  sada. Ela lanou-lhe um olhar de desdm com ar de superioridade e disse, Como correu a entrevista?
Correu bem.
Ela disse-lhe que fodeu com ele?
Owen no conseguiu dissimular a sua surpresa.
Oh, sim. Ela engoliu uma quantidade de comprimidos quando ele se casou com a Lenore. Embora no tenham sido suficientes para a matar.
Desire! a voz de Edie ouviu-se vinda do fundo. J fizeste aquelas chamadas telefnicas?
Sim, Me!
Owen caminhou para Leste, em direco ao seu apartamento. O cu tinha ficado muito cinzento e a temperatura estava a descer. Caminhou com as mos nos bolsos e a
olhar para o passeio, esticando as pernas com grandes passadas, mas no conseguiu ultrapassar o abatimento que sentia. A verdade sobre as vidas das pessoas era muitas
vezes to triste, ou pattica, ou trgica. O facto de Edie Norton querer morrer por amor e o facto de Serian casar com uma mulher por motivos inexplicveis, e Lenore,
provavelmente no desejada e sem um lar, ou possivelmente to desesperada, que teve de planear uma tctica e recorrer  mentira para conseguir obter segurana. E
o Serian morto e a Lenore acusada e a Edie com o seu corao empedernido e a sua filha apanhada no fogo cruzado.
E a sua prpria famlia, complicada e falida de tantas maneiras.
Quando chegou ao apartamento estava num profundo estado de depresso. Procedeu ao ritual de abrir a porta com a chave, abrir a porta exterior e depois a porta entre
o vestbulo e o trio.
Aqui est finalmente! Ouviu-se uma voz feminina e ficou surpreendido ao ver Holly Danielson sentada ao fundo das escadas.
Ol, respondeu Owen, animado instantaneamente pela saudao jovial dela.
Espero que no se importe que eu tenha aparecido... Ela levantou-se, puxando os jeans com as mos. Tinha as bochechas coradas e os olhos a brilhar. Tenho algum material
para si e precisei de vir para estes lados, por isso pensei que podia trazer-lho, mas como voc no tem telefone tive de arriscar se seria boa altura.
H quanto tempo est aqui  espera?
Oh, no muito. E como v, consegui introduzir-me aqui para o trio, por isso no foi mau.
No parecia ter pressa em dar-lhe o material e ir-se embora, por isso Owen perguntou-lhe, Quer subir? Posso fazer uma chvena de caf.
Na verdade... Pegou no saco branco e no saco castanho que estavam no cho aos seus ps. A modos que trouxe a minha prpria festa.
Owen tirou-lhe das mos o saco branco e comearam a subir as escadas. Sentiu imediatamente o cheiro picante da comida chinesa.
H ali em baixo aquele pequeno restaurante que faz a melhor comida Szechuan, disse ela, enquanto seguia atrs dele pelas escadas acima. Nunca consigo resistir-lhe.
Por isso... pensei... se voc ainda no tivesse jantado...
Ele ficou extremamente aliviado por ter sido interrompido na sua meditao profunda e estava grato pelo conforto da comida prometida pelos cheiros tantalizantes.
Isto  bestial, disse ele. Nem acredito que tenha feito uma coisa destas.
Tambm trago cerveja chinesa, disse-lhe ela impacientemente. No sabia se preferia vinho ou cerveja, mas com Szechuan calculei que no me enganaria se trouxesse
cerveja chinesa.
A cerveja parece-me ptima ideia.
Desembrulharam a comida em cima da pequena mesa de centro do apartamento, depois sentaram-se no sof a comer. Ela abriu uma embalagem de carto e passou-lha.
Massa fria com ssamo!
Ela irradiava alegria. Lembrei-me que voc gostou disto quando a Marilyn lhe disse para provar.
Nunca me passaria pela cabea que a massa fria pudesse ser to boa, confessou ele, rindo enquanto enchia avidamente o seu prato.
Comeram em silncio durante algum tempo; depois a Holly comeou a falar, a comentar o ambiente montono do apartamento e a caracterstica de classe baixa de East
Village em geral. Lamentou a aborrecida falta de homicdios e de agresses fsicas no seu trabalho de sbado e contou a srdida histria de um produtor na sua estao
que no tirava as mos das suas subordinadas.
Por que no faz queixa dele? Faa-o parar.
Sim, com certeza. A Holly resfolegou sarcasticamente. Podamos provavelmente conseguir at que ele fosse despedido. Mas qualquer uma que se atreva a abrir a boca
ser tratada como se fosse uma leprosa para o resto da sua carreira na televiso. Sorriu ironicamente. No se mostre to chocado.  assim que as coisas funcionam.
Ou se aprende a viver com isso, ou se
procura emprego onde os nicos homens que h l so nossos subordinados.
Ou procura emprego fora da televiso, disse Owen.
Hah.  a mesma coisa na maior parte das reas de trabalho. Voc nunca se apercebeu disso porque sempre viveu a boa vida do campo. Quando os homens chegam ao poder,
a maior parte deles no consegue resistir a tirar partido da situao. Faz parte da natureza masculina, parece-me. Encolheu os ombros com um ar triste. Quem sabe,
talvez as mulheres fossem tambm ms em termos estatsticos, se um nmero razovel delas tivesse a mesma oportunidade. Talvez o poder seja a derradeira tentao.
Owen observou-a enquanto punha mais frango com gengibre no prato. O seu apetite desapareceu e voltou a sua melancolia.
Estive hoje a falar com Edie Norton, disse-lhe ele.
Conseguiu alguma coisa de interesse?
Parece-me que sim. Estou a comear a perguntar-me se Bram Serian no estaria desde o princpio destinado  tragdia.
E o que o faz pensar assim?
No sei. No tenho nada de concreto.
Bem, h-de imaginar uma maneira de usar isso.  uma perspectiva muito boa. Destinado  tragdia desde o princpio. Parece um ttulo que far a sua editora ver sinais
de dlares.
Owen queria dizer-lhe que East Village era uma zona ptima na sua opinio e um sbado  noite sem homicdios no era motivo para se queixar e a tragdia no era
apenas um ponto de vista para criar sinais de dlares. Em vez disso, levantou-se de repente e levou o seu prato para o lava-loia.
No quer comer mais nada? perguntou ela.
J comi o suficiente, disse ele, enquanto se ocupava a montar a mquina do caf.
Eu disse alguma coisa que no devia, Owen?
Ele voltou-se para lhe sorrir, mas foi uma reaco sem entusiasmo. Parece-me que no sou muito boa companhia esta noite, tenho a cabea cheia. Mas obrigado pelo
jantar. Foi uma surpresa agradvel.
Ela comeou a recolher as embalagens de carto, insistindo em deix-las no frigorfico. Insistindo em lavar os pratos e fazer a limpeza. Ele desejava no ter comeado
a fazer o caf, porque s queria que ela se fosse embora.
 rapaz, invejo-o por ter crescido no campo, disse ela. Sempre sonhei com isso quando era criana. Todos aqueles animais e aquele espao e toda a famlia feliz a
comer tarte de ma.
Ele riu-se. Eu sonhava em viver numa cidade onde pudesse ir de bicicleta para a biblioteca e ir ao cinema e encontrar-me com outras crianas com as mesmas ideias
que eu.
Eu nunca pensei nisso dessa maneira, disse ela.
Ela apoiou os cotovelos no balco a observar como ele tirava as chvenas e o leite e o acar. Se eu estivesse a descrev-lo para uma pea de reportagem, diria que
voc tem uma aparncia de intelectual selvagem. Tocou levemente na cara com o dedo numa atitude de reflexo. Ou talvez fosse melhor dizer que voc  o tipo do irlands
sentimental e misterioso.
Mas voc nunca vai fazer uma pea da qual eu faa parte, disse ele, ambos divertidos e ao mesmo tempo incomodados com a referncia dela.
Voc era um crnio quando andava na escola? perguntou ela.
Tome o seu caf, disse ele, colocando uma chvena em frente dela. Ela serviu-se do leite e do acar, observando-o com ar divertido enquanto mexia o caf. Diga l...
Era um barra?
No. Ele sabia que o que ela queria era que lhe contasse mais sobre o seu passado, mas no queria encoraj-la.
Ela levou o seu caf para o sof e sentou-se. O que pensa a sua famlia do facto de voc estar aqui nesta malvada velha cidade de Nova Iorque?
Esto horrorizados.
Uhmm. Ela sorriu e bebeu um gole de caf. Posso imaginar. Os meus tambm ficaram horrorizados quando vim para c. E eu venho de uma cidade.
Ele encostou-se ao balco e bebeu o caf.
Mas voc gosta disto aqui, no gosta? perguntou ela num tom mais srio do que antes.
Por que diz isso?
Voc simplesmente... ajusta-se bem. Pousou a chvena em cima da mesa de vidro. Voc tem a postura adequada.
Owen esfregou os olhos com ar cansado. Oia, Holly... preciso de me pr a trabalhar na minha proposta, por isso...
Mas foi mesmo por isso que eu vim c, insistiu logo ela. Trago-lhe cpias de todo o tipo de coisas. Estendeu a mo para a enorme carteira que tinha colocado no cho
por baixo da mesinha de centro e tirou um envelope de Manila. Venha sentar-se aqui. Bateu com a mo na almofada ao lado dela. Vou mostrar-lhe o que tenho aqui.
Com alguma relutncia, Owen levou a sua chvena e sentou-se ao lado dela. Ela chegou-se para ele para dar uma vista de olhos ao material, encostando o seio ao seu
brao enquanto apontava os artigos mais importantes. A presso agradvel do contacto dela provocou algum calor na sua pele na zona de contacto. Tentou ignorar o
facto e concentrar-se no contedo do envelope. Verificou-se que o que ela tinha trazido continha informao de reduzido interesse, que lhe podia dar no dia seguinte
durante o julgamento. Comeou a referir-lhe isso, mas depois desistiu.
Agradeo a sua ajuda, disse ele.
Ela descalou os sapatos, dobrou as pernas e sentou-se em cima delas e tocou com os dedos no tecido da manga dele. Todas as suas camisas parecem novas. Deita-as
fora e compra outras em vez de as lavar?
No  assim que se deve fazer? perguntou ele. Sentiu o perfume dela e olhou para o interior da sua blusa. No tinha soutien. Ser que o tinha desabotoado antes e
tinha descado ou era a maneira como ela se inclinava para ele que mostrava tanto?
Voc est muito tenso, disse ela por simpatia. Toda essa presso por causa da sua proposta e tudo isso... Com os dedos massajou-lhe suavemente o pescoo. Volte-se.
Est to tenso. Como  possvel trabalhar desta maneira?
Ele voltou as costas para ela, fechando os olhos e submetendo-se  estranha presso das pontas dos seus dedos. Deslizaram para cima e para baixo, massajando e esfregando.
Desabotoe a camisa, disse ela, o que ele fez, sem olhar para trs, para ela.
Ela puxou a camisa para baixo at ao meio das costas, de modo a ter acesso ao pescoo e aos ombros. As suas mos acariciaram-lhe a pele, fazendo desaparecer a tenso,
mas mandando-a directamente para a regio genital. Ele mudou levemente de posio e ela encostou-se a ele, fazendo presso nas suas costas e deixando as mos deslizar
dos ombros para baixo, para a frente do peito nu. E ele apercebeu-se que os seios dela, encostados s suas costas, estavam descobertos, que ela tinha desabotoado
a blusa e que o calor era da sua pele. Ouviu um leve gemido de prazer e verificou que era mesmo dele.
Relaxe, sussurrou ela, e ele voltou-se sob as mos guiadas, de modo que ficou novamente sentado no sof.
Agora ela estava na sua frente. Ajoelhada no meio das suas pernas. Os seus seios brancos e macios roavam nas suas coxas. Os dedos dela alcanaram o fecho das calas.
Ele fechou os olhos, concentrando-se nas sensaes, fazendo respiraes rpidas quando o fecho se abriu. Sentiu a boca dela, leve como uma pena, na barriga, beijando
e encostando o nariz, movendo-se para baixo... para baixo. E teve medo de abrir os olhos ou de voltar a respirar, medo de fazer alguma coisa que pudesse parar aquela
boca hmida e macia do seu movimento descendente. Nunca tinha estado na boca de uma mulher. E queria estar. Como ele queria. Cerrou os punhos para evitar empurrar-lhe
a cabea mais depressa para baixo.
Os beijos pararam. Oh, Owen, disse ela suavemente, eu sabia, desde o momento em que o vi, que ns amos dar-nos bem. Tenho pensado tanto em si desde aquele dia.
As palavras dela foram como um balde de gua fria. A sua ereco murchou e a bruma de desejo do prazer sensual desapareceu do seu crebro, deixando-o a sentir-se
como se fosse o maior idiota do mundo. No havia uma maneira apropriada para escapar. Nenhum estalido mgico com os dedos que pudesse fazer desaparecer aquela situao.
A Holly ficou a olhar para ele com uma expresso de embarao e vulnerabilidade que o fez sentir-se ainda pior. Levantou-se desajeitadamente, abandonando-a junto
do sof, enquanto puxava a camisa e se recompunha.
Desculpe, Holly. Peo-lhe muita desculpa. No sei o que se passa comigo. Ela pestanejou vrias vezes. No quer fazer amor comigo? perguntou com uma voz fraca.
Ela ainda se encontrava no cho. A olhar para ele, com as lgrimas a saltarem-lhe dos olhos. Ele apanhou a blusa dela do brao do sof e deu-lha, depois desviou
os olhos, mas ela no a vestiu. Levantou-se do cho e sentou-se  beira do sof, segurando a blusa em frente do peito.
Acho que era bvio que eu queria fazer amor consigo. Mas no est certo. Eu disse-lhe, Holly... tenho uma pessoa na minha terra e no seria justo para consigo nem
para com ela.
 por isso que est preocupado? Recuperou alguma da sua confiana e vestiu a blusa, sem fazer qualquer esforo de modstia. Ele viu-se forado a desviar o olhar.
Owen, somos dois adultos responsveis e sentimo-nos atrados um pelo outro. A felicidade  para aqueles que sabem como agarr-la. Estarmos juntos faz com que nos
sintamos felizes. E quem vai saber? Quem se vai magoar?
Ele pesou cuidadosamente as suas palavras. Fico lisonjeado por voc me querer. Voc  uma mulher extremamente atraente e se as circunstncias fossem diferentes...
Talvez as coisas lhe paream diferentes se lhes prestar realmente ateno, disse ela. Talvez o motivo por que se sente atrado por mim  que no est apaixonado
por ela. Devia pensar nisso.
Ele desviou-se. Neste preciso momento no consigo pensar noutra coisa, a no ser como vou trabalhar esta noite e como  que vou ter a proposta pronta dentro em breve.
Disse aquilo de uma maneira mais brusca do que pretendia e sentiu-se culpado por isso. Mas no pediu desculpa. Queria que ela sasse do apartamento.
Com certeza, disse ela, aparentemente impassvel. Eu sei como so os fins de prazo.
Ele retirou-se para o recanto da cozinha e ficou a observar, enquanto ela calava os sapatos, dava um jeito ao cabelo, pegava na carteira e no casaco. Quando parecia
estar pronta para sair, ele acompanhou-a at  porta e abriua para ela sair.
No se preocupe, disse ela. No estou zangada consigo. Ao ver como voc  to fiel, isso s o torna ainda mais atraente. A maior parte dos homens so to fceis.
No importa se esto comprometidos, ou casados, ou seja l o que for. Desde que pensem que podem safar-se. Encolheu os ombros. Foi por isso que no me casei. No
se pode confiar nos homens. A maior parte dos homens so escravos das suas pilas.
Talvez s tenha andado com os homens errados, sugeriu Owen.
Sim... acho que tem razo, sorriu com ar triste e ps ao ombro a ala da sua carteira. Mas estou a tentar alterar isso.
Ele ignorou o olhar expressivo que ela lhe dirigiu. Quer que a acompanhe at l abaixo? perguntou ele. Que espere at voc apanhar um txi ou...
 muito simptico da sua parte, mas no. Sou uma rapariga m da cidade. Ela ps-se em bicos de ps para lhe dar um beijo rpido na cara. Depois saiu e dirigiu-se
para as escadas. At amanh, disse ela, Adeus.
Adeus, respondeu Owen automaticamente. Comeou a fechar a porta e ento reparou que o velhote que vivia do outro lado do patamar estava  porta, a espreitar.
Ento finalmente ela encontrou o senhor, disse o homem.
Como?
Esteve a muito tempo  sua espera. A andar de um lado para o outro e sentada nas escadas. O senhor no vende drogas, pois no?
#No.
As raparigas no gostam de esperar, sabe.
Vou tentar no me esquecer disso.
Sim. Hoje no foi assim to mau. No passaram mais de vinte minutos desde o momento em que bateu  porta at o senhor aparecer. Mas a noite passada esteve aqui durante
trs horas. Estive quase para chamar a polcia.
Peo desculpa se o senhor foi incomodado, disse Owen.
Fechou a porta. Na noite passada ela tambm tinha estado  sua espera? Meu Deus. Que estpido que tinha sido. Como  que no tinha reparado que ela se sentia atrada
por ele?
Mas tinha de pr fim quilo, porque ele no era inocente. No podia rejeitar a responsabilidade pelo que tinha acontecido. Soube o que ela queria logo que se sentou
ao lado dela no sof. Talvez at antes disso. E tinha ficado fascinado pelo que poderia acontecer. Pelo desconhecido. At pela natureza de proibio de tudo aquilo.
Que confuso teria arranjado se ela no tivesse falado e no o tivesse chamado  realidade. Ela no tinha sido a Holly para ele, de maneira nenhuma. Nem tinha sido
ningum que ele conhecesse. No tinha sido mais do que uma personagem duma fantasia. E que fantasia... Mesmo com o seu esprito racional com tudo sob controle, o
seu pnis ainda se estimulou, s de pensar naquilo. Sexo louco e livre com uma loura cremosa num refgio de Nova Iorque. Directamente de um sonho molhado de um adolescente.
O problema era que seria embaraoso. Ia dar incio a uma srie de segredos de culpa que teria de esconder da Mike. Ou significaria que teria de contar  Mike a verdade
e iria mago-la. E possivelmente significaria que iria tambm magoar a Holly, porque podia dizer que, apesar da sua aparncia sofisticada, ela esperava uma resposta
emocional da parte dele, para alm de fsica. Ela queria ser mais do que uma loura annima nas suas fantasias.
Desejava poder telefonar  Mike e ouvir a sua voz. Mas para isso tinha de sair e ir a uma cabine telefnica e alm disso ele tinha prometido que no ia gastar mais
dinheiro em chamadas de longa distncia. Andou de um lado para o outro durante algum tempo, depois foi tomar um duche, aliviando a impulso sexual remanescente da
nica maneira possvel, depois meteu-se finalmente ao trabalho.
Como introduo, comeou por transcrever as notas da entrevista com Edie Norton. Depois voltou a Gregory Hillyer. E depois passou em revista as notas que tinha tomado
sobre tudo o que tinha sido escrito relativamente ao passado pessoal de Bram Serian. Por que iria algum querer fazer desaparecer o seu prprio passado de uma maneira
to completa? O que teria levado Serian a fazer aquilo. O que o teria transformado na estranha forma criativa em que se tornou? E que espcie de relao teria tido
com a mulher que estava a ser julgada pelo seu homicdio?
s duas da manh Owen obrigou-se a desistir e a ir para a cama. No dia seguinte recomeava o julgamento. Estava ansioso por mergulhar mais uma vez naquele drama,
apesar de ter comeado a compreender que ia conseguir obter poucas respostas. Os rudos que vinham da rua acalmaram-no e deixou-se
levar para o meio-sono que sempre fora o seu tempo de maior criatividade. Era a altura em que a sua imaginao levantava voo e ele podia sonhar o que escolhesse.
Agora o sonho estava cheio de Bram Serian.
E com o sonho veio uma ideia. Talvez, simplesmente talvez ele tivesse uma nova pista para perseguir na manh seguinte.
#8
Quando Owen entrou no tribunal na segunda-feira de manh, no subiu as escadas que davam acesso  sala de audincias nmero 6. Em vez disso, no seguimento da ideia
que tinha tido durante a noite, dirigiu-se para a rea dos gabinetes do primeiro andar e seguiu pelo corredor para o gabinete dos registos do condado. O funcionrio
que estava l era simptico e conversador. Os registos mostravam que Bram Serian tinha comprado a sua quinta a uma pessoa chamada John Potter. Aps alguns minutos
de conversa com o funcionrio ficou a saber que John Potter vivia com a filha apenas a cinco quarteires dali.
Estava quase na hora de comear a audincia, mas Owen no podia esperar. Saiu do edifcio para ir imediatamente a casa de Potter.
A mulher que o atendeu  porta estava desconfiada. Levou muito tempo a explicar-lhe o que pretendia, antes que ela o deixasse finalmente entrar. Espero bem que no
seja nenhum vendedor dissimulado, advertiu ela enquanto conduzia Owen para uma sala que ficava por detrs da cozinha.
Ela abriu a porta. Tem aqui algum que quer falar consigo, pai. Agora porte-se bem e no arranje confuses.
John Potter era um homem fraco, de olhos melanclicos, mas parecia ser uma pessoa atenta. Claro que me lembro de ter vendido a minha casa quele indivduo que 
artista, disse ele bruscamente. Foi o maior erro da minha vida.
Como assim, senhor Potter?
Porque acabei por ficar aqui, quando podia estar a viver ali com os meus animais e o meu buraco para pescar.
J conhecia o Serian ou a sua famlia antes de lhe vender a quinta?
No. Ele no tinha famlia por estas bandas.
Mais um beco sem sada. Owen tentou superar o seu desapontamento.
Ele falou muito consigo? Disse por que queria a quinta ou alguma coisa?
Potter estendeu a mo para o cachimbo apagado. Era um indivduo muito pouco falador, mas explicou-me o motivo por que queria comprar a minha quinta. Gostava muito
do meu celeiro e do meu lago grande. Gostava
das rvores e do facto de no se verem as casas da estrada. Potter sorriu ironicamente. Disse que gostava daquilo porque era retirado e no era plano. Quase fez
aquele velho agente de vendas de imveis engolir os dentes, porque ele tinha-me dito, quando o registei, que o terreno era demasiado acidentado e irregular para
conseguir um bom preo por ele. Com uma mo a tremer, Potter levou o cachimbo  boca.
Posso acender-lhe essa coisa? perguntou Owen, olhando  volta,  procura de fsforos.
A minha filha no me deixa fumar aqui, disse Potter.
Owen observou-o por instantes, perguntando-se se devia oferecer-se para levar o velhote para fora e acender-lhe o cachimbo.
Continue... continue, apressou-o Potter. Que mais? Isto  um bom teste para a minha memria.
Ele trazia consigo alguma mulher... uma namorada, uma noiva, qualquer coisa?
No.
Owen ficou pensativo por instantes. Tambm vendeu as suas vacas juntamente com a propriedade?
No. O indivduo no as quis. No estava nada interessado em ter vacas. Disse que ia comprar cavalos.
E referiu que espcie de cavalos tencionava comprar de corrida, de exibio, de saltos...?
No disse nada.
Pergunto-me se no estaria a pensar em comprar guas para fazer criao ou...
Potter soltou um riso abafado. No me parece que o tipo tivesse qualquer ideia. Ele no percebia patavina de criao de animais.
Deveras? Ento ele parecia ter sido criado na cidade?
No. Na verdade, ele at fez questo em dizer-me que era agricultor. Potter coou a cabea e deu uma chupadela no cachimbo. Estou a tentar lembrar-me do que ele
disse exactamente. Qualquer coisa sobre cultivar trigo. Ento eu disse-lhe que as minhas terras no eram prprias para cultivar trigo, e ele disse que estava bem,
porque j tinha tido a sua medida de cultivo do trigo.
Trigo! L estava outra vez, aquela referncia constante ao trigo e a averso a terrenos planos. Owen ficou entusiasmado por instantes, at que se apercebeu de que
ele tinha-lhe dito realmente muito pouca coisa.
Verificou o seu relgio de pulso. Tenho de voltar para o tribunal, senhor Potter. Agradeo a sua disponibilidade e estava a pensar se o senhor costuma ler. Podia
mandar-lhe alguns livros ou...
J l vai o tempo em que gostava de ler um bom livro. Especialmente livros sobre o Oeste americano e histrias de guerra. Mas j no consigo ler com estes velhos
olhos, filho. Nem uma palavra.
Ao dizer aquilo deu uma pancada na mesa e tossiu, depois cuspiu um enorme escarro de substncia viscosa para o cho. O seu riso spero e irritante perseguiu Owen
at  sada.
Owen caminhou pela calada acima para o tribunal, a pensar em John Potter e na sua filha, obrigados a viver juntos at  morte. Mais ou menos como a Mike no Wheeler
Ranch com o pai, o tio e a av. Como a sua prpria famlia. Todas as histrias eram diferentes, porm os enredos do amor, dever e necessidade acabavam por ser sempre
extraordinariamente semelhantes. Pensou em Bram Serian. Que laos teria ele rompido com a sua fuga para Nova Iorque? E que coalescncia obscura o teria prendido
a Lenore durante tantos anos?
Maquinalmente, Owen passou pela segurana, subiu pelas escadas at ao segundo andar e entrou na sala de audincias do Juiz Pulaski. Estava uma testemunha a prestar
declaraes e Spencer Brown estava todo empertigado. O oficial de diligncias que estava  porta, de olhar carrancudo, avisou-o de que no podia perturbar o silncio
na sala e Owen acenou com a cabea em sinal de que tinha compreendido, mas depois hesitou. No sabia bem onde devia sentar-se. Havia o seu lugar habitual ao lado
da Holly, mas ser que a Holly queria que ele se sentasse ao seu lado depois da noite anterior? Deveria ir para o banco de trs da seco de imprensa? Ou isso seria
um insulto  Holly e ia envolver-se em sarilhos ainda mais complicados?
A indeciso apoderou-se dele e o olhar carrancudo do oficial intensificouse e sabia que tinha de tomar uma atitude.
Meritssimo! gritou Rossner l na frente, e ele foi salvo por uma conversa entre o juiz e os advogados. O jri foi dispensado e as pessoas levantaram-se e saram
da sala de audincias para ir fumar um cigarro ou para ir  casa de banho.
A Holly voltou-se para falar com algum na fila de trs, viu Owen e imediatamente fez-lhe um gesto com a mo para avanar.
Pensei que talvez o comboio tivesse sido assaltado, sussurrou-Lhe ela a sorrir, como se nada tivesse mudado. S que havia uns tnues crculos por baixo dos olhos
e a sua boa disposio era exagerada.
O facto de a ver fez com que fosse acometido por um sentimento de culpa. Considerou pedir-lhe novamente desculpa, mas depois decidiu que isso s os faria sentirem-se
ambos desconfortveis, por isso esboou um sorriso forado e perguntou, Perdi alguma coisa importante?
Tem estado a ser interrogado o inspector dos bombeiros Kevin Mullin. A Holly folheou o seu bloco de notas. Vejamos... Aqueles de entre ns que tm conseguido manter-se
acordados tm assistido a uma preleco sobre a natureza do fogo e acelerantes. Depois falou sobre o padro do fogo na casa dos Serians e como o centro do incndio
foi o corpo de Serian. Depois amos na melhor parte em que descobriram os restos do candeeiro de petrleo quando comeou esta conversa entre o juiz e os advogados.
Owen ia tomando notas enquanto ela falava; depois, foi um alvio quando terminou a conversa e ambos puderam descontrair e concentrar-se no julgamento. O jri voltou
a entrar em fila e a ocupar os respectivos lugares e a testemunha voltou a sentar-se. Soencer Brown endireitou os ombros e voltou 
sua posio. A sua linguagem corporal tornou claro que tinha ganho a discusso com o juiz e o outro advogado.
Pode dizer-nos, senhor Mullin, se essas peas que referiu ter achado foram em seguida enviadas para serem analisadas e identificadas por peritos?
Sim. E como j tinha suspeitado, eram os restos do candeeiro de vidro a petrleo.
Obviamente satisfeito consigo prprio, Brown voltou para o seu lugar e Rossner levantou-se para fazer o contra-interrogatrio.
Ol, senhor Mullin, comeou Rossner, aproximando-se do inspector dos bombeiros, como se estivessem num encontro de negcios. J viu muitos fogos que envolvessem
candeeiros de petrleo?
Alguns. No posso dizer que sejam frequentes, mas tambm no so raros.
Disse-nos uma quantidade impressionante de coisas sobre este incndio e onde comeou e qual foi o padro do fogo, mas eu estava a pensar... h coisas que no pode
contar-nos sobre o incndio?
Com certeza.
Agora, o senhor disse que definitivamente estava presente um acelerador na vizinhana do corpo...
Sim.
Pode identificar categoricamente esse acelerador como sendo o candeeiro de petrleo e no o dissolvente de tinta ou qualquer outro produto qumico que se encontrasse
no estdio de Bram Serian?
No. No posso.
Pode dizer se o candeeiro de petrleo estava aceso quando comeou o incndio? 
No.
Pode afirmar se o candeeiro foi quebrado antes do fogo ou se foi o fogo que destruiu o candeeiro?
No.
Pode afirmar se o falecido estava a segurar o candeeiro?
No.
Ou se ele tinha cado e deixado cair o candeeiro?
No.
Ou se acidentalmente tropeou no candeeiro?
No.
Ou se o candeeiro de petrleo caiu e derramou o petrleo em cima dele, ou se acidentalmente o salpicou, ou se ele estava cado no cho numa poa de petrleo do candeeiro
partido... pode dizer se alguma destas situaes  verdadeira?
No.
- Pode dizer se foi um cigarro que pegou o fogo?
No.
 possvel que tenha sido um cigarro a dar origem a tudo aquilo... um Cigarro que tenha cado ou um cigarro manuseado descuidadamente? -  possvel, dado o conjunto
propriado de circunstncias.
Pode dar-nos um exemplo de um conjunto apropriado de circunstncias?
Sim. Por exemplo, se o falecido tivesse um cigarro aceso na boca ou na mo e tivesse deixado cair o candeeiro e se tivesse baixado para o apanhar.. podia ser um
cenrio.
Um cenrio que podia resultar num atear acidental do incndio, no  verdade?
Exactamente.
Rossner fez uma pausa para as pessoas consciencializarem a situao: depois sorriu delicadamente e disse, Obrigado, senhor Mullin. No tenho mais perguntas.
O juiz mandou sair o jri mais cedo para o almoo, mas o assunto do tribunal continuou. Brown informou relutantemente Pulaski que o Dr. Gavril, o patologista, tinha
tido uma emergncia pessoal e estava incapaz de testemunhar no dia seguinte, como estava previsto. Brown garantiu ao juiz que a testemunha marcada a seguir ao Dr.
Gavril podia estar no tribunal por volta das treze horas, de modo que o julgamento pudesse continuar e que informaria o tribunal quando o Dr. Gavril estivesse disponvel.
Embora o Juiz Pulaski concordasse com isso, era evidente que as emergncias pessoais no eram desculpas vlidas na sala de audincias. Owen tentou imaginar como
seria o juiz sem os smbolos de autoridade. Era difcil imaginar aquele homem a ter uma vida prpria fora da sala de audincias.
Finalmente toda a gente foi mandada embora. Owen juntou-se ao pessoal dos meios de comunicao que se dirigiu para o caf. A Holly fingia que nada tinha acontecido,
por isso ele achou que devia fazer a mesma coisa.
A discusso  mesa do almoo estava mais animada que nunca, mas Owen no estava interessado em segui-la. Os seus pensamentos divagavam. Bram Serian agigantava-se
agora tanto na sua imaginao, que o julgamento j no estava a prender tanto a sua ateno como antes. As estratgias na sala de audincias, os estratagemas, os
jogos de adivinhas e as teorias pareciam-lhe subitamente absurdas. Bram Serian estava morto. Perdido para todos eles. A sua tragdia e mistrio apoderaram-se completamente
de Owen.
Brown tinha o Detective Douglas Kilgren da polcia estadual pronto para testemunhar depois do almoo. Kilgren era alto, aprumado e com ar importante e, embora usasse
um fato e uma gravata, de alguma maneira fazia lembrar a Owen um membro da Polcia Montada Canadiana.
Impacientemente Brown conduziu o Detective Kilgren atravs das suas credenciais e da sua impressionante folha de servios como polcia; depois levou o detective
passo a passo, durante uma apresentao que durou duas horas, atravs do relato dos acontecimentos que tiveram lugar desde o momento em que Kilgren chegou ao local
at ao momento em que Lenore Serian foi responsabilizada como autora do homicdio. Quando tudo j tinha sido dito e
#repetido, Brown fez ainda uma recapitulao para salientar mais uma vez os
pontos mais importantes.
Portanto nunca lhe passou pela cabea, nem uma vez, que tivesse sido cometido um homicdio? perguntou Brown.
Nunca, respondeu Kilgren categoricamente.
Com base na sua longa experincia como agente da autoridade, havia alguma dvida na sua mente, depois de ter terminado a investigao, que algum que no fosse Lenore
Serian devesse ser acusado deste homicdio?
Absolutamente nenhuma.
Brown obrigou o Detective Kilgren a continuar nesta linha de interrogatrio por mais vinte minutos. No se chegou a nenhuma nova concluso, mas a firmeza calma do
detective removeu todas as dvidas levantadas pela actuao do Xerife Bello. Brown teve muita dificuldade em deixar a testemunha, mas finalmente terminou o interrogatrio
e sentou-se.
Quando Rossner se apresentou a Kilgren e comeou o contra-interrogatrio, Owen detectou uma prudncia subtil no procedimento do advogado. Esta era uma testemunha
com que Rossner estava preocupado.
Detective Kilgren, o senhor orientou a investigao que se seguiu ao relatrio da autpsia de Bram Serian. Isso  verdade?
Em alguns aspectos fui eu que orientei e noutros desempenhei a funo de conselheiro ou observador.
Na sua opinio de especialista, o Xerife Bello conduziu uma investigao metdica e competente sobre a morte de Bram Serian?
Para responder a essa pergunta primeiro teria de ter a definio de metdica e competente, porque essas palavras so abertas. No existe apenas uma maneira correcta
de fazer as coisas numa investigao, por isso no existe um quadro de resultados ou sistema de graduao para avaliar uma investigao. O que  importante aqui
o que interessa recordar  que o Xerife Bello reconstituiu um caso difcil, baseado em muitos e diferentes critrios evidenciais.
Portanto o senhor est a dizer que aprovou integralmente as tcnicas,
ou a falta de tcnicas, utilizadas nesta investigao.
Aprovo qualquer tcnica que conduza a resultados. Se houvesse mais agentes da autoridade que conseguissem resultados, no teramos tantos criminosos a ameaar cidados
decentes nas ruas.
Pode dizer-se que o senhor acredita que  procedimento adequado concentrar-se num suspeito e no seguir outras vias de investigao e manter a mente aberta a outros
possveis suspeitos?
Em determinadas circunstncias pode dizer-se precisamente isso. Neste caso especfico havia preponderncia de provas que apontavam directamente para a arguida, portanto
teria sido um desperdcio de tempo e de energia procurar suspeitos alternativos perante a falta de informao, s por causa das aparncias.
Repentinamente Rossner anunciou que terminava ali o seu interrogatrio. Owen observou como o advogado voltou para a sua cadeira e pela primeira vez viu a traio
da emoo. Rossner sentia-se visivelmente frustrado.
Depois do Detective Kilgren, o estado chamou um especialista em medicina legal, chamado Tonnessen. Tonnessen fez uma exposio da sua formao e experincia profissional
e depois ficou  disposio do tribunal e foi aceite como especialista.
Tonnessen era um homem vigoroso e de barba, que mais parecia um lenhador do que um cientista mas, logo que comeou a falar, desfizeram-se quaisquer dvidas quanto
 sua dedicao profissional. Tonnessen deu respostas cientficas e detalhadas a tudo. Disse ao tribunal mais sobre a sua profisso do que as pessoas queriam saber
e certamente mais sobre a cabea do machado e os vestgios do candeeiro de petrleo do que jamais algum pretendia saber.
Quando Rossner iniciou o contra-interrogatrio, Tonnessen admitiu lamentavelmente que a nica coisa que no podia afirmar relativamente  cabea do machado ou ao
candeeiro era precisamente como  que Bram Serian tinha encontrado a sua morte.
Owen! Espere!
Holly alcanou-o mesmo quando ia a sair do tribunal.
Posso falar consigo um minuto? perguntou ela. Ser que podia esperar at eu terminar a minha pea e depois ir tomar um caf comigo?
Desculpe, Holly. Tenho de encontrar-me com a minha agente e a minha editora esta noite depois do jantar e estou com muita pressa. Preciso de apanhar o prximo comboio.
Est bem... ento... Olhou  sua volta. Bem, eu s queria dizer-lhe que no h motivos para haver esta tenso entre ns. Quero dizer, as coisas acontecem. Sentimo-nos
atrados um pelo outro, mas isso no  nenhum crime. A questo , no h motivo para no podermos ser bons amigos e estou preocupada porque sinto que voc agora
se sente desconfortvel comigo. No acha que pode haver amizade entre um homem e uma mulher?
Isso no faz parte da minha sociedade, Holly. Na minha cidade, s o facto de ir ao caf com um membro do sexo oposto  quase o mesmo que estar comprometido, por
isso no tenho muita experincia com amigos do sexo feminino. A mulher com quem estou comprometido costumava ser minha amiga, mas obviamente no ficmos apenas amigos.
Holly riu-se. Mas agora j no est no Kansas. Aqui na cidade os homens e as mulheres trabalham juntos e tm de ser amigos constantemente. s vezes at dormem juntos
e continuam a ser amigos.
Owen abanou a cabea. Para mim no faz sentido tentar imaginar ou aprender novos hbitos, porque vou voltar para Cyril mais depressa do que voc pensa.
Oh, v l. Anime-se. Tenho sido uma boa amiga para si. Tenho-o ajudado e apresentei-o a outras pessoas e tudo.
Sim, voc fez isso. E fico-lhe agradecido.
Muito bem, ento... Ela sorriu com ar provocador enquanto lhe estendia a mo. Vamos apertar as mos a isso. Amigos, est bem?
Amigos, concordou Owen discretamente.
Mais tarde, enquanto olhava pela janela do comboio, pensou como seria voltar para Cyril onde nunca apertava as mos s mulheres, nem fazia amigos entre elas e onde
nunca via uma pessoa de uma raa diferente e onde tudo era to familiar e imutvel que tornava possvel viver ali de olhos vendados e sentir-se bem.
Saiu do comboio na Grand Central. O terminal tinha perdido para ele muito do seu esplendor. Agora reparava nas vistosas mquinas metlicas multibanco e nos horrveis
quiosques de fast-food e nas manchas de humidade no tecto celestial e nos pedintes a andarem de um lado para o outro como abutres. Mas, curiosamente, sentia-se ainda
mais afeioado  estao do que antes. Toda a ilha de Manhattan era como este edifcio grandiosa e inspiradora, fervilhando de energia e vitalidade, mas tambm suja
e a desmoronar-se e s vezes perigosa. E ele adorava tudo aquilo. Desejava abra-la, conhec-la e assimil-la.
Saiu para a Rua 42. Para Leste ficava a elegncia da arte dco do edifcio Chrysler e as guas rpidas e escuras do East River. Para Oeste estendia-se a Rua 42,
cruzando a Quinta Avenida prximo da biblioteca central de pesquisa e o Parque Bryant, que era uma jia, atravessando a Broadway perto dos grandes teatros com todo
o seu esplendor e sordidez, atravessando o submundo da Oitava e Nona Avenidas, e terminando na vastido cinzenta do Rio Hudson.
J era noite, mas as ruas estavam cheias de gente. Os passeios regurgitavam de risos e conversas. Havia pessoas apressadas. Pessoas que andavam a passear. Pessoas
que tinham sado com outras pessoas, em vez de ficarem sentadas em frente dos aparelhos de televiso nas suas salas de estar.
Ficou ali parado no passeio, a observar, a escutar, divertido com a magia elctrizante de tanta vivacidade. E depois para o seu encontro de jantar com Bernadette
Goodson, sorrindo enquanto se introduzia naquele movimento de humanidade.
Na tera-feira de manh, Owen estava atrasado. Entrou apressado no tribunal e subiu at ao controle da segurana. O trio estava deserto, exceptuando a presena
de uma mulher. Todos os trs guardas estavam ocupados a inspeccionar a sua volumosa carteira e a interrog-la.
Estou aqui porque venho prestar depoimento, insistia ela. Agora dem-me a minha carteira e deixem-me entrar.
Owen observou-a. Era alta, apenas com menos seis ou sete centmetros do que os seus cento e noventa centmetros, de ombros largos e ossos substanciais, pernas compridas
e mos compridas e expressivas. A sua pele era to escura como os gros de caf torrado. Estava voltada para o outro lado e ele no conseguia ver-lhe a cara.
Espere ali naquele trio, ordenou-lhe um dos guardas. Volte para trs para o banco junto das mquinas de refeies rpidas e sente-se. Eu vou l acima a comunicar-lhes
que a senhora est aqui. Consultou o bloco informativo.  a senhora Johnson, no ?
Ela acenou com a cabea em sinal afirmativo.
Geneva Johnson! Mesmo ali  sua frente encontrava-se Geneva Johnson. A modelo com quem Serian tinha andado envolvido durante os primeiros anos em Nova Iorque.
Owen tinha tentado todas as formas possveis para localizar esta mulher do passado de Serian e agora aqui estava ela. Observou-a enquanto passava pelo detector de
metais e voltava para o trio. Trazia no brao um casaco de peles e usava uma roupa cor de laranja vivo que envolvia e entrelaava e sobrepunha e pendia numa extravagncia
complexa de tecido. O seu cabelo estava penteado com tranas longas e finas enfeitadas com missangas e depois todas as tranas estavam apanhadas no cimo da cabea
formando um rabo de cavalo. Estava numa posio em que no conseguia ter uma viso completa do rosto dela.
Os guardas riram dissimuladamente e sussurraram entre eles comentrios obscenos, logo que ela ficou fora de vista. Owen cerrou os dentes para evitar chamar-lhes
a ateno para o seu comportamento pouco profissional. No podia tomar a atitude de os irritar, nem atrair a ateno deles de maneira nenhuma, porque tencionava
seguir Geneva Johnson e no queria arriscar que eles interviessem. Quando acabaram de inspeccionar o seu saco, ele apanhouo e, em vez de subir as escadas, voltou
para o trio.
Owen encontrou Geneva Johnson sentada a um recanto da parede junto das mquinas de venda automtica. Estava a ler um livro que tinha uma brochura de tamanho desproporcionado.
Desculpe, disse ele.
Ela levantou os olhos. Os traos fisionmicos do seu rosto eram expressivos e intemporais. Os seus olhos eram de um castanho lnguido. Tinha um porte nobre.
J querem que eu v?
No. O meu nome  Owen Byrne e eu...
No falo com jornalistas, disse ela.
Embora ele estivesse de p e ela sentada, mesmo assim tinha a sensao de estar a ser olhado de cima.
Eu no sou jornalista. Sou escritor.
 a mesma coisa. V-se embora.
No. No  a mesma coisa. Eu no escrevo histrias para nenhum jornal nem revista. Ando a fazer pesquisa para escrever um livro.
A expresso dela no mudou, mas ela estava a ouvir. Owen falava mais depressa do que era normal, ansioso por lhe dar uma explicao completa, antes que ela deixasse
de ouvir.
Estou a escrever sobre o julgamento. Mas no consigo fazer com que a morte de Bram Serian faa sentido sem saber mais sobre a sua vida. Procuro informaes sobre
o passado dele... estou a tentar descobrir gradualmente o seu passado e ver como se transformou no que era.
Os olhos dela diminuram. Como  que eu sei que est a ser sincero?
Pode investigar-me, disse Owen, abrindo um bloco de notas onde escreveu o seu nome e os nomes e nmeros de telefone da sua editora e da
sua agente. A seguir acrescentou a sua morada temporria em Manhattan e a sua morada permanente e nmero de telefone no Kansas. Dizem-me que sou fcil de investigar,
disse ele, incapaz de resistir a um breve sorriso enquanto arrancava a folha e lha entregava.
Ela relanceou um olhar pela lista, depois olhou circunspectamente para ele.
Eu no pretendo explorar ningum, disse Owen.
Se isso  verdade, ento deviam embalsam-lo e coloc-lo num museu, meu caro senhor, porque isso faz de si uma pessoa excepcional entre o seu gnero.
Eu apenas quero obter informao sobre o passado de Serian. A senhora conheceu-o quando ele veio pela primeira vez para Nova Iorque, no  verdade?
Ela observou-o com um olhar perspicaz e avaliador.
Qual  o seu signo astrolgico? perguntou ela.
No sei, confessou ele.
Ela dobrou o papel e meteu-o dentro da sua enorme carteira. Eu no queria prestar depoimento, disse ela. Esses ordinrios obrigam-me a ir depor. O senhor, pelo contrrio,
no pode obrigar-me a fazer nada.
Claro que no. Eu no quereria tal coisa. Eu...
Com quem  que j falou at agora?
Com Gregory Hillyer e Edie Norton. Ela riu sarcasticamente. Fao ideia da porcaria que eles lhe serviram.
O livro que ela tinha no colo escorregou e caiu para o cho e Owen baixou-se para o apanhar. Quando lho entregou, olhou para o ttulo Frmulas Mgicas e Cerimnias
para Orientar a Energia Espiritual.
Isso  sobre magia? perguntou Owen.
O sorriso dela era desprovido de entusiasmo.  sobre coisas que o senhor provavelmente no consegue compreender.
Ento ele desistiu, calculando que a mulher nunca ia concordar em dar-lhe uma entrevista. A aceitao da derrota descontraiu-o. Senhora... riu-se ele, isso abrange
muito territrio, porque eu no compreendo a maior parte das coisas que acontecem no mundo.  por isso que escrevo. Estou apenas a tentar fazer com que tudo faa
algum sentido.
Ento tem pela frente o trabalho da sua vida.
Ele riu-se de novo. Parece-me que nisso tem toda a razo. Ela mostrou um semblante severo. Bram Serian era um criador. Um criador brilhante. E o senhor no vai querer
perturbar a arte.
No sei bem se compreendi.
Ora a est, ento! O seu sorriso era mais genuno desta vez. A tem uma coisa em que pode trabalhar. Veja se consegue imaginar e comPreender. Entretanto, por que
no se vai embora e me deixa esperar em paz?
Muito bem. Tem todos os elementos para o caso de haver alguma coisa...
No vai haver. Adeus.
  
Owen subiu as escadas a correr e foi para a sala de audincias nmero 6 e sentou-se no lugar vazio junto  coxia, ao lado de Holly. Ela lanou-lhe um olhar inquiridor,
depois voltou o seu bloco de notas de maneira que ele pudesse ler Sven Eklund - O Homem dos Foges. Owen ficou imediatamente a saber que o sujeito idoso que estava
na barra das testemunhas era o homem que tinha instalado o fogo no estdio de Serian h quase vinte anos.
O testemunho de Eklund foi enfadonho e Owen teve dificuldade em evitar que a sua mente comeasse a divagar. Observou Lenore Serian. Observou o jri. Pensou em Bram
Serian.
Brown insistiu com a testemunha, levando o velho Sven Eklund atravs de uma histria da companhia dos foges e uma exposio de fotografias de foges e uma discusso
sobre a percentagem de instalaes de falsos foges por oposio aos foges que queimam lenha. O advogado tentou repetidamente levar Eklund a fazer um exame dos
motivos psicolgicos dos seus clientes de foges elctricos, mas Rossner ops-se quela perspectiva com numerosos protestos, at que finalmente o juiz advertiu Brown
que devia parar, a no ser que quisesse demonstrar ao tribunal que Sven Eklund tinha um curso de psicologia.
Ouviu-se um leve rudo de ressonar ao fundo da sala e o juiz fez parar tudo enquanto um oficial de diligncias foi a acordar o espectador transgressor. Durante a
interrupo, Holly inclinou-se a sussurrar que ela j tinha visto um dos jurados a cabecear com sono.
Quando prosseguiu o testemunho, Brown tentou levar Eklund a lembrar-se das afirmaes que Serian lhe tinha feito sobre o fogo, mas o velhote no conseguiu lembrar-se
de muita coisa. No contra-interrogatrio Rossner levou cuidadosamente Eklund a admitir que nem sequer se lembrava de ter feito a instalao do fogo a Serian, at
a polcia o convocar e lhe refrescar a memria. Depois de uma manh inteira com o homem dos foges, Owen no conseguia perceber como  que cada uma das partes tinha
ganho ou perdido um centmetro que fosse.
Logo que Eklund desceu do lugar da testemunha, o Juiz Pulaski mandou ir os jurados para a sala do jri e chamou o promotor de justia e o advogado de defesa para
discutir uma nota que o juiz tinha recebido do presidente dos jurados.
Onde esteve? sussurrou Holly.
Estive a falar com uma testemunha, confessou Owen. Vi-a l em baixo e no pude resistir a fazer uma tentativa.
A Holly riu-se um bocadinho. Est a aprender, disse ela. Quando esta coisa acabar voc  capaz de ser um autntico jornalista.
No h nenhumas regras que probam falar com as testemunhas, ou h?
No. Mas tem de ter cuidado. Pode pisar os calos a algum... fazer inimigos... e a ltima coisa que qualquer um de ns precisa  pr o gabinete do ministrio pblico
furioso e no cooperativo.
Owen acenou com a cabea em sinal de compreenso.
Portanto... Holly franziu uma sobrancelha com ar interrogador. Com quem  que esteve a falar?
Com Geneva Johnson.
Conseguiu obter alguma coisa de interesse?
No.
No fique desanimado. Nenhum de ns conseguiu arrancar nada de interesse a Geneva Johnson.
Pat debruou-se para a frente de Holly para se juntar  conversa. Essa mulher, a Johnson, est demasiado longe no passado de Serian. Qualquer coisa de interesse
relacionado com ela  rigorosamente uma questo do passado.
No vejo por que o promotor pblico precisa do seu depoimento, disse Holly, como se aquilo fosse um assunto pessoal que lhe desagradasse.
Segundo a Marilyn, comeou a Pat, explicando a Owen que a Marilyn tinha um canal de contacto consistente com o gabinete do ministrio pblico, de tal modo que qualquer
coisa que ela dissesse relativamente  estratgia de Brown e Dapolito era como se fosse o evangelho. De acordo com a Marilyn, Geneva Johnson foi a nica pessoa que
conseguiram encontrar, que esteve directamente envolvida com o Serian quando ele estava a construir o estdio.
O que tem isso a ver com seja l o que for? perguntou a Holly.
O testemunho dela vai servir para eles desenvolverem a questo do incndio. Parece que  s para isso que eles a querem. Exclusivamente por causa do incndio. Apesar
de ser uma testemunha antiptica.
E isso faz alguma diferena?
Pode fazer, disse-lhe a Pat. Se uma testemunha tem de ser obrigada a vir depor e  considerada antiptica, ento o advogado pode ser agressivo ao fazer o interrogatrio,
sem que isso seja considerado hostilizao. Depois vai poder ver se Brown decide..,
A Pat abandonou a conversa e voltou a sua ateno para o que se passava na frente, pois o tribunal foi chamado de novo  ordem. O jri voltou a sentar-se.
O juiz olhou para o relgio, comunicou aos jurados a sua habitual advertncia de que no deviam discutir o caso e depois dispensou toda a gente para ir almoar.
Owen juntou-se ao pessoal, que hoje inclua no s os reprteres mas tambm os empregados do tribunal e at Spencer Brown e Tony Dapolito. O motivo era um almoo
de beneficncia organizado pelos Auxiliares Metodistas na cave da igreja. Todos diziam que era uma situao aborrecida, com toda a gente a ter de comportar-se o
melhor possvel e ningum podia discutir o julgamento do homicdio para o qual estavam todos reunidos.
Quando o grupo saiu, Owen ficou surpreendido ao ver o Juiz Pulaski a atravessar a praa do tribunal prximo deles. Sem a sua toga, o juiz era um homem pequeno, com
um aspecto perfeitamente normal, se exceptuarmos o facto de o seu fato ser excepcionalmente bem cortado. O juiz levava dois livros. Owen ficou a observar, tentando
ver quais eram os ttulos. O livro de capa dura tinha como ttulo Jogos Capitais, o livro sobre a nomeao do Supremo Tribunal Clarence Thomas. Uma escolha apropriada
para um juiz, pensou Owen. O livro de bolso, mais pequeno, era uma novela de Clive Cussler sobre as proezas de Dirk Pitt.
#Pontualmente s duas horas recomeou o julgamento. Havia um novo nvel de tenso na sala e a seco dos espectadores estava superlotada. Owen sentia que as pessoas
estavam ansiosas. Estava toda a gente cansada de pormenores tcnicos e pronta para qualquer coisa com interesse... qualquer coisa sensacional. E Geneva Johnson era
a primeira testemunha capaz de alimentar aquela ansiedade.
Quando foi chamado o seu nome, Geneva Johnson desceu pelo corredor central como se fosse uma rainha cuja virtude tivesse sido posta em causa. Nem sequer olhou para
Lenore, embora percorresse o resto da sala com um olhar de desprezo, enquanto se sentava na cadeira das testemunhas.
A sala estava absolutamente em silncio. Owen tentou imaginar o que estaria Lenore a pensar.
Spencer Brown colocou-se em posio. Fez lembrar a Owen um galo domstico todo inchado e pronto para iniciar a luta, e Owen reparou que Brown tencionava intimidar
Geneva Johnson.
Qual  a sua ocupao, menina Johnson?
Tenho uma loja.
J teve outras ocupaes anteriores  actual?
Claro. No cheguei simplesmente aos dezasseis anos e abri a minha loja.
A resposta incisiva fez Brown hesitar por um momento.
Pode falar-nos um pouco sobre essa loja?
O que gostava de saber, senhor Advogado? O valor das vendas? O perfil dos clientes? A classificao de Dunn e Bradstreet? O ndice de satisfao dos empregados?
Brown olhou para ela com ar irritado. Qual  a categoria desse estabelecimento?
Pronto a vestir para senhoras.
 proprietria dessa loja e administra-a sozinha?
Sim.
Ento ser correcto descrev-la como uma mulher de negcios?
 assim que me chamam.
E para ter sucesso nesse negcio  necessrio ter uma boa memria e um bom conhecimento das pessoas e conscincia do que elas dizem, de maneira a poder convenc-las
a comprar, no  assim?
 mesmo assim.
Voltando ao passado, pode contar-nos como conheceu Bram Serian?
Em sentido bblico ou noutro?
Brown tossiu. Quando o conheceu?
Conhecemo-nos em 1968.
E posteriormente teve um envolvimento romntico com Bram Serian?
No. Mas comemos a dormir juntos.
Brown olhou para ela com justificada perplexidade. Est a dizer que no teve nenhum envolvimento romntico com Bram Serian?
SEDUO CRIMINOSA 143
O romantismo  para os palermas, senhor Advogado. Nenhum de ns era palerma.
Estou a ver. Brown estudou as suas notas nervosamente. Vamos voltar quele perodo de tempo em que estava a viver com Bram Serian.
Sim. Vamos. Replicou ela sarcasticamente.
Onde residia com Bram Serian?
Nas guas-furtadas dele, em Manhattan.
Essas guas-furtadas eram utilizadas para mais alguma coisa, para alm de serem um espao de habitao?
Sim. O Serian trabalhava l.
E advertiu-a de algumas regras a observar naquele espao onde vivia e trabalhava?
Sim.
Pode dizer-nos quais eram essas regras?
Nunca podia levar para l convidados, a no ser que tivesse combinado antecipadamente com ele. Ele tinha os seus trabalhos cobertos com lenis e ningum podia espreitar
por baixo deles.
Mais alguma coisa?
Ela soltou um suspiro. Ele tinha muitas regras. Era proibido ouvir a msica de Barry Manilow, nada de chapus em cima da cama, nada de Kahlil Gibran, era proibido
fazer qualquer referncia ao Vietname, nada que fosse cor-de-laranja, nada de animais excepto aves, era proibido mencionar Deus, proibido mascar pastilhas elsticas...
Quer que continue?
Vamos limitar-nos a coisas mais especficas, disse Brown. Bram Serian tinha algumas regras relativamente ao fogo ou a chamas?
Ela tinha estado a olhar para Brown mesmo nos olhos durante a sua troca de palavras, mas depois baixou os olhos. O que significaria, perguntou-se Owen... Resignao?
Derrota? Recordaes dolorosas? Ou estaria a preparar uma mentira?
Ele no me deixava queimar velas.
Est a dizer que h vinte anos, quando ainda era jovem, Bram Serian no permitia uma nica chama de vela naquilo que era o seu local de trabalho e de residncia?
Sim.
Brown fez uma pausa para dar tempo s pessoas para assimilarem aquela ideia. Toda a gente na sala tinha a ateno concentrada no promotor de justia e na sua testemunha.
Agora, menina Johnson, a sua relao com Bram Serian ainda se mantinha e ainda estava a residir nas guas-furtadas em Manhattan com Bram Serian quando ele comprou
a propriedade nos arredores de Stoatsberg?
Sim.
A menina mudou-se para a quinta para ir viver l com ele?
No. Fiquei nas guas furtadas e o Serian andava de um lado para o outro, entre a quinta e as guas-furtadas.
Por que no mudou de residncia com ele?
Porque ele no quis. No era um bom lugar para se viver e ele s ia para
l quando estava a construir aquele estdio.
Naquela altura ele estava envolvido na transformao do celeiro num estdio de arte, no estava?
Sim. Estava envolvido com certeza.
Ele costumava discutir consigo o projecto do edifcio?
s vezes.
Qual era a sua atitude global acerca daquele projecto?
Estava muito entusiasmado com ele.
Discutiu consigo a escolha de um fogo de aquecimento?
De certo modo.
Pode contar-nos o que ele lhe disse relativamente  sua escolha de um fogo?
Ele mostrou-me uma gravura de um fogo e disse-me que se parecia exactamente com um fogo a lenha, mas era uma imitao. O fogo era de facto um aquecedor elctrico
para uma sala, com um ventilador.
E esse fogo era caro?
Muito.
Ele disse por que tinha escolhido esse tipo de fogo, em vez de instalar o habitual fogo a lenha que era to fcil de encontrar nos arredores de Stoatsberg?
Ele no queria fogo no seu estdio.
Ele no lhe disse, na verdade, que tinha muito medo do fogo? perguntou Brown. Que tinha um medo do fogo desde h muito tempo e... Protesto! gritou Rossner.
Contenha-se, Dr. Brown, ordenou o juiz to depressa que Owen ficou com a certeza que Pulaski tinha estado  espera de um motivo para gritar ao promotor de justia.
Os dentes de Brown cerraram-se. Ele no disse, muitas vezes e na presena de outras pessoas, que tinha medo do fogo?
Ele nunca me disse que estava aterrorizado nem que tinha medo de alguma coisa no mundo, replicou ela.
Est a dizer-me que ele no lhe disse, na presena de outras pessoas,  que tinha medo que houvesse um incndio no seu estdio? Ele falou no facto de o celeiro ser
feito de madeira velha e de como podia arder com facilidade.
Ento ele tinha medo que o seu estdio de arte pudesse incendiar-se.
Sim.
Com aquilo Spencer Brown sensatamente agradeceu  sua obstinada testemunha e voltou para a segurana do seu assento.
Rossner aproximou-se dela com uma delicadeza exagerada, apresentando-se e fazendo-lhe uma srie de perguntas delicadas para comear. Depois concentrou-se nas questes
do fogo.
A menina diz que ele no queria que acendesse velas. Era isso?
Sim.
Ser possvel que ele simplesmente no gostasse de velas da mesma maneira que no gostava da msica de Barry Manilow?
Sim.
E que ele tivesse tanto medo que a chama das velas desse origem a um incndio como receava que a msica de Barry Manilow provocasse um tumulto?
Alguns risos abafados ouviram-se por toda a sala de audincias.
Ou a atitude de Rossner ou a sua prpria resignao tinham diminudo a hostilidade de Geneva Johnson e ela respondeu prontamente. Ele tinha opinies muito fortes
para as quais nem sempre dava justificaes.
Bram Serian era o gnero de pessoa que tolerasse porcarias?
No. Era fantico da limpeza.
As velas podem fazer porcaria, no podem? Deixam pingar toda aquela cera, no  verdade?
Sim.
E o fogo para o estdio... ele disse alguma vez que tinha encomendado um fogo elctrico especificamente porque tinha medo de um incndio, ou a possibilidade de
haver um incndio era apenas uma entre muitas razes?
Era uma entre muitas razes.
E o fogo a lenha seria uma porcaria, no  verdade, e ele fez referncia a isso, no fez?
Sim. E preocupava-o especialmente o facto de os ratos e os insectos viverem nas pilhas de lenha e ele no queria um monte de lenha junto do seu estdio.
Rossner olhou para a parede por um momento, depois voltou-se para a testemunha. Pode dizer-nos onde vivia quando Bram Serian trouxe a Lenore para a quinta para viver
l com ela?
Geneva Johnson respirou fundo e Owen pensou t-la visto a relancear os olhos na direco de Lenore. ^
Eu vivia nas guas-furtadas.
Nas guas-furtadas de Bram Serian em Manhattan?
Sim.
Ento ele tinha a menina a viver nas guas-furtadas e a Lenore a viver na quinta?
Sim.
E a menina estava a par dessa situao naquela altura?
Sim, respondeu ela, parecendo ficar cada vez mais desconfortvel.
Como se sentia pelo facto de o seu amante ter outra mulher a viver em...
Subitamente, Lenore Serian, que no se tinha mexido nem uma vez durante uma semana de prestao de depoimentos, saltou do assento, correu pela coxia e desapareceu
pelas portas duplas. Houve um momento de silncio de estupefaco por um momento e depois seguiu-se uma exploso geral por toda a sala de audincias. O Juiz Pulaski
batia inutilmente com o martelo na mesa. Volpe e Riley correram pela porta fora atrs da arguida que se tinha posto em fuga. Vrios reprteres de rdio seguiram
atrs deles para comunicar com as suas estaes de notcias. Mantendo-se ainda no seu lugar, Geneva Johnson enterrou a cara nas mos.
Quando os oficiais de diligncias finalmente restauraram a ordem entre a assistncia, o juiz mandou os jurados para a sala do jri, ordenou aos advogados que se
retirassem para os seus aposentos e instruiu os oficiais de diligncias para que esvaziassem o tribunal por uma suspenso temporria das actividades durante quinze
minutos.
Uau, a Holly respirou de alvio, enquanto abandonavam os seus lugares, na sequncia das ordens do juiz.
Um grupo de reprteres juntou-se no corredor. Estavam todos a falar ao mesmo tempo em tom abafado e impaciente. Nunca vi acontecer uma coisa destas ao longo de todos
estes anos que passei a assistir a julgamentos,
disse a Marilyn, sorrindo de espanto.
Isto  fantstico! repetia o Ray vezes sem fim.
Ela f-lo parar, disse a Holly pensativamente. Foi por isso que ela se ps em fuga daquela maneira... para fazer parar o seu prprio advogado. Ela deve ter tido
receio que ele estivesse quase a tropear em alguma coisa desagradvel e perigosa relativamente ao tringulo amoroso.
Parece-me que tens razo, concordou a Marilyn. Ela estava desesperada por cal-lo e aquela foi a nica maneira que lhe passou pela cabea.
Ser que Brown no vai  procura da verdade, agora quando retomar o interrogatrio? perguntou Owen.
Est a brincar? O tom da Marilyn era sarcstico. Brown no vai querer realar nenhuma animosidade entre a Lenore e a Geneva. Est demasiado distanciado no passado
para provocar quaisquer danos no carcter da Lenore e s far o jri interrogar-se se a Geneva no teria algum ressentimento durante todo este tempo e se no apareceu
para apanhar a Lenore.
Owen abanou a cabea.  impossvel desvendar toda essa histria, no ?
A Holly lanou-lhe um olhar irritado.
Quando foram autorizados a voltar para a sala de audincias, toda a gente estava na expectativa. Volpe e Riley escoltaram Lenore que voltou a entrar na sala e se
dirigiu para o seu lugar ao lado de Charles Rossner. Rossner sussurrou-lhe qualquer coisa e ela abanou a cabea.
Senhora Serian, disse o juiz com ar severo. Rossner agarrou-a pelo cotovelo e puxou-a para cima com ele, para a posio de p.
Parece-me que a senhora ficou subitamente doente. Seja como for, isto  um tribunal e no vou tolerar nenhum comportamento incorrecto. Quaisquer interrupes futuras
sero tratadas com severidade. Est esclarecida?
Lenore acenou com a cabea em sinal de assentimento e Rossner disse, A minha cliente compreende, meritssimo.
O resto do testemunho de Geneva Johnson teve pouco interesse. Rossner no retomou a linha de interrogatrio que estava a seguir antes da interrupo. Em vez disso,
voltou a falar das velas e do fogo de lenha e a seguir retirou-se. Brown no retomou o interrogatrio.
A testemunha foi dispensada e o juiz ps-se a fazer uma preleco ao jri sobre os seus deveres.
Toda a questo do fogo estava a aborrecer Owen. Qualquer coisa que tinha
a ver com o fogo estava a importunar a sua memria. Inclinou-se a sussurrar para a Holly, Acho que sou capaz de ter alguma coisa sobre o Serian e o fogo. Qualquer
coisa que encontrei na minha pesquisa...
__ oh! Alguma coisa que quisesse deixar que fosse publicada nos meios de comunicao? perguntou ela com ar de gozo, mas cheia de esperana.
Nem sequer me lembro exactamente do que . Mas se pudesse fazer alguma diferena, entreg-la-ia ao tribunal.
Quer dizer ao juiz? No pode fazer uma coisa dessas. Teria de a entregar a uma ou a outra parte, e se estivesse no seu lugar, eu no ia envolver-me dessa maneira.
Se voc tivesse uma informao crucial, no a apresentaria?
Crucial? A Holly deu uma risadinha. Duvido que o que voc tem seja crucial.
Talvez no, confessou ele. Mas se descobri mesmo que seja uma pequena verdade, tenho a obrigao de dar um passo em frente.
E se o seu pedacinho de verdade pudesse obstruir a justia? E se ajudasse Lenore Serian a ficar livre, quando ela era realmente culpada?
Do que est a falar, Holly? S porque est convencida da culpa da mulher, acha que as provas em contrrio devem ser suprimidas?
Eu no disse isso. S acho que devia olhar para o contexto de forma mais abrangente.
Owen podia ter continuado a defront-la, mas o jri comeou a desfilar em conjunto para a sada. Isso queria dizer que o juiz tinha terminado a sesso daquele dia
e um oficial de diligncias ia abrir as portas dentro de momentos. Gil Flores, o reprter de televiso, estava sentado atrs da Holly e tocou-lhe com a mo no ombro.
O que vais apresentar como tema? perguntou ele.
Como tanto Holly como Pat se voltaram para trocar impresses com o Flores, Owen pegou nas suas coisas e escapuliu-se.
Continuou a pensar no testemunho do fogo enquanto viajava no comboio de regresso a casa. Brown estava a tentar levar aquilo para alm do domnio de um homem que
tinha todos os cuidados com o fogo. O procurador estava a tentar dar uma imagem de Serian como uma pessoa que tinha horror ao fogo. E Owen achava que nada daquilo
era verdade. Bram Serian no lhe tinha dado a ideia de ser um homem que tivesse medo de muita coisa... mas era mais do que isso. Owen estava convencido de que algures,
nos volumes de material que tinha recolhido, Bram Serian tinha de facto feito referncia ao fogo.
Em vez de parar para jantar, foi directamente para o seu apartamento para procurar nos seus ficheiros. Tentou fazer aquilo com calma, sem pr tudo numa confuso,
mas  medida que procurava foi ficando cada vez mais nervoso. Esta era uma autntica pista. Isto era uma coisa muito importante.
Finalmente encontrou-o. No meio de uma pouco conhecida e h muito desaparecida publicao de arte estava um artigo importante, com o ttulo JOVENS ARTISTAS EM MANHATTAN.
Includo naquele artigo estava uma curta
entrevista com Bram Serian, quando ainda frequentava a Sociedade de Estudantes de Belas-Artes. Os entrevistadores tinham ido a um daqueles espaos cooperativos de
galerias no lucrativas que se dirigiam principalmente aos estudantes e falavam com todos os que se afirmavam como artistas. A parte de Serian era breve:
P. Pode dizer-nos o seu nome e donde ?
R. O meu nome  Bram Serian e sou americano.
P. Podia ser mais explcito?
R. Julgava que amos falar sobre a minha arte.
P. Vamos. Mas estou a tentar contextualiz-lo.
R. O meu nico contexto so as minhas obras.
P. Muito bem. Mas primeiro gostvamos de saber como  que a sua vinda para Nova Iorque o afectou... a si e ao seu trabalho.
R. Nova Iorque  o centro da arte americana. Se um artista no estiver aqui, est morto,
P. No acha, ento, que a cidade se intromete no seu trabalho?
R. No. Sou um escultor mais autntico aqui do que jamais tinha sido. A cidade deu ao meu trabalho uma nova amplitude.
P. E em que est a trabalhar neste momento?
R. Acabei agora mesmo uma srie de esculturas em metal a que chamo Heartland (O corao do pas).
P.  aquela com todas as peas de um tractor?
R. Sim, conhece-a?
P, H uma gravura no boletim de informao l em baixo. Parece muito grande. Isso cria-lhe problemas quando pretende exibi-la?
R. Sim. Mas eu no concebo as minhas obras para se adaptarem aos espaos de exposio.
P. Bem. Esperamos v-lo em breve numa exposio. J comeou alguma coisa?
R. Estou a fazer um projecto para uma pea em que utilizo elementos de um edifcio queimado por um incndio. H meses que ando a acompanhar carros dos bombeiros
e a recolher materiais.
P. Isso no  de alguma maneira perturbador ir a todos esses lugares de calamidade?
R. O fogo  uma das foras elementares da natureza e o nico predador que no tem medo dos humanos.  misterioso e purificador, no perturbador.
Era isso. O resto no tinha importncia. Era da afirmao sobre o fogo de que ele se lembrava. Bram Serian no lhe parecia uma pessoa com um medo profundo do fogo.
Se alguma coisa aparentava, era a sua admirao pelo fogo-
Owen ficou a olhar para as pginas fotocopiadas durante alguns segundos. Depois desceu as escadas para ir a uma cabine telefonar para o escritrio de Charles Rossner.
#9
O hotel Greystone ficava do outro lado da praa do tribunal. Ficava num gaveto, um edifcio em granito de quatro andares, com velhas janelas duplas do tipo guilhotina
e um aspecto de grandiosidade no passado. As elegantes portas de bronze da entrada abriam-se sob um toldo castanho-avermelhado desbotado.
Owen entrou no salo de entrada. A sua ateno fixou-se na elegncia do mobilirio gasto, nas cacatuas metidas em gaiolas ao canto, na secretria de madeira da recepo
e na tabuleta POR FAVOR TOQUE A CAMPAINHA PARA ATENDIMENTO; depois atravessou o salo para falar com o homem que estava atrs do balco.
O homem olhou para ele com desconfiana.
O Dr. Rossner encontra-se aqui? perguntou Owen.
O homem levantou a cabea e lanou a Owen um olhar presunoso. Talvez sim, talvez no. Se for reprter, esquea.
O meu nome  Byrne. Owen Byrne. Tenho uma entrevista marcada com ele.
Pegou no telefone e falou em tom abafado, tendo referido o nome de Owen. Segundo andar, disse ele, apontando as escadas. A suite executiva.
Owen ainda no tinha, de facto, falado com Rossner. Ao telefone tinha falado com Paul Jacowitz, o assistente de Rossner, que ao princpio se mostrara cptico. Mas
depois de ouvir a informao de Owen, Jacowitz pedira desculpa, justificando-se que tinham sido assediados por pessoas excntricas a telefonar e reprteres a tentar
penetrar nos aposentos privados da defesa. Jacowitz combinou ento um encontro de manh cedo no Greystone.
Quando chegou ao cimo das escadas, Owen voltou  direita e encontrou-se no vestbulo com os dois detectives, Volpe e Riley. Riley era da altura de Owen, mas com
o aspecto de um antigo jogador de futebol. A sua compleio avermelhada e os olhos azuis lacrimosos podiam ser de origem gentica ou o resultado de muitos anos de
bebida. Volpe era o oposto, baixo e de olhos escuros e to aguados como uma lmina passada pelo assentador.
Traz alguma arma? Algum aparelho escondido para fazer gravaes?
gritou-lhe Volpe.
Aquela experincia pareceu-lhe to estranha em relao a tudo o que Owen j tinha defrontado que ficou a olhar para os homens durante alguns segundos antes de responder,
No.
Riley sorriu. No se importa que verifiquemos, pois no, rapazola?
Owen abanou a cabea e a seguir foi revistado pela primeira vez na vida.
No  nada pessoal, assegurou Riley a Owen enquanto as suas mos largas andavam para cima e para baixo. Volpe ficou a observar como se estivesse  espera que o seu
parceiro encontrasse uma metralhadora no bolso de Owen.
Quando a revista corporal terminou, Riley colocou o brao musculoso nos ombros de Owen e disse, Eu conheo alguns Byrnes. Como se chama o seu pai, rapazola?
Clancy. Mas no  de Nova Iorque.  do Kansas.
Ah, est bem. Tem um motivo para isto, no tem? Owen acenou com a cabea em sinal de concordncia, apesar de no fazer ideia do que Riley queria dizer.
Os olhos de Volpe, negros e brilhantes como contas, continuavam a olhar intensamente para ele com ar ameaador, por isso Owen voltou-se para Riley e disse, Tenho
uma entrevista marcada com o Dr. Rossner.
Com certeza que tem, disse Riley a sorrir. Vamos fazer um acordo. O Dr. Rossner  que faz as perguntas. Voc apenas d as respostas. Percebeu? E no dirige uma nica
palavra  senhora Serian.
Isto  um negcio, no uma entrevista, disse Volpe, instilando ameaa por todos os poros. E aconselho-o a no fazer nenhum golpe baixo.
A senhora Serian. Com aquelas palavras Owen sentiu-se subitamente inseguro. Ela estava ali. Ia conhecer Lenore Serian.
Entrou por uma porta atrs de Riley. Jacowitz cumprimentou-o. Riley tirou-lhe o casaco e deu-lhe um toque no cotovelo para avanar para uma mesa redonda que estava
junto  nica janela da sala. Rossner estava ali sentado  luz do sol da manh.
 o senhor Byrne, no ? perguntou Rossner com ar divertido mas simptico.
Sim. Owen Byrne.
Riley apontou para a cadeira e Owen sentou-se.
J conhece os meus investigadores, Joe Volpe e Frank Riley... O gesto de Rossner indicava que esta era a apresentao oficial, por isso Owen fez um aceno de cabea
para os homens. E este  Paul Jacowitz, o meu associado. Owen acenou a Jacowitz.
Com que ento, voc conseguiu ter acesso ao nosso quartel general, senhor Byrne. Rossner sorriu e Owen observou cuidadosamente o ambiente. Era uma sala espaosa
de forma irregular, cheia de sombras, com excepo da entrada do sol pela nica janela de tipo guilhotina. A cor predominante era um cinzento-esverdeado desbotado.
A um canto estava um bar privado com bebidas alcolicas, com um pequeno frigorfico e uma mquina automtica de fazer caf. Para alm da mesa,  qual se encontrava
sentado, o mobilirio
consistia num sof-cama velho, vrias cadeiras estofadas e algumas mesinhas e candeeiros de p alto. No havia camas. Suspeitou que houvesse instalaes para dormir
atrs de uma das vrias portas. No havia sinal de Lenore Serian.
Rossner observou-o com uma expresso ociosa e intencional. Joe, disse por fim a Volpe, importa-se de pedir  Lenore que se junte a ns?
Volpe bateu a uma porta. Owen no pde deixar de olhar quando a porta se abriu e apareceu Lenore. Ali estava ela, mais uma vez, a mulher da fotografia dos tablides:
reservada, altiva, sensual e distante. S lhe faltava o ar irritado.
Por favor, junte-se a ns, Lenore. Rossner levantou-se e puxou a cadeira que estava em frente de Owen. Venha sentar-se e conhecer o homem que est disposto a ajud-la.
Owen foi acometido por uma avalanche de emoes confusas. Culpa, nervosismo, curiosidade e algo mais intenso, alguma coisa mais profunda que a curiosidade.
Lenore Serian atravessou a sala, manifestamente como uma participante relutante e sentou-se sem olhar para Owen nem reconhecer a sua presena de maneira alguma.
Vestia um fato deselegante e uma blusa branca com um lao formal por baixo do queixo. Owen tinha a certeza que aquela no era a roupa dela. O cabelo estava apanhado
atrs e enrolado no cacho habitual. No usava jias para alm da aliana de casamento e no tinha qualquer maquilhagem que se pudesse notar. A sua pele estava impecvel.
 luz da janela tinha uma tonalidade dourada. Cor de mel. Ou cor de mel e creme.
Lenore, este  Owen Byrne. Diz que tem qualquer coisa importante para nos mostrar.
Ela voltou-se para Owen com um olhar frio e desconfiado. Ele esqueceu-se da sua delicadeza habitual e ficou a olhar para ela descaradamente. Aquela era a mulher
que tinha partilhado a vida de Bram Serian e possivelmente a sua morte. Owen foi subitamente dominado por uma necessidade de ver para alm de todas as poses e aparncias.
Queria conhec-la. Compreender quem ela era. A calma dela vacilou por uma fraco de segundo e houve um breve tremeluzir de alguma coisa nos seus olhos escuros,
alguma coisa que ele sentiu mais do que viu. Depois o olhar dela tornou-se opaco, como se ela se tivesse retirado para trs de algum e tudo o que ele conseguia
ver era a sombra dela a observ-lo.
Muito bem, Byrne, disse Rossner, vamos ver essa informao importantssima.
Perante o som da voz de Rossner, Owen imediatamente recuperou o controle de si prprio e tirou as fotocpias do saco. Todas as pessoas na sala ficaram em silncio,
enquanto Rossner as lia. Quando terminou, entregou as folhas a Jacowitz. L isto para ns em voz alta, est bem, Paul?
Jacowitz leu as folhas, no princpio numa entoao montona, mas por fim a sua voz estava carregada de excitao reprimida. Lenore olhava para o tampo da mesa, impassvel
e imperturbvel.
Diga-me exactamente como descobriu isto, perguntou Rossner, e Owen relatou pormenorizadamente a sua investigao sobre o passado de
Bram Serian e as horas de trabalho intenso que passou a examinar as revistas antigas e mofentas na coleco de arte da biblioteca.
Isto podia ser uma boa jogada para ns. Rossner passou a mo pelo queixo bem barbeado, com ar pensativo.
Vai poder us-lo ainda hoje? perguntou Owen.
Provavelmente. Rossner debruou-se por cima da mesa para Owen, e toda a aparncia do seu comportamento despreocupado e bem disposto desapareceu. A quem mais ofereceu
isto, Owen?
A ningum. Telefonei para o seu escritrio logo que tive a certeza.
E qual  o seu preo pela exclusividade? Por nos entregar isto com a promessa de que no vai sair nos meios de comunicao social antes de ns fazermos uso dele?
Owen comeou por dizer que no tinha preo. Que ficava satisfeito por poder ajudar a descobrir a verdade. Mas depois olhou para Lenore Serian e ouviu-se a si prprio
a dizer, Gostava de ter uma pequena entrevista com a Lenore.
Todos na sala ficaram perplexos. Os olhos de Lenore levantaram-se e concentraram-se nele com um ar colrico.
Seu tratante! vociferou Volpe. Riley teve de refre-lo fisicamente para o impedir de avanar.
Rossner assumiu uma expresso pensativa e ponderadora. Isso pode arranjar-se, disse ele.
Owen apressou-se a oferecer garantias. No vai ter nada a ver com o julgamento.  que cheguei a um muro de pedra  volta do passado de Bram Serian e  bem possvel
que ela possa preencher algumas lacunas.  s sobre isso. Apenas sobre o passado de Serian.
Rossner observou-o meticulosamente. E essa informao seria apenas usada para o seu livro?
Sim. Eu assino um acordo, se o senhor quiser.
Rossner voltou-se para Lenore.  voc quem decide, disse ele. No vejo nada de mal numa pequena permuta como esta. O senhor Byrne forneceu-nos material importante...
e quem sabe... pode descobrir mais alguma coisa para ns, no  verdade, senhor Byrne?
No posso prometer nada, mas... com certeza que vou estar atento. Lenore Serian olhou para o advogado e depois para Owen. Havia tanta agitao na sua expresso,
que Owen ficou indeciso e estava disposto a retirar o seu pedido, quando de repente ela disse, Sim, eu fao isso. Era a primeira vez que ouvia a voz dela.
Owen foi imediatamente ao telefone de moedas que estava ao fundo das escadas do tribunal para fazer uma chamada para Bernadette Goodson. No podia esperar para lhe
contar que tinha conseguido arranjar uma entrevista com Lenore Serian. Ainda era cedo e o escritrio de Bernie ainda no estava aberto. Deixou uma mensagem no gravador
de chamadas e desejou poder estar l para ver a cara da Bernie e do Alex quando ouvissem a novidade.
#Parecia-lhe que a sua proposta ia parecer cem por cento melhor a DeMille se inclusse uma entrevista exclusiva com Lenore Serian.
Tinham-se espalhado rumores de que Natalie Raven, a governanta, ia estar na barra das testemunhas naquela manh e a sala de audincias estava apinhada de gente que
queria ver o espectculo. Raven era uma espcie de celebridade, que tinha aparecido num grande nmero de publicaes sensacionalistas de divulgao nacional e num
programa de televiso muito conhecido que misturava histrias de crime com histrias de donas de casa que vendiam sexo por telefone nos seus tempos livres e outros
assuntos que Owen nunca se interessara por ver.
Os reprteres estavam j todos a contar efusivamente os centmetros ou os segundos extra de exposio que Natalie Raven lhes ia fazer ganhar. Os artistas da sala
de audincias colocaram-se nos seus lugares para se dar incio  aco, prontos para desenhar esboos de Raven de todos os ngulos possveis. Os oficiais de diligncias,
o oficial de justia e o escrivo, assim como os advogados e os seus informadores todos pareciam estar sob tenso nervosa. Estava tudo pronto. Estavam todos nos
seus lugares. Mas pela primeira vez, desde que comeara o processo, o juiz Martin J. Pulaski ainda no estava sentado no lugar do juiz.
Entrou cinco minutos mais tarde, ostentando o seu brao esquerdo envolvido em gesso de um branco brilhante e anunciou que tinha tido um acidente na aula de karat.
Owen ouviu os reprteres que estavam  sua volta a rirem-se por entre dentes.
Foi chamado o nome de Natalie Raven e a sala inteira virou as cabeas para ver a mulher entrar. Era de altura e constituio mdias, com cabelo castanho aos caracis
soltos e estava vestida com uma blusa informal e uma saia de ganga. Se algum tivesse perguntado a Owen por ela, t-la-ia imaginado como uma me suburbana que ia
a caminho de uma reunio de pais e encarregados de educao na escola.
Deu-se incio aos preliminares e Brown colocou-lhe algumas questes sem importncia como introduo, para ela se sentir mais  vontade. Porm, ela parecia no precisar
disso. Desde o primeiro momento em que Natalie Raven se sentou no banco das testemunhas, parecia sentir-se perfeitamente -vontade.
Durante quanto tempo foi empregada de Bram Serian, menina Raven?
Fui para a Arcdia precisamente quase quatro anos antes do incndio.
Como  que Bram Serian a contratou?
Conhecemo-nos e ele soube que eu andava  procura de emprego e contratou-me por um perodo de tempo  experincia. Nunca mais sa.
A senhora Serian tomou parte na deciso de a contratar?
No. Antes de mim, Bram Serian tinha contratado um servio de limpezas que mandava a casa uma equipa de limpeza uma vez por semana e tinha uma mulher da localidade
mais prxima que ia cozinhar o jantar todas as noites. A Lenore gostava daquilo e no me parece que ela tivesse alguma vez considerado a hiptese de optar por alguma
coisa diferente. Mas depois a mulher que cozinhava morreu e ele no conseguiu encontrar ningum para a substituir. E tambm no gostava de ver tanta gente estranha
a entrar e a sair
de sua casa, por isso pensou que seria melhor ter s uma pessoa. Mas no me parece que tivesse discutido isso com a Lenore, porque ela no se interessava por essas
coisas, como limpar a casa e cozinhar. Apenas ficava  espera que aparecessem feitas.
Dir-se-ia que comeou com relaes pessoais pouco amistosas com a senhora Serian?
No. Eu diria antes que era uma espcie de neutralidade. Ela no se preocupava particularmente com isso.
Alguma vez lhe deu instrues ou discutiu consigo questes relacionadas com o trabalho da casa?
No.
Ento era Bram Serian que lhe distribua as suas tarefas e administrava o governo da casa?
No princpio. Mas passado algum tempo ele simplesmente confiava que eu fizesse as coisas funcionar sem que ele tivesse de se preocupar com nada.
E a menina residia na casa dos Serians, na Arcdia, a tempo inteiro, no era assim?
Sim. Tinha o meu prprio quarto e casa de banho e vivia ali como se fosse a minha casa. Era a minha casa.
As suas tarefas alargavam-se eventualmente a mais do que limpar e cozinhar?
Oh, sim. De um modo geral toda a casa estava sob a minha responsabilidade. Era eu que comprava lenis novos e toalhas, quando era necessrio e mandava fazer as
reparaes e encomendava os artigos de mercearia e encarregava-me de pagar as contas e contratava uma empregada domstica extraordinria quando precisvamos dela.
Como quando precisvamos de fazer limpezas gerais, eu chamava um servio de limpezas, ou, depois de o assistente de Bram se ter ido embora, se tnhamos trabalhos
extra para fazer l fora, eu chamava o Tommy Kubiak para ir l.
Chegou o tempo em que as suas tarefas se alargaram a servios pessoais para o seu patro ou para a esposa dele?
Com certeza. Era como se eu fosse uma espcie de me. Reparava que o Bram precisava de um boto e dizia-lhe que me desse a camisa para me encarregar de o costurar.
Ou se reparava, quando estava a estender a roupa, que ele tinha algumas meias com buracos, deitava-as fora e comprava outras. Coisas assim.
E a senhora Serian? Funcionava da mesma maneira em relao a ela?
Tentava. Mas ela era muito esquisita em relao a essas coisas e era muito difcil de satisfazer.
Owen escutava e tomava rapidamente notas do que ela dizia, enquanto Spencer Brown lentamente esboava um quadro com o testemunho de Natalie Raven. Nesse quadro,
Raven era a figura de uma me tolerante e benevolente, sem a qual o governo da casa teria sucumbido. Bram Serian era o artista distrado que estava to envolvido
pelo apelo do seu prprio gnio, que raramente se apercebia do mundo  sua volta. E a Lenore era uma cabra
egocntrica e ingrata. Bram Serian era um homem enrgico e delicado, com muitos amigos e admiradores e a Lenore era uma desajustada, sem amigos e malvola.
Raven contou como Lenore tinha s vezes um comportamento estranho. Como Lenore quase tinha uma certa fobia em sair da Arcdia. Como Lenore alternava entre exibir-se
sensualmente em frente dos convidados de Serian e ignor-los indelicadamente.
Owen tentava manter-se concentrado no que diziam, mas havia qualquer coisa na sua conversa que o incomodava. Ps-se a observar Raven e a seguir Brown. Estavam demasiado
familiarizados. Raven sabia como decifrar as perguntas complicadas de Brown sem precisar mais do que uma pequena pausa para pensar, e Brown sabia exactamente o que
perguntar para a conduzir na direco mais conveniente. Sentiam-se to -vontade um com o outro como se fossem um casal, sendo agradveis um para o outro e lisonjeando-se
um ao outro, confiando um no outro, dando deixas e aceitando deixas como parceiros numa dana bem ensaiada. At as variaes emocionais pareciam programadas.
Owen inclinou-se para a Holly.  permitido ensaiarem antes do julgamento? sussurrou ele.
Holly franziu as sobrancelhas de aborrecimento, por ter sido interrompida. Manteve os olhos atentos enquanto sussurrava a resposta, Esta  a sua testemunha principal.
Provavelmente ensaiaram muito.  normal Owen.
Chegou e passou do meio-dia, sem que o Juiz Pulaski declarasse a suspenso para o almoo, mas ningum parecia importar-se. Brown estava a fazer as perguntas por
que toda a gente esperava.
Do seu ponto de vista, como elemento a tempo inteiro da manuteno da casa, como descreveria o comportamento de Bram e Lenore Serian nas relaes entre eles?
A Lenore era sempre muito fria e distante. s vezes ficava amuada ou zangada e tinha acessos de fria... dizia coisas mesmo odiosas e desagradveis. E o Bram...
tinha com ela uma pacincia de Job. Era sempre muito afvel e... bem, era empenhado no seu trabalho artstico, por isso no passava muito tempo s a andar por ali,
mas quando estava em casa ia sempre ter com ela, ver como estava, ver o que estava a fazer... esse gnero de coisas.
Alguma vez aconteceu Bram Serian ter uma conversa consigo sobre a possibilidade de se divorciar da esposa?
Sim. Cerca de cinco meses antes do incndio, disse-me que tinha comeado a pensar em divorciar-se. Porm, disse que estava muito preocupado em abordar essa questo
com a Lenore, porque lhe parecia que ela no ia conseguir aceitar isso e achava que ela no era capaz de cuidar de si prpria sem ele.
E qual foi a sua reaco?
Eu disse-lhe que ele devia fazer o que achava certo e que a Lenore era uma mulher bonita e no me parecia que tivesse qualquer problema em adaptar-se  vida.
Depois disso Bram Serian revelou-lhe que alguma vez tivesse discutido a questo do divrcio com a sua mulher?
No foi exactamente discutir abertamente. Primeiro disse que tinha abordado o assunto da separao para ver como ela reagia. Depois, mais tarde, disse que tinha
decidido falar com ela sobre o divrcio.
Assistiu a algumas das reaces de Lenore Serian  proposta da possibilidade de separao ou divrcio por parte do marido?
Sim. Por duas vezes em diferentes ocasies.
Podia, por favor, contar-nos quando aconteceu isso e o que testemunhou?
A primeira vez foi cerca de dois meses antes do incndio. Estavam numa acesa discusso e ele disse, Tu s queres  esgotar-me, e ela disse Eu quero tudo, e ele
disse No te dei j o suficiente? Se no fosse eu, provavelmente estarias morta, e ela disse, Talvez tivesse preferido a morte, e ele disse, No te compreendo...
foi um erro termo-nos juntado
Podia, por favor, contar-nos como foi da segunda vez?
A segunda vez foi na noite do incndio. Precisamente quando o Bram ia entrar para o estdio para ir dormir. No estavam a gritar nem nada, mas as suas vozes estavam
cheias de dio... quase como se estivessem para alm da gritaria. Ela disse, Como podes fazer isso a uma pessoa que passou tantos anos contigo... Foi tudo uma mentira?
Ele disse,  assim que tem de ser, e ela disse, Estou a avisar-te, no vou permitir que faas isso, e ele disse, No podes impedir-me.
Natalie Raven pegou num leno para limpar os olhos. Essa foi a ltima vez que ouvi a voz do Bram. A seguir entrou para o estdio e... A mulher apontou para Lenore.
Ela matou-o.
Protesto, Meritssimo! gritou Rossner com indignao.
Deferido. Eliminar essa ltima frase do registo. O juiz tirou os culos e colocou-os ao lado. Dr. Brown, ser correcto presumir que ainda tem fundamentos para continuar
a interrogar esta testemunha?
Sim, Meritssimo, essa pode ser uma suposio correcta.
Nesse caso acho que devemos deixar esta boa gente ir tomar o almoo. O jri est dispensado at s duas horas.
Owen observou Natalie Raven enquanto saa da sala de audincias e viu que Lenore tambm estava a observ-la. S depois de Raven ter sado  que Volpe e Riley conduziram
Lenore para a sada. Isto  que  bom material, heim? disse a Holly, passando uma vista de olhos pelas suas notas enquanto se dirigiam para a sada.
E vai haver mais, lembrou-lhe Pat.
Logo que chegaram ao trio da entrada, o Ray anunciou que era dia de pizza e como estavam todos cheios de fome, deviam encontrar-se na pequena tasca italiana ao
fundo da Rua Principal.
Tambm vem, no vem, Owen? perguntou a Pat.
Hoje no. Tenho de fazer uns telefonemas e depois tenho de ir ver uma coisa  biblioteca local.
Bem, ento diverte-te, disse a Pat.
Depois trazemos-te uma fatia, gritou a Holly enquanto se afastava.
Owen foi para a cabine telefnica e tentou ligar novamente para o escritrio da Bernie. A recepcionista disse-lhe que a Bernie tinha sado para o almoo, por isso
perguntou pelo Alex.
Owen! disse o Alex logo que pegou no telefone. Recebemos a sua mensagem esta manh. Seu espertalho! Como conseguiu uma entrevista com a Viva Negra em pessoa?
Foi apenas sorte, Alex. Basicamente, encontrei uma coisa que ajudou o seu advogado e pode-se dizer que isto foi a minha recompensa.
Alex riu-se. Devia ter visto a Bernie. Ficou louca quando ouviu.
Ento ela acha que  importante?
Est a brincar!
Nesse caso no entrego a minha proposta amanh, est bem? Vou adi-la para outro dia, para poder incluir alguma coisa da entrevista. Acha que est bem?
Tenho a certeza que sim. Como pode DeMille reclamar? Alex riu-se. At mesmo Arlene Blunt vai ficar entusiasmada com isto.
Falaram durante alguns minutos, principalmente sobre o testemunho de Natalie Raven, que o Alex queria ouvir pormenorizadamente.
Oh, eu devia ter ido l consigo hoje, disse o Alex. A Bernie disse-me que eu devia admitir ser um voyeur e ir.
Pode vir amanh, disse-lhe Owen. Raven pode estar ainda na barra das testemunhas e a seguir est previsto que seja Edie Norton. Tenho a certeza de que ela tambm
vai ser interessante.
Alex hesitou. No. No posso. Isso seria demasiado frvolo e mau da minha parte, quando tenho aqui tanto trabalho amontoado. Deu um suspiro. Lembre-se, porm...
se eu puder ajudar de alguma maneira...  s dizer. E o meu colega de quarto, o Cliff, j voltou. Ele  fantico por computadores... portanto, se precisar que seja
verificado algum facto ou outra coisa qualquer, no hesite em telefonar. Eu farei com que ele lhe faa um preo de pechincha.
Owen agradeceu-lhe e desligou. O colega de quarto do Alex, que ora aparecia ora desaparecia, era um pirata informtico que fazia trabalho de pesquisa por conta prpria
durante o dia e era empregado de bar  noite. A ideia intrigou Owen. Tinha lido coisas sobre pessoas que faziam magias com os computadores e perguntava-se se Cliff
se incluiria nessa categoria. Tambm estava intrigado com o arranjo do Alex com o Cliff. O Alex parecia extremamente ligado ao seu colega de quarto. Era possvel
conhecer um homem homossexual sem ser capaz de dizer que era homossexual? Sempre imaginara que os homossexuais fossem diferentes das pessoas normais, mas talvez
isso no fosse de modo algum verdade.
Comeou a telefonar para nomes que tinha na sua lista telefnica, tentando encontrar mais pessoas que estivessem dispostas a falar sobre Bram Serian, para as entrevistar.
Todas as chamadas terminaram num beco. Quando terminou eram quase duas horas, por isso saiu da biblioteca e comprou ao vendedor de sanduches uma especial embrulhada
em plstico.
No dia seguinte ia falar com Lenore Serian. A perspectiva daquela entrevista provocou-lhe palpitaes na barriga, como os nervosismos antes dos jogos de basquetebol
na escola secundria. No dia seguinte ia de facto sentar-se frente a frente com ela. Ela ia saber quem ele era. Ele nunca mais seria para ela um rosto annimo sentado
na sala de audincias. Deitou fora a sanduche sem lhe tocar e subiu as escadas.
Quando Natalie Raven voltou a sentar-se no banco das testemunhas, Brown levou-a de novo a dar uma perspectiva desconexa da casa dos Serians, salientando o esplendor
e a benevolncia de Bram Serian, enquanto descrevia Lenore como insocivel, mimada e possessiva. Depois conduziu-a numa discusso sobre a compra do candeeiro a petrleo
e sobre o facto de Serian ter medo do fogo.
Lenore Serian ia muitas vezes consigo quando voc ia  cidade fazer recados?
No. No muitas vezes. Ela raramente saa da Arcdia.
Ela oferecia-se para ir s lojas ou para fazer algumas das compras?
Raramente. Fiquei surpreendida quando ela me pediu para ir comigo. E ainda mais surpreendida quando me pediu a minha lista para a loja de ferragens Fugates Hardware.
Ela foi sozinha  Fugates Hardware?
Sim.
E voc teve alguma oportunidade de ver tudo o que ela comprou?
No. Na altura em que voltei para o carro era uma carrinha George Fugate j tinha empacotado e colocado tudo na mala da carrinha e tudo o que consegui ver foi a
caixa de frascos de vidro para a preparao de conservas, que estavam no cimo e a mangueira para o jardim.
Frascos para conservas?
Sim. Tnhamos amoras silvestres l na quinta e eu ia fazer geleia.
E essa caixa de frascos para conservas era suficientemente grande para impedir que se visse tudo o que estava por baixo dela?
Havia tambm outras caixas de frascos de vidro e outras coisas como uma mangueira para o jardim e ainda outras coisas e estavam todas amontoadas de tal maneira que
escondiam o que estava por baixo.
Quando conheceu a natureza dos objectos escondidos naquele dia?
Quando chegmos a casa e descarregmos o carro. O Tommy estava no ptio Tommy Kubiak, o jovem adolescente que fazia trabalhos ocasionais l na quinta e ele apareceu
e descarregou os frascos de vidro para as conservas e algumas outras coisas e vi uma caixa com uma gravura de um candeeiro de vidro transparente a petrleo e depois
vi dois frascos grandes de petrleo colorido para candeeiros.
E o que fez?
Perguntei  Lenore por que motivo os tinha comprado, quando tnhamos l em casa vrias lanternas de segurana em metal.
Ela disse que tinha comprado o candeeiro para o estdio do Bram. E depois eu disse ao Tommy que o deixasse no carro, porque amos ter de o devolver e disse  Lenore
que o Bram nunca usaria um candeeiro como aquele no seu estdio.
Ento o que aconteceu ao candeeiro?
No sei. Supus que o Tommy o tivesse devolvido, porque eu disse-lhe que fizesse isso. Estava na hora do almoo e eu no queria que o Bram tivesse de esperar pelo
almoo e por isso fui para dentro cozinhar. A ltima vez que vi o candeeiro e o petrleo, estavam ainda na mala do carro.
Posteriormente disse alguma coisa a Bram Serian a respeito do candeeiro?
No. No queria levantar problemas entre ele e a Lenore.
Alguma vez viu aquele candeeiro a petrleo em casa ou soube onde estava?
No, no vi. E eu era a pessoa que mais via todas as coisas. Quero dizer, era eu que ia aos armrios e a todo o lado.
Com a excepo do quarto de Lenore Serian, no  verdade?
Sim. Excepto o quarto de Lenore Serian, onde qualquer coisa podia ter estado escondida sem eu saber.
Vamos voltar um pouco atrs para falarmos sobre Bram Serian. Alguma vez teve ocasio de conversar com Bram Serian sobre o medo que ele tinha do fogo no seu estdio?
No diria que alguma vez tivesse tido uma grande conversa. Foi mais como uma srie de referncias. Pouco depois de eu me ter mudado para a Arcdia, houve uma grande
tempestade e eu quis dar-lhe velas e ele disse que no, que no queria velas e eu insisti um pouco... sabe... tentei convenc-lo a levar as velas, porque no compreendia
por que razo ele insistia que no e ele disse que no queria velas perto do seu trabalho. Disse-o com ar zangado, como se fosse um assunto melindroso. Ento perguntei-lhe
o que se passava e ele disse que no queria nada que deitasse chamas  volta do seu trabalho.
Depois, doutra vez, ele deixou-me olhar para dentro do seu estdio s para me mostrar como era e apontou para o fogo de aquecimento, de que tanto se orgulhava e
disse-me que tinha todas as vantagens de um fogo a lenha, sem ter nenhum dos perigos nem inconvenientes. E eu estava a ser maliciosa... a meter-me um pouco com
ele... e disse-lhe que muitos incndios eram provocados por curtos-circuitos elctricos. E ele ficou muito preocupado com isso e mandou vir um electricista naquela
tarde para verificar toda a instalao elctrica do estdio.
Houve mais alguma coisa relativamente ao fogo que viesse  baila nas suas conversas com Bram Serian?
Sim, houve. H cerca de dois anos ele entrou uma manh para tomar o pequeno almoo e sentou-se comigo; a Lenore estava no seu quarto e recusou-se a tomar o pequeno
almoo connosco, portanto estvamos sozinhos e ele disse que tinha tido um sonho mau sobre o fogo. E descreveu-me como O fogo lhe tinha aparecido de todos os lados
e como ele ficou impossibilitado de resolver aquele problema. Disse que foi um dos pesadelos mais horrveis
#que j tinha tido. Ento a modos que se deixou ir abaixo e contou-me tudo sobre como sempre se assustara de morte com o fogo e como sempre se sentia embaraado
em falar com algum sobre isso.
Era isso. A perspectiva do fogo. Owen ficou muito quietinho, mas por dentro estava aos saltos com o seu conhecimento secreto, e percebeu que Rossner devia estar
a sentir a mesma agitao, s que muito mais intensamente. Imaginou como devia sentir-se sentado quela mesa da defesa, a observar Brown com uma testemunha, catalogando
todas as fraquezas e vibrando por cada fiasco, cada possvel vantagem que aparecia. Pronto para a luta.
Agora vamos voltar a nossa ateno para a noite do dia seis de Agosto e a manh do dia sete de Agosto. Antes de mais nada, podia descrever-nos a festa que o Serian
tinha organizado e o propsito dessa festa?
O Bram fazia muitas vezes festas aos fins de semana. No eram propriamente festas da maneira como toda a gente pensa ao ouvir essa palavra. O que era, era que o
Bram no via os amigos com muita frequncia, por viver to afastado na Arcdia, por isso simplesmente trazia os amigos para junto dele. Era uma maneira de poder
conviver e ajudar os jovens artistas, dandolhes comida e cama grtis por alguns dias e proporcionando-lhes a oportunidade de conviverem com outros artistas mais
consagrados. Era tambm uma maneira de envolver outros artistas na construo da sua casa que j estava em marcha.
Brown sorriu com uma expresso de encorajamento. Ento o que est a dizer  que aquelas festas no eram o gnero de festas em que as pessoas andam de copo na mo?
No. As pessoas iam para todo o lado e faziam todo o tipo de coisas. Uns iam  pesca, outros iam nadar ou andar de barco, depois do trabalho de carpintaria, e alm
disso as refeies eram cozinhadas ao ar livre... faziam-se churrascos.
Quer dizer que aquilo no era um evento do tipo bacanal dissoluto em que toda a gente perdia a cabea?
Natalie Raven riu-se para mostrar como aquilo era ridculo, antes de responder, No.
Como costumava comportar-se Bram Serian a beber nessas festas?
Durante as horas de calor do dia bebia alguma cerveja. Depois ao jantar bebia cerveja ou vinho. Nas noites quentes gostava de ter toda a gente ao ar livre a falar
sobre arte ou simplesmente a conviver e nessa altura bebia com os amigos. Mas no at ao ponto de se embebedar. Bram Serian era um homem forte e conseguia aguentar
as bebidas alcolicas.
Ele estava bbado quando foi para o estdio na manh do dia sete de Agosto?
Certamente que no.
Onde estava a senhora quando presenciou a briga entre Bram e Lenore Serian subsequente  ida dele para o estdio?
Eu tinha ido para cima e estava na minha cama quando me pareceu ouvir as suas vozes atravs da janela. Durmo com a janela aberta no vero. Por isso levantei-me e
fui  janela para ver o que se passava.
E tinha uma vista clara deles?
Sim.
E conseguia ouvi-los bem?
Sim. O ptio estava muito sossegado na zona entre a casa e o estdio. E eu conseguia ouvi-los perfeitamente.
Descreva-nos o que aconteceu depois da briga entre eles.
Ele foi para o estdio e abriu a porta e voltou a pr o porta-chaves no bolso, depois foi para dentro e fechou violentamente a porta. A Lenore ficou ali no ptio
a olhar para a porta durante alguns minutos; depois voltou para dentro de casa.
Viu o que ela esteve a fazer dentro de casa?
No.  uma casa muito grande.
E havia luz suficiente l fora para ver tudo aquilo distintamente?
Sim. H luzes instaladas nas rvores por toda aquela zona.
Quando voltou a ver Bram Serian ou a Lenore?
Mais tarde, s quatro horas e vinte minutos, fui acordada por qualquer coisa. Nem sei bem o que foi, mas como durmo com a janela aberta no vero, at podia ter sido
o cheiro a fumo. Corri para o corredor onde havia uma janela que dava para o estdio e vi fumo a sair de l e algumas chamas, e vi a Lenore no ptio que ficava em
frente da porta do estdio, a olhar.
A olhar?
Sim. Simplesmente ali de p, muito quietinha e a ver o fogo a alastrar.
O que fez ento?
Gritei-lhe. J no sei exactamente o que lhe disse, mas deve ter sido qualquer coisa como, Onde est o Bram, ou O Bram est a, e foi ento que ela pediu socorro.
E o que fez a seguir?
A casa tem um sistema de segurana complexo e uma das caractersticas  um boto de pnico que liga um alarme muito alto, por isso carreguei nele para acordar as
pessoas para irem em socorro e a seguir telefonei para os bombeiros.
Continue... por favor...
Desci as escadas a correr e agarrei a Lenore pelos ombros, abanei-a e perguntei-lhe se o Bram estava l dentro e ela acenou que sim com a cabea, por isso tentei
entrar no estdio pela porta, mas era impossvel. Havia muito fogo e muito fumo.
Quando fez essa tentativa para entrar, a porta do estdio estava aberta ou fechada?
Estava aberta.
Reparou nisso na altura ou desconfiou de alguma coisa naquele momento?
Sim, achei que era estranho porque o Bram era mesmo paranico em relao  porta do estdio. Ele nunca a deixava aberta, e eu tinha-o visto antes a fech-la.
Owen pensou que Brown podia ter terminado ento, mas em vez disso fez com que o testemunho de Natalie Raven se prolongasse por mais quarenta
minutos, pedindo-lhe para relatar pormenorizadamente a chegada dos bombeiros e da polcia do seu ponto de vista um exerccio que no parecia trazer nada de novo.
Mas a sua descrio de ter rolado na lama com Lenore e de terem sido postas fora foi muito eficaz e muito prejudicial para Lenore.
Quando terminou o interrogatrio de Natalie Raven, o Juiz Pulaski declarou uma suspenso dos trabalhos por quinze minutos. A maior parte dos espectadores no se
mexeu, com receio de perder o lugar, mas os reprteres saram todos para o trio. Owen saiu com eles e ficou encostado  parede. O pessoal da rdio estava aos microfones
ao canto e todos os outros estavam a dissecar avidamente o sentido de tudo aquilo a que tinham assistido, especulando sobre as estratgias da acusao e a antecipar
o contra-interrogatrio de Rossner.
Owen sentia-se muito desligado, agora que tinha tido o encontro secreto com Rossner. Observava-os a todos com a mesma anlise distanciada como observava uma testemunha
no banco das testemunhas. E pensava se anteriormente tinha estado cego  mesquinhice e  ostentao da ignorncia, agora que estava apenas a observ-los a todos
com uma atitude mais pessimista.
 pena que Nova Iorque no tenha pena de morte, ouviu a Holly dizer, enquanto entravam pelas portas duplas.
Rossner encostou-se como que por acaso ao pdio. Estava a exagerar o seu papel de desorientado, ao ponto de quase parecer ter um esprito obtuso quando fez Natalie
Raven voltar aos acontecimentos da noite do incndio. O testemunho dela no se alterou. De facto, quando Owen foi ver atrs as suas notas, verificou que a sua linguagem
era idntica e que a maior parte das coisas que disse tinham de ter sido memorizadas. O que no queria dizer que estivesse a mentir. Ele sabia isso. O incndio tinha
acontecido h mais de seis meses e tinham colocado as mesmas questes  mulher repetidas vezes e ela tinha repetido vrias vezes as respostas. Talvez isso fizesse
com que parecesse ensaiado.
Rossner coou a cabea e mordeu o canto do lbio por instantes. Owen tinha quase a certeza de que este era o ponto de viragem e que Rossner estava pronto para atirar
algumas flechas contra a governanta cheia de virtude.
Portanto, deixe-me ver se estou a perceber... Bram Serian contratou-a sozinho, sem que a esposa a conhecesse.
Sim. Ele era muito bom em coisas assim. Muito bom a tomar conta e a mandar fazer as coisas.
E a senhora vivia em permanncia em casa dos Serians, e Bram Serian deu-lhe autoridade para planear as refeies e de uma maneira geral dirigir a casa.,
Sim.
E tomava com frequncia o pequeno almoo sozinha com Bram Serian.
Sim. Porque ela estava amuada e recusava-se a descer.
E verificava com frequncia as gavetas da cmoda de Serian e fazia a
Sim.
Por que foi impedida de entrar no quarto da Lenore?
Oh... Natalie Raven deu um suspiro e encolheu os ombros. Ela simplesmente teve um dia um acesso de mau humor e gritou-me que no entrasse no seu quarto.
A senhora tinha estado no quarto dela? Foi isso que a perturbou?
Eu tinha estado a tentar desempenhar as minhas funes na casa.
E isso inclua verificar as gavetas da cmoda da Lenore tal como verificava as do seu marido?
No me recordo do que estava a fazer ao certo.
Mas era possvel que estivesse a abrir as gavetas dela?
Podia estar a arrumar o quarto, o que podia incluir arrumar a cmoda. Rossner afastou-se da testemunha por alguns segundos, depois voltou atrs e abanou a cabea
com ar enigmtico. Alguma vez lhe ocorreu, menina Raven, que a Lenore podia ficar de algum modo aborrecida e mal disposta quando voc andava por ali, porque... sem
a sua concordncia... o seu marido resolveu levar uma mulher estranha a viver na sua casa, deu a essa mulher o controle total da casa, incluindo o livre acesso ao
seu espao pessoal? Alguma vez lhe ocorreu que no era uma relao normal entre empregador e empregada o facto de Bram Serian tomar frequentemente o pequeno almoo
sozinho consigo e ter conversas ntimas consigo e revelar-lhe os seus pesadelos e medos e que a Lenore podia ficar aborrecida com isso?
O senhor est a retorcer as coisas!
Estou? Estava apenas a repetir o que a senhora nos contou hoje. E pergunto-lhe, menina Raven, se Bram Serian fosse o seu marido, no teria ficado^ um pouco desorientada?
No sei.
Mas Bram Serian no era seu marido, pois no?
Isso devia ser bvio.
Sim, devia ser, mas seria? Era bvio para si quando estava a viver sob o tecto dele e a partilhar com ele a mesa ao pequeno almoo e a ouvir os seus pensamentos
ntimos?
No sei onde pretende chegar.
Por que no consegue imaginar a situao, o facto de no haver ningum a espreitar e a escutar s portas as suas conversas com o Serian da mesma maneira que a senhora
se movimentava silenciosamente pela casa dos Serians a espreitar o Bram e a Lenore?
Natalie Raven ficou to corada que mais parecia uma personagem de desenhos animados.
Como se atreve a fazer insinuaes dessa maneira, quando tem uma homicida como cliente!
U juiz deu vrias pancadas com o martelo. Tenho de adverti-la, menina Raven, que no admito exploses dessa natureza.
Ela murmurou um pedido de desculpa e disps os ombros e a boca numa atitude de grande indignao.
Rossner consultou as suas notas, deixando-a em silncio, entregue s 
consequncias dos seus actos; depois levantou os olhos e disse muito calmamente, No  verdade que a senhora esteve grvida de Bram Serian e tinha feito um aborto
trs meses antes...
Protesto! gritou Spencer Brown. Isto  excessivo, Meritssimo! Isto ...
Aproximem-se ambos os advogados! ordenou o juiz rispidamente, e ambos se aproximaram e tiveram uma intensa confrontao em surdina. Quando terminou, Rossner e Brown
afastaram-se em passos largos e o juiz declarou, Deferido quanto  forma. Dr. Rossner, tem de apresentar uma justificao fundamentada se pretende continuar esta
linha de interrogatrio.
Mas o mal estava feito. Owen conseguiu vislumbrar a dvida nos olhos dos jurados.
Rossner levou alguns segundos a rever as suas notas, dando ao jri mais tempo para digerir as implicaes, depois disse, Menina Raven...
Espere um minuto. No me  dada a oportunidade de me defender? gritou ela.
Menina Raven, disse o juiz calmamente, por favor, limite-se a responder s perguntas.
Ela fez uma vnia e Rossner continuou. Quando ouviu por acaso essas discusses, que a senhora julgava estarem relacionadas com o divrcio, aconteceu ouvir todas
as palavras que foram ditas?
No, respondeu ela delicadamente.
 possvel que... uma vez que no ouviu tudo... que tivesse feito alguma confuso e que as discusses fossem sobre uma coisa completamente diferente?
No me parece.
Mas  possvel?
Eu diria que o assunto era o divrcio, insistiu ela, mas faltou convico na sua voz.
 possvel que Bram Serian no lhe dissesse tudo o que estava a pensar ou a fazer ou a planear fazer?
Sim.
 possvel que Bram Serian se abstivesse de lhe contar certas coisas?
Sim.
 possvel que ele pudesse at t-la s vezes induzido em erro?
Duvido, mas sim,  possvel.
 possvel que Bram Serian nunca tivesse discutido de maneira nenhuma a questo do divrcio com a sua mulher?
A testemunha soltou um suspiro. Eu no...
 possvel? insistiu Rossner.
Vagamente.
Rossner fez uma pausa. Muito bem, vamos voltar ao tempo em que se encontrou com Bram Serian. Onde o conheceu?
Natalie Raven mudou de posio na cadeira, como se de repente tivesse sentido alguma coisa a picar por baixo dela. Conhecemo-nos em Manhattan.
Mas Manhattan  um lugar muito grande... concretamente, onde se conheceram?
No me recordo.
Permita-me ento que a ajude a refrescar a sua memria. Onde vivia quando conheceu Bram Serian?
No me recordo.
Donde se mudou, quando foi viver para a Arcdia? No me lembro.
No se lembra de onde vivia h quatro anos e meio?
A testemunha dardejou um olhar pelo canto do olho por toda a sala de audincias. Brown e Dapolito estavam sentados muito direitos s suas mesas, tentando no parecer
preocupados. Owen tinha a certeza de que eles no sabiam qual era a inteno de Rossner.
Estava a viver com umas amigas em Chelsea, respondeu ela finalmente.
A parte de Chelsea em Manhattan?
Sim.
Lembra-se dos nomes dessas amigas?
Com certeza. Eram a Sandy, a Doreen, a Cindy... havia muitas raparigas a partilhar a casa connosco e, de certa maneira, ora vivamos l ora saamos.
E como pagava a sua parte da renda?
O qu?
O que fazia para se sustentar?
Natalie Raven ficou como se desejasse levantar-se e fugir a todo o momento.
Eu estava... sabe... fazia ora uma coisa ora outra. Meio empregada, mais ou menos.
Era tudo perfeitamente legal, correcto... tinha carto da segurana social e pagava imposto sobre o rendimento pessoal e tudo isso?
Oh... sim... com certeza...
Mas, e se eu lhe dissesse que no existe nenhum registo com o nome de Natalie Raven?
Ela olhou para o juiz. Olhou para Brown e Dapolito.
Espere um minuto, disse Rossner de repente. Deve ser porque no usava o nome de Natalie Raven naquela altura, no  verdade?
Exactamente! apressou-se ela a concordar.
Os ombros de Brown descaram alguns centmetros.
Estava a usar o seu nome verdadeiro naquela altura?
Sim.
E qual era o seu nome? Rossner baixou os olhos para um carto, como se tivesse o nome ali escrito.
Norma Bretcher.
 a mesma Norma Bretcher que foi presa por prostituio e posse de...
Protesto! Brown levantou-se indignado num salto. Podemos aproximar-nos, Meritssimo?
#Foi o princpio de uma conferncia privada que durou trinta minutos. Owen foi l abaixo  mquina de caf.  sua volta estavam vrios reprteres a lutar pelas cabines
telefnicas, para telefonar aos seus editores ou produtores a comunicar que tinham notcias bombsticas para o noticirio da noite.
Aconteceu que a Marilyn ia ao lado de Owen, quando voltaram a subir as escadas. Bem, disse ela, j no esto a adormecer nas ltimas filas, pois no?
No, concordou ele. E a Holly vai ter de fazer alguma ginstica mental para se recusar a admitir que agora h espao para a dvida.
A Marilyn riu-se. A Holly era capaz de dar um bom juiz daqueles que condenam muitos criminosos  fora. Oops, aqui vem ela.
Consegue acreditar nisto? perguntou a Holly. O Rossner est a retorcer tudo de tal maneira que toda a gente parece ser culpada! Quem  que se importa se a Natalie
ou a Norma ou quem quer que seja no veio de um convento? Isso no faz com que Lenore Serian esteja inocente! S quer dizer que Bram Serian tinha uma atitude liberal
relativamente s pessoas que contratava.
A Marilyn dardejou um sorriso com os olhos a Owen, enquanto voltavam rapidamente para dentro.
A agitao na sala era evidente quando os jurados voltaram a entrar em fila. Owen observou cuidadosamente a multido. Ningum fazia um som. Os olhos cintilavam e
as respiraes eram pouco profundas e breves. Queriam que Lenore Serian fosse culpada e por isso deviam estar a torcer pela governanta, mas o cheiro de sangue era
demasiado estonteante. Estavam ansiosos por ver Rossner a desmont-la. Owen no pde evitar sentir pena dela.
Primeiro Rossner perseguiu-a na questo do candeeiro, tentando ridicularizar todas as implicaes sinistras da mulher, no que dizia respeito  compra do candeeiro
e da embalagem do candeeiro na carrinha. Depois atacou-a pelo que tinha dito sobre o fogo, usando o artigo que Owen lhe tinha fornecido para levantar quaisquer dvidas
quanto ao alegado medo do fogo e salientando o facto de apenas ela ter ouvido as afirmaes expressas por Serian sobre o fogo no estdio. Depois tentou lev-la a
admitir que Serian tinha novamente comeado a fumar. A seguir comeou a falar nos acontecimentos que precederam o incndio.
Rossner parou e puxou as orelhas. Espere um minuto... Estou confuso. A senhora disse que subiu para ir para a cama, no quarto onde sempre dormia com a janela aberta
no vero?
Sim.
E no pde evitar ouvir e assistir  discusso no ptio entre o Bram e a Lenore?
Sim.
E ento viu o Bram a dirigir-se para o estdio, abrir a porta e entrar, batendo a porta com fora atrs dele?
Sim.
E depois? Voltou para a cama?
Sim. Eu j estava na cama quando ouvi a briga pela primeira vez e
levantei-me para ir ver. Por isso, quando acabou, voltei para a cama.
Rossner fez uma pausa para coar a cabea e fazer expresses de perplexidade. Depois, mais tarde, foi acordada pelo cheiro do fumo?
Acho que foi o que me acordou. No tenho a certeza. Quando acordei, sabia de certeza que havia fumo algures.
E soube imediatamente que o fumo no era em casa?
Sim. Como j disse antes, a casa tem um sistema de segurana muito bom, que inclui detectores de fogo e de fumo por todo o lado, e nenhum deles tinha disparado,
por isso parece-me que soube instintivamente que o fogo era l fora.
Portanto correu para...?
Corri para o corredor e fui a uma janela onde podia ver Natalie parou e os seus olhos aumentaram ao compreender subitamente.
Continue, insistiu Rossner. Como ela no respondesse, ele disse,
Est bem, eu j a ouvi antes. Folheou as pginas de um bloco oficial amarelo.
A senhora disse, Corri para o corredor, onde havia uma janela que dava para o estdio e vi o fumo a sair do estdio e algumas chamas, e vi a Lenore de p no ptio
em frente da porta do estdio a olhar. Parece-lhe que est certo?
Sim, confessou numa voz fraca.
Mas se da janela do seu quarto se via o ptio e o estdio, o que lhe permitiu assistir  discusso e ver o Bram a abrir a porta com a sua chave que trazia no seu
porta-chaves, por que teve de correr para a janela do corredor para ver se o estdio estava em chamas?
Eu... no sei... estava ensonada. Tinha acabado de sair da cama. Acho que no estava a pensar com muita clareza.
 compreensvel. Rossner acenou com a cabea compreensivamente.
Mas como , ento? Conseguia ver o ptio e o estdio da janela do seu quarto ou tinha de ir para outra parte da casa para ver?
Eu...
Naquele momento Jacowitz entregou-lhe um diagrama do tamanho de um pster, que mostrava uma planta da casa e uma planta do estdio, que foi apresentado como prova.
Pode pegar neste ponteiro e indicar-me a localizao do seu quarto na casa? perguntou Rossner  testemunha.
Com alguma hesitao, ela apontou para uma zona que no podia ter uma boa viso do ptio e do estdio.
Rossner examinou o desenho com um franzir de sobrancelhas, de perplexidade. Mas ento da sua janela no podia ter... Talvez o que aconteceu antes... quando ouviu
a discusso e se levantou... saiu da cama...
Sim. Eu estava na cama quando os ouvi.
Talvez estivesse ensonada e desorientada.
Sim. Sim.
E saiu e foi para a outra janela no corredor sem sequer se aperceber?
Sim. Sim. Foi o que aconteceu.
E ento nesse estado... to ensonada e desorientada que no sabia se estava no corredor ou ainda na janela do seu quarto... assistiu  discusso?
Sim.
No entanto, mesmo sem saber em que janela estava, gravou na memria, palavra por palavra, a discusso entre Bram e Lenore Serian?
Bem, nessa altura j estava acordada.
E viu-o pr a chave na fechadura?
Sim.
Mas o estdio no tinha um beiral de proteco que tornaria quase impossvel ver a fechadura, quando estava a olhar de cima?
Bem, era... eu vi-o abrir a porta, por isso talvez estivesse na janela do piso de baixo.
Quer dizer que estava to desorientada, que talvez no tivesse ido para o corredor, mas descido as escadas a correr sem se aperceber? perguntou Rossner com ar incrdulo.
Sim.
Talvez... disse Rossner em voz ameaadora. Talvez estivesse to desorientada que talvez tenha sido a senhora que foi ao estdio e matou Bram Serian naquela manh!
Meritssimo! gritou Spencer Brown. Owen observou a expresso da cara de Charles Rossner. Rossner no se importou que tivesse sido retirado do registo. Tinha pontuado
muito alto e o jri no ia esquecer-se.
10
Owen no dormiu bem na noite de quarta-feira. Preparou as questes a colocar a Lenore Serian, preocupando-se com o que lhe podia perguntar com segurana. Pensando
at onde podia ir. Como iria ela responder. Quando adormeceu, sonhou que havia uma chave escondida algures e que se ele encontrasse aquela chave poderia desvendar
todos os segredos dela. Passou horas  procura da chave, lutando e correndo, atormentado com a busca daquela chave. Acordou antes de amanhecer, cheio de suor e com
os lenis enrolados  sua volta. Ento ficou ali deitado  espera que tocasse o despertador, a observar o movimento dos ponteiros do relgio e a ver a luz do dia
a clarear. Num outro lugar tambm Lenore Serian estava deitada na cama. Tambm sozinha. Que sonhos teria ela? Que torturas lhe traria a escurido em cada noite?
Quando chegou ao Hotel Greystone para a entrevista com ela, estava extremamente nervoso. Desta vez o cumprimento de Volpe foi ligeiramente menos hostil, e Riley
foi seguramente amistoso. Dentro da suite havia uma atmosfera de descontraco. Estavam todos com os colarinhos desabotoados, os ps apoiados nas mesas e chvenas
meias de caf. Jacowitz estava a rir-se do colapso da testemunha principal de Spencer Brown, e Owen associou-se na risada, sentindo-se como se tivesse passado num
teste e tivesse sido considerado digno de confiana.
Caf? perguntou Jacowitz. Ou talvez gua com gs? Mesmo em estado de desalinho, com o n da gravata desapertado, Paul Jacowitz era a imagem da conformidade. Se fosse
velho e branco, em vez de novo e negro, talvez as pessoas o considerassem esmerado. Owen perguntou-se que espcie de distinta educao  moda antiga tinha produzido
um jovem com aquela excelncia.
Pode ser caf, respondeu Owen, aps o que Rossner lhe deu uma palmada nas costas e disse, A Lenore est  sua espera, por isso  melhor ir andando. Deu-lhe mais
uma palmada e depois disse, O Paul vai estar presente durante a entrevista.
Owen concluiu que afinal talvez no confiassem assim tanto nele. Jacowitz deu-lhe o caf e a seguir conduziu-o por uma das portas laterais
#para um quarto mais pequeno. Este estava todo decorado em tons beges e castanhos, com o indispensvel conjunto do hotel constitudo por duas camas, uma cmoda,
uma mesa e duas clssicas cadeiras de braos, uma em frente da outra, junto da janela. Lenore estava sentada numa das cadeiras. Uma cadeira arredondada e estofada
em que uma pessoa se enterra, mas as costas de Lenore estavam perfeitamente direitas e tinha o queixo levantado. Parecia estar na defensiva e ao mesmo tempo intocvel.
Em contraste a sua aparncia, parecia mais despretensiosa do que antes. Usava uma camisola verde pinho, uma elegante saia de l e botas de couro castanho avermelhado.
Roupa mais agradvel do que qualquer outra que lhe tinha visto anteriormente. Tinha o cabelo vagamente arranjado no cimo da cabea e os lbios pintados com um leve
tom de canela. Mais uma vez Owen ficou impressionado com a sua aparncia to jovem, e tinha curiosidade em saber que idade teria. E qual seria a diferena de idade
entre ela e Serian.
Jacowitz entrou discretamente no quarto e instalou-se e Owen sentou-se na cadeira que estava em frente de Lenore, junto  janela.
Cruzou os olhos com os dela, to sombrios como vidro escuro e a proximidade dela provocou nele palpitaes e f-lo sentir um aperto no fundo do estmago. Estaria
a perscrutar a alma de uma vtima inocente e desolada ou os olhos frios de uma assassina?
O que pretende de mim? perguntou Lenore numa voz clara mas com uma fraca entoao. Quase uma entoao  francesa, mas no tanto.
Sentiu um arrepio por detrs do pescoo. Ponderou cuidadosamente a sua resposta.
Estou a escrever um livro sobre o julgamento, mas no consigo escrevlo sem antes conhecer Bram Serian. E conhecer a senhora, queria ele dizer, mas no se atreveu.
Comecei a fazer pesquisa e a conversar com as pessoas e cheguei  concluso de que existe um grande mistrio no passado de Serian. Agora estou a tentar deslindar
esse passado. E tenho esperana de que a senhora tenha algumas peas desse quebra-cabeas.
Ela observou-o. Ele no conseguia perceber nada.
O senhor quer inventar uma histria sobre o Bram? perguntou ela.
Eu no quero inventar uma histria, quero recuperar uma histria. Um lado da boca dela flectiu-se levemente para cima, como o vislumbre de um sorriso demorado. Os
seus olhos reflectiram uma satisfao enigmtica.
Talvez devesse dizer que quero tornar Serian mais humano.
Ela observou-o fixamente com um olhar directo e firme. Os seus olhos negros adquiriram um pouco do verde da sua camisola, transformando-os na cor de uma misteriosa
floresta  noite, cheia de terrores da infncia. Ele teve uma sensao estranha e confusa, seguida de mais um acesso de incerteza.
O Bram ter-se-ia rido do senhor, disse ela. Depois t-lo-ia posto na rua e escrito o seu nome na sua lista negra.
Tenho sorte em estar a falar consigo, nesse caso, no tenho?
Ela desviou momentaneamente os olhos dele, depois voltou de novo a fix-lo com o seu olhar sombrio. Continue. Coloque as suas questes.
Ele abriu o seu bloco de notas e respirou fundo. O que sabe a senhora sobre a vida de infncia de Serian?
Nada.
Est bem.... Alguma vez fez aluso ao lugar onde nasceu e cresceu?
No.
Alguma vez falou de ter vivido numa regio de quintas?
No. Nos seus olhos notou-se um pequenino tremeluzir de interesse. Porqu? Acha que ele foi criado numa quinta?
Owen repetiu o que John Potter lhe tinha dito e as leves insinuaes que tinha obtido de Gregory Hillyer e Edie Norton. Ela concentrou-se por algum tempo naquela
informao, mas no fez qualquer comentrio.
Alguma vez ele mencionou os nomes dos pais ou de quaisquer outros membros da famlia? perguntou Owen.
No. Nenhum, mas o Al...
Al? O seu assistente?
Sim. Eram primos.
O assistente que vivia no estdio era de certeza primo dele? perguntou Owen entusiasmado com a novidade.
Sim. Um primo afastado.
Onde est ele agora?
No sei. Foi-se embora h dois anos. O Bram sempre disse que ele havia de voltar... mas nunca voltou. Ficou a olhar para o vazio.
Qual  o nome completo do Al?
Ela encolheu os ombros delicadamente. Al Serian.
O Al falou alguma vez da famlia ou da infncia?
O Al no falava muito a no ser quando tinha um dos seus acessos de mau-humor, e mesmo nessa altura a maior parte do que dizia no tinha qualquer coerncia.
Owen bebeu um sorvo de caf e pensou em que direco devia seguir.
O Al era atrasado ou deficiente mental, correcto? Ela hesitou, depois encolheu os ombros.
Bem, era ou no era?
Porqu? Que diferena faz?
Eu pensei... que talvez ele tivesse sido tratado em algum lugar por causa dos seus problemas, que tivessem ficheiros sobre ele que me pudessem conduzir  famlia
Serian e s origens do Bram.
O Bram era a nica famlia que o Al tinha. Era por isso que tomava conta dele.
Onde esteve o Al enquanto o Bram foi para o Vietname?
Eu no... Desculpe. No sei grande coisa sobre isso.
Como era Bram Serian quando o conheceu? Que espcie de pessoa era ele?
O sol tinha subido e jorrava luz pela janela, envolvendo-a numa luminosidade prateada de inverno que dava  sua pele uma tonalidade de marfim antigo e ao seu cabelo
um tom sedoso, negro, reluzente. Ele nunca tinha conhecido ningum com um cabelo que fosse realmente to negro. Como a tinta-da-china ou obsidiana.
Ela tocou nas tmporas com as pontas dos dedos a pensar, debatendo-se com as lembranas e as respostas  sua pergunta. Notava-se alguma vulnerabilidade na sua atitude.
Os seus dedos eram delicados, as unhas estavam to limpas e naturais como as de uma criana e o seu pulso to delgado que ele imaginou que ia partir-se a qualquer
momento. Subitamente ele teve um acesso de remorsos. A mulher estava em sofrimento e ele estava a aproveitar-se dela por causa de um livro. Estava a us-la. A servir-se
da sua desventura. Como podia ter descido a um nvel to desprezvel?
 tudo, disse ele, levantando-se rapidamente e pegando no seu saco. Jacowitz levantou-se dum salto. O que se passa, homem? O que se passa? Owen no fez caso dele,
estendeu a mo para o casaco que estava em cima da cama e saiu para o corredor do hotel, desgostoso consigo prprio e com todo o projecto do livro.
Rossner apanhou-o ao cimo das escadas.
Espere a, Byrne!
Com alguma relutncia, Owen parou e voltou-se.  a ltima vez que me v, disse ele.
Mais devagar. O senhor tem de dar uma explicao para essa atitude.
Eu escrevo-lhe uma carta.
No. Se est aborrecido com a Lenore, quero esclarecer isso agora mesmo.
No estou aborrecido, Owen apercebeu-se de que estava a levantar a voz, que estava quase a gritar e que estava irritado. Consigo prprio. Inclinou a cabea para
trs e soltou um profundo suspiro de frustrao. Eu estava enganado, est bem? Nunca devia ter-me intrometido com ela desta maneira.
Qualquer coisa fez os olhos de Rossner brilharem. Podia ter sido entusiasmo, mas era mais parecido com triunfo.
Sabe, Byrne... o que eu disse anteriormente mantm-se. Voc podia ajudar muito a Lenore. Quem sabe o que temos perdido? Quem sabe o que mais voc podia descobrir?
Rossner hesitou. Gostava de o ter a trabalhar na minha equipa.
O que quer dizer com isso? A sua equipa?
Que eu pagar-lhe-ia pelo seu trabalho de investigao e voc concentraria os seus esforos a trabalhar para ns e no revelaria nada  acusao.
Eu no quero o seu dinheiro, Rossner.
O advogado ficou de olhar carregado e as suas sobrancelhas uniram-se por cima da ponte do nariz. Qual  o seu preo, ento? O que pretende?
Pretendo que se faa justia... quero que se encontre a verdade... tal como toda a gente. Se descobrir mais alguma coisa,  sua. Sem preo. Sem condies.
Ah, disse Rossner. Sorriu amavelmente, cinicamente. Um sorriso que estava infundido de uma estranha melancolia. Um homem de rectido. Quando o investigmos encontrmos
sinais disso, mas a rectido  uma qualidade to rara... nem queramos acreditar.
Owen virou a cabea, envergonhado com todo aquele episdio e aborrecido
com os esquemas e as investigaes-, sabendo que tinham andado a
intrometer-se na sua vida e a perscrut-la. Quando se dirigia para as escadas, deitou um olhar para trs e viu Lenore de p  porta, a observar. E havia qualquer
coisa parecida com esperana a iluminar-lhe os olhos negros.
Tommy Kubiak foi a primeira testemunha daquela manh. No era permitido s testemunhas assistir ao julgamento, mas Owen tinha a certeza de que Phyllis, a espectadora
entusiasta, tinha assistido diariamente e tinha o filho bem informado, de maneira que o Tommy sabia tudo o que tinha sido dito anteriormente naquela barra das testemunhas.
Owen olhou para a seco da assistncia e viu Phyllis sentada na segunda fila, sorrindo cheia de orgulho, como uma me que est a ver o filho conseguir bater no
jogo de basebol da escola.
Spencer Brown levou o Tommy a especificar as suas tarefas na casa dos Serians, como se o rapaz tivesse sete anos em vez de dezassete. O Tommy falou dos dois anos
que trabalhou para os Serians e sorriu para toda a gente. Sorriu para Brown e para o juiz e para o jri e para a sua me na assistncia. Owen era capaz de jurar
que o Tommy at sorriu para Lenore.
Agora, Tommy, vamos quele dia especfico em que estava a trabalhar l fora no ptio e a menina Raven e a senhora Serian chegaram na carrinha que voc foi ajudar
a descarregar e...
No dia em que estava o candeeiro no carro? perguntou o Tommy impacientemente.
Sim. Ouviu a menina Raven e a senhora Serian a discutir o candeeiro?
Claro que ouvi. Comecei a tir-lo do carro e a menina Raven disse qualquer coisa como, Pra, para que  isso? E a senhora Serian disse que era para o estdio de
arte e a menina Raven ficou furiosa e disse que Bram no queria aquela coisa no seu estdio.
E qual foi a resposta da senhora Serian?
Ela no disse nada. Apenas ficou ali e ento a menina Raven deu-me as chaves e disse-me que mais tarde podia ir  cidade na carrinha e devolver o candeeiro, depois
disse que tinha de ir para casa para preparar o almoo.
E devolveu o candeeiro mais tarde como lhe tinham ordenado?
No. Fui acabar de fazer a lista de coisas que Serian me tinha mandado fazer antes, e depois, quando acabei, o candeeiro e o petrleo tinham desaparecido, por isso
limitei-me a dependurar as chaves do carro dentro de casa, onde era suposto estarem e fui-me embora.
Disse alguma coisa a algum a respeito do candeeiro?
No. A melhor maneira de ali uma pessoa no se meter em dificuldades, era nunca dizer nada a ningum, a no ser que eles falassem primeiro, por isso foi o que eu
fiz, e nunca ningum apareceu a perguntar-me o que tinha acontecido ao candeeiro, por isso esqueci o assunto.
Agora, Tommy... alguma vez foi repreendido por Bram Serian?
- Montes de vezes.
Houve alguma vez em que ele o tivesse repreendido especificamente por alguma coisa que tivesse a ver com o fogo?
Est a referir-se ao que eu lhe disse antes sobre fumar?
Sim. Conte-nos isso, por favor.
Bem, estava um dia num intervalo de descanso e estava sentado no cho, com as costas encostadas ao estdio, a fumar um cigarro e apareceu Serian a gritar-me que
o apagasse. Fiquei um bocado surpreendido, porque antes ele nunca se importou que eu fumasse e s vezes at me dava lume com aquele seu isqueiro de grande potncia,
mas depois comeou a dizer-me que o estdio era um celeiro feito apenas de madeira e que facilmente podia pegar fogo e fez-me prometer que nunca mais voltaria a
fumar naquele lugar.
Ento ele tinha medo que voc pudesse pegar fogo acidentalmente ao seu estdio?
Exactamente. Era disso que ele tinha medo.
Brown sorriu indulgentemente. Agora, houve alguma ocasio, no decurso das suas tarefas na Arcdia, em que teve oportunidade de falar com a senhora Serian a respeito
do fogo?
O qu? perguntou o Tommy confuso.
Voc disse antes que uma das suas tarefas na Arcdia era desfazer-se do lixo, correcto?
Sim.  que a maior parte das vezes queimvamos o lixo, mas havia coisas que tinha de ir despejar.
Onde queimava o lixo?
Oh, muito longe de casa, perto do barraco do equipamento.
Alguma vez a senhora Serian foi consigo para o ver a queimar o lixo?
Sim. Muitas vezes. E ela trazia sempre coisas para juntar ao monte e ficava comigo a ver at estar tudo queimado.
Que gnero de coisas trazia ela para queimar?
Apenas coisas... no sei. Coisas que ela no queria pr junto com o resto do lixo.
Ela disse-lhe isso?
De certa maneira. Ela dizia que no era nada pessoal e que nada lhe pertencia at ver as coisas a arder.
No era nada pessoal e nada lhe pertencia at ver as coisas a arder?
Sim... parece uma coisa esquisita, mas ela estava sempre a dizer esse tipo de coisas estranhas...
Lembra-se de alguns objectos que tivesse visto ela queimar?
Sim. Vi-a a queimar uma boneca. Era uma boneca em bom estado. Vi-a a queimar peas de roupa que pareciam estar boas. E vi-a a queimar fotografias.
Pode descrever-nos as fotografias?
No eram como as fotografias de uma mquina fotogrfica. Eram desenhos. Mas nunca os vi bem, porque ela dobrava-os ou amarrotava-os antes de os deitar no monte.
Ela dizia alguma coisa enquanto observava esses objectos a boneca e a roupa e os desenhos disse alguma coisa enquanto os via a arder?
No. Ela apenas os lanava para o fogo e depois ficava a olhar enquanto eles ficavam negros e se desfaziam.
H mais alguma coisa de que se lembre de a ver a queimar?
Sim, s vezes trazia algumas daquelas velas que ela tinha... sabe, depois de terem ardido at ao fim ou se o vidro se partia ou outra coisa qualquer:
Pode falar-nos mais dessas velas, por favor?
Eram arrepiantes, sabe, com ditos voodoo escritos sobre elas.
Protesto! disse Rossner.
Deferido, respondeu o juiz imediatamente. Eliminar isso dos registos.
Tommy, importa-se de nos descrever as velas, por favor? Diga-nos pormenorizadamente qual era o seu aspecto, sem tentar caracteriz-las.
O Tommy acenou com a cabea. Eram de vrias cores vermelhas, azuis, verdes e tinham frases impressas, que eram uma espcie de feitios.
Lembra-se de alguma daquelas frases?
Uma de que me lembro mesmo bem era M Sorte para Todos os Inimigos.
Alguma vez lhe fez alguma pergunta sobre as velas?
Uh-uhh. No senhor. Como j disse, a melhor maneira de uma pessoa se dar bem naquele lugar era no dizer nada, por isso ficava calado e fingia que no reparava naquelas
velas.
Alguma vez ela lhe disse alguma coisa sobre as velas?
No. Nunca disse nada.
Houve mais alguma coisa que ela queimasse e que lhe despertasse a ateno por ser especialmente estranha?
Sim, ainda no havia muito tempo que estava l a trabalhar, quando veio queimar algumas coisas feitas de papel. Eram mesmo bonitas, como pequenos modelos de coisas...
carros e animais e moblia... tudo feito de papel^
E o que fez ela com esses modelos?
Atirou-os para o fogo um de cada vez e disse-me que se podia queimar coisas assim para dar coisas s pessoas depois de morrerem.
Pode repetir isso, por favor, para compreendermos exactamente o que estava a dizer?
Com certeza. Ela disse que, se queimasse por exemplo um pequeno carro de papel, que estava a mandar esse carro para uma pessoa morta poder usar. Depois de estarem
mortas. Como no cu... sabe?
Sim. Obrigado. Brown fez uma pequena pausa antes de continuar. Teve oportunidade de falar com a senhora Serian depois da morte do marido?
Sim. Foi depois do funeral, mas antes de... sabe... de ser presa ou l o que . Ela chamou-me para ir fazer umas limpezas no ptio onde os bombeiros e toda a gente
tinham feito porcaria. Eu fui l e estava a trabalhar e quando ia a queimar umas coisas, ela apareceu e ficou ali a olhar para o fogo com ar muito triste, por isso
eu disse estava a tentar anim-la e eu disse qualquer coisa como Bem, seja como for todas as coisas mais importantes de Bram ficaram queimadas juntamente com ele,
portanto agora tem-nas todas junto de si, sabe... no cu. Eu estava a pensar aquilo por causa de todas as
coisas esquisitas em que ela acreditava, pensando que isso a fizesse sentir-se melhor.
E a senhora Serian respondeu?
Sim. Disse que devia queimar a Natalie e a casa para que ele pudesse ter tudo.
- Ela disse que devia queimar modelos da Natalie e da casa?
No. Ela no falou em modelos.
Rossner aproximou-se do Tommy como se fosse um tio bonacheiro. Fez perguntas ao adolescente sobre a escola e como tinha arranjado o emprego na Arcdia e sobre o
que fazia nos seus tempos livres. Owen conseguiu perceber qual era a inteno de Rossner, mas no sabia se iria resultar. O advogado estava a tentar suavemente mostrar
que o Tommy era muito limitado, um jovem muito inexperiente que podia facilmente confundir o que era desconhecido e que podia ter interpretado mal muito do que viu
em casa dos Serians, porque as pessoas ali eram muito diferentes daquilo a que ele estava habituado.
Owen observou o jri. Suspeitou que os jurados eram to limitados e inexperientes como Tommy Kubiak e que a estratgia de Rossner estava a perder pontos em vez de
os ganhar.
Rossner levou o Tommy a confessar que nunca se tinha sentido ameaado pela Lenore e que de facto tinha gostado da Lenore. Que se algum na Arcdia o tinha feito
sentir-se ameaado, tinha sido Natalie Raven, que o Tommy descreveu como rabugenta. Depois Rossner apresentou o incidente do cigarro e o Tommy repetiu a histria.
E voc diz que Bram Serian s vezes lhe tinha dado lume com o seu isqueiro de alta potncia?
Sim. Aquele isqueiro extravagante de prata que funcionava com gs butano ou l o que era. Aquela coisa tinha uma chama enorme.
E aquilo era o que Bram Serian usava para acender os seus prprios cigarros?
Sim. s vezes fazamos juntos uma espcie de intervalo para fumar um cigarro. Ele estava sempre a prometer que ia deixar de fumar, mas no conseguia.
A quem  que ele prometia que ia deixar de fumar?
 Natalie. Estava sempre em cima dele. Dizia que ele ia matar-se.
E como  que ela disse que ele ia matar-se?
O Tommy encolheu os ombros. Com cancro, parece-me. Ela nunca o disse de facto.
Mas ela podia estar a referir-se a matar-se por meio de um incndio, por se pegar fogo com a chama do seu isqueiro enorme ou...
Meritssimo, disse Brown com descontentamento e impacincia. Protesto. O advogado anda  pesca em processos imaginados de que esta testemunha no pode ter tido conhecimento.
Deferido!
#Rossner recuou ento e tomou outro rumo, perguntando ao Tommy se ele tinha conhecimento de que havia outras religies no mundo em que era normal queimar objectos
pessoais feitos de papel para os mortos. Claro que o Tommy desconhecia isso. Owen no sabia dizer se a lio de sociologia de Rossner teria algum efeito no jri.
Duvidava que tivesse.
A Marilyn e a Pat persuadiram Owen a juntar-se ao grupo para ir almoar ao caf. Eram nove e tiveram que juntar duas mesas. A Holly estava toda vestida de vermelho.
Quando Owen olhou para ela os seus pensamentos dividiram-se. Por um lado, ela estava bonita, e era interessante pensar que estava disponvel para ele. Por outro
lado, ele ficava absolutamente indiferente aos seus encantos. No caminho de volta para o tribunal, ele manteve uma animada conversa com a Marilyn e a Pat para no
ter de falar com a Holly.
Quando o tribunal se reuniu novamente, foi a vez de Edie Norton estar na barra das testemunhas. Fora da sua galeria e do seu escritrio elegante, ela parecia de
algum modo diminuda. Owen no pde deixar de sentir simpatia por ela, conhecendo o tipo de adversrio que ia enfrentar na pessoa de Charles Rossner.
Brown colocou-se em posio e toda a engrenagem avanou implacavelmente. Edie Norton falou sobre Bram Serian, exaltando-o, a ele e ao mundo da arte e  sua galeria
em particular. Deu a sua opinio de especialista quanto ao valor da coleco de arte em casa de Serian, que disse ser considervel e das obras que Lenore pudesse
eventualmente herdar tambm considerveis. Ela respondia cautelosamente. Owen quase conseguia ouvir o desenvolvimento dos seus pensamentos, ouvi-la perguntar-se
a si prpria qual o ponto de vista nas respostas que serviria melhor os seus interesses, que imagem seria mais vantajosa para a galeria.
Sendo assim, senhora Norton, durante quanto tempo exactamente esteve relacionada com o falecido?
Desde 1970 ou 71. Descobrimos Bram Serian e fomos os primeiros a vender as suas obras.
E continuaram a apresentar as suas obras?
Sim. Ainda continuamos a apresent-las.
E no decurso dessa relao comercial de longo-prazo, pode-se dizer que teve oportunidade de conhecer Bram Serian bastante bem?
Absolutamente. Para muitos dos nossos artistas, ns funcionamos como consultores, terapeutas, representamos os pais e somos confidentes, assim como sistemas de apoio
financeiro.
E o que era a senhora para o falecido?
Todos eles numa ou noutra altura.
Portanto a senhora era amiga ntima dele? Ela hesitou. Sim.
Referiu antes que a carreira de Bram Serian tinha tido altos e baixos. Podia acrescentar alguns detalhes sobre isso?
Com certeza. Foi lenta no princpio. As suas obras eram pouco apreciadas.
Depois deu-se a sua revelao quando ele tomou outra direco... com a pintura... e ento houve um perodo em que tudo o que fazia era muito apreciado. Ao perodo
de maior sucesso seguiram-se vrios anos de desapontamento... decepcionantes para o Serian... em que s houve interesse pela sua pintura. Est a ver, para o Serian,
a pintura no era to importante como a escultura e ele ficou profundamente magoado quando os crticos se concentraram apenas na pintura e falaram depreciativamente
do resto das suas obras. Durante esse espao de tempo ele tornou-se obcecado com a construo da casa, gastando as suas energias criativas na casa. E, como acontece
frequentemente no mundo da arte, as suas obras... tanto de pintura como de escultura... deixaram temporariamente de ter procura.
Brown olhou como se estivesse a concentrar-se em absorver todas as ideias de Edie Norton. Durante esse perodo, senhora Norton, esse perodo desfavorvel, quando
as suas obras no tinham procura, tambm Bram Serian no tinha procura?
Vou ter de dizer que sim.  triste mas  verdade. Quando se desvanece o respeito pelas obras de um artista, ento deixa de haver convites sociais ou para entrevistas.
Porm, o Bram tinha uma personalidade to forte que manteve sempre um grupo de seguidores.
Portanto, durante esse perodo desfavorvel, o que fazia Bram Serian com o seu tempo e a sua energia?
Como j disse, ficou obcecado pela casa e passava a maior parte do tempo l no campo a fazer pequenos arranjos nela.
Enquanto que anteriormente, como passava a maior parte do tempo?
Quando tinha popularidade, passava a maior parte do tempo em Manhattan, e era solicitado para todo o tipo de reunies sociais e espectculos de caridade, e era tratado
como uma celebridade, com pessoas a tentar agarr-lo e mulheres a meter-lhe no bolso os seus nmeros de telefone... todo esse gnero de disparates.
Durante esse perodo de popularidade, quando ele passava tanto tempo em Manhattan e era to solicitado para eventos sociais, a sua esposa tambm participava nessas
actividades?
Nunca. A Lenore era quase uma agorfoba. Nunca ia a Manhattan nem participava nos acontecimentos sociais com ele.
Alguma vez comentou isso consigo?
Apenas de forma indirecta. De repente Brown ficou nervoso.
Podia ser mais especfica, por favor, senhora Norton? Bram Serian fez-lhe alguma afirmao, e em caso afirmativo, o que disse ele?
Ele no fez afirmaes precisas. No, era mais o gnero de fazer pequenos comentrios, que podiam ser em tom de gracejo ou de brincadeira pela maneira que...
Senhora Norton! Est a alterar as afirmaes que fez anteriormente?
Estou a dizer que... anteriormente, perante o jri de acusao, fui levada a fazer afirmaes em que tenho reflectido e me pareceram injustas. Nessa altura ainda
estava perturbada por causa da morte do Bram, e devido ao seu incitamento,
Dr. Brown, eu estava a interpretar comentrios de h muito tempo da maneira o menos lisonjeira possvel para a Lenore. Agora verifico que isso estava errado e estou
a tentar fazer uma descrio mais justa daquilo que recordo.
Spencer Brown ficou de boca aberta. A consequente conversa privada entre o juiz e os advogados durou pouco tempo, mas o suficiente para a Holly, a Pat e a Marilyn
segredarem umas s outras a sua estupefaco. Owen no ficou espantado. Ele sabia exactamente o que estava a acontecer. Edie Norton tinha recuperado totalmente do
seu sofrimento por Serian. Tinha estado a seguir o julgamento pelos noticirios e viu que havia a possibilidade de Lenore poder ser absolvida, e viu os dlares e
o sentido de oportunidade de se passar para o lado de Lenore. Ningum sabia melhor do que a Edie a quantidade de obras de arte que Lenore ia possuir se fosse considerada
inocente.
Brown estava obviamente irritado quando retomou o interrogatrio.
Senhora Norton, que alterao houve na carreira de Bram Serian pouco antes da sua morte?
Aconteceu uma daquelas mudanas inexplicveis do vento e comeou a surgir interesse pelas suas obras.
A senhora e Bram Serian fizeram alguma coisa como resposta a esse interesse renovado?
Sim, imediatamente programmos uma grande exposio. Ele estava muito entusiasmado.
Uma exposio?
Sim. Era para ser uma inaugurao de importantes quadros novos.
Portanto ele estava optimista? Cheio de esperanas? Emocionado?
Sim. O mundo da arte estava novamente apaixonado por ele, e ele sentia-se rejuvenescido.
Teve oportunidade de visit-lo na Arcdia enquanto estavam a programar essa grande exposio?
Sim.
E qual foi a reaco dela a todo esse renovado interesse pelo seu marido e de todas as novas solicitaes?
Ela estava muito ansiosa.
De que maneira estava ela ansiosa?
Ela tinha... naquela altura, e mais tarde, depois da morte dele, acredito que ela tinha cimes e no queria perder o seu marido, tornando-se mais uma vez o centro
das atenes. Porm, agora quando olho para trs, consigo perceber que a Lenore tambm estava ansiosa porque o Bram tinha ficado to magoado antes e o mundo da arte
os crticos e os coleccionadores e os grupos de fs podem ser todos muito inconstantes, e acho que talvez ela visse o Bram a ser tramado com uma nova queda.
Brown cruzou os braos, olhou para o tecto e cerrou os dentes.
Mas nessa altura, senhora Norton, parecia-lhe que Lenore Serian estava com cimes e no queria perder o marido para a ribalta. Est certo?
Naquela altura enquanto estvamos a programar a exposio, sim.
Enquanto os trabalhos de Bram Serian estavam fora de moda, ele passava a maior parte do tempo com a esposa na Arcdia, no  verdade?
- Sim.
Isso no aconteceria... ele no ia mais passar a maior parte do tempo na Arcdia com a esposa, se viesse a ser novamente popular, no  verdade?
Provavelmente no, mas isso  apenas uma suposio da minha parte. Quem sabe?
Vamos voltar a nossa ateno para a noite do dia seis de Agosto e a manh do dia sete de Agosto. A senhora estava presente em casa dos Serians?
Sim, estava. Normalmente no frequentava as festas de fim-de-semana do Bram porque se tinham transformado em festas de trabalho, em que ele esperava que toda a gente
se esfalfasse a trabalhar naquela casa, mas aquela festa tambm era uma comemorao da prxima exposio e ele tinha prometido deixar-me ver alguns dos quadros em
que tinha estado a trabalhar.
Quando  que chegou?
Fui no carro com o meu marido, Barry, na tarde de Sbado, dia seis.
Pode dizer-nos, por favor, qual era a atmosfera e o que aconteceu naquela tarde e  noite?
Toda a gente estava alegre. Havia algumas caras conhecidas, mas muitas das pessoas eram-me desconhecidas. O Bram reunia pessoas... seguidores. Era como o Robin Hood
no mundo da arte, com o seu grupo alegre de homens leais, e estava sempre a ajud-los e a dar apoio. Quando chegmos, toda a gente estava a trabalhar na casa, depois
 tarde, as pessoas separaram-se e foram pescar e a dedicar-se a outros passatempos ao ar livre. Ento perguntei ao Bram se podia ver os quadros, mas ele disse que
no, ainda no. Disse que estavam todos fechados no estdio e ele ainda no estava preparado para os tirar.
Continue, senhora Norton...
O Barry e eu no gostvamos muito de actividades de ar livre, por isso fomos ter com Natalie Raven e fomos para a varanda tomar uma bebida. A menina Raven no estava
muito animada como toda a gente. Parecia at estar deprimida e por isso tentmos anim-la. Depois fomos jantar. Havia muita comida, um porco inteiro no churrasco,
que eu tentei evitar, pois sou vegetariana, mas o Bram no parava de se meter comigo e a certa altura disse a algum para pr sorrateiramente um repugnante p de
porco no meu prato. Fiquei muito aborrecida com aquilo e fui para dentro de casa. Dentro de casa encontrei-me com a Lenore. Estava sentada  janela, a observar as
celebraes.
E o que lhe disse ela nessa altura?
Disse uma quantidade de coisas. Estivemos a conversar. Falmos de assuntos banais.
Owen pensou no facto de Edie Norton lhe ter dito ainda no passado fim-de-semana que ela nunca tinha falado com Lenore Serian.
Brown parecia que ia a explodir de fria com a sua testemunha imprevisvel. Ela no lhe disse nada de especfico em relao  prxima exposio? perguntou ele.
Edie Norton hesitou por um momento, depois disse, Sim. Eu fiz um comentrio sobre o destino e de como a vez do Bram tinha voltado novamente e ela disse que no estava
certo. Que tudo aquilo estava errado e que ia ser o maior erro do Bram.
Perguntou-lhe o que queria dizer com isso?
No. A Lenore era sempre muito enigmtica e eu sabia que ela no ia explicar-se. Porm, acho que ela estava a mostrar que estava mesmo preocupada, a preocupao
que qualquer pessoa teria por uma pessoa amada que est a expor-se ao sofrimento. Porque, est a ver, quando fao uma retrospectiva tenho de admitir que no havia
garantias. A exposio podia vir a ser um grande insucesso. E os quadros, que ficaram queimados e portanto nunca foram vistos, podiam ter sido horrveis.
Brown deu um suspiro de irritao.
Mas a senhora no afirmou anteriormente que interpretava os comentrios da Lenore como um desejo de ver o marido fracassar, para ela poder estar ao p dele?
Mas isso era ento e isto  agora. Agora acho que tenho uma opinio mais objectiva.
Spencer Brown levantou os braos de descontentamento. No tenho mais perguntas, meritssimo.
Charles Rossner levantou-se e com a cabea fez uma vnia delicada a Edie Norton. A defesa no tem perguntas a fazer  senhora Norton por agora, meritssimo.
Edie Norton pestanejou para o juiz e para Rossner, depois saiu da sala de audincias. Owen no pde deixar de sorrir quando ela passou por Brown, que estava a fervilhar
de clera, e pelo confuso Dapolito.
No percebo por que voc no se descontrai e se solta um pouco, disse a Holly. Estavam todos de p no trio fora da sala de audincias. O juiz tinha anunciado que
tinha outros assuntos a tratar na sexta-feira, por isso no haveria julgamento no dia seguinte. Alm disso Pulaski tinha dado por terminada a sesso ainda cedo devido
 inesperada brevidade do depoimento de Norton e ao facto de a prxima testemunha de Spencer Brown no se encontrar na sala de espera.
O vestido vermelho da Holly tinha um decote em V e a saia era muito justa. O Ray tinha de limpar a testa com um leno cada vez que olhava para ela.
Vamos, venha connosco! insistia a Marilyn. Seno no vamos ter equipas iguais.
Estavam todos a tentar alici-lo para ir com eles ao jantar, que seria seguido de um torneio de dardos num pub irlands em Manhattan.
No posso, disse ele.
Ahhh, ele tem  medo! disse o Ray. No quer que nenhum de ns saiba que os bufarinheiros no sabem atirar dardos.
O que  um bufarinheiro? perguntou a Marilyn.
 uma pessoa do Kansas, disse o Ray.
Owen estava rodeado pelo Ray, pela Holly, pela Marilyn e por Gil Flores e outros de cujos nomes se tinha esquecido. Estavam todos animados, satisfeitos com a diverso
proporcionada pelo prolongamento do julgamento e pelos pontos que estavam a ganhar nos respectivos empregos.
Eu bem queria, se pudesse, disse Owen a rir. Mas tenho de entregar a minha proposta amanh de manh. E mesmo assim, vou ter de trabalhar toda a noite.
Deram-lhe a direco para o caso de ele mudar de opinio; depois dispersaram-se e cada um foi fazer a sua reportagem. Owen dirigiu-se imediatamente para a cabine
telefnica.
Bernie estava ocupada com outra chamada, o que foi bom para Owen, pois ele queria falar tambm com o Alex.
Ento est decidido que tenho de apresentar a proposta amanh, no  verdade? perguntou ele.
No h problema, respondeu o Alex.
Owen soltou um suspiro de ansiedade e o Alex riu-se. Tenha calma. Vai tudo correr bem. Estou com um bom pressentimento em relao a este.
Espero bem que tenha razo. S espero estar a fazer um trabalho suficientemente bom. Se for recusado... no sei se vou desistir e voltar para casa. Quero levar isto
at ao fim. Eu queria mesmo escrever este livro.
Bem, vou ficar a torcer por si.
Obrigado, Alex. Escute, h algum tempo, disse-me que o seu amigo podia fazer alguma pesquisa no computador para mim, ainda  possvel?
Com certeza. O que precisa?
No sei quanto desta informao est disponvel nos canais abertos, mas estive a pensar, tudo o que houver sobre o servio militar de Serian talvez me fosse til.
Sobretudo o tempo que esteve no Vietname.
Est bem, vou ver o que o Cliff pode fazer. Voc vai ficar espantado no, escandalizado com os bancos de dados em que ele consegue penetrar.
E tambm h um primo, Al Serian, que tem algum tipo de problemas mentais. Viveu na Arcdia at h dois anos. No sei se haver alguma coisa que ele possa descobrir
sobre ele e sobre o seu paradeiro, mas talvez valesse a pena tentar.
J percebi, disse o Alex. Ligue-me novamente daqui a uns dias para eu lhe dar a informao. Ouviu algum a falar baixo e Owen achou que o Alex tinha posto a mo
no receptor e estava a falar com outra pessoa.
Olhe, Owen. Acabou de chegar uma chamada para si. A recepcionista tomou nota do recado. H uma senhora que pede para lhe telefonar o mais depressa possvel.
Quem era? perguntou Owen, ficando imediatamente com receio que houvesse alguma emergncia em casa.
No deixou o nome. Apenas o nmero de telefone.
Owen tomou nota do nmero, depois agradeceu ao Alex e pousou o receptor. Ficou desconfiado com o cdigo da regio. Era o mesmo do tribunal. Estava com receio que
fosse alguma partida de Holly Danielson.
Com alguma relutncia, marcou o nmero.
Ol, disse uma voz feminina. No parecia a voz da Holly.
Sim, o meu nome  Byrne e algum neste nmero deixou uma mensagem a pedir para eu telefonar.
Sim.
Ela hesitou e Owen ouviu o silncio na linha do telefone e de repente ficou a perceber. Antes de ela dizer mais alguma coisa, j sabia quem era.
Daqui  Lenore Serian. Charlie Rossner explicou-me o motivo por que o senhor saiu to bruscamente ontem.
A pulsao dele acelerou. Por que lhe telefonaria ela? O que  que ela queria? Tentou manter o seu tom de voz informal. Peo desculpa se lhe pareci incorrecto...
No precisa de pedir desculpa. Ele disse que o senhor concordou em prestar ajuda em futuras investigaes.
Sim. Mas se telefona para saber se j comecei, receio bem no ter tido ainda a oportunidade.
No. Mais uma hesitao. Estou a telefonar para lhe pedir que venha  Arcdia.
A senhora quer que eu v  Arcdia? repetiu ele incrdulo.
Sim.
Fez uma respirao prolongada.
Quando?
Amanh, se for possvel. Voltou a respirar fundo.
A que horas quer que eu esteja a?
#11
A entrada para a Arcdia era um imponente trabalho em pedra, onde estava fixo um porto alto de ferro forjado. Parecia deslocado naquela estrada de campo. Todas
as outras quintas tinham simples vedaes de arame farpado com proteces para o gado nas entradas ou quando muito um porto de alumnio seguro com um cadeado e
uma corrente. Owen saiu do carro e carregou no boto do intercomunicador ao lado do porto. Passou quase um minuto antes de se ouvir a voz de Lenore Serian a perguntar,
Quem ?
Owen Byrne.
O porto abriu-se imediatamente, deslizando sobre um carril de metal com uma reentrncia. Mal teve tempo de voltar para o carro e atravessar o porto antes de este
comear a fechar. Logo que ficou do lado de dentro, parou o carro e olhou  sua volta.
Quando telefonou para Bernadette Goodson naquela manh, para lhe dar a novidade da sua ida a Arcdia e pedir-lhe um alargamento do prazo de entrega da sua proposta,
ela tinha ficado entusiasmada mas preocupada. O que podia estar aquela mulher a planear? dissera a Bernie vrias vezes durante a sua conversa. E quando se despediu,
a Bernie acrescentara em tom de graa, Lembre-se, Owen, se lhe cheirar a querosene... fuja!
No se via mais nada a no ser rvores. Comeou a avanar. Ouvia-se o rudo da gravilha ao ser pisada pelos pneus e ele conduziu devagar, tentando ver atravs dos
bosques densos que estavam  beira da estrada. Conseguia ver, atravs da floresta, o terreno relvado em declive em alguns pontos. Nada de sensacional ou luxuriante.
Apenas a mesma pastagem pobre de inverno que cobria o campo das outras quintas por onde tinha passado. Depois chegou ao cimo de uma pequena elevao e viu a casa.
Nenhuma das descries que tinha lido correspondia ao espectculo que era a Arcdia. Era ao mesmo tempo bonita e feia, lgica e surrealista, uma miragem cintilante
de torrees, terraos, galerias, pinculos, espirais e torres. Uma catedral gtica de uma viso de fico cientfica do futuro. A luz do sol reflectia-se em tantos
pontos que o edifcio parecia uma fonte luminosa. Aquele brilho at lhe fazia doer os olhos, mas no conseguia deixar de olhar. Ocorreu-lhe que esta vista da Arcdia
lhe fazia lembrar uma miniatura de
fantasia da cidade de Nova Iorque, e perguntou-se se seria isso que Serian tinha em mente.
O efeito foi mudando  medida que se aproximava. Surgiram os detalhes. Mas s quando parou na frente circular, onde as sombras dos cedros de vinte metros de altura
escureciam a entrada,  que a casa passou de etrea a real. Ento viu que as paredes eram de pedra escura irregular, com inseres ao acaso de blocos estriados de
pedra brilhante semelhante ao vidro. Telhas envernizadas de lpis-lazli orlavam o telhado, e as torres eram rematadas com cobre martelado que, com o passar do tempo,
tinha adquirido uma leve camada de verdete. A intervalos irregulares apareciam janelas desproporcionadas, circulares e ovais e rectangulares de vidro, com padres
escuros. Vidro colorido, parecia-lhe, embora as cores no fossem discernveis do lugar onde se encontrava.
Uma rabanada de vento fez voar as folhas secas no cho e passou impetuosamente sobre os topos dos cedros. Puxou para cima a gola do casaco. As rvores oscilantes
deixaram passar raios de sol, e viu que havia imensas superfcies reflectoras, que criavam a miragem de luz.
Podia-se ver ali ao lado um canto com restos carbonizados do que devia ter sido o estdio de Serian. Aquela vista gelou-o mais do que o vento frio.
Lentamente, subiu os degraus da ampla varanda, que no era propriamente uma varanda mas antes um de uma srie de terraos de pedra que rodeavam a casa. A porta da
entrada era larga e muito trabalhada. Tinha uma moldura com encaixes de vidro azul esverdeado, profundamente matizado no vidro temperado transparente, mas a antiga
variedade feita manualmente, maravilhosamente compacto e com imperfeies, com vestgios de pequenas bolhas e gradaes variveis de cor.
Tocou a campainha e esperou. 
A porta abriu-se e ele ficou frente a frente com Lenore Serian, s que esta era uma Lenore Serian que nunca ningum veria no tribunal. Esta era uma mulher pequena,
com uma blusa de seda vermelha decotada e jeans gastos mas em bom estado, cabelo negro reluzente a cair solto sobre os ombros. Ela encostou-se  porta por instantes,
observando-o com um olhar indecifrvel. Depois os seus lbios arquearam-se lentamente num sorriso jovial.
Senhor Byrne, disse ela, conduzindo-o para o trio da entrada, que estava iluminado com uma luz ondulante e intensa. Conduzindo-o como se fosse uma deusa da antiga
Atlntida atraindo-o para os seus aposentos no mar profundo.
Os olhos dela tinham um brilho obscuro naquela luz martima. Sentiu-se dominado por eles. Amarrado quele lugar, mudo e indefeso, sob o seu enigmtico olhar. Depois,
bruscamente, ela afastou-se e conduziu-o pelos corredores sombrios e sinuosos. Ele seguiu-a. Olhando para o cabelo que oscilava nas suas delicadas costas  medida
que caminhava.
Entraram na claridade de uma enorme cozinha de tecto alto com uma lareira em pedra, de vigas expostas e tachos de cobre suspensos.
Caf ou ch? perguntou ela, lanando-lhe apenas um olhar por cima do ombro.
O que for mais fcil, respondeu ele, passando para o outro lado do balco-ilha.
Ela lanou-lhe um olhar penetrante. Diga-me simplesmente o que quer. No me faa adivinhar.
Caf. Com um pouco de leite se tiver.
Muito bem. Ponha o casaco numa cadeira.
Ficou a olhar para ela, enquanto fazia o caf numa cafeteira de vidro de presso, de estilo europeu. Os seus movimentos eram deliberados mas graciosos. Passou-lhe
uma caneca, depois pegou noutra para si e desapareceu pela porta ao fundo. Seguiu-a novamente. Desta vez para uma pequena sala de estar quadrada, que era banhada
pela luz maravilhosa de um vitral de dois metros e meio.
Ela ps a sua caneca na mesinha de centro pesada e slida, de metal martelado e sentou-se num dos sofs duplos macios que estavam  volta. Ele procedeu da mesma
maneira, depois voltou-se para olhar para a extraordinria janela. Era uma queda de gua a cair para um lago, ou a iluso de uma queda de gua, e ao fundo ao canto,
um pequeno duende com asas opalescentes, ajoelhado numa pedra arredondada, a observar o seu reflexo na gua.
- Reparei nas janelas quando vinha no carro, mas vendo-as do lado de fora, no imaginava que seriam assim. So todas assim... impressionantes?
A boca dela ficou um pouco mais suave. Sim. Mas esta  uma das minhas preferidas.  de Emile Gall, um francs contemporneo de Tiffany. O estilo no  realmente
de Gall. F-lo a pedido de um amigo... o que a torna ainda mais invulgar.
Owen acenou com a cabea, sem querer reconhecer que Gall no lhe dizia nada e que apenas tinha uma vaga ideia da importncia de Tiffany. Ela observou a janela com
uma expresso melanclica, absorta em pensamentos, enquanto distraidamente afagava a parte anterior do pulso com a ponta do dedo. Ele notou as veias azuis sob a
pele delicada na parte inferior do pulso dela. Faltava o anel de casamento que ela usava no julgamento, mas tinha posto delicados brincos de ouro. Parecia estar
cansada e os seus traos fisionmicos angulosos tinham uma agudeza frgil.
Quantos anos tem a janela? perguntou ele por fim.
Cerca de duzentos anos.
No sei nada sobre vitrais. Sempre pensei que fossem coisas que apenas faziam parte das igrejas.
Ela parecia distrada. Distante. H muitos nveis de trabalho em vidro, tal como h muitos nveis de pintura. Mas a arte tem a ver com luz e com o vidro um artista
pode captar a luz exacta.
Voc  artista? perguntou ele.
No.
Tomaram o caf. Ela no era pessoa para conversas banais. Os silncios surgiam naturalmente junto dela. E como Owen se habituou ao facto de estar na Arcdia e na
presena dela, o silncio tambm se tornou confortvel para ele-
Vou contar-lhe o que sei sobre a Arcdia, disse ela por fim. Depois vou lev-lo a visit-la. Vendo-a talvez o ajude a conhecer melhor o Bram.
Perguntou se podia usar o gravador e ela concordou, embora com relutncia. Logo que o ligou a voz dela mudou para um tom monocrdico.
Esta propriedade tem seis hectares e meio. Originalmente, os nicos edifcios eram uma casa de campo, um velho celeiro e um barraco para o equipamento. O Bram transformou
o celeiro num estdio de arte, com clarabias e um espao para se viver. O Al vivia sempre l e sempre que o Bram se envolvia num projecto, tambm ficava l.
Logo que o celeiro ficou pronto, o Bram comeou com a casa. Primeiro fez pequenas alteraes e restauros; depois comeou a ter vises do que era possvel fazer e
chegou  concluso de que o edifcio podia ser a sua obra de arte fundamental. Porque num edifcio a arte podia ser absorvida com todos os sentidos.
At que ponto pretendia aument-lo antes de acabar?
O tamanho no era importante para ele. Ele considerava-o orgnico e capaz de se desenvolver.
Owen pensou naquilo, depois perguntou, Como foi escolhido o nome Arcdia?
Foi o Bram que lhe deu o nome.
Ele abriu o bloco de notas. No dicionrio a definio de Arcdia  uma regio de simplicidade rstica e de repouso ideal. Era esse o seu motivo? estendeu o bloco
de notas para ela poder ler, mas ela ignorou-o.
O Bram nunca disse como tinha escolhido o nome. Ela levantou-se.
Venha. Vou lev-lo a dar uma volta.
Ele levantou-se. Nunca lhe agradecerei o suficiente por isto.
Ela inclinou a cabea num sinal subtil de concordncia. A sala em que nos encontramos no tinha nenhuma utilizao especial. O Bram construiu-a para fazer da janela
uma espcie de montra.
Levou-o novamente para a cozinha.
Aqui  o ponto de encontro de todas as alas. Foi o primeiro acrescentamento que foi feito  casa da quinta original.
Owen passou o compartimento em revista de forma mais meticulosa do que quando ali passou a primeira vez e contou sete portas. A enorme diviso foi construda em
nveis diferentes, sendo cada um dois degraus mais elevado que o anterior. Havia muito trabalho complexo em pedra e uma lareira com uma caldeira de ferro antiga
suspensa e azulejos  volta do lavatrio que eram trabalhos de arte individuais e armrios que eram uma mistura espantosa de madeira toscamente cinzelada e de cristal.
Tinham sido feitas clarabias no tecto elevado e uma janela enorme e com pinzios enchia uma parede.
Foi o Bram que fez a mesa, disse ela. Firmou as pontas dos dedos na superfcie alongada, que parecia ter sido talhada  mo em troncos macios.
D para se sentarem trinta pessoas. Owen tocou na madeira.
Vamos ver primeiro o lado sul. Ela ps um xaile rstico em volta dos ombros. Traga o seu casaco. Nem todas as zonas esto aquecidas.
Seguiu-a por uma porta para um labirinto estonteante de corredores e quartos, muitos dos quais estavam inacabados. Havia dzias de escadarias
diferentes que conduziam a quartos ou conjuntos de quartos que no estavam ligados de nenhuma maneira lgica. Havia portas que davam para paredes e escadas que no
conduziam a nada.
Qualquer pessoa podia perder-se aqui., comentou Owen. Ela no respondeu.
Ele seguiu-a atravs de quartos de dormir, alguns dos quais tinham beliches estilo dormitrio fixos nas paredes e casas de banho que de repente viravam solrios
complexos e uma biblioteca com estantes invulgares. Depois de subirem e descerem numerosas vezes, subiram cinco degraus de pedra esculpida e entraram num quarto
enorme, com uma cpula de vidro no tecto e num canto, uma rocha com gua a correr gota a gota. No centro, por baixo da cpula, estava uma cama sobrelevada.
Isto dava para um grande filme do Frankenstein, disse Owen. S faltam alguns efeitos de luz.
Este  o quarto do Bram. Owen reparou que Lenore usou o tempo presente em vez do passado. Foi ele que construiu a cpula de modo que pudesse ser aberta e para se
sentir como se a cama flutuasse no cu.
E deu resultado?
Sim. Os cantos da sua boca curvaram-se por uma fraco de segundo. Mas deixava entrar gua quando havia trovoadas e nas noites de vero os mosquitos entravam aos
milhares.
De repente ela parou e ficou muito silenciosa a escutar.
Ele olhou  sua volta e depois sussurrou, O que foi?
A pergunta pareceu surpreend-la. Nada, disse ela rispidamente. Depois virou a cabea para observar novamente a cpula. Por fim tiveram de fech-la hermeticamente,
mas nessa altura tambm o Bram j estava farto dela.
Owen vagueou pelo quarto. No havia bens pessoais, nenhuns objectos esquecidos.
O que fez com todas as coisas dele? perguntou Owen.
Ela hesitou. A Natalie levou-as. Esvaziou o quarto completamente. Eu sabia que ela ia fazer isso, mas deixei-a.
Owen continuou a vaguear, parando junto  queda de gua para mergulhar os dedos no tanque de gua e ao p do sof que estava junto  janela para olhar a vista que
Owen tinha escolhido para si prprio. Na curva do sof, parcialmente tapado por uma almofada, estava um livro voltado para baixo. Pegou nele, sempre curioso por
saber o que as pessoas andavam a ler, e ficou surpreendido ao verificar que era um clssico de filosofia. Medo e Tremuras e A Doena At  Morte, de Soren Kierkgaard.
Quem se interessa por filosofia? perguntou ele.
Ela tirou-lhe bruscamente o livro das mos, atirou-o novamente para a almofada e fez subitamente girar os calcanhares. Vamos. Estamos a desperdiar tempo.
Desculpe, disse Owen. Vou passar a pedir autorizao antes de tocar em mais alguma coisa.
Continuou a lev-lo pelo labirinto estonteante, chamando a ateno para peas de arte e vitrais quando passavam por eles. Owen ficou sem capacidades
#para absorver tudo aquilo. Depois ela abriu a porta que dava para um quarto que era notavelmente austero, quando comparado com o resto da casa No havia arte nem
vitrais, nem gravuras, nem metal martelado. As paredes eram esbranquiadas, o cho era de madeira sem acabamento e a moblia tinha uma simplicidade Shaker.
Esta  a minha cama, disse ela. Ele acenou com a cabea em silncio,
imaginando se ela e Serian no teriam dormido juntos na mesma cama enquanto era vivo.
Mais uma paragem, anunciou ela enquanto saam do quarto, e estar completa a visita ao lado sul.
Ainda s vimos um lado?
Sim. A casa ocupa cerca de mil e seiscentos metros quadrados, sabe.
Li isso, mas no fazia ideia...
Ela abriu as portas duplas e Owen olhou para um quarto rectangular semelhante a uma despensa com as paredes revestidas de prateleiras. Estava abastecida de protectores
solares e pastas de dentes e escovas de dentes e pensos rpidos e sabonetes e preservativos e dissolvente de verniz para as unhas e uma grande variedade de medicamentos
no sujeitos a receita mdica, juntamente com uma grande quantidade de antibiticos e analgsicos receitados pelo mdico.
Isto  melhor do que o Cyril Drug and Sundry, disse Owen muito admirado.
Toda a gente lhe chamava o armazm. O Stanley continua a abastec-lo, apesar de eu no usar quase nada.
Stanley?
Stanley Cantor. Todas as semanas traz mercearias e abastece o armazm. Tambm traz encomendas especiais. Cassetes de vdeo... revistas... qualquer coisa. Eu no
conseguiria sobreviver sem o Stanley.
Fechou o armazm e levou Owen por um corredor comprido e escuro e depois por uma porta. Tendo perdido completamente o sentido de orientao, ficou surpreendido ao
verificar que se encontrava de novo na sala onde tinham tomado caf, agora inundada pelo sol da tarde que penetrava pelo vitral, criando um efeito deslumbrante,
quase estonteante.
 como estar dentro de uma pea de joalharia, disse ele.
Ela sorriu com ar indulgente. Ou dentro de uma pea de arte. Ela fez um gesto com as mos a indicar os sofs duplos. Agora desligue esse gravador e sente-se. Vamos
descansar um pouco, antes de ir ver o outro lado.
Ela saiu e voltou quase de seguida com uma taa de morangos frescos to grandes que pareciam artificiais. O Stanley trouxe-os hoje de manh, disse ela, enquanto
colocava a taa na mesa. Ele traz-me sempre uma surpresa.
Owen sentiu-se subitamente embaraado e desajustado na sala. As suas pernas batiam contra a mesa. No sabia onde pr as mos. Pensou em tirar um morango, mas quase
tinha medo de comer. No tinha almoado no caminho para l, porque sentia o estmago inchado e agora j se sentia melhor.
Utilizo apenas uma pequena parte da casa, disse ela enquanto tirava um morango da taa. Mas gosto de estar aqui.
Silncio.
Observou-a a tirar lentamente as spalas verdes do fruto, como se estivesse a fazer o jogo do bem-me-quer-mal-me-quer com ptalas de malmequer.
Parece que o vento parou, disse ele, recorrendo-se do assunto mais comum no Kansas. Talvez no apanhemos aquela tempestade que estavam a prever.
Ela deu uma dentada no morango e o sumo tingiu-lhe os lbios.
Ele voltou os olhos para a segurana da janela. Agradeo muito ter-me convidado para aqui. Mas sabe... com o julgamento e tudo o mais... como se tem de... As palavras
saam-lhe da boca antes de lhe dar sentido.
O seu distanciamento frio desanimou-o. Comeu vrios morangos para se manter ocupado e evitar o fundo ilimitado dos seus olhos. Sentia que ela estava a observ-lo
e a avali-lo.
Levantou-se e dirigiu-se para a janela como se quisesse olhar para fora, mas claro que no podia ver atravs do vitral. Conseguia ver os contornos definidos das
suas omoplatas atravs da blusa de seda. De ver as delicadas alcinhas da roupa interior sob a seda. De ver a estreiteza da sua cintura e a forma elegante das suas
ancas.
Voc  a pessoa de quem tenho estado  espera, disse ela.
Owen sentiu o impulso de olhar  sua volta para ver com quem ela estaria a falar, porque no podia ser ele. Mas em vez disso sentou-se calmamente.
Ela encarou-o. A janela ficava por detrs dela, envolvendo-a numa luz brilhante, enchendo-lhe de cor os ombros e uma parte da cara. Preciso de algum para me ajudar.
Algum em que eu possa confiar.
Owen levou mais tempo do que o habitual a responder. J prometi isso ao Rossner. Eu entrego-lhe tudo o que encontrar, disse ele cautelosamente.
No estou a falar do julgamento. Isso no tem nada a ver comigo.  uma batalha entre os advogados. Afastou-se da janela e sentou-se mesmo em frente de Owen. Os seus
olhos tinham-se inflamado e todos os vestgios de distanciamento desapareceram.
Inclinou-se para ele. H coisas que tenho de descobrir. Coisas que tenho de saber.
O calor que ela irradiava provinha de algo profundamente sentido necessidade? Obsesso? Loucura? Tinha receio de adivinhar o que era.
Sonhei que tinha feito sacrifcios, disse ela. E no meu sonho havia um sinal de que algum seria enviado. A sua voz quase se reduziu a um sussurro. No dia seguinte...
voc apareceu no hotel para falar com o Rossner.
Ele ficou com a respirao suspensa e sentiu um aperto na garganta e no confiou na sua voz para responder.
No o sente? perguntou ela. Eu no soube logo. Mas agora  to forte. Com certeza que consegue senti-lo.
Owen fez um retrocesso mental, movendo-se cautelosamente em auto-defesa.
O que pretende de mim, Lenore?
Quero que me ajude a descobrir umas coisas. Owen fixou os olhos nela.
J est a indagar o passado do Bram, disse ela.  procura do que chama peas do quebra-cabeas. Podia tambm procurar as respostas que eu preciso.
Se o que est a dizer, comeou Owen cautelosamente,  que se quer que faa alguma pesquisa sria, ento eu no sou uma boa escolha. Sou um amador nessa questo de
desvendar informao. Vou aprendendo  medida que avano. Voc precisa de algum... de um detective especializado neste gnero de coisas. O Rossner podia recomendar-lhe
um investigador com experincia que...
No.
Mas por que acha que eu...
Estamos ambos ligados pelo passado do Bram. Voc tem os seus motivos para querer desvendar os segredos dele. Eu quero desvendar os seus segredos pelas minhas razes.
Podemos ajudar-nos um ao outro. E eu sei que posso confiar em si, o que no aconteceria se contratasse um detective. Alm disso ela baixou os olhos no tenho dinheiro
para pagar a ningum. A posse da propriedade no est definida e no vai estar at terminar o meu julgamento. As minhas despesas legais e pessoais so pagas pelo
depositrio, mas para alm disso no tenho nada.
Owen tentou clarificar os seus pensamentos. Se ela estava realmente a propor que colaborassem numa investigao do passado de Serian, ento devia ficar entusiasmado.
Devia ir a correr para o telefone para dar a Bernie a grande notcia. No entanto no conseguia ultrapassar as suas apreenses.
No pode dizer que no, disse-lhe ela em voz baixa.
Os olhos dele cruzaram-se com o olhar fixo dela. Era to intenso. To cheio de paixes que ele nem se atrevia a tentar imaginar.
No posso dizer que no, concordou ele por fim.
Uma incandescncia inundou as suas feies e concedeu a Owen um lento e ntimo sorriso que foi directo  sua rea genital. Ele teria vibrado com o sbito estmulo
sexual, se no fosse o profundo sentido de mau pressgio que ofuscava tudo o resto.
Vamos l para fora antes que se faa tarde, disse ela. Vou mostrar-lhe onde ele morreu.
Silenciosamente, Owen pegou no casaco e seguiu-a. Ela conduziu-o at s traseiras, atravs de um ptio interior fechado e de vrios terraos, para os escombros carbonizados
do estdio de Bram Serian.
Aqui est, disse ela, olhando atentamente para o enorme monte negro de escombros. Isto  tudo o que resta.
Owen caminhou  volta. Pelas notcias que li, esperava que parte dele ainda estivesse de p, notou ele.
Os bombeiros disseram que era um perigo e voltaram c no dia seguinte com o material necessrio e camies para o desfazer todo e lev-lo. Deu um pontap com irritao
a um bocado de madeira queimada. Eu no queria que fizessem isso. Disse-lhes que fossem embora. Mas no foram.
Owen manteve-se cautelosamente em silncio.
A acusao disse que eu organizei a demolio para destruir provas.
Mas no est no julgamento. Eles no mencionaram isso. O Charlie j estava preparado para provar que estavam enganados, mas eles no mencionaram isso.
Com um leve franzimento das sobrancelhas de perplexidade, ela observou os escombros.  estranho como as coisas acontecem e quando as recordamos mais tarde, ou quando
outros as recordam, no  nada como pensvamos que era.
Owen tocou na cinza com a ponta dos ps e ps-se a olhar para a fuligem negra que cobria a ponta da bota. No ousou levantar os olhos e deix-la ler-lhe os pensamentos.
Porque naquele momento ele estava convencido que Lenore Serian estava perigosamente  beira da loucura.
J passa das quatro, disse ela. Vamos acabar a nossa visita antes que o sol se v embora. Algumas partes da casa no so suficientemente iluminadas. Ficou em silncio
durante o caminho de volta para dentro de casa, mas depois continuou o seu monlogo de guia da visita.
A ala norte provavelmente tem exactamente o mesmo comprimento, explicou ela, mas os quartos so menos e maiores.
A primeira paragem foi numa enorme rea de convvio, com um tecto de vigas raiadas de mais de seis metros de altura e uma lareira de pedra suficientemente grande
para assar nela metade de uma vaca. Havia uma srie de janelas altas de cada lado da lareira.
O Bram chamava a esta, a sua sala gigante, disse ela. Tudo nela  de dimenses exageradas. Os sofs so to grandes que no cabem nas portas, por isso tiveram de
ser trazidos antes de as paredes estarem acabadas.
A seguir levou-o para uma cave sem janelas, com paredes de pedra em arco e assentos que pareciam ser esculpidos em forma de nichos. O cho estava coberto por uma
carpete almofadada que ia de parede a parede e havia almofadas enormes espalhadas por toda a sala para as pessoas se recostarem. Em vez de quadros dependurados,
as paredes aqui tinham sido decoradas com pinturas rupestres e complexos grafiti. De um lado havia um grande ecr para projeces e um conjunto de prateleiras cheias
de cassetes de vdeo. Ele comentou o facto de ser a maior televiso que j tinha visto e ela disse-lhe que aquilo no era uma televiso. Bram Serian detestava a
televiso. Era exclusivamente para ver vdeos.
Passaram por vrios compartimentos que ainda estavam por acabar e por um que estava parcialmente tapado com tbuas. Ela chamou-lhe a ateno para outra escadaria
que no conduzia a lado nenhum, depois contornaram uma esquina e subiram para um compartimento comprido e amplo que recebia luz do lado norte. O cho estava vazio
tal como estavam as janelas altas e inclinadas para dentro. De um lado havia uma parede espelhada que tinha uma barra para bailado. Do outro lado havia uma cama
de descanso estreita, uma mesa baixa e um pequeno monitor de televiso e VCR. No centro da sala estava uma enorme mesa multifunes feita de madeira grossa e com
muitas marcas, suportada por barras de metal. Em cima da mesa havia vrias ferramentas e dispositivos, alguns dos quais estavam envolvidos em panos.  aqui que passa
o tempo? perguntou ele.
Ela pareceu ficar surpreendida com a pergunta e depois sorriu. Foi um sorriso tmido, quase infantil que o surpreendeu pela sua ternura.
Como adivinhou? perguntou ela.
Foi apenas... um palpite, confessou ele.
Ela voltou a sorrir, com uma vivacidade e inocncia que todas as suas opinies anteriores acerca dela ficaram abaladas.
A ltima paragem da sua visita  Arcdia foi a cave. O cho era de cimento e as paredes eram de um material spero que devia ter sido aplicado por cima. Cada centmetro
estava pintado e assinado por vrios artistas. Havia duas mesas de pingue-pongue, uma mesa de bilhar, um bar de estilo western e vrios sofs. Ao lado havia portas
venezianas dobrveis que davam para um compartimento cheio de electrodomsticos: uma mquina de lavar e secar de tamanho industrial, uma mquina de engomar de tipo
industrial e o maior frigorfico que Owen tinha alguma vez visto.
Lenore abriu o frigorfico e indicou-lhe com um gesto que avanasse. O que quer comer ao jantar? perguntou ela, apontando para as prateleiras cheias de todo o tipo
de comida preparada e congelada. J passava das sete, ele no tinha tomado o almoo e estava esfomeado e tinha ainda uma longa viagem pela frente. Tudo razes convincentes
para aceitar o convite para jantar. E sabia que cada momento que passasse na Arcdia e na companhia dela seria um contributo que enriqueceria o seu livro, mas mesmo
assim, pensou em dizer-lhe que tinha de ir embora imediatamente.
Tem de comer em algum stio, disse ela. Como pode ver, tenho muita comida.
Levaram uma grande variedade de comida para cima. Quando Owen tinha estado antes na cozinha, no tinha reparado na zona de trabalho, mas agora estava impressionado
com os dispositivos de Bram Serian para cozinhar. Era a cozinha mais perfeita que Owen j tinha visto. Havia um fogo de restaurante em ao inoxidvel com oito bicos
de gs e um grelhador superior. Havia dois fornos convencionais, um forno convector, um forno microondas e um forno torradeira. Por fim havia um sistema para fazer
grelhados com carvo ou lenha.
Isto aqui dava para cozinhar para um exrcito, comentou ele, enquanto abria as caixas e preparava o microondas.
Ela relanceou o olhar  sua volta como que embaraada. O Bram mandava um cozinheiro escolher tudo. Parece-lhe excessivo?
No  a cozinha tpica americana, limitou-se Owen a dizer.
Oh! foi a sua inexpressiva resposta. Para alm do microondas pouca utilizao fao disto.
Enquanto comiam, ela fez-lhe perguntas sobre a sua famlia e o rancho. Perguntas sobre o Kansas. Perguntas sobre o livro e sobre a profisso literria em geral.
Ele foi ficando cada vez mais desconfortvel perante a minuciosidade da sua ateno, sentindo que estava a ser observado e avaliado, mas no conseguia desviar-lhe
a ateno. Ela ignorava todas as suas tentativas para mudar de assunto.
Mais tarde ajudou-a a fazer a limpeza, o que significou pouco mais do que pr as embalagens da comida congelada no lixo e lembrou-se mais uma vez
que estava ali apenas como escritor. Que era suposto ser objectivo e manter-se vigilante sem deixar que as suas reaces e emoes interferissem. Apesar da auto-advertncia,
o impulso de partir subitamente estava a tornar-se cada vez mais premente. De fugir no s da casa surrealista de Serian e voltar para Manhattan, mas de voltar para
o Kansas. Voltar para a sua vida real.
Quer tomar caf? perguntou ela.
No, obrigado.
Ela ficou imvel e levantou a cabea, como se estivesse a escutar alguma coisa, tal como tinha feito no quarto de Serian.
Passa-se alguma coisa? perguntou Owen relutantemente.
Ouviu aquilo? perguntou ela.
No.
Ela olhou para o tecto. Sabe alguma coisa sobre fantasmas?
No, disse ele. -De qualquer maneira... Comeou a dirigir-se para a porta da cozinha, olhando  volta  procura do casaco, mas disposto a ir embora sem ele se fosse
preciso.  uma longa viagem e tenho que devolver o carro alugado e dactilografar as minhas notas. Por isso... mais uma vez obrigado pelo jantar e pela visita.
Ela olhou para ele de olhos apticos e frios. O seu casaco est naquela cadeira junto  porta.
Ele agarrou o casaco e caminhou pelo corredor, sentindo-a a segui-lo. Sentia um aperto no peito. Sentia falta de ar. E no sabia o caminho para a porta de entrada.
No  por a, disse ela de algures atrs de si.
Ele parou. No se voltou, mas sabia que ela estava a aproximar-se em silncio.
Eu indico-lhe o caminho para a sada, disse ela.
Passou por ele no corredor escuro e estreito sem lhe tocar. Ela movimentava-se como um fantasma. Ele olhou para ela fascinado e assustado ao mesmo tempo. E verificou
que nunca seria capaz de imaginar Lenore Serian. Ela estava para alm da imaginao.
A que horas volta amanh? perguntou ela.
Amanh? Owen sentiu uma onda de pnico. Amanh tenho uma entrevista com o antigo companheiro de quarto de Serian, por isso no sei se...
Agora estavam no trio da entrada. Estava a ficar escuro mas cheio de configuraes indistintas e inconstantes projectadas pelas luzes exteriores instaladas nas
rvores, que vinham atravs do tecto envidraado. A vista da porta da entrada tranquilizou-o.
Ento venha quando terminar a entrevista, disse ela. H papis que precisa de examinar.
Ele teve de engolir e aclarar a garganta antes de conseguir falar. Que espcie de papis?
Papis do Bram.
E voc vai mostrar-me os papis pessoais de Serian?
Sim. Venha logo que puder. O tempo est a aproximar-se do fim.
12
Logo que Owen se encontrou de volta ao ambiente familiar do seu apartamento, a tarde passada na Arcdia assumiu as caractersticas de um sonho estranho e pensou
que tinha sido estpido ao permitir que a mulher e a casa o afectassem daquela maneira. Convenceu-se de que era por causa da presso. A preocupao por no saber
se a proposta seria aceite e se tinha feito bem em deixar a sua famlia e o rancho entregue a um estranho. Era por isso... apenas por causa da presso.
Na manh seguinte levantou-se cedo para ir para a entrevista com Jonas Watkins, o homem que tinha sido companheiro de quarto de Serian durante os primeiros tempos
do artista em Nova Iorque. Watkins vivia em Brooklin e tinha dado a Owen indicaes sobre como ir para a sua casa de metropolitano, mas como Owen tinha de continuar
com o carro alugado para poder voltar  Arcdia, decidiu ir a Brooklyn de carro.
O dia estava claro e seco. Owen conseguiu ultrapassar aquela confuso de pr os cabelos em p, que era a entrada na Estrada FDR, conseguiu virar para a Ponte de
Brooklyn e depois ficou parado na faixa de sada da ponte durante dez minutos, at que verificou que ia ter de esquecer as boas maneiras e tentar meter-se na fila
de carros que se amontoavam  sua frente, seno ningum lhe ia dar a vez. Depois de ter passado a ponte teve de ultrapassar a fila de taxis, que tinham aumentado
repentinamente, para subir a rampa e contornou as curvas e as mudanas de direco no assinaladas e entrou na Auto-estrada de Brooklyn-Queens e chegou  concluso
que afinal teria sido mais simples se tivesse ido de metropolitano. Todos aqueles anos atrs do volante no Kansas no o tinham preparado para aquela agresso de
toques de buzina, guinchos e gritos e um total desrespeito pelas regras, que caracterizava a conduo em Nova Iorque.
Seguindo as indicaes de Watkins, Owen seguiu na direco da Ponte de Verrazano, depois saiu da auto-estrada e encontrou-se num agradvel bairro de pequenos edifcios
de apartamentos de tijolo e velhas casas em banda de arenito castanho avermelhado e pedra calcria, transformadas ao longo dos anos para albergar vrias famlias.
Estacionou o carro e tocou a campainha da casa de Jonas Watkins. A porta abriu-se quase de imediato e viu que o jovem
#escultor de cabelo comprido e de boina era agora um homem que estava a ficar careca e corcunda, que usava calas unissexo sem cinto e um camisolo de l castanho-claro.
Watkins convidou Owen a entrar e conduziu-o por um corredor para a sala de estar, falando pelos cotovelos do seu bairro, e de como ficava quase em Bay Ridge e de
como as escolas eram decentes, o que tinha sido importante, pois ele no tinha dinheiro para os filhos poderem frequentar escolas privadas, e ainda de como estava
quase em Manhattan, e de como era dono da casa de arenito castanho avermelhado e alugava o piso de cima para ter um rendimento adicional, e de como a sua mulher
tinha apenas um emprego a tempo parcial como bibliotecria, por isso era bom ele ter um emprego estvel e no se ter arriscado a sustentar a famlia com uma coisa
to incerta como era a arte.
Owen sentou-se e ouviu o monlogo ininterrupto do homem, deixando-o acalmar ao seu ritmo. Finalmente parou.
Fico-lhe agradecido por aceitar encontrar-se comigo, disse Owen. Jonas Watkins abriu e fechou o fecho de correr do camisolo vrias vezes.
Tenho de ir para o escritrio, portanto o dia j estava destinado de qualquer maneira. No pude ir a casa dos meus sogros com a minha mulher e os meus filhos ontem
 noite. E tambm no h tempo suficiente para me envolver num projecto.
Owen abriu o saco. Importa-se que grave a nossa conversa?
Esteja  vontade. No h qualquer problema. Jonas Watkins passou a mo pela sua careca como se achasse a sua suavidade calmante. Sabe... depois da nossa conversa
ao telefone, pensei muito sobre Bram Serian. Ainda mais do que quando soube que tinha morrido. Voltou a pr a mo na cabea. Fiquei muito surpreendido quando ele
morreu. Aquele gajo tinha tudo. Nunca pensei que alguma vez cometesse um erro.
Quando foi que viu o Serian pela ltima vez?
Oh, meu Deus! J foi h dez anos. Ele telefonou-me inesperadamente a convidar-me, a mim e  Carmela para irmos quela casa dele. Foi muito estranho. Mas acho melhor
contar-lhe desde o princpio, antes de falar do fim.
Est bem, concordou Owen. Conte-me como o conheceu e como era ele... tudo.
Jonas Watkins afagou a cabea por instantes, depois fixou os olhos no gravador e comeou.
Eu tinha vinte e um anos. Tinha acabado o curso de relaes comerciais
aquilo foi obra do meu pai. Fez-me prometer que acabaria o curso da faculdade antes de tentar as minhas capacidades artsticas. Ele era um homem prtico, sabe...
subiu durante a depresso e tudo.
Viajei de autocarro de Omaha para Manhattan e inscrevi-me na Sociedade dos Estudantes de Belas Artes. Raios... bons tempos. Movamo-nos na arte e falvamos de arte
e vivamos na arte e lamos revistas sobre arte enquanto estvamos sentados na casa de banho. No queramos saber de mais nada.
Havia aquele grupo de malta composto por vinte pessoas, sobretudo gajos mas tambm algumas raparigas, que se mantinham unidos e iam a
todas as aulas e eram elementos activos a fazer exposies e promoes e tudo o mais. Quase toda a gente era de outro lugar, mas pode-se dizer que o Bram e eu ramos
os mais provincianos do grupo. A maior parte dos outros tinham sido criados no Leste, ou eram ricos e muito viajados, ou j tinham frequentado alguma escola de arte
na Europa, ou coisa parecida. Eu sentia-me embaraado por causa da minha falta de refinamento, mas o Bram, que era muito mais campnio do que eu, ostentava esse
facto e servia-se dele. Tinha barba e usava roupa rstica e calado de trabalho como se tivesse acabado de chegar do campo.
Todos tnhamos grande admirao por ele. Pode-se dizer que era o nosso guia espiritual. O nosso porta-bandeira. Se bem que, quando penso no passado, no consigo
imaginar o que ele fez de especial que justificasse tanta venerao.
No obstante, eu estava a viver num hotel rasca e o Bram perguntou-me se queria partilhar as suas guas-furtadas. Raios! Umas guas furtadas em SoHo! Achei que era
sorte a mais.
Mudei-me para l e ele estabeleceu todas aquelas regras, que no me incomodavam nada, pois a casa era dele. As coisas correram bem durante algum tempo. Costumvamos
ficar acordados at de madrugada, a beber tequila e a fazer planos para o futuro. Eu sonhava que um dia havia de fazer uma exposio s minha e o Bram sonhava que
havia de ser famoso em todo o mundo.
Sabe, agora tenho pensado nisso e pergunto-me se a arte foi alguma vez importante para ele ou se foi apenas um meio para atingir um fim. O que  realmente irnico,
porque afinal o gajo era mesmo um gnio dos diabos, no era?
Watkins olhou para Owen como se estivesse  espera que este lhe dissesse que estava enganado. Que Serian no tinha sido um gnio.
De qualquer maneira, cerca de seis meses depois de eu ter ido para a casa dele, comemos a ter problemas. Estava sempre a implicar comigo. Queria impor-me as horas
a que devia sair e voltar para casa e a que aulas devia ir e as mulheres com que devia sair. Verifiquei que ele tinha a mania de controlar tudo. Uma daquelas pessoas
que acham que devem ser elas a comandar as coisas.
Est a ver, o Bram era um gajo muito fechado. Quero dizer, por um lado convivia com toda a malta e conversava muito, mas por outro lado nunca deixou que ningum
se aproximasse muito dele. Incluindo as raparigas. Ele atraa muitas raparigas, mas nunca se envolvia com nenhuma delas. E nunca teve amigos ntimos.
Watkins soltou um suspiro profundo.
Excepto eu. No sei por que razo ele me escolheu para ser seu amigo. Talvez porque eu lhe fazia lembrar o irmo. Disse-me isso uma vez... que eu lhe fazia lembrar
o irmo.
O irmo? perguntou Owen perplexo. Ele falou de um irmo?
Sim. Perdeu o irmo no Vietname. Estava muito ressentido por causa da guerra. Muito irritado.
Watkins fez uma pausa para pensar.
Em todo o caso, fui companheiro de quarto dele durante um ano e meio. Mas chegou-se a um ponto em que me sentia como se voltasse a ter quinze anos e a viver com
a minha famlia. Tinha de esclarecer tudo com ele e ter horas marcadas. Tinha de discutir com ele todo o meu trabalho e... que diabo... ele queria delinear todo
o raio do meu futuro como artista. No abordava isso em termos de ter uma ideia e produzir uma pea. Era em termos definitivos.
Talvez eu seja uma pessoa muito submissa porque aguento tudo. Mas depois comecei uma relao sria com uma rapariga que agora  minha mulher e tinha de lhe esconder
que andava com ela porque o Bram achava que relaes prolongadas com mulheres eram veneno para um artista. Dizia que o casamento era um sistema da sociedade para
sugar os homens e para os subjugar... claro que todos ouvimos isso de Hillyer.
Por fim o Bram descobriu o que eu andava a fazer e ficou furioso e tambm j tnhamos tido outras discrdias e ps-me fora de casa e pronto. Fui viver com a Carmella
e ela ficou grvida e casmo-nos e tive de arranjar um emprego e deixar a escola de arte, e... bem, foi isso.
Ento, h dez anos, o Serian telefonou-me um dia inesperadamente e convidou-nos, a mim e  Carmella, para irmos  Arcdia no fim de semana. Na verdade eu no queria
ir, mas a Carmella ficou toda entusiasmada com isso, por isso deixmos os midos com a me dela e fomos para l.
O estdio j estava acabado. Eu queria v-lo por dentro, mas ele disse que no era possvel porque tinha o primo a viver l e o indivduo era maluco. Violentamente
paranico ou coisa parecida. E ele ficava mesmo perturbado se algum que no fosse o Bram entrasse no seu espao.
Ento, em vez disso fizemos uma visita  casa. Foi uma visita de relance. Li que ele j construiu muito mais depois de eu a ver, mas j naquela altura era uma coisa
que nunca mais se esquece.
A mulher dele, Lenore, estava l. Uma rapariga asitica muito bonita. O Bram disse-nos que era mais velha do que parecia, mas a Carmella ficou desconfiada. Achava
que ele s estava a dizer aquilo porque se sentia embaraado por ter casado com uma mulher muito mais nova. Watkins soltou um suspiro. Mas aconteceu que a Carmella
estava aborrecida e foi para l determinada a no gostar dele. A no gostar de nenhum deles, de facto. Mas no conseguiu resistir  Lenore. Uma pessoa to calma
e to dcil... claro que isso foi h dez anos. E j nessa altura me lembro de a Carmella dizer que a Lenore tinha uns olhos muito estranhos, portanto parece-me que
ela j era... mentalmente perturbada ou coisa parecida.
No entanto, a Carmella sentiu-se muito atrada por ela. Quando amos a sair, disse-me ao ouvido que devamos trazer a Lenore connosco arrancada das garras do Serian
e libert-la daquela casa monstruosa. Watkins abanou a cabea. Mal ela sabia que, se tivssemos roubado a Lenore, era o Bram que estvamos a salvar.
O homem observou por um momento as mos perfeitamente limpas.
Quando chegmos a casa, descobrimos um embrulho na mala do carro.
Era um dos quadros do Serian com um carto a dizer que era um presente para mim. Eh p! Como a Carmella se sentiu culpada por ter dito tanto mal dele.
Watkins encolheu os ombros e ele prprio parecia sentir-se culpado. Quando o Serian morreu e o preo das suas obras subiu vertiginosamente, vendi aquele quadro e
acabei de pagar a hipoteca desta casa. Paguei tambm umas frias para toda a minha famlia na Califrnia e ainda sobejaram umas economias.
E  tudo. Parece-me que no  grande coisa. Jonas Watkins levantou as mos e fez um sorriso forado e apologtico.
 uma grande ajuda, assegurou-lhe Owen. No h por a muita informao sobre o Serian.
No me surpreende. Watkins saltou da cadeira. Tenho ali caf feito. Quer uma chvena?
Sim, se faz favor.
O homem caminhou pelo corredor em direco  cozinha, e Owen tentou imagin-lo como jovem artista numas guas-furtadas no SoHo, a beber tequila com Bram Serian.
Era impossvel imaginar.
Owen deixou os seus olhos vaguearem pela sala. Os soalhos e as madeiras tinham sido todos removidos e restaurados carinhosamente. Conseguia imaginar Jonas Watkins
a trabalhar naquilo pacientemente, sem se preocupar com o passar dos anos. Em cima de uma mesa ali ao lado havia uma srie de fotografias de famlia emolduradas.
Owen observou a mulher de cabelo preto com um sorriso discreto e duas crianas com ar de refilonas, uma rapariga e um rapaz e imaginou como se sentiria agora Jonas
Watkins. Estaria arrependido de ter tirado aquele curso? Desejaria ter prestado ateno ao que Bram Serian lhe dizia e ter posto a carreira em primeiro lugar? Ou
estaria satisfeito com a sua vida?
Esse  o meu pessoal, disse Watkins quando voltou para a sala com duas chvenas de caf. Os midos esto agora na universidade, ambos com bolsas de estudo. Sorriu
de satisfao e abanou a cabea. Quando menos esperar, vou ter fotografias de netinhos para construir molduras para elas.
S mais umas perguntas e vou deix-lo livre para ir gozar o seu sbado, disse Owen.
No h problema. No h problema. S preciso de sair dentro de cerca de uma hora.
Owen virou uma pgina do seu bloco de notas. Sabe donde era Bram Serian?
No exactamente. Ele era muito reservado quanto a isso. Mas eu tinha o pressentimento, por pequenas coisas que ele disse, que era um mido do interior, como eu.
O que quer dizer?
Watkins encolheu os ombros. Do Nebraska, Iowa, Oklahoma, Missouri, Kansas, Illinois... sabe. Aquele enorme centro. Como  que lhe chamam? O celeiro do pas?
Ele disse mais alguma coisa que sugerisse alguma pista que conduzisse ao seu passado?
Watkins pensou por um momento. No. No me vem nada  cabea.
Alguma vez ele disse mais alguma coisa sobre esse irmo? Qualquer coisa?
Acho que no. E eu conhecia-o suficientemente bem para no me atrever a fazer-lhe quaisquer perguntas.
Owen pensou por um momento. Que espcie de empregos tinha o Serian? Como  que se sustentava e pagava as guas-furtadas?
Oh, ele no trabalhava. Ele tinha dinheiro. No quero dizer que fosse rico ou coisa parecida, mas tinha sempre dinheiro suficiente para viver. No sei bem onde 
que o arranjava mas sempre desconfiei que ele devia ter algum fundo de poupana ou qualquer coisa do gnero.
Uhmm... Owen desenhou nos seus apontamentos um crculo em volta da palavra dinheiro e a seguir ps um ponto de interrogao.
Ele j conhecia Geneva Johnson quando voc estava a viver com ele?
Watkins ficou tenso e ficou momentaneamente atrapalhado. Na verdade... ela era um dos nossos grandes motivos de discrdia. Parece-me que no haver mal nenhum em
lhe contar. Ele levou-a para as guas furtadas pouco antes de me pr fora.
Ela era modelo da Sociedade dos Estudantes de Belas-Artes?
Est a brincar? Watkins riu-se com um riso profundo. As modelos da Sociedade eram mulheres de limpeza com mais de cinquenta anos.
Ento como  que ele a conheceu? Ela era modelo de algum que ele conhecia ou...?
A Geneva ainda no trabalhava como modelo quando o Bram a conheceu. Foi ele quem a levou a iniciar a actividade como modelo.
Owen podia no fazer mais esforo para conseguir mais informaes sobre Bram e Geneva, mas o bvio desconforto de Watkins em relao a Geneva espicaou-lhe a curiosidade.
Sabe como o Bram a conheceu?
Jonas Watkins franziu as sobrancelhas e soltou um suspiro profundo.
O Bram gostava de percorrer os bares, no tanto para beber mas mais para observar as pessoas e engatar mulheres. Quanto mais desmazeladas fossem as espeluncas, mais
ele gostava. Uma noite estvamos num stio do outro lado, perto da zona de empacotamento de comida, e a Geneva estava l e ele sentou-se e ficou a observ-la durante
muito tempo. Disse que ela tinha o ar de quem fazia coisas que as meninas bonitas do Kansas nem sonhavam.
Owen sentiu um arrepio. Meninas bonitas do Kansas? Tem a certeza de que ele disse Kansas?
Tenho a certeza porque eu era muito estpido naquela altura e pensei que ele se referia a Dorothy do filme O Feiticeiro de Oz.
Portanto esse foi o comeo da relao deles?
Watkins deu uma risada estridente. Parece-me que  isso que se pode dizer. Ela usava o nome de Gena Rae Johnson naquela altura. O Bram falou com ela e o gajo com
quem ela estava puxou por uma faca e naquele lugar
rebentou uma das lutas mais danadas que j se viram. Pregou-me um susto de morte. Tambm me fez ficar com medo do Bram ao ver como ele podia ser feroz e fisicamente
violento. Mas foi a nica vez. A nica vez que o vi assim.
Ento ela foi viver com ele pouco depois disso? perguntou Owen para ele continuar a falar.
Pode-se dizer que ela se mudou naquela noite. O Bram levou-a logo connosco para a esconder do gajo da faca. Duas semanas mais tarde eu passei  histria e ela ficou
l definitivamente.
Watkins olhou de relance para o relgio de pulso. Ena! Detesto ter de o apressar, mas apercebi-me agora que j  mais tarde do que pensava.
No h problema. Owen levantou-se e pegou nas suas coisas. Mais uma vez obrigado pelo seu tempo.
Claro. Claro.
Quando Owen estava a vestir o casaco, Jonas Watkins disse, Ento foi falar com o velho Hillyer, heim?
Sim. Foi ele que me deu o seu nome.
Nem acredito que ele ainda se lembra de mim.
Parecia lembrar-se bem do senhor. Disse que foi um dos seus alunos mais talentosos.
Verdade? Ele disse isso?
Owen acenou que sim com a cabea.
Sabe, lembro-me de se atirar um dia ao Bram, a gritar com ele, dizendo que o Bram precisava de pr tanto entusiasmo na sua arte como punha em ser artista. Levei
anos at compreender o que ele queria dizer com isso. O velho Hillyer... era um bom tipo.
Jonas Watkins acompanhou Owen at  porta, depois pousou a mo na maaneta da porta e abanou a cabea. No h justia no mundo, sabe. No devia ter sido Bram Serian
a ter sucesso. A sua arte no tinha alma nem pureza. Para o Serian a arte era apenas um instrumento. Todos os outros ramos puros. Ardamos em arte. Teramos vendido
a alma ao diabo pelo nosso trabalho.
Os olhos de Watkins assumiram um olhar distante. E da, talvez o Bram tenha vendido a sua alma ao diabo. Talvez fosse esse o seu erro.
De Brooklyn, Owen foi pelo Battery Tunnel para a auto-estrada de West Side, depois dirigiu-se para o norte. O caminho foi mais fcil desta vez. Em parte porque j
sabia por onde ia e em parte porque tinha superado a excitao por voltar  Arcdia. Estava desejoso de voltar. Ansioso por saber mais.
Enquanto conduzia, fantasiou coisas sobre os papis de Bram Serian. Imaginou revistas, dirios, cartas uma janela para a actividade interior da mente do artista,
bem como uma fonte de pistas que conduzissem ao seu passado. E estava maravilhado com a boa sorte que lhe tinha trazido tal tesouro.
A excitao aumentou de intensidade dentro dele quando passou pelo porto de acesso  Arcdia. Percorreu rapidamente o caminho estreito, sem paragens para ver a
paisagem. Logo que parou o carro na zona de estacionamento
#ao lado da casa, a porta abriu-se e Lenore apareceu. Teve a impresso que ela tinha estado  espera dele. Ela ficou em silncio e atenta enquanto ele subiu os degraus.
Ol, disse Owen, mantendo firmemente a sua animada autoconfiana. Em vez de responder, ela voltou para trs, para a luz indirecta do trio da entrada. Ele seguiu-a,
parando desta vez para examinar o espao e descobrir como era conseguido o efeito da luz do mar. Verificou que era tudo conseguido atravs do vidro. No era s o
vidro espesso azul-esverdeado dos painis em volta da porta, o mesmo tipo de vidro tinha sido tambm usado na enorme clarabia octogonal l em cima.
Julgava que vinha mais cedo, disse Lenore.
Owen ignorou a impacincia expressa pela voz dela. Eu disse-lhe que tinha uma entrevista esta manh. Continuou a olhar para cima, para a invulgar clarabia. Isto
 mesmo extraordinrio, disse ele. O Serian desenhou a janela no vidro, ou mandou fazer o vidro depois de realizar o projecto?
O Bram no teve nada a ver com isso, disse ela em poucas palavras. Houve um homem, Guy Demaree, que veio restaurar uma janela do sculo dezoito que o Bram tinha
descoberto e acabou por ficar aqui durante quase um ano. Foi ele que encorajou o Bram a procurar tantas janelas antigas e utiliz-las na construo e foi ele que
fez este trio de entrada. Os olhos dela ficaram tristes por breves momentos. Ele disse que era uma ideia que sempre quisera experimentar. Demaree quer dizer do
mar.
Owen queria fazer-lhe mais perguntas sobre o artista do vidro, mas Lenore voltou-se e seguiu pelo corredor e ele seguiu atrs dela.
Hoje o cabelo dela estava apanhado em cima num rabo de cavalo, salientando o ngulo do queixo. Vestia uma camisola azul escura e calas pretas. A camisola reflectia
nos seus olhos negros o aveludado da floresta e ele perguntou a si prprio se algum lhe teria dado a camisola exactamente por essa razo. Talvez o seu marido? Ou
Guy Demaree? Talvez o Francs tivesse feito mais do que janelas. Esse pensamento apanhou-o de surpresa, porque trazia com ele algo que se assemelhava a cimes.
A casa tem trs torres, - disse ela, olhando para ele de relance por cima do ombro. - Reparou nelas quando vinha no carro?
Owen lembrava-se das torres ao pormenor. Eram todas de pedra e todas tinham topos de metal. Uma delas era larga e simples, com extenses de vidro transparente, de
tal maneira que parecia o cimo de um farol. Outra tinha sido projectada de tal maneira que podia ter sido uma torre de um castelo medieval. E a ltima no parecia
tanto uma torre mas mais um efeito decorativo que se assemelhava a uma torre.
Ela movia-se depressa e com determinao, conduzindo-o a um destino que ela tinha obviamente planeado antes da sua chegada. No lado sul, disse ela, h a torre de
vigia e a torre do castelo. Podemos subir l acima, se quiser, embora sejam ambas muito frias nesta altura do ano e as escadas para a torre de vigia s so acessveis
pelo telhado.
Gostava de as ver, disse ele.
Mais tarde, ento. Agora quero lev-lo  torre particular do Bram.
A torre do lado norte?  to estreita... julgava que era s para dar um efeito visual.
Construiu-a apenas com efeitos ilusrios. Ele queria ter um lugar secreto.
Levou Owen por uma sala de estar espaosa e pela sala de vdeo subterrnea e pelo quarto com a janela entaipada, depois parou numa das escadarias que no levavam
a lado nenhum.  capaz de adivinhar como se vai para l? perguntou ela.
Ele olhou  volta. As escadas do realmente acesso a algum lugar?
Experimente.
Ele subiu os catorze degraus e destrancou a porta. Tenha cuidado, acautelou-o ela.  uma grande queda.
Ele abriu a porta um bocadinho. Do lado de fora no havia nada seno ar e um bocado de telhado inclinado.
Desisto, disse Owen.
Ela indicou-lhe com um gesto que voltasse a descer, depois deram a volta por detrs da escadaria at uma pequena porta. A porta dava para um armrio estreito mas
profundo que estava cheio de vassouras e esfregonas. Ela entrou, fazendo-lhe sinal com a mo para fazer o mesmo. Mal havia espao para os dois. Ele estava mesmo
junto a ela, respirando o cheiro do ar viciado do armrio e o excitante aroma extico do cabelo dela, enquanto os seus olhos se adaptavam ao escuro, e ele teve um
momento de estremecimento. Ento ela rodou qualquer coisa para cima na parede e abriu-se uma seco de um painel de madeira.
Venha, disse ela, e ele baixou a cabea para passar pela abertura atrs dela.
Quando se endireitou, viu que se encontrava num espao estreito mas alto, no muito diferente de um tnel vertical com uma forma estranha. No meio tinha umas escadas
em caracol que levavam a uma porta branca. Era uma rea completamente fechada, mas no era escura. A curvatura da parede de pedra tosca tinha pedras translcidas,
inseridas aleatoriamente, que deixavam entrar um pouco de luz natural.
A carpete nos degraus da escada absorveu o som, de modo que as pessoas no resto da casa no ouvem nada, disse ela quando comeou a subir as escadas.
Ele estava fascinado pela parede e aproximou-se para tocar nas pedras translcidas entalhadas. Com a luz do sol a brilhar atrs delas, pareciam pedras semi-preciosas.
Ela parou a meio das escadas e olhou para ele. Sabe como as paredes da casa reflectem luz?  vidro. Bocados de vidro inseridos junto com a pedra. O que est a ver
 de facto uma parede exterior, e a luz entra por todo o stio onde foi usado um bocado de vidro.
Mas parece to slida do lado de fora.
E  slida.  um vidro muito natural e compacto, quase como um pedao de quartzo. Em muitos aspectos,  to duro como a pedra.
Lentamente, Owen afastou-se da parede e subiu as escadas atrs dela. Tudo naquela casa era bizarro. Fantstico. Inimaginvel. No entanto algum o tinha imaginado.
Algum o tinha inventado. A sua admirao por Bram Serian aumentou. O gnio daquele homem era multi-facetado. No admira que se sentisse frustrado com toda a ateno
centrada nos seus quadros. A pintura no passava de uma pequena janela na sua criatividade.
A porta abria para um compartimento espaoso com uma forma esquisita e um lado semicircular. A parede em forma de arco era de pedra e vidro e correspondia  verdadeira
torre que se via do lado de fora, mas o espao adquiria aquele tamanho porque se prolongava para o lado de trs, para baixo de uma seco de declive do telhado.
Era assim que enganava as pessoas. A prpria torre parecia pequena e apenas decorativa porque o era mesmo.
Owen andou pelo meio das pilhas de caixas e peas escultricas cobertas com panos at chegar  cadeira,  secretria e ao sof-cama postos em desordem junto  parede
de pedra circular. A luz natural junto da parede era forte e Owen viu que as lminas de vidro transparente tinham sido colocadas a intervalos regulares. No eram
mais largas do que um dedo, mas se aproximasse os olhos de uma lmina, conseguia ver o ptio l fora. Era como se estivesse a espreitar pelo buraco de uma fechadura.
O Bram planeou isto para ter luz, disse ela, e para poder espreitar as pessoas l fora sem elas saberem.  noite, se houver aqui uma lmpada, as inseres de vidro
so to diminutas que do lado de fora apenas se v um pequeno efeito de luz.
Nunca ningum desconfiou que houvesse aqui este espao? perguntou Owen incrdulo.
No. Nem a polcia, quando isto foi invadido por um grande nmero de agentes e fizeram uma busca a toda a casa.
Voc no mostrou isto  polcia? Ela abanou a cabea.
Voc sonegou provas  polcia?
Eu no soneguei nada. Eles tinham um mandato de busca e inspeccionaram a casa.
Mas no encontraram este espao?
Ela abanou novamente a cabea. Ter-lho-ia mostrado se me tivessem pedido. Mesmo se tivessem dito,  tudo? ou se tivessem perguntado se o Bram tinha um escritrio.
Mas eles mal falaram comigo. Eles apenas derrubaram coisas por todo o lado e despejaram as gavetas para o cho. Ela sentou-se na cadeira e cruzou os braos com frio.
O Bram no tinha confiana na polcia. Teria detestado que andassem a mexer nas suas coisas.
E o Rossner? Ele viu tudo isto?
No. Nada disto est relacionado com o julgamento. Owen olhou para ela de olhos fixos.
Quer examinar os papis do Bram ou no? perguntou ela.
Ele continuou a olhar para ela, tentado a dizer-lhe o que ela podia fazer com os papis e ela mudou de atitude.
Eu tinha medo que o Rossner fosse obrigado a fazer queixa de mim 
polcia por ter escondido algumas coisas, acabou por admitir de m vontade. E no queria que o pessoal do Rossner tivesse de passar por uma situao dessas. O Bram
nunca teria permitido tal coisa.
Acha que ia permitir que eu entrasse aqui?
No. disse ela. Tremeu de frio e apertou ainda mais os braos ao peito Nem eu podia vir aqui. A nica razo por que mo mostrou, foi porque tinha medo de poder morrer
aqui e depois ningum ia conseguir encontrar o corpo.
Owen abanou a cabea incrdulo e olhou  sua volta para a confuso de caixas e peas no identificveis. O que so todas estas coisas?
Papis... registos... recordaes... Arte. Ela deixou os olhos vaguearem pelo espao. O Bram gostava de guardar coisas. Mas no queria t-las onde outras pessoas
pudessem bisbilhot-las. Especialmente a Natalie.
E a arte? O seu estdio estava sempre fechado e inacessvel s outras pessoas, no era assim? Ento por que havia de trazer para aqui as peas de arte?
No sei.
Ele estava estupefacto. Um espao numa torre secreta atafulhado de tesouros. Quem ia acreditar numa coisa destas? Mal podia acreditar no que via.
Por onde comeamos? perguntou ele por fim.
Por onde voc quiser, disse ela.
Bem, existe algum ponto por onde comear? Ou alguma espcie de ordem pela qual as coisas foram guardadas?
Ela encolheu os ombros.
Voc j lhe deu uma vista de olhos? No propriamente. Ela levantou um pouco o queixo. Ainda no me sentia preparada para isso.
E agora est?
Sim.
As caixas eram todas iguais, com tampas destacveis, o tipo de caixas que podiam ser usadas para armazenar documentos de tamanho excessivo e por isso Owen esperava
ver documentos, ou qualquer coisa parecida com documentos, quando abriu a primeira tampa. Mas, em vez disso, a caixa estava atafulhada de uma quantidade de papis.
Abriu mais algumas caixas e eram todas idnticas.
Isto vai levar muito tempo, disse ele. Ela sentou-se na cadeira imperturbvel.
Isto aqui est gelado e no h espao para poder espalhar as coisas. A minha sugesto  que levemos os papis para um lugar mais confortvel.
O Bram no ia gostar disso, disse ela.
O Bram no ia gostar de nada do que estamos a fazer, lembrou-lhe ele. Ela cedeu, mas parecia preocupada quando carregaram caixa a caixa pelas escadas abaixo, quase
como se estivesse  espera de ver o fantasma de Serian a aparecer a qualquer momento.
Levaram as caixas para a sala de estar gigante do Bram. Eram vinte e duas ao todo. Owen colocou as suas compridas pernas numaposio tolervel,
sentado no cho e abriu uma caixa ao acaso. A sua primeira mo-cheia de papis trazia um carto de Edie Norton, cheques cancelados, contas de comida de cavalos e
da mercearia e um artigo agrafado sobre a compra de um monitor de vdeo de ecr gigante. Lenore sentou-se num sof ao lado e ficou a observar.
Owen no levou muito tempo a perceber que Bram Serian tinha guardado tudo e no tinha usado nenhum mtodo especial para o fazer. Dar volta a tudo aquilo ia ser uma
tarefa muito mais difcil do que ele tinha pensado. Entretanto, parecia que Lenore achava que tudo aquilo era problema dele, visto que se instalou como se fosse
uma espectadora na bancada.
Voc sabe o que procura? perguntou ela.
Com certeza. Cartas, revistas, boquilhas, mapas de tesouros, confisses assinadas... o costume.
Por que est a ser sarcstico?
Porque  irritante ser tratado como se fosse uma pessoa contratada e querer que a ajude a procurar coisas do passado sem ter uma pista sobre como so essas coisas.
Eu sei que est a usar-me, mas no consigo imaginar para o que me est a usar.
Estamos a usar-nos um ao outro.
Neste momento a situao no parece que seja to mtua.
Voc vai acabar por ter muito material para o seu livro que doutro modo nunca teria conseguido.
Ele respirou fundo. Tem razo. Desculpe. Mas esta avalanche de papis  sufocante. E eu no sei mesmo o que pretende que eu procure.
Ela continuou sentada por longos momentos com as mos cruzadas no colo e uma expresso pensativa na cara. Depois levantou-se. A sua voz era firme e a sua atitude
determinada quando disse, Venha. So horas de ir dar um passeio.
Levou-o para fora, para a zona arborizada, em silncio. Havia diversas rvores de folha perene dispersas, mas a maior parte das rvores eram de folha caduca, por
isso havia uma camada espessa de folhas a cobrir o cho gelado.
Lenore olhou para ele de soslaio. Esta manh o Rossner telefonou-me e eu disse-lhe que estava a trabalhar consigo. Ficou zangado. Ele pensa que posso dizer ou fazer
alguma coisa que possa vir a ser-me prejudicial no julgamento ou que voc possa deixar escapar para a comunicao social.
E o que  que voc lhe disse? perguntou-lhe Owen.
Eu disse-lhe que tenho confiana em si. E que voc seria parvo se revelasse qualquer informao agora, porque nesse caso ia reduzir a importncia do seu livro.
E qual foi a reaco dele?
No ficou muito satisfeito. A boca dela esboou um breve sorriso irnico. Ele disse que ia tentar delinear um acordo para voc assinar.
Por mim est bem, disse Owen.
O caminho em que se encontravam tinha quase largura suficiente para poder passar um veculo. Embora estivesse coberto de vegetao em alguns locais, Owen achava
que tinha sido rasgado pelo meio das rvores com uma
mquina alguns anos atrs.
No est a fazer-me nenhumas perguntas, disse ela, com ar de quem est nervosa.
Presumo que voc tem alguma coisa para me dizer. Continuou a olhar para o caminho. E que o vai fazer  sua maneira.
Ela saiu do caminho para contornar a carcaa partida e enegrecida de uma grande rvore. Foi um relmpago, disse ela. Owen esperou.
Para compreender o que eu procuro e porqu, tem de saber mais sobre mim. Tem de saber como  que vim parar aqui a este pas. Ela fixou os olhos nele com um olhar
intenso. Est interessado em saber? Pretende ir mais longe?
Os olhos dele cruzaram-se com os dela e uma fome intensa apoderou-se dele. Sim, disse ele. Sim. Ele queria ir to longe quanto ela o permitisse.
Lenore Serian encostou-se ao tronco inerte da rvore e ficou a olhar o horizonte.
Eu tinha oito anos, disse ela. Era ao fim da tarde e o tempo estava quente. Eu estava em cima de um bfalo-selvagem-de-gua... inclinada sobre o seu dorso, de tal
modo que o meu queixo estava sobre o pescoo dele.
De repente ouviu-se o barulho de um camio. Eu tinha passado a maior parte da minha vida na cidade, portanto os camies no eram assim to interessantes. Nem de
perto nem de longe to interessantes como o bfalo. Mas o camio veio mesmo na direco da casa e saltaram de l muitos soldados e seguiram-se momentos de gritaria
e disparos ruidosos.
Uma mulher puxou-me do bfalo. Pegou-me na mo e corremos. Era proibido ir para a selva, mas era o nico stio onde podamos esconder-nos, por isso fugimos para
l.
No sei quanto tempo nem que distncia corremos. De repente um homem agarrou-me. Um soldado estrangeiro e forte de cabelo comprido e mos sujas. A imundcie das
suas mos tocou-me e eu puxei-lhe o cabelo e bati-lhe na cara, mas ele no me largou. No tirou as mos. Apareceu outro soldado e os dois amarraram-me com cordas.
Puseram-me na parte de trs de um camio que era como uma caverna e onde havia mais soldados. Enquanto se afastavam ouvi mulheres a gritar. Mas eu s conseguia pensar
no bfalo. Esperava que os soldados no tivessem feito mal ao bfalo.
A viagem no camio durou muito tempo. Deram-me bombons. Depois de escurecer levaram-me para fora para urinar  beira da estrada. Do camio levaram-me para um helicptero.
Eu conhecia os helicpteros e tive medo que me levassem para uma priso de guerra. Ou para onde levavam as crianas cujos pais eram soldados americanos. Muita gente
odiava crianas como eu, cujos pais eram soldados brancos.
S trs dos homens que iam no camio entraram para o helicpteroPareciam-me todos grandes e sujos e cabeludos. Como se fossem gigantes num pesadelo. Deram-me comida
de uma lata, depois amarraram-me a um
#assento na parte de trs. O helicptero rugiu e estremeceu. Elevou-se em direco ao cu. Vomitei toda a comida da lata. Depois devo ter adormecido.
Quando voltei a acordar j estava escuro e eu estava dentro de uma coisa que se movia. Pensei que fosse outro camio. Ouviam-se barulhos ruidosos de motores e havia
contentores e coisas metlicas amarradas  minha volta. Passado algum tempo, um dos homens veio ver-me. Sentou-me e voltou a dar-me comida intragvel de uma lata.
Depois foi-se embora. Algum tempo depois veio a luz do dia e vi  minha volta janelas que davam para o cu azul. Estava num avio.
Depois perdi as coisas de vista. Lembro-me de sonhar que estava a dormir e de ficar triste quando acordei porque tinha sido apenas um sonho. Depois disso tentei
continuar a dormir. No queria voltar a acordar.
Lembro-me de acordar subitamente no assento de trs de um carro. J no estava amarrada e tinham-me vestido outra roupa. Um lindo vestido cor-de-rosa e sapatos brancos
to brilhantes que podia ver neles a minha cara.
Havia dois homens no carro. Um condutor e um passageiro no banco da frente. Nenhum deles era militar. No sabia se eram homens novos ou se eram alguns dos soldados
anteriores que se tinham lavado e mudado de roupa.
O condutor virou-se para olhar para mim. Estava a falar e a rir. Eu no conhecia muitas palavras americanas mas consegui perceber alguma coisa. Come. Vai. Sim. No.
Ele continuava a sorrir e a falar comigo. Depois apontou para a janela ao lado dele... apontou e fez gestos para eu olhar... e de repente estava um monstro a olhar
pela janela. Pensei que o homem tivesse convocado um demnio. Tinha uma cara redonda, grande e lustrosa e uma boca grande e feia de metal. Saam sons da boca de
metal e o homem falou com ele. Lembro-me de pensar como era corajoso. Falou com ele; depois conduziu o carro para um edifcio onde lhe deram sacos de comida pela
janela.
O condutor passou para trs a comida embrulhada em papel, para mim e deu-me um copo enorme. Nunca tinha visto um copo to grande. Era de plstico decorado com cores
brilhantes com uma tampa e uma palhinha. Bebi um pouco. Era cola. J tinha bebido cola antes, pequenos goles de uma garrafa partilhada, e nem queria acreditar que
tinha o copo cheio de cola s para mim.
Comi aquela comida de sabor estranho e bebi a cola. Comi e bebi. At sentir o estmago quase a rebentar. Mas ainda havia mais, e tinham-me ensinado que era de muito
m educao no acabar o que nos davam, por isso continuei a comer e a beber. At que vomitei por todos os lados o meu vestido de flores cor-de-rosa.
O condutor deu-me um berro. Parou o carro e puxou-me pelo brao para fora do carro. Estvamos  beira de uma estrada. Lembro-me que ele continuou a gritar-me e eu
estava to envergonhada, to humilhada, que ca de joelhos na gravilha e curvei a minha testa para o cho. Ento o outro homem saiu do carro e houve mais gritaria
e os dois homens envolveram-se numa briga. Eu tinha medo de olhar, por isso fechei os olhos e no os abri durante muito tempo.
Lenore Serian respirou fundo.
Foi assim que vim para a Amrica, Owen. Essa  a pura verdade. Owen ficou a olhar para ela, chocado com a histria.
Isso aconteceu quando voc tinha oito anos? perguntou ele incrdulo.
Sim.
Meu Deus, Lenore. Eu pensava que tinha vindo do Vietname como adulta.
Ela sorriu com um ar triste.  o que toda a gente pensa. O Serian adorava todos esses rumores sobre eu ser uma espia durante a guerra. Desconfio que ele prprio
incentivou alguns deles.
O que aconteceu a seguir? Para onde a levaram?
Lenore deu um suspiro. Depois disso h uma grande lacuna. E antes... antes de chegarem os soldados... tambm no consigo lembrar-me disso. Voltou-se para fixar o
olhar em Owen com uma expresso suplicante e de frustrao. Tenho feito muito esforo, mas a memria simplesmente no est l.
No admira. As minhas recordaes de infncia esto cheias de nvoa antes da idade de nove anos mais ou menos. E isso apesar de ter fotografias antigas que posso
ver e uma famlia com quem posso lembrar o passado.
Verdade?
Sim. E ento se acrescentarmos a isso o trauma... Uma menina de oito anos a ser subitamente afastada de tudo o que conhecia... acho que as crianas muitas vezes
bloqueiam simplesmente as coisas que as preocupam ou as assustam.
Ela pareceu ficar aliviada.
Ento voc acha que sou uma pessoa normal? perguntou ela.
Ele queria dizer-lhe que no iria to longe, mas em vez disso disse-lhe, Acho que  normal as crianas esquecerem-se facilmente. Talvez seja um dos truques de sobrevivncia
da natureza.
Aquilo pareceu convenc-la. Fez um gesto a Owen para voltarem para o caminho e continuaram a andar.
Ento, disse ela vivamente. O que pensa dessa histria? Tenho-a relembrado vezes sem fim. Diga-me o que acha dela.
Owen pensou por um momento. Parece que voc estava no campo, mas que estava de passagem ou se tinha mudado recentemente da cidade para l. O seu pai era um soldado
americano mas parece que no conhecia nenhum dos militares que foram l naquele dia. Parece, para alm do facto de estar aterrorizada e confusa, que no foi realmente
maltratada.  mais ou menos isso?
Sim, disse ela delicadamente. No  muito, pois no?
No, mas  um princpio.
Ela olhou para ele com uma expresso de optimismo.
E a sua me? perguntou ele. Onde  que ela se encaixa?
No sei. No sei onde ela estava naquele dia, nem com quem eu estava. As recordaes que tenho dela no ajudam nada. Parou de andar e fechou
os olhos. Sei como eram os braos dela quando me abraavam. Sei como cheirava o seu cabelo. Lembro-me de dormir enroscada junto dela. s vezes penso numa pequena
histria ou fbula estranha e sei que a ouvi da minha me quando era pequena.
Ela olhou para Owen com uma expresso de angstia nos olhos. Fao tanto esforo por me lembrar de tudo sobre ela, mas no consigo imaginar como era o seu rosto.
E no consigo lembrar-me do nome dela.
E o seu pai? Sabe alguma coisa dele?
Ela abanou a cabea. Nada. No tenho nenhuma recordao dele.
Quem eram aqueles soldados que a trouxeram?
No sei, confessou ela em voz baixa.
Se voc tinha medo dos soldados porque eram estrangeiros, ento isso pode significar que...
No! disse ela impacientemente, como se descobrisse algo de novo. Eu no estava com medo por eles serem estrangeiros. Tinha medo deles porque eles iam a correr e
a dar tiros, e a gritar palavras que eu no compreendia. Acho que os estrangeiros me eram muito... familiares.
Comearam de novo a caminhar lentamente.
Est bem. Owen meditou sobre isto por alguns momentos. E a agncia de refugiados, ou fosse l o que fosse, que se responsabilizou por si quando aqui chegou? O que
 que lhe disseram? Com certeza que tinham alguma informao sobre quem voc era e como veio aqui parar.
Ela hesitou e desviou os olhos.
Os meus primeiros meses so uma lacuna completa. No sei onde estive. Depois... durante muito tempo no pude comunicar com ningum porque no percebia a lngua inglesa.
E no havia nenhum tradutor? _.

Ela abanou a cabea.
Mas isso  incrvel. No havia outros refugiados que pudessem ajud-la?
No. Na altura em que tomei conscincia do ambiente que me rodeava, estava sozinha no meio de americanos.
Ento como  que aprendeu a falar Ingls?
Como aprende um beb.
Owen abanou a cabea. Isso deve ter sido horrvel.
Na verdade no teve importncia, porque durante anos no consegui falar. No conseguia emitir qualquer som. Portanto, mesmo que soubesse falar Ingls, no teria
dito nada. Eu era mais parecida com um animal do que com uma criana.
Passou-se alguma coisa consigo?
Fisicamente, no. Disseram-me que tinha uma espcie de mutismo provocado por um trauma. E mesmo quando comecei a falar, era s com certas pessoas.
Ento voc nunca descobriu quem a trouxe, nem porqu, nem como, nem que registos havia sobre si?
No.
Como  que vivia? Puseram-na em casa de uma famlia de acolhimento? Ela baixou os olhos. Fui levada para uma quinta. As pessoas de l tomaram conta de mim.
E depois casou-se com o Bram?
Sim.
De repente estava tudo a esclarecer-se. Ela tinha estado numa m famlia adoptiva e depois tinha conhecido Bram Serian.
Era muito nova quando casou com ele, no era?
Sim.
Que idade tinha? Ela no respondeu.
Provavelmente sou capaz de calcular sem uma grande margem de erro, disse ele. Sabendo a sua idade quando veio para aqui e o ano em que casou e...
Tinha quinze anos, disse ela terminantemente.
Meu Deus! Quinze anos. E nenhum de vs queria que as outras pessoas soubessem que voc era muito mais nova do que ele, por isso mentiram, e ele disse a toda a gente
que voc parecia mais nova do que era.
Sim.
Caminharam em silncio por momentos.
Muito bem, disse Owen, tentando parecer mais convicto do que realmente estava. Lembra-se dos nomes de alguns lugares onde passou a sua infncia, ou lembra-se alguma
coisa da cidade em que viveu?
Nada que possa ajudar. Lembro-me de uma casa de madeira sobre estacas e muita gua, mas no muito mais para alm disso.
Pergunto-me se haver alguns registos no Vietname ou...
J mandei verificar isso alguns anos atrs.  um beco sem sada.
O seu nome... Devem t-lo mudado quando veio para os Estados Unidos. Qual era o seu nome antes de se chamar Lenore?
No me lembro de outro nome que no fosse Lenore.
O caminho passou do meio das rvores para uma clareira que tinha vista para um enorme lago gelado. Owen protegeu os olhos da luz para olhar para a gua. Com aquele
brilho intenso apenas conseguiu descortinar uma pequena doca de madeira no outro lado.
O Bram construiu ali um acampamento permanente, disse ela. Ele gostava de levar os amigos para o que ele chamava de incurses na rudeza do campo. No eram admitidas
mulheres. Tambm no era permitido levar rdios nem aparelhos que usassem baterias. Ficavam l durante um fim de semana ou uma semana, dependendo do estado de esprito
do Bram. A maior parte dos homens conseguiam aguentar, apesar dos mosquitos e das cobras e aranhas e doninhas fedorentas. Os poucos que abandonavam o acampamento
e se refugiavam em casa nunca mais eram benvindos  Arcdia.
Owen ficou ao lado dela e olhou para o lago. Imaginou como aquilo devia ser bonito, com todas as rvores cheias de folhas verdes e a gua a pulular de vida.

SEDUO CRIMINOSA 213
Ainda no sei bem o que espera que eu faa, Lenore. O que estou ao certo a ajud-la a procurar?
Quem eu sou, disse ela.
Mas como  que a minha investigao sobre o passado de Bram pode indicar-lhe isso? O que tem uma coisa a ver com a outra?
Ela continuou de olhos fixos na gua gelada. O Bram sabia quem era o meu pai, disse ela amargamente. Ele sabia coisas que no queria dizer-me.
Owen abanou a cabea, perplexo. Bram Serian sabia quem era o seu pai? Como pode ser isso? Tem a certeza?
Sim. Comeou quando eu era... Ela olhou para Owen. Alguns anos depois de o Bram e eu nos termos casado. Eu fiquei obcecada pelo meu pai... sonhava com ele... cortava
gravuras das revistas e fingia que eram fotografias dele... criava fantasias sobre como seria se o encontrasse e sobre o que ele me diria... o que pensaria de mim...
o que me diria sobre a minha me.
O Bram ficou furioso quando percebeu o que eu andava a fazer. Tentei explicar-lhe, pensando que estava magoado apenas porque talvez pensasse que eu queria mais ao
meu pai do que a ele. Mas nada o tranquilizava. Proibiu-me at de pensar no meu pai.
Riu-se com um ar triste.  capaz de imaginar algum que acreditasse ter poder para fazer isso?
Mas o Bram pensava que podia controlar tudo. E na maior parte dos casos tinha razo. Ele controlava a minha vida. Excepto esse sonho de ter um pai.
Tentei explicar-lhe os meus sentimentos e implorei-lhe que me ajudasse. Tivemos brigas por causa disso. Aprendi a brigar com o Bram utilizando o meu pai como o meu
archote. Aprendi a enfrent-lo.
Ento, uma vez em que ele tinha estado a beber, introduzi o assunto e ele comeou a falar de forma descontrolada, dizendo que eu era muito tola. Disse que o meu
pai no me servia de nada como filha. Que o meu pai sempre soubera do meu paradeiro e que obviamente tinha optado por manter-se escondido.
Fiquei chocada. Fiquei furiosa. Pensar que o Bram, este homem que eu adorava, sempre soubera dos segredos do meu passado e nunca me tinha dito nada. Que me tinha
privado intencional e cruelmente da minha identidade... nem consigo exprimir o dio que lhe tinha naquela altura.
Levei-o a beber mais. At que caiu da cadeira para o cho. E ento perguntei-lhe se o meu pai ainda estava vivo. Se o meu pai tinha outra famlia. Se o meu pai tinha
vergonha de mim. Ele comeou a chorar e disse que eu era desumana porque no compreendia nada do que eram desgostos e fraquezas.
E foi tudo quanto consegui que ele me dissesse. No se lembrava de nada, quando ficou sbrio. A partir dessa altura fiquei vigilante e constante. Fazia-lhe perguntas
sobre o Vietname, sobre os seus amigos, sobre tudo o que pudesse conduzir a uma pista que desvendasse a ligao que ele tinha com o meu pai. Na maior parte das vezes
no respondia, mas de vez em quando eu conseguia obter um pequeno fragmento de informao.
Mas como  que diabo o Serian tinha conhecimento da identidade do seu pai? E por que motivo se recusava a contar-lhe?
Por momentos ela ficou com uma expresso de um sentimento misterioso e intenso.
Ele no se limitou a tomar conhecimento, disse ela amargamente. Ele soube durante todo o tempo. Encontrou-me e trouxe-me para a Arcdia devido ao meu pai ser quem
era.
Meu Deus! murmurou Owen. Tem a certeza?
Ele soube durante todo o tempo, repetiu ela. Eu nunca fui importante para ele devido a eu ser quem era. Ele nunca me quis. Eu s era importante por causa do meu
pai. Porque ele conheceu o meu pai na guerra.
Owen desejava apert-la nos braos e segur-la at que o sofrimento dela acalmasse. Sentiu a sua angstia. Ela acreditava que ambos os homens da sua vida, o pai
e o marido, a tinham trado. Que nenhum deles a quisera.
Embora irremediavelmente, tentou consol-la com palavras, dizendo, Mesmo que o Bram a tenha ido buscar por causa do seu pai, isso no quer dizer que no se tenha
apaixonado por si posteriormente.
Ela olhou para ele. Isso tambm j no faz qualquer diferena. Agora s quero o meu pai. E saber quem sou. O Bram no tinha o direito de me enganar nessa questo!
E acha que a chave da sua identidade est escondida algures entre os papis do Bram?
Sim. Viu como ele era compulsivo em guardar coisas. Tem de haver alguma coisa na quantidade de papis daqueles anos que mostre a ligao dele com o meu pai.
Owen no teve resposta.
Ela respirou fundo e afastou-se dele, como se de repente se sentisse constrangida. Primeiro andou por ali ao acaso, dando pontaps nos montes de folhas. Depois evoluiu
com uma atitude intencional. Ele ficou a observ-la enquanto pegava numa pedra grande do cho, levou-a pela ngreme ribanceira abaixo para o lago e arremessou-a
a cerca de trinta centmetros da margem. A pedra quebrou o gelo, produzindo um buraco escuro com fracturas irradiando  sua volta, como se fossem ziguezagues de
relmpagos. Ela apanhou um ramo cado e terminou o trabalho, batendo no gelo quebrado to longe quanto lhe foi possvel alcanar, at haver uma grande extenso de
gua descongelada.
Owen no teve de lhe perguntar o que estava a fazer. Sabia-o muito bem. Ela tinha quebrado gelo para que o gado pudesse beber por muitas manhs de inverno sem que
ela tivesse de se preocupar.
H por a cavalos, ou gado? perguntou ele.
No. Mas h muitos animais selvagens mapaches e coiotes e marmotas e pssaros. Ela olhou para a gua fria. Dormir como um peixe, disse ela. Eu costumava desejar
ser capaz de fazer isso. Fazer uma cova na lama fria e ficar insensvel durante meses seguidos.
Owen pegou-lhe na mo.
Repentinamente ela deu um puxo e voltou para o caminho. Ele ficou a olhar para ela por um momento, um longo momento solitrio, depois seguiu atrs dela.
Owen observou a linha de caixas amontoadas na sala gigante de Bram Serian.
Muito bem, disse ele, procurando mostrar um ar de confiana.  evidente que o Serian usou o mtodo de deitar-na-caixa, para guardar informaes, portanto parece-me
que vamos ter de pr as coisas em ordem. Talvez devssemos comear por seleccionar as coisas por categorias e fazer montes no cho. Sem dvida que temos aqui espao
suficiente. Isto , a no ser que voc tenha outra ideia.
O investigador  voc, disse ela. Eu no saberia por onde comear com tudo isto.
Certo. Bem, quer trabalhar individualmente, ou talvez um de ns pudesse fazer a seleco e o outro fazer os montes ou...
Em vez de responder, ela dirigiu-se para a porta. Enquanto voc comea, eu vou buscar alguma coisa para bebermos, disse ela.
Voltou passado algum tempo com um grande jarro de ch frio e dois copos cheios de gelo.
Pensava que as pessoas do Leste no apreciavam o ch frio, disse ele. Ela encheu os dois copos. O Bram gostava dele.
Ele bebeu um gole longo. Muito bem, estas so as categorias que tenho at agora. Mostrou-lhe os montes que tinha feito enquanto ela tinha sado. Operaes bancrias,
correspondncia pessoal, contas, recortes de arte e recortes variados. Por que no os organiza onde h mais espao?
Ele voltou ao trabalho de seleco, sem prestar ateno, enquanto ela levava os papis para o centro da sala. Quando levantou os olhos, ela estava quieta, a olhar
para ele.
Escute, disse Owen,  evidente que voc no est muito entusiasmada com esta abordagem e talvez tenha razo.
Notou-se nos olhos dela qualquer coisa que se assemelhava a pnico. No. Por favor, continue. Quem sabe o que vai encontrar ou o que pode ser importante. Juntou
tudo o que ele tinha disposto em ordem e levou-o.
Trabalharam durante trinta minutos at acabar a primeira caixa. Quando ficou vazia, ele esticou as pernas, que estavam tolhidas, depois caminhou um pouco para ir
admirar os montes de papis que se estendiam pela sala. Agora podemos comear a colocar etiquetas de identificao e pr em ordem.
Ele baixou-se para endireitar algumas coisas. Lenore, por que ps... Examinou as letras cuidadosamente. Espere um minuto... estes esto todos misturados. E estes
recortes... estes no vo...
Ento faa voc sozinho! Eu estou farta!
E voltou-se para ir embora, mas Owen agarrou-a pelo brao. O que se passa?
No me toque.
Est bem. Est bem. Levantou as mos no ar. Quer que v embora? Quer que esquea toda esta pesquisa? O que quer que eu faa.
Quero que seja voc a fazer essa parte.
Ele tentou controlar o seu aborrecimento. Mas que mulher mimada ela era. No era capaz de fazer nenhuma tarefa. Mesmo tratando-se de uma coisa que ela queria muito.
Muito bem. Eu trato disto!
Ela sentou-se num sof enquanto ele trabalhava. A sala ficou envolta num pesado silncio. Ele tentou fixar a ateno nos destroos de Serian, mas aquilo parecia
um exerccio intil. O que era importante? O que procurava?
Depressa se apercebeu de que cada caixa representava um ano, por isso retirou todas as tampas, etiquetou-as e ordenou-as cronologicamente. Eram vinte e duas caixas.
Vinte e dois anos. Agora tinha pelo menos um objectivo. Foi buscar a caixa mais antiga.
O seu entusiasmo diminuiu quando verificou que Serian tinha guardado as mesmas coisas vinte e dois anos atrs. Se alguma diferena havia, era que ele tinha sido
mais compulsivo nessa altura, guardando notas de renovao de assinaturas e recibos de limpeza a seco e bilhetes de estacionamento e uma quantidade infindvel de
recortes de revistas. Owen verificou cada elemento antes de o colocar num dos montes. Quando acabou, escolheu ao acaso a sua prxima caixa, mais uma vez para variar
apenas de monotonia.
Vrios centmetros para baixo descobriu um tubo de carto e soube imediatamente que tinha encontrado alguma coisa interessante. Espreitou para dentro dele. Havia
qualquer coisa enrolada l dentro. Cuidadosamente, retirou o contedo e estendeu-o. Era uma simples folha branca com um rectngulo de carvo cinzento ou lpis, com
uma lista de nomes decalcados. No. No era propriamente gravado.
Lenore, venha ver isto. Isto diz-lhe alguma coisa? Ela saltou do sof e foi ajoelhar-se ao lado dele.
Acha que  alguma espcie de arte? perguntou ele.
Parece um decalque, disse ela com hesitao. O Bram tinha amigos que faziam decalques. Sabe... em que coloca uma folha de papel em cima de uma coisa uma parede ou
uma lpide ou outra coisa qualquer e se fricciona com carvo.
Um decalque. Owen pensou nisso. Lembrou-se de ter lido alguma coisa. Isto  um decalque do memorial do Vietname! Olhe...  exactamente isso!
Lenore ficou a olhar para ele. Do memorial do Vietname? Ela pareceu ficar aterrorizada.
Pode no significar nada, mas Owen tentou controlar o seu entusiasmo quem sabe...
Ser que podia... Ela ps as mos na boca como se tivesse medo de perguntar. Pode ler-me o que est a escrito?
Com certeza.
Havia trs linhas com nomes completos. O resto eram partes que iam desaparecendo gradualmente nas margens. Leu-lhos em voz alta. Peter Tsosie, Lus Veranza e Leroy
Wilson. Donald Abcock, Luther Bachman e Rodney Benedict. Oscar Gibney, Mohammed Hamid e Morris Isaacs.
#Acha que um desses nomes pode ser do meu pai, Owen?
No sei. O Serian tinha com certeza um motivo para guardar um decalque especialmente com estes nomes... mas lembre-se de que ele esteve com muitos deles, provavelmente
perdeu um grande nmero de amigos. E alm disso Jonas Watkins disse que tambm perdeu um irmo na guerra. Se o irmo tivesse um apelido diferente... Owen encolheu
os ombros.
Ela enterrou a cara nas mos e curvou-se para a frente. Ele receou que aquilo fosse o comeo de alguma coisa terrvel e sentiu uma onda de impotncia. Mas o colapso
nervoso no aconteceu. Pelo contrrio, ela endireitou-se, limpou a cara com as mos e olhou-o nos olhos.
Devo-lhe uma explicao, disse ela. Owen ficou ansioso. Voc no me deve nada...
Ela no retrocedeu. Estava determinada a confessar-lhe alguma coisa e ele no sabia bem se queria ouvir, mas parecia-lhe que no tinha alternativa.
Vergonha e desafio, confiana e medo combinavam-se nos seus olhos negros. Respirou fundo. Eu no consigo ler, Owen. No  que no queira ajud-lo,  que...
A sua primeira reaco foi de alvio. Receava que a confisso dela revelasse qualquer coisa de sinistro e imperdovel. A sua reaco seguinte foi de perplexidade.
Quer dizer que precisa de culos ou que  dislxica ou o qu?
No. Eu... Eu no sei o que dizem as palavras.
Quer dizer que... no sabe como...?
Sei o meu nome. Treinei-me a copi-lo repetidas vezes at saber escrev-lo. Tambm sei os meus nmeros.
Nunca aprendeu a ler Ingls? O Serian sabia isso?
Claro que sabia. Ele sabia tudo sobre mim. Assumiu uma atitude defensiva.
Owen ficou chocado pela segunda vez naquela tarde. Levantou-se do cho e andou pela sala, sem ver nada. Era incompreensvel. Esta mulher inteligente e bem falante
no sabia ler?
Isto  to estranho, Lenore. Quero dizer, no  que no haja pessoas que no sabem ler. Eu sei que h. Mas eu... nunca teria imaginado. Voc finge to bem.
Agora ficou com uma opinio menos favorvel a meu respeito, disse ela com ar srio.
No! No  nada disso.
O Bram disse-me que as pessoas reagiriam mal se soubessem. Disse-me para manter isso em segredo. Mas  difcil, agora que estou sozinha.
- Ningum mais sabe?
- Mais ningum com quem me relacione.
Mas os advogados... os formulrios que teve de assinar...
Eles dizem-me para ler as coisas e eu finjo. Depois escrevo o nome nas linhas que me indicam.
Mas as operaes bancrias... as contas... a vida diria... no sei como consegue.
Todas as minhas contas so mandadas para o banco que administra a propriedade. O Stanley vem na sua carrinha e traz-me tudo o que preciso e manda a conta para os
advogados. No tenho de fazer nada.
Nem consigo imaginar como tem sido difcil para si. No saber ler. Meu Deus!
Agora  muito difcil. H coisas que quero e coisas que gostava de fazer. E no sou capaz de tomar as providncias necessrias. Mas no me atrevo a deixar que ningum
saiba.
Por que no, por amor de Deus? Est a pagar ao Rossner um balrdio e confia nele a defesa da sua vida. Por que no pode confiar nele em relao a isto?
Porque nesse caso ele ia ficar desconfiado e ia comear a fazer mais perguntas.
Como por exemplo?
Perguntas do gnero, como posso estar aqui sem frequentar as aulas de cidadania e fazer os exames? Como permitiram que uma pessoa to ignorante se tornasse cidad?
O que quer dizer com isso?
Ela dirigiu-lhe um olhar de soslaio de precauo. Eu no estou legalizada, Owen. No existiu nenhuma agncia de refugiados, nenhum programa de apoio. Eu fui introduzida
ilegalmente por qualquer razo e fui escondida. Se se soubesse a verdade, eu seria deportada.
Espere um minuto. Owen abanou a cabea. Voc  filha de um soldado americano e casou-se com um cidado americano. Isso tem de implicar alguma espcie de estatuto.
O Serian nunca investigou isso?
Ela acenou com a cabea. No h provas oficiais de quem era o meu pai. E o facto de eu ter sido introduzida ilegalmente no pas... de ser uma estrangeira ilegal...
o casamento no elimina isso. Se uma pessoa for criminosa, ento o casamento no a protege. O Bram mostrou-me fotografias dos campos de deteno para onde eu iria.
E leu-me uma histria de uma mulher que foi reenviada para o Vietname e executada.
No me parece que isso seja correcto, Lenore, disse Owen cautelosamente. Acho que ele deve ter obtido informao errada ou qualquer coisa do gnero.
Ele estava a tentar proteger-me, insistiu ela.
Owen passou os dedos pelo cabelo e tentou imaginar o que diabo pretenderia Bram Serian.
Tenho estado  espera, disse ela. Que os advogados, ou o juiz, ou uma daquelas pessoas da informao descubram a verdade sobre mim. Quando isso acontecer, o julgamento
j nem ter qualquer importncia, porque eu serei mandada de volta e executada. Sem sequer saber quem sou.
No. Escute-me, Lenore. Isso no vai acontecer. As coisas no funcionam assim. Temos de ter aconselhamento jurdico sobre este assunto porque..
Ela abanou veementemente a cabea.
Mas talvez o Bram no descobrisse o que devia saber. Ou talvez as leis tenham mudado. Temos de encontrar um especialista para voc falar com ele
No!  muito perigoso.
Est bem. Est bem. Deixe-me s pensar nisso.
Owen olhou para ela em silncio. Compreendia bem o que se passava com ela, e isso enchia-o de raiva. O que teria Serian andado a tentar fazer com ela? E que inferno
teria sido a sua vida, a esconder-se durante todos aqueles anos?
Quando estava com essa famlia que a acolheu e a escondeu... ningum se preocupou com o facto de voc no aprender a ler?
Ela desviou os olhos dele e encolheu os ombros. Esquece-se, Owen, que no princpio eu no conseguia emitir um nico som. As pessoas que estavam  minha volta pensavam
que eu era irremediavelmente deficiente. Isso foi anos antes de algum se aperceber que eu tinha uma inteligncia normal, e nessa altura o que se esperava que fizessem?
Para uma criana com aquela idade, com um passado numa lngua to diferente, seria impossvel aprender a ler em Ingls sem ir  escola todos os dias. E eu no podia
ir  escola, pois nesse caso as pessoas iam descobrir quem eu era. Eu tinha de ficar escondida.
Lenore... comeou ele a dizer, mas ela interrompeu-o.
Quando se ultrapassa uma certa idade, torna-se demasiado tarde para aprender alguma coisa dessa forma to complicada.
Owen soltou um suspiro. Quem lhe disse isso? perguntou ele.
 verdade!
Quem foi que lhe disse? insistiu Owen delicadamente. Ps-se a imagin-la uma criana prejudicada numa famlia de acolhimento negligente. E no era apenas uma m
situao em geral, mas uma situao ilegal. Talvez as pessoas tivessem sido pagas pelo pai imaginrio para a acolher s que o pai no podia comprar-lhe o verdadeiro
amor e carinho. S Deus sabia o que ela tinha suportado at se libertar atravs do casamento com Serian. E afinal verificou-se que o casamento no era nenhuma libertao.
Era apenas um tipo diferente de inferno, com Serian a tirar partido dos seus receios para a controlar... E mesmo assim ela continuava a tentar desesperadamente agarrar-se
s suas iluses. No queria acreditar que todos tinham abusado dela e lhe tinham mentido ao longo da sua vida.
Olhe! Ele apanhou uma folha de papel e mostrou-lha. Veja isto.  a letra L.  a letra com que comea o seu nome. H vinte e seis letras no alfabeto. Eu posso ensinar-lhe
essas letras. Ela abanou a cabea e bateu com a mo no papel, mas Owen continuou a falar. Depois posso ensin-la a juntar as letras e formar palavras. No h nada
de misterioso neste processo. E as escolas no detm o monoplio.
Ela afastou-se. Os seus olhos ficaram um pouco inflamados. Por que no se vai embora imediatamente? Desaparea e esquea tudo isso.
No posso. Confessou ele.
Ento leve-os! Levantou uma mo cheia de papis de Serian e atiroulhos  cara. Leve tudo o que quiser para o seu livro! E v-se embora!
Ele ficou quieto por alguns momentos, a pensar no que devia fazer. Depois dirigiu-se para o telefone ao canto e marcou o nmero que Bernie lhe tinha dado da sua
casa.
O que est a fazer? perguntou Lenore.
Ele levantou a mo e fez-lhe sinal para parar.
Ol, Bernie, desculpe incomod-la em sua casa, mas preciso de comunicar uma coisa ao Alex.
Owen! Conte-me tudo! Como foi na Arcdia? E como  ela?
Sim, bem, estou l neste momento.
Est l neste momento?
Exactamente. E preciso de uma informao sobre alguns nomes do memorial do Vietname. Estava a pensar que talvez o companheiro de quarto do Alex me pudesse dar uma
ajuda.
Ah, sim. Cliff, o bisbilhoteiro dos computadores. D-me os nomes que eu logo lhos comunico. Vou dar-lhe tambm o nmero de casa do Alex, para poder falar directamente
com ele na prxima vez.
Ele leu-lhe os nomes e a seguir tomou nota do nmero.
Vou imediatamente deixar isto no atendedor de chamadas do Alex, prometeu Bernie. Entretanto, espere um pouco. Se conseguir a uma boa informao em primeira mo,
vai ter DeMille de joelhos a pedir-lhe este livro ainda antes de entregar a proposta!
Obrigado, Bernie. Na segunda-feira falo consigo.
Quem era? perguntou Lenore desconfiada logo que ele pousou o receptor.
Era a minha agente. Bernadette Goodson.
Ele sentou-se no cho ao lado da caixa e comeou de novo a fazer a seleco.
Da maneira que eu vejo as coisas, disse ele, nada mudou. Agora voc pode ajudar-me ou sentar-se a olhar, mas parece-me que nos despachvamos mais depressa se me
desse uma ajuda.
Eram quase seis horas e Owen tinha dores no pescoo e as pernas tolhidas, mas estava satisfeito com o que tinham conseguido fazer at ento. Os papis tinham sido
agrupados e presos com clipes ou agrafados e arrumados em pastas. Tinha uma pasta com contas de telefone, que esperava vir a ter algum interesse, uma pasta com cartas
pessoais que podiam ser valiosas para o seu livro e uma mesa de centro cheia de coisas midas que lhe tinham chamado a ateno. No meio daquela seleco, a sua ateno
tinha sido especialmente atrada para um artigo numa revista sobre a localizao de pessoas desaparecidas em combate no Vietname, um recibo de uma grande quantia
de dinheiro gasto num armazm de excedentes do exrcito e da marinha e um certificado de garantia vitalcia para um cofre de luxo  prova de fogo.
Acho que chega por agora, disse ele, levantando-se e esticando a rigidez do seu corpo.
Tenho de desistir, disse ela.
No temos de desistir. S preciso de fazer uma pausa. Estou disposto a trabalhar durante toda a noite, se  isso que voc quer.
Sim.
Est bem. Ento vamos jantar  cidade. S para nos afastarmos de tudo isto por algum tempo.
No! Ela abanou a cabea. As pessoas vo reconhecer-me em Stoatsberg. Iam todos ficar a apontar e a falar.
Ento vamos a outro stio qualquer. Ele pensou nos artigos dos jornais de como ela era solitria, de como raramente sara da Arcdia ao longo dos anos. Agora sabia
porqu. Tinha sido a doena de Bram Serian, no dela. Tinha sido ele que distorcia a mente dela e a mantinha isolada.
Que tal irmos a Manhattan? sugeriu Owen como que por acaso. De qualquer modo tenho de ir buscar algumas coisas ao meu apartamento, se vou ficar aqui por muito mais
tempo.
Agora? Ir para Manhattan?
Por que no? Ali pode andar perfeitamente annima.
Mas voc no precisa de nada do seu apartamento. Stanley deixou a despensa cheia e h roupa de homem que lhe fica bem.
Eu estava mais a pensar no meu trabalho. Todas as minhas notas e materiais de pesquisa. Gostava de os ter aqui para consultar  medida que avanamos.
Ela olhou fixamente para ele. Ele notou um medo intenso nos seus olhos, mas com um bocadinho de excitao.
Posso ser apanhada, Owen. A polcia da imigrao pode prender-me ou...
Isso no vai acontecer. Confie em mim, Lenore. Manhattan  um lugar muito grande, cheio de gente. Aposto que um quarto da populao que vive l est ilegal. A polcia
anda ocupada com crimes e criminosos autnticos... e no com meio-americanos que foram introduzidos ilegalmente quando eram crianas.
Mas o Bram disse...
Esquea o Bram! Que se lixe o Bram! O Bram est morto.
Ela pestanejou, surpreendida por aquela exploso que nem parecia dele.
Vamos! Eu gosto de conduzir. A viagem  rpida e pelo caminho podemos ter novas ideias. Alm disso, esta pode muito bem ser a minha nica visita a Nova Iorque. Como
pode recusar ir uma vez jantar fora comigo?
Ela tocou com as pontas dos dedos nos lbios e ele notou que a mo dela estava a tremer. Eu nunca estive em Manhattan, sussurrou ela.
Bolas! Pegue no seu casaco!
Ela olhou fixamente para ele por um longo momento. Depois foi buscar o casaco.

Owentinha reparado num pequeno restaurante tailands no muito longe do seu apartamento em East Village e foi para l que levou Lenore Serian.
O que  isto? perguntou ela quando chegaram  porta.
 tailands, disse-lhe ele. No sei onde h comida vietnamita, mas pensei que, uma vez que a Tailndia  um pas vizinho, talvez este pequeno restaurante fosse interessante
para si.
Ela olhou nervosamente para um e outro lado da rua antes de entrar.
Uma vez l dentro, sentaram-se a uma mesa para dois a um canto e os olhos de Lenore assumiram o tom sombrio que apresentava durante o julgamento. Owen perguntou-se
se teria tomado a atitude certa em lev-la a jantar fora.
O pequeno e pouco iluminado restaurante tinha mesas desirmanadas e flores de plstico. As paredes estavam decoradas com cartazes tursticos da Tailndia e havia
um pequeno relicrio colocado perto da porta para a cozinha. Quatro das oito mesas estavam ocupadas, por isso ouvia-se um burburinho das conversas e ao fundo da
sala encontravam-se duas mulheres asiticas, uma pequena de cabelo grisalho e a outra com quase trinta anos, que estavam juntas uma da outra, junto  caixa registadora,
a dar risadinhas.
Pouco a pouco Lenore comeou a descontrair-se e a olhar em volta.
Quer que eu tente ler-lhe este menu ou descrevo-lhe apenas as diferentes opes? perguntou-lhe ele.
Leia, por favor. Quero ouvir tudo o que est escrito a.
Ele teve dificuldade em ler os estranhos nomes tailandeses que precediam a descrio de cada um dos pratos principais enquanto Lenore escutava. Quando ia a meio
da lista, a mais nova das duas mulheres apareceu junto da mesa, a sorrir. Precisam de ajuda para escolher a ementa? perguntou num tom jovial.
Bem, talvez a senhora nos pudesse recomendar algumas coisas. O que prefere, Lenore? Bife... frango... peixe?
Lenore olhou atentamente para a mulher sem responder.
E se fosse a senhora a escolher qualquer coisa para ns? disse Owen  empregada, - Talvez uma seleco de vrias coisas?#Ento aproximou-se a mulher mais velha.
Tm alguma dificuldade? perguntou ela
No, est tudo mas Owen no terminou porque a mulher mais nova tinha comeado a dar-lhe uma explicao rpida em tailands
Owen levantou os olhos para Lenore, com ar de estar a pedir desculpa por ter atrado aquela ateno e estava alarmado com a expresso de pavor na cara dela
O que se passa? perguntou ele
As mulheres pararam de falar e olharam para Lenore com curiosidade
Quer ir embora, Lenore?
Ela levantou-se da cadeira a vacilar, de olhos fixos nas mulheres. Elas riram-se nervosamente. A mais nova disse rapidamente qualquer coisa em tailands para a mais
velha
Lenore? Owen levantou-se
A expresso dela era quase infantil. Ela murmurou qualquer coisa que Owen no conseguiu compreender e estendeu as mos para tocar na cara da mulher com as pontas
dos dedos
Owen contornou rapidamente a mesa. Lenore? Ela parecia estar completamente absorta. Os seus olhos estavam fixos, como que em transe, na mulher tailandesa mais nova
Vamos l para fora apanhar ar fresco, disse ele, e envolveu-lhe os ombros com um brao e conduziu-a em direco  porta
A mulher mais velha foi atrs deles a levar-lhes os casacos e insistiu em ajudar Lenore a vestir o dela
Conseguiu perceber o que ela estava a dizer? perguntou Owen. A mulher Sim Ela dizer, Mam, mam 
A senhora fala vietnamita?
No ela dizer, Mam, mam em tailands
Em tailands!
Uh huh, a mulher acenou energicamente
Lenore comeou como que a acordar e voltou-se para se agarrar aos braos de Owen. Eu compreendi-as, disse ela incrdula e surpreendida. Compreendi o que estavam
a dizer
Desculpe, disse Owen  mulher tailandesa. Isto foi um choque para ela. Ela saiu de casa quando era muito nova do Vietname e
A minha me, murmurou Lenore De repente pensei que era a minha me
Agora estar bem? perguntou a mulher. Venha para dentro. Eu trazer ch
Lenore ps as mos na testa. No quero voltar para dentro. No quero voltar a v-la
A mulher olhou atentamente para Lenore, preocupada com a cliente, como se fosse pessoalmente responsvel pela confuso de Lenore
Podia preparar o nosso jantar para levar para fora? perguntou Owen
Est bem. Est bem. A mulher correu para a porta e deu as ordens, depois voltou e sorriu para Lenore. Voc vietnamita? Eu viver no Vietname muito tempo. Eu falar
muito bem. A mulher disse qualquer coisa num tom montono rpido.
Lenore abanou a cabea e voltou para Owen uns olhos perscrutadores e agitados.
 vietnamita, afirmou a mulher. Dizer vo para casa. Ficar bem.
Pode dizer mais qualquer coisa? perguntou Owen. Qualquer coisa. Falar simplesmente.
A mulher falou e a expresso de Lenore era quase de medo.
Obrigado, disse Owen  mulher. O meu carro est estacionado mesmo ali. Quando a comida estiver pronta, podia simplesmente acenar-me da porta com a mo?
A mulher fez uma vnia subtil com a cabea sobre as mos postas. Smvadee ka, disse ela enquanto Owen ajudava Lenore a entrar para o carro. Sawadee ka, murmurou Lenore
em resposta.
Quando Owen abriu a porta do seu apartamento, viu uma nota que tinha sido enfiada por baixo da porta.
Passmos por c para ver se estava interessado em vir divertir-se. Esperamos que no esteja a trabalhar demasiado. Hoje  sbado  noite, sabia?! Lembre-se do que
dizem sobre trabalhar sem descanso. Se quiser divertir-se venha ter connosco ao Lions Head ao jantar e a seguir iremos para o Tenth Street Jazz Club. (Como pode
estar sem ter telefone?!)
Estava assinada pela Holly e pela Marilyn.
O que  isso? perguntou Lenore, olhando por cima do seu ombro.
Um recado. Umas pessoas que querem que saia com elas esta noite.
Que pessoas? Pensava que no conhecia ningum em Nova Iorque.
So pessoas que conheci no julgamento. Reprteres.
Aquela loura que est todos os dias sentada ao seu lado?
 uma delas, disse ele, amarrotando a nota e atirando-a para o lixo. Comeram. Ou pelo menos ele comeu. Lenore estava ainda to agitada que pouco mais fez do que
provar a comida.
O que quer dizer isto? continuou a perguntar. O que acha que quer dizer? Como  que posso compreender o tailands e o vietnamita no?
Owen procurou sugerir algumas explicaes. Talvez tenha sido criada na Tailndia? Talvez a sua me fosse na verdade tailandesa mas vivesse no Vietname? No sei.
Enquanto voltavam para a Arcdia, ela ainda ia a perguntar qual o significado e Owen a tentar ser compreensivo, a tentar ajud-la a encontrar uma soluo.
Tem a certeza de que no se lembra nada de como vivia antes de vir para os Estados Unidos? perguntou ele.
Lembro-me que vivamos perto da gua.
Mais alguma coisa? Tente...
Um wat. Lembro-me de um wat.
O que  isso?
Um templo. Com sacerdotes de tnicas amarelas.
A sua casa era perto de um templo?
A voz dela ficou reduzida a um sussurro, A minha casa.
Lembra-se de que a sua casa era perto da gua e de um templo?
Ela tapou a cara com as mos. No sei. No sei. Talvez seja de um sonho.
Tenha calma. Est quase em casa. Pense como  incrvel saber que compreende uma lngua da qual no fazia a mnima ideia.
Ela encostou a cabea para trs e olhou para fora, para o escuro da noite. E que no compreendo uma lngua que julgava saber falar.
Os quilmetros passaram em silncio. Owen relembrou tudo o que tinha descoberto sobre Bram Serian, deturpando-o e modificando-o, procurando fazer com que se ajustasse.
Mas Serian parecia mais ardiloso que nunca, e no havia uma nica pista que conduzisse ao pai imaginrio de Lenore.
Aquela garantia sobre um cofre tem de ter algum significado, disse Owen em voz alta depois de terem passado pelo porto da Arcdia.
Eu j lhe disse, suspirou ela, o Bram nunca fez qualquer referncia a um cofre na Arcdia. E a polcia fez questo de procurar um cofre mas no encontrou nada.
Mas a polcia tambm no encontrou o quarto na torre, no  verdade?
 verdade. Confessou ela.
Tenho este pressentimento de que o cofre est l na Arcdia, disse ele. Onde mais podia t-lo colocado? Voc disse que era absolutamente certo que no est nas guas-furtadas
na cidade.
No. O Rossner disse que as guas-furtadas eram fceis para a polcia fazer uma busca, porque s tem uma sala grande e eles verificaram centmetro a centmetro e
no encontraram nada.
Muito bem. Com o certificado de garantia que descobrimos hoje, agora temos mais informao do que tinha a polcia. Sabemos as dimenses e a marca e o peso daquele
cofre. Podamos at telefonar ao fabricante a pedir-lhe sugestes. Tem de estar numa parede da casa e amanh vamos encontr-lo.
Olhou para ela de relance. Ela estava a observ-lo. A troca de olhares trouxe a sombra de um sorriso  boca dela e ele teve de desviar os olhos. Tinha de concentrar-se
na estrada e no quebra-cabeas e no facto de esta no ser a vida dele. Isto no era a realidade. A realidade era o Kansas e a quinta e Michelle Wheeler que ele conhecia
desde os seus dez anos.
Logo que entraram em casa e reactivaram o sistema de alarme, Lenore conduziu-o de novo para a sala de estar e para os montes de papis que estavam  espera. Ele
envolveu-se na leitura das cartas que Serian tinha guardado durante mais de vinte anos. Lenore entrava e saa da sala sem dizer uma
palavra. Depois de terem passado vrias horas, Owen fez um intervalo. Encostou a cabea  almofada superior do sof, fechou os olhos exaustos e deixou correr os
pensamentos. As cartas eram interessantes, contudo no continham nenhuns factos especficos que lhe fossem teis. Tailands. Tailndia. Bram Serian. Como  que tudo
isso se ajustava?
A cena do restaurante repetiu-se na sua mente, e pensou nos cartazes tursticos. Um deles mostrava um canal. gua. A casa de Lenore teria estado  beira de um canal
na Tailndia? Mas que diabo, pelo que tinha lido sobre o Vietname, tambm l havia muita gua. Campos de arroz e rios e tudo o mais. Toda aquela parte do mundo estava
cheia de gua.
Tailndia. De repente sentou-se direito. Onde  que ele tinha visto uma referncia  Tailndia? Num recorte qualquer.
Andava ele  procura no meio dos papis que estavam em cima da enorme mesa de centro, quando Lenore entrou.
Lembro-me de ver qualquer coisa sobre a Tailndia, disse ele. No sei se ter algum significado, mas... Deixou a voz ir-se sumindo, enquanto se concentrava de novo
na pesquisa.
Ela aproximou-se mais para observar.
Ele passou uma vista de olhos por um artigo numa pgina de uma revista, sobre um artista pouco importante. O artigo continuava mas faltavam as outras pginas, por
isso colocou-o no monte do material rejeitado. Lenore apanhou-o, mas ele no prestou ateno. Algures naquele amontoado de palavras impressas em cima da mesa ele
tinha visto uma referncia qualquer  Tailndia e estava decidido a encontr-la. J sentia as plpebras pesadas na altura em que apanhou o recorte de jornal e viu
a palavra Tailndia saltar  vista no terceiro pargrafo.
Aqui est! disse ele.
Era uma pgina de necrologia do New York Times de h sete anos e lembrou-se de o juntar  pilha de papis na esperana de que os falecidos estivessem de algum modo
relacionados com Serian.
Leia-me isso, pediu Lenore.
Owen leu-lho. O assunto era Howard Newman, um homem de idade avanada que tinha morrido no hospital de Danbury, Connecticut, devido a complicaes que surgiram depois
de uma operao ao corao. Tinha sido professor, comerciante, filsofo e um coleccionador de borboletas de classe mundial. A sua esposa, que antes se chamava Franoise
Beaujon, continua viva. No terceiro pargrafo era dito que O senhor Newman viveu na Tailndia durante muitos anos e escreveu extensivamente sobre aquela regio.
No  muito, confessou Owen. Mas talvez exista alguma relao.
Ou uma coincidncia, disse ela, com um ar de desapontamento e frustrao. Veja isto aqui. Entregou a Owen a pgina sobre o artista do qual ele tinha feito antes
uma leitura rpida. Isto  alguma coisa?
Isso no  nada... comeou ele, mas ela aproximou-se, tirou-lhe a folha das mos e voltou-a. Na outra pgina havia um anncio de cofres  prova de fogo que ocupava
a pgina inteira.
Isso no  uma figura de um cofre? perguntou ela.
E eu no vi nada disso! H um artigo sobre um artista do outro lado e pensei... O que vem provar que duas cabeas pensam melhor do que uma. Ele riu-se. Esta  a
marca do cofre que ele comprou, com certeza. E oua isto. Instalado sob um pavimento de rs-do-cho ou no cho de uma cave, ou numa parede, este cofre  a ltima
novidade em proteco  prova de fogo Isto d-nos uma ideia muito boa sobre onde procurar.
A polcia esteve por todo o lado na cave, comentou ela aborrecida.
Tem de estar em algum stio. Ele deixou cair na mesa o anncio do cofre e os culos para ler ao mesmo tempo. Vou fazer caf. Posso?
Esteja  vontade, disse ela esticando-se no sof.
Owen foi para a cozinha, o nico espao que sabia poder localizar. Tirou do armrio tudo o que precisava, fez o caf e a seguir voltou para a sala. Ela estava a
dormir profundamente. Ficou a observ-la. Estava deitada de lado e toda enroscada, com o cabelo negro espalhado pelas costas e pelo ombro como se fosse um xaile.
Tudo nela parecia to frgil. Os ossos delgados do pulso. A pele delicada das plpebras com a franja escura de pestanas. O tnue subir e descer do peito. No entanto
ela no era frgil. Sabia isso muito bem. Era mais forte do que a robusta Michelle Wheeler ou qualquer uma das suas irms que tinham sido criadas no campo. Ela tinha
uma fora de esprito que faltava s outras mulheres.
Ela mexeu-se a dormir, depois gritou.
Lenore, chamou ele, tocando-lhe no ombro.
Ela sentou-se direita como um fuso, respirando com dificuldade, com o olhar apavorado.
Est tudo bem, disse-lhe ele calmamente.
Os olhos dela estavam desfocados e brilhantes de medo. Havia uma cobra-capelo nos barrotes. Vinha a descer na minha direco e tinha os olhos to frios que a minha
me estava a gritar mas no conseguia mexer-se.
Agora est em segurana. Aqui no h nenhuma cobra-capelo. Nem sequer barrotes.
Ela olhou para ele como que a confirmar que era ele que estava ali. Tinha ainda a mo no ombro dela e ela afastou-o bruscamente. Isto vai tornar o seu livro mais
interessante, no vai? disse ela enquanto se recompunha e se punha de p. Tantas histrias que vai ter para contar... Colapsos nervosos em restaurantes e pesadelos
estranhos... para alm de toda a outra porcaria que j arranjou.
Lenore. Eu no vou escrever nada que a magoe.
Ela riu-se sem vontade. Pobre Owen. Acredita mesmo nisso, no acredita?
Owen levantou as mos em sinal de desnimo. Eu no sei o que... Abanou a cabea. Eu disse alguma coisa? O que se passa aqui?
Nada de novo. Nada de diferente. Talvez esteja a ver tudo com mais clareza.
Est a falar por enigmas, Lenore.
Ela respirou fundo e depois disse, Voc est cansado. Eu estou cansada. Onde quer dormir?
Subitamente vinham-lhe  cabea pensamentos que ele no queria reconhecer nem considerar. Eu... ah... Se tiver a alguns cobertores, posso dormir l fora no carro.
Ela desatou a rir. No seja ridculo. L fora est gelado e tem esta enorme casa  sua disposio. Um lado da sua boca curvou-se num sorriso de desafio e desdm.
Voc  meu hspede, senhor Byrne. O que se passa? Tem medo da Viva Negra?
Ento vou ficar aqui num destes sofs, disse ele. Se estiver de acordo.
Por mim est bem. Fez rodopiar os calcanhares e foi-se embora. Dez minutos mais tarde reapareceu com um monte de cobertores e almofadas. Durma bem, disse ela, depois
foi-se embora novamente.
Ele no dormiu bem.
Primeiro, no conseguia adormecer. Como estava muito cansado, os msculos do corpo no descontraam. Virou-se para todas as posies possveis, mas no conseguia
sentir nenhum conforto. Ento, quando finalmente deslizou para a escurido, foi atormentado por sonhos perturbadores. Os seus esforos para escapar quelas imagens
levaram-no  beira da insnia vezes sem fim, mas depois era novamente arrastado para aqueles sonhos perturbadores. Havia uma mulher de pernas esbeltas e seios elegantes
cujos lbios se encrespavam, revelando dentes de vampiro. Havia uma mulher com uma mscara, vestida de renda preta transparente que abriu as pernas para ele e lhe
espetou uma faca nas costas quando a penetrou. Houve uma mulher sinuosa de olhos sonolentos e com os bicos dos seios entumecidos jazendo numa poa de sangue. Ficava
alternadamente acordado e aterrorizado durante horas.
Por fim deu consigo sentado, a olhar para imagens esbatidas na escurido com o corao a bater. Os pormenores bem definidos dos sonhos perdiam-se rapidamente, mas
a sua essncia permanecia. E embora soubesse que estava acordado, o sentido acentuado e imaginrio da realidade continuava. Deitou fora os cobertores, sentindo-se
agitado. O seu sangue pulsava de calor. As pontas dos dedos e a cabea e a zona genital pulsavam de calor.
Deitou-se em cima da almofada.
Lenore.
A respirao acelerou s de pensar nela.
Lenore.
Fechou os olhos e murmurou o nome dela.
Lenore.
Conseguia senti-la deitada ali perto na casa em silncio. Respirando suavemente em silncio. Com os seios e as ancas envolvidos em lenis frios. Lenore.  espera
na escurido.  espera. Disponvel e  espera.
Vestiu depressa as calas e a camisa e foi aos tropees para o corredor escuro. O quarto dela no era longe da sala de estar com os vitrais. Conseguia
#encontr-lo. Tinha de o encontrar. Andou s apalpadelas de um lado para o outro, no meio da escurido. Finalmente chegou a uma porta aberta e entrou num quarto
cheio de luar. A cama estava vazia. Intacta.
Subitamente, a agitao desapareceu. Estava descalo num pavimento frio de madeira, num quarto vazio. Sentindo-se to vazio como o quarto. Atravessou o quarto em
direco  cama e sentou-se. Parecia virginal  luz da lua. Macia e firme e fria. Passou a mo por cima dela, depois tirou a almofada e encostou-a  cara. No tinha
o cheiro dela. Ela no existia. Tinha-a imaginado. Deixou cair a almofada e ps as mos na cara, receando pela sua sanidade mental. Pensando que talvez fosse possvel
ficar possesso e que o esprito de Serian tivesse entrado nele. Ou que Lenore o tivesse deixado possesso. Ou alguma coisa totalmente desconhecida e ainda mais terrvel
se tivesse apoderado dele.
Tentou acalmar-se com o pensamento de que ainda estava sob a influncia dos sonhos. O que precisava era de voltar a dormir e sobreviver at de manh, quando tudo
voltaria ao normal. Saiu do quarto, mais cauteloso e inseguro quanto ao caminho, agora que tinha recuperado as suas capacidades mentais, e comeou a seguir as paredes
escuras, amaldioando em silncio a casa e a mente maluca que a tinha concebido. Entrou em gabinetes que julgava fazerem ligao a outros corredores. Esbarrou com
becos sem sada. Por fim decidiu instalar-se no primeiro stio quente e confortvel que encontrasse e dormir ali, fosse um sof ou uma cama, e preocupar-se s de
manh em saber onde estava. Ento viu um brilho trmulo.
Cheio de curiosidade, passou pela porta e entrou num pequeno quarto sem janelas que estava cheio de sombras danantes. Em frente da lareira estava um sof com as
costas voltadas para ele e uma quantidade de pequenas mesas espalhadas pelo quarto. O brilho vinha dos restos de lenha a arder na lareira e das dzias de velas acesas
que enchiam os tampos das mesas.
Avanou um pouco, curioso por saber o que se passava, quando de repente uma figura humana, que tinha estado deitada no sof, escondida da vista, apareceu de repente
como se fosse um gato endemoninhado pronto a atacar. Ficou paralisado com o susto, como se estivesse a viver um pesadelo. Esta era a mulher dos seus sonhos, nua,
sob uma cascata de cabelo negro, com os dentes a brilhar e olhos selvagens na penumbra. Com uma espingarda de dois canos apontada ao seu corao.
Na clareza de um instante soube que ela ia mat-lo. E no estranho mundo inferior do seu meio-sonho acreditava que merecia isso.
Ali estavam os dois. Cativos do pesadelo. Gradualmente, o pnico brutal nos olhos dela converteu-se em confuso.
Owen?
Ele teve medo de se mexer ou de falar.
Owen?
Ela baixou a arma e comeou a tremer.
Ele avanou com cuidado, tirou-lhe a arma das mos e pousou-a ali ao lado, depois envolveu-a nos cobertores.
Eu no... pensei... Voltou-se para ele de olhos assustados. - Podia t-lo morto.
Dorme sempre com uma companhia to perigosa?
Ela acenou com a cabea. Desde que fiquei sozinha. Sim.
Mas tem os alarmes. Isso no a faz sentir-se segura?
Nada me faz sentir segura.
O cavaco que restava na lareira partiu-se, produzindo uma chuva de faiscas.
Por que se levantou? perguntou ela.
Maus sonhos, disse ele. E voc? Por que no est na cama?
Eu durmo em lugares diferentes. Hoje apeteceu-me ficar aqui.
Ele olhou de relance para a sala e para as pequenas chamas. No eram como as velas que j tinha visto. Cada uma estava dentro de um cilindro alto de vidro com legendas
ou gravuras do lado de fora. Comeou a fazer-lhe perguntas sobre aquelas velas, mas depois verificou que no queria saber.
Ela estava a observ-lo. Enroscada ali no sof com os lenis a fazer de capa a envolv-la e a luz das velas a danar-lhe na cara. Estava nua sob os cobertores.
A observ-lo.
Boa noite... mais uma vez, disse ele, e saiu de repente do quarto sem esperar pela resposta dela.
Foi acordado por um rudo. Abriu os olhos e ficou completamente desorientado. Feixes de luz com a forma de traves l em cima. Uma estranha luz amarela. Chiar de
couro. Cheiro a caf.
Levantou os ps para o lado do sof e sentou-se. Estava na extravagante sala de estar de Bram Serian. Lenore estava sentada no sof que se encontrava em frente.
Havia um servio de caf numa mesa que estava entre eles. Era de manh. Tinha tudo voltado ao normal.
Ela estava a observ-lo por cima da sua caneca de caf. Tinha o cabelo preso com um gancho sobre a nuca e vestia uma blusa de tamanho exagerado e
jeans desbotados.
Ela tinha estado nua num quarto cheio de velas a noite passada a apontar-lhe uma espingarda ou tinha sonhado tudo aquilo?
Bom dia, disse ele, servindo-se do caf. A estranha luz sulfrea vinha das janelas.
Parece que vai nevar, disse ela.
Parece que sim, concordou ele.
Quando chegou a tarde j eles tinham explorado e bisbilhotado e verificado cada centmetro da cave sem encontrarem o cofre. Por fim desistiram e, desanimados, voltaram
para a cozinha para almoar. Ele olhou pela janela para o ar denso e calmo enquanto comia. O vapor de gua estava a acumular-se l no alto, agitando-se nas nuvens
de cor metalizada. A luz tinha mudado de amarela para prateada.
 esquerda via-se um local afastado, com os escombros do que tinha sido o estdio de Bram. Em breve ia ficar coberto de neve. Toda aquela fealdade ia ficar escondida.
Lenore, disse ele, olhando para fora enquanto falava. Alguma vez esteve dentro do estdio?
No. E acho que nunca ningum l entrou, excepto o Al.
A polcia verificou o pavimento do estdio... retirou os escombros e examinou de facto o cho em alguma das suas buscas?
Ela ficou imvel e olhou para ele, acendendo-se-lhe uma centelha nos olhos.
Saram passados poucos minutos, removendo as runas com as mos nuas. S depois de as suas mos estarem cheias de feridas e frias e as roupas todas sujas da fuligem
 que readquiriram o bom senso e voltaram para casa para se reorganizarem. Lenore encontrou uns jeans velhos e um casaco estofado j gasto para ele vestir. Da cave
trouxeram luvas grossas de trabalho, botas grossas para a neve, ps-de-cabra e ps e lanternas de bolso. Preparados para o rctico e armados de equipamento, aproximaram-se
de novo da confuso enegrecida. Parecia ter aumentado tanto para cima como para o lado desde a sua primeira impresso.
Caminharam  sua volta, imaginando um mapa daquilo de acordo com os diagramas que Rossner tinha mostrado ao jri. Aqui era a porta. Deste lado era a zona de alojamento.
Ao longo daquela parede era a plataforma de tijolo para o fogo. Dividiram-no em teros, fazendo cortes para marcar as seces.
Vamos fazer uma busca em grelha, disse ela com um sorriso irnico, surpreendendo-o com a referncia humorstica  investigao incompetente do Xerife Bello.
O trabalho era rduo. Removeram pedaos de barrotes enegrecidos e retiraram montes de lixo com a p, numa aco repetitiva de apanhar e atirar, que fazia arder profundamente
os msculos dos ombros de Owen e fazia-lhe crescer bolhas nas mos, apesar de usar as luvas. Tinha o rosto enregelado, mas estava a suar-por dentro do casaco. Depois
de terem limpado uma zona, levantavam as tbuas do cho para o cimento ficar exposto.
Pensou em Serian enquanto trabalhava. Como o homem tinha trabalhado neste edifcio, derramando o beto sobre o cho imundo do antigo celeiro. Como tinha cortado
e moldado a madeira. Criando a oficina dos seus sonhos, que mais tarde se transformou em pira fnebre. Pensou no local onde tinha sido encontrado o corpo e onde
era a esquina pontiaguda de tijolo. Pensou na cabea do machado. Mas resolveu parar porque no podia mais enfrentar a possibilidade da culpa dela. Se ela fosse culpada...
Mas no. No podia pensar nisso.
Quando comearam a cair os primeiros flocos de neve, ambos se endireitaram e olharam para o cu.
No temos muito tempo. Lenore esfregou o queixo com as costas da mo enluvada, deixando uma mancha de carvo. Pareceu-lhe que ela estava com medo que ele desistisse.
Podemos continuar a trabalhar por mais um bocado, disse ele.
Ela sorriu-lhe. Meiga e graciosa. Um sorriso comovente. Voltou ao trabalho com redobrada determinao, recusando-se a pensar se o sorriso tinha sido sincero ou no.
O cu escureceu e os flocos de neve caam mais depressa e levantou-se o vento, picando asperamente a pele exposta. Acabaram o tero do meio, passando a marca que
os punha na ltima seco. Tirou com a p uma linha de tbuas carbonizadas do soalho e l estava ela. Uma porta quadrada de ao, lisa e slida, com um disco redondo
no centro.
Precipitaram-se ambos para ela, puxando e espreitando e forando. Mas o cofre tinha sido assentado no beto e nem se mexia. Passou as mos pelo metal, sem conseguir
ver como se abria. Tentou levantar a pea circular central com uma chave de fendas mas no aconteceu nada. Frustrado, bateu na frente lisa de metal com a extremidade
mais grossa da chave de parafusos. Uma das pancadas bateu na parte circular do disco e este abriu-se revelando um buraco de fechadura l dentro.
Chaves, disse ela, e correu para casa. Tinham as bocas demasiado frias para formar frases.
Ele protegeu-se do vento, baixando a cabea sobre o peito e debruando-se sobre o cofre exposto, para evitar que a neve se juntasse ali.
Lenore voltou com trs argolas cheias de chaves. Cada um pegou numa e alternaram-se a experimentar as chaves. A neve ia-se juntando nos ombros e nas costas. Redemoinhava
com o vento e amontoava-se junto dos ps.
A porta abriu-se em resposta a uma chave qualquer de lato, saltando por aco de uma mola logo que foi destrancada. Owen ficou to surpreendido que caiu para trs.
Lenore puxou-o pelo brao, para o ajudar a recuperar o equilbrio e ambos ficaram a olhar para o mistrio de Serian. O lugar secreto de Serian.
Ela tinha pensado no que podia resultar, quando foi buscar a chave e encheu os bolsos de sacos de plstico para o lixo. Agora tirou um e, lutando para evitar que
o vento o levasse, segurou-o bem junto do cofre, de modo a poder ench-lo com o contedo do cofre. As mos dele estavam entorpecidas e desajeitadas com o frio. Estava
preocupado que a neve pudesse arruinar as coisas ou que o vento pudesse levar alguma coisa. Havia algum dinheiro. Viu isso imediatamente. O resto eram coisas vagas.
Quando o cofre ficou vazio, fecharam-no. Ele obrigou os braos rgidos a cobri-lo com escombros e depois correram para casa com o seu tesouro.
15
Ela levou-o para um quarto acolhedor a sul da cozinha. Tinha uma lareira com cavacos j dispostos e ele acendeu o lume imediatamente. Sucumbiram no cho espessamente
atapetado em frente da lareira e sentaram-se mesmo ali, esgotados e entorpecidos. Gradualmente, ele despiu as camadas de roupa exterior que estava encharcada. Todas
as partes do corpo ardiam ou doam. Os dedos ficaram avermelhados com o rpido aquecimento.
Ajudou-a a tirar o casaco e as luvas e esfregou-lhe as mos desajeitadamente. Ela estava sem jeito. Por fim, fez um esforo para se levantar e foi-se embora. Quando
voltou, vinha vestida com um roupo quente e trazia peas dobradas de roupa para homem. Silenciosamente, entregou-lhe a roupa seca e voltou a sair. Quando voltou
com o ch quente, j ele se tinha mudado e agora tinha os velhos jeans e uma camisa de flanela macia.
Beberam o ch sentados um ao lado do outro em frente da lareira.
Por que voltou a tapar o cofre? perguntou ela por fim. Era a primeira vez que qualquer um dos dois falava desde que tinham voltado para dentro.
No sei, disse ele. Por que se teria obrigado a escond-lo novamente? Estaria apenas a proteg-lo da neve, ou queria escond-lo de outras pessoas? Para evitar que
se soubesse dos segredos de Serian, antes mesmo de ele saber o que eram?
Afastaram os mveis para terem mais espao em frente da lareira e depois despejaram o contedo do saco para o cho.
A coisa mais evidente era o dinheiro. Maos e maos dele. Em notas de vinte. Cinquenta. Cem. A maior parte era em notas de cem. Eficientemente seguras com elsticos.
Isto  mesmo dele, disse ela, rindo-se com tristeza. O Bram detestava os bancos. E a chave... Deve ter teimado em adquirir um cofre com chave porque uma fechadura
de segredo teria sido aborrecida para ele.
H aqui muito dinheiro, disse Owen.
Ela afastou o dinheiro como se no tivesse qualquer valor para ela e pegou ansiosamente numa fotografia instantnea antiga, a preto-e-branco, de duas mulheres de
avental. Do lado de trs estava escrito Camille e Celeste. Havia
#ainda outra fotografia a preto-e-branco de dois rapazinhos sorridentes, segurando um peixe-gato que tinham apanhado.
Estes podem ser o Bram e o Al, disse ela, passando a fotografia a Owen. No havia nada escrito no verso.
Ela abriu uma caixa e destapou vrias esculturas pequenas de madeira envolvidas num pano. Outra caixa continha algumas peas antigas de joalharia. No era nada de
extravagante, mas era o tipo de jias que as pessoas normais usavam muitos anos atrs. E a terceira caixa continha uma delicada camisola de beb em croch.
Havia uma pasta de couro com um retrato antigo de uma mulher segurando uma criana. A sua expresso era sria, quase de tristeza.
O resto eram papis e cartas. Lenore juntou-os de qualquer maneira e deu-lhos. Leia-me tudo, Owen. Por favor.
Ele passou uma vista de olhos por uma folha. Isto  uma lista de todas as pessoas a quem o Bram deu presentes ao longo dos anos. Quer que lhe leia a lista?
Mais tarde, disse ela impacientemente. Que mais h?
H trs folhas que descrevem todas as peas de arte que vendeu. E h aqui uma quantidade de cartas de artistas importantes, nada de muito pessoal, sobretudo de felicitaes.
E esta... Owen desdobrou uma folha. Lenore! Est aqui uma carta do Al.
Leia-a, apressou-se ela a dizer. Leia-a!
Owen segurou no bocado de papel de rascunho manchado. No havia saudao, comeava simplesmente:
Por agora vou-me embora. Tirei algum dinheiro, mas  tanto meu como teu, portanto no estou a roubar. Estive a pensar muito mais claramente nos ltimos meses e tenho
deitado fora os meus comprimidos quando tu no estavas a olhar. Sinto-me bem sem eles, o que prova que estou quase a ficar bom.
Deixei de ter maus sonhos. Passo bem as noites e j consigo dormir s escuras. Sonhei que estava com a Tia Milly na Arcdia. Tambm l estavas tu e o Luke e estvamos
todos contentes e andvamos a caar pirilampos como antigamente. Quando acordei soube que tinha de fazer alguma coisa. No posso continuar a fazer o que tenho feito
e espero que tudo volte a ficar bem um dia. Tenho de mudar de vida. E sei que tu nunca concordarias que estou preparado, por isso tive de ser eu a tomar a deciso.
Sei que te esforaste muito a fazer aqui a Arcdia para ns, e tambm sei o quanto te devo. Agora que sei o que se passa, no gosto muito de algumas coisas, mas
sei que o fardo tem sido pesado e que tu achavas que estavas a fazer o que devias, por isso no te censuro. No me vou embora por estar zangado. Vou-me embora para
tentar viver a minha vida.
Diz  Lenore que vou ter saudades dela. Logo que me sinta suficientemente forte, voltarei.  uma promessa.
Al
Raios o partam! Raios o partam! disse ela a chorar com as lgrimas nos olhos. O Bram mentiu-me! Disse-me que o Al tinha desaparecido. Tirou a Owen a folha de papel
e ficou a olhar para ela, como se conseguisse l-la. Porqu? Por que me mentiu?
Apertou a carta ao peito. Estava to preocupada. No sabia que o Al estava melhor... Pensava... Tinha medo que tivesse perdido as estribeiras e tivesse fugido para
o campo onde podia morrer de fome... ou podia magoar-se... a si ou a outras pessoas. Ele era... Ficou com a voz presa de comoo e respirou fundo e fechou momentaneamente
os olhos para tentar controlar as lgrimas. Por que deixou o Bram que me preocupasse daquela maneira? Ele sabia como eu andava inquieta, a pensar no Al ali sozinho...
nos perigos que corria e na incapacidade do Al. No conseguia dormir. No conseguia comer. At implorei ao Bram que me deixasse ir com ele, quando ia  procura do
Al. Eu...
A sua boca comprimiu-se numa linha direita e ela lutou contra a raiva, tentando recuperar o controle. Owen manteve-se em silncio, pois sabia que ela tinha de resolver
sozinha aquela questo.
Quando a tempestade de emoo tinha acalmado, ela suspirou irregularmente e devolveu a carta a Owen. A insistncias dela, leu-a de novo em voz alta.
Talvez o Bram receasse que voc pensasse mal dele, se soubesse o que o Al tinha dito como despedida, sugeriu ele.
Ele podia facilmente ter-me escondido os pormenores! Eu no podia ler as palavras que ele escreveu. Ele podia ter-me dito apenas o essencial... apenas que o Al tinha-se
ido embora de livre vontade, e que parecia ter recuperado o equilbrio e estar capaz de tomar conta de si prprio. Mas no! mentiu-me redondamente. Fingiu que o
Al tinha desaparecido. E fingiu que sofria muito comigo por causa disso.
Owen comeou a dizer que Serian podia ter ficado to magoado e aborrecido pelo facto de o Al ter partido, que no tinha querido aceitar a carta, mas conteve-se.
Tinha perdido a vontade de defender Bram Serian.
O cofre era a minha ltima esperana, disse ela. No vamos encontrar nenhumas respostas.
Estamos a encontrar respostas, Lenore. Ou indcios de respostas. O que esperava? Pensava que Serian teria escrito uma explicao pormenorizada para ser revelada
depois da sua morte, como aquelas cenas dramticas nos filmes?
Sim. Pensava. Ela ps-se a olhar para a lareira. Eu pensava... para alm do amor ou pena ou culpa... que ele se sentiria obrigado a deixar-me a verdade.
Owen observou-a, sofrendo por ela, desejando poder confrontar-se com Bram Serian por ela e arrancar-lhe a verdade. Ela voltou-se e os seus olhos encontraram-se.
Toda a minha vida com o Bram foi uma mentira. Agora  que vejo isso.
s vezes as pessoas pensam que tm de mentir para proteger aqueles que amam, disse Owen, dizendo aquela banalidade numa tentativa intil de minorar a sua dor.
A boca dela distorceu-se num amargo meio-sorriso. Oh, se me tivesse dito isso antes, ter-lhe-ia ficado to grata... to ansiosa por me agarrar a isso. Mas se o Bram
estava a proteger algum com as suas mentiras, no era a mim.
Tenho tido muito tempo desde que ele morreu. Tempo para pensar. E tenho aberto os olhos atravs da investigao de Rossner e de ouvir as testemunhas... e atravs
de si. Agora sei a verdade. O Bram nunca me amou. Nunca. Nem como criana, nem como mulher. Quaisquer que fossem as razes que tivesse para me querer, no tinham
nada a ver com o amor.
Owen sentiu o desejo de lhe tocar nas bochechas. De lhe acariciar a cara com as mos e eliminar o seu sofrimento com a sua fora de vontade. Em vez disso segurou
na carta. Vamos esquecer Bram Serian e examinar isto como informao. Somos capazes de o vencer, Lenore. Vamos arrancar-lhe os segredos por mais fundo que ele os
tenha enterrado.
Ela fez um aceno de cabea com alguma hesitao e a sua expresso apreensiva de esperana e de confiana colidiram no peito dele como se fosse um soco e introduziu-se-lhe
na garganta de tal maneira que ele teve de fazer esforo para sarem as palavras.
Matutaram sobre cada frase da carta. Primeiro havia a questo do dinheiro. Por que consideraria o Al que parte do dinheiro de Serian lhe pertencia? Mas Jonas Watkins
tinha afirmado que Serian tinha um fundo de poupana... Se era um fundo de poupana familiar, ento o Al podia achar que tinha direito a uma parte desse fundo.
Depois havia as referncias  doena do Al, aos comprimidos e aos maus sonhos e ao facto de se sentir bem.
No compreendo, disse Owen. Pensava que o Al tivesse alguma espcie de atraso mental ou deficincia cerebral. No  uma coisa de que se possa recuperar. E esta carta...
parece ter sido escrita por uma pessoa normal e bastante bem educada.
Lenore inclinou a cabea. Deixei-o pensar assim, disse ela, porque foi assim que o Bram sempre quis que fosse. Ele no queria que as pessoas soubessem a verdade
acerca do Al.
E qual era a verdade?
Ela hesitou. O Al teve um crescimento normal. Depois foi para a guerra no Vietname e transformou-se num... no sei como  o termo mdico, mas era muito... imprevisvel.
E no confiava nas pessoas. No confiava em mais ningum que no fosse o Bram e eu. Todas as outras pessoas ou o assustavam ou o aborreciam. s vezes imaginava que
estava de novo na guerra e que as pessoas andavam atrs dele. E tinha um medo horrvel do escuro.
A verdadeira razo por que o Bram construiu o estdio sem janelas nas paredes e apenas com uma porta, era para o Al se sentir seguro ali. Era a fortaleza do Al.
E embora o Bram fosse muito esquisito em relao ao trabalho que estava a fazer, impedindo que algum o visse, o motivo por que nunca deixou entrar ningum no estdio
era porque aquilo era a casa do Al e o Al teria ficado muito perturbado se algum entrasse na sua casa, quer estivesse ele l quer no estivesse.
Owen pensou nesta nova informao. No lhe parece estranho, disse
ele, que o Vietname esteja sempre a aparecer? O Bram fez o servio militar no Vietname mesmo antes de vir para Nova Iorque. Disse a Jonas Watkins que tinha perdido
o irmo no Vietname. Guardou um decalque do muro memorial do Vietname. O primo, Al, ficou emocionalmente afectado no Vietname.
E depois voc... O seu pai foi militar no Vietname. Parece que voc  do Vietname... s que na realidade  da Tailndia. Parece-me que todas estas coisas devem ajustar-se,
s que no sei como.
Lenore franziu as sobrancelhas com ar triste. No posso acreditar que o Bram nunca tivesse mencionado o facto de ter perdido um irmo. Nunca mencionou a famlia.
Nem mesmo a mim.
Posso compreender que no quisesse falar do irmo, confessou Owen tranquilamente. Eu perdi um irmo e sei como  difcil para mim falar dele.
De repente a expresso dela tornou-se compassiva. Como morreu o seu irmo?
Conto-lhe noutra altura, mas no agora... est bem? Apressou-se a voltar de novo a ateno para a carta. Quase parece que o Al fugiu. Evadiu-se. O Bram estava a
impedi-lo de ir embora ou a confin-lo aqui?
Naquela altura no me pareceu que fosse assim, disse ela. Simplesmente parecia natural que o Bram quisesse vigiar cuidadosamente o Al e ter regras para ele e s
vezes at fech-lo para evitar que se metesse em sarilhos. Mas agora verifico que o Al estava aprisionado.
Por que mentiu o Bram sobre o estado do Al? Um trauma de guerra emocional e psicolgico  um estado muito conhecido e muito bem aceite. Tenho a certeza de que as
pessoas teriam compreendido.
Ela apertou as mos uma  outra e segurou-as contra a boca como se tivesse medo de poder falar mais. Os seus olhos negros procuraram os de Owen com medo. Eu no
devia ter-lhe falado do Al. No pode escrever nada sobre ele no seu livro. Esteja ele onde estiver, faa o que fizer... escrever sobre ele podia fazer-lhe mal. Podia
destrui-lo.
Lenore... ningum vai condenar o Al ao ostracismo porque ele ...
Tem de me prometer que ele no entrar no seu livro.
Owen ainda pensou em argumentar que os vagos elementos de informao que tinha sobre o Al no podiam fazer mal a ningum, mas notou nos olhos dela que a discusso
podia ser perigosa.
S mencionarei o Al em termos muito gerais e esclarecerei consigo qualquer dvida antecipadamente. Prometo.
Ento ela acalmou-se e continuaram com o exame minucioso da carta.
Nunca ouviu falar numa tia Milly? perguntou Owen.
Nunca.
Bem, parece que os dois primos tiveram uma Tia Milly nas suas vidas, quando eram rapazes. E algum chamado Luke. Ser que o Luke era o irmo do Bram? Com os diabos!
H to poucos elementos para se poder continuar.
Owen passou os dedos pelo cabelo com a frustrao e observou mais uma vez a carta.
Oua isto, Lenore... Estava com a Tia Milly na Arcdia... Sei que te esforaste muito para fazer aqui a Arcdia para ns... No lhe parece que a Arcdia  mesmo
um lugar? Outro lugar. Talvez um lugar de onde o Bram foi tirar o nome para dar a esta casa.
Lenore ficou de olhos arregalados. Outra casa grande, noutro stio?
Ou mesmo uma cidade?
Ele ps-se de p e puxou Lenore consigo. Onde era a biblioteca que me mostrou?
Owen pensou que ia ter de procurar um estado aps outro na enciclopdia, mas encontrou um atlas grande da Amrica do Norte com uma lista das cidades que havia em
cada estado. Califrnia, Florida, Indiana, Kansas, Louisiana, Ohio, Oklahoma e Wisconsin tinham todas Arcdias.
Portanto, disse Lenore, agora o que temos de fazer  encontrar uma mulher chamada Milly que vive em Arcdia, num dos oito estados.
No, podemos fazer uma coisa melhor. Se a Tia Milly viver perto da regio em que o Serian foi criado, nesse caso estamos  procura de uma regio plana. Um territrio
plano em que se cultiva o trigo. E... abanou a cabea. Tenho o pressentimento de que  a Arcdia do Kansas que ns queremos.
Porqu?
Tem havido algumas pequenas aluses, e... pode parecer estranho, mas durante todo este tempo tenho sentido que existe uma ligao qualquer entre mim e o Bram e acho
que  isso.
Kansas? perguntou ela.
Eu sei que parece estranho, mas...
A mim j nada me parece estranho.
Owen puxou uma almofada do sof para o cho, esticou as pernas e deitou-se exposto ao calor da lareira, e deixou a sua mente vaguear pelas novas descobertas. E sem
ter qualquer inteno, adormeceu profundamente.
Quando mais tarde acordou, a lareira estava reduzida a umas brasas sem chama e o quarto estava escuro. Esfregou a cara com as mos e tentou acordar completamente.
Lenore no estava ali. Nem o saco de plstico. Nem a carta. Nem o dinheiro.
Deu com uma casa de banho, lavou a cara com gua e afastou o cabelo dos olhos. Depois procurou por toda a casa em silncio, dizendo palavres sempre que se enganava
a virar no corredor, batia com as canelas s escuras, tentava apalpar os interruptores da luz onde no os havia. E se Lenore tivesse desaparecido? E se tivesse mentido
quanto a saber conduzir e tivesse levado o dinheiro e desaparecido? E se houvesse alguma pista indefinida na carta e ela tivesse ido  procura dele? Ou se tivesse
decidido no se arriscar a ser condenada por homicdio e tivesse partido em direco  fronteira?
Abriu violentamente uma porta e quase caiu na cozinha. Lenore estava l dentro, ali de p, vestida com o roupo, a pr travessas cheias de comida no microondas.
Dirigiu-lhe um olhar divertido e atrevido e disse, Talvez devesse ter dormido mais algum tempo.
Sentindo-se apanhado, Owen murmurou uma resposta e dirigiu-se para a comprida mesa de jantar que ela tinha preparado para duas pessoas. Havia
guardanapos de tecido e velas finas ainda por acender em castiais de cermica. Ela levou a comida para a mesa, diminuiu as luzes de cima e acendeu as velas. Uma
fogueira ardia fortemente na lareira de pedra da cozinha e as janelas abanavam com a violncia da tempestade l fora. Ela sorriu e serviu-o. Uma perfeita anfitri.
Como se tudo o que tinha a ver com as suas circunstncias e aquilo que os rodeava fosse perfeitamente normal. Mas, no fim de contas, o que conhecia Lenore Serian
de normal? Muito pouco, receava ele.
Normal. Que diabo, o que conhecia ele tambm de normal? Ser criado num rancho no meio do nada j no era uma infncia normal. Quem era normal? Talvez Holly Danielson.
A rapariga brilhante, cem por cento Americana, proveniente de uma famlia respeitvel que vivia num bairro agradvel. Ocorreu-lhe que o encanto da Holly residia
em grande parte naquela promessa de bem estar, de normalidade.
Est a pensar em algum plano? perguntou Lenore.
Oh... no...
Ela observou-o atentamente. A luz da vela iluminava a sua pele com um tom dourado e ardia nos seus olhos. Ele teve de desviar o olhar.
Esta roupa fica-me muito bem, disse ele.
E do Al. Ele quase no levou nada consigo.
H manchas de tinta nos jeans. O Al trabalhava realmente como assistente do Bram, ou isso era s para fazer parte da histria?
Claro que eu no podia entrar l para ver nada, mas sempre tive a impresso que ele ajudava muito o Bram. s vezes as listas de abastecimento eram mesmo escritas
pelo Al. Lembro-me disso porque o Stanley tinha dificuldade em ler a caligrafia do Al.
Listas de abastecimento?
O material habitual. Telas e molduras de suporte e imensas cores de tinta. O Bram pagava ao Stanley para ir de vez em quando a uma loja especial em Manhattan comprar-lhe
materiais.
Sabe... O descanso de Owen tinha-lhe estimulado a memria, que estava a tomar novas direces. Se algum fizesse uma investigao sria do Al, a arte podia ser um
elemento importante na sua descoberta.
O qu?
A arte. Se ele era um bom assistente e gostava do trabalho podia tentar arranjar emprego em algum lugar, a fazer uma coisa semelhante.
Lenore franziu as sobrancelhas.
O Bram alguma vez procurou realmente o Al? Contratando um detective ou coisa parecida?
No. Por que est a perguntar-me nesse tom de voz? At parece que suspeita de alguma coisa.
H um pedao de papel ali na caixa que tem dois anos, que tem escrito o nome e nmero de telefone de uma agncia de detectives. E eu estava s a pensar...
E acha que o Bram contratou um detective para procurar o Al, disse ela, pensando em voz alta. Sim. Pode ter sido isso que aconteceu.
Talvez valesse a pena investigar isso. Com todo esse dinheiro que estava
no cofre, podia contratar o mesmo detective e quem sabe onde isso poderia levar.
Ela franziu as sobrancelhas pensativamente. Para procurar o Al, quer voc dizer.
Mais. Se o Bram estava a mandar um detective atrs do Al, tinha de dar informaes ao indivduo. Nomes de lugares para onde o Al pudesse ir. Pessoas com quem o Al
pudesse estar.
Mas temos de ter muito cuidado, Owen. Se nos aproximarmos muito e assustarmos o Al, ele pode desaparecer definitivamente.
Teremos cuidado. S acho que podamos usar o Al para apanharmos uma pista que nos levasse ao passado. E quem sabe... se o Al agora estiver lcido, at pode conseguir
contar-nos a histria da vida inteira do Bram. No me parece que voc tenha fotografias do Al.
No, disse ela pesarosamente. O Bram nunca permitiu que houvesse nenhuma mquina fotogrfica na Arcdia, excepto uma vez em que permitiu que uma revista de arte
fotografasse a casa.
Comeram em silncio durante alguns minutos. Owen estava consciente dos olhos dela a observ-lo. A expresso dela era de expectativa e de esperana.
Havemos de pensar em alguma coisa, afirmou ele. Havemos de pensar em alguma coisa.
O que pensou depois do jantar foi telefonar ao Alex. O amigo do Alex tinha conseguido alguma
informao, e o Alex estava ansioso por partilh-la.
Voc no vai acreditar nisto, disse o Alex. O material que queria sobre Bram Serian no Vietname... no houve nenhum Bram Serian no Vietname. Nenhum Bram Serian no
servio militar durante o perodo de tempo que voc mencionou. Nem quaisquer outros Serians nesse perodo de tempo. O Cliff verificou isso para o caso de o nome
Bram ser um nickname.
Owen deu um suspiro e olhou para Lenore. De certa maneira isso no me surpreende. J desconfiava que ele pudesse ter inventado esse nome quando veio para Nova Iorque.
Parece-me que isso nos bloqueia completamente. Mas obrigado na mesma, e diga ao Cliff...
Espere! Tenho mais coisas. Queria saber dos nomes no muro. No sabamos bem o que pretendia, mas foram todos dados como mortos ou desaparecidos em 1966 e o Cliff
conseguiu saber as suas cidades de origem.
Est bem. Owen mudou o telefone para o outro ombro de maneira a poder escrever.
Abcock  de Boise, Idaho. Bachman  de Hutzell, Kansas. Benedict  de Goteen, Mississipi. Gibney  de Lafayette, Louisiana, Hamid  de Brooklyn, Isaac  de San Francisco,
Califrnia, Tsosie  de Shiprock, Novo Mxico, Veranza  de El Paso, Texas. E Wilson  de Brielle, Nova Jersey. O Cliff disse que  capaz de conseguir mais, mas
precisa de saber que tipo de informao pretende.
Obrigado, Alex. Ainda no sei bem o que preciso. Volto a falar consigo.
#H alguma coisa de til no que lhe disse? perguntou o Alex cheio de esperana.
Provavelmente. Ainda no sei.
Logo que Owen desligou o telefone, disse a Lenore que o nome Serian era com certeza um nome fictcio.
O que podemos fazer? perguntou ela desanimada. Agora j nem sequer temos um nome.
Tambm fiquei desapontado, confessou ele, mas se pensarmos bem, isto pode ser uma alternativa. Agora podemos deixar de procurar uma famlia inexistente e concentrar-nos
a imaginar qual seria o nome verdadeiro do Bram.
Owen concentrou-se por instantes na nova informao, depois pegou no bloco em que tinha escrito. Estes so os nomes que estavam no decalque. Lembra-se que um deles
era Luther Bachman? Bem, adivinhe donde era... de Hutzell, no Kansas. E se o nome da famlia do Bram fosse de facto Bachman? E lembra-se da referncia a Luke na
carta do Al? E se Luke fosse a abreviatura de Luther? E se Luther Bachman fosse o irmo que o Bram perdeu no Vietname?
Os olhos de Lenore brilharam de entusiasmo e ela pegou no telefone e empurrou-o para o lado de Owen. Depressa, disse ela. Telefone para Arcdia, no Kansas e pergunte
por Bachman, para ver o que acontece.
O entusiasmo desapareceu quando souberam que no havia nenhum Bachman na lista telefnicadaquela localidade. A seguir perguntou por Bachmans em ou perto de Hutzell,
no Kansas. Tambm no havia esse nome na lista daquela zona.
Owen recusou-se a desistir, mas no podia deixar de se preocupar com o facto de os segredos de Bram e as respostas de Lenore estarem fora do seu alcance. Tambm
estava a comear a questionar a ideia de procurar o pai dela. Tratava-se de um homem que tinha abandonado a me e a criana. Encontr-lo poderia ser uma experincia
m e destrutiva. De certa maneira, Owen achava que ela podia ter sorte em nunca ter conhecido o homem, e deu consigo a imaginar como seria trocar de posio com
ela e ser rfo de pai. Fazer desaparecer todos os vestgios do seu pai, apagando a marca indelvel do carcter de Clancy que Owen temia e trazia consigo.
Lenore ficou a olhar para o telefone.
Ele tinha de pensar em alguma coisa. No podia desiludi-la.
Sabe... h todas aquelas contas de telefone que o Serian guardou. Devamos verific-las. As chamadas de longa distncia devem ter os nomes registados. Essa Tia Milly
parece que era importante para eles. Talvez tivesse havido alguma chamada para ela ao longo dos anos. Ou outras chamadas para nmeros no Kansas. Vale a pena tentar.
Lenore levantou-se para ir com ele para a sala de estar, onde tinham deixado os registos de Serian, mas o seu entusiasmo estava a dar lugar ao pessimismo. Ou talvez
fatalismo.
Vinte e dois anos de contas de telefone de Bram Serian estavam amontoadas umas em cima das outras na ponta de um sof gigante. Mecanicamente,
Owen seleccionou as chamadas de longa distncia ao longo dos anos, abordando a tarefa como se fosse um servio enfadonho mas simples. Lenore acendeu a enorme lareira
e ficou a olhar para ele. Ele sentia os olhos dela a observ-lo, e desejava poder penetrar na cabea dela e ver o que ela pensava dele. Ser que ele era para ela
apenas um meio para atingir um fim?
Quando chegou  rea com o cdigo 316 no Kansas, no se permitiu ter quaisquer esperanas. Garland, KS lia-se no registo impresso. Abriu um atlas, mas no conseguiu
encontrar nenhum Garland, no Kansas. Os olhos de Lenore continuaram negros e calmos. Que mal pode fazer? disse ele enquanto pegava no telefone.
Ol, respondeu uma voz masculina de uma pessoa idosa a muitos quilmetros de distncia.
Ol,  da casa dos Bachmans?
O qu? Deve ter marcado um nmero errado.
Espere, por favor, a Milly est?
Seguiu-se um silncio. Owen receou por instantes que tivesse sido desligado.
Milly? No est a querer falar com Milly Corwin neste nmero, ou est?
Sim. O seu corao comeou a bater fortemente, de tal modo que sentia palpitaes nos ouvidos. Milly Corwin.
Tretas... h anos que ela se foi embora daqui. A companhia dos telefones atribuiu-nos o nmero dela depois de ela se ter mudado.
O senhor vive em Garland?
Estamos de certo modo entre Garland e Arcdia. Da mesma maneira que estava a Milly.
O olhar de Owen elevou-se para o rosto de Lenore, mas teve de baixar os olhos imediatamente. Era demasiado. A palpitao nos ouvidos e um sbito calor elctrico
nos olhos.
O senhor sabe dizer-me como posso contactar com a Milly?
Ora muito bem, a voz do velhote passou a ter um tom de desconfiana. Como  que eu sei que o senhor tem alguma coisa a tratar com a Milly?
Owen percebeu imediatamente que tinha de ser muito cauteloso. Este era um homem que era muito parecido com Clancy Byrne, e se desse minimamente a entender que estava
a mentir, podia fazer com que o velhote pensasse que Owen pudesse ser algum a querer recuperar o seu carro ou algum fiscal do IRS. No entanto, a verdade simples
era demasiado complicada e inacreditvel para ser contada.
Daqui fala Owen Byrne, disse ele. Dos Flint Hills.
Uhm. Parece-me que no conheo nenhuns Byrnes.
A minha me era da famlia dos Hadleys. De uma regio prxima de Maynard. Produziam trigo.
Conheci alguns Hadleys. Creio que eram dos arredores de Chanute. Tinham algum parentesco consigo?
No sei bem se os conheci.
O velhote hesitou. Ento e o que pretende da Milly? perguntou ele. Owen ganhou fora e arriscou. Bem, na verdade eu queria falar com Milly Corwin sobre aqueles sobrinhos
dela.
Oh, sim... os rapazes que ela adorava. Bem, eu vou dizer-lhe, a mezinha e a Milly at ao mesmo grupo da igreja pertenciam. Parece que ela no sabe o que  feito
da Milly.
Posso falar com ela?
Com certeza. Ela hoje foi visitar um parente que est doente, mas pode voltar a ligar amanh que ela deve estar por aqui.
Posso dar-lhe um nmero para onde ela pode ligar a cobrar no destinatrio logo que chegue?
Uh uhhh, eu no quero que se faam chamadas de longa distncia do meu telefone.
Mas...  a cobrar no destinatrio... o senhor no paga nada.
No, no! Telefone voc amanh. Por volta das onze  uma boa altura. Ela deve estar a cozinhar o almoo para mim.
Owen agradeceu-lhe e desligou o telefone. Lenore estava muito silenciosa. Owen teve a impresso que ela estava a reter a respirao.
Parece-me que apanhmos a pista da Tia Milly, disse-lhe ele. O nome dela  Milly Corwin. Fiquei de telefonar amanh para me dar o nmero dela. L  uma hora mais
cedo, portanto ser meio-dia na nossa hora.
Lenore pareceu ficar to pasmada que ele ficou preocupado. Ento? Estendeu a mo para lhe tocar no brao e descobriu que ela estava a tremer. Sente-se bem?
Ela acenou que sim com a cabea.
Eu vou buscar-lhe alguma coisa, disse ele, embora no soubesse o qu, at estar na cozinha e ver as saquetas de ch num frasco em cima do balco. Aqueceu gua e
voltou para a sala com duas canecas cheias de ch aromtico.
Obrigada, disse ela.
Ele desligou as lmpadas ofuscantes do tecto e a sala ficou transformada instantaneamente, iluminada pela luz suave de uma pequena lmpada com um quebra-luz e pela
claridade do lume danante e hipnotizante. Ela ps as duas mos em volta da caneca fumegante, deu um suspiro e sentou-se com as pernas enroscadas por baixo dela.
Apesar dos progressos alcanados, ela parecia melanclica.
Acabaram o ch em silncio; depois levantou-se e dirigiu-se aos zigue-zagues para uma das largas janelas que ladeavam a lareira. Owen no sabia se ela estava a olhar
para fora, para a tempestade, ou para o seu prprio reflexo na vastido de vidro negro.
Lamento que ainda no tenhamos encontrado nenhuns sinais do seu pai, disse-lhe ele. Talvez a Tia Milly saiba alguma coisa.
Ela continuou com os olhos fixos no vidro escuro. O seu rosto ali reflectido era uma mscara esqueltica com os buracos dos olhos vazios. O rosto de um fantasma.
Amanh recomea o julgamento, Owen. O meu tempo est a esgotar-se.
UAKAN ͔UKH
Eu vou continuar a trabalhar nisto, prometeu ele. No vou desistir.
Voltou a cabea para olhar para ele por cima do ombro. No vai conseguir encontr-lo a tempo.
A tempo de qu?
Antes de eu ser condenada e deportada.
Lenore... protestou ele. Comeou a dizer-lhe que no devia pensar daquela maneira, mas apercebeu-se que as palavras no faziam sentido. A mulher estava a ser julgada
por homicdio. Tinha todo o direito a estar pessimista.
Ele levantou-se para pr mais lenha na lareira. Era uma tarefa calmante e ele f-la devagar, usando um dos pesados utenslios manufacturados para mudar os cavacos
de posio e colocar os novos. Ela afastou-se da janela e foi colocar-se ao lado dele a observar. A proximidade dela era perturbadora. Ele deixou de usar o atiador
como desculpa para se afastar dela.
Depois explodiu uma chuva de fascas, obrigando-os a dar um passo atrs e de algum modo ficarem mais prximos. Ela voltou-se para ele, apenas a alguns centmetros
de distncia e ele sentiu o perfume do seu cabelo e espreitou o decote vagamente envolvente do seu roupo. Parou tudo. Cada clula do seu corpo ficou  espera. Ele
conseguia ouvir o som da respirao dela e ver a pulsao no seu esbelto pescoo. Sem um esforo consciente, ele levantou a mo para acariciar a cara dela. Era to
intensamente angulosa e no entanto to suave e macia ao toque. Lentamente, ela levantou a mo para a cara dele em resposta, e o toque leve como uma pena dos seus
dedos fez-lhe fervilhar o sangue.
Pegou na mo dela e levou-a aos lbios. Ela tinha um pulso to fino. Roou com a boca na delicada parte inferior da mo.
Tu s mesmo real? perguntou ele.
No sei, murmurou ela.
Ele puxou-a mais para si, apertando-a toda. Suavemente, beijou-a na boca.
Queres-me, Owen?
Sim.
Ento possui-me. Agora. Faz com que eu seja real.
Ele abriu-lhe o roupo. Por baixo estava nua. Uma pele dourada e seios pequenos perfeitos, com mamilos morenos. E um misterioso tringulo escuro. Queria devorar
cada centmetro dela, mas foi cuidadoso. Moderado. Controlado. Cuidadoso para no ferir sensibilidades. Para no forar.
Ela fechou os olhos, parecendo deleitar-se com as suas carcias suaves e os lbios dele na sua boca e no pescoo. A sua respirao acelerou. Ele roou as palmas
das mos pelos mamilos entumecidos e ps as mos nos seios. Cuidadosamente. Suavemente. Com medo de a assustar a qualquer momento e que ela fugisse.
Comeou a beijar-lhe o pescoo e desceu pelo corpo, excitando-a com a lngua, at meter na boca o boto do seio. O seu leve gemido f-lo estremecer.
Lentamente, desabotoou desajeitadamente os botes da camisa e ela surpreendeu-o ao abrir-lhe o fecho dos jeans. A mo dela fechou-se em volta da sua ereco, fazendo-o
suspirar de prazer e de surpresa.
Quando j no aguentava mais, levantou-a nos braos e levou-a para um dos sofs gigantes, depois sentou-se com ela no colo e beijou-a at ficar tonto com o sabor
da sua boca.
Deita-te, disse ela, afastando-se dele.
Ele deitou-se encostado s almofadas moles e olhou para ela, que deixou cair o roupo aberto com um encolher de ombros. Ele nunca tinha visto tanta beleza. Foi invadido
por uma onda de reverncia, seguida de espanto e admirao.
Lentamente, ela afastou as coxas e tocou-o. Ele observou-a a pr a mo no seu pnis grosso e erecto. Observou os seios dela a oscilar  luz da lareira. Observou-a
enquanto lhe punha o preservativo. Depois fechou os olhos e sentiu a lngua dela a percorrer-lhe as plpebras, a boca e o peito.
Olha para mm, Owen.
Ele obedeceu e os olhos negros dela apoderaram-se dele, absorveram-no e levaram-no para o meio da sua escurido. Depois ela elevou-se e moveu-se para a frente de
modo que ele a sentiu, hmida e quente de encontro  sua barriga.
No feches os olhos, sussurrou ela. Olha para mim.
Ela deslizou para baixo, engolindo-o no seu calor de veludo. Engolindo-o com os seus olhos negros, negros. Envolvendo-o to completamente que ele ia ter de nascer
de novo ou morrer definitivamente.
Ela estava a dormir. Deitada ao seu lado sob um cobertor no sof. Ele ficou muito quietinho e escutou o ritmo da sua respirao, deixando-a descansar o mais possvel.
A luz cinzenta da madrugada comeava a entrar na sala quando ele finalmente mexeu o seu brao entorpecido e disse, Lenore...
Os olhos dela abriram-se em sobressalto.
Est descansada.  de manh.
Ela ficou descansada e afastou o cabelo da cara. Estava a sonhar, disse ela. Eu era pequena e estava descala, e ia a andar ao lado da minha me. De mo dada. Queria
ver a cara dela, mas ela era muito mais alta do que eu e sempre que tentava olhar para cima o sol fazia-me doer os olhos. Ento olhei para o saco que ela levava
na outra mo. O saco mexia-se e inchava.
Descemos para o canal. Ela ajoelhou-se e abriu o saco que estava cheio de enguias retorcidas e molhadas. Boa sorte, disse ela, e despejou as enguias na gua e
eu sabia que era a mim que ela queria desejar sorte e que estava a tentar proteger-me. Depois voltou-se e eu ia finalmente ver-lhe a cara, s que as enguias transformaram-se
numa serpente que saltou subitamente da gua e a agarrou. E eu no consegui segur-la. No consegui salv-la.
Owen abraou-a ainda mais.
Acreditas no poder dos sonhos? perguntou ela.
Acredito que h poderes sobre os quais no sei nada, respondeu ele cautelosamente.
Ela acenou com a cabea. H muitos anos que penso no meu pai quase todos os dias. Raramente penso na minha me. Ela fez uma pausa. No entanto  s a minha me que
aparece nos meus sonhos.
Talvez porque vives na Amrica, sugeriu ele, e por isso sentes-te como se vivesses perto do teu pai americano, enquanto a tua me e o pas da tua me  para ti um
mistrio. E os sonhos esto cheios de mistrio.
Ou talvez seja porque ela est morta.
O qu?
Talvez ela aparea nos meus sonhos porque est morta. Porque  a nica maneira de ela poder vir ter comigo.
Bem... disse Owen. Talvez. Inclinou-se para o lado direito para poder olhar pela janela. Vamos ter algumas dificuldades em sair daqui com toda esta neve.
Joe Volpe vem buscar-me todas as manhs.
Ser que vem num limpa-neves? Ainda  uma boa distncia desde o porto de entrada at  estrada. Owen ficou subitamente aborrecido. Concentrou-se na questo da neve,
mas tinha mais a ver com a ideia de o Volpe, de olhar penetrante e temperamental, levar sozinho no carro a Lenore para o tribunal todos os dias.
O que fazia o Serian quando vocs ficavam presos pela neve? perguntou ele.
Ia buscar o tractor. A neve era um pretexto para brincar com o tractor.
Queres dizer que h uma p para o tractor?
Ela encolheu os ombros. Est tudo l em baixo no barraco do equipamento. Nunca foi usado por mais ningum a no ser pelo Bram.
Prepara-te e faz qualquer coisa para o pequeno almoo, anunciou ele, divertido com a ideia de ir trabalhar l para fora. Vou l abaixo dar uma vista de olhos.
Encontrou roupa isoladora de proteco e luvas e botas para a neve num quarto de arrumaes, junto da porta das traseiras. Ficavam-lhe ligeiramente mais folgadas
do que as roupas do Al, por isso suspeitou que estava a vestir coisas de Bram Serian. Recusou-se a pensar nisso, afastando-o dos seus pensamentos juntamente com
os pensamentos sobre Mike Wheeler que tinham emergido desde que tinha acordado com Lenore nos braos.
O barraco do equipamento era afinal um edifcio fechado bastante novo, no muito diferente de uma garagem de tamanho desproporcionado. L dentro estava um tractor
John Deere lustroso, um daqueles modelos tradicionais todos descobertos. Observou a fila de instrumentos com agrado. Bram Serian no tinha economizado em nada. Tinha
todas as novidades em dispositivos para adaptar ao tractor instrumentos que um autntico agricultor teria considerado como luxos ou como brinquedos.
Owen ps o tractor a funcionar, adaptou-lhe a p para a neve  frente e meteu-se ao trabalho. A neve era profunda, mas Serian tinha delimitado a estrada com rvores
e arbustos, de maneira que se tornava fcil manter-se na direco certa. Quando estava quase a chegar ao porto, olhou para trs e sentiu uma onda de satisfao
ao ver o caminho macio que tinha acabado de abrir.
Abriu o porto e deixou-o ficar aberto enquanto ele saa para fazer uma viragem na estrada. Depois decidiu que, uma vez que havia muito tempo, devia limpar a estrada
que seguia para a cidade, para ter a certeza que ningum
iria mais tarde ficar atolado. Limpou a estrada at chegar ao cercado do Delegado Havlik com os ces a ladrar, onde viu que o delegado j tinha sado com o seu tractor
e a estrada estava limpa a partir dali.
Owen serviu-se da entrada de Havlik para dar a volta e enquanto estava a fazer as manobras com o tractor para fazer a viragem, passou um carro na estrada. Era ainda
muito cedo para ser Volpe a ir buscar Lenore e o carro no parecia ser o que ele se lembrava de ter visto Volpe a conduzir, mas quem mais podia ser? No havia mais
casas naquela direco. Ps o tractor na velocidade mxima e deslocou-se ruidosamente a caminho da Arcdia.
Quando chegou  casa, viu que no estava l o carro. Provavelmente o condutor tinha-se perdido e estava agora atolado algures na estrada que ainda no tinha sido
limpa do lado de l da Arcdia. Ia ter de levar o tractor at ao caminho sem sada e procurar o carro, que provavelmente estava preso num local com neve acumulada.
Mas precisamente no momento em que Owen estava a virar a roda avistou uns rastos de pneus que davam a volta ao barraco do equipamento. Como achasse aquilo estranho,
aproximou-se, desceu do tractor e caminhou at s traseiras do barraco. Estava l um carro estacionado, longe da vista da casa e da estrada e at da frente do barraco.
Cautelosamente, Owen aproximou-se do carro, mas estava vazio. Pensou que talvez fosse o carro de Bram Serian, que algum tivesse finalmente trazido do local em que
tinha sido abandonado pelos frequentadores da festa que tinham fugido h muitos meses. Mas por que o teriam levado  volta do barraco?
Tentou abrir a porta, que no estava trancada, por isso abriu-a e espreitou l para dentro. O carro estava limpo, exceptuando uma chvena de caf em papel. Abriu
o porta-luvas, mas no havia nada l dentro. Ao endireitar-se, viu dois pequenos livros de bolso no banco de trs. Estendeu o brao para os alcanar e leu o ttulo
do que estava no cimo. As Confisses de Santo Agostinho: A Autobiografia Clssica do Homem Que Viajou das Trevas da Ambio Mundana para a Constante Luz da Graa.
Por baixo estava o mesmo Kierkegaard que tinha visto no quarto de dormir de Bram Serian Medo e Tremor e A Doena At  Morte.
Levou os livros consigo para casa, extremamente confuso, com medo de libertar a sua imaginao. Deu a volta e entrou por uma das portas traseiras e tirou a roupa
de agricultor; depois dirigiu-se para a cozinha. E enquanto ia no corredor ouviu claramente a voz de Lenore a chamar, Jimmy?
Oh, disse ela, quando Owen entrou na cozinha.
Quem est aqui, Lenore?  o carro do Bram que est ali atrs do barraco?
Sim,  o carro do Bram. Emprestei-o a uma pessoa para o usar.
Mas por que est por detrs do barraco?
Anda c, disse ela, dando-lhe um prato de bolachas torradas. Come depressa. Tens que ir embora daqui a pouco. Antes de Joe Volpe chegar aqui.
Mas a quem emprestaste o carro? Quem est aqui? De quem so estes livros? E colocou os livros em cima do balco.
Ela relanceou um olhar nervoso para os livros e a seguir para a porta atrs
#de Owen. Estava vestida com um fato castanho deselegante, com o cabelo esticado e apanhado atrs da nuca e parecia quase uma desconhecida.
Tambm tenho amigos, Owen. E eles estacionam onde lhes apetece. Agora, tens de te despachar.
Mas o que se passa? perguntou Owen. Ests a esconder algum de mim?
Ela fitou-o com um olhar cheio de raiva controlada. Tu no podes saber tudo, Owen.
Ontem  noite no te importaste que eu ficasse a saber quase tudo sobre ti, pois no?
Ela riu-se desdenhosamente. Vocs os homens so todos iguais. Achas que fazer sexo  o mesmo que conhecer uma pessoa.
A ferroada das suas palavras foi to violenta que no conseguiu responder.
Pe-te daqui para fora, disse ela, mandando-o embora.
No.
Ela avanou rapidamente para ele mas ele agarrou-lhe o brao e obrigou-a a rodar de maneira a ficarem frente a frente. Subitamente, ela parecia estar a olhar para
ele de um lugar distante e intocvel.
Eu no tenho tempo para jogos, Owen.
 o que  isto para ti, um jogo?
No, disse ela calmamente. Isto  um julgamento por homicdio. O meu julgamento por homicdio.
Ele largou-a e deixou cair os braos para o lado, submisso. Desculpa.
Se dizes isso com sinceridade, ento despacha-te, por favor.
Ela ficou  espera fora da porta da casa de banho, enquanto ele vestia a sua roupa limpa. Ela j tinha juntado as suas coisas, portanto ele no precisava de fazer
mais nada a no ser ir-se embora.
Ainda vais fazer a chamada telefnica para a Milly? perguntou ela enquanto o acompanhava at  porta de entrada.
Sim. Ao meio-dia.
Ela acenou com a cabea. Telefona do hotel. Eu digo-lhes na recepo e deixo l a minha chave para ti. Depois... talvez tenhas a possibilidade de esperar no quarto
e eu vou l ter logo que seja suspensa a sesso no tribunal para o almoo. Assim a imprensa no nos ver juntos e podes contar-me o que descobriste sobre a Milly.
Certo, disse ele, reprimindo o impulso de responder com um sarcstico Sim, patroa, ao mesmo tempo que se sentia aliviado porque ia poder voltar a estar com ela.
Ela estendeu a mo para o puxador da porta, depois hesitou. Estou-te muito grata, Owen. Ningum se teria esforado tanto como tu.
Ainda no terminei, disse ele. Vou continuar a trabalhar nisso. Queria dar-lhe um beijo de despedida mas no o fez, porque esta no era a mesma mulher com quem tinha
feito amor na noite passada. Esta era a mulher distante e protegida da sala de audincias do tribunal.
Afastou-se da Arcdia no carro, atormentado pelas dvidas. Quem estava ela a esconder? Que segredos estava a guardar? E porqu?
16
O caminho da Arcdia para o tribunal demorou menos de trinta minutos. Ainda era muito cedo quando Owen chegou, por isso estacionou o carro e percorreu a p os trs
quarteires at ao caf para tomar o pequeno almoo.
Sentia-se estranho. Como se tivesse aparecido, vindo de uma poca tenebrosa, intemporal. Ou de um longo sonho surrealista. Tambm se sentia extremamente agitado,
irritado e impotente. Tirou o bloco de notas e comeou a escrever coisas. Transpondo o quebra-cabeas para o papel, onde era mais fcil de gerir.
A empregada de mesa apareceu para voltar a encher-lhe a chvena pela terceira vez, dizendo, Aqui vai, querido. Parece-me que era capaz de tomar mais disto.
Ele mal levantou os olhos para ela, antes de se debruar sobre o bloco de notas, descrevendo ao pormenor o que achava que tinha acontecido, resumindo o que sabia
e o que esperava descobrir. A escrita acalmou-o. Acalmou-o. Quando ficou satisfeito por ter escrito tudo, endireitou-se para acabar de beber o caf. Indolentemente
virou a folha para uma pgina em branco e comeou a fazer desenhos. Crculos que enchia de pontos de interrogao. Pequenas linhas que evoluram para um desenho
do porto da Arcdia. Depois escreveu com letras maisculas...
JIMMY?
KIERKEGAARD? CONFISSES DE SANTO AGOSTINHO?
QUEM  O JIMMY?
POR QUE EST ELA A ESCOND-LO?
E ficou novamente irritado. Irritado e magoado pelos segredos dela e pela maneira como o tinha mandado embora.
Owen! O que o trouxe aqui to cedo? Era a voz da Holly. Levantou os olhos e viu a Holly e a Marilyn. A Marilyn acenou-lhe com a mo e continuou a falar para a empregada
de mesa, mas a Holly foi at  mesa dele e debruou-se sobre o seu ombro.
O que est a fazer? perguntou ela num tom jovial. Tem algum ttulo escaldante?
Fechou o bloco de notas e esboou um sorriso forado. Ol, Holly. Como vai o trabalho da informao?
Assim-assim. Ela sentou-se em frente dele. Para dixer a verdade foi assim um fim de semana desinteressante. Ps-se a brincar com o doseador de acar. Encontrou
o meu recado no sbado  noite?
Encontrei. Obrigado pelo convite, mas no foi possvel.
Uhmm. Ela rasgou um canto de um guardanapo de papel e enrolou-o numa bolinha. Como vai o seu trabalho?
Vai bem.
Deve ser difcil, disse ela. Trabalhar tanto sem ter quaisquer garantias.
Tento no pensar nisso dessa maneira. Ele lanou um olhar para a Marilyn. Vocs as duas vo sentar-se para tomar o pequeno almoo?
No. S passmos por aqui para levantarmos o que encomendmos para o grupo. Fazemo-lo  nossa maneira no tribunal todas as manhs, depois juntamo-nos para tomar
o caf com pezinhos antes da hora do julgamento. Se soubesse que voc ia chegar cedo, j lhe teria falado nisso.
Para a prxima vez j sei, disse ele.
Ela continuou a rasgar e a enrolar o guardanapo. Hoje a Marilyn props que fssemos almoar a um pequeno restaurante que faz uns preos muito bons e que fica a alguma
distncia da cidade. Vamos de carro pela auto-estrada e h trs pessoas que levam o carro. Provavelmente vou com a Pat e se quiser pode vir connosco ou...
Hoje no... obrigado. Tenho de fazer uns telefonemas.
A decepo manifestou-se-lhe na cara. Ohhh... tem a certeza?
Sim. Tenho umas indicaes importantes que preciso de seguir o mais rpido possvel.
Ento a Marilyn juntou-se-lhes. Ainda demora uns cinco minutos, anunciou ela. Algum acabou o caf e agora tm de fazer mais uma cafeteira dele. Olhou para o Owen
franzindo as sobrancelhas. Est com muito mau aspecto. Teve uma m noite?
Trabalha demais, disse a Holly.
Sabem quem vai estar na barra das testemunhas esta manh? perguntou Owen.
George Fugate. O dono do armazm de ferragens onde ela comprou o candeeiro.
Owen bateu distraidamente com a esferogrfica na mo por momentos. O primeiro nome do mido vizinho  Tommy, certo? No  Jimmy.
Certo, responderam ambas as mulheres.
H algum Jimmy ligado a este caso?
As duas mulheres trocaram olhares e a Marilyn encolheu os ombros. S se for James Collier. Parece-me que me lembro que s vezes dava pelo nome de Jimmy.
James Collier? O nome era muito familiar a Owen, mas no conseguia situ-lo.
O amante desaparecido, insistiu a Holly com um sorriso malicioso.
Ningum tem a certeza disso, Holly.  isso que torna o mistrio interessante.
Refresque-me a memria, disse Owen. Quais eram as particularidades de Collier?
A Marilyn inclinou-se para a frente, saboreando o seu papel de informadora. O que sabemos  que o Collier estava na Arcdia na noite do homicdio e havia rumores
de que estava l devido a uma relao romntica. A polcia tem procurado falar com ele e a acusao daria tudo por t-lo na barra das testemunhas... mas o homem
desapareceu. Puff! Sem deixar rasto.
O mais estranho de tudo isso, acrescentou a Holly,  que ele no era o tipo de homem que se esperasse que se envolvesse nesta... nem que desaparecesse. Ele era um
irmo de uma congregao religiosa catlica... no era bem um padre, mas quase... e ensinava numa escola de rapazes muito prestigiada.
Um cidado proeminente, salientou a Marilyn. Escreveu artigos sobre a moralidade e serviu em dezenas de comisses para voltar a pr Deus nas escolas e ensinar aos
adolescentes a abstinncia. Esse gnero de coisas.
Os factos penetraram em Owen como flechas de pontas cidas. Jimmy... James. Seria natural que um homem religioso lesse Kierkgaard e Santo Agostinho.
A Holly riu-se com a expresso na cara de Owen. O enredo est a complicar-se, heim?
Voc no estava c nas primeiras sesses com o grande jri e nas audies que antecederam o julgamento, por isso perdeu de certo modo a agitao  volta do Collier,
explicou a Marilyn. Em primeiro lugar, toda a gente queria saber o que  que um homem como o Irmo James estava a fazer na Arcdia. Havia rumores de que sofria por
amor e estava obcecado. Um homem desfeito. Mas nunca ningum teve a oportunidade de lhe perguntar porque  que, logo que o seu nome apareceu na investigao, James
Collier desapareceu.
Permitam-me que apresente umas teorias acerca do que lhe aconteceu, sugeriu a Holly com ares de convencida. A Lenore seduziu-o para o ajudar a matar o Serian. Depois,
quando a situao comeou a complicar-se, matou tambm o Collier. Mas desta vez arranjou uma soluo melhor para se desfazer do corpo.
A empregada chamou para lhes dizer que a encomenda estava pronta. A Marilyn foi  caixa registadora e comeou a procurar na sua carteira.
Vem connosco? perguntou a Holly.
Ainda no, disse Owen, esforando-se por parecer normal. Eu j l vou ter dentro de alguns minutos.
A Holly no se mexeu para se juntar  Marilyn e ele pensou que ela ia oferecer-se para esperar por ele, por isso murmurou rapidamente qualquer coisa sobre ir  casa
de banho e desapareceu. Demorou-se bastante tempo no pequeno cubculo, alternando entre a vontade de dar murros na parede e um desespero esgotante e degradante.
Lenore estava a esconder James Collier na
Arcdia. O amante desaparecido. Qualquer explicao que pudesse encontrar para isso era repulsiva e srdida. Por fim, quando tinha a certeza de que era seguro, saiu
e voltou para a mesa.
O seu bloco de notas e a esferogrfica estavam ainda em cima da mesa, mas o bloco estava aberto na primeira pgina em branco e tinha uma mensagem da Holly. SE NO
ESTIVERMOS JUNTO DA SALA DE AUDINCIAS, PODE ENCONTRAR-NOS EM BAIXO NO TRIO, JUNTO DAS MQUINAS DE VENDA AUTOMTICA. Tinha assinado H & M... Holly e Marilyn.
Rasgou o recado, amarrotou-o e deixou-o no tabuleiro, depois saiu do caf. Havia neve amontoada por todo o lado, no de forma natural, mas ao longo das bermas sujas
onde tinha sido amontoada por limpa-neves e por pessoas particulares empunhando ps. Arqueou os ombros e caminhou lentamente, convencido de que o seu aspecto devia
ter mudado, que devia estar com um ar to tremendamente estpido, tal como se sentia.
Avistou o tribunal. Ainda tinha uma tarefa a fazer. Um livro para escrever. Obrigaes a cumprir. Dinheiro a ganhar.
Teve de se concentrar nisso e recompor-se.
Sentou-se no banco ao lado da Holly, apenas quando faltavam alguns minutos para comear a audincia. Tanto a acusao como a defesa j se encontravam sentadas 
mesa. Evitou olhar na direco de Lenore.
A Holly deu-lhe um cumprimento estranhamente discreto, sem olhar para ele, mas Pat Melville, que estava sentada do outro lado dela, inclinou-se para ele dizendo,
 verdade? No pode sentar-se aqui sem me contar.
Owen ficou a olhar para ela e a Pat riu-se. No olhe para mim dessa maneira. Eu s quero saber se conseguiu mesmo ir ver a Arcdia.
Como  que voc...? O seu desnorteamento era tal que no conseguiu terminar a pergunta.
Foi um erro fatal, meu querido. Voc estava numa cabine telefnica aqui no tribunal e um reprter vigilante esteve a ouvir parte da sua conversa sem ser notado.
Foi o principal motivo de conversa durante o caf desta manh.
Foi onde esteve durante este fim de semana, no foi? perguntou a Holly em tom acusador.
Sim, consegui ir ver a casa.
- Bemmm... insistiu a Pat. Conte-nos!
 quase indescritvel, disse ele. Como se tivesse sido construda para ser uma casa assombrada.
- E como era ela! perguntou a Holly, num tom malicioso.
No consigo descrev-la, disse ele, procurando controlar a sua amargura. No sei como  ela.
A Holly franziu as sobrancelhas. E os rumores de que ela e aquele detective com olhos de tubaro... como  que ele se chama...
Volpe, completou a Pat.
Sim. Que ela e o Volpe tm uma relao romntica... Notou algum sinal disso?
#Ele leva-a de carro todas as manhs, mas no me parece que isso prove alguma coisa.
A Pat estendeu o brao e deu-lhe uma palmadinha na mo. Est muito bem, disse ela. Ns compreendemos. No pode contar-nos muita coisa porque isso ia dar cabo do
sucesso do seu livro. Deu uma cotovelada na Holly. Mas no quer dizer que no possamos ficar verdes de inveja... no  verdade, Holly?
A Holly no reagiu. A sua atitude manteve-se incaracteristicamente discreta. Owen suspeitou que ela se sentiu ferida nos seus sentimentos, em parte pelo facto de
ele ter desaparecido no caf e em parte por ter descoberto que ele lhe tinha escondido a sua ida  Arcdia.
So horas de espectculo, algum disse atrs deles num sussurro alto e mais uma vez a pesada mquina do povo contra Lenore Serian se reanimou.
George Fugate era um homem de aspecto severo, vestido com um fato castanho com bastante uso, que tinha sem dvida servido durante anos como vesturio para funerais
e casamentos. Tinha o comportamento ntegro de uma pessoa que cumpre o seu dever.
Spencer Brown levou-o a contar uma breve histria da sua loja de ferragens e novidades, demonstrando que o homem era um membro respeitado da comunidade, um bom comerciante
e um observador perspicaz do comportamento humano. O dirio do armazm de Fugate daquele dia foi apresentado como prova, assim como o recibo especfico, escrito
 mo, das compras de Lenore.
Agora, senhor Fugate, pode contar-nos o que aconteceu e o que lhe passou pela cabea... quais foram os seus pensamentos... quando a senhora Serian entrou na sua
loja?
Com certeza. Lembro-me muito bem. Ouvi a campainha que est por cima da porta e soube que algum tinha entrado no meu estabelecimento, por isso dirigi-me para a
entrada. Fiquei muito surpreendido ao ver que era a senhora Serian.
Por que ficou surpreendido?
Porque depois de tantos anos a viver ali, no tinha vindo  minha loja mais de uma dzia de vezes. E nas outras vezes tinha vindo sempre acompanhada pelo marido.
O que aconteceu a seguir?
Cumprimentei-a como cumprimento todos os clientes, normalmente com um comentrio sobre o tempo que est naquele dia.
E o que respondeu ela?
Ela disse ol, mas parecia estar muito nervosa. Muito... desconfiada. Olhando para trs por cima do ombro e para todos os lados como se estivesse preocupada que
algum a visse.
Ela deu uma olhada pela loja, como uma compradora normal?
Protesto, Meritssimo! gritou Rossner sem se levantar do seu lugar.
Reformule a ltima pergunta, Dr. Brown, ordenou o juiz.
O que fez em seguida a senhora Serian?
Ela no olhou  volta nem perdeu um segundo. Limitou-se a entregar-me duas listas de compras.
 um procedimento normal na sua loja, que os clientes levem listas, mesmo quando esto l pessoalmente e podiam dizer-lhe simplesmente o que queriam?
Sim.  de certo modo um retorno  maneira antiga de fazer as coisas e eu gosto de conservar os costumes antigos. Os clientes normalmente entram e do uma vista de
olhos durante algum tempo. Depois do-me uma lista e conversamos um pouco e eles continuam a olhar  volta enquanto eu avio o seu pedido.
Nesse caso teria sido invulgar que a senhora Serian entrasse e lhe entregasse uma lista e depois lhe dissesse em voz alta que tambm queria um candeeiro e petrleo?
Sim. Isso teria sido estranho.
O senhor disse que havia dois papis, senhor Fugate. Ser que uma das listas era assim to longa que enchia a pgina e tinha de ser continuada na outra folha?
No, no era esse o caso de modo nenhum. O primeiro papel tinha uma lista de sete coisas que no enchia a pgina nem de perto nem de longe. Tinha sido escrita por
Natalie Raven que era quem normalmente fazia as listas das compras para a casa e era quem habitualmente me entregava a lista pessoalmente e era costume dela...
Protesto, Meritssimo, disse Rossner, abanando a cabea em sinal de insatisfao. O senhor Fugate tambm  especialista em caligrafia para alm de ser comerciante?
Seguiu-se uma breve conversa privada provocada por isto e em seguida Fugate voltou ao assunto, corrigindo as suas afirmaes para dizer que se tinha familiarizado
com as listas de Natalie Raven e a que lhe foi apresentada naquele dia parecia ser uma das listas dela.
Diga-nos, por favor, senhor Fugate, o que estava escrito no segundo papel que a senhora Serian lhe entregou naquele dia?
Era outra lista numa letra completamente diferente... Era uma lista que me pareceu ter sido feita por uma pessoa diferente de Natalie Raven, porque a menina Raven
sempre fazia as suas listas com uma letra muito clara e aquela estava escrevinhada. Um candeeiro a petrleo e dois frascos grandes de petrleo, era tudo o que a
lista continha.
Teria havido espao suficiente na lista de Natalie Raven para o candeeiro e o petrleo serem acrescentados ao fundo?
Com certeza.
O senhor tirou algumas concluses... perante isso? Brown fez uma pausa e verificou as notas. Notou algum motivo para haver duas listas?
Eu supus... O meu bom senso disse-me que a lista longa era a lista de Natalie Raven, das necessidades da casa e a outra... o candeeiro e o petrleo... tinham sido
pedidos por outra pessoa e que ningum tinha pedido a Natalie Raven que acrescentasse o candeeiro e o petrleo  sua lista maior.
Algum que, por um motivo qualquer, no disse a Natalie Raven que
acrescentasse o candeeiro e o petrleo  lista grande das coisas da casa?
Sim.
Em seguida, Brown levou Fugate a fazer uma descrio da factura e do acondicionamento das compras no carro, demorando-se na forma como Lenore tinha transportado
o candeeiro e o petrleo e como os tinha colocado em primeiro lugar, apesar de ele estar mais preocupado com o facto de algum objecto se poder quebrar.
Owen no conseguia concentrar-se. E tambm no conseguia tomar notas porque a mo com que escrevia estava num punho cerrado. A insinuao era que Lenore tinha escrito
a encomenda do candeeiro e do petrleo, e Owen sabia que isso era impossvel. No s ela no tinha escrito aquilo, como podia nem saber o que l estava escrito.
Por que no teria ela comunicado a Rossner uma coisa to importante?
Lenore estava a proteger algum. Era a nica explicao lgica. Como  que ele no tinha visto isso antes? Todo o estranho comportamento dela, todos os segredos
que escondia do seu prprio advogado... estava a proteger algum. Estava disposta a sacrificar-se por essa pessoa. Era sem dvida James Collier. Um amante que tinha
renunciado  sua f e  sua vocao por causa dela.
Teria sido James Collier que tinha escrito a encomenda do candeeiro a petrleo e dos dois frascos de petrleo? Teria sido James Collier que tinha traado com ela
um plano para se livrarem de Serian? Ou James Collier podia ter actuado sem o conhecimento dela to desesperado por possu-la que tinha de destruir o homem que se
encontrava no seu caminho... contudo no to desesperado que no tentasse fazer com que parecesse um acidente.
Ou teria Lenore usado James Collier para matar Bram, tal como estava a usar Owen para encontrar o pai? Teria ela usado Collier para planear um acidente e depois
o acidente correu mal e agora estava a esconder Collier porque, com o seu testemunho, o estado teria a prova definitiva da sua culpa, enquanto que agora no tinham
mais do que um caso circunstancial?
Brown deu por terminado o seu interrogatrio  testemunha e Rossner lanou-se ao contra-interrogatrio, atirando-se como uma seta e beliscando o testemunho de George
Fugate, infligindo-lhe pequenas feridas.
E est ento a dizer, senhor Fugate... Ser correcto dizer, senhor Fugate...  verdade, senhor Fugate... O advogado ridicularizou o homem e a sua verso dos acontecimentos
e a sua afirmao de conseguir reconhecer a caligrafia de todos os seus clientes. Por fim, at conseguiu descobrir um ressentimento inflamado por parte de Fugate.
O homem tinha andado zangado durante quinze anos pelo facto de Serian comprar a maior parte das coisas que precisava a Stanley Cantor e no no armazm de ferragens
e novidades de Fugate. No ponto de vista de George Fugate, os Serians mereciam tudo o que tinha acontecido.
Fugate abandonou o lugar da testemunha e Owen permitiu-se olhar pela primeira vez para Lenore. A vista das suas costas direitas e do seu pescoo elegante reflectiu-se-lhe
no peito. Lenore. Lenore. Ainda sentia o perfume do corpo dela. Que parvo tinha sido em acreditar que ela era sua. Ou mesmo que
houvesse alguma hiptese de que pudesse vir a ser sua. Ela tinha estado a us-lo. Cada palavra e cada gesto e cada toque tinha sido uma mentira.
De repente foi dominado por uma onda de qualquer coisa intensa a que no conseguia dar um nome. Anseio? Desejo ardente? Desejo era demasiado simples e puramente
fsico. Contudo, era to fsico como emocional. Era fome, tanto do corpo como do esprito.
Pensava nela. Naquele corpo dourado e elegante. No negrume dos seus olhos. Na sensao ertica do seu cabelo espalhando-se-lhe no peito. Estava perdido. Sentia um
vazio dentro de si, que s podia satisfazer se voltasse a possu-la novamente.
Oh, Deus... seria culpada? Absolutamente culpada? Parcialmente culpada? Culpada de homicdio? Culpada por conspirao? Culpada por us-lo e tra-lo? Que provas tinha
ele? A conjectura no podia estabelecer culpa. Tinha de pr de lado a sua raiva e os cimes... sim, cimes... aquele sentimento repulsivo que nunca acreditara ser
capaz de ter... Tinha de o superar e voltar a pr a sua capacidade racional a controlar. No s por causa do seu trabalho, mas tambm por causa de Lenore. No podia
conden-la por to pouco. No enquanto houvesse alguma sombra de dvida de que ela pudesse estar inocente.
E portanto, Dr. Oliver... estava Charlie Rossner a dizer, e Owen apercebeu-se que tinha perdido todo o interrogatrio de Spencer Brown ao Dr. Samuel Oliver, o psiquiatra
que a acusao tinha encontrado para apresentar opinies de um especialista sobre a pirofobia, ou o medo do fogo.
.. na sua experincia com pessoas que sofrem de pirofobia... alguma vez, Doutor, conheceu algum doente que fosse voluntariamente ao local onde tivesse havido um
incndio, como fez Bram Serian na sua busca de materiais artsticos?
No. Mas h anomalias individuais em todas as situaes.
E alguma vez conheceu algum que sofresse de pirofobia e usasse um isqueiro a gs butano, com uma chama que aqui foi descrita como uma chama enorme?
No. Mas, mais uma vez, h determinadas anomalias que temos de ter em considerao.
Mas uma pessoa que fosse voluntariamente a locais de incndio e usasse um isqueiro a gs butano com uma chama excessivamente grande para acender os prprios cigarros
no se encaixaria na sua definio. Rossner agitou uma revista mdica que continha um artigo de Oliver de pirfobo ou uma pessoa que tivesse medo do fogo, pois no?
No. Certamente que no.
E no  verdade, Doutor, que o senhor nunca conheceu Bram Serian e que no tem conhecimentos mdicos sobre ele?
 verdade.
No  verdade que em todos os registos que o senhor viu e em todas as opinies que ouviu no h qualquer indicao de que Bram Serian tivesse alguma vez procurado
ajuda psiquitrica por causa de pirofobia ou de qualquer outro medo de alguma coisa?
 verdade.
Os ponteiros do relgio indicavam que eram doze horas. Owen fechou o seu bloco de notas e pegou no casaco e no saco. Tanto a Holly como a Pat olharam para ele com
ar jocoso. Chamadas telefnicas, sussurrou ele para a Holly. At depois do almoo.
Enquanto deslizava pelo banco, Lenore voltou-se e olhou para ele por cima do ombro. A sbita troca de olhares apanhou-o desprevenido e susteve a respirao. Esqueceu-se
de continuar a deslizar. Quando se recomps e se afastou, tinha a certeza que, tanto a Holly como a Pat tinham reparado. Provavelmente toda a assistncia tinha reparado.
Agora estava paranico quanto ao potencial de intriga que se ia gerar. Contornou o quarteiro, seguiu por uma viela e entrou no hotel pela porta de servio. O recepcionista
soube imediatamente quem era e deu-lhe a chave que Lenore lhe tinha deixado.
A chave abriu a porta do quarto onde tinha tido a entrevista com ela. Entrou no quarto em silncio e sentou-se junto do telefone, depois marcou o nmero mecanicamente.
Estou, disse a voz de uma mulher aps trs toques.
Sim... eu telefonei ontem  noite por causa de Milly Corwin.
A mulher riu com um riso abafado. No acha isto estranho? Estivemos a falar da Milly depois de sair da igreja a semana passada e agora aparece esta chamada para
ela.
De facto  estranho, concordou ele.
A Milly tinha este nmero quando vivia aqui com o Lois. Fiquei surpreendida pelo facto de o meu marido perceber logo sobre quem o senhor estava a falar.
Eu soube imediatamente, Neddy! ouviu-se a voz de um homem vinda do fundo a falar alto.
A senhora sabe onde vive a Milly agora? perguntou Owen.
Parece-me que sim. A Milly escreve-nos regularmente daquele lugar. Chama-se Golden Age Village. E fica mesmo  sada de Wichita. Ela diz que  muito bonita apartamentos
individuais e coisas assim mas sabe que no havia ningum como a Milly para dizer coisas, e se quer que lhe diga, um lar de idosos  um lar de idosos, e  mais ou
menos como pr um vestido num porco para tentar transform-lo noutra coisa qualquer.
Por acaso no tem a a direco dela ou o nmero de telefone?
Tenho-o mesmo aqui para lho dar. Falei com trs senhoras do grupo da minha igreja para ter a certeza de que estava certo.
Leu-lhe a informao, depois ele agradeceu-lhe e finalmente convenceu-a de que tinha de desligar. J estava a imaginar o burburinho que tinha provocado. As senhoras
no grupo da igreja iam andar a falar durante semanas da pessoa que queria telefonar  Milly.
Ligou para o nmero de Wichita.
Daqui fala Milly Corwin, disse uma voz idosa com preciso.
Bom dia, Menina Corwin. Daqui fala Owen Byrne. Estive mesmo agora a falar com a Neddy em Arcdia. Na verdade marquei o nmero para tentar
falar consigo e ela disse-me que a senhora estava agora a viver em Wichita.
E eu conheo-o, jovem?
No. No me conhece.  difcil explicar, mas se estiver disposta a aturar-me por alguns momentos.
Desde que no tenha despesa com isso, concordou ela cautelosamente.
No sou nenhum vendedor, assegurou-lhe Owen. Depois hesitou, pondo-se a imaginar como havia de explicar quem ele era. O motivo por que lhe telefono so os seus sobrinhos.
E o que se passa com os meus sobrinhos?
O Bram e o Al, certo? E... o Luke?
O Bram e o Al e o Luke! Isto  alguma brincadeira?! Vou acus-lo  polcia, jovem. Posso ser velha, mas no estou senil nem confusa, portanto pode arrumar o seu
saco de truques e ir tentar enganar outra pessoa.
No! por favor. Isto no  nenhuma brincadeira.  uma coisa muito sria e deu-me muito trabalho conseguir localizar a senhora. Eles podem ter mudado de nome. Verifico
que posso no ter os nomes verdadeiros.
Esto mortos, no esto? disse ela delicadamente. Foi por isso que me telefonou, no foi? Eu sabia... parou subitamente. Bem, diga o que tem a dizer.
Desculpe. Um deles est morto. Lamento muito.
Oh meu Deus. Meu Deus... quem?
Era o Bram.
Bram? Como  que aquele rapaz pde chamar-se Bram?
Serian, disse Owen. Bram Serian.
Valha-me Deus. A minha irm deve estar a revolver-se no tmulo. Ficou em silncio por instantes, assimilando a notcia. Mas o outro est vivo? O meu outro rapaz
est bem? a sua voz subiu de tom, na expectativa.
Ningum sabe onde est o Al, mas estava vivo e estava bem quando a cunhada o viu pela ltima vez.
Al... No posso acreditar que os dois mudaram de nome. Espere, disse cunhada?
Sim. O Bram era casado. Estou a falar consigo em parte em nome da viva. Algum j devia ter contactado consigo h mais tempo, mas ningum sabia da existncia da
senhora. S recentemente descobrimos uma referncia a si numa carta antiga.
Aqueles rapazes... suspirou com tristeza.
Preciso de estar com a senhora... de falar consigo sobre os seus sobrinhos... de descobrir factos. Se eu pudesse...
Agora espere um pouco, disse ela com determinao. Se os rapazes guardavam segredos, ento eu tenho de respeitar isso e guardar silncio.
Ansiosamente, Owen procurou uma maneira de argumentar, a fim de desvi-la dos seus propsitos. Estava to prximo do passado de Serian. No estava disposto a deix-lo
fugir.
A senhora estaria a ajudar a viva do seu sobrinho. Todas as perguntas sem resposta sobre o marido dela vo pesar sobre ela para o resto da sua vida.
#E estaria a ajudar o Al, porque, talvez se tivssemos mais informaes sobre ele, pudssemos encontr-lo e certificar-nos de que se encontra bem.
Por que no havia de estar bem?
Bem... o motivo por que vivia com o irmo  que ele tinha muitos problemas. Problemas emocionais. Problemas de relacionamento com as outras pessoas.
Quer dizer que no estava bom da cabea?
Sim. E no sabemos se ele agora est a reagir bem ou no.
Ela soltou um suspiro. Eu sou a guarda da famlia, sabe. Quando eu deixar de existir deixar de haver famlia. Ser enterrada comigo. Os rapazes no quiseram saber
nada disso. Pensei que mudassem com a idade, mas havia demasiados ressentimentos.
Soltou mais um suspiro. Se a cabea do Benjamim no est boa, parece-me que sou em parte culpada disso.
Ento pode ajudar-nos? Pode responder-me a algumas perguntas?
Talvez umas poucas. Se voc puder ajudar a encontrar o meu rapaz que est desaparecido.
Posso ir falar consigo amanh?
Faa como quiser.
Vou apanhar um voo para Wichita logo que puder... hoje ou amanh de manh.
Ela estava a chorar. Muito suavemente. Procurando disfarar.
H algum a quem eu possa telefonar? Uma amiga ou uma vizinha que possa ir a ficar consigo por algum tempo?
Jovem, no h nada que voc nem ningum possam fazer por mim. Adeus.
As veias de Owen estavam cheias de adrenalina quando telefonou para a companhia area para fazer uma reserva no voo para Wichita naquela noite. Estava resolvido.
Mais umas horas e ia estar na posse da verdade. Ia desvendar os mistrios e conhecer Bram Serian. O seu livro ia fazer histria. Talvez at conseguisse encontrar
as respostas que Lenore queria to desesperadamente. Talvez acabasse por ajud-la apesar de tudo.
Procurou no pensar nas despesas. Depois de ter devolvido o carro alugado e de pagar a conta, a viagem para ir ter com Milly Corwin ia quase acabar com o que restava
do seu dinheiro. Depois no fazia ideia de como ia conseguir comer e pagar as despesas de transporte. Mas no podia deixar que isso o impedisse. Era isso mesmo.
Ouviu-se rudo no trio e Owen foi pela porta de ligao para a sala de guerra quando Paul Jacowitz entrou, seguido de Rossner e depois Riley, Lenore e Volpe. Rossner
e Jacowitz estavam envolvidos numa discusso sobre o julgamento e mal notaram a presena de Owen. Volpe ajudou Lenore a tirar a capa. Ela tinha os olhos cheios de
dvidas. Owen recusou cruzar-se com
eles ou dar-lhe alguma indicao do xito da sua chamada.
Com licena, disse Lenore a Rossner. Preciso de falar com Owen em particular durante alguns minutos.
Rossner fez um gesto para que se retirassem e Owen seguiu-a para o quarto. Falaste com ela? perguntou-lhe Lenore logo que a porta se fechou.
Owen sentou-se, dizendo a si prprio que tudo o que queria fazer era manter um comportamento profissional, mas compreendendo que tambm tinha vontade de a torturar.
Referes-te  chamada telefnica? perguntou ele.
Claro que me refiro  chamada. Conseguiste contactar com a Tia Milly?
Sim. Consegui. Vive no Kansas. Hoje  noite parto no avio para Wichita e vou encontrar-me com ela amanh de manh.
No podias perguntar-lhe tudo ao telefone?
Owen comeou a explicar, mas parou. No tinha que dar quaisquer explicaes a Lenore.
No. No podia.
Ela cruzou os braos e caminhou lentamente pelo pequeno rectngulo de cho. Quem me dera poder ir contigo. J falta pouco. Sinto-o. Todo o passado do Bram est a
desvendar-se e o meu passado tambm l est.
Mesmo assim, podes no encontrar nenhuma das respostas que queres, Lenore.
Encontro, encontro, disse ela com veemncia. A Tia Milly h-de saber alguma coisa.
Owen observou os passos dela. O seu fato era to pouco atraente que parecia quase ridculo. Estas so as roupas que usas para ir ao tribunal?
Ela parou e ficou a olhar para ele. Eu no tinha roupa apropriada para o julgamento. O Rossner disse-me que arranjasse coisas com laos e golas altas e blusas folgadas.
Encomendei-as por catlogo.
Escolheste propositadamente coisas que parecessem... hesitou.
Ela esboou um leve sorriso de escrnio. No gostas do meu guarda-roupa de assassina?
A sua determinao de se comportar com profissionalismo desapareceu e saltou da cadeira e chegou quase a fazer o que lhe apetecia fazer desde aquela manh, que era
dar um murro na parede. Mas conteve-se. Controlou-se. Controlou a sua fria e em vez disso transformou-a em palavras, dizendo, Eu sei quem ests a esconder. James
Collier.
Ela endireitou-se sem nunca desviar os olhos dos dele e disse, E o que vais fazer com isso?
Ento ele teve de se desviar dela, porque a sua fria evaporou-se e sentiu-se pequeno e vazio.
Nada, disse ele.
No  o que parece, Owen.
Contigo nunca  o que parece, no  verdade?
Ela ficou em silncio por momentos. Depois, numa voz prudente, disse, Nada disso interessa. O que  importante  que eu continue a procurar o meu pai enquanto puder.
Ele voltou-se e enfrentou-a. Lenore...
Volpe abriu a porta e anunciou que eram horas de ir almoar.
Vamos j, Joe, disse Lenore. No resta muito tempo, Owen. Pus algum do dinheiro que encontrmos na tua mala. Usa-o conforme precisares.
Ele sentiu-se insultado. Estava indignado. Ela pensava que podia compr-lo? No quero o teu dinheiro, disse ele.
Deixa-te de nobrezas. Se fosses detective, ias cobrar-me por cada movimento que fizesses. E seja como for o dinheiro tambm no  meu.  do Bram. Alm disso... se
no fosses tu a encontrar o cofre, no haveria dinheiro nenhum.
Foram ter com os outros na sala principal da suite e comeram sanduches. Havia alguma tenso no ar e Owen pensou primeiro que fosse ele o causador, mas depressa
verificou que no tinha nada a ver com a sua presena. Era o julgamento. A defesa no estava satisfeita com o rumo que o jogo estava a tomar.
Por acaso no ter encontrado mais informaes preciosas para ns? perguntou Rossner a Owen com um sorriso sardnico.
No, confessou Owen.
Mas a Lenore disse que est a fazer progressos na investigao da vida do Serian.
Estou a tentar, disse ele.
Mas lembre-se que, se houver alguma fuga de informao prematura para a imprensa, se aparecer alguma pea de informao, pode provocar danos irreparveis no caso
de Lenore.
Eu estou consciente disso.
ptimo.
Ento mantenha-se atento, rapaz, disse Riley.
Volpe olhou para Owen com um olhar severo. Especialmente junto de cabras louras da informao, disse ele.
Voc est fora do contexto, Owen avisou o homem, aps o que Volpe inchou todo como um galo da ndia, pronto para a luta.
Rapazes, rapazes... Frank Riley acalmou-os com um sorriso jovial. Agora estamos na mesma equipa, no estamos? Vamos poupar as nossas energias para enfrentar o inimigo.
Quando chegou a hora de voltar para o tribunal, ordenaram ao Owen que se demorasse cerca de quinze minutos, a fim de dar tempo  comunicao social para se afastar.
Ele abriu-lhes a porta como se fosse um anfitrio que estava a terminar uma festa. Lenore foi a ltima a sair, intencionalmente, tinha ele a certeza, e parou para
lhe pegar no pulso com os dedos como se fossem garras.
Telefona-me do Kansas logo que souberes alguma coisa, sussurrou-lhe ela. Para aqui ou para casa. Tens os dois nmeros.
Ele acenou com a cabea. Ela largou-lhe o pulso e desceu para o trio, onde Volpe j estava  sua espera com a capa dela nas mos. Como se fosse uma actriz a preparar-se
para subir para o palco, ps o enorme manto e assumiu a expresso fechada que era to conhecida dos espectadores da sala de audincias. Depois saiu.
Owen entrou discretamente na sala de audincias precisamente no momento em que a primeira testemunha de Brown, depois do almoo, estava a prestar juramento. Dar
Quintana, sussurrou a Holly. Um dos convidados na festa da Arcdia naquele fim de semana.
Com um aceno de cabea, Owen preparou-se para tomar notas. J sabia quem era Dar Quintana um jovem escultor do estado de Nevada que tinha idolatrado Bram Serian.
Quintana e mais dois convidados da festa faziam parte da lista de testemunhas da acusao.
Dar Quintana descreveu Bram Serian como um artista brilhante e como o homem mais simptico que alguma vez tinha conhecido. Descreveu os seus fins-de-semana na Arcdia
em termos de grande entusiasmo e calculou que tinha passado dois e s vezes trs fins-de-semana por ms na Arcdia no ano anterior ao incndio. Falou respeitosamente
de Natalie Raven e at teve palavras de simpatia para com Tommy Kubiak, que esporadicamente tinha andado por ali a trabalhar no ptio.
Quando lhe fizeram perguntas sobre Lenore, Quintana mudou de atitude e a sua antipatia por ela era bvia. Disse que tinha tido aquele sentimento e que outros tinham
tido a sensao que ela detestava os amigos de Bram e s queria que desaparecessem. Disse que todos procuravam ser simpticos com ela e em inclu-la nas actividades
que faziam, mas ela tratava-os como lixo. E uma vez, depois de terem bebido umas cervejas e se sentirem animados, Quintana lembrava-se de lhe ter dito, Hei, ns
no somos assim to maus, sabe. Por que no se junta a ns e se ri connosco? E afirmou que nunca esqueceria a resposta dela, porque foi muito estranha. Ela disse-lhe,
No fui programada para rir.
Fiquei intrigado com aquilo, disse Quintana, mas ainda pensei que conseguia quebrar aquela sua concha e por isso disse, Sabe, toda a gente gosta do Serian. Devia
ficar contente pelo facto de o seu marido ter tantos amigos e deixar de ser to presunosa e fria e de tornar a vida difcil a toda a gente.
Dar Quintana relanceou um olhar para Lenore e alguma coisa tremeluziu momentaneamente nos seus olhos, o que fez Owen desconfiar que Quintana estava a ser muito mais
desonesto e vingativo do que parecia.
E a Lenore... Ela riu-se para mim nessa altura, como se eu fosse um idiota, e disse-me, num tom mesmo sarcstico, Oh... ento o que est a dizer-me, Dar,  que
eu devia estar agradecida pela oportunidade de partilhar o Bram, de dia e de noite, com multides de sanguessugas estpidas.
Brown fingiu ficar chocado com isso, como se no tivesse j ouvido um depoimento desta testemunha e no estivesse precisamente  espera dessa revelao. Senhor Quintana,
quando estava na Arcdia, notou alguma coisa que indicasse que a senhora Serian podia querer fazer mal ao marido?
Est a referir-se a quando lhe deu um tiro? perguntou Quintana, como se estivesse ansioso por ouvir Brown fazer uma pergunta bem ensaiada.
O senhor viu-a disparar contra ele? perguntou Brown sem entusiasmo, fingindo que isto era uma surpresa.
Sim, vi, respondeu Quintana. Estava um grupo de pessoas no ptio a fazer tiro ao alvo com espingardas BB, espingardas de presso de ar de grande potncia, sabe?
Rossner comeou a levantar-se da cadeira como se fosse protestar, mas depois voltou a baixar-se. E a Lenore apareceu furtivamente e houve algum que lhe deu uma
espingarda e lhe disse para dar um tiro e ela voltou-se e disparou contra as costas do Bram. Ficou bastante magoado.
Houve risadinhas por toda a sala de audincias e Owen notou que os jurados ficaram de olhos arregalados.
E o que aconteceu depois de ter disparado contra ele? perguntou Brown.
Nada. Ela foi-se embora e fingiu que nada tinha acontecido. Foi a Natalie que insistiu com ele para que levantasse a camisa para ver como estava e depois obrigou-o
a deix-la pr-lhe gelo.
No fim de semana em que se deu o incndio, senhor Quintana, quando chegou  Arcdia para a festa?
Eu fui na sexta-feira  noite, no dia cinco de Agosto, porque o Bram queria que o ajudasse a preparar as coisas. Ele estava mesmo a organizar uma grande festa com
um porco assado inteiro no churrasco e tudo o mais.
Houve mais algum que tivesse aparecido cedo?
Lance Zabel foi comigo. Fomos de comboio at Stoatsberg e depois a Natalie foi l buscar-nos.
Alm do senhor e do senhor Zabel, quem mais esteve naquela noite de Agosto na Arcdia?
O Bram, claro, a Natalie e a Lenore. Aquele mido, o Tommy, esteve l durante algum tempo a ajudar-nos, mas depois foi para casa por volta das dez horas. Mais tarde,
quando estvamos mesmo a dar por terminada a nossa tarefa daquela noite, apareceu um indivduo que eu nunca tinha visto antes.
Os Serians tinham dado a entender que estavam  espera dele?
No. Antes pelo contrrio. Inquestionavelmente no estavam  espera dele. O Bram subiu aos arames e a Lenore apenas pareceu ficar surpreendida.
Este homem que chegou tarde foi-lhe apresentado?
Foi apresentado como o Jimmy. Sem nenhum apelido, apenas Jimmy. Owen sentiu os olhos da Marilyn a olhar para ele. Estava com certeza a imaginar como  que diabo
ele podia ter aparecido com uma pergunta sobre Jimmy precisamente na manh em que o nome do Jimmy foi mencionado pela primeira vez no tribunal. Que ficasse a imaginar,
resolveu Owen, e fingiu que no tinha reparado no seu olhar inquiridor.
O que aconteceu ento, depois da chegada desse estranho? perguntou Brown.
Toda a gente se despediu. Eu e o Lance comemos por ir para a cama, mas estava uma noite muito quente e mudmos de ideias e fomos dar um passeio. Quando voltmos
para casa, deparmos com o Bram e a Lenore a discutir l fora atrs do estdio. Demos uma volta para nos desviarmos deles, mas no pudemos deixar de ouvir muita
coisa, porque estava uma noite calma e no campo as vozes ouvem-se a uma grande distncia.
E o que ouviu naquela noite do dia cinco de Agosto, senhor Quintana?
Ouvi o Bram dizer, Como te atreves a convid-lo para aqui? e depois a Lenore disse, Ele queria vir. O que se passa, Bram? No consegues enfrentar isso?  demais
para ti? e o Bram disse, Ests a pressionar-me demasiado, Lenore, e ela disse, Eu ainda nem comecei a pressionar-te, Bram.
O resto do testemunho de Quintana girou  volta do incndio e como se tinha organizado com os outros numa brigada de baldes e como tinham estado na cozinha  espera,
rezando e esperando que os seus piores receios se no verificassem e como tinham ficado arrasados quando foi descoberto o corpo do Bram e foi revelada a terrvel
realidade.
Brown agradeceu cerimoniosamente  testemunha e foi sentar-se.
Ficou claro no decurso do contra-interrogatrio de Charlie Rossner que o advogado de defesa no tinha balas mgicas de prata para usar contra o Dar Quintana. Tudo
o que conseguiu fazer foi desenvolver um dos argumentos que tinha usado com Natalie Raven, que seria natural que uma mulher ficasse aborrecida pelo facto de a sua
casa no ser dela e o facto de o marido levar amigos constantemente.
Pareceu a Owen ter detectado resignao na postura de Rossner quando o advogado finalmente libertou Dar Quintana e voltou para junto de Lenore e se sentou ao seu
lado,  mesa da defesa.
A testemunha seguinte foi Lance Zabel, o homem que tinha acompanhado Dar Quintana  Arcdia naquela sexta-feira, dia cinco de Agosto. Zabel era um homem grande,
com barba, que declarou que exercia a profisso de pintor. Corroborou todo o depoimento de Dar Quintana, com a excepo do episdio da espingarda BB, a que ele no
tinha assistido. Mas deu a sua contribuio com a sua prpria histria.
Zabel tinha acordado cedo na manh de sbado e tinha sado de casa pensando que todos os outros estavam ainda na cama. Pegou numa cana de pesca e dirigiu-se para
o lago. Quando l chegou viu o convidado misterioso, o Jimmy e a Lenore. A Lenore estava a nadar nua no lago e o Jimmy estava sentado na margem a fazer-lhe companhia.
Owen no aguentou continuar a ouvir mais aquilo. Discretamente pegou nas suas coisas e preparou-se para sair.
Onde vai? sussurrou a Holly.
Para o aeroporto. Tenho de ir ao Kansas por um dia ou dois.
Problemas em casa?
No propriamente.
Boa viagem. Ela sorriu com ar de gozo. No se preocupe... eu no vou deixar que acontea nada de bom enquanto estiver fora.
Ele fez um sorriso forado e saiu do banco e da sala de audincias. Um vazio de enjoo instalou-se-lhe no interior do estmago, mas ele recusou-se a reconhec-lo.
Em vez disso, pensou que talvez fosse mais sensato ir cedo para o aeroporto, uma vez que ainda tinha de ir devolver o carro alugado e pagar o bilhete e...
Os seus pensamentos foram interrompidos pela percepo de que um dos fotgrafos estacionados mesmo  sada do posto de segurana no trio tinha a cmara de vdeo
apontada para ele.
#O que est a fazer? perguntou ele.
Oh, hei... apenas a brincar p... sabe.
Voc no  o operador de cmara de Holly Danielson?
Sim... hei... tenha calma. Reconheceu-me, heim?
Por que me estava a filmar?
Tenha calma, p. Eu sou apenas... sabe... a Holly disse que gostava de ter algumas imagens suas. Riu-se. Hei, deve ser porreiro ter um borracho daqueles caidinho
por si, heim?
Pare de filmar, disse Owen. Percebeu?
Sim. No problema, amigo. Percebi muito bem.
Owen estava cheio de raiva enquanto ia no caminho para o aeroporto. Por causa da Holly. Por causa da Lenore. Furioso com todo o maldito mundo. Era bom estar furioso.
Mantinha o medo  distncia e fez com que embarcasse em segurana no voo para o Kansas.
17
Ao aterrar em Wichita, Owen apanhou o comboio de pequeno curso para um hotel perto do aeroporto. Ainda era noite e o hotel era genrico. No tinha a sensao de
estar de volta ao Kansas. De manh alugou um carro, depois de saber que o lar de Milly Corwin ficava bastante afastado da cidade, sendo inacessvel de txi ou de
transporte pblico. Depois entrou na estrada 235 e dirigiu-se para o norte. Estava ainda a tentar adaptar-se ao facto de estar mesmo no seu estado natal, quando
viu a sada para a Golden Age Village, uma comunidade de reformados de primeira classe, conforme se lia no cartaz junto do porto de entrada. Bateu  porta da Milly.
A prontido  uma virtude, disse ela quando abriu a porta. Fico satisfeita por ver que a tem, senhor Byrne.
Era uma mulher pequena e encurvada, mas os seus movimentos eram firmes e tinha uns olhos perspicazes por detrs de uns culos de aros pesados. Tinha o cabelo to
sedoso e branco que parecia algodo-em-rama.
Sente-se. Essa cadeira cinzenta deve ser bastante confortvel para um homem do seu tamanho.
Ele sentou-se no lugar indicado por ela, tendo o cuidado de no perturbar os paninhos de croch que estavam fixados em cada um dos braos. O quarto estava cheio
de coisas feitas  mo. Naperons de mesa bordados e paninhos davam graa a todas as superfcies e nas paredes havia mximas bordadas em ponto de cruz.
Isto  muito bonito, disse ele, olhando  sua volta.
Estou muito feliz por estar aqui num lugar to luxuoso, disse ela. Temos tudo servios mdicos e dentrios, alimentao, salo de beleza, uma biblioteca... E o preo
inclui assistncia a tempo inteiro, quando uma pessoa j no puder cuidar de si prpria. Ela deixou que o seu olhar contemplativo vagueasse carinhosamente  volta
do quarto. O Benjamim arranjou-me este apartamento.  meu at morrer.
 uma boa casa, concordou ele, sem saber quem era o Benjamim.
Sim.  um stio excelente, apesar de no ter companhia e de vez em quando me sentir s, como se fosse no fim do mundo. Mesmo assim, estou
#muito melhor do que estaria em Arcdia, se l tivesse ficado. Sem perder o ritmo olhou para Owen e disse, Prefere tomar caf ou ch?
O que a senhora tiver, obrigado.
Milly Corwin serviu o caf com as suas mos artrticas, a seguir conversou sobre o tempo e sobre o seu antigo grupo da igreja em Arcdia. Owen ouviu-a atentamente,
esforando-se por ser paciente.
Aquelas mulheres da minha terra tm inveja de mim, sabe, confidenciou ela. Sempre tiveram. Comeou quando eu era nova. A Celeste e a Camille Corwin eram as raparigas
mais populares da cidade. ramos ns que usvamos vestidos que pareciam tirados das fotografias das revistas e os rapazes andavam atrs de ns como cachorrinhos.
ramos muito invejadas. s vezes at odiadas.
Olhou para ele com ar desaprovador e levantou o dedo indicador retorcido. Aqueles sentimentos profundos da nossa juventude nunca desaparecem, senhor Byrne. Trazemo-los
sempre connosco.
Eu sei o que a senhora quer dizer.
Talvez saiba e talvez no saiba. Talvez esteja apenas a tentar fazer a vontade a uma velhota para obter o que pretende.
Owen no pde evitar um sorriso.
Ela insistiu. A seguir o senhor vai pr-se com a conversa de que eu lhe fao lembrar a sua av.
No. No cheguei a conhecer nenhuma das minhas avs.
Bem, quanto a isso tambm no tenho nem um bocadinho de pena de si, portanto tambm pode tirar o cavalinho da chuva.
Perante aquilo, toda a determinao frentica que tinha levado Owen a ir de Nova Iorque ao Kansas desapareceu como hlio a sair de um balo. O que estava ele a fazer
na sala de estar desta velhota, a tentar arrancar-lhe os seus segredos? Owen sentiu-se subitamente cansado e aborrecido consigo prprio.
Causei-lhe um choque assim to grande que o deixei mudo? perguntou Milly Corwin.
No. Estava s a pensar.
A pensar na melhor maneira de me intrujar? Bem, escusa de pensar tanto porque eu j me decidi. O passado dos rapazes no diz respeito a mais ningum seno a eles
mesmos.
Owen fez um aceno com a cabea. Eu nem sei por que vim a correr para aqui. Devia ter-lhe dito logo tudo ao telefone e dar-lhe tempo para pensar sobre o assunto.
Mas envolvi-me tanto no meu trabalho que receio bem ter-me entusiasmado demais.
O que pretende dizer com o trabalho? O senhor  algum desses detectives que investigam a privacidade das pessoas? A isso  que chama trabalho?
Os pensamentos de Owen acumularam-se por momentos.
O senhor  um daqueles grandes pensadores, no ? perguntou a Milly. No consegue responder a uma simples pergunta sem pensar nela at se fartar.
No sou detective, confessou ele. Sou escritor.
Que espcie de escritor?
Escrevo livros.
Ela fez uma pausa para pensar por instantes. Isso altera completamente as coisas. Owen no percebeu pelo tom dela se era uma coisa boa ou m.
A sala estava quente e provocava claustrofobia. Owen olhou de relance para o relgio de parede e viu que eram quase onze e trinta. Esperava ter todas as respostas
e estar de volta cerca das doze e trinta. Agora duvidava que conseguisse concretizar alguma coisa.
Ser que a senhora estaria interessada em ir comigo almoar fora? perguntou ele.
Oh meu... Passou as mos artrticas pelo cabelo e depois alisou a frente do vestido. J nem me lembro da ltima vez que fui almoar fora. Isso  que seria uma surpresa
agradvel, senhor Byrne.
Por favor, trate-me por Owen.
Muito bem... Owen. Mas eu considero-me a menina Corwin.  que as pessoas so muito desrespeitadoras hoje em dia, se quer que lhe diga.
Ajudou-a a vestir o casaco, sentindo o cheiro a p de talco e a eucalipto; depois ofereceu-lhe o brao. Ela aceitou-o e acompanhou-o cerimoniosamente at ao carro.
Owen nunca tinha tido nenhum interesse especial por Wichita. Parecia-lhe que era uma cidade meio rural, meio urbana, como um poltico bem falante que evita comprometer-se
entre dois partidos. Por isso, em vez de voltar para o sul, para a confuso dos centros comerciais e das zonas residenciais, Owen dirigiu-se para o norte, em direco
a Newton, uma cidade que recordava com algum encanto.
A Milly parecia estar absorvida a olhar para a paisagem. Segurava nas mos um leno delicado, um quadrado passado a ferro com perfeio, com flores cor-de-rosa bordadas
e uma orla feita de renda fina, e Owen perguntou-se se ela o levaria para se assoar ou para chorar, ou se ela o consideraria apenas um acessrio prprio de senhoras.
Perguntou-se se a sua av Hadley teria usado algum daqueles lenos.
Eu no lhe contei toda a verdade acerca dos seus sobrinhos e da situao em Nova Iorque, disse ele.
Eu sei, replicou ela asperamente.
Quer que lhe conte agora?
Retorceu o leno nos dedos, amassando o tecido fino. O que eu gostava, era que nunca me tivesse contado nada. Para pr as coisas na minha cabea tal como estavam,
com os dois rapazes a estarem bem e a viverem bem em qualquer lugar. Mas isso agora j no  possvel, no  verdade? No posso voltar a no saber nada... por isso
parece-me que ser melhor saber tambm o resto. Continue. Conte-me.
Owen contou-lhe tudo. Com todos os pormenores. Quem era Bram Serian no mundo da arte e como o Al tinha andado perturbado e falou-lhe da casa grande e de o Bram ter
casado com a Lenore. Falou-lhe do julgamento e sobre o facto de ele escrever e de como se tinha envolvido naquela histria. E depois falou-lhe da Lenore, a mulher
que tinha sido acusada de ter assassinado Bram Serian, e que andava obcecada por encontrar o pai, h muito tempo perdido.
Oh, meu Deus... meu Deus, meu Deus, meu Deus.
Milly torturou o leno. A minha me era professora antes de se casar. E nunca perdeu o seu amor pelos livros. Quando a Celeste e eu ramos pequenas, ela costumava
ler-nos os clssicos e passava horas a falar sobre o significado das histrias. Era considerada uma pessoa estranha e pretensiosa pelos nossos vizinhos.
Limpou os olhos e ajustou os culos.
Aquelas histrias que a minha me nos lia pareciam sempre to distantes e irreais, mas o que voc acabou de me contar podia muito bem ter sido uma tragdia extrada
de um daqueles livros. S que o meu sangue est tambm a misturado.
Chegaram aos subrbios de Newton e Owen deixou que ela escolhesse o restaurante. Era um velho edifcio, muito bem restaurado, cheio de luz e com muitas plantas.
Ela pareceu ficar encantada, mas depois de pedir a ementa ela ps-se a pensar e comprimiu a boca com os lbios cerrados e olhar furioso.
Por que teria o meu Abe voltado a adoptar o nome de Bram Serian? questionou-se ela. Tem a certeza de que no est enganado?
Absolutamente. Owen queria saber por que  que aquilo a perturbava, mas no se atreveu a perguntar. No queria for-la. Se quisesse contar-lhe, havia de lhe contar.
Se no... nesse caso havia de tentar encontrar as respostas de outra maneira.
Ela observou-o com um olhar perspicaz. Aqueles rapazes eram como se fossem meus filhos. As circunstncias proporcionaram-me um noivo que era um cobarde. Declarou-se
como objector de conscincia em vez de ir lutar na grande guerra, como faziam todos os rapazes decentes. Por isso terminei o namoro com ele e no quis casar-me,
quando todas as raparigas da minha idade se casaram. Depois, mais tarde, tive outro pretendente que tambm demonstrou que era cobarde, mas de uma espcie diferente.
Nunca me casei. Nunca tive a minha prpria famlia. Passei a minha vida como mulher solteira e tia solteirona.
J ningum usa esses termos, disse Owen delicadamente.
Mas usavam quando eu era nova e me preocupava com essas coisas. Chegou a comida. Ela inspeccionou ambos os pratos com grande interesse
e Owen props-lhe que partilhassem a comida para ela poder provar de tudo. O que lhe agradou muito. E armou uma confuso na diviso e na troca, preocupando-se se
ele tinha o suficiente para ficar satisfeito. Finalmente acalmaram e comearam a comer.
Ela concentrou-se na comida durante algum tempo, depois parou para perguntar, Donde  exactamente do Kansas e como  que ganhou coragem para ir para Nova Iorque?
Normalmente, Owen teria arranjado uma evasiva para no responder  pergunta, mas agora sentia-se responsvel por ter agitado a vida despreocupada desta mulher idosa
e por t-la entristecido com uma tragdia, por isso sentiu-se na obrigao de responder a qualquer pergunta que ela fizesse.
Nasci em Maynard, uma de quatro crianas. A minha famlia cultivava trigo. Quando tinha cerca de nove anos, o meu pai mudou-nos para os Flint Hills... perto de Cyril...
para se dedicar  criao de vacas e vitelos.
Continue, incitou ela.
O meu irmo mais velho morreu, por isso acabei por deixar a universidade para ir dirigir o rancho.  uma boa vida. Eu gosto de trabalhar com os animais.
Uhmm... O que aconteceu aos outros membros da sua famlia?
A minha me morreu. O meu pai e as minhas irms vivem no rancho.
Mas agora o rancho  seu?
No. Na verdade trabalho para o meu pai.
Mas ele no lhe paga nada, pois no?
Bem...no. Eu no tenho dia de pagamento. Mas tenho quarto e comida e posso treinar ces e cavalos por minha conta e assim arranjo algum dinheiro. E administro um
rancho que um dia h-de ser meu.
Um tero h-de ser seu, disse ela em poucas palavras. Depois de dividi-lo com as suas duas irms, calculo eu.
Mas com a participao da administrao para mim, disse ele na defensiva. Foi assim que o meu pai estabeleceu. Para ter a certeza de que o rancho sobrevive e que
eu vou continuar a administr-lo.
Portanto nenhuma das suas irms pode exigir a sua parte em dinheiro e obrigar a fazer uma venda?
Sim. Mas tambm  a casa delas. Elas no iam querer vender.
Isso  o que dizem agora. Ela deu um suspiro. Oh, eu estou muito familiarizada com o que acontece quando algum morre no campo. Demasiado familiarizada.
Ela observou-o com os seus olhos brilhantes semelhantes aos de um pssaro.
Mas ainda no explicou como  que passou da situao de tratar de vacas para a de escrever um livro em Nova Iorque, lembrou-lhe ela.
Ainda nem sei se eu prprio compreendo, disse ele. Eu no sou propriamente escritor. Oh, estou a tentar ser. Estou a tentar com grande esforo. E tenho algumas pessoas
que acreditam em mim. Mas o que sei fazer de facto  criar animais.
Uhmm. E a sua famlia? Eles acham que voc  mesmo escritor? Ele riu-se. Eles acham  que eu sou mesmo maluco.
Owen Byrne  o seu nome de nascimento, ou mudou de nome como os meus rapazes?
Owen teve de sorrir perante a sua teimosia de buldogue.  o meu nome de nascimento. O meu pai chama-se Clancy Terrence Byrne.
 irlands?
Sim.
No costumava encontrar muitos irlandeses. No  catlico, pois no?
, sim senhora. Embora de uma maneira muito peculiar.
O Gus no suportava os catlicos. Meu Deus, como ele costumava implicar com os catlicos e os democratas e os japoneses e os ndios das reservas e com os agricultores
com terras de pousio. Eram tpicos que procurvamos manter afastados dele.
O Gus?
O pai dos rapazes. O marido da minha irm.
Espere a! Owen interrompeu-a. O Bram e o Al eram irmos?
Claro que eram, porqu? Eram os filhos da minha irm. O que  que voc pensava?
Eles apresentavam-se como sendo primos.
No. Eram irmos. Se no eram por sangue eram por lei pelo menos. E nunca houve irmos to chegados.
Owen ficou a olhar para ela confuso. Ento quem era o Luke?
Milly produziu um hum de desagrado no fundo da garganta. Presumo que voc no vai desistir, pois no? perguntou ela. Vai continuar a investigar o passado dos meus
sobrinhos, no vai? Se no for atravs de mim, voc vai conseguir o que pretende de outra maneira.
Owen no queria dizer que sim, mas estaria a mentir se dissesse que no.
Com certeza que sim. No precisa de negar. E se voc desistir, ento muito em breve vai aparecer outra pessoa a farejar. C para mim est tudo muito claro. Se o
meu sobrinho era assim to famoso como diz e se a mulher est to determinada como diz, ento vai ser apenas uma questo de tempo at que uma ou outra pessoa venha
investigar tudo.
Sim, confessou ele. Desculpe.
Bem, no lhe retiro qualquer culpa, note bem, mas tenho estado a reflectir sobre tudo isto, e parece-me que prefiro que seja voc o primeiro a saber os factos. Pelo
menos consigo sei que no vai haver por a anedotas nem coisas distorcidas.
Owen ficou to surpreendido que no conseguiu responder.
E, alm disso, voc  escritor de livros e a minha me dava muito valor aos livros. Ela achava que podiam salvar o mundo. Estava enganada, mas isso no tem nada
a ver com o caso. O facto  que ela acreditava e sei que havia de ficar orgulhosa por eu ajudar um escritor como o senhor.
Eu... estou surpreendido, conseguiu dizer Owen.
Ainda vai ficar muito mais surpreendido quando ouvir o que tenho para lhe contar.
Mas j no est preocupada com o Al? Ele anda por a por algum stio... E se ele no quiser que isto seja contado?
O rosto dela ficou muito calmo. Dobrou repetidamente o seu guardanapo de tecido at ficar um quadrado perfeito, colocou-o em cima da mesa e pressionou-o com os dedos
at ficar liso.
Receio que ambos os rapazes estejam perdidos para mim, disse ela. Nunca passou tanto tempo sem eu receber um bilhete ou um postal.
A empregada de mesa chegou com uma cafeteira e Milly disse, Estou pronta para ir para casa e terminar l a minha conversa, por isso Owen pediu a conta.
Owen no falou muito durante a viagem de volta para a Golden Age Village. A disposio era muito sria para ter uma conversa banal e ele queria dar-lhe tempo para
pr os pensamentos em ordem.
Engraado, disse ela, quando iam quase a meio caminho de casa. Isto no faz nada parte da histria.  apenas uma coisa que acho curiosa. A
minha me, que Deus tenha a sua alma em descanso... no passei um nico dia da minha vida sem sentir a falta daquela mulher... A minha me chamava-se Lenore. Os
rapazes no tinham propriamente recordaes dela porque morreu ainda antes de eles nascerem, mas sempre gostaram de me ouvir falar dela e ambos gostavam daquele
nome. Disseram-me que tinham procurado a palavra na biblioteca e que significava luz em grego, ou coisa parecida.
A sua me chamava-se Lenore, repetiu Owen.
 uma grande coincidncia, no ? Que um dos rapazes se tivesse casado com uma mulher que tinha o mesmo nome.
Sim, concordou Owen, pensando que era mais do que uma coincidncia. Ainda no me disse quem era o Luke, lembrou-lhe ele.
Oh, era o melhor amigo dos rapazes quando andavam na escola secundria. Durante algum tempo foram os trs mosqueteiros e ele ia para junto de ns a ouvir as minhas
histrias e chamava-me tambm Tia Milly.
No voltou a falar at terem chegado ao apartamento e terem tirado os casacos.
Prepare-se, avisou ela. Que vou desbobinar aqui tudo.
Importa-se que grave?
De maneira nenhuma. At prefiro. No conseguia falar se voc estivesse a escrever... ficava ocupada a imaginar o que estaria a escrever.
Ligue-o, disse ela, olhando para o gravador. Ele premiu o boto. E ela no hesitou.
J lhe contei como  que a minha me nos criou? Sim, acho que sim. Ensinou-nos a ter boas maneiras e a vestir-nos de maneira adequada e a falar como se tivssemos
andado na escola noutro stio. Estava tudo muito bem porque ramos filhas do banqueiro e vivamos numa casa muito boa, uma daquelas casas antigas e imponentes, com
uma grande varanda e um torreo redondo. Mas quando ficmos mais velhas no conseguimos arranjar os rapazes que queramos que namorassem connosco. Pareciam-nos todos
to vulgares e pouco prometedores. As outras raparigas casaram e tiveram bebs, mas ali estvamos ns, ainda  espera que aparecessem os cavalheiros.
Depois as coisas correram mal ao nosso pai, Albert. A nossa zona nunca foi rica, estando muito dependente das minas, e ele teve alguns revezes no banco. Depois teve
um derrame cerebral e ficou confinado  cama, em casa.
Foi por essa altura que conheci o meu noivo, que se encontrava na regio a fazer uma inspeco s estradas. De repente tinha um namorado. A Celeste, que tinha mais
dois anos do que eu, chorou muito e andava sempre a dizer que a sua vida tinha acabado e que nunca ia arranjar marido, at que por fim a nossa me mandou-a para
Kansas City para ficar em casa de um velho professor que era amigo da minha me. Mais cedo do que espervamos, a Celeste escreveu para casa a dizer que tinha conhecido
um homem, um indivduo chamado Gus Hanselmann.
E foi assim que comeou. Mesmo ali. Com a minha irm que era sempre muito impulsiva e que estava desesperada por encontrar um marido. E com o Gus que ainda era imaturo
e parecia bastante inofensivo.
O Gus tinha tido uma infncia difcil. O seu pai era um homem violento e morreu violentamente. A me perdeu a quinta e acabaram todos por se mudar para casa de um
tio celibatrio que vivia nas traseiras de uma loja de que era dono. O Gus deu assistncia  me at ela morrer, depois partiu para Kansas City para tentar a sua
sorte.
Quando a Celeste conheceu o Gus na cidade, ele estava livre de cuidados e responsabilidades pela primeira vez na sua vida e andava a tentar as suas capacidades e
a explorar. E claro que foi tudo o que a Celeste viu. Estava com demasiada pressa para esperar os anos que podem ser necessrios para conhecer uma pessoa e ficou
noiva do Gus dum momento para o outro.
Entretanto, o tio vendeu a loja na cidade, deu umas voltas e investiu o seu dinheiro numa fazenda de trigo. Escreveu ao Gus e pediu-lhe para voltar, prometendo-lhe
que se o Gus voltasse para casa e o ajudasse a cultivar a fazenda, esta um dia seria dele.
O Gus e a Celeste casaram-se e foram viver com o tio na fazenda. Sem demora a Celeste comeou a escrever-me dizendo que o Gus era muito diferente no campo do que
era na cidade. Nada de muito acentuado, note bem, porque ela gostava de se sentir superior a mim, uma vez que o meu noivado tinha acabado e eu ainda estava solteira
e ela terminava as cartas dizendo que a sua linda casa tornava tudo o resto insignificante.
O tio morreu e o Gus herdou a terra. A Celeste perdeu alguns bebs. No conseguia ir alm do quinto ms.
Depois morreu a nossa me. Depois de se ter resolvido a propriedade, no ficou quase nada e ali estava eu, uma senhora solteira sem uma casa e sem meios para me
sustentar. Fiz a nica coisa que uma mulher podia fazer naquela altura fui viver  merc do marido da minha irm.
Para l chegar apanhei vrios autocarros, depois o Gus veio ter comigo? e levou-me no carro durante os ltimos sessenta quilmetros sem dizer uma palavra para alm
de ol. O lugar ficava a oeste de Wichita. A cidade mais prxima era Ridley, onde o velho tio tinha tido a loja e ainda eram uns bons vinte minutos de viagem por
estradas de campo de gravilha.
Oh, era uma regio desagradvel... to plana como um tabuleiro de bolachas, com laranjeiras Osage nas linhas das vedaes, mas sem quaisquer outras rvores no lugar.
Nada decorativo nem agradvel para os olhos.
E a casa no era nada mais do que uma barraca pintada, quando comparada com aquilo a que eu estava habituada. Uma barraca pobre e velha como casa, sem um arbusto,
nem uma flor, nem uma sebe de um pequeno jardim, nem nada que fizesse daquilo um lar acolhedor.
A Celeste ficou novamente grvida, por isso passei a tomar conta da casa e ela ficou na cama por ordem do mdico.
Ora, a minha me nunca nos tinha tratado com indulgncia. Ns fazamos sempre a nossa parte da limpeza e passagem de roupa a ferro e de costura enquanto ramos pequenas.
Mas a vida naquela fazenda era dura. A nica gua que havia na casa vinha de uma bomba manual que estava na cozinha. Havia electricidade, um fio que vinha de um
poste ao fundo do caminho, mas no passava por dentro das paredes. No havia tomadas nas paredes nem
candeeiros fixos nos tectos, apenas fios fixados nas paredes e pintados. E ainda usavam uma casa de banho exterior.
Primeiro fiquei muda de espanto... ao ver a minha irm Celeste com todos aqueles seus ares a viver naquelas condies to primitivas. Mas depressa aprendi a manter
a boca calada. A Celeste era mesmo muito susceptvel quanto  sua situao e lamentava que eu tivesse aparecido e visto a verdade da sua vida esplndida e o Gus
no admitia que uma mulher se queixasse.
Bem, a Celeste ficou de cama conforme mandou o mdico e levou a gravidez at ao fim. Deu  luz um rapaz grande, com cinco quilos e meio e saudvel como um cavalo,
mas a Celeste teve dificuldade em dar  luz. Sofreu uma ruptura de qualquer coisa e o mdico teve de lhe retirar as partes femininas. Tirou-lhe toda a parte interior
como se estivesse a estripar um peixe.
Quando finalmente voltou para casa do hospital com aquele bonito rapaz, o Gus no cabia em si de contente. Foi comprar ao rapaz um tractor de brinquedo e contratou
homens da cidade para virem construir uma fossa sptica e uma casa de banho interior decente. Puseram tambm um cano para o lava-loia da cozinha, de modo que ficmos
a ter mesmo uma torneira com gua corrente em vez daquela velha e horrvel bomba manual.
Contudo, a Celeste no gostou da nova casa de banho. Tal como no gostou daquele lindo beb. S pensava no que tinha perdido. Que j no era uma mulher e que no
poderia ter mais bebs.
Foi o princpio do Benjamin. E era tanto meu como qualquer beb que eu pudesse ter, porque a me dele estava demasiado mergulhada em sofrimento para o amar e o pai
apenas amava a promessa de um filho grande e forte, e no a debilidade babada de um beb.
Milly Corwin fez uma pausa e respirou fundo e Owen interrompeu-a, ansioso por saber, Esse  que era Bram Serian?
Espere s, ordenou-lhe a Milly. J vai ver quem era Bram Serian e donde veio o nome daqui a pouco.
O Benjamin cresceu. A Celeste saiu da convalescena com uma resistncia que at fez o Gus tomar precaues com ela. Enfrentava-o, discutindo sobre o estado da casa
e sobre a maneira como o dinheiro era gasto. Acontecia que brigavam sempre que estavam juntos e, pouco a pouco, o Gus foi arranjando motivos para passar cada vez
mais tempo fora de casa. Se no estava nos campos, ento  porque andava a ajudar um vizinho ou estava sentado  lareira na cooperativa, ou ento estava l em baixo
a falar de algum negcio de equipamento. E aquilo foi ptimo para a Celeste. Comeou a fazer coisas naquela casa como ela queria. Revestiu as paredes com papel de
parede e colou no cho retalhos de alcatifa.
Quando o Benjamin tinha cerca de cinco anos, era uma miniatura do pai. Era grande e robusto, com uma constituio de um touro de flmula azul numa exposio de animais,
o que fazia o Gus ficar cheio de orgulho. O lado triste era que, quanto mais o rapaz se parecia com o Gus e quanto mais o Gus se gabava do rapaz, menos interesse
tinha a Celeste em cuidar dele. No importava que a criana gostasse muito dela... para ela ele era o rapaz do Gus.
#Quando o Benjamin tinha seis ou sete anos eu devia lembrar-me com exactido, mas no me lembro a Celeste ouviu falar de um rapaz que estava no asilo do municpio.
Uma boa rapariga luterana da regio tinha fugido para Chicago e tinha engravidado e casado com o homem errado. O homem foi assassinado e a rapariga voltou submissamente
para casa, mas os pais j tinham morrido alguns anos antes, por isso teve de levar o rapazinho ao asilo municipal.
Verificou-se que ela estava a morrer e assinou um papel em que declarava que queria que o seu rapaz fosse adoptado por uma famlia da regio e que fosse criado para
ser um bom luterano depois de ela morrer.
Bem, a Celeste soube disto num domingo na igreja e, sem dizer nada a nenhum de ns, partiu para ir ter com aquela rapariga e o seu rapazinho. Naquela noite, ao jantar,
comeou a ser muito atenciosa para com o Gus, procurando apanh-lo desprevenido. Disse que lamentava que nunca pudesse haver outro rapaz para o ajudar na fazenda
e ser um irmo para o Benjamin. Logo imaginei o que estava a tramar, mas o Gus sempre foi de raciocnio lento. S reparava que ia ser atingido por um comboio depois
de o vago ter passado.
Ento um dia reunimo-nos todos em volta da mesa para almoar e a Celeste disse, Sabes, Gus, tens andado a falar... que tens muito trabalho e que  uma pena nunca
poderes ter mais do que um filho para te ajudar... tenho-me sentido muito mal por causa disso, especialmente porque sou eu que no posso dar-te outro filho. Por
isso estive a pensar numa maneira de poder remediar as coisas.
O Gus soltou um grunhido e continuou a atafulhar a boca de comida. Eu fiquei a observar os dois, pois sabia que a Celeste estava quase a fazer a sua jogada. At
o pequeno Benjamin estava atento, como se soubesse que estava a armar-se uma tempestade.
A Celeste tinha feito a tarte preferida do Gus e foi busc-la para a mesa e colocou-a em frente dele. Depois disse, Parece-me que a melhor maneira de eu remediar
as coisas  fazer um sacrifcio, por isso estou disposta a aceitar em casa um rapaz e a cri-lo como se fosse meu, para que tu possas ter outro filho para te ajudar
no trabalho.
O Gus parou de comer e ficou a olhar para ela, como se ela tivesse falado chins ou comunicado que ia viajar para a lua ou coisa parecida. Que diabo ests tu para
a a palrear, mulher? A Celeste recuou um pouco perante aquilo, mas continuou a falar com a sua voz simptica. Estou a falar em adoptar um rapaz com a idade do
Benjamin para ele poder ter um irmo e tu poderes ter mais algum a ajudar-te no campo.
O Gus comeou a cortar uma fatia daquela tarte de groselha. Quem  que te meteu na cabea uma ideia to estpida? perguntou ele.
Foste tu, disse ela. Tens andado a dizer que no est certo um homem ter s um filho para o ajudar.
Pode ser que sim confessou ele, mas nunca falei em fazer uma adopo.
Eu sei que a adopo implica uma deciso difcil de tomar, e ainda  mais difcil para uma mulher, porque equivale a admitir perante o mundo
que no  uma mulher completa, mas eu soube de um rapaz rfo que pode ser adoptado sem provocar agitao e podia comear a fazer a sua parte nas tuas tarefas dentro
de um ms.
Nunca admitirei que um bastardo de outro homem venha viver debaixo do meu tecto declarou o Gus, e a Celeste ficou irritada. No  nenhum bastardo. Nasceu como
filho legtimo
Oh! Isso  o que eles dizem sempre. Eu sei quem  o rapaz de que ests a falar. Aquele cuja me tem estado na quinta pobre. E aposto contigo em como aquela gaja
era uma puta que no tinha marido quando o rapaz nasceu
Ests enganado. O rapaz  to decente como qualquer outro e merece um bom lar protestante. A verdade  que ele j  mais civilizado e esperto do que este rapaz
que  teu filho
O Gus levantou-se da cadeira com um rugido e ps-se a gritar que a Celeste era uma menina estouvada da cidade e a pior mulher que um homem podia ter, e a Celeste
levantou-se de um salto e comeou aos berros, dizendo que o Gus era um grande estpido e idiota que tinha produzido um filho que era um grande estpido que lhe tinha
arrancado as entranhas, e eu peguei na mo do Benjamin e arrastei-o para fora e fugimos a correr. Ficmos escondidos durante horas atrs do barraco do equipamento
onde no se ouvia nada a no ser o rudo do vento e dos corvos nas rvores e nos arbustos da sebe. E ele enterrou a cabea nas minhas saias e pediu-me que lhe contasse
uma histria. Foi o princpio das minhas histrias da Arcdia. Est a ver, eu apenas comecei a falar-lhe de mim... de como tinha uma vida maravilhosa quando estava
na Arcdia, na minha linda casa com o meu pai e a minha me que eram maravilhosos... a Lenore e o Albert, ou Al como as pessoas lhe chamavam.
Lembro-me muito bem. Como ele gostou daquela histria e fez-me prolong-la sem parar. Como aquela linda cara absorvia tudo como se fosse uma espcie de conto de
fadas. Ps-se a chorar quando lhe disse que tnhamos de voltar para casa. Perguntou-me se no podamos antes fugir para a Arcdia.
Quando entrmos em casa pela porta das traseiras estava tudo muito silencioso. Fiquei assustada. A pensar que podiam ter-se matado um ao outro.
Havia pratos partidos no cho da cozinha e aquela tarte de groselha estava esparrinhada por todo o lado. Disse ao Benjamin que comeasse a apanhar os bocados enquanto
fui ver o resto da casa. O lavatrio da casa de banho estava salpicado de sangue. E havia um pequeno rasto de gotas vermelhas no linleo. Segui-as at  sala de
estar. Havia dois buracos do tamanho de punhos na parede. Por baixo deles estava a Celeste apoiada no sof, com o brao esquerdo numa posio estranha. A sua cara
estava branca como a cal... exceptuando as partes que estavam vermelhas ou roxas.
Nunca fui muito para histerias e acho que no fiz mais nada seno ficar ali de p a olhar.
Ajuda-me, Sissy disse ela. Preciso que me leves para o hospital
Primeiro vou chamar a polcia, Celeste. Para que eles vejam tudo isto com os seus prprios olhos.
No, Milly! Prometi-lhe que no contaria nada ao xerife nem a ningum na igreja em troca de o Gus me assinar o papel.
Debrucei-me mais sobre ela para ver o que estava a segurar na mo e vi que eram os papis da adopo que o Gus j tinha assinado. Tinha assinado mesmo por cima do
nome dela. Mesmo no meio das pequenas manchas de sangue.
Sa de casa e fui tirar o carro do barraco e estacionei-o em frente da casa. Depois disse ao Benjamin que trouxesse um cobertor e uma almofada e ajudei-a a entrar
no carro para o banco de trs e dirigimo-nos para o hospital, que ficava a uma boa distncia dali. Quem era eu para me pr a discutir? Ela tinha conseguido o que
pretendia e no parecia achar que o preo tivesse sido muito elevado. Claro que ao fazer uma retrospectiva vejo as coisas de forma diferente. Vejo que naquela altura
devia ter pegado no Benjamin e ter ido com ele para bem longe dali. Mas isso  agora, ao fazer uma retrospectiva. E tenho de aceitar que naquela altura no me passou
essa ideia pela cabea.
Quando chegmos ao hospital, contmos ao mdico uma histria qualquer, que ela tinha tropeado e cado das rochas para o ribeiro. No me parece que o mdico tenha
acreditado em ns, mas guardou as dvidas para si prprio. O Benjamin assistiu a tudo. Suturaram-lhe o olho e enfiaram-lhe aquele bastonete na narina e colocaram-lhe
o nariz no seu devido lugar. Depois puseram-lhe gesso no brao. E o Benjamin esteve sempre ali sentado, muito quietinho e nunca disse uma palavra. Ser que ele j
tinha sete anos naquela altura? No tenho a certeza. Ainda no andava na escola... mas isso foi antes de haver jardim de infncia em Ridley, portanto as crianas
iam mais tarde para a escola.
As coisas ficaram muito calmas depois disso. Reparmos os buracos na parede e esfregmos as manchas de sangue do sof. Levei a Celeste ao escritrio do advogado
para entregar os papis e depois fomos falar com a me e com o rapaz. A Celeste disse ao Benjamin que ia ter um irmo e deixou-o escolher beliches e colchas  cowboy
do catlogo Sears.
At ento, o Benjamin e eu tnhamos partilhado um quarto com uma velha cama dupla que a Celeste tinha comprado numa venda de garagem na cidade. Mas com a vinda do
novo rapaz ela resolveu renovar o quarto para as crianas e mudar-me para o sto.
O Gus andou muito bem disposto durante as primeiras semanas depois da briga e at ajudou a arranjar o sto sem nunca se queixar, assentando tbuas de pinho no cho
e fixando ladrilhos nas paredes e no tecto. Havia um recorte numa ponta da parede que estava tapado com uma pesada rede. Sabe,  que as casas costumavam ser construdas
assim, para permitir o arejamento. Bem, o Gus mandou fazer uma janela para adaptar quele buraco sem eu lhe pedir. A Celeste achava que bastava tap-lo com tbuas,
mas no... o Gus PUXOU da carteira e pagou para fazerem uma janela. Foi a coisa mais simptica que ele alguma vez fez por mim, tanto quanto sei.
No conseguimos levar a cama de casal pelas escadas do sto, por isso tive de encomendar uma cama nova pelo catlogo Sears. E quando tudo ficou pronto, eu at gostei
do meu quarto com o tecto inclinado e aquela janela
pequenina. No me importei que o Gus nunca tivesse acabado a colocao dos ladrilhos nem tapado as fissuras. No me importei que a Celeste se tivesse esquecido da
promessa de me comprar papel de parede. Nem me importei que aquilo fosse gelado no inverno e quentssimo no vero. Pela primeira vez em tantos anos tinha uma porta
que podia fechar e um canto que era s meu.
Mas j estou a exceder-me.
Fomos buscar o rapaz um dia depois de a me morrer. A Celeste aliciou-o, falando com ele durante um bom bocado, dizendo-lhe que ia ser muito feliz e que ela ia ser
uma boa me para ele. E ele observava-nos a todos com aqueles seus olhos.
A Celeste deixou que o Benjamim lhe mostrasse o quarto e o novo beliche; depois arrummos os seus poucos haveres, a Celeste reuniu-nos a todos na sala de estar.
A partir de agora, disse ela, o teu nome  Hanselmann. Nunca mais vais usar o nome de Bram Serian.
O Benjamin perguntou qual ia ser o seu primeiro nome. E a Celeste disse que, uma vez que o seu primeiro nome era Abram, podiam chamar-lhe Abe. Isso agradaria ao
Gus e permitia que o rapaz mantivesse um nome que j lhe era familiar.
E foi assim. Bram Serian desapareceu e Abe Hanselmann passou a fazer parte da famlia. Um irmo para o Benjamin. Um filho para a Celeste. E um bode expiatrio para
o Gus.
Milly Corwin afundou-se na cadeira como se tivesse ficado esgotada pela histria que tinha contado.
Quer que lhe traga alguma coisa? perguntou Owen.
Isso seria muito simptico da sua parte. H ch feito no frigorfico. Deite tambm um copo para si.
Quando Owen voltou com o ch j ela parecia de alguma maneira ter recuperado. Levantou-se da cadeira, atravessou a sala e foi ao armrio do corredor. D-me aqui
uma ajuda, disse ela, e Owen retirou duas caixas do cimo do armrio e deu-lhas. Uma era uma velha caixa de um chapu, toda decorada com flores, que era bastante
leve. A outra era uma embalagem slida que tinha originalmente contido botas de trabalho de tamanho quarenta e sete e era to pesada que Owen ficou admirado como
 que ela tinha conseguido met-la no armrio.
Ela levou a caixa do chapu para a sua cadeira. Owen levou a pesada caixa das botas e colocou-a na mesinha de centro que se encontrava entre eles. Calculou que talvez
contivesse fotografias e mal conseguia controlar o seu entusiasmo.
Continue, disse ela acenando para a caixa das botas. Abra-a.
A caixa estava atafulhada de fotografias soltas e lbuns de fotografias e lbuns antigos em pele. Owen estava fascinado. Pegou num retrato de um jovem casal em tom
spia e perguntou-lhe quem eram.
Os meus pais, disse ela. Albert e Lenore Corwin. O par mais encantador que alguma vez andou sobre a terra. Simpticos e eruditos e
tolerantes. Quem me dera t-los estimado mais enquanto eram vivos.
Ele tirou cuidadosamente outra fotografia antiga, uma fotografia de duas meninas vestidas com roupa antiquada, sentadas nas selas de dois pneis um ao lado do outro.
A Milly apontou. Aquela  a Celeste e essa sou eu.
Deixou que Owen as examinasse cuidadosamente durante alguns minutos, depois disse, Pode levar tudo o que quiser para o seu livro.
Ele agradeceu-lhe, quase confundido com tamanha quantidade de material e com a emoo de saber que o seu livro estava a assumir novas dimenses.
Digo-lhe mais, disse ela. Deixo-o levar a caixa inteira por algum tempo. Mostre-as  viva e escolha algumas para o seu livro. Depois devolva-mas mais tarde. Actualmente
j no aprecio muito ver fotografias antigas. Fazem-me ficar muito triste.
Antes de terminarmos, importa-se que procure algumas fotografias dos seus sobrinhos? Quase no existem fotografias deles como adultos e...
Ela debruou-se sobre a caixa e puxou pelo canto de um carto que estava  vista. Olhe para ali, disse ela. Tire aquele para fora.
Ele puxou-o para fora da caixa. Era um porta fotografias de luxo, em carto, com granulado de madeira e com uma borda dourada. Abriu-o cuidadosamente. L dentro
havia dois retratos de tamanho cinco por sete, um em frente do outro, encaixados em recortes ovais.
Essas so as ltimas fotografias que tenho dos rapazes, disse ela. Foram tiradas na escola secundria mesmo antes... antes de tudo mudar.
Owen observou os retratos. O rapaz da direita tinha um rosto redondo, cabelo ruivo aloirado e ondulado e com um sorriso sedutor que lhe fazia enrugar os cantos dos
olhos. Esta era uma verso mais jovem sem barba do rosto que Owen tinha visto na fotografia que estava no escritrio de Edie Norton. Um Bram Serian adolescente.
A criana adoptada.
O rapaz que se encontrava no lado esquerdo tinha um olhar srio. Tinha cabelo castanho de tamanho mdio que lhe caa despreocupadamente pela testa, uma boca delicada,
com uma cara angulosa e olhos srios. Este tinha de ser o Al, o irmo afectado pela guerra do Vietname que Bram Serian tinha aprisionado para o proteger. O Al, o
filho biolgico desventurado.
As diferenas entre os rapazes eram muito definidas. Muito claras. Owen compreendeu o motivo por que nunca ningum suspeitou que pudessem ser mais do que primos
afastados. Mas afinal era evidente que no havia qualquer relao sangunea de parentesco entre eles.
Owen levantou os olhos para Milly. Nesta fotografia o Benjamin j tinha um ar... triste. At perturbado.  fcil compreender por que  que o Vietname teve nele consequncias
to demolidoras.
Milly Corwin torceu a cara e franziu as sobrancelhas. O que est voc para a a dizer? Tirou subitamente o porta fotografias das mos de Owen e olhou para ele como
que a verificar a sua sanidade mental.
Owen inclinou-se e deu um toque no carto do lado da fotografia do rapaz de olhos srios. No acha que ele tem um ar um pouco triste?
Ela riu-se. Voc est a confundir tudo. Esse no  o Benjamin. Esse  o rapaz adoptado. E apontou para o de cara sorridente. Este  que  o meu Benjamin.
Owen pegou novamente no porta fotografias e ficou a olhar para os dois jovens. Milly... Menina Corwin... comeou ele calmamente. O homem que se chamava Bram Serian,
o homem que se tornou famoso e que casou com Lenore e que morreu no passado ms de Agosto  o que est aqui a sorrir. E este apontou para o rapaz melanclico e de
cabelo escuro este  o homem a quem chamavam Al e cujo paradeiro se desconhece.
Mas... Milly abanou a cabea. No compreendo.
O seu sobrinho Benjamin foi quem passou a usar o nome de Bram Serian. E o seu outro sobrinho... o seu sobrinho adoptado, passou a chamar-se Al.
Ela ps a sua mo a tremer sobre a testa. O meu Benjamin adoptou o nome de nascimento do seu irmo adoptado?
Receio bem que tenha sido assim. E o Abe, o rapaz adoptado, ficou com o nome Al.
Ento foi o meu Benjamin que morreu em Agosto. Apertou as mos de encontro ao peito como que a tentar controlar a sua dor. O corao bem me dizia que algo de mal
tinha acontecido quele rapaz, logo que deixou de vir o correio. Mas ainda tinha esperanas...
Passou algum tempo antes de voltar a falar. Depois disse, Sim. Faz sentido que fosse o Benjamin a conseguir ter sucesso.
O Benjamin foi sempre aquele que queria fazer coisas. Aquele que tinha ambies. E faz sentido que procurasse tomar conta do irmo. Desde o princpio que se tornou
o protector do irmo e o irmo sempre precisou da sua proteco.
E por que acha que o Benjamin teria mudado o nome para Bram Serian? perguntou Owen. Por que se teria livrado do seu prprio nome de famlia e quereria ser conhecido
pelo nome de nascimento do irmo adoptado? Isso faz para si algum sentido?
Milly soltou um suspiro. Parece-me que sim, se quisermos enfrentar a realidade da sua vida. Parece-me que sim. Sente-se a que eu conto-lhe o resto da histria.
^
#18
Milly Corwin ficou muito calada por instantes, como se estivesse a pensar como havia de comear.
A Celeste tinha andado muito preocupada que houvesse cimes ou brigas entre os rapazes, uma vez que foram de repente colocados juntos, sem terem tido qualquer oportunidade
de se conhecer primeiro. Mas desde o primeiro momento aqueles rapazes ficaram muito chegados, como se fossem duas metades que estavam  espera de se unir para formar
um todo. Era uma coisa que merecia ser vista. s vezes at fazia impresso. Um deles olhava para o outro do outro lado da sala e a gente ficava com aquela impresso
de pele de galinha que eles tinham acabado de falar um com o outro e tomado uma deciso sem dizer uma nica palavra.
Quando foram os dois para a escola, dava gosto olhar para eles. O Benjamin com um aspecto muito saudvel e sempre bem disposto e o Abe, muito franzino, com aquele
cabelo castanho liso que nunca ficava penteado e aqueles olhos que absorviam tudo. A Celeste sempre disse que ele tinha o dom da vista, que ele via com mais perspiccia
do que todos ns.
O facto de o Abe ter sido adoptado do asilo municipal era do conhecimento pblico e, embora os adultos comentassem que tinha sido um acto piedoso aceitar assim uma
criana, a verdade  que eles consideravam o Abe inferior e transmitiam aos filhos essa maneira de ver. Na escola os outros midos intimidavam o Abe e o Benjamin
estava sempre a meter-se em sarilhos ao tentar proteger o seu novo irmo. A Celeste e eu passmos semanas a remendar a roupa daqueles rapazes e a tirar manchas de
sangue das suas camisas diariamente depois da escola. Depois as brigas acabaram. Mas os rapazes voltavam todos os dias tristes da escola e pediam para no ter de
voltar para aquela escola. O que vim a saber mais tarde, depois de ter falado com o professor da escola na loja de ferragens em Ridley, foi que o Benjamin e o Abe
tinham sido completamente postos de parte pelos outros rapazes. Como se fossem pequenos leprosos.
Ora isto no preocupava a Celeste nem o Gus. Os pais no se preocupavam com o facto de os filhos terem amigos ou de se divertirem naquela altura. Para dizer a verdade,
o Gus e muitos outros homens como ele no
acreditavam no divertimento entre as crianas. Achavam que o carcter de uma criana tinha de ser moldado com trabalho rduo e muita disciplina. Mas eu ficava preocupada
ao pensar naqueles dois rapazinhos juntos num campo de recreio da escola cheio de inimigos, por isso procurei sempre ser para eles uma amiga especial para os compensar.
__ As coisas continuaram assim durante anos. O Gus tinha a sua agricultura. A Celeste e eu fazamos a limpeza e cozinhvamos e fazamos conservas e outras tarefas
de casa. Costurvamos toda a roupa, com excepo da roupa de ganga calas e fatos-macacos e coisas do gnero. Fazamos toalhas de ch dos sacos de farinha e colchas
de pedaos de tecido especiais e mantas de trapos de retalhos. De vez em quando convencia-a a plantar lrios e lilases, embora compreendesse os seus motivos para
no ter embelezado o exterior h mais tempo. Ela detestava mesmo aquela casa e estava determinada a fazer com que no tivesse o aspecto acolhedor quando vista do
exterior, porque isso faria com que as outras pessoas ficassem com uma boa impresso do Gus. Os homens so sempre avaliados pelo exterior e as mulheres pelo interior
e ela no queria que ningum pensasse que o Gus tinha conseguido tornar a casa agradvel.
- Quanto aos rapazes, eram puxados em duas direces. O Gus queria ter o Benjamin junto dele a maior parte do tempo e a Celeste queria ter o Abe junto dela. O problema
era que os rapazes queriam estar juntos. Por isso umas vezes iam com o Gus, o que fazia com que a Celeste ficasse amuada e barafustasse, dizendo que ningum a estimava,
outras vezes ficavam com a Celeste e comigo, o que levava o Gus a dizer todo o tipo de coisas desprezveis, chamando-lhes mariquinhas e meninos da mam e bebs.
Houve alguns ressentimentos e pequenas brigas entre a Celeste e o Gus naquela altura, mas no foi nada de especial. Pelo menos at ao vero em que os rapazes fizeram
nove anos.
Nove anos  uma boa idade para uma criana, sabe. Uma criana de nove anos j sabe fazer muitas coisas. Sabe seguir instrues e segurar com firmeza uma lanterna
elctrica e entregar as ferramentas certas quando lhe so pedidas, e colocar o isco no prprio anzol. Sabe contar uma anedota depois de a ouvir e sabe como comportar-se
na presena de outros adultos se a gente quiser lev-lo  cidade. Por isso, logo que os rapazes saram da escola naquele vero, o seu nonO vero, as guerras comearam.
A Celeste queria o Abe. O Gus queria o Benjamin. E nenhum deles queria que os dois rapazes gostassem de ficar juntos.
- A Celeste estava sempre zangada com o Benjamin, dizendo-lhe que estava sempre a criar problemas, dizendo-lhe que devia deixar o irmo em paz e ficar junto do pai
que era da sua espcie. E o Gus mostrava cada vez mais m vontade em relao ao Abe, dizendo-lhe que ficasse em casa com o seu rabo de maricas e que deixasse o irmo
ir trabalhar com os homens. Ambos os adultos culpavam a criana de que no gostavam, de os privar da companhia da criana que queriam que estivesse com eles. E os
rapazes ficavam tristes, apanhados no meio, mas ainda mais tristes quando estavam separados. Acho que aqueles rapazes se aperceberam de que os adultos eram seus
inimigos e que a sua nica esperana estava em manter-se unidos.
Agora no fique com a ideia de que estes rapazes no tinham trabalho para fazer. Eles tinham um monte de tarefas. Mas durante o vero h tempo para fazer tarefas
e para o divertimento.
A Celeste comeou a oferecer mais viagens  cidade, para comer cones de gelado da Dairy Queen e comprar livros de banda desenhada na drogaria, como incentivos para
se sentirem mais cativados por ela do que pelo pai. E o Gus aparecia com a pesca. Se fossem com ele, levava-os para o rio  pesca de linguados e gatos touros, logo
que terminassem o trabalho da fazenda.
Os rapazes gostavam tanto de ir  cidade com a Celeste como de ir  pesca com o Gus, de modo que nenhum dos adultos ganhou essa contenda. E eu pensei que a questo
se resolveria quando a Celeste e o Gus verificassem que estavam empatados e desistissem de tanto esforo. Mas nenhum deles queria ceder.
A Celeste acalmou em relao ao Benjamin e deixou de ser to desagradvel para com ele. Parece-me que se apercebeu de que o Abe estava dependente da proximidade
do Benjamin e desistiu porque, acima de tudo, queria o que fosse melhor para o Abe. Mas o Gus nunca abrandou em nada na sua vida. E claro que no abrandou em relao
ao Abe. Estava determinado a mostrar ressentimento contra o rapaz adoptado e encontrava imperfeies no Abe em tudo o que podia.
Quando eu vivia l, mesmo no meio daquilo, no me apercebi de como aquelas crianas estavam a ter uma infncia cruel. Naquela altura eu era o gnero de mulher submissa
e tinha medo do Gus e medo de perder o meu lugar naquela casa. Mas agora quando fao a retrospectiva, at sinto o sangue a ferver ao pensar na maneira como aqueles
rapazes foram tratados. A Celeste no era me para nenhum deles. Subornava-os para ter a ateno deles e chorava e amuava e fazia-os sentirem-se terrivelmente culpados
quando no conseguia o que queria. Nunca os castigava nem lhes lembrava as suas tarefas; e depois, quando eles se esqueciam de fazer uma tarefa ou faziam mal alguma
coisa, ficava sentada e esperava que o Gus explodisse com eles. Ficava satisfeita quando isso acontecia porque gostava de ser aquela que os confortava quando estavam
em dificuldades.
E o Gus... andava pela cidade e participava nas ceias da igreja com aquela maneira prpria, calado e calmo, a ouvir a conversa do vizinho sobre o tempo e o preo
do trigo e por a adiante, mas quase sempre sem falar muito de si prprio, e toda a gente pensava que ele era um tipo impecvel. Um homem modesto, humilde e temente
a Deus. Um agricultor inteligente, um bom marido e um pai excelente. Mas em casa ele mostrava a sua veia de mau gnio. Fervilhava de raiva  mais pequena coisa e
tratava aqueles rapazes como se fossem ces... para serem acariciados, chicoteados, faz-los passar fome ou amaldio-los conforme a sua disposio.
Claro que se os chicoteasse ou se implicasse com eles, era sempre o Abe o mais castigado. O Abe automaticamente apanhava mais pancadas com um pau ou mais chibatadas
com um cinto ou maldies mais feias e aviltantes. O Gus chamava-lhe bastardo papista e bola de gordura gerada pelo diabo, por haver rumores de que o pai natural
do Abe era de Portugal. Tambm lhe
chamava outras coisas que no quero repetir. E no era s o facto de o Abe ter sido adoptado e indesejado que provocava tanto dio no Gus. O Abe tinha a sua prpria
maneira de reagir que fazia o Gus transformar-se numa mquina furiosa, aquele modo de olhar directamente para o Gus sem se encolher de medo nem demonstrar o mnimo
sentimento de culpa. E no chorava nem um bocadinho quando o Gus o chicoteava. Adquiria aquela palidez no rosto, como se o seu esprito se escondesse algures l
bem no fundo.
Bem, de um modo geral o estado das coisas era bastante mau, mas l para o fim do vero comeou mais qualquer coisa. Tanto a Celeste como eu apercebemo-nos daquilo
ao mesmo tempo, que os rapazes ficavam mais calados e menos brincalhes quando estavam connosco, e que o Abe estava a ficar assustadio, dando saltos quando ouvia
pequenos rudos como um potro meio domesticado. Tentmos questionar os rapazes, mas eles limitavam-se a olhar um para o outro e a encolher os ombros. Observmo-los
quando estavam com o Gus, suspeitando naturalmente que era ele o causador, mas por estranho que nos parecesse, o Gus parecia ter criado alguma descontraco entre
os rapazes.
Ento um dia estvamos a lavar a roupa e a Celeste fez um comentrio sobre o facto de parecer que as cuecas dos rapazes estavam a desaparecer. No havia tantas como
costumava haver. Eu ri-me daquele facto, mas quando acabmos de dobrar a roupa tornou-se evidente que o monte de roupa interior no estava to grande como devia
ter ficado.
Concordmos que era estranho. Tnhamos acabado de encomendar um grande fornecimento de roupa interior para eles do catlogo Sears, toda com o mesmo tamanho. Apesar
de o Benjamin ter uma constituio mais forte do que o Abe, tinham a mesma altura e usavam os mesmos tamanhos. Por isso no sabamos quem andava a perder as cuecas.
Achas que algum dos rapazes andou porventura com diarreia e sujou as cuecas e teve vergonha de que pudssemos v-las? perguntei eu.
A Celeste no me respondeu, mas percorreu aquele monte, pea por pea, verificando o interior da roupa.
H umas pequenas manchas em algumas destas peas, disse ela. Mas so de sangue e no de diarreia. Os seus olhos ficaram pequeninos como sempre ficavam nos momentos
em que ela estava pronta para explodir. Aquele maldito homem tem andado mais uma vez a bater demasiado nestes rapazes. Maldita seja a sua alma!
Naquela noite, depois do jantar, o Gus foi l para fora sentar-se a aparar uma vara com a faca e a ouvir rdio como fazia habitualmente. Os rapazes comearam a segui-lo,
mas a Celeste disse-lhes que ficassem ali quietos. Logo que o Gus se encontrou suficientemente longe para no poder ouvir, ordenou aos rapazes que fossem para o
quarto.
Algum de vs tem as ndegas inflamadas? perguntou ela. Ou so os dois?
Aqueles rapazes olharam um para o outro como se tivesse acabado de passar um fantasma por cima das suas sepulturas.
Eu estou bem disse o Benjamin.
E tu Abe?
Acho que me magoei nalgum stio confessou ele.
A Celeste mandou sair o Benjamin da frente e ordenou ao Abe que baixasse as calas e que se colocasse de cabea para baixo na cama. Traz-me alguma gaze e gua oxigenada
e tintura de iodo, Milly. E talvez tambm um pouco de pomada.
Corri para a casa de banho e voltei imediatamente. O Abe tinha as calas  altura das ancas e estava dobrado para baixo quando voltei. Mexia-se mesmo devagar como
se tivesse alguma coisa magoada. Ainda tinha as cuecas vestidas.
Logo que se colocou na posio adequada, a Celeste puxou-lhe a roupa interior para baixo. Eu estava  espera de ver golpes profundos ou marcas de cinto nas suas
pobres ndegas de criana, mas no havia nada disso. As ndegas estavam to macias e limpas quanto era possvel.
As suas ndegas estavam boas. Era o nus que estava todo machucado. Avermelhado e com escaras e com aspecto inflamado.
Meu Deus do cu, Abe, por que no me falaste nisto? disse a Celeste.
O que  isso? Perguntei. Alguma espcie de impigem ou infeco?
No sei, disse a Celeste, mas percebi que se passava alguma coisa na sua cabea porque ela ficou com a cara plida e com os lbios cerrados, e aquilo assustou-me
porque pensei que o Abe pudesse ter alguma doena grave que eu no conhecia. Talvez alguma coisa provocada pelo facto de nadar nu naquele ribeiro sujo. A Celeste
estava sempre a dar-lhes sermes sobre os germes e a limpeza, mas os rapazes nem sempre lhe prestavam ateno.
Achas que devamos chamar um mdico imediatamente? perguntei-lhe.
No disse ela. Acho que ns somos bem capazes de tomar conta disto.
Limpmo-lo o mais suavemente que pudemos e pusemos-lhe uma camada espessa de pomada e mandmos os rapazes embora. E eu sussurrei, O que  aquilo, Celeste? Tens
a certeza de que no era melhor lev-lo ao mdico?
E a minha irm olhou para mim de uma maneira que me fez ficar com o corpo todo com pele de galinha. Estava com os olhos furiosos e assustadores, mas os seus lbios
estavam sorridentes. Vamos conseguir resolver esta situao, Milly. No te preocupes. Agora vai ficar tudo bem.
Mas no me quis dizer mais nada.
Preparou as coisas de maneira que os rapazes sassem com o Gus com toda a certeza na quinta-feira. E na quinta-feira de manh ao pequeno almoo comeou a provocar
o Gus. A implicar com ele por causa de coisas sem importncia e a elogiar a inteligncia do Abe, dizendo que os rapazes inteligentes no eram criados para serem
agricultores. O Gus estava com os maxilares fechados e a resmungar e os rapazes andavam de costas arqueadas como coelhos assustados na altura em que todos eles saram
do ptio.
Sabamos o que tencionavam fazer. O Gus ia a casa de um vizinho para o ajudar a reparar uma mquina. Iam ficar a almoar em casa do vizinho; depois dirigiam-se para
a estao de servio na cidade onde iam buscar um pneu reparado para o camio. A seguir iriam para o Nowa Creek, onde iam pescar.
A Celeste insistiu que ambas nos vestssemos de calas. Depois andou pela casa durante toda a manh como um tigre enjaulado. Telefonou para os vizinhos para verificar
se o Gus e os rapazes j tinham acabado de comer e se j tinham ido embora, dizendo que queria contactar com o Gus para lhe pedir que lhe trouxesse uma coisa da
cidade. O vizinho disse-lhe que tinham sado cerca de trinta minutos antes. A seguir telefonou para a estao de servio com a mesma desculpa. O empregado da estao
disse que por cinco minutos no os tinha apanhado.
Nessa altura transformou-se numa mulher selvagem, agarrando a sua carteira e apressando-me para que entrasse no carro. Dirigimo-nos imediatamente para Nowa Creek,
com a Celeste a conduzir com tanta velocidade que eu tive de fechar os olhos durante a maior parte do trajecto. A pick-up do Gus estava estacionada  entrada da
pequena ponte, como j espervamos.
Ela encostou o carro  berma da estrada sem fazer barulho e ps o dedo nos lbios a avisar-me que ficasse caladinha. Depois ela fez uma coisa muito estranha. Tirou
da carteira a mquina fotogrfica. Era a que ela usava para tirar fotografias instantneas da famlia, um aparelho muito simples com um buraco em cima para ligar
um cubo de flashes, e j l estava introduzido um cubo novo de flashes, pronto a funcionar. Entregou-me a mquina fotogrfica. Em seguida debruou-se sobre o assento
de trs e levantou um cobertor que tinha colocado no cho e puxou por uma das espingardas do Gus.
Eu comecei a tartamudear e a gaguejar, mas ela disse-me que ficasse em silncio e seguisse atrs dela.
O ribeiro Nowa Creek corre ao fundo de uma escarpa muito ngreme. Tivemos de escorregar e deslizar pelo declive para conseguir chegar ao leito do ribeiro. Aquilo
l em baixo era agradvel e fresco, e reservado... completamente isolado do movimento que pudesse existir l em cima. Ao contrrio do que acontece no resto da propriedade,
ali as rvores cresciam naturalmente. Choupos e salgueiros e nogueiras negras. Eu s queria parar para me sentar a apreciar aquela serenidade, mas a Celeste agarrou-me
com fora pelo brao e lanou-me um olhar que me fez pr os ps a andar e a boca calada.
O ribeiro variava em profundidade, com partes em que tinha apenas cerca de meio metro, seguidas de locais em que era bastante mais profundo. Caminhmos ao longo
da margem por cima das pedras e pequenos bocados de sedimentos arenosos. Eu perguntava-me se iramos na direco certa quando, ao contornarmos uma pequena mata de
arbustos, avistmos a cabea loura do Benjamin. Estava sentado em cima de um monte de pedras com a linha de pesca na gua, mas de maneira nenhuma parecia um rapaz
que estivesse a pescar por prazer. Tinha a cara toda contorcida, como se estivesse a conter-se para no chorar.
Quando nos viu, deixou cair a cana e veio na nossa direco como um fantasma de maus pressgios, com um ar ingnuo a esbracejar. No pode ir ali abaixo, mam! O
Abe arranjou problemas e o pap est a castig-lo e disse-me que se fosse l abaixo.
- A Celeste tinha a espingarda encaixada num brao e estendeu a outra e agarrou o Benjamin pelo pescoo e puxou-o para ela de tal maneira que ficou
#com a cara enterrada na sua roupa. Caladinho, Benjamin. Vou resolver isto de uma vez por todas. Agora, para onde levou ele o teu irmo? Foram ali para baixo junto
do ribeiro?
O Benjamin acenou com a cabea em sinal afirmativo.
Muito bem, rapaz. Agora senta-te a nas pedras e espera por mim.
Aproximmo-nos sorrateiramente, de costas arqueadas e em silncio, embora o rudo natural da gua e o vento a abanar os choupos encobrissem quaisquer sons que pudssemos
fazer. Eu estava extremamente assustada.
Tens a mquina fotogrfica pronta? sussurrou-me a Celeste. Quando l chegarmos, tiras uma srie de fotografias. S tens que puxar o rolo e disparar, sem parar.
Ouvimos qualquer coisa e a Celeste parou junto a um salgueiro e caminhou pela gua. Depois ouviu-se a voz do Gus a dizer em tom alto, Este  o castigo de Deus para
os pequenos bastardos papistas, traioeiros e mentirosos. Diz l, rapaz, diz Obrigado meu Deus. A Celeste afastou os ramos do salgueiro de maneira a podermos ver
o que se passava e ento vimo-los. Estavam num recanto em que um bocado da margem do ribeiro tinha sido escavada pela fora da gua, de tal modo que se formou um
pequeno local protegido. Naquele local algum despejou uma mquina de lavar roupa. Ali estava ela de p e ainda nem sequer tinha ferrugem. Ainda estava com uma cor
branca brilhante. E de lado, em cima dela estava o meu sobrinho adoptado, Abe, deitado sobre o estmago, com a cabea e os braos suspensos de um lado e o rabo colocado
em cima na borda e com as pernas a balouar do outro lado. Tinha a camisa vestida, mas as calas e a roupa interior estavam em cima de um arbusto.
Uma parte do meu crebro disse que o rapaz estava assim para o Gus poder chicote-lo. O Gus sempre gostara de chicotear os rapazes sem roupa. Mas as prprias calas
do Gus estavam parcialmente baixadas e o que estava a acontecer no tinha nada a ver com chicotear. Eu vi claro como a gua e tenho fixada na cabea aquela imagem
que ainda aparece nos meus pesadelos, mas naquele preciso momento no consegui compreender o que estava a ver.
As fotografias disse-me ela com uma voz sibilante. Tira as fotografias! E eu pus aquela pequena mquina fotogrfica nos olhos e disparei. Tudo parecia muito pequeno
visto atravs da mquina fotogrfica e aquilo no era assim to feio. Nem sequer parecia verdadeiro.
O flash disparou duas vezes antes de o Gus reparar nele. Atravs daquela mquina fotogrfica vi-o parar e voltar-se, expondo toda a maldade dos seus actos. Vi-o
a puxar as calas para cima e a correr para ns como um touro determinado a matar.
Eu j trato de ti, Celeste! berrou ele.
Ento parei de tirar fotografias e preparei-me para fugir, mas a Celeste avanou naquele momento. Avanou pelo meio daquele salgueiro com a espingarda apontada para
a barriga dele e obrigou-o a parar.
Tu no te atrevias a disparar sobre mim disse ele, mas a sua voz no parecia muito segura e no quis correr o risco.
Abe chamou ela, consegues descer da e vestir as calas sozinho?
O Abe no respondeu, mas desceu para o cho, com ar de quem est com dores e comeou a vestir as calas.
Ests a ver aquela mquina fotogrfica que a Milly tem nas mos? disse a Celeste ao Gus. Quantas fotografias tiraste, Milly?
A minha mo estava a tremer, mas levantei a mquina para ler o nmero. Nove, disse eu surpreendida, porque no me lembrava de ter disparado e passado o rolo tantas
vezes.
Sabes o que acontece a um homem que faz o que tu fizeste, Gus?
Eu sou o chefe desta famlia e castigo os meus rapazes da maneira que eu achar mais apropriada.
Isso no  castigo. Isso  um crime! Perante Deus e perante a lei!
Deus no toma conta daquela criana bastarda que tu me enfiaste pela garganta dentro, mulher.
Tu no podes saber isso, Gus Hanselmann, porque tu perdeste Deus. E agora acabaste de perder muito mais do que isso. Ela voltou a sorrir com aquele sorriso mesmo
assustador. Estas fotografias so a prova daquilo que tu s, e se no fizeres exactamente o que te vou dizer, vou levar aquele filme directamente para o gabinete
do xerife e mando-te para a priso que  onde devias estar.
Abe, afasta-te dele. No te aproximes da imundcie. E vai ter com o teu irmo e vo os dois para o carro. Est estacionado junto  ponte.
O que ests tu a pensar fazer? perguntou o Gus, e foi a primeira vez que alguma vez o ouvi falar cheio de medo.
Vais caminhar  minha frente e vais meter-te na tua pick-up e vais seguir-nos para o escritrio do advogado. Depois vamos entrar juntos, ambos com um ar simptico,
com aquele filme guardado na carteira da Milly e vais dizer ao advogado que decidiste mudar o teu testamento de maneira que o Abe possa herdar a fazenda com os mesmos
direitos do Benjamin. E vais dizer-lhe que queres isso numa espcie de crdito ou qualquer coisa que nunca possa ser alterada. Que decidiste que no era justo que
um dos rapazes ficasse de fora, sem nada.
A cara do Gus ficou vermelha escura e a sua respirao tornou-se estranha, de tal maneira que pensei que ele era capaz de cair para o lado e morrer ali mesmo.
Depois aquele filme vai ficar bem guardado, continuou a Celeste. Vou met-lo num envelope com uma carta sobre o que deve ser feito com ele no caso de alguma vez
me acontecer algo de suspeito, ou no caso de tu quereres violar o testamento. E vou dizer nessa carta que a Milly ou o Abe podem ficar com esse filme e us-lo contra
ti no caso de eu morrer e tu comeares a portar-te mal.
Tu sempre disseste que eu era esperta, Gus. E eu pensei nisto com muito cuidado. Ests a ouvir o que estou a dizer? Compreendes que aqui este pequeno rolo de filme
coloca as tuas partes privadas presas num torno e que posso esmag-las at as transformar em polpa se no fizeres o que te digo a partir de agora. Ests em dvida
para com o Abe e ests em dvida para comigo e est na hora de comeares a pagar o que deves.
O Gus estava um homem diferente na altura em que o pusemos a caminhar  nossa frente para a sua carrinha. Parecia dez anos mais velho e com uma atitude muito mais
submissa do que antes.
Aquela foi a coisa mais feia e mais maldosa que eu tinha visto em toda a minha vida, e mais tarde, depois de o assunto da Celeste estar resolvido e de termos voltado
para casa em segurana e deixado o Gus sentado na sua pick-up na cidade, eu s queria encostar aqueles rapazes ao meu peito e chorar, apenas chorar. Mas a Celeste
no o permitiria.
No h tempo para choraminguices disse ela. Deixou que o Abe tomasse um banho e se deitasse, mas ps-nos a trabalhar a mim e ao Benjamin. Tirmos tudo quanto era
do Gus do quarto principal. Levmos todas as suas coisas para o sto. E mudmos as minhas coisas do sto para baixo, para eu passar a dormir com a Celeste.
Aquele homem nunca mais volta a partilhar a cama comigo disse ela, e eu sabia que ela estava a falar a srio.
Durante alguns meses depois de aquilo acontecer, as coisas correram muito tranquilas. Os rapazes voltaram para a escola. O Gus manteve-se afastado, ficando l fora
ou no sto ou saa simplesmente a maior parte do tempo.  hora das refeies ficava ali sentado como uma pedra enquanto a Celeste conversava sobre mexericos e sobre
as colheitas e as actividades dirias. Os rapazes e eu nunca dizamos uma palavra a no ser para pedir que passassem as batatas e coisas semelhantes.
Foi quando a Celeste comeou a ficar muito obcecada com os germes. No princpio no parecia assim to estranho. Ela sempre tinha sido daquelas que levam a peito
os artigos das revistas, aqueles que falam da limpeza e das bactrias e das infeces e tudo isso, e quando comeou a esfregar com escovas de dentes e a aspirar
o cho com mais frequncia e a limpar diariamente os lava-louas e a casa de banho e a banheira com lixvia, ningum ligou muito quilo. Mas depois comeou a preocupar-se
consigo prpria, a lavar as mos de quinze em quinze minutos e a tomar dois ou trs banhos por dia e a pulverizar em seguida a pele com Lysol como se vaporiza gua
de colnia. Estava constantemente a insistir com os rapazes que andassem limpos e contava-lhes histrias sem fim sobre os horrveis germes que estavam escondidos
nas cavidades dos seus corpos.
Proibiu-nos de usarmos sapatos dentro de casa e passmos a ser como aquelas famlias japonesas que deixam os sapatos em fila  entrada da porta e toda a gente anda
pela casa em passos silenciosos, s com as meias caladas.
Com tudo aquilo, o Gus comeou a andar pela casa batendo os ps e a resmungar. Abusando da pacincia dela em pequenas coisas. Sobretudo recusando-se a tirar os sapatos.
Trazendo-os propositadamente cheios de lama e de estrume ou deixando marcas sujas das mos por todo o lado.  medida que o tempo passava, ele foi ficando mais confiante
e arranjou novas maneiras de se desforrar dela. Nunca voltou a dar uma ajuda a nenhum dos rapazes, mas dizia as coisas mais horrveis ao Abe sempre que a Celeste
se encontrava fora do alcance da sua voz. E passou a ser rabugento tambm para o Benjamin, gritando com ele a toda a hora por ser to desastrado e estpido.
Foi mais ou menos por essa altura que Fred Kunstler entrou na minha vida. Eu j conhecia o homem desde h muitos anos, uma vez que ele era membro regular da nossa
comunidade religiosa e tudo o mais, mas eu nunca lhe tinha dito mais do que o que habitualmente se passa entre um frequentador da igreja e outro, quando uma dessas
pessoas  uma senhora solteira e a outra  um homem casado.
A mulher do Fred tinha estado muito doente durante algum tempo e tinha finalmente ido para o seu descanso final. Ele manteve-se afastado da vida social durante cerca
de seis meses e depois voltou  sua vida normal, aparecendo nos servios litrgicos, mas sem participar nas reunies sociais, nem nas ceias de farnel e recusando
todas as ofertas de ajuda. Mas ns sabamos que tinha quem cuidasse dele, pois ele tinha filhos casados espalhados pela regio e eles apareciam com muita regularidade
para o visitar.
Ento um dia, inesperadamente, a Celeste e eu estvamos a limpar o frigorfico, quando apareceu Fred Kunstler no seu carro. A Celeste acenou-lhe da janela com a
mo e gritou-lhe para que entrasse.
O Gus no est c, disse ela logo que o Fred entrou na cozinha.
O Fred no disse nada. Ficou a olhar para ns por momentos, enquanto acabvamos de limpar o frigorfico e depois disse, No tem, por acaso, um copo de ch para
uma pessoa que est cheia de sede?
Fui buscar-lhe o ch e ele sentou-se  mesa e conversou sobre vrias coisas, at que acabmos a nossa tarefa domstica e nos sentmos com ele  mesa.
Ele comeou a falar do tempo que j tinha passado desde a ltima vez que tinha ido ao cinema e a Celeste disse-lhe que o Gus achava que os filmes eram um desperdcio
de tempo e o Fred disse que um filme interessante era melhor do que beber usque em demasia e nisso ela concordou com ele. Durante o tempo todo a Celeste no parou
de me lanar olhares e pusemo-nos a imaginar o que diabo teria passado pela cabea de Fred Kunstler, que no tinha estado dentro daquela casa mais do que uma ou
duas vezes em todos aqueles anos desde que a Celeste ali vivia.
E voc, menina Milly? perguntou ele. Qual  a sua opinio sobre o cinema?
Eu gosto de ver um bom filme, disse eu. Se bem que j nem me lembro da ltima vez que fui ao cinema.
Importava-se de ir hoje ao cinema na minha companhia?
Fiquei de boca aberta e podia ter sido derrubada da minha cadeira apenas com uma pena.
Meu Deus disse a Celeste. Est a pedir  Milly para sair consigo, Fred Kunstler?
Parece-me que sim, Celeste.
Pareceu-me que a Celeste estava quase a meter os ps pelas mos, por isso disse, Senhor Kunstler, ficaria muito satisfeita em ir consigo ao cinema hoje  noite.
Se fizer uma retrospectiva, verifico que aquilo foi o comeo da minha segunda oportunidade de ter uma vida de facto. O Fred e eu comemos por
nos encontrar uma vez por semana. A Celeste gozava com isso e dizia-me que eu era doida se lhe permitisse que tomasse certas liberdades comigo. O Gus ficou furioso
com tudo aquilo. Ficou desvairado e teve um acesso de raiva porque havia falatrio por toda a cidade e porque eu era muito velha para me meter naquelas confuses.
Mas ele nunca disse uma nica palavra sobre isso ao Fred.
Por essa altura ficou pronto o quarto do Gus. A Celeste j estava farta de ele trazer porcaria para dentro de casa e de andar a subir e a descer as escadas para
o sto, por isso tinha usado as poupanas que tinha, em segredo, para contratar carpinteiros para lhe construrem um anexo  casa. Tinha uma porta de entrada do
lado de trs e uma outra porta que dava para a cozinha. Tinha-o mandado construir com bastante espao, para poder pr l a cadeira reclinvel do Gus, assim como
o seu armrio cheio de papis importantes e uma mesa com um candeeiro e um suporte para todas as suas armas. Quando terminou, no ficou um nico vestgio do Gus
no resto da casa.
O Gus pareceu ficar contente com o seu novo quarto. E eu tive de voltar a mudar-me para o meu sto particular, por isso tambm fiquei contente. E todos ns respirmos
de alvio com o Gus separado de todos ns. O Fred achava que a Celeste estava a agir mal, ao pr o marido fora de casa daquela maneira. Ele ainda tinha o Gus em
elevada considerao, tal como tinha toda a comunidade. Achavam que o Gus era um agricultor de primeira classe e um bom chefe de famlia e um membro de confiana
da igreja.
Ainda me lembro do olhar de surpresa na cara do Fred, quando teve a primeira demonstrao do Gus autntico. Foi num sbado  noite. O Fred veio buscar-me depois
do jantar, como de costume, amos sair para ir comer uma fatia de tarte e tomar um caf para l das duas prximas cidades e para irmos ver um filme cmico que estvamos
ambos ansiosos por ver.
Dei um beijo de despedida aos rapazes e o Fred brincou um pouco com eles. Depois samos pelas traseiras e o Fred abriu a porta do carro para eu entrar. Subitamente,
o Gus saiu pela porta fora como um louco a praguejar contra ns e a levantar o punho.
Eu sei bem o que vocs os dois andam a fazer! gritava ele. Eu sei bem as coisas indecentes que vocs vo fazer
O Fred apressou-me a entrar para o carro e partimos sem dizer uma palavra um ao outro. Por fim eu disse, Agora j compreende por que  que a Celeste mandou construir
um quarto s para ele.
O Fred fez um aceno com a cabea mas no quis adiantar mais conversa sobre o assunto.
Oh... Eu estava fascinada pelo Fred. Ele no me fazia ficar de olhos incrdulos como o meu noivo, quando era mais nova, mas era do gnero sensato. A sua companhia
era agradvel e era simptico para com os seus animais e os filhos. E podia dar-me o que eu nunca tinha tido antes... uma vida prpria. Mesmo que fosse o que sobrara
de outra mulher, como a Celeste estava sempre a lembrar-me. Eu sabia que o Fred ia acabar por me pedir em casamento desde que lhe desse tempo para isso, e o meu
receio era que o Gus pudesse afast-lo e dar cabo daquela minha oportunidade.
Comecei a pensar em fazer as coisas de maneira mais discreta. Procurando encontrar-me com o Fred ao fundo do caminho ou pedindo  Celeste para me levar no carro
a algum stio, para me encontrar com ele. Tudo o que me era possvel para o manter afastado do Gus.
Mas o Gus sabia o que eu andava a fazer. Fazia comentrios desagradveis sobre as novas maneiras de eu arranjar o cabelo e sobre os novos vestidos que eu mandava
fazer, para usar quando saa com o Fred. E todas as vezes que me apanhava a sair discretamente de casa, agarrava-me e esfregava as suas mos sujas na minha cara
e no meu vestido ou tirava-me os ganchos do cabelo... tudo o que podia, para fazer com que eu ficasse de mau aspecto para o meu encontro com o Fred.
Insisti com o Fred para que me deixasse ao fundo do nosso caminho quando voltvamos  noite. Dava-me um beijo com toda a dignidade, como se estivssemos junto da
caixa do correio, depois ficava a observar-me enquanto eu caminhava at  porta e s depois  que arrancava e ia embora. A porta da frente estava muito bem fechada
para impedir as pessoas de passarem pela sala de estar, por isso tinha de dar a volta pelas traseiras e entrar pela cozinha. Eu entrava o mais silenciosamente que
podia, mas o Gus habituou-se a ficar  minha escuta e no preciso momento em que ouvia as tbuas do cho a ranger, irrompia daquele quarto que era dele.
Aquele homem disse-me coisas horrveis. E dizia-as em voz alta, portanto sei que a Celeste e os rapazes tambm as ouviram, embora ningum falasse nunca daquilo.
Acusava-me de ser uma prostituta e de andar a desencaminhar o Fred para o pecado. Depois de conseguir escapar dele e de subir para o meu quarto, ficava a tremer
que nem uma folha. Arrastava-me para debaixo dos cobertores e pedia a Deus de todo o corao que Fred Kunstler me propusesse casamento. E depois acalmava-me a imaginar
como seria quando fosse senhora da minha prpria casa.
O Fred esteve quase a propor-me casamento. Meu Deus, foi mesmo por um triz. Andou a rodear a questo durante semanas e eu sabia que estava quase para avanar. Fiquei
to nervosa que mal conseguia comer.
O que se passa contigo, Milly? perguntou-me a Celeste  mesa de jantar. No consegues comer? Ests com o nervosismo de quem sofre por amor?
Eu detestava que ela dissesse aquilo em frente do Gus e dei-lhe um pontap com fora por baixo da mesa, mas em vez de se calar, ainda disse, Uauuu, ests muito
susceptvel, heim? Ele deve estar quase a disparar a pergunta fatal.
O Gus no disse nada, mas saiu sem acabar de comer a comida que tinha no prato.
Naquela noite, quando entrei silenciosamente em casa, a minha cabea andava nas nuvens como um papagaio. O Fred tinha-me perguntado se podia ir a casa dele dentro
de duas semanas, para um grande jantar de famlia. Todos os seus filhos e as famlias deles iam estar presentes. Eu sabia o que aquilo significava. O Fred estava
a reunir a famlia para fazer uma declarao formal.
Consegui entrar pela cozinha sem que o Gus saltasse da porta do seu quarto, e eu tinha a impresso de estar a deslizar com a leveza de uma nuvem, enquanto subia
as escadas estreitas de acesso ao sto. A percepo de que o Gus estava mesmo atrs de mim e a presso do seu brao no meu pescoo surgiu to repentinamente que
no tive tempo de fazer absolutamente nada. Ele levantou-me do cho e aquele brao comprimiu-me a garganta de tal maneira que no conseguia respirar e via tudo a
girar  minha volta.
Imediatamente a seguir, senti que estava na minha cama com o vestido puxado para cima e ele estava a puxar as minhas cuecas. Eu ainda estava com tonturas mas tentei
sentar-me. Ele deu-me um empurro para baixo e ps-me uma almofada na cara e carregou com fora. Consegui virar a cabea para o lado para poder respirar e ento...
Bem, no me apetece contar o resto. Eu tinha-me mantido casta at quele momento da minha vida, mas a partir de ento deixei de ser pura.
Depois de ele ter ido embora, fiquei quietinha durante muito tempo. Depois desci as escadas e vomitei. Lembro-me de estar ajoelhada em frente da sanita durante muito
tempo, at que por fim comecei a perguntar-me o que estava a fazer ali. Ento lembrei-me e fiquei outra vez enjoada.
Fiquei mesmo assustada ao pensar que havia apenas uma parede entre mim e ele e saber que ele podia voltar de novo atrs de mim. Os meus joelhos ficaram rgidos de
estar to comprimidos contra aquele cho de mosaicos e quando me levantei e tentei caminhar senti-me dolorida nas minhas partes ntimas.
Fui para o quarto da Celeste e sentei-me na cama dela e comecei a chorar. Ela estendeu a mo para acender a luz e eu disse-lhe que no o fizesse. No queria que
ela olhasse para mim. Ela ouviu o que o Gus me tinha feito, depois disse-me que me deitasse ao lado dela e comeou a dar-me palmadinhas, como se faz a uma criana
indisposta.
Vamos dar-te um banho quente, disse ela, com lixvia. E podes usar o meu duche para te limpares por dentro. Depois tiramos os lenis da tua cama e fervemo-los.
Mas o que  que eu hei-de fazer? perguntei-lhe. Achas que chame a polcia?
Se fizeres isso, disse ela, o mais provvel  que ningum acredite em ti. Pelo menos no vo acreditar que foi o Gus. E isso vai dar origem a um escndalo. E
Fred Kunstler nunca vai casar contigo.
Comecei de novo a chorar.
Agora fica caladinha, disse a Celeste. J acabou. Pagaste a tua quota parte, tal como todos ns, mas j acabou. Agora vamos proceder  tua limpeza. E tu hs-de
casar com o Fred e vais ter uma casa s tua.
Tomei o meu banho e passei ali o resto da noite, segura e limpa, ao lado da minha irm.
No se notou qualquer alterao no comportamento do Gus no dia seguinte e eu consegui ultrapassar aquela situao. Depois passou mais um dia. E mais outro. E aquela
terrvel noite foi ficando cada vez mais distante na minha mente, at eu ter a impresso que no passava de um sonho.
Correu a notcia na cidade que toda a famlia do Fred ia chegar dali a pouco. Na quinta-feira telefonou uma mulher a perguntar  Celeste se o Fred e eu amos fazer
uma declarao pblica no fim de semana. E algum deve ter dito ao Gus.
Porque quando ele subiu ao meu quarto a altas horas naquela noite, disse que ia arranjar as coisas de maneira que o Fred no quisesse apresentar-me  sua famlia
no Sbado seguinte. Conseguiu o que pretendia de mim; em seguida bateu-me na cara mesmo com fora. Eu fiquei ali de p, at ter a certeza de que ele tinha voltado
para o seu quarto e depois desci as escadas e fui direita ao telefone. Marquei o nmero do Fred e pus-me a chorar e a pedir-lhe que viesse buscar-me. Que me levasse
de casa do Gus de uma vez por todas.
A Celeste ouviu-me ao telefone e saiu do quarto vestida de roupo, quando eu estava a pousar o telefone.
O que  que tu fizeste? perguntou ela.
O que  que eu fiz? naquele momento fiquei histrica e comecei a gritar que no tinha feito nada. E os rapazes vieram a espreitar  porta do quarto.
Tu ests maluca disse a Celeste; depois voltou-se e gritou para os rapazes para que fechassem a porta e voltassem para a cama. Apesar de todo aquele barulho, o Gus
no apareceu. Ficou ali no seu quarto. Seguro e confortvel.
O Fred no demorou a chegar com a camisa mal abotoada e com o cabelo levantado. Entrou por ali dentro sem bater  porta. Quando me viu parou abruptamente. Eu ainda
no tinha olhado para o espelho, por isso no sabia quo horrvel estava o meu aspecto.
Por favor, Fred roguei-lhe. Por favor, leva-me para a tua casa. Fao tudo o que quiseres. Vou ser para ti a melhor esposa que um homem pode ter, mas leva-me neste
instante, por favor.
A ma de Ado do Fred mexeu-se vrias vezes para cima e para baixo e depois disse, Por que  que tu e o Gus estais a brigar?
No estvamos a brigar! Ele atacou-me, Fred. Foi l acima ao meu quarto enquanto estava a dormir e... atacou-me. Tens de me levar daqui para fora. Se te interessas
mesmo por mim...
Ele... O Fred ps a mo na boca como se quisesse evitar dizer as palavras. Depois tirou a mo e disse, Tu e o Gus tiveram relaes sexuais?
Aquela pergunta acalmou imediatamente a minha histeria e fez-me ficar subitamente muito envergonhada. No consegui voltar a olhar para o Fred. Eu no chamaria quilo
relaes disse eu; depois comecei a dizer que amava muito o Fred e que ia ser uma boa esposa para ele.
E ele disse jamais esquecerei o que ele disse Fred Kunstler olhou para mim e disse, Eu pensava que esta era uma boa famlia, constituda por pessoas fortes e tementes
a Deus. Pensava que tu eras uma mulher fantstica, mas agora... Bolas! Isto faz-me pensar, Milly e saiu imediatamente daquela casa.
No dia seguinte a Celeste ouviu dizer que o Fred tinha subitamente fechado a casa e tinha ido fazer uma visita prolongada a um dos filhos.
#O Gus no voltou a incomodar-me. Mas tambm no voltei a dar-lhe mais oportunidades. Com a ajuda dos rapazes, pus um ferrolho e um cadeado do lado de dentro da
minha porta. A Celeste queixou-se, dizendo que se houvesse um fogo nunca conseguiriam tirar-me dali, mas isso no me preocupava. Comecei tambm a dormir com uma
faca de carniceiro por baixo da almofada.
Pouco tempo depois, atravs da minha correspondncia mensal com o meu antigo grupo da igreja de Arcdia, fiquei a saber que uma mulher invlida do grupo, a Lois,
tinha ficado viva e precisava de algum para lhe fazer companhia. Escrevi-lhe uma carta e finalmente fui-me embora da casa de Gus Hanselmann. Jurei que nunca mais
voltaria a pr ali os ps.
Os rapazes ficaram inconsolveis com a minha partida e eu estava com o corao despedaado por ter de partir e de me separar deles. Mas tinha de ir. Mesmo apesar
de ter pena deles, no podia continuar ali. Naquela altura eles j tinham treze anos e acho que compreenderam.
Escreviam-me regularmente. Todas as semanas recebia uma carta. Falavam-me da escola e dos seus passatempos mais recentes. s vezes mencionavam a me, mas nunca escreveram
uma nica palavra sobre o pai. Algumas vezes, durante as frias do vero, foram de autocarro visitar-me.
A Celeste tambm me escrevia, se bem que no fosse com regularidade. Ento, quando os rapazes tinham mais ou menos dezasseis anos, escreveu-me a dizer que tinha
um grande caroo no seio e que o mdico achava que era demasiado tarde para se poder salvar.
Ento voltei. O que o Gus me tinha feito passar e o que eu tinha ficado a saber enquanto tomava conta da minha amiga invlida, tinha-me transformado completamente
e no tinha medo de voltar l. Estava disposta a enfrentar Gus Hanselmann e a meter-lhe uma bala no corpo se fosse necessrio! Portanto fiz os preparativos necessrios
para que algum ficasse a tomar conta da minha amiga e parti no autocarro, para ir para junto da minha irm. Cuidei dela durante os dois meses que levou a morrer.
Perguntei-lhe por que tinha deixado que aquele caroo ficasse to grande e ela disse que no tinha reparado que o tinha. Que ela no era com certeza o tipo de pessoa
que se tocasse sem uma toalha nas mos. O seu sofrimento fez-me questionar um certo nmero de coisas... a minha f, para comear. Como podia estar certo que uma
mulher como a Celeste estivesse a ser castigada de uma forma to horrvel, enquanto que Gus Hanselmann era saudvel como um cavalo?
Os rapazes ficaram contentes por me ver. Tinham crescido e tinham-se transformado em indivduos grandes e robustos e o meu corao quase explodia quando os vi. O
Benjamin era grande como um boi mas ainda tinha aquela cara redonda e meiga. O Abe era to alto como o irmo, mas com uma constituio mais parecida com a de um
cavalo de corrida, e tinha desenvolvido o tipo de rosto que despertava a ateno das raparigas.
Durante todo aquele tempo nunca falei com Gus Hanselmann, nem olhei para a sua cara. Ele comia a comida que eu lhe fazia, mas levava-a para o seu quarto para a comer
e nunca passava da cozinha para o resto da casa.
Acho que ele se comportava daquela maneira porque sabia que ia ficar em apuros, se eu fizesse as minhas malas e deixasse a Celeste para ele cuidar dela. Aquele seu
comportamento to correcto nunca podia ter sido por presso dos rapazes, porque eles ainda se sentiam intimidados por ele. Apesar de o Benjamin ser um grandalho,
o rapaz tremia dentro das botas quando o pai gritava qualquer coisa.
No posso deixar de referir que aqueles dois meses foram um inferno. Mas tambm houve um lado bom. Os rapazes e eu tivemos a oportunidade de voltar a ser amigos
ntimos.  noite, depois de ter dado os remdios  Celeste e de a ter posto a dormir, sentvamo-nos todos juntos na sala de estar. A Celeste tinha mandado pr l
um fogo a lenha, depois de eu ter ido embora, o que tornava a sala muito mais confortvel nas noites de inverno.
Sentvamo-nos e conversvamos enquanto observvamos o fogo a dar estalos, e foi ali que consegui ver os homens em que aqueles rapazes estavam a transformar-se.
O Benjamin e o Abe. Meus pobres rapazinhos.
O Benjamin era calmo e forte. Forte nas suas opinies e forte na sua lealdade. Podia ser irritadio e ofender-se com facilidade, mas era a bondade em pessoa para
com o irmo e comigo.
O Abe era to afvel, felizmente para ele. E tinha ficado to bonito, felizmente para ele. Tinha passado de marginal para um rapaz muito pretendido pelas raparigas,
e o problema dele era que no sabia o que fazer com isso. Ficava facilmente confuso e no tinha confiana em si prprio, por isso recorria ao irmo para o orientar
em quase tudo.
Quanto a capacidades artsticas... Ambos os rapazes sabiam fazer coisas naquela altura. Pequenas esculturas e coisas assim. Mas era o Benja-min que tinha as ideias.
Andava sempre a falar com o Abe de algum rapaz do campo que tinha sucesso como artista. O Abe seguia a proposta do Benjamin, fazendo escultura se o Benjamim lhe
dissesse para esculpir, mas no tinha aquelas ideias que o Benjamin tinha. O mais engraado, no entanto, era que o Benjamin era capaz de trabalhar e suar para conseguir
fazer alguma esttua maluca com colagens ou coisas do gnero e depois o Abe punha-se a trabalhar, como que para se distrair, e fazia uma melhor em metade do tempo.
Aquilo punha o Benjamin furioso.
E claro que era tudo em grande segredo. Os rapazes do campo tinham de ter muito cuidado com o seu interesse por uma coisa como a arte, se no queriam que toda a
gente das redondezas se risse deles. Fazer desenhos em couro e recort-los estava muito bem e soldar um porto com habilidade e fantasia era ptimo e fazer um desenho
bonito a lpis da mula do vizinho era ptimo... mas a arte... a arte da grande cidade... isso era para os maricas e para os excntricos. Eu era a nica pessoa com
quem eles partilhavam esse segredo.
Sepultmos a Celeste no cemitrio da cidade de Ridley. Houve uma bonita cerimnia religiosa na igreja, outra no local da sepultura, e depois seguiu-se uma ceia de
bufete na cave da igreja. Fred Kunstler no esteve l. A julgar pela grande assistncia e pelas condolncias expressas ao Gus, o Fred nunca tinha contado a ningum
nada do que sabia sobre o Gus. Ou era isso ou ento
as pessoas achavam que o Gus era de qualquer maneira um prncipe. Tudo aquilo enojou-me, ao ver como toda a gente apaparicava o Gus como se fosse um pobre vivo
desolado, quando a verdade era que a nica coisa de que ele ia sentir falta da minha irm, eram as refeies quentes e a roupa lavada.
Fui-me embora um dia depois do funeral. Os rapazes foram comigo at  estao dos autocarros.
Recomemos a escrever cartas uns aos outros e as coisas estavam a correr bem aos rapazes. Pelo menos era o que transparecia do que escreviam nas suas cartas.
O Abe fez dezoito anos e o Benjamim estava quase a faz-los. Mandei ao Abe um carto de felicitaes e um pequeno presente. E j tinha tambm um pronto para mandar
ao Benjamin e at j tinha feito as compras para o dia da sua formatura na escola, que era dali a uns meses. Resolvi comprar-lhes umas malas. Umas malas bonitas
com as suas iniciais nas pegas. E estava a pensar em pr um bilhete em cada uma delas, com uma nota sobre como esperava que eles viessem a us-las, para verem o
mundo mais do que eu alguma vez tinha visto.
Quando inesperadamente um dia apareceu-me l o Abe de carro. Foi no antigo carro da Celeste e estava mesmo muito plido, mas com a cara cheia de manchas.
Isso  sangue? Magoaste-te, filho? perguntei-lhe eu.
 por causa do Benjamin. Acho que o Gus  capaz de o ter morto, tia Milly.
Bem, obriguei-o a sentar-se ao meu lado e arranquei-lhe toda a histria e isto foi o que ele me contou. Disse que o Gus ficou muito assustado com a morte da Celeste,
preocupado com o que poderia acontecer quele rolo de filme e  carta que tinha o advogado. Por fim resolveu ir ao escritrio do advogado e fazer-lhe algumas perguntas
e quando voltou, vinha todo inchado e a gabar-se que agora sabia coisas que a Celeste nunca soubera e que j tinha uma maneira de se ver livre daquele filme para
sempre e voltar a mudar o testamento a favor do Benjamin e deserdar o Abe.
O Abe no sabia qual era o grande plano, mas era qualquer coisa que implicava a colaborao do Benjamin para dar resultado. E o Benjamin no estava disposto a colaborar.
O Benjamin continuava a dizer que o Abe era seu irmo e que em nome de Deus merecia metade daquela fazenda.
O Gus foi at onde podia, para o convencer a mudar o testamento. Para no falar do facto de o Abe ser um bastardo, de tal maneira que queria dar a ideia de que aquilo
era uma espcie de guerra entre ele e a Celeste, que estava decidido finalmente a ganhar.
Tudo aquilo rebentou no dia em que eles saram juntos de manh cedo na pick-up do Gus e se dirigiram para o sector nmero quarenta, para ir verificar a vedao de
arame, porque o gado do vizinho tinha dado cabo dela durante a noite. O Abe comeou a caminhar ao longo da vedao e o Gus comeou a meter-se com o Benjamim, dizendo-lhe
que um dia tudo aquilo ia ser dele, se tivesse o bom senso de fazer o que estava certo e de ajudar o Gus a pr o testamento como devia ser.
O Benjamin no ligou ao que o pai dizia e limitou-se a abrir a porta de trs da pick-up para tirar a mala da ferramenta e o Gus estava a ficar cada vez mais exaltado
e comeou a gritar com ele. E de repente o Benjamin respondeu-lhe tambm aos gritos. Virou-se para ele e disse-lhe, Quem disse que eu queria a sua maldita fazenda?
|
A o Gus explodiu. O Gus atirou-se contra o Benjamin. Deu-lhe murros | e pontaps e bateu com a cabea do Benjamin na comporta de descarga. E o Benjamin nunca ripostou
sequer. Procurou apenas proteger-se. E enquanto estava a ser espancado, o Benjamin gritava, Foge Abe! e o Abe fugiu. Correu durante todo o caminho at chegar a
casa e chamou os agentes da lei. Disse-lhes que viessem depressa porque Benjamin Hanselmann estava a ser assassinado.
Depois pegou numa espingarda de casa e saltou para o carro velho e conduziu-o at se aproximar o mais que podia do lugar onde eles se encontravam. Conseguiu v-los.
O Benjamin jazendo no cho e o Gus de p em cima dele, como se fosse uma esttua. Pegou na espingarda e correu pelo campo. O Benjamin estava num estado lastimvel.
Coberto de sangue e sem se mexer.
O Abe deixou cair a espingarda e ajoelhou-se ao lado do Benjamin, que estava a respirar com dificuldade e inconsciente, e o Abe pegou na cabea do irmo e gritou
para o Gus para que se fosse embora antes que o matasse. Naquele momento chegou o velho Vem. Era o representante da lei.
Chame uma ambulncia! gritou o Abe e o Vem disse que j vinha uma ambulncia a caminho e ento o Vem perguntou o que se tinha passado ali e o Abe apontou para
o Gus e disse, Esse miservel filho da me tentou matar o prprio filho. Meta-o na priso. Est mais louco do que um co raivoso.
E o Abe deu um salto e correu para o carro da Celeste. E percorreu todo o caminho para vir ter comigo a Arcdia, sem nunca parar a no ser para meter gasolina.
Acalmei-o o melhor que pude. Depois peguei no telefone e telefonei para o hospital, para onde calculei que tivessem levado o Benjamin. A mulher que me atendeu na
sala de emergncias disse-me que tinham uma pessoa chamada Benjamin Hanselmann na sala de operaes.
Dei a notcia ao Abe e ele baixou a cabea em cima da minha mesa e ps-se a chorar como um beb. Fui buscar-lhe um cobertor para o envolver e a minha amiga invlida
veio na sua cadeira de rodas sentar-se ao p dele enquanto lhe lavei a roupa e arranjei umas coisas para ele levar.
 melhor ficares aqui, disse-lhe eu, enquanto vou ver como est o teu irmo e esclarecer o velho Vem sobre quem fez o qu e a quem.
Telefonei a uma das senhoras da igreja para vir tomar conta das minhas tarefas domsticas, subi para o carro da Celeste e dirigimo-nos para oeste para a estrada
nmero 54. Era a primeira vez que eu ia a conduzir sozinha uma distncia to grande, mas calculei que no haveria nenhum problema com isso.
Levei cinco horas. Mas o tempo passou depressa com toda aquela preocupao e esperana. No parava de pensar que, se eu fosse a Celeste, teria matado o Gus Hanselmann
pouco depois de o mdico me ter dado a notcia de que ia morrer de cancro.
Eram cerca das oito horas da noite quando cheguei ao hospital. Encontrei o quarto do Benjamin. Dizia na porta que no eram permitidas visitas, mas mesmo assim entrei.
Estava cheio de ligaduras e engessado e tinha a cabea toda envolvida como se fosse uma mmia e com tubos por todo o lado.
Peguei-lhe na mo, que era a nica parte do seu corpo que parecia no estar magoada e ele mexeu-se um bocadinho, por isso debrucei-me sobre ele e sussurrei-lhe que
era eu e que o Abe estava em minha casa e que j me tinha contado toda a histria. Disse-lhe que havia de ir v-lo em breve, depois de ir falar com o Vem para esclarecer
tudo. Aquilo pareceu faz-lo soluar um pouco e apertou-me a mo com uma fora muito fraquinha e pareceu-me que ele queria dizer-me alguma coisa, por isso pus o
meu ouvido mesmo junto da boca dele, mas no consegui ouvir nada.
No consigo ouvir-te, filho, disse eu. Por que no descansas enquanto eu fico aqui sentada ao p de ti. Posso ficar aqui toda a noite, se quiseres.
Mas ele parecia estar transtornado, mexendo um pouco a cabea, como se estivesse a aban-la, ento pus novamente o meu ouvido junto da boca dele e disse-lhe que
tentasse falar muito devagarinho. E ele disse, Mantenha... o Abe... afastado. Em segurana.
Falei com uma enfermeira. Fiquei a saber que o Benjamin tinha uma fractura no crnio e um maxilar partido e um brao partido e o bao rebentado... para alm de um
grande nmero de pontos. Ela disse que no princpio aquilo parecia muito grave, mas que os mdicos estavam satisfeitos com a sua evoluo e que ele ia conseguir
safar-se desta.
Telefonei para casa e contei tudo ao Abe. Disse-lhe que o Benjamin queria que ele ficasse onde estava, onde o Gus no lhe pudesse chegar. Disse-lhe que o irmo ia
levar muito tempo at ficar completamente curado.
Durante uma semana fiquei ali sentada ao lado do Benjamin todos os dias. O Gus passava por l uma vez por dia. Quando ele entrava, eu saa do quarto sem lhe dizer
nada. Falei com o velho Vem. No acreditou em mim quando lhe disse que o culpado daquilo era o Gus. O nobre Gus. Disse que tinha de esperar at que o Benjamin pudesse
contar o que se tinha passado.
Estavam sempre a chegar cartas do Abe. A maior parte delas eram para eu ler ao Benjamin. Mas eu no lhas lia porque receava que pudessem perturbar demasiado o Benjamim.
Cada vez que a enfermeira me trazia uma, eu escondia-a ou fazia previamente uma leitura rpida e depois s lhe lia determinadas partes. Porque havia muita confuso
no que ele escrevia. O Abe sentia-se horrivelmente culpado por no ter salvo o irmo do Gus e sentia-se culpado por no estar ali ao lado da cama do Benjamin. Eu
respondia-lhe e procurava acalm-lo, mas no me parece que aquilo desse grande resultado.
Finalmente, passadas cerca de duas semanas, quando o Benjamin j se sentia muito melhor, chegou uma carta a dizer que o Abe tinha ido para o servio militar. Dizia
que aquilo devia ser a melhor soluo para todos, que ele se afastasse durante uns tempos, e achava que talvez o exrcito lhe instigasse alguma coragem. Disse que
em breve voltaria a escrever.
O Benjamin ficou desolado quando soube o que se passava com o irmo, mas por outro lado sentiu-se aliviado por saber que o Gus agora no
podia tocar-lhe. Disse-me que ele e o Abe j antes tinham falado em fugir e em ir para a tropa. Tal como tinha feito o seu amigo Luke. E no fiquei surpreendida
ao saber que aquilo tinha sido em primeiro lugar ideia do Benjamin, porque no me parecia que o Abe pudesse ter feito alguma coisa sem que o irmo a tivesse pensado
primeiro.
O Benjamin curou-se bastante depressa, se tivermos em considerao as coisas por que tinha passado. Quando o velho Vem veio falar com ele, estava muito pensativo.
Perguntou ao velho Vem se podia contar que o Gus fosse metido na priso no caso de apresentar queixa dele por agresso. O velho Vem disse que, uma vez que se tratava
de uma primeira transgresso e tinha acontecido durante uma discusso familiar e o Gus era um excelente membro da comunidade e uma pessoa honesta, provavelmente
no aconteceria nada ao Gus.
O Benjamin pensou naquilo e disse que no lhe parecia que uma briga domstica devesse ser demasiado empolada. E que ele tinha tropeado e tinha batido com a cabea
na comporta de descarga. E que a briga tinha de facto sido por culpa dele. O velho Vem fez um aceno com a cabea e disse que por ele estava bem assim e toda aquela
questo ficou em suspenso.
Fiquei furiosa como um moscardo, mas eu sabia por que o Benjamin tinha feito aquilo ainda antes de ele se justificar. Se ele pudesse ter posto o Gus completamente
fora de jogo, isso seria uma coisa, mas falar contra o Gus e depois ele ficar em liberdade seria estpido e perigoso.
O Benjamin voltou para casa do hospital com o maxilar todo ligado com arames e com o brao engessado e uma grande quantidade de novas cicatrizes. Pouco depois de
ver que ele j conseguia desenrascar-se, fui-me embora. Mas primeiro fui ter com o Gus Hanselmann e disse-lhe que no queria saber do que o advogado o tinha levado
a acreditar. Ainda sabia o que estava no envelope da Celeste. Sabia o que tinha visto e sabia o que conseguia provar quem ele era. E se voltasse a pr a mo no Benjamin,
ento iria contar ao velho Vem e ao pastor tudo o que tinha acontecido e dava-lhes aquele filme.
Depois de me ter ido embora, o Benjamin escreveu-me cartas em que transparecia que o Gus estava a trat-lo melhor do que nunca. Claro que o Gus tinha montes de razes
para se sentir feliz. Finalmente tinha-se visto livre do Abe e tinha conseguido que o Benjamin lhe ficasse submisso.
O Benjamin disse que, apesar de tudo, o Gus tinha conseguido mudar o testamento, mas o Benjamin disse-me que no me preocupasse, porque logo que herdasse a propriedade,
ia de qualquer modo dar metade ao Abe. A escola secundria permitiu que o Benjamin recebesse o diploma e eu mandei-lhe a sua mala. O Abe escreveu a dizer que o exrcito
tinha arranjado maneira de ele obter o seu diploma, por isso mandei-lhe tambm a mala dele. Porm no tive qualquer alegria naquela oferta, apenas preocupao com
aqueles dois rapazes.
O Abe escreveu-me a dizer que a vida militar era fabulosa. Disse que o trabalho no era nada que se parecesse com o que era viver com o Gus e com os seus abusos.
Estava muito entusiasmado, ao pensar que se ia encontrar com o Luke e ansioso por que o mandassem para o Vietname, porque as cartas
do Luke tinham feito o Vietname parecer-lhe muito extico. E pareceu-me que o entusiasmo do Abe estava a influenciar o Benjamin, porque o Benjamin comeou a escrever-me,
dizendo que ia juntar-se com o irmo no exrcito logo que ficasse completamente curado.
Mas depois de ter ido para o Vietname, a disposio de Abe modificou-se. Passou a dizer que o Benjamin, se pudesse, no devia ir para o servio militar. Que devia
informar-se sobre os adiamentos por causa da agricultura ou outras formas, pois o Vietname era horrvel. Disse que o Luke no tinha contado a verdade quando escrevia
para casa. Depois mandou dizer que no podia continuar a escrever-nos mais cartas nem receb-las, porque tinha sido escolhido para cumprir misses ultra-secretas
e ia passar a agir como se fosse clandestino.
No sabia o que iria acontecer a seguir. Parecia-me que tinha passado o meu tempo todo a preocupar-me que um dos rapazes fosse alvejado do outro lado do mundo e
que o outro rapaz estivesse  merc de um luntico mesmo ali em sua casa.
Ento, um dia... num dia normal, sem qualquer aviso, nem pancadas arrepiantes que acontecessem repentinamente, nem nada que assinalasse alguma mudana, o telefone
tocou. Eu estava a passar a ferro toalhas de ch e levantei o receptor como que casualmente, pensando que fosse uma vizinha. Era o Benjamin. Estava a telefonar do
hospital onde tinham acabado de declarar Gus Hanselmann como morto. Assim, sem mais nem menos, estvamos livres. Ou pelo menos assim nos pareceu naquela altura.
Mais depressa do que algum pudesse imaginar, o Gus tinha estado no barraco do equipamento, a arrastar qualquer coisa com uma corrente atrs do tractor. A corrente
partiu-se e saltou, batendo no Gus e atirando-o para fora do assento. Depois o tractor descontrolado esmagou-o contra a parede do barraco. Na altura em que o Benjamin
o encontrou j estava morto, devido a leses internas.
Meti-me logo no autocarro e fui para junto do Benjamin o mais depressa possvel. Fomos juntos escolher o caixo e fizemos todos os preparativos para o funeral.
Ele precisava de mim ao seu lado para ultrapassar aquela situao, porque eu era a nica pessoa que compreendia que ele no estivesse de luto pelo falecimento do
pai. Que no houvesse sofrimento.
Claro que logo que pudemos, telefonmos para o servio militar, para que o Abe pudesse ser notificado. At tnhamos esperana de que o Abe conseguisse vir a casa
para assistir ao funeral. Dois dias depois soubemos que o Abe no pde ser informado da morte do pai porque o Abe estava desaparecido.
O Benjamin ento no aguentou mais. Ajoelhou-se e ps-se a rezar. A pedir a Deus que lhe perdoasse e que no transferisse os seus pecados para o Abe. Suplicando
para que o Abe estivesse bem.
E ento confessou a verdade.
O acidente aconteceu de facto como ele me tinha dito. S que ele tinha acabado de chegar ao ptio na pick-up e presenciou o acontecimento. Viu o
Gus a ser atirado contra a parede. Correu para ir ajud-lo, e o Gus, esmagado contra a parede como estava, gritou-lhe, Mexe-me esse rabo e vem j aqui, rapaz!
E o Benjamin disse que aquilo simplesmente o fez parar. Voltou as costas e meteu-se na pick-up e pensou em ir dar uma volta e foi isso que fez. Duas horas depois,
quando voltou ao ptio, o pai j estava morto.
E agora estava com medo que Deus tivesse levado o Abe para o castigar.
E o que podia eu dizer-lhe perante aquilo? Que talvez o Gus tivesse morrido de qualquer maneira, mesmo que tivesse sido imediatamente transportado para o hospital.
Mas naquela altura no pensava assim. Eu achava que tinha sido um homicdio. E sabia que o Benjamin estava convencido de que tinha cometido um homicdio.
Tens uma ndoa na tua alma que nunca vai desaparecer, disse-lhe eu. Toda esta famlia ficou contaminada. O corao do teu pai era negro como breu e os seus pecados
corromperam-nos a todos. A tua me passou a vida a tentar retirar a mancha, mas no conseguiu. E Deus levou-a e agora pode ter levado tambm o Abe.
Est a ver que eu estava to afundada na minha prpria culpa e nos meus tormentos, que no vi o que as minhas palavras podiam fazer ao Benjamin. Devia ter tido mais
cuidado com ele. Devia t-lo protegido em vez de lhe esfregar sal nas feridas.
Ouvi-o durante toda a noite a andar pela casa, mas no sa para ir ter com ele. Achei que tinha tempo. Pensei que no dia seguinte comearamos juntos a cuidar das
feridas.
Quando me levantei na manh seguinte, ele tinha sado com a pick-up. Fiz o pequeno almoo, pensando que ele podia chegar a qualquer momento. Depois, ao meio-dia,
fiz o almoo, pensando que ele viria com certeza almoar. Por volta das duas horas, recebi uma chamada do banqueiro na cidade. Disse que tinha uma carta para mim
do Benjamin e que tambm queria explicar-me umas coisas.
Meti-me no carro da Celeste e fui ter com ele. O banqueiro disse-me que tinha estado toda a manh reunido com ele e com o advogado por causa da propriedade. O Benjamin
tinha preparado as coisas de maneira que, logo que ficasse resolvida a questo da propriedade, eu teria algum dinheiro para fazer o que me apetecesse. O banqueiro
deu-me um carto com o seu nome e o nmero de telefone. Depois entregou-me a carta do Benjamin.
Na primeira parte dava-me mais pormenores sobre o que o banqueiro j me tinha dito. O Benjamin ia vender a quinta, com tudo o que l existia. Com a excepo da pick-up,
que ficava para ele, e do carro, que era para mim. Quanto aos bens da casa, disse-me que me servisse do que quisesse e pediu-me, por favor, que levasse algumas coisas
e as guardasse para o Abe... tudo o que eu achasse que ele devia gostar de ter. Disse-me que no fosse modesta a levar coisas, pois tudo o resto ia ser vendido em
hasta pblica e portanto esta era a minha nica oportunidade; depois continuou a explicar como podia transportar as coisas ou armazen-las se eu quisesse.
#Memorizei a segunda parte da carta. Li-a tantas vezes que conseguia recit-la como se fosse um poema da escola primria.
Pensei durante toda a noite no que me disseste, Tia Milly. Parece-me que  verdade que Deus agora olha para mim como se eu fosse um assassino. Sou pior do que o
Gus alguma vez foi, pois agora tenho a mancha de sangue para sempre na minha alma. S consigo ver duas alternativas, que so, apontar uma arma  cabea, ou deixar
de ser quem sou e passar a ser outra pessoa. Uma vez que  possvel que o Abe ainda esteja vivo, vou continuar a viver e a acreditar que ainda me hei-de juntar a
ele. Acontea o que acontecer, hei-de lembrar-me sempre de ti com amor, mesmo que agora me vejas como o mesmo miservel que era o meu pai. Certificar-me-ei sempre
de que algum tome conta de ti e podes ter a certeza de que, se o Abe estiver vivo, hei-de encontr-lo e hei-de tambm tomar conta dele.
Adeus.
Do teu querido sobrinho,
Benjamin.
19
Milly Corwin fechou os olhos e ficou muito quieta durante algum tempo, de tal modo que Owen ficou preocupado que ela tivesse desmaiado.
Descanse um pouco, disse ele, sentindo-se ele prprio emocionalmente confrangido.
No, disse ela resolutamente. No quero parar enquanto no terminar. Quero que tudo isto fique definitivamente esclarecido.
Aclarou a garganta e recuperou o nimo para continuar.
A quinta foi vendida com toda a maquinaria por uma pechincha. E verificou-se que o Gus tambm tinha uma conta poupana de que ningum sabia. Mesmo depois de pagos
os impostos e outras despesas, o Benjamin ficou bem provido e podia comear uma nova vida, como queria.
Todos os meses me mandava ordens de pagamento. Vinham dentro de simples envelopes e nunca traziam a direco do remetente. A nica coisa que eu sabia era que eram
metidas no correio da cidade de Nova Iorque. E assim se passaram muitos anos. Ento recebi finalmente uma carta do Benjamin, dizendo que o Abe estava em casa em
segurana. Ao contrrio do pobre Luke, que nunca mais voltou. Disse que ele e o Abe tinham recomeado uma vida nova, que provavelmente me faria ficar de boca aberta
e que esperava que eu agora pudesse de vez em quando lembrar-me dele. Se ao menos eu pudesse responder-lhe, ter-lhe-ia dito o quanto lamentava e como tinha saudades
dele. Mas nunca me deu essa oportunidade.
As ordens de pagamento continuaram a chegar pontual e regularmente. Depois, um dia, sem mais nem menos, recebi uma chamada telefnica. Era o Abe. Estava a chorar
e o que dizia no fazia muito sentido. A dizer coisas como Porqu, Tia Milly? repetidas vezes e a dizer que estava muito arrependido. Procurei lev-lo a dizer-me
aonde queria chegar, mas ele respondeu-me que no sabia. Depois voltou a telefonar-me na semana seguinte e ento j parecia perfeitamente normal. Disse-me que tinha
sentido muito a minha falta e que ia falar com o Benjamin para nos encontrarmos todos. Disse-me que estava a pintar muitos quadros. Mas disse que no podia dar-me
a sua direco nem o nmero de telefone porque o Benjamin ia ficar furioso com ele se o fizesse. Supliquei-lhe que pedisse ao Benjamin para me telefonar.
#SEDUO CRIMINOSA 305
Na terceira vez que me telefonou estava novamente a chorar e disse-me que tinha feito coisas horrveis. Disse-me que tinha visto coisas que fariam Gus Hanselmann
parecer-se com um santo. Mas por fim acalmou-se e pareceu ficar quase satisfeito. Disse que tinha uma surpresa para mim.
E foi tudo quanto a chamadas. Nunca mais voltei a receber um telefonema dele, depois dessas trs chamadas. Depois recebi uma das ordens de pagamento acompanhada
de uma nota do Benjamin, pedindo desculpa pelos telefonemas do irmo. Dizia que esperava que o Abe no me tivesse aborrecido. Dizia que o Abe nem sempre era ele
prprio, mas que no me preocupasse porque o Benjamin estava a tomar bem conta dele.
Os anos passaram. Durante o ano de 1985 a minha senhora invlida morreu e eu fiquei sem casa e sem emprego. Aluguei um quarto numa penso e fui-me desenrascando.
Ento um dia chegaram uns papis que diziam que Benjamin Hanselmann tinha comprado uma quota na Golden Age Village para mim. Para comear quando eu quisesse. Mudei-me
para aqui e pouco depois recebi uma carta do Benjamin, dizendo que esperava que eu gostasse de Golden Age.
Dizia que eles viviam bem e eram felizes. E que ele tinha posto o passado para trs das costas, de tal maneira que j nem se lembrava de muitas coisas. Mas que havia
de se lembrar sempre de mim. Terminou a carta com a expresso de sentimentos de muito afecto e fez-me sentir um grande sofrimento pela sua falta. Fiquei to cheia
de remorsos e senti-me to culpada pelo que tinha acontecido no passado que no consegui levantar-me durante vrios dias.
A partir de ento, passou a escrever-me alguma coisa todos os meses, quando mandava a ordem de pagamento. Umas vezes dizia apenas Ol Tia Milly ou coisa parecida,
outras vezes mandava um bilhete. Uma vez disse-me que detestava os bancos e que os bancos trabalhavam em colaborao com o governo para nos controlar. Disse que
esperava que eu no guardasse o meu dinheiro num banco. Fiquei preocupada com isso porque j parecia o pai dele.
Houve ainda outras coisas que relacionei com o pai... coisas como... bem, um dia acautelou-me dos mdicos e dos dentistas. Disse que eram todos uns vigaristas insaciveis
e que inventavam a maior parte das doenas que as pessoas tinham para terem um motivo para lhes sacar dinheiro. Sobretudo quando sabiam que as pessoas tinham dinheiro.
Tambm me lembro de ele dizer que tinha chegado  concluso de que a maior parte das pessoas s queria aproveitar-se dele, mas ele sabia como lidar com essas pessoas
e sabia como proteger-se delas. Aquele tipo de conversa fazia-me abanar a cabea e preocupar-me pelo facto de ele se ter transformado num homem parecido com o pai.
Mas depois havia a sua bondade... Em que nunca havia hesitaes. E pensei que, enquanto tivesse aquela bondade no corao, nunca se transformaria num Gus Hanselmann.
Porm, a sua bondade estava sujeita a estranhas alteraes. Como aconteceu uma vez em que escreveu a dizer que estava satisfeito por saber que o meu pulso no se
tinha partido. Ora aquilo fez-me sentir arrepios durante vrios dias. Porque eu nunca conseguira escrever uma nica palavra quele
rapaz; ento como  que ele soube que eu tinha magoado o pulso e que era uma distenso muscular e que no estava partido? Comecei a fazer perguntas por a e cheguei
 concluso de que o Benjamin tinha andado a telefonar aos mdicos e ao director de Golden Age e a informar-se de mim desde que me tinha mudado para aqui. Fiquei
que nem um moscardo com aquilo.
A Tia Milly fez uma pausa, absorta em pensamentos por instantes.
Mais ou menos h um ano recebi inesperadamente uma carta do Abe. Estava muito bem escrita, bem organizada e com a pontuao adequada e a ortografia e tudo o mais.
Disse que se tinha separado temporariamente do irmo, mas que estava a ir bem e que estava a recomear a sua vida e que tencionava corrigir umas coisas com toda
a gente, incluindo eu. E que prometia vir ver-me em breve e reunir-nos a todos. O carimbo era do Canad.
Aquela carta encheu-me de esperana, mas os meses passaram sem que nada acontecesse. Depois deixaram de vir as ordens de pagamento do Benjamin. Sem mais nem menos
deixaram de vir. E deixou de haver chamadas para Golden Age a pedir informaes sobre mim. E eu disse para comigo, Milly Corwin, alguma coisa de terrvel aconteceu.
Camille Corwin soltou um profundo suspiro e bebeu um longo gole de ch. Parece-me que no meu corao soube logo que eles estavam mortos. E foi assim que tudo aconteceu.
Ouvia-se o som forte do tique-taque do relgio na parede. Do lado de fora das janelas o vento implacvel do Kansas fazia abanar as rvores de Golden Age.
Owen respirou fundo. No sabemos nada do Al quero dizer, do Abe... o adoptado, recordou-lhe ele. Pode ser que se encontre bem noutro stio qualquer, tal como disse
na sua ltima carta.
-me difcil agarrar-me a essa ideia, disse ela pesarosamente. No me parece que o rapaz conseguisse desenrascar-se sozinho. Sem o irmo, ele ficava sem saber o
que fazer.
Mas no sabemos, insistiu Owen. Pode ser que qualquer dia tenha notcias dele.
Gostava de acreditar nisso. A expresso dela mudou e podia ver-se-lhe nos olhos a dor que sentia. Se encontrar o Abe atravs de toda essa investigao... comunica-me,
no comunica?
Pode ter a certeza. Imediatamente. E se eu no puder trazer o Abe at si, hei-de arranjar maneira de levar a senhora at ele.  uma promessa.
Ela estendeu o brao para dar uma palmadinha na mo de Owen. Depois aclarou a garganta e recuperou a sua atitude formal.
Muito bem, siga em frente, jovem. Faa o seu trabalho. Coloque-me perguntas.
Owen procurou ordenar as ideias. Ora vejamos... Est bem, quando recebeu o telefonema de um deles... disse que era do Abe... e que ele falou em estar a pintar. Por
acaso no queria dizer que tinha sido o Benjamin que lhe tinha telefonado?
No. Foi mesmo o Abe. E agora, depois do que voc me disse, verifico que era o Abe que simulava estar a fazer o que o irmo fazia. Fingindo que estava a pintar quadros.
Aquele amigo deles, chamado Luke, que foi para o servio militar, no seria Luther Bachman, ou seria?
A surpresa estampou-se-lhe na cara. Com certeza que era. Como  que soube?
Encontrei o nome dele no meio de algumas coisas do Bram... do Benjamin.
Continue. Pode chamar-lhe Bram. Parece que era assim que ele queria ser chamado.
Podia falar-me mais de Luke Bachman?
Oh, ele era um caso perdido. Um autntico Dutchey dos lados de Hutzell. Um Menonista degenerado. No se vem muitos como ele. Estava a trabalhar em casa de um vizinho
e os rapazes travaram conhecimento com ele. Aqueles trs davam-se to bem que os rapazes pediram ao Gus que deixasse o Luke ir para casa deles. Est a imaginar a
reaco do Gus quele pedido. Bem, aqueles trs rapazes eram como unha com carne at um dia em que o vizinho acusou o Luke injustamente, como veio a verificar-se
de roubar. Antes de poder ser absolvido, o Luke fugiu e foi para a tropa. Escrevia aos rapazes todas as semanas sem falta e eles respondiam-lhe. Mas foi morto no
Vietname, pouco depois de o Abe se ter ido embora e de se oferecer para a tropa. Os rapazes ficaram mesmo muito desolados com a morte dele.
A senhora viu alguma das cartas do Luke?
No. No sei o que  feito delas.
Os pensamentos de Owen corriam aceleradamente. Luke Brachman era o pai de Lenore. Tinha a certeza disso. Ao tentar encontrar a Lenore, o Bram estava sem dvida a
cumprir uma promessa que fizera ao Luke, ou talvez tivesse simplesmente decidido procur-la e tomar conta dela por respeito ao amigo morto. E a Lenore... o nome
Lenore... o Luke tinha dado ao beb o nome da av dos seus amigos a mulher simptica e afvel das histrias de Arcdia que Milly Corwin tinha contado. Era isso.
A resposta tinha de ser aquela.
Owen s queria levantar-se num salto e telefonar imediatamente  Lenore, mas eram trs horas locais, portanto seriam quatro horas em Nova Iorque. A Lenore devia
estar ainda no tribunal.
Parece-me que o Benjamin detestava tanto o pai que assumiu o nome do irmo adoptado por ressentimento, disse Owen.
Sim, concordou a Milly pesarosamente. Abram Serian... Era o nome que aquela pobre criana rf tinha quando veio viver connosco.
Owen abanou a cabea. Portanto o Benjamin, ou Bram... desfez-se do nome do pai... renunciou a todo o parentesco Hanselmann, trocando-o pelo nome de algum que o
pai considerava um Filho da me. Aquilo s podia ser uma atitude de dio extremo.
Milly acenou com a cabea em sinal de concordncia. Mas naquele caso podia haver mais qualquer coisa para alm de dio. Podia ser que aquele
rapaz tivesse sempre desejado ter sido ele o adoptado aquele que a me amava e que no tinha o sangue de Gus Hanselmann a correr-lhe nas veias. Pode ser que ele
sempre tivesse querido ser Bram Serian.
Mas o Abe, por que teria ele mudado tambm de nome? Por que no teria continuado a chamar-se Abe?
No sei, disse a Milly. Mas o nome que ele escolheu para usar era o nome do meu pai... Al, ou Albert, era o nome do meu pai. Talvez ele tivesse mudado de nome para
poder continuar a viver nos meus contos de fadas. Para poder esquecer-se que tinha crescido. Isto  demais para uma pessoa aguentar de uma s vez, no ?
Owen abanou a cabea e deixou que os seus pensamentos andassem  deriva por momentos. Sabia que havia perguntas de que estava a esquecer-se de fazer, acerca de Bram-Benjamin
ou de Al-Abe, mas agora no conseguia pensar nelas. Em vez disso, havia outras coisas que estavam a preocup-lo.
Milly... peo desculpa, quero dizer menina Corwin... por que me contou tantas coisas? quero dizer, porqu exactamente?
Ela olhou para ele com uns olhos penetrantes, como os de uma ave. Isso  um assunto que s a mim diz respeito, no  verdade? O importante  que voc conseguiu a
sua histria.
A senhora no est a tentar desforrar-se dos seus sobrinhos, pois no? A tentar castig-los por a terem abandonado, contando todos os segredos que eles tinham guardado
com tanto cuidado?
Eu jamais magoaria aqueles rapazes! Jamais! Eu quero  que se saiba a verdade sobre tudo isto e a verdade  que aqueles rapazes foram vtimas inocentes. Tal como
a Celeste e eu fomos vtimas. Vtimas de um homem perverso. E at quando o Benjamin voltou as costas ao pai que estava a morrer, foi a maldade do pai que deu origem
a isso.
Ela olhou para Owen de sobrancelhas franzidas. Depois baixou os olhos e observou as mos nodosas cruzadas no seu regao. A maior parte das pessoas que esto aqui
so mulheres. Pelo menos as que se encontram suficientemente bem de sade para poder conviver so mulheres. E reunimo-nos com bastante frequncia. Conversamos muito.
E tenho ouvido mulher aps mulher contar como foi tratada quando era mais nova. H uma que costumava comer o jantar no cho da cozinha, como se fosse um co, sempre
que o marido achava que a casa no estava suficientemente limpa. Outra tem queimaduras de cigarros nos braos de quando o marido julgava que andava a namoriscar
na igreja. Tenho ouvido falar de violaes e espancamentos e tenho ouvido falar de barrigas grvidas serem pontapeadas. Tenho ouvido falar de abusos dos pais e dos
irmos e de abortos em cima de mesas das cozinhas para desfazer provas. E isso  das mulheres que falam. Sabe Deus o que todas as que ficam em silncio, como eu,
guardam l dentro.
E cheguei  concluso, ao longo de todos estes anos, de que os homens no so naturalmente piores do que as mulheres. Mas  como em todas aquelas velhas histrias
de reis e rainhas que a minha me costumava ler. Quando algum tem demasiado poder sobre outras pessoas, surgem sempre problemas.
Tomemos um homem como Gus Hanselmann e coloquemo-lo ali no campo como chefe de uma famlia e ele torna-se o soberano do seu pequeno reino. O seu pequeno mundo em
que sai todos os dias para as suas terras e volta para a sua casa  noite... e est numa posio em que pode descarregar toda a infelicidade e frustrao que sente
sobre aqueles que esto  sua merc a mulher e os filhos. E tanto a lei como o pastor e at os vizinhos mais prximos consideram que o que se passa no seu reino
s a ele diz respeito.
Agora estou diferente. Vejo as coisas de forma diferente. Tive todas essas mulheres aqui a abrirem-me os olhos e sei que o que nos aconteceu foi talvez mais terrvel
do que o que acontece na maior parte dos casos, mas no foi assim to raro, de modo nenhum. Existe uma palavra para isso, para o facto de se ter demasiado poder
e de se fazer dele uso indevido... tirania. Sabe o que isso quer dizer.
Ele acenou que sim com a cabea.
Bem, hoje em dia ouo muitas coisas na televiso sobre direitos e coisas assim. Sobre como as mulheres se encontram agora muito melhor. No sei at que ponto isso
 verdade, porque tambm vejo programas sobre mulheres que ainda ficam com olhos negros em casa e crianas a quem ainda so feitas coisas indescritveis.
Encolheu os ombros, subitamente indecisa e suplicante. Escute-me, por favor. Escute esta mulher velha e perturbada.
Acho que compreendo o que est a tentar dizer, menina Corwin. A senhora quer que as verdades ignbeis sejam publicadas, para que as pessoas se defrontem com elas.
Sim, disse ela reconhecidamente. Quero que a gente saiba que isso acontece em muitas famlias que parecem excelentes, vistas do exterior. E talvez... talvez se houver
bastantes histrias como esta a ser contadas, talvez as pessoas aprendam para o futuro.
Os seus olhos assumiram um ar distante. A minha me era uma grande apreciadora de histria. Ela disse que a nica coisa que tornava os humanos to inteligentes era
a capacidade de aprender com o passado e planear um futuro melhor. Bem, acho que chegou a altura de as pessoas comearem a perceber que a histria  mais do que
guerras e poltica e viagens espaciais. A histria tambm  o Gus e o Abe e o Benjamin e a Celeste e eu. E toda esta conversa de vivermos num pas livre no significa
nada, quando se vive com a tirania dentro da prpria casa.
Milly cruzou os braos e colocou a boca numa atitude de constrangimento. Tocou com a ponta dos ps na caixa florida de chapus que estava no cho aos seus ps. Leve
isto consigo. Contm as cartas que recebi dos rapazes. E leve aquela caixa de fotografias. E use as que precisar.
Leve tudo e escreva um livro que faa as pessoas compreender. Que ensine as pessoas.
Owen no sabia o que dizer.
Voc estava destinado a fazer isto, filho.  a pessoa certa para fazer isto.
Compreende isso, no compreende?
Ele hesitou por instantes, depois acenou que sim com a cabea. O silncio instalou-se no meio deles.
Bem, vamos, disse ela. Leve tudo e v trabalhar.
Estas coisas so provavelmente valiosas, advertiu-a ele.
Ela encolheu os ombros. Por direito, talvez devam pertencer a essa mulher viva de que est sempre a falar.
A Lenore?
Exactamente.
Sim. Deve ser ela a ficar com elas.
Antes de se ir embora... fale-me da Lenore.
Oh... ela ... ela parece ser uma pessoa sofisticada e distante, mas depois de se conviver com ela durante algum tempo, verifica-se que  muito insegura. Muito preocupada.
E muito s.
Continue. Conte-me mais. Como  o aspecto dela?
Ela  mais nova do que era o seu sobrinho. E ... impressionante. Extica, parece-me que se pode dizer. Semi-asitica.
Por asitica quer dizer oriental? perguntou a Milly surpreendida.
Sim. H pessoas que se referem a ela como amerasitica ou euro-asitica... ou seja l o que for... ela teve um pai anglo-americano e uma me asitica.
Oh, meu Deus, a Milly riu-se delicadamente por entre dentes. Gus Hanselmann deve ter dado uma volta na sua sepultura... ter o filho casado com uma estrangeira de
uma raa diferente da dele. Pergunto-me se isso no ter contribudo para se sentir atrado por ela.
Pode ter havido outros motivos mais importantes que contriburam para que o Bram casasse com ela, disse-lhe Owen. Tanto quanto sei... estou convencido que o pai
de Lenore era Luther Bachman.
Milly abriu a boca e soltou um Oh de espanto.
Penso que foi precisamente por isso que o Bram casou com ela. Porque ela era filha do amigo que tinha morrido.
Logo que Owen partiu de Golden Age Village, parou numa cabine telefnica de uma loja de convenincia. Primeiro ligou para o nmero do Alex, na esperana de contactar
com o Cliff, para lhe encomendar mais trabalho no computador. Como no tivesse conseguido, deixou uma mensagem no gravador de chamadas, a explicar onde estava e
por que ainda no tinha entregado a proposta de trabalho. Depois perguntou se o Cliff podia investigar os factos fundamentais do servio militar de Abe ou Abram
Hanselmann e de Benjamin Hanselmann, ambos de Ridley, Kansas. Depois, com um estmulo interior, ao pensar em ouvir a voz dela, telefonou para o Greystone Hotel em
Stoatsberg. O telefone do quarto de Lenore tocou, mas ningum atendeu. Desiludido, ligou para a recepo e identificou-se. O empregado disse-lhe que o grupo de Rossner
ainda no tinha voltado desde o almoo.
Owen estava ansioso por contar  Lenore. Mas no queria deixar notcias to importantes numa mensagem. Por isso disse ao empregado para lhe dizer que Owen Byrne
tinha telefonado e que tentaria voltar a ligar mais tarde.
Tentou ligar para o escritrio de Bernie e comeou a falar para o atendedor de chamadas, mas a Bernie levantou o auscultador logo que ele se identificou.
Ainda aqui estou, Owen. Escondida atrs da minha mquina. Onde est voc?
No Kansas.
Est a brincar comigo?
No. Explicou-lhe como tinha feito aquela viagem para ir falar com Milly Corwin.
Bem, isto  quase uma coincidncia fantstica, mas houve uma chamada de emergncia da sua irm Ellen apenas h umas horas atrs.
O ritmo do seu corao acelerou instantaneamente.
O que disse ela?
Disse s que telefonasse para casa imediatamente. Desculpe. Eu no estava c e foi a recepcionista que tomou nota da mensagem.
Est bem, ento  melhor eu desligar e...
Espere! Quando vai voltar?
H um voo hoje  noite e acho que consigo ir nele. Se no for possvel, ento irei amanh de manh.
Nesse caso quero que me prometa que vai arranjar qualquer coisa  pressa, de maneira a termos essa proposta para levar a DeMille o mais depressa possvel!
Prometo.
ptimo. Bem, ento telefone l  sua irm. E tome bem conta de si.
Owen desligou o telefone e marcou rapidamente o nmero de casa. O telefone tocou vrias vezes. Esperou no carro de aluguer durante um quarto de hora e depois saiu
para ir fazer uma nova tentativa. Continuou sem obter resposta. Como era possvel que no houvesse ningum em casa para atender o telefone? A Ellen estava sempre
em casa quela hora do dia.
Imaginou que Clancy tivesse tido outra trombose. Ou que a Meggie se tivesse envolvido num acidente de automvel. Ou que Rusty Campbell tivesse morrido por ter cado
da potra. Era a Ellen quem tinha feito o telefonema, portanto no podia ser a Ellen. Marcou novamente o nmero e escutou o toque surdo do telefone.
A ltima coisa que queria fazer era falar com Michelle Wheeler, mas o desespero levou-o a tentar o nmero dela.
Owen! No era suposto gastares dinheiro em chamadas de longa distncia, lembras-te?
O som da voz dela f-lo sentir-se culpado e retrair-se.
Mike, recebi uma mensagem de emergncia para telefonar para casa, mas agora ningum atende o telefone. Tu no sabes por acaso o que se passa em minha casa?
No... no ouvi absolutamente nada sobre o que se passa para os teus lados. Queres que eu d um salto at l?
No. Se no atendem o telefone  porque no esto l. Apenas pensei que talvez soubesses alguma coisa.
Desculpa. Hei, eu...
#Tenho de desligar, Mike. Estou... estou muito preocupado e agora no posso falar.
Com certeza... est bem... adeus.
Ele pousou o telefone, fechou os olhos e ps as mos na testa. Sentiu-se uma pessoa desprezvel, desagradvel, estpida. Sentiu-se como... Mas depois respirou fundo,
irritado e procurou tirar da cabea aquele sentimento de culpa, porque agora o que era importante era a sua famlia. Havia problemas l em casa e estavam a precisar
dele. Tentou telefonar mais uma vez; depois meteu-se no carro alugado e dirigiu-se para o Norte, pela estrada 135. Para alm de Wichita e do aeroporto. Em direco
 auto-estrada 50 e para os Flint Hills. Em direco a casa.
Owen lembrou-se da primeira vez que avistou os Flint Hills, quando tinha dez anos de idade. O Terry tinha ido a conduzir o carro, levando a me  frente no lugar
do passageiro. Owen tinha ido no assento traseiro com a Meggie, que naquela altura tinha quatro anos e ia toda esticada no assento a dormir. Era um carro novo. Aquele
que tinha ficado sem o assento traseiro aquando do negcio dos ces.
Iam a seguir o pai e a Ellen, que iam  frente, a alguma distncia na pick-up. A pick-up no era propriamente visvel por eles, devido ao reboque enorme com painis
laterais de ripas, em forma de pescoo de ganso, que estava atrelado  pick-up. O reboque de transporte do gado continha todos os seus haveres domsticos. O que
no tinha cabido, no tinha feito a viagem.
Todos eles tinham guardado algum ressentimento quando fizeram aquela viagem, ao lembrarem-se das coisas de cada um que tinham ficado para trs, no ptio da casa
velha. Owen tinha deixado uma estante cheia de livros e a cama. Da Ellen era uma mesa de toucador com um espelho. Do Terry tinham ficado as revistas de aviao que
ele tinha coleccionado durante cinco anos e a sua cama. Da Meggie tinha ficado um cavalo de baloio. Clancy tinha prometido que havia de voltar l para ir buscar
tudo aquilo, mas eles sabiam que ele nunca ia fazer tal coisa.
Nenhuma das coisas que tinham ficado no ptio tinham qualquer significado especial para a me, pois Clancy tinha carregado as coisas dela em primeiro lugar. No entanto
ela deixava o mais importante para trs. Tinha nascido e crescido naquela quinta. A sua famlia tinha construdo aquelas casas e plantado os jardins com as prprias
mos.
Owen tinha-a ouvido l em cima a chorar na noite anterior, mas os seus olhos conservaram-se sem lgrimas durante toda aquela viagem para a nova casa da famlia.
Ela ficou simplesmente sentada a olhar pela janela, calada e estica. Era assim que ele se lembrava mais dela calada e estica. No propriamente triste mas com uma
tendncia para a tristeza, que de algum modo se reflectia na aparncia exterior.
A paisagem  volta dos Flint Hills era completamente diferente daquilo que sempre tinham conhecido. To diferente que ficaram chocados ao v-la naquele dia pela
primeira vez.
O cho da quinta de onde eles vinham estava ancorado  civilizao. Os seus rectngulos de terreno plano estavam divididos ao meio com barreiras de proteco para
o vento, feitas pelo homem, sebes de arbustos e redes de estradas, e nunca deixava de se ver as casas da quinta e os anexos. O solo era constitudo por uma terra
argilosa rica e cor de caf. Os campos eram extremamente verdes ou levemente dourados na poca das colheitas. As casas eram brancas ou amarelas e os celeiros eram
brancos ou daquele castanho avermelhado que as empresas de pintura chamavam vermelho dos celeiros. O silo temporrio, uma torre alta, era de um cinzento metlico
ou azul brilhante. Os traos gerais das mquinas eram de cores primrias brilhantes, em verde, azul ou vermelho. E no conjunto tudo combinava. Cada coisa complementava
cada uma das outras coisas e contribua para um todo agradvel, como se fosse um livro ilustrado. Aquela era uma terra domesticada. Uma terra civilizada.
Mas o que Owen viu quando chegou com a me e o irmo aos Flint Hills, uma regio de que tinham ouvido falar mas nunca tinham conhecido, foi uma vastido deserta
de ondas progressivas, um mar infinito de outeiros ondulados e verdejantes que se estendiam pelo horizonte e para alm do que a vista conseguia alcanar. Sem uma
nica rvore ou um edifcio  vista. Nada que demonstrasse que a civilizao alguma vez tivesse ali existido.
Nenhum deles disse uma nica palavra. Limitaram-se a seguir aquele reboque para o transporte de gado aos solavancos, arrastados pelas fantasias de Clancy Byrne.
Clancy Terrence Byrne tinha nascido no seio de uma famlia irlandesa que emigrou para Dodge City, no Kansas, onde o pai de Clancy pretendia tornar-se um baro do
gado. O mais prximo que o homem esteve do negcio do gado foi o emprego que teve numa unidade de transformao de carne, mas contagiou o filho mais novo, Clancy,
com o seu desejo ardente de ser vaqueiro.
Quando Clancy conheceu e se casou com Stella Hadley, transformou-se da noite para o dia, de um trabalhador itinerante, num proprietrio de terras. Se os Byrnes mais
velhos ainda fossem vivos, teriam certamente ficado extasiados perante a boa sorte do filho. Desembarcar de um navio e numa nica gerao tornar-se dono de uma quinta
livre de hipotecas era a realizao do sonho americano. Ou devia ter sido. Mas aquele no era o sonho de Clancy Byrne. Detestava que se referissem a ele como agricultor,
dizendo que agricultores eram aqueles grandalhes alemes e suecos que no tinham inteligncia suficiente para fazer outra coisa que no fosse cavar.
A zona preferida de Clancy na quinta dos Hadleys era o pequeno poo de petrleo. Aquilo, associado  parada de animais que ele arrastava para dentro e para fora,
conferia-lhe o direito de se referir a si prprio como negociante de petrleo e criador de gado. E na verdade a sua actividade agrcola era to espordica e pouco
recomendada que havia anos em que o pequeno rendimento proveniente da concesso do petrleo pagava a maior parte das despesas, e os animais que guardavam como reserva
forneciam a maior parte da comida. Deviam ter sido prevenidos antecipadamente, mas nenhum deles, e muito menos a me, sabia o que ia acontecer. -
Um dia, depois de ter partido para uma viagem durante uma semana, sem dar qualquer explicao, Clancy entrou em casa todo inchado e orgulhoso. Sabem uma coisa! comunicou
ele.
Owen e Terry tinham acabado de chegar, depois de um longo dia de trabalho nos campos, a fazer uma tarefa de que o pai se tinha esquecido que era necessrio fazer.
A Ellen tinha passado a tarde inteira a empurrar o cortador de relva pelas zonas do ptio com erva alta, porque Clancy tinha vendido a lmina de ceifar que se enganchava
no tractor. A me tinha acabado de chegar, depois de ter andado na perseguio de uma cabra que tinha fugido, a cabra que Clancy tinha trazido algumas semanas antes,
com a novidade de que se tratava de um macho de raa pura Toggen-burg e que provavelmente ia dedicar-se ao negcio da criao de cabras leiteiras. No havia nenhum
redil no lugar onde ia ficar a cabra, e de cada vez que se soltava, era devorado mais um dos canteiros de flores ou arbustos que a me tratava com tanto carinho.
Por isso toda a famlia estava cansada, suja e furiosa quando apareceu Clancy e ningum reagiu quando ele disse, Sabem uma coisa!
Finalmente, a pequena e querida Meggie disse, O qu, paizinho?
Fiz o negcio da minha vida. Olhou  sua volta, abstrado da exasperao do Terry, do olhar furioso da esposa e dos olhos da Ellen a revirarem-se. E que tal se arranjassem
um copo de ch para o vosso velho pap! disse ele para ningum em particular. Com ar de m vontade, a me deitou-lhe um copo de ch, mas no lhe ps gelo, como forma
de mostrar que estava aborrecida.
Clancy bebeu at esvaziar o copo, dizendo que estava cheio de sede e muito cansado. Todos, com excepo da Meggie, trocaram olhares de irritao.
Agora sou realmente um criador de gado, anunciou ele. Troquei esta quinta por um verdadeiro rancho de gado vivo, ali para os lados dos Flint Hills. Foi uma troca
directa. Por quase trs vezes mais terreno e algumas vacas como oferta. O que acham vocs disso?
Baloiou-se para trs na sua cadeira, sorrindo de auto-satisfao, enquanto ficavam todos a olhar para ele num silncio de mudos.
Fizeste o qu? perguntou finalmente a me.
Owen conduzia ao longo da auto-estrada 50 com o sol baixo a dar pelas costas. A Sul da auto-estrada corria o rio Cottonwood. O rio em que tinha pescado tantas vezes
com o Terry. Passou por uma placa que indicava a distncia para Strong City. Em breve ia sair da auto-estrada e seguir na direco oposta do rio, para Noroeste,
em direco a Hymer e Diamond Springs; depois voltaria para Leste, em direco a Cyril, penetrando nas sombras de azul e cor prpura que matizavam os outeiros e
entrando no reino de Clancy Byrne.
Procurou no pensar no que pudesse estar a correr mal. No havia qualquer necessidade em deixar a imaginao arrastar-se pela emoo. Em vez disso, deixou que os
seus pensamentos se orientassem noutras direces.
Procurou desenredar o pai e Gus Hanselmann, que de algum modo tinham ficado entrelaados na sua mente. O que no estava certo e era injusto
porque Clancy Byrne nunca tinha sido to perverso nem violento como Gus Hanselmann. Nunca nem por sombras. Mas tinha sido um tirano. E um espoliador, um destruidor.
Ele tinha com certeza sido tudo isso. E o domnio dele sobre a famlia tinha sido sempre incontestvel.
J estava escuro quando Owen passou por Cyril. Vagas de nuvens passavam rpida e suavemente atravs do cu, quase escondendo da vista a lua e as estrelas. Tudo lhe
parecia diferente. Era como se tivesse vivido longe dali durante muito tempo. Passou pelo pequeno armazm junto da estrada de que tinha gostado tanto quando era
mais novo. Ali nas prateleiras havia comida e linha de pesca e leo de motor e champ e chaves de tubos e agulhas hipodrmicas para bovinos.
Conseguia lembrar-se do prazer que sentia em ir ali com o irmo. O longo processo de seleco dos mantimentos, seguido de uma paragem no velho frigorfico horizontal
da Coca-cola, com a sua ranhura para moedas de cinco cntimos tapada com fita-cola, numa das extremidades. Os clientes pagavam ao balco, depois abriam a pesada
tampa e metiam a mo l dentro para tirar uma garrafa de gasosa por baixo da gua gelada. No havia nenhuma bebida no-alcolica que alguma vez se lhe comparasse
em sabor, sofregamente engolida ainda gelada, enquanto ele e o Terry se sentavam na varanda empenada de madeira da loja.
Conseguia imaginar o Terry sentado na extremidade daquela varanda, com as pernas a pender e a balanar, botas de vaqueiro estafadas a balanar ligeiramente para
a frente e para trs, enquanto dizia, Sabias, Owen, que se pode dissolver um dente num copo de Coca-cola? Depois piscava os olhos e sorria. O que dizes a isso, irmozinho?
Achas que tambm  capaz de dissolver dentaduras? Ou dentes de alce? Ou os dentes caninos da morsa? Ou teclas de piano?
Owen passou pela proteco do gado e pelo porto da entrada que o Terry tinha construdo para fazer uma surpresa ao pai, dois grandes postes de creosote que se alongavam
por seis metros de altura e encimados por uma slida travessa decorada com a inscrio RANCHO BYRNE com desenhos de trevos. Clancy tinha moldado inicialmente o seu
ferro para marcar os animais com um trevo, mas havia demasiados pontos quentes, reas onde as bordas do desenho do ferro estavam to prximas umas das outras
que aqueciam mais a pele do que se pretendia e, em vez de um bonito contorno de um trevo, tinha vacas com manchas inflamadas sem plos. Voltou a fazer o molde, mas
desta vez com um B, um B oscilante ou um B arredondado, mas a mulher que tratava dos papis convenceu-o de que as seces fechadas do B podiam ser tambm problemticas
e foi assim que voltou para casa com um ferro em forma de C. Simples e claro. Na verdade, era um C deitado de costas, a que chamavam um C preguioso e que Owen
achou to apropriado que se perguntou se a mulher que o ajudou teria conhecido Clancy pessoalmente.
Comearam a ver-se os edifcios do rancho. Os candeeiros do ptio em forma de cone eram brancos quando vistos por cima e as janelas da casa estavam iluminadas com
uma luz amarela. Era como uma ilha de luz ali no meio dos
montes escuros.
O carro da Meggie no estava l. Estacionou entre a pick-up do pai e um carro que no lhe era familiar, mas que sups ser de Rusty Campbell. Desligou o motor, desligando-se
o rdio ao mesmo tempo e sentiu  sua volta o estranho lamento do vento. O nome Kansas vinha dos Kansa Sioux o Povo do Vento Sul. O Terry tinha-lhe dito isso h
muito tempo.
Apressou-se a entrar em casa. Estava vazia. Apesar de haver muitas luzes acesas, estava completamente deserta. No havia sinais de terem jantado ali, nem indcios
de se encontrarem por perto. Foi at  antiga casa dos trabalhadores e verificou que tambm estava vazia.
Cheio de ansiedade, voltou para o carro e dirigiu-se para o Rancho Wheeler, pensando que a Mike pudesse ter descoberto alguma coisa desde que falara com ela algum
tempo antes naquele mesmo dia.
A Mike saiu de casa a correr logo que ele abriu a porta do carro.
Owen! Depressa! gritou ela quase sem respirar, vamos para outro stio, antes que o meu pai venha c para fora e comece aos gritos.
Afastaram-se no carro at ficarem a alguma distncia da casa.
Mas que grande surpresa, Owen! Estavas s a brincar comigo quando h bocado me telefonaste? A fazer-me pensar que ainda estavas em Nova Iorque? Como  que tu...
Mike, estou preocupado com a minha famlia. Descobriste alguma coisa? So horas de jantar e no est ningum em casa.
No. Tu disseste-me que no fosse l, por isso no fui.
Est bem... bem,  melhor eu voltar para l.
Owen! H semanas que estou sem te ver! Ps os braos em volta do pescoo dele e abraou-o com fora.
Ele no recusou o abrao, mas tambm no lhe correspondeu.
O que se passa contigo? perguntou ela de imediato.
Mike... eu... esta no  a altura certa. Desapareceu o sorriso dela e o medo comeou a manifestar-se-lhe nos olhos. Owen odiou-se naquele momento. Sentiu averso
a si prprio. De boa vontade teria retirado dela todo o sofrimento e t-lo-ia introduzido na sua cabea, se pudesse.
A altura certa para qu? Para... uma conversa sria. Nesse caso o que tencionas fazer? Dizes-me apenas isso e depois vais simplesmente embora? Ele respirou fundo.
Precisamos de ter tempo para conversar, Mik. Simplesmente no posso... Diz-me, Owen, precisamos de conversar sobre o qu? Vou ficar ainda pior se no me disseres
neste momento, porque vou ficar a imaginar todo o tipo de coisas horrveis. No posso casar contigo, Mike. Desculpa. Tu... no podes... casar... comigo? Desculpa.
Se  por causa de dinheiro, Owen... se  porque no te contrataram para escreveres o livro... isso no tem importncia para mim.
No tem nada a ver com o dinheiro. Hesitou. No tinha a certeza do que devia dizer-lhe. Queria ser honesto, porm queria poup-la o mais possvel. O facto de estar
longe... a trabalhar e a viver noutro lugar... fez-me chegar  concluso de que no me conheo to bem como julgava que me conhecia. No sei realmente o que quero.
Ou o que  importante para mim.
Tu j no me amas, no  isso?
Eu hei-de amar-te sempre, Mike. E provavelmente vou acabar por me arrepender disto.
Isso so tretas! Nova Iorque deu-te volta  cabea! Ou se ama uma pessoa ou no se ama. Ou tu me amas, ou no me amas. E se ainda me amas, nesse caso devias continuar
a querer casar-te comigo.
Peo desculpa.
Oh, est calado! No quero ouvir nem mais uma palavra at teres recuperado o bom senso! Saiu do carro batendo com a porta e caminhou com ar arrogante pelo caminho
abaixo em direco a casa.
Owen ficou a observ-la por momentos, pondo-se a questo se deveria ir no carro atrs dela e lev-la a casa. Mas no era uma grande distncia e ela trazia vestido
um bom casaco. Decidiu que era melhor deix-la ir.
Fez com que o pequeno percurso para a sua casa fosse ainda mais pequeno, mas a sua prpria casa continuava vazia quando voltou. Andou de um lado para o outro na
cozinha. Havia trs hospitais possveis nenhum deles ficava perto dali. Telefonou para um e falou com a enfermeira da sala de emergncias. Estava precisamente a
tentar telefonar para outro quando a sua famlia entrou de rompante pela porta das traseiras.
 o Owen! guinchou a Meggie, e comearam todos imediatamente a dizer ao mesmo tempo que tinham ficado surpreendidos ao verem no ptio um carro estranho e que no
imaginavam quem pudesse ter vindo visit-los.
A Meggie, o Rusty e mesmo o Clancy pareciam estar com uma disposio muito divertida, mas a Ellen parecia estar com um ar de quem estava muito aborrecida. Na sua
famlia nunca tinha havido manifestaes fsicas de afecto, portanto no houve abraos nem beijos, mas Rusty Campbell apertou-lhe a mo entusiasticamente.
Onde estiveram? perguntou Owen. Meu Deus, eu estava mesmo preocupado. Recebi uma chamada de emergncia e depois, quando chego a casa, encontro-a vazia! A ltima
vez que esta casa esteve vazia  hora do jantar, foi quando tivemos de ir a correr para o hospital.
A Meggie parecia uma adolescente a rir-se e Owen reparou de repente que as suas bochechas estavam coradas de uma forma que no era natural e que estava de brao
dado com o Rusty.
O Rusty levou-nos a todos a jantar fora, disse a Ellen a olhar ora para a Meggie, ora para o Owen. No fez referncia  chamada de longa distncia para Nova Iorque.
Com os diabos, vamos mas  contar-lhe, desabafou Clancy.
Anuncimos o nosso noivado, disse a Meggie abruptamente,
#mostrando um sorriso aberto enquanto estendia a mo esquerda para exibir um anel.
Owen deixou-se cair numa cadeira com um suspiro de alvio frustrado. Era apenas isso que estava a passar-se? Olhou para a Ellen, que por sua vez desviou os olhos.
Bem, isso  ptimo para vocs os dois. Parabns! Gostava de ter uma garrafa de vinho ou coisa parecida para poder fazer um brinde.
Ainda bem que no tens, disse Clancy, empurrando-os para se dirigir para a sua cadeira na sala de estar. Depois tnhamos de a beber toda e todos esses vinhos ditos
de qualidade s me sabem a mijo de vaca.
Acenderam a lareira na sala de estar e sentaram-se todos. Owen observou Rusty Campbell. Sabia que o homem tinha menos de trinta anos, mas a sua pele marcada pela
exposio s condies atmosfricas e os seus modos calmos faziam-no parecer mais velho. Era de altura e constituio mdias, com as pernas levemente arqueadas e
um antiquado bigode do tipo guiador. Cada centmetro dele parecia o autntico vaqueiro que Clancy sempre quisera ser.
Owen ficou  espera que algum lhe fizesse alguma pergunta sobre Nova Iorque ou sobre o livro. Ellen estava a olhar para a lareira. A Meggie estava a olhar para
o Rusty. O Rusty estava a olhar para as biqueiras das botas.
Venho aqui a casa apenas por uma noite, disse Owen. Tive de ir a Wichita e depois recebi aquela mensagem da Ellen... Relanceou o olhar para a Ellen, que continuava
sem querer enfrentar os olhos dele. Por isso resolvi vir at c, mas tenho de ir embora amanh de manh.
Ningum fez qualquer comentrio. S a Ellen parecia estar a ouvi-lo.
Vendi um daqueles cachorros que andavas a treinar, Owen, disse Clancy subitamente. Sim, foi um negcio dos diabos. Entrei com a carrinha para o parque de estacionamento
para ir tomar um caf e reparei naquele rapaz com a sela de pnei mais bonita que j vi na parte de trs de uma pick-up... como um cordoeiro em miniatura, com o
chifre feito de corda e tudo... por isso, a modos que me encaminhei na direco dele e comecei a meter conversa com ele. A falar-lhe dos ptimos ces de guardar
o gado que tinha em casa. Ele ficou todo entusiasmado. Quando acabei de falar j tinha a sela e ele veio comigo at casa para levar o co.
Owen conteve a sua raiva. Aqueles ces eram dele. Mas Clancy no pensava assim. Clancy sempre achara que tinha o direito de fazer o que quisesse. Owen lembrou-se
de um dia em que chegou a casa da escola, quando tinha doze anos, e verificou que a sua vitela de exposio tinha desaparecido. Tinha andado a trabalhar com a bezerra
durante vrios meses a encabrest-la e a domestic-la para a dominar, a aparar-lhe o pelo e a escov-la e a dar-lhe banho todos os dias e Clancy, quando faltavam
apenas umas semanas para a feira do estado e para o concurso tinha vendido a novilha. O rapaz cujo pai a comprou ganhou a flmula azul que devia ter sido do Owen.
Clancy nunca compreendera qual era o problema, uma vez que tinha recebido um bom preo pelo animal.
Mas voc no tem nenhum pnei onde usar essa sela, Owen chamou-lhe a ateno. E aquele co valia muito dinheiro.
Ahhhh, Clancy fez um gesto com a mo, como que a rejeitar as palavras de Owen. O que sabes tu disso? O que sabe o raio de um escritor de histrias sobre seja l
o que for?
Temos algumas vitelas novas, disse a Meggie rapidamente, num esforo de desviar a ateno das pessoas daquela situao de desentendimento.
E donde veio o dinheiro para as comprar? perguntou Owen.
A Meggie relanceou um olhar para o Rusty. Bem, ainda no foram propriamente compradas. O Rusty trouxe-as de casa da sua famlia e s as pagamos quando pudermos.
So muito bonitas, disse o Rusty. De boa origem. Filhas de mes de boa raa. Vo criar vitelos de qualidade especial.
 muita generosidade por parte da tua famlia, Rusty, comentou Owen. E a tua famlia sabe quanto tempo nos vai levar at conseguirmos pag-las?
Eles no esto preocupados com isso, disse o Rusty.
Hei, j ouviram falar do Waldo Skiddy? perguntou Clancy. Foi atingido por um raio. Estava a falar ao telefone com uma mo estendida para o frigorfico e o choque
elctrico veio atravs do telefone, percorreu-lhe o corpo e passou para o frigorfico. Mostrou-me a marca negra onde passou da mo para o metal.
Todos se mostraram consternados.
Aposto que a cidade de Nova Iorque no te fez melhor jogador de domin, disse Clancy a Owen. Aposto que ainda no consegues bater o teu velho pai!
Agora no... comeou Owen a dizer, mas Clancy j estava a puxar pela velha caixa de charutos do armrio. Traz para aqui a tua cadeira, ordenou-lhe ele. Meggie, empurra
essa mesinha de centro para aqui, entre mim e ele.
Vamos jogar com trs, sugeriu Owen. Mais algum que venha para aqui jogar connosco.
Ningum se mexeu.
Clancy despejou a caixa dos domins. Eram peas bonitas, que j tinham sido brancas, com marcas negras gravadas. O tempo e a frequente utilizao tinham-lhe dado
o aspecto de marfim antigo. Owen pegou numa e friccionou a parte lisa de trs com o dedo polegar. A cor fez-lhe lembrar a pele de Lenore Serian.
Vamos l! Deixa l o chupa-chupa, rapaz e aproxima-te.
Owen escolheu as suas peas e avanou submissamente para o abate, sabendo que no tinha hiptese de ganhar. Sabendo que Clancy tinha tudo memorizado, todas as possveis
combinaes de nmeros, todas as estratgias possveis.  medida que o jogo progredia, Clancy lembrava-se das peas que tinham sido usadas e sabia quais eram as
que ainda estavam no monte.
A sala estava em silncio. No era permitido falar enquanto Clancy Byrne arrancava as calas a algum ao domin. Derrotou Owen num instante,
depois procurou insistir para jogarem at chegar aos cem. Owen recusou.
Vamos, pap, implorou a Meggie. Owen quer conversar.
Mas quem s tu, uma pessoa que desiste facilmente? reclamou Clancy. Vais desistir s por perderes uma vez?
O pai ganhou, est bem? disse-lhe Owen. Estou aqui apenas por uma noite. No quero desperdi-la a jogar domin.
Aquilo fez Clancy ficar furioso. Atirou com as peas para dentro da caixa e meteu-a no armrio. Owen voltou a arrastar a moblia para o devido lugar, imaginando
o que o Rusty pensaria dos futuros cunhado e sogro.
Estou a comear a trabalhar a tempo inteiro, disse a Meggie. Para poder construir um pequeno ninho para mim e para o Rusty.
No meu tempo, uma mulher no trabalhava a no ser que estivesse casada com um homem intil, resmungou Clancy. No meu tempo, uma mulher ficava em casa para pr na
mesa uma boa refeio.
Ainda no h muito tempo, disse o Rusty calmamente, uma pessoa conseguia vender vinte vitelos e ter dinheiro para comprar uma carrinha pick-up. Actualmente  preciso
vender quarenta e cinco vitelos para pagar a mesma carrinha. E s Deus sabe quantos vitelos sero precisos para ir para o hospital a fim de ter um beb. Os tempos
mudaram muito, Clancy. Esse tempo de que est sempre a falar j vai longe.
Owen estava espantado por Clancy permitir que o Rusty lhe falasse daquela maneira. E no se limitava a permitir parecia de facto que estava a dar-lhe ateno. Clancy
e o Rusty discutiram sobre questes do rancho durante alguns minutos; depois a conversa esmoreceu e toda a gente ficou a olhar para a lareira.
Ento... Rusty e Meggie... quais so os vossos planos? perguntou Owen.
Seguiu-se uma troca de olhares.
Por que ser que tenho a impresso de que fui posto de parte em relao a alguma coisa? disse Owen.
Bem... estamos decididos a casar rapidamente, disse a Meggie. No prximo ms. Mordeu nervosamente o lbio inferior e relanceou os olhos para Clancy. No sabamos
que ias aparecer aqui desta maneira. Estvamos a guardar tudo para quando voltasses definitivamente, sabes... E com certeza que no  assunto para discutirmos enquanto
ests aqui numa visita de apenas uma noite.
Oh diabo! disse Clancy. Vamos deixar de andar com rodeios e vamos contar tudo.
Eu no vou ficar a ouvir esses disparates! declarou a Ellen e abandonou a sala.
Mudei o meu testamento, disse Clancy. Logo que o Rusty e a Meggie se casem, so eles que ficam a ser responsveis pelo rancho. Tu e a Ellen continuareis cada um
com direito  tera parte, mas sero eles que tomaro conta da administrao.
Owen ficou to surpreendido que no conseguiu falar.
Cos diabos, filho, tu nunca quiseste saber de ser vaqueiro. Nunca
seguiste os passos do Terry. A tua cabea andou sempre distanciada, nas nuvens. O Rusty tem sangue de vaqueiro a correr-lhe nas veias. Ele vai voltar a fazer progredir
este rancho para bem de todos ns.
Ningum est a dizer-te que te vs embora, Owen, declarou a Meggie. Aquela casa do pessoal ali  tua at ao dia em que morreres. No tenhas quaisquer dvidas quanto
a isso.
Owen levantou-se. Ficou a olhar para o pai. A olhar para o homem de forma to penetrante que o corpo a envelhecer e o cabelo descolorido e os olhos esmorecidos pareciam-lhe
exagerados. Esperava sentir qualquer coisa com grande amplitude uma exploso de fria incontrolvel ou de dio intenso
mas, pelo contrrio, no sentiu nada. Absolutamente nada.
Ento estou a ver como vai ser, disse ele. Onde  que devo dormir esta noite?
Deves ficar na casa do pessoal. Definitivamente, insistiu a Meggie.
Assim podes dormir na cama que te  familiar. O Rusty pode ficar no meu quarto e eu vou dormir na cama extra que est no quarto da Ellen.
Owen deixou-os e dirigiu-se para o lado de trs da casa, para o quarto da Ellen. Ela estava sentada na cama e pelos olhos pareceu-lhe que tinha estado a chorar.
Hei, disse ele, sentando-se na cama em frente dela. Sentes-te bem?
No posso acreditar que te tenham feito uma coisa dessas, Owen. S descobri esta manh e tentei telefonar-te imediatamente.
No te preocupes comigo, Ellen. Eu vou ficar bem.
 muito injusto. To traioeiro e mesquinho e ordinrio! O pai teria perdido tudo umas cem vezes se no fosses tu. Esta casa nem existiria se no fosses hi! E todo
esse disparate de que tu no tens estofo de vaqueiro... De que est o pai a falar? Acho que ele ficou maluco. E a Meggie... aquela cabra conivente!
O que se passa com esta famlia, Owen? Dedicaste-te de alma e corao a esta casa. Tu s este rancho. Como podem eles fazer-te uma coisa destas?
Mas a antiga casa do pessoal  minha at eu morrer, disse Owen, metendo-se com ela com um sarcasmo moderado. Posso tornar-me o velho excntrico da cabana, como o
Tio Kaye, se eu quiser.
Oh meu Deus... j parece o que eles me disseram. Disseram que o quarto extra seria sempre meu... independentemente do nmero de filhos que viessem a ter. deixou
escapar umas lgrimas dos olhos e riu-se silenciosamente.
O que  que tu vais fazer? perguntou ele.
Vou para a escola, bolas! No vou ficar aqui a fazer de Tia Ellen e a cozinhar e a fazer a limpeza da casa para toda a gente, para o resto de minha vida. Tretas!
De qualquer maneira tambm sou uma pssima cozinheira.
Acho que gostava de ser alguma coisa que valesse a pena... como por exemplo, trabalhar com crianas. No sei... ensinar ou trabalhar como assistente social.
Muito bem. Isso parece-me ptimo, Ellen. Sabes que eu vou fazer tudo para te poder ajudar.
Eu sei, disse ela e tapou a cara com as mos a soluar.
Mais tarde, quando Owen saiu do quarto da Ellen, a sala de estar estava vazia. Ouvia-se ressonar no quarto de Clancy. O quarto da Meggie estava escuro. Suspeitou
que toda aquela conversa de a Meggie dormir no quarto da Ellen tinha sido por causa de Clancy e que ela e o Rusty dormiam juntos todas as noites.
Na lareira restavam apenas algumas brasas. Encostou-se  spera pedra calcria da chamin, a mesma pedra natural, cortada manualmente, com que toda a casa tinha
sido construda e pensou em todos os anos durante os quais tinha imaginado aquela casa como a sua casa. Mesmo quando se mudou para a antiga casa dos trabalhadores.
Esta tinha sido sempre a sua casa. E acreditara que este era o seu lugar e que um dia havia de criar a sua prpria famlia nesta casa.
Ouviu um barulho e levantou os olhos e viu a Meggie a observ-lo na sua camisa de dormir de flanela branca, com um estofo gasto  volta dos ombros. Parecia um fantasma
ali  meia luz.
No vais levantar problemas por causa de tudo isto, pois no? perguntou ela na defensiva.
Ora, desde quando  que sou uma pessoa que levanta problemas, Meggie? Este rancho  do Clancy. Sempre foi o rancho do Clancy. Ele tem o direito de fazer com ele
o que muito bem quiser.
Bem, fico contente por seres to razovel em relao a tudo isto. Eu disse ao Rusty que tu sempre foste razovel. E que ias querer o que fosse melhor para todos.
O rdio CB crepitou com vida. Encontrei uma, Meggie.  melhor vires at c.
A Meggie pegou no microfone. Estou a ouvir-te, Rusty. Onde ests?
Estou mesmo aqui a norte do furo de abastecimento de gua. Tenho as luzes acesas. Vs-me logo.
Owen no precisou de perguntar o que se estava a passar. O Rusty tinha sado para ir inspeccionar as vacas, provavelmente preocupado que algumas daquelas novilhas
novas de raa, que tinham vindo de casa da sua famlia, estivessem prestes a parir e estava com problemas.
Chama o veterinrio, disse Owen. Eu vou at l.
O doutor Miller teve um acidente com a pick-up a semana passada. Est em recuperao.
Owen suspirou profundamente. Ento deixa que ns desenrascamo-nos sem ele.
Foi para a varanda e vestiu o velho fato-macaco impermevel com fecho de correr, depois ps um bon de malha de l e um casaco velho. Os bolsos do casaco estavam
cheios de luvas quentes e lenos e uma navalha. Owen calou as luvas. Saiu e a Meggie veio a correr atrs dele.
Por que no ficas aqui? disse ele, mas ela j estava a subir para o assento do passageiro da carrinha dele. No lhe perguntou por que nunca tinha ido ajud-lo a
meio da noite.
O vento estava forte, com uma temperatura abaixo de zero e o cu estava completamente coberto por uma densa camada de nuvens que faziam com que fosse uma noite sem
lua e sem estrelas. Depois de estar na cidade, era emocionante ver como a noite nos Flint Hills podia ser to negra. Mais negra do que o corao de Satans, costumava
dizer Clancy. Foram aos solavancos atravs das pastagens pelo que parecia ser uma eternidade antes de verem as luzes da carrinha do Rusty.
A vaca estava deitada de lado, a respirar com dificuldade.
Tenho aqui o raio de um problema, disse o Rusty. Estava cheio de sangue e de estrume hmido e pela sua voz parecia estar perto da exausto.
Owen ajoelhou-se ao lado da novilha, fazendo festas no plo ruivo e hirsuto do inverno, enquanto cantarolava em voz baixa,  uma boa mam, num ritmo montono que
surgiu naturalmente.
J a encontrei deitada no cho, disse-lhes o Rusty. Finalmente consegui meter o brao dentro dela, mas as pernas do bezerro esto enfiadas por baixo dele.
Oh no... lamentou-se a Meggie. O que vais dizer ao teu pai, Rusty, se perdermos uma destas novilhas?
O Rusty ignorou-a e ajoelhou-se ao lado de Owen. Receio que haja mais qualquer coisa a correr mal para alm da posio do bezerro, disse ele. Ela tem estado a perder
muito sangue.
Tens mais algumas luvas? perguntou Owen. Se fizermos turnos, talvez consigamos colocar aquelas patas na posio correcta.
Owen enfiou uma luva de plstico que lhe cobria o brao quase at ao sovaco, depois ajoelhou-se junto da vaca e meteu a mo dentro dela. Ela lutou contra ele, com
os fortes msculos da vagina, comprimindo-lhe o brao e procurando expeli-lo, tal como teria expelido o bezerro se tal lhe fosse possvel. Sentiu o nariz da cria
no canal de nascimento e abriu caminho para alm dele para chegar at s pernas. Deviam estar ambas direitas, apresentando-se juntamente com o nariz, para um parto
normal.
C est... j tenho uma.
A Meggie e o Rusty encostaram-se ambos  vaca para o caso de ela resolver mexer-se e Owen foi ajudando lentamente, centmetro a centmetro, a endireitar a perna
para a frente. Tinha a testa a escorrer suor, apesar de estar frio. Estava meio deitado, meio sentado atrs dela, fazendo presso na traseira do animal, fazendo
fora e enfrentando aqueles msculos de contraco implacveis. Quando finalmente conseguiu chegar ao pequeno casco rachado e o levou at ficar junto do nariz do
bezerro, puxou para fora e caiu para trs, para o cho. Tinha o brao a tremer descontroladamente.
O Rusty imediatamente enfiou o brao para puxar a outra perna. Owen levantou-se e tirou a luva suja, depois foi fazer fora no dorso da vaca, embora estivesse convencido
que ela no ia tentar libertar-se. Ela tinha desistido. Owen j tinha visto antes aquele olhar nos olhos de um animal.
Observou o Rusty. O homem j estava cansado e gelado e tinha metido o brao na vaca antes de eles chegarem. Agora parecia que estava a usar as suas
#ltimas reservas. Estou... quase... l... disse ele respirando com dificuldade. Meg... pega... na... corrente.
A Meggie correu para a cabina da pick-up a buscar a corrente. Era uma ferramenta usada habitualmente pelos criadores de gado para ajudar a expelir a cria. Enlaada
 volta dos jarretes do vitelo, mesmo por cima dos cascos, a pequena corrente podia ser usada para puxar a cria para fora, quando a vaca no conseguia dar o ltimo
empurro.
Subitamente, a respirao ofegante parou. Os flancos inchados ficaram estacionrios e as narinas cor-de-rosa dilatadas baixaram com um suspiro final.
Owen levantou-se e bateu com os punhos no peito da novilha numa tentativa intil da ressuscitao cardiopulmonar do bovino.
No! No! No! gritou a Meggie. Voltou-se e atirou com a corrente para a pick-up, fazendo um barulho retumbante.
O Rusty puxou o brao para fora com uma expresso desorientada.
Owen no parou para pensar. Meteu a mo no bolso, abriu a lmina da navalha e introduziu-a na barriga da vaca morta. O Rusty deu um salto para ir ajudar e em poucos
segundos tinham conseguido retirar o bezerro. Estava a respirar. Limparam-lhe o nariz e esfregaram-no com sacos de raes, como teria feito a me com a lngua, se
fosse capaz, e com os seus esforos obtiveram um pequeno balido da cria.
A Meggie subiu para o lugar do passageiro da pick-up do Rusty, ligou o motor e o aquecimento e eles entregaram-lhe o vitelo. Ela aconchegou o animal no colo o melhor
que pde, com as pernas compridas e desajeitadas a espernear para todos os lados e Owen reparou que ela estava a chorar.
Graas a Deus que salvaste o vitelo, disse ela. Ainda ningum sabe, mas todas estas novilhas de raa vo ser o nosso presente de casamento da famlia do Rusty. Para
comearmos a nossa manada.
Owen fechou a porta e voltou-se para o Rusty.
Como tiveste a audcia de tentar esse estratagema? perguntou o Rusty.
Vi uma vez um veterinrio abrir uma vaca para tirar o vitelo. Em circunstncias idnticas. Owen encolheu os ombros. Calculei que no fazia mal nenhum tentar.
O Rusty abanou a cabea e sorriu para o Owen.
Queres lev-lo agora para casa? perguntou Owen.
No posso, companheiro. Esta  uma noite complicada. Encontrei outra do outro lado do monte. Estava a fazer um grande esforo quando a deixei.
Vai  frente, disse-lhe Owen. Eu vou logo atrs de ti.
Deixaram a pobre novilha abatida ali no cho e seguiram para a prxima vaca. Felizmente, esta estava em melhores condies. Quando chegaram junto dela, ela conseguiu
pr-se de p de forma desajeitada e afastou-se dos faris. Eram visveis duas pequenas patas a espernear debaixo da cauda. Puseram-lhe uma corda  volta do pescoo
e prenderam-na com firmeza a uma barra de ferro que Owen tinha soldado a um dos lados da sua pick-up.
Sem discusso, enlaaram a corrente em volta dos ps do vitelo e ficaram a puxar por turnos. Isto no era nada comparado com o que tinham passado pouco antes, mas
mesmo assim foi um trabalho difcil. O vitelo no estava a sair com facilidade e era difcil pux-lo com to pouca impulso.
Finalmente o vitelo deslizou para a frente e caiu para o cho num corrimento lquido de fluidos do parto e do saco amnitico. A novilha soltou um longo gemido e
sacudiu os flancos. Revirou os olhos e oscilou para trs e para a frente, puxando a corda com fora. Agora que as suas dificuldades tinham terminado estava indignada
e exasperada.
Como  isto? disse o Rusty. Vamos deix-la limpar a cria e j vamos saber em breve; depois colocamos a cria na parte de trs da carrinha e seguramo-la com firmeza
e levamo-la para o celeiro. Assim podemos tentar pr o pequeno rfo tambm a mamar nela.
Sim... Owen hesitou. A sua filosofia tinha sido sempre a de tentar usar e respeitar a ordem natural das coisas. Por que no tiramos o rfo para fora da carrinha
e o esfregamos nas secundinas? Talvez fique com um cheiro to familiar que ela julgue que teve gmeos.
O Rusty sorriu e foi buscar o vitelo. Mantiveram a cabea da me bem segura  pick-up de maneira que ela no podia chegar  sua cria nem mesmo v-la e envolveram
o rfo na imundcie at ficar parecido com o primo novinho em folha, que estava ainda molhado e enroscado no cho. Ento puseram os dois vitelos e desapertaram
a corda para que a novilha lhes pudesse chegar.
Ela estava agora muito agitada, puxando a corda com fora aos saces, soltando guinchos agudos e mugindo. Quando se apercebeu que a corda estava frouxa, puxou bruscamente
para trs e depois virou-se para farejar os vitelos. A sua lngua enorme iniciou o seu trabalho no vitelo mais novo, o seu beb natural e ficaram todos  espera.
Vamos l, me, murmurou o Rusty.
Se a vaca no aceitasse o beb, ia ser muito difcil salv-lo. Os recm-nascidos rfos que no recebiam aquele colostro na amamentao, era frequente morrerem,
apesar dos mais diligentes cuidados e de alimentao por garrafa. Claro que ainda tinham o plano do Rusty como ltimo recurso. Se no aceitasse aqui o vitelo, podiam
ainda levar os trs para o celeiro e tentar for-la a aceit-lo. Mas levar uma novilha que teve a sua primeira cria a aceitar um vitelo rfo raramente dava resultado
e se no o aceitasse aqui, depois de cheirar os seus prprios fluidos do parto, ento Owen sabia que tambm no o aceitaria no celeiro.
Limpou rudimentarmente o beb com a lngua. Depois empurrou ligeiramente o rfo. As suas enormes narinas dilataram-se. Deu-lhe um empurro com mais fora. Era frequente
uma vaca magoar seriamente ou at matar um rfo indesejado nos seus esforos para o afastar, por isso Owen estava atento a observar, pronto para socorrer o vitelo
no caso de este correr perigo. Ento l veio aquela lngua incrvel, deslizando pela pele molhada do impostor e eles deram um suspiro colectivo de alvio e trocaram
sorrisos.
Gmeos, disse o Rusty para a vaca, enquanto soltava a corda do pescoo. No vais ter mos a medir, mam.
Como resposta, ela baixou a cabea e fez uma investida contra ele, obrigando-o a correr para o refgio da cabina da pick-up. Owen riu s gargalhadas, at que a Meggie
gritou, Ateno! e tambm ele se precipitou para o refgio.
Mais tarde, depois de terem voltado para casa, de se terem lavado e devorado sanduches, o Rusty acompanhou Owen at junto da antiga casa dos trabalhadores.
Queria s agradecer-te mais uma vez, companheiro. O Rusty estendeu a mo. Vou ter orgulho em chamar-te cunhado.
Owen acenou com a cabea e voltou-se para continuar.
Sabes... confessou o Rusty. Tu no s como a Meggie e o Clancy te descreveram. Estava  espera de um indivduo completamente diferente do que, afinal, se verificou
seres.
Owen encolheu os ombros e sorriu. No queria chatices com Rusty Campbell.
Podes crer que espero que te decidas a ficar. Podamos fazer uma parelha dos diabos.
Vamos dar tempo ao tempo, disse-lhe Owen. Veremos como correm as coisas.
Entrou para a antiga casa dos trabalhadores. A Ellen tinha ido l e acendido o fogo e o candeeiro enquanto ele tinha estado fora, por isso o quarto estava quente
e acolhedor. Uma casa aconchegada para um trabalhador contratado se refugiar ao fim do dia, pensou ele amargamente.
Ningum sabia em que ano tinham sido despedidos os ltimos verdadeiros trabalhadores do rancho. Quando o rancho passou para as mos de Clancy, os beliches da camarata
j tinham sido desmontados e o edifcio era utilizado como local de armazenagem. Owen olhou  volta do quarto iluminado pelas chamas do lume. Aqueles trabalhadores
do rancho de antigamente tinham sido importantes nas suas fantasias da infncia. Queria ser como eles. Deu um riso abafado de ironia. O que estava ele para ali a
dizer? Tem cuidado com o que desejas... Bem, ele tinha certamente realizado o seu desejo de criana.
Mas mais tarde tambm queria ser bombeiro. E mdico veterinrio. E explorador submarino. E um mdico que encontra curas para doenas terrveis. E depois viu os Anjos
Azuis a voar na feira do estado e queria ser piloto de jacto de preciso. Sorriu pesarosamente. No s perante a lembrana de querer todas aquelas coisas, mas pela
lembrana do tempo em que pensava que podia ser o que quisesse.
Imaginou o que seria se as coisas tivessem sido diferentes e se tivesse continuado na universidade. Pensando nisso, achava que no fazia ideia de qual seria a resposta.
Era difcil estabelecer uma ligao entre as aulas que tinha frequentado e o resultado final de uma ocupao. Naquela altura, supunha que a universidade lhe tinha
parecido um fim em si mesma.
Sentou-se numa cadeira para tirar as botas e veio-lhe  cabea uma imagem
da me a levar aquela cadeira pelo outeiro acima, a gritar alegremente, Olha o que encontrei para ti!
A sua me estava em todo o lado naquele quarto. Quando tinha voltado para o rancho depois do funeral do Terry, tinha sido a me que tinha compreendido por que no
queria mais o seu antigo quarto na casa e tinha sido ela que o tinha ajudado a transformar a antiga casa dos trabalhadores no seu alojamento particular. Enquanto
ele reparava o telhado e as janelas, ela trabalhava no interior, reparando e pintando as paredes cheias de marcas to bem que era impossvel dizer onde tinham estado
fixados os antigos beliches. Costurou as cortinas de serapilheira que ainda estavam nas janelas. Limpou o velho fogo at ficar a brilhar como novo. Procurou moblia
por todo o lado, frequentou leiles e vendas estatais.
Lembrou-se de como tinha ficado contente com o seu espao privado, mas no conseguia lembrar-se do que estava a pensar para alm disso. Como tinha imaginado que
a sua vida ia prosseguir a partir de ento? Quando tinha vinte anos e ficava deitado por baixo dos cobertores naquela cama de ferro, a olhar para o tecto depois
de um longo dia de trabalho, alguma vez tinha questionado a sensatez das suas aces? Tinha tido pena de ter deixado a escola? Tinha-se imaginado a si prprio vinte
anos mais tarde na mesma cama? No conseguia lembrar-se. No entanto lembrava-se de que, sob a dor pelo seu irmo e o profundo sentimento de obrigao que sentia
pela famlia, ele tinha ficado timidamente ansioso por ocupar o lugar de Terry como o filho preferido.
O que teria acontecido se tivesse verificado naquela altura que nunca poderia substituir o seu irmo? Que ele seria sempre um pobre substituto aos olhos do pai.
A sua vida teria continuado de maneira diferente?
Owen subiu para a cama. Olhou para o tecto. Incapaz de imaginar muita coisa de quando tinha vinte anos, mas perfeitamente consciente de quem era aos trinta e dois
anos. Sabia que, se conseguisse o contrato com DeMille, no voltaria para o rancho. Aqueles dois vitelos daquela noite seriam os ltimos que ajudava a nascer.
No dia seguinte levantar-se-ia cedo e iria a cavalgar na gua nova pelos montes. Depois faria a mala. Faria uma seleco das suas coisas de maneira que fosse fcil
para a Ellen mandar-lhe o resto dos seus haveres para Nova Iorque, no caso de ele precisar que ela fizesse tal coisa. Depois embarcaria no voo da uma da tarde e
teria partido.
E em poucas horas estaria junto de Lenore. Tinha ficado demasiado tarde para lhe telefonar depois de ter terminado o trabalho com o nascimento dos vitelos. Embora
se tivesse sentido tentado. Tinha desejado ouvir a sua voz fraca e sonolenta e saber que ficava excitada e nua por baixo dos cobertores, enquanto conversavam. Mas
no queria assust-la nem sobressalt-la com uma chamada a altas horas da noite. Por isso resistiu.
Pensou que agora estava a perceber. Ela s o tinha afastado porque tinha receio. Receio de que ele estivesse a tornar-se demasiado possessivo, demasiado exigente.
Receio de deslizar para algo perigoso.
J no lhe parecia que fosse importante o facto de ela estar a esconder James Collier e a proteg-lo. Esconder James Collier no fazia dela culpada. E
j no lhe parecia importante saber quais eram as relaes entre ela e James Collier. Lenore era tudo o que lhe interessava.
Lenore.
S o facto de pensar nela provocou uma onda de calor por todo o seu corpo e teve de fechar os olhos. Queria que a noite passasse. Que as horas passassem. Para poder
voltar a v-la.
20
J passava das nove horas quando Owen passou pelo porto de ferro forjado. No tinha conseguido falar com a Lenore pelo telefone, mas tinha deixado vrias mensagens
a dizer que estaria de volta naquela noite. Agora, depois de ter conduzido directamente do aeroporto para ali, ia surpreend-la. Tinha ficado com a chave no dia
em que tinha ido limpar a neve do caminho, por isso no precisava de usar o intercomunicador. Bastou-lhe rodar a chave e o porto abriu-se. Conduziu atravs das
pequenas matas de rvores e pelos campos ondulados, depois viu as torres e os pinculos da Arcdia a cintilar  luz da lua cheia. Devia ter sido uma vista fantstica.
Mas a criao grandiosa de Bram Serian tinha perdido todo o seu mistrio para Owen e agora a grande criao de Serian despertava mais pena do que admirao.
Lenore abriu a porta da frente no momento em que ele parou. Tinha a espingarda encaixada no brao. Ele saiu rapidamente do carro para a tranquilizar.
Sou o Owen! gritou ele, tirando do banco de trs as gravaes da entrevista com a Milly. Dois conjuntos, visto que as tinha duplicado tinha feito cpias para a Lenore.
Podes guardar essa arma.
Ela no se mexeu.
Lenore? Comeou a avanar. Lenore, o que se passa?
Fica a quieto, ordenou ela, levantando o cano da espingarda para fazer pontaria. Na verdade no estava apontada para ele, mas era sem dvida uma ameaa.
Lenore, eu no...
No tentes enganar-me, Owen. No mintas. Vieram hoje buscar o Jimmy e tu eras a nica pessoa que sabia que ele estava aqui.
Vieram buscar o Collier? Mas... quem?
No te armes em parvo, por favor. Ests a insultar-nos aos dois.
Lenore, eu no disse a ningum que estive aqui. Juro que eu...
Acreditei em ti! A sua voz fraquejou e o cano da espingarda desceu um pouco.
Os olhos dele seguiram a espingarda. Ser que ia disparar? Seria afinal capaz de matar?
Recuperou a espingarda e a compostura. Vai-te embora, disse ela friamente. Afasta-te de mim.
Lentamente, levantou um conjunto de cassetes. Eu vou, disse ele, demasiado chocado para discutir. Mas esto aqui as cassetes com a minha entrevista com Camille Corwin.
Precisas de as ouvir... independentemente do que penses de mim. Elas contm as tuas respostas, Lenore. Falam do teu pai.
Ela usou o cano da espingarda para lhe indicar um lugar  beira do terrao de pedra. Coloca-as ali, disse ela. Depois mete-te no carro e no voltes mais aqui.
Owen conduziu de forma imprevisvel. Mais rpido do que devia. Mais devagar do que devia. Deixou passar as sadas da auto-estrada e teve de voltar para trs.
Foi tudo um erro. James Collier. Maldito James Collier. Tinha de fazer a Lenore ver. Tinha de a fazer compreender. Tinha de esclarecer as coisas.
Parou no apartamento para descarregar, depois voltou ao escritrio de aluguer de automveis na zona alta de Manhattan e meteu-se no metropolitano para voltar para
a baixa. J passava da meia-noite. No dia seguinte tinha de ir para o julgamento. Veria a Lenore. No dia seguinte ela estaria mais calma. J teria ouvido as cassetes.
No dia seguinte saberia que ele tinha encontrado as respostas que procurava. Tinha encontrado o seu pai.
Olhou de repente para cima e verificou que tinha deixado passar a sua paragem. Saltou rapidamente para fora do comboio. Sem saber onde estava. Que importava? Podia
caminhar. A que distncia podia estar? De qualquer modo, aqui nunca fazia exerccio fsico suficiente. No tanto como estava habituado a fazer. Nada que se parecesse
com cortar cavacos, ou perseguir animais teimosos, ou montar cavalos, ou construir vedaes. Oh, meu Deus. Caiu numa descida de cimento. Sentia muito frio por baixo
dos jeans. Onde  que diabo estava ele? O que andava ele a fazer?
As pessoas na rua passavam vagarosamente por ele. Uma mulher muito magra com um beb na anca ofereceu-se para lhe fazer uma mamada por dez dlares.
Levantou-se e comeou a andar. Passava de uma rua para a outra. Nada lhe parecia familiar, mas ele j no se importava. Queria perder-se de tal maneira que nada
lhe fosse familiar dali em diante. Quando o cu comeou a clarear, parou de caminhar. Desistiu. Porque a ilha de Manhattan no era suficientemente grande para o
que ele precisava de perder.
De qualquer maneira voltou para o apartamento e preparou-se a tempo de apanhar o seu comboio habitual da manh. Era quinta-feira. Dcimo segundo dia do julgamento.
Sabia isso porque guardava cuidadosamente os registos. Nmero de dias. Nmero de testemunhas. Nmero de objectos apresentados como provas. Mas no lhe parecia que
tivessem passado apenas doze dias.
Parecia-lhe que tinha passado anos na sala de audincias nmero 6, a assistir ao julgamento de Lenore Serian.
Chegou cedo ao tribunal e foi  procura do grupo do caf da manh da Holly e da Marilyn, to desejoso de saber notcias que no se importava de se encontrar com
a Holly. Encontrou o grupo ao fundo das escadas, junto das mquinas automticas de venda, mas a Holly no se encontrava entre eles. Ningum sabia onde estava. A
Marilyn, a Pat e o Ray relataram a Owen com toda a boa vontade os acontecimentos de tera e quarta-feira. Clay Southey, outro dos convidados na festa de Serian,
tinha testemunhado, afirmando que tinha ouvido a mesma discusso a altas horas da noite entre o Bram e a Lenore de que Natalie Raven j tinha falado detalhadamente.
Este era o convidado que tinha ajudado a acabar com a briga entre as duas mulheres e que tinha ajudado a tentar confortar Natalie Raven naquela noite.
Owen mal conseguia acompanhar a escrever o que os trs reprteres iam dizendo  medida que consultavam as suas notas e falavam ao mesmo tempo, citando as afirmaes
das testemunhas e acrescentando comentrios de opinio e bisbilhotice. Depois de Southey tinha havido um advogado da firma que administrava a propriedade de Bram
Serian. Brown tinha-o usado para mostrar quanto a Lenore teria perdido num divrcio e quanto teria ganho se se tivesse concludo que a morte do marido tinha sido
acidental.
Depois, na quarta-feira, o Dr. Gavril, o patologista que tinha feito a autpsia do corpo de Serian, finalmente tinha superado os seus problemas pessoais e foi trazido
 barra das testemunhas. Gavril utilizou termos tcnicos para descrever a intensidade de calor necessrio para produzir toda a deteriorao que o corpo de Serian
sofreu. Afirmou com autoridade que tinha verificado a presena de acelerante na rea do tronco mas no nos membros. Finalmente apresentou esclarecimentos sobre o
tecido dos pulmes e como tinha concludo que o fumo no tinha sido inalado e portanto a morte tinha ocorrido antes do incndio. Depois falou sobre o ferimento no
crnio e de como estava de acordo com a forma e o tamanho da lmina do machado.
O Ray relatou com algum agrado os pormenores sangrentos do testemunho de Gavril e as reaces do jri, quando foram distribudas fotografias do corpo incinerado.
O Ray descreveu entusiasmado os restos fundidos do relgio de Serian, dos anis e da pesada bracelete indiana de prata, que tinham sido apresentados como provas.
Depois ridicularizou as perguntas do contra-interrogatrio de Rossner, dizendo que o advogado de defesa tinha sido demasiado estpido para perceber sequer a maior
parte do que Gavril estava a dizer.
No fales demasiado cedo, advertiu a Marilyn. A continuao do contra-interrogatrio da defesa  hoje.
E depois temos a testemunha importante... disse a Pat. Conhece a testemunha importante?
Qual testemunha importante? perguntou Owen, mas ele j sabia qual era a resposta.
James Collier! responderam todos ao mesmo tempo.
Oh meu Deus! No sabe do grande furo da Holly? gritou a Pat.
No l o jornal? perguntou o Ray.
Ele tem estado no Kansas, disse a Marilyn friamente, como se o Kansas fosse semelhante aos lugares distantes dos Himalaias.
A nossa amiga Holly acertou em cheio, disse-lhe o Ray orgulhosamente.
Houve uma fonte que lhe deu a informao de que o delegado do ministrio pblico tinha descoberto a testemunha desaparecida, esclareceu a Pat. E de alguma maneira
ela convenceu o gabinete do delegado do ministrio pblico a colaborar com ela e foi imediatamente com a sua equipa para a Arcdia a tempo de filmar o Collier a
ser apanhado. Foi uma grande jogada da parte dela. Provavelmente est a receber alguma espcie de prmio ou promoo esta manh.
J se sabe se o Collier vai ser acusado? perguntou o Ray. Ouvi dizer que ele pode ser mesmo acusado por cumplicidade.
No. A Marilyn abanou a cabea. A acusao desistiu desse propsito. No sei se vai ser acusado por se ter escondido ou no.
Ele vai ser uma testemunha pouco simptica, no vai? perguntou a Pat, e tanto a Marilyn com o Ray se riram e garantiram que ele ia ser o mais antiptico possvel.
Ouvi dizer que o Rossner tem tentado todos os truques que a lei permite para impedir que ele seja levado a testemunhar, disse o Ray.
A Marilyn baixou a voz com ar de cumplicidade. Nenhum dos truques deu resultado. Rossner ainda tentou ver se conseguia um adiamento. Tem protestado contra esta sbita
testemunha surpresa, alegando que precisa de se preparar, etc., etc. o que  uma grande treta, porque o Rossner soube sempre que, se descobrissem o Collier, iam
imediatamente coloc-lo na barra das testemunhas. At agora o velho Pulaski no se mexeu um centmetro. Acho que o meritssimo est ansioso por que tudo isto acabe
e que a sua sala de audincias volte ao normal.
O que  que se tem passado? perguntou Owen. O que fizeram ao Collier?
Interrogatrios constantes. A Marilyn encolheu os ombros. Depoimentos por tudo e por nada. Que mais? As minhas fontes dizem que o Brown no sabe muito bem como lidar
com ele na cadeira das testemunhas.  uma questo muito delicada. O jri vai estar perante um homem religioso a jurar sobre a Bblia que vai dizer a verdade e, a
no ser que o Brown consiga apanh-lo numa mentira descarada, o jri provavelmente vai acreditar que o Collier est a dizer a verdade, independentemente do facto
de o Brown o descrever como um ser desprezvel. Por isso o Brown vai ter de pensar muito bem nas perguntas que lhe vai colocar.
Ser que o Collier vai contar a verdade? perguntou Owen.
Quem sabe? a Marilyn esboou por momentos um sorriso felino. Mas em breve vai poder julgar por si prprio porque, a no ser que o Rossner aparea com uma varinha
mgica, James Collier vai estar na barra das testemunhas hoje ou amanh. Logo a seguir ao Gavril. E depois o delegado do Ministrio Pblico dar por terminada a
acusao.
Owen teve de se afastar. Agradeceu-lhes, murmurou uma desculpa esfarrapada e subiu as escadas, para se sentar num banco no extremo oposto do edifcio, o mais afastado
possvel da sala de audincias do Juiz Pulaski.
Sentia uma raiva que lhe fazia revolver as entranhas e lhe comprimia o peito. A Holly! A Holly tinha denunciado James Collier!
A Holly tinha-se debruado sobre o seu ombro no caf, enquanto o seu bloco de notas estava aberto e tinha visto alguma coisa. Depois, enquanto ele foi  casa de
banho para se esconder dela, ela tinha aberto o bloco de notas e tinha escrito uma mensagem como desculpa... e tinha lido a pgina onde estava escrito, QUEM  O
JIMMY? POR QUE EST ELA A ESCOND-LO?, e tudo o mais que Owen tinha escrito. E como uma reprter sempre alerta que era, a Holly ficou imediatamente a saber que tinha
tropeado numa mina de ouro.
Questionou-se se a conscincia dela a teria incomodado minimamente, enquanto fazia o seu arranjinho com o gabinete do delegado do ministrio pblico. Perguntou-se
se ela teria sentido outra coisa que no fosse uma mera satisfao egosta, quando apresentou directamente da Arcdia a apreenso de James Collier.
Oh, meu Deus! Ps a mo na testa. Algumas semanas atrs, se algum lhe tivesse apresentado isto como uma situao hipottica, uma vaga questo moral, ele teria dito
que sim, absolutamente, que denunciar James Collier seria a coisa mais acertada. Mas agora... as atitudes da Holly pareciam-lhe um crime ainda maior do que o facto
de James Collier se esconder da lei.
Quando faltavam dez minutos para as nove, desceu pelo corredor para a sala de audincias. A Lenore e os seus dois acompanhantes apareceram ao virar da esquina da
direco oposta, quando ele estava a aproximar-se das portas. Queria falar com ela. Mas no conseguiu encontrar as palavras e tudo o que conseguiu fazer foi ficar
ali num silncio de culpa. 
Ela passou por ele como se ele fosse invisvel. Volpe dirigiu-lhe um olhar assassino e Riley olhou para ele numa atitude que parecia ser de simpatia. Esperou vrios
minutos, depois passou pelas portas duplas. A Holly estava no seu lugar habitual da frente, com o espao ao lado  sua espera. Ele deslizou para um banco trs filas
atrs, para junto de uns reprteres de cujos nomes j se tinha esquecido.
A Lenore estava sentada muito direita l  frente, sem se voltar sequer para Rossner, quando o advogado falava para ela. Rossner estava esta manh com o aspecto
desgrenhado e inquieto, e Owen teve a impresso que ele estava a ser autntico. O que queria aquilo dizer? Rossner no estava a perder, ou estava?
Gavril entrou e sentou-se na cadeira das testemunhas. Era um homem um pouco rechonchudo, de aspecto meigo, apesar do seu fato muito bem talhado. O seu porte sugeria
uma grande confiana e logo que se sentou, cruzou as pernas e encostou-se para trs, sorrindo com o ar de profissional e de superioridade.
Rossner avanou. Dr. Gavril, eu sei que o senhor  um homem muito atarefado e vou tentar no o manter afastado dos seus importantes afazeres por muito tempo.
Gavril inclinou levemente a cabea.
Ora, onde ns ficmos ontem, Doutor, foi com o senhor a explicar novamente como soube que havia vestgios de algum tipo de acelerante no tronco do corpo mas no
nos membros. E o senhor conduziu-nos com toda a pacincia atravs da anlise dos tecidos e tudo isso e  espantoso como o senhor conseguiu contar-nos tanta coisa...
por isso podia, por favor, dizer-nos se Bram Serian se cortou algures no meio de todo aquele vidro partido?
No. No tive maneira de verificar isso. Mesmo que no tivesse havido um nvel muito elevado de destruio dos tecidos, as elevadas temperaturas fazem saltar a pele
em numerosos lugares e essas leses no se distinguiriam de cortes depois de um incndio.
Rossner simulou uma expresso enlevada e, de certo modo, de espanto. D a sensao que o prprio fogo provoca feridas no corpo, no  verdade?
Inquestionavelmente. O fogo  extremamente destrutivo. Gavril sorriu com ar complacente.  por isso que existe a cremao. A uma temperatura suficientemente elevada,
tudo  reduzido a cinzas.
Ento o fogo pode mesmo danificar os ossos?
Com certeza. As vrias fracturas presentes no defunto resultaram do fogo.
Rossner olhou para a testemunha absolutamente perplexo. Vrias fracturas? O senhor quer dizer que Bram Serian tinha outros ossos partidos para alm do crnio?
No estavam partidos no mesmo sentido que o crnio estava danificado, mas sim, havia algumas fracturas. O que  comum em ossos que foram sujeitos a temperaturas
elevadas.
O senhor pode dizer-nos se essas fracturas se deram antes do incndio?
No. No entanto isso seria altamente improvvel.
E porqu?
Porque, como j afirmei, essas fracturas so comuns a elevadas temperaturas.
Portanto, no corpo de Bram Serian, pode dizer-nos a ordem pela qual se deram as fracturas?
No. Como j disse, a nica certeza  que ele no estava a respirar quando comeou o fogo.
Essa  a nica certeza?
Sim.
Ento nesse caso no pode dizer-nos muita coisa sobre a fractura do crnio, pois no?
Pelo contrrio, posso dizer muita coisa sobre a fractura do crnio.
O senhor observa com frequncia este tipo de estragos... em que h bocados partidos que foram comprimidos para o interior?
Sim. Isso  compatvel com uma grande variedade de circunstncias.
Fale-nos de algumas das formas em que uma pessoa pode ficar sujeita a esse tipo de leso.
Variados traumatismos na cabea. Ser atingido com um objecto que tenha uma extremidade pontiaguda. Encolheu os ombros. Ficar sob os escombros de um edifcio que
se desmoronou.
E desse tipo de leso resulta sempre a morte?
Eu no o caracterizaria como cem por cento fatal, mas as hipteses de uma vtima sobreviver a uma leso desse tipo so poucas.
Acidentes de automveis? Pode-se ferir a cabea desta maneira num acidente de automvel?
Com certeza. Se fosse projectado e se a cabea batesse na superfcie apropriada.
Acidentes em casa...  possvel que esse tipo de leso acontea na nossa prpria casa?
Gavril deu um suspiro de impacincia. Sim. Uma queda pelas escadas abaixo... uma queda no chuveiro... escorregar no cho molhado da cozinha.
Mas no basta bater com a cabea no cho?
No. Teria de bater com a cabea numa extremidade ou num objecto apropriado. Na esquina de um balco, no ngulo de um degrau de madeira...
A esquina de um tijolo, talvez?
Sim. Esse tipo de coisas.
Portanto o ferimento do crnio de Bram Serian podia ter sido provocado por uma queda em que ele batesse com a cabea na extremidade de um canto de tijolo do fogo
no seu estdio?
No  essa a minha concluso.
Mas o senhor no disse que esse ferimento podia ter sido provocado por uma queda desse tipo?
Sim.
E no disse anteriormente, ao Dr. Brown, que no havia maneira de determinar categoricamente que a cabea do machado estivesse envolvida porque no havia vestgios
de metal que tivessem sido retirados da rea do ferimento?
Sim. Mas... ^
E no nos disse que nem sequer havia maneira de determinar se as fracturas tinham sido causadas pelo fogo ou se tinham acontecido antes ou depois da morte?
Eu estava a referir-me s fracturas noutros ossos da cabea.
Ento havia uma maneira de determinar que a fractura do crnio de Bram Serian aconteceu antes da sua morte?
No. Contudo h concluses lgicas a que se pode chegar. Ele foi morto por alguma coisa.
Oh. Ele foi morto por alguma coisa? O senhor quer dizer alguma coisa como algo desconhecido? Como chocar contra um cubo de gelo e depois imaginar qual seria a causa
da morte, porque o cubo de gelo derrete-se e depois o que se tem?
Eu, como patologista especializado, estudei todos os indicadores fsicos e conclu que a causa mais provvel da morte foi a fractura do crnio.
A causa mais provvel, heim?
Sim. A medicina  muitas vezes uma combinao entre a arte e a cincia.
Isso quer dizer que o senhor no pode afirmar, com toda a certeza e categoricamente, sem a mnima dvida, se Bram Serian bateu com a cabea e morreu ou se caiu j
morto e bateu com a cabea quando caiu?
#Eu posso...
Doutor, tem a certeza absoluta se foi de uma ou de outra maneira?
No.
O senhor pode afirmar, com toda a certeza, categoricamente, sem a mnima dvida, qual foi exactamente o objecto ou superfcie ou extremidade que deu origem  fractura
no crnio de Bram Serian?
No.
Nesse caso, podia perfeitamente ter sido a extremidade do tijolo, no podia?
Gavril deu um suspiro de desagrado. Sim.
Podia ter batido com a cabea contra a extremidade do tijolo como consequncia da queda, no  verdade?
Sim.
O senhor referiu anteriormente que escorregar num cho molhado podia ser a causa de uma queda... portanto ele podia ter partido o candeeiro, depois podia ter escorregado
no charco de petrleo e batido com a cabea nos tijolos... acha que isso era possvel?
Vagamente possvel.
Mas possvel, correcto?
Correcto.
Owen esgueirou-se mesmo antes de o juiz anunciar o intervalo para o almoo e abandonou imediatamente o tribunal. Voltou para a baixa da cidade, para a estao dos
comboios e foi a um bar por onde j tinha passado vrias vezes. Parecia-lhe um lugar seguro onde podia comer sem dar de caras com ningum conhecido.
O hambrguer era gordurento e o ambiente era deprimente. Sentou-se sozinho ao fundo do bar, a pensar no que tinha acontecido e no papel que ele tinha desempenhado
nos acontecimentos. Tinha trado a Lenore. Por falta de cuidado, se no houvesse outro motivo. Tinha andado to ocupado a afundar-se na sua prpria confuso que
no tinha protegido suficientemente os segredos.
Havia uma cabine telefnica nas traseiras. Telefonou a Bernie. Tinha sado para ir almoar, por isso transmitiu ao Alex o resumo da viagem a casa de Milly Corwin.
E prometeu que a proposta estaria nas mos da Bernie no dia seguinte, que a deixaria na caixa do correio da porta do escritrio logo de manh, antes de ir apanhar
o comboio.
O Alex falou com grande entusiasmo do livro de Owen, que ia ser dinamite, depois comentou que ele parecia estar muito em baixo. Owen disse que estava apenas cansado.
Deve ser do mal de voo, riu-se o Alex. Ouvi dizer que esses voos para o Kansas podem ser perigosos.
Com certeza. Owen fez um riso forado para ser agradvel.
Oh... o Cliff recebeu a mensagem que deixou na nossa mquina na tera-feira e j est a trabalhar nisso. Est a ter dificuldades em conseguir informao
militar sobre Abe Hanselmann. No sei ao certo porqu. Andou a telefonar a alguns amigos piratas informticos para tentar resolver o problema. Mas quanto ao outro
nome Benjamin Hanselmann de Ridley, Kansas disse-me para lhe dizer que o gajo nunca esteve no exrcito. Em nenhum ramo das foras armadas. E no h quaisquer registos
de ele ter estado a trabalhar no Vietname em alguma funo autorizada de apoio civil ou competncia mdica.
Obrigado, disse Owen, questionando-se sobre o significado desta notcia. Ser que toda a experincia de Bram Serian na guerra do Vietname era pura fico?
Voltou a subir a rua em direco ao tribunal. As suas emoes e os seus pensamentos estavam num tal estado de confuso que j no confiava em si prprio. No sabia
o que esperar. No podia prever o que poderia fazer ou dizer a seguir.
Procurou ansiosamente pensar numa maneira de se redimir rapidamente com a Lenore. Se ao menos no lhe tivesse deixado as cassetes. Podia us-las como motivo para
se encontrar com ela. Mas agora o que precisava ela dele? Nada. Tinha de arranjar alguma nova informao para ela.
Ocorreu-lhe que havia uma pista bastante simples que ele ainda no tinha seguido o obiturio que tinha encontrado entre os papis de Serian. O falecido tinha passado
a maior parte do tempo na Tailndia e Owen tinha de acreditar que a Tailndia era a ligao que o Serian tinha com o homem. Se a viva ainda vivia em Connecticut,
talvez ele pudesse seguir a pista dela. Talvez ela tivesse informaes importantes. Era uma vaga possibilidade, mas valia a pena fazer uma tentativa. Qualquer coisa
valia a pena tentar. Tudo.

O Povo chama James Collier!
James Collier dirigiu-se para a barra das testemunhas com um simples fato escuro, de tal modo que parecia uma pessoa que carrega o caixo num funeral. A sua pele
rugosa e cheia de marcas estava plida e os olhos estavam inchados e ensombrados. Com certeza que era devido aos constantes interrogatrios a que tinha sido submetido
desde que o tinham capturado. Quando levantou as mos para jurar sobre a Bblia, tremia tanto que Owen se apercebeu dez filas atrs.
Senhor Collier, disse Brown, evidenciando uma animosidade sarcstica, ou devo chamar-lhe Irmo Collier?
Na verdade, as pessoas dirigem-se a mim como Irmo James.
Ah. Muito bem. Irmo James, ento...
Brown fez perguntas ao homem sobre a sua vida como irmo Catlico e sobre o seu trabalho a ensinar crianas, desacreditando-o em todas as oportunidades com insinuaes,
expresses faciais e ironias constantes.
Diga-nos, Irmo James, como se familiarizou com Lenore Serian?
Conheci-a atravs do seu marido, Bram Serian.
Como e quando conheceu Bram Serian?
Ele foi a uma angariao de fundos de caridade para a minha escola oito meses antes da sua morte.
E Lenore Serian acompanhava-o?
No.
Quando conheceu Bram Serian, sentiu imediatamente alguma afinidade com ele ou alguma coisa em comum?
Sim.
E como passou desse encontro numa actividade pblica para um nvel mais pessoal de conhecimento?
Ele convidou-me para ir tomar uma bebida com ele e estivemos a conversar sobre arte. Eu andava preocupado com o facto de o programa de educao artstica no ser
adequado.
E depois?
O tempo passou. Ele pagou-me o jantar.
Ento o homem estava a oferecer-lhe a sua amizade? Collier hesitou. Sim.
Quando se familiarizou com a esposa do seu novo amigo?
O Bram levou-me a jantar fora mais algumas vezes e foi  escola para dar aos nossos alunos uma conferncia sobre arte. Eu j o conhecia havia quatro meses quando
me convidou para ir a ver Arcdia pela primeira vez.
Foi a uma das suas festas?
No. Foi num dia calmo, s com ele e Natalie Raven e a sua esposa.
Durante quanto tempo esteve na propriedade?
Fui para l na sexta-feira de manh, de comboio, passei l a noite e voltei para Manhattan depois... depois do incndio.
Lenore Serian foi simptica consigo?
Sim.
Passou algum tempo sozinho na companhia dela?
Houve um espao de tempo durante o qual o Bram foi para o seu estdio e a Natalie andava atarefada e durante esse tempo Lenore levou-me a dar um passeio a ver o
lago.
Quem  que teve a ideia?
Na verdade foi ideia do Bram.
Qual foi o tema da sua conversa com esta mulher que tinha acabado de conhecer?
O bem e o mal. A Lenore estava muito interessada em saber qual era o meu ponto de vista pessoal sobre o assunto e tambm queria saber qual era o ponto de vista da
igreja.
Ahhh. Brown acenou com a cabea deliberadamente. E quanto tempo durou esse passeio e essa conversa filosfica?
Vrias horas.
Estou a ver. E qual foi a ocasio seguinte em que contactou com Lenore Serian?
A vez seguinte em que fui convidado para a Arcdia. Duas semanas depois.
E estava a corresponder ao convite de quem?
Do Bram.
Voltou a ter oportunidade de estar sozinho com Lenore Serian?
Sim.
Durante quanto tempo?
Durante duas ou trs horas.
E qual foi o tema de conversa enquanto esteve sozinho com Lenore Serian desta vez?
Falmos sobre o Bram e a sua arte.
Apreciou a companhia desta mulher?
Sim.
Quantas visitas mais houve  Arcdia anteriores  morte de Bram Serian?
Cinco. Incluindo o fim de semana em que... o fim de semana do incndio.
E em cada uma dessas visitas passou vrias horas sozinho na companhia de Lenore Serian?
Sim.
E no sentiu nenhum constrangimento?
No. Lenore era muito simptica comigo.
Alguma vez contactou com Lenore Serian fora da Arcdia?
No.
Alguma vez falou com ela sem o conhecimento do seu marido? James Collier respirou com ar de resignao. Sim. Ao telefone.
Com que frequncia?
Variava.
Nas duas ltimas semanas antes da morte do marido, com que frequncia falou com Lenore Serian?
Todos os dias.
Quem  que comeava essas chamadas, o senhor ou ela?
Sobretudo eu. Era eu que normalmente lhe telefonava. 
E sobre que falavam vocs os dois nessas conversas ao telefone, das quais o marido dela no tinha conhecimento?
Falvamos sobre o Bram e sobre quando  que eu ia voltar  Arcdia.
Ela alguma vez falou de como seriam as suas vidas se ela ficasse livre do marido?
No. No falou.
Brown afastou-se da testemunha por instantes, manifestando repugnncia. Depois, com alguma relutncia, voltou atrs.
Quem o convidou para a festa no fim-de-semana entre os dias cinco e sete de Agosto?
Foi a Lenore.
O senhor pediu-lhe que o convidasse?
Disse-lhe que gostava de ir.
Por que no telefonou ao seu amigo Bram Serian para lhe solicitar um convite?
Collier baixou os olhos. Ele no queria que eu fosse.
Oh? E ele deu-lhe algum motivo para no querer a sua companhia?
Ele no achava apropriado que algum da igreja estivesse em nenhuma das suas festas.
E qual foi a sua resposta a essa preocupao dele?
Disse-lhe que estava confuso quanto  igreja. Que estava a ficar indeciso quanto ao cumprimento do meu compromisso para com a igreja.
E qual foi a reaco de Bram Serian a essa sua confisso?
Avisou-me que devia ter a certeza, antes de dar passos drsticos. Brown fez uma pausa para folhear as suas notas e depois mudou a sua ateno para o fim-de-semana
em que se deu o incndio. Levou Collier a descrever os acontecimentos da noite de sexta-feira: a sua chegada a Arcdia e a fria de Bram Serian por ele ter aparecido.
A que atribuiu aquela fria, Irmo James?
 minha desobedincia relativamente aos seus desejos e ao facto de ter vindo  festa.
Ele disse-lhe alguma coisa em que manifestasse o seu aborrecimento com a sua relao ntima com a esposa dele?
No. No disse.
O que aconteceu depois?
Natalie Raven indicou-me um quarto e toda a gente foi dormir.
Teve mais algum contacto com a senhora Serian naquela noite?
No.
Mas foi a primeira pessoa que viu na manh seguinte, no foi?
Sim.
Conte-nos, por favor, como  que se encontrou com a senhora Serian na manh seguinte.
No dormi bem e logo que amanheceu, levantei-me para ir dar um passeio. Estava muito calor. Mesmo de manh. Caminhei at ao lago e sentei-me na margem, pensando
que estava sozinho. Depois vi que Lenore tambm estava l. A nadar.
A nadar naquele tanque ao romper do dia?
No era bem um tanque mas mais um lago em miniatura, alimentado por uma nascente, segundo me disseram, por isso a gua era muito clara e agradvel. Toda a gente
nada nele. E quanto s horas... no me parece que seja assim to extraordinrio as pessoas levantarem-se por volta das sete e meia da manh.
E ento chamou a senhora Serian... deu-lhe a conhecer a sua presena?
Sim. E quando lhe dei um grito, percebi que ela estava a nadar nua e fiquei preocupado que ela ficasse embaraada, por isso disse-lhe imediatamente que me ia embora.
E qual foi a reaco dela?
Ela deu tambm um grito e disse-me que no me fosse embora. Que eu estava muito bem ali. E depois nadou para longe da minha vista e cinco ou dez minutos mais tarde
apareceu a caminhar pelo meio das rvores, toda vestida e com uma toalha  volta do cabelo.
E o que aconteceu a seguir?
Ficmos sentados a conversar.
A falar do que era habitual, suponho eu, disse Brown sarcasticamente.
Sim. Mais, ela disse-me que gostava de ir nadar de manh cedo nas festas de fim-de-semana, pois assim tinha o lago s para ela.
Portanto aquilo era um costume dela? Ir nadar nua de manh cedo?
Sim.
E o senhor j devia ter ouvido falar do costume dela... j sabia com antecedncia que ela estava ali, no sabia?
Podia saber, mas no sabia.
Passaram quase duas horas, enquanto Brown obrigava James Collier a descrever todos os movimentos que tinha feito no sbado, durante a festa. Conseguiu levar Collier
a confessar que no devia ter estado l e que o Bram continuava aborrecido com ele e que no se adaptava bem no meio dos outros convidados, nem com as actividades.
Mas fosse qual fosse a sua abordagem, no conseguiu que Collier admitisse qualquer relao fsica com a Lenore.
Para Owen, James Collier transformou-se num objecto de compaixo. O homem tinha andado preocupado com o seu compromisso religioso, extremamente infeliz e desconfortvel
na festa, perturbado com o aborrecimento de Bram Serian e aparentemente envolvido num romance frustrante e inconsumado com a Lenore.
Agora, Irmo James, onde estava o senhor na manh do dia sete de Agosto, pouco antes de as festividades da noite se dispersarem?
Estavam todos juntos l fora a beber e, de um modo geral, a divertir-se at ao excesso e eu afastei-me um bocado e sentei-me.
A divertir-se em excesso?
A beber muito e a tomar diversas drogas.
Oh! Mas o senhor no!
No.
Havia algum que se abstivesse desse comportamento? -^
Parece-me que a Lenore era a nica pessoa que se abstinha totalmente.
Pode contar-nos o que aconteceu?
Houve algumas pequenas discusses e algum ligou um rdio, o que desagradou ao Bram, mas havia tanto barulho... e algumas pessoas levantaram-se e comearam a danar
como loucas... e por isso ningum reparou no aborrecimento do Bram por causa do rdio. Mas eu estava sbrio e tinha estado a observ-lo,  procura do momento adequado
para falar com ele em particular, por isso vi-o levantar-se. Primeiro pensei que se dirigisse para o rdio para o desligar, mas depois ele virou-se de repente e
avanou para o meio da zona mais escura, para onde estavam as mesas com comida que tinham ficado depois do jantar. Esperei por momentos e depois segui-o. Era difcil
ver naquele lugar, depois de ter estado  luz do candeeiro, por isso dirigi-me para ele antes de me aperceber que no estava sozinho.
O que fez ento?
Logo que vi que ele estava a falar com algum, voltei-me e comecei a afastar-me... e ento vi a Lenore no meio das rvores... a observ-lo.
Dava a sensao de estar a espi-lo?
Pela primeira vez, James Collier mostrou uma centelha de raiva. No me parece. Acho que ela provavelmente tinha-o seguido... provavelmente
queria estar com ele em particular... tal como eu, e estava  espera que o outro homem se fosse embora para poder aproximar-se dele.
E ento o que fez?
Voltei para junto do grupo.
E viu tambm a senhora Serian a regressar?
No.
Quando voltou a ver Bram Serian?
Ele voltou passados cerca de vinte minutos, estava sem flego, como se tivesse andado a correr e comunicou a toda a gente que ia deitar-se. E disselhes que eles
tambm deviam ir. Depois dirigiu-se para o estdio.
A senhora Serian estava  vista desta vez?
Comecei a dirigir-me para o Bram mais uma vez, na esperana de lhe dar uma palavra e vi a senhora Serian a sair das rvores e a segui-lo para o estdio.
Ouviu alguma conversa que se passou entre Bram e Lenore Serian? Um olhar de profundo desgosto reflectiu-se nas feies de James Collier.
Sim, ouvi-a a cham-lo. Ela disse, No vou deixar-te, Bram. Juro que vou impedir-te.
#21
Na sexta-feira de manh havia uma multido de gente a tentar passar a segurana do tribunal. Os constantes flashes informativos da Holly tinham reacendido um frenezim
de entusiasmo e mais uma vez havia longas filas de ansiosos espectadores.
Owen esperou pela sua vez para passar pelos detectores de metais e seguiu o fluxo de pessoas que subiam as escadas. Ele tambm estava ansioso, mas por motivos completamente
diferentes. Tinha falado na noite anterior com a viva do homem do obiturio,  procura da ligao com a Tailndia.
Tinha sido muito simples. A nica coisa que teve de fazer foi ligar a pedir informaes sobre a zona de Ridgefield, Connecticut, e em poucos segundos tinha-lhe sido
dado o nmero de Franoise Newman. Depois marcou o nmero, introduziu as moedas e ouviu o telefone a tocar algures no Connecticut.
Estou. Era uma voz feminina com uma forte pronncia francesa. ^
 a senhora Franoise Newman?
 a prpria.
O meu nome  Owen Byrne. Ando  procura de informaes sobre pessoas que tiveram alguma ligao com a Tailndia h alguns anos.
Oh? Diga-me outra vez o seu nome para eu poder tomar nota. Ele soletrou-lhe o nome.
Que espcie de informao procura, senhor Byrne? O meu marido j faleceu e lamento, mas ele  que era especialista sobre a Tailndia.
Mas eu no preciso de um especialista em questes tailandesas, declarou ele. Ando  procura de pessoas. A senhora conheceu um Luther Bachman um jovem americano que
estava a cumprir o servio militar?
Desculpe, mas no.
L estava ele. Mais um beco sem sada. Tinha pensado que a chamada era muito fcil.
Sabe alguma coisa de Abe Hanselmann?
No.
Sabe de algum com o nome Hanselmann?
No.
E de jovens em que o ltimo nome fosse Serian?
No. Receio bem que no.
A senhora conheceu alguns jovens militares americanos? Ela hesitou. Por que pergunta isso?
Eu devia ter-me explicado melhor. Estou a tentar obter informaes sobre um jovem que foi pai de uma criana durante a guerra, senhora Newman. Estou convencido de
que o nome desse homem era Luther Bachman, e tudo o que sabemos dele  que foi para o Vietname e nunca mais voltou, e que teve uma criana que parece ter vivido
na Tailndia. Ela vive agora aqui nos Estados Unidos e est a tentar saber quem era o seu pai.
E por que me pergunta a mim? Por que no perguntar ao exrcito?
 uma longa histria... Mas durante a minha investigao dei com uma referncia ao seu marido, na realidade, ao seu obiturio. E tive esperana de que houvesse alguma
relao com a Tailndia.
No consigo imaginar porqu.
Bem, estou a chegar  concluso de que ando aqui  procura de sombras. Mas tenho de tentar todas as possibilidades.
Lamento no poder ajudar. H ainda muitas tragdias a perseguir-nos a todos por causa daquela guerra.
Qualquer coisa no tom de voz dela estava a deixar Owen confuso. A senhora no pode ajudar ou no quer ajudar? perguntou-lhe ele. Ela ficou em silncio por longos
momentos de hesitao.
Por que est a telefonar para mim? perguntou ela. Quem  que o senhor representa realmente? J lhe disse que o meu marido est morto! O que  que o senhor podia
querer de mim?
Senhora Newman... No sei o que est a perturb-la assim tanto, mas existe uma mulher que tem estado a sofrer desde h muito, muito tempo, desesperada por saber
quem so os pais dela. Quem  ela. E se a senhora pudesse dizer-lhe alguma coisa, estaria a demonstrar uma grande amabilidade.
Franoise Newman soltou um profundo suspiro. Conhecemos muitos soldados americanos durante a tragdia do Vietname. E  triste diz-lo, houve provavelmente um grande
nmero deles que deixaram mulheres tailandesas com bebs. Mas nenhum dos seus nomes me  conhecido, senhor Byrne. Juro que  verdade.
Pode dar-me algumas sugestes... outras pessoas com quem eu possa falar?
E a me dela? O que sabe acerca da me?
Ela no se lembra de nenhum facto relacionado com a me.
Que pena. Franoise Newman suspirou novamente. Mas realmente no posso ajud-lo.
Bem, obrigado pelo seu tempo. Posso deixar-lhe o meu nmero para o caso de a senhora se lembrar de alguma coisa... qualquer coisa?
Com certeza. Franoise Newman tomou nota do nmero da agncia de Bernie e voltou a l-lo para ele, depois disse numa reflexo de simpatia, Talvez se ela se lembrasse
de alguns nomes tailandeses. Ainda tenho l muitos amigos. Os tailandeses so um povo maravilhoso e acolhedor e talvez o senhor devesse tentar procurar ajuda do
lado tailands.
Infelizmente ela nem sequer tem um nome tailands. Ela acha que se chama Lenore desde que nasceu, se bem que ningum seja...
O qu!
Desculpe?
O senhor disse Lenore?
Sim. O nome dela  Lenore. Porqu? Isso diz-lhe alguma coisa? Franoise Newman ficou calada por instantes.
O seu ltimo nome no  Corwin, porventura? Perguntou ela por fim. Owen sentiu um mpeto intenso de alvio e de jbilo que acompanha as grandes realizaes. Era
isso. O crculo tinha-se fechado. Luther Bachman no s tinha dado um nome  filha em honra da av dos seus amigos a av dos contos de fadas das histrias de Arcdia
de Milly Corwin como tambm se tinha transformado num Corwin.
Tudo isso se ajusta, disse ele. O facto de ele usar o nome Corwin ajusta-se a um padro. Sabe exactamente quem  ela, no sabe?
Seguiu-se mais um silncio. Depois, numa voz adensada pela emoo, Franoise Newman disse, Lenore nasceu em minha casa. Na minha casa na Tailndia.
Owen teve de tapar a boca e cerrar as maxilas para evitar dar um grito.
Ser que eu posso ir a falar com a senhora? Por favor?
Sim. E eu quero v-la, quero ver a Lenore. Ela pode vir?
Acho que sim. Mas tem de ser neste fim-de-semana. Amanh ou no domingo.
ptimo. Venham o mais depressa possvel. Fico  espera.
Agora s tinha que dar a novidade  Lenore.  porta da sala de audincias nmero 6, perguntou ao oficial de diligncias se a defesa j tinha chegado e ele respondeu-lhe
que no. Ficou ali por instantes sem saber o que fazer, depois decidiu que, com o ambiente de recomeo da confuso, a sua melhor hiptese de falar com a Lenore era
fora do tribunal. Rapidamente, precipitou-se para as escadas e tentou abrir caminho para descer por entre a multido que ia a subir e apressou-se a ir para o hotel.
O empregado da recepo acenou um cumprimento quando entrou, mas ele sabia que era melhor no mandar anunciar-se formalmente. Com certeza que Lenore ia mandar descer
Riley e Volpe para o porem fora se soubesse que estava ali. Por isso sentou-se a um canto e ficou  espera, gentle
Primeiro desceram Charlie Rossner e Paul Jacowitz. Vinham todos envolvidos na conversa e no o viram. Ele deixou-os passar sem chamar a ateno para ele. Vrios
minutos mais tarde ouviu passos nas escadas. Levantou-se e dirigiu-se para o centro do trio.
Riley foi o primeiro a descer as escadas, viu Owen e franziu as sobrancelhas. Lenore e Volpe toparam-no ao mesmo tempo. Os olhos de Lenore incendiaram-se de fria
e Volpe irrompeu, precipitando-se na sua direco a gritar, Voc  um homem morto, seu malandro! e quase descarregando um soco na cara de Owen, se Riley no o tivesse
agarrado por detrs, rodeando o
peito de Volpe num abrao apertado que deixou o homem mais pequeno a mexer os braos furiosamente. Lenore caminhou rapidamente para a porta com a capa a esvoaar
 sua volta e Riley ordenou a Owen que se afastasse. Mas em vez disso, correu atrs de Lenore.
Espera! Lenore!  sobre a Tailndia! O teu pai... foi tudo o que conseguiu dizer antes de Volpe se libertar e de o atacar por detrs.
Owen sempre tivera averso aos homens que resolviam os seus problemas com lutas, mas subitamente toda a raiva, frustrao, culpa e cimes foram directamente canalizados
para os seus punhos e enfrentou o ataque de Volpe com uma selvajaria insensata. S gradualmente recuperou o seu bom senso. Reparou que a Lenore estava aos gritos
e o empregado da recepo a berrar e que as mos de Riley estavam a tentar afast-lo de Volpe que ia atirar-se a ele.
Depois apercebeu-se que lhe doam tanto as mos como as articulaes.
Surpreendido, estendeu as mos e ficou a olhar para elas, sentindo-as como se lhe fossem estranhas como se no fizessem mais parte dele. Endireitou-se, cambaleou
para trs e encostou-se a um pilar, enquanto Riley segurava Volpe ao lado dele.
Ahhh, olhem para vocs, rapazes, repreendeu-os Riley. J para cima, Joseph, ordenou ele a Volpe. E espero que tenhas  mo uma camisa limpa.
Volpe lanou a Owen um olhar mortfero.
Enquanto segurava com mo firme o ombro de Volpe, Riley disse, Agora sou eu que trato das coisas, Joseph. Acabou a confuso. Arranja-te decentemente para podermos
levar a senhora ao tribunal, pois  para isso que estamos a ser pagos.
Volpe libertou-se do controlo do parceiro, endireitou o seu casaco desportivo e afastou-se com ar arrogante.
Owen observou-o a subir as escadas. Tocou no canto da boca e reparou que tinha sangue nas pontas dos dedos. Baixou os olhos e olhou para a frente da camisa e viu
manchas vermelhas.
Riley abanou a cabea. H a alguma casa de banho que possa ser usada por este cavalheiro? disse ele em voz alta para o empregado da recepo.
Parece-me que sim, concordou o empregado de m vontade e puxou de uma chave com uma placa enorme presa a ela.
Espera, Owen.
Era a Lenore. A Lenore tinha dito o seu nome.
Ela atravessou o trio para se ir colocar em frente dele, com a sua cara plida coberta pelo capuz da capa e os olhos que pareciam buracos negros, levando-o at
ao limite, puxando-o para o vazio.
O que sabes do meu pai e da Tailndia? perguntou ela num tom baixo e ameaador.
Owen relanceou o olhar para Riley, perguntando-se se tudo o que sabia poderia ser dito em frente dele.
Frank, pode dar-nos alguma privacidade? disse ela.
Ento espero junto s escadas, disse-lhe Riley. Mas no posso permitir que fiquem fora da minha vista, como sabe.
Logo que ficaram suficientemente afastados de Riley para ele no poder ouvi-los, Owen falou-lhe da sua chamada para Franoise Newman. A Lenore ficou muito calada
por instantes. Os seus dedos apertaram as duas pontas da frente da capa com tanta fora que ficaram brancos e lvidos com a presso.
Ouviste as cassetes de Milly Corwin, no ouviste? perguntou-lhe Owen.
Sim.
Ento j sabes de Luther Bachman. Penso que ele usava o nome Corwin quando Franoise Newman o conheceu. Quando tu nasceste.
Quero ir contigo, disse ela.
E quando  que podes ir?
Amanh de manh. O mais cedo possvel.
Owen sentiu uma onda de vergonha. Podes trazer algum contigo... Baixou os olhos para as suas mos inchadas. Se no quiseres ficar sozinha comigo.
No tenho ningum que possa levar, replicou-lhe ela. Ningum mais sabe disto para alm de ti.
No contaste ao Rossner nada do que soubemos?
Claro que no!
Mas ele podia utilizar alguma coisa disso na tua defesa, Lenore.
Tu no tens nada a ver com isso.
Volpe desceu as escadas vestindo uma camisa limpa e outro casaco desportivo. Vamos! gritou ele para a Lenore. Estamos atrasados!
Owen olhou para fora da janela a observ-la enquanto se apressava a caminho do tribunal, com a capa a esvoaar como se fossem as asas de um pssaro enorme e escuro.
Depois os fotgrafos amontoaram-se  sua volta e ela desapareceu.
James Collier estava ainda com pior aspecto do que no dia anterior. Podia ter estado gravemente doente e no parecer to mal.
Rossner foi muito moderado com ele, mostrando-se preocupado, e o jri pareceu ficar satisfeito com a sua atitude. Os receios da acusao tinham sido bem fundados
o jri era solidrio com este homem de hbito, independentemente do facto de ele parecer que tinha cado em desgraa.
Rossner conduziu James Collier atravs da histria da sua dedicao  igreja, salientando todas as palavras, pensamentos e actos de bondade associados ao Irmo James,
transformando-o de um pecador num santo. Depois concentrou-se na relao de Collier com Bram Serian.
Nos oito meses em que conheceu Bram Serian, quantas vezes o levou a jantar em Manhattan?
Oh, numerosas vezes. Talvez uma dzia.
Mesmo depois de comearem os convites para a Arcdia... os jantares na cidade continuaram?
Sim.
Portanto Bram Serian obviamente encontrava algum significado na sua amizade?
Gostava de acreditar que sim.
Ele era um homem perturbado?
Sim. Muito perturbado.
Ele confessou-lhe alguns pecados?
Brown saltou da cadeira. Protesto, Meritssimo! Penitenciar  um privilgio do padre.
Deferido, respondeu Pulaski imediatamente.
As minhas desculpas, disse Rossner. O que discutia com ele, Irmo James?
As nossas discusses eram abstractas. Como irmo que sou, no posso ouvir confisses.
De um modo geral, fale-nos de alguns dos assuntos que ele discutia consigo.
Ele estava preocupado com a condenao eterna e com o facto de os pecados de uma alma no arrependida serem transferidos para outra.
Alguma vez falou consigo sobre a Lenore?
Eu no lhe chamaria uma conversa, mas de facto ele fazia referncias a ela de vez em quando.
E de que maneira se referia a ela?
Ele estava... dizia coisas em que sugeria que ele estava enfeitiado por ela.
Alguma vez lhe deu motivos que o levassem a pensar que no a amava?
Nunca.
Ou que estava disposto a divorciar-se dela?
De modo nenhum. Havia uma profunda relao entre eles. Algo muito forte. Podia sentir-se quando estavam os dois juntos.
Como  que Natalie Raven tratava o patro nas ocasies em que visitou a Arcdia?
Eu diria que ela estava apaixonada por ele.
Estava apaixonada?
Mostrava-se muito preocupada. Estava sempre a endireitar-lhe o colarinho, ou a escovar alguma coisa da manga dele, ou a levar-lhe alguma bebida fresca. Esse gnero
de coisas.
E como reagia Bram Serian a todos esses cuidados?
Dava a impresso que no prestava ateno a essas coisas.
E como se comportava Natalie Raven para com a Lenore?
Era excessivamente amvel com a Lenore, enquanto que ao mesmo tempo fazia tudo o que podia para fazer a Lenore sentir-se mal. Realando erros que a Lenore tinha
feito ou coisas de que a Lenore se tinha esquecido de fazer.
O senhor gostava da companhia de Lenore Serian?
Sim. Ela era muito simptica comigo. Muito compreensiva. Eu no sentia necessidade de parecer erudito quando falava com ela.
Alguma vez foi jantar sozinho com ela da mesma maneira que foi tantas vezes jantar com o marido dela?
No.
Alguma vez teve relaes sexuais com ela?
No!
O senhor tem outras amizades entre mulheres?
Sim. Tenho um grande nmero de amigas. Mulheres que trabalham comigo em algumas obras de caridade. Mes de alguns dos meus alunos.
Fala com elas ao telefone?
s vezes. Sim.
Alguma vez quebrou os votos com uma mulher?
No. No quebrei.
Rossner levantou os olhos para o tecto e balanou-se nos calcanhares por instantes.
Muito bem, vamos voltar  festa. Bram Serian estava aborrecido consigo por ter aparecido, no  verdade? E aborrecido com a sua mulher por t-lo convidado?
Sim. Ele pensou que eu estava a comprometer-me por ser visto nas suas festas. Mas eu queria ir e por isso pedi  Lenore e ela concordou, disse que o Bram no tinha
evidentemente o direito de ditar o meu comportamento.
Portanto o aborrecimento de Bram Serian com o senhor no tinha nada a ver com a sua amizade com a Lenore?
Absolutamente nada.
Rossner afastou-se e matutou sobre isto por momentos. Tinha nas mos alguns cartes mas tinha ainda de os consultar.
O senhor acha... comeou Rossner cautelosamente, que Bram Serian tinha medo de alguma coisa naquelas ltimas semanas da sua vida?
Medo no. Mas andava preocupado. Muito preocupado.
Acha que ele estava a sentir-se ameaado de alguma maneira?
Tentei conversar com ele sobre isso, mas ele abanou os braos em sinal de rejeio. Disse-me que tinha todos os seus inimigos sob controlo.
Inimigos? Ele usou exactamente essa palavra?
Sim.
Ele alguma vez disse o nome de algum desses inimigos?
No.
Rossner fez uma pausa para assimilar esta informao, o que na realidade foi uma pausa para o jri a assimilar. Depois perguntou, Quando estava a seguir Bram Serian,
quando ele se afastou das outras pessoas e o viu a conversar na escurido junto das mesas... pode dizer com quem estava?
No.
Homem ou mulher?
Era inquestionavelmente um homem.
Mas ningum que o senhor conseguisse reconhecer?
Eu... estava muito escuro e a minha ateno estava concentrada no Bram. A nica coisa que posso dizer  que era um homem.
Novo ou velho?
Velho, no. Talvez de meia-idade.
De pele escura ou clara?
No sei.
Baixo ou alto?
Mais ou menos como o Bram. Alto, parece-me.
Conseguiu ouvir o que estavam a dizer?
No consegui ouvir nenhumas palavras especficas, mas a conversa parecia... acalorada.
Quando viu a Lenore a observ-lo... pode dizer se ela parecia estar preocupada com ele?
Ela parecia mesmo muito preocupada, sim.
Quando voltou para junto do grupo de pessoas, notou quem tinha desaparecido... quem podia eventualmente estar s escuras a ter uma conversa acalorada com Bram Serian
apenas algumas horas antes da sua morte?
A cara de James Collier ficou como se alguma coisa importantssima lhe tivesse vindo  cabea.
No notei nada. O que eu quero dizer  que havia muita gente e portanto teria sido difcil reparar se estavam todos no mesmo lugar que antes. Mas o homem que estava
com o Bram no me pareceu minimamente familiar, uma vez que... naquela altura... eu j conhecia toda a gente...
Portanto o senhor acha que aquele grandalho que estava a ter uma conversa acalorada com Bram Serian no era ningum que tivesse estado na festa?
Exactamente.
E a seguir Bram Serian voltou e disse a toda a gente que ia para a cama?
Sim.
Mas o desconhecido, o homem que tinha aparecido no escuro, no voltou com ele?
No. No houve mais sinal dele.
E Bram Serian afastou-se naquela altura e dirigiu-se para o seu estdio?
Sim.
Qual era o seu aspecto quando foi embora? Parecia estar com sono, vigilante, como...?
Parecia... um pouco brio. Caminhava de modo hesitante e articulava mal as palavras.
E a Lenore seguiu-o naquela altura?
Sim.
Como  que ela o seguiu? De forma dissimulada?
No. De facto no. Se ela quisesse segui-lo dissimuladamente, podia ter seguido por um atalho pelo meio das rvores e apanh-lo  entrada do estdio.
Rossner reflectiu sobre isto por momentos, depois disse cerimoniosamente, Obrigado, Irmo James.
Brown disparou do seu lugar e atacou numa srie explosiva de perguntas, mas no conseguiu recuperar a elevada projeco moral que mantivera antes. Passado algum
tempo desistiu e deixou Collier ir embora.
Spencer Brown permaneceu de p, enquanto James Collier abandonava a sala; depois anunciou num tom autoritrio, O povo d por finda a sua argumentao, Meritssimo.
Comeou um zumbido no meio dos bancos e o Juiz Pulaski bateu estridentemente com o martelo. A sesso fica suspensa por hoje e o Dr. Rossner pode comear a apresentar
o seu caso na segunda-feira de manh. A defesa vai estar pronta na segunda-feira de manh, no vai, Dr. Rossner?
Sim, Meritssimo.
A boca de Pulaski alongou-se num sorriso tenso. Nesse caso temos todos motivos para nos regozijarmos, porque estamos pelo menos a meio do processo para terminarmos.
Owen saiu junto com a multido para evitar encontrar-se com Volpe. A Holly no estava  vista e ele pensou que tinha sado a correr para ir algures filmar mais um
flash informativo, por isso ele baixou a sua guarda e caminhou com um passo sem pressa.
Parecia to estranho que toda a questo de o Collier se esconder na Arcdia tivesse ficado ausente do interrogatrio. Algum aspecto legal ou outra coisa tinham-no
reduzido a um assunto tabu. Portanto, se os jurados tinham seguido as ordens do juiz e tinham evitado todo e qualquer contacto com todas as fontes informativas,
no faziam a menor ideia do drama que estava por detrs do testemunho de James Collier.
Depois de sair pelas portas do tribunal, parou para apreciar o dia. O cu da tarde era de um azul turquesa brilhante e a temperatura tinha subido aos dez graus centgrados.
Tinham desaparecido todos os vestgios de neve. O prprio inverno parecia ter recuado. Comeou a descer os degraus de granito.
Owen?
Ficou imvel. Ainda antes de se voltar j sabia que era a Holly e que tinha estado emboscada  espera dele atrs das plantas sempre-verdes que franqueavam o edifcio.
Tenho estado  sua espera. Ela avanou hesitante na direco dele. Por favor, por que no fala comigo?
Ele olhou para ela. O azul-cinzento do casaco dela evidenciava o azul dos seus olhos. A luz do sol transformava o seu cabelo em fios de ouro.
No temos nada a dizer um ao outro, Holly.
O seu lbio inferior tremeu levemente e ela pestanejou vrias vezes, tentando impedir as lgrimas iminentes. E ele apercebeu-se que a sua raiva tinha desaparecido.
A amizade afectuosa que ela tinha instilado nele tinha desaparecido. At a habitual benevolncia que ele sentia em relao a pessoas completamente estranhas estava
ausente quando olhou para Holly Danielson. E compreendeu que o contrrio de amizade no era dio. Era a total desconsiderao.
O que aconteceu ao seu lbio? ela estendeu a mo para ele, mas ele recuou de maneira a ficar fora do seu alcance.
Podamos ir para um lugar calmo a almoar, sugeriu ela.
No. Tenho de ir para casa.
Est mesmo muito zangado comigo, no est?
Estava.
A cara dela ficou mais animada. J no est?
No. Estou apenas aborrecido comigo mesmo pela minha falta de discernimento.
A Holly baixou os olhos e soltou um suspiro. Eu no devia ter-lhe deixado o recado. S me apercebi mais tarde. Logo que visse que eu tinha aberto o seu bloco de
notas, ia provavelmente calcular que eu tinha visto as coisas que l tinha escrito.
Ele comeou a perguntar-lhe se apenas lamentava ter-lhe deixado o recado, mas depois deixou de se preocupar em saber.
Nunca pensei que ficasse to zangado comigo, disse ela com ar triste. Quero dizer, a questo de James Collier nem sequer tinha a ver com o seu livro nem nada. Mas
parece-me que ela lhe atribuiu a responsabilidade de o Collier ser apanhado e agora voc no vai conseguir voltar  Arcdia, nem vai conseguir ter mais entrevistas
pessoais com ela.
Owen ficou a observ-la, imaginando...
Eu compreendo que tenha ficado furioso comigo por causa disso. Por deixar de ter acesso a toda essa informao. Mas a sua editora disse que voc j tinha material
suficiente para fazer um ptimo livro, por isso...
Voc falou com a minha editora?
Bem, eu apenas... Sim. Sou uma jornalista, lembra-se? E apenas telefonei e perguntei se era verdade que DeMille tinha em preparao um livro sobre este caso.
Holly...
Est a ver! Eu estava a tentar proteg-lo. Certifiquei-me de que a sua editora pensava que voc j tinha o suficiente, antes de informar o M.P. sobre o Collier.
Isso foi mais do que uma jogada desonesta para subir na sua carreira, no foi, Holly? Quis destruir a minha ligao com Lenore Serian.
Ela olhou para ele com olhos lacrimosos e assustados. Eu estava preocupada consigo, disse ela.
Oh! No fundo voc fez isso no meu prprio interesse? Foi mesmo isso?
Eu estava a ver o que ia acontecer! Estava a ver aquela cabra perversa a lanar os seus anzis para o apanhar e para o usar! Voc no ia conseguir safar-se, por
isso tive de o fazer.
Owen ficou a olhar para ela com um espanto desinteressado.
Voc desejava-me naquela noite no seu apartamento, Owen. E ia continuar a desejar-me. Provavelmente teramos um bom relacionamento... se ela no o tivesse enrolado.
No era a si que eu desejava. Eu apenas queria sexo. Da mesma maneira que teria querido com qualquer mulher atraente e disponvel que me oferecesse o seu corpo na
privacidade do meu apartamento. Era tentador. Abanou a cabea. Mas no era a si que eu queria, Holly. Era a mamada.
A cara dela retorceu-se numa careta. E aposto que ela  boa a chupar-lhe a pila, no ? Uma pessoa como ela, com toda a sua experincia... Owen voltou-se e afastou-se.
Ela estava a us-lo, Owen! gritou a Holly atrs dele. Voc no significa nada para ela!
Owen caminhou para a estao do comboio com passo rpido, procurando superar a sua raiva. Apagando Holly Danielson e todas as suas palavras maliciosas. Estava decidido
a ir para o apartamento e a prosseguir com o seu trabalho. Havia as cassetes da Milly para transcrever e as suas notas do julgamento para passar. E depois tinha
feito a promessa  Bernie. Tinha de entregar a proposta no dia seguinte de manh, acontecesse o que acontecesse.
Entrou no edifcio da estao e quase chocou com um homem vestido com um casaco comprido. Desculpe, murmurou ele, olhando para a cara do homem enquanto falava e
verificando, num rpido instante, que era James Collier.
Ol, disse Collier.
Ol, respondeu Owen hesitante.
Calculei que pudesse apanh-lo aqui, confessou Collier. Sei que vem apanhar aqui o comboio.
Eu? perguntou Owen. Deve ter-me confundido com outra pessoa.
No. O senhor  Owen Byrne, no ?
Sim.
Vim aqui para que aqueles abutres  volta do tribunal no me espiassem a falar consigo e acabassem por escrever nos jornais que estvamos a planear assaltar um banco
ou coisa parecida.
Owen acenou com a cabea em sinal de compreenso. Mas o senhor no devia estar sob custdia ou coisa parecida?
No. Eles j no querem mais nada de mim. Collier afastou-se da porta para olhar pela janela que dava para os carris. Owen seguiu-o, levado pela curiosidade. Vim
falar consigo sobre a Lenore, disse Collier. oh?
Sim. Depois daquela manh, quando cheguei to inabilmente e ela mandou-o embora to grosseiramente... ela falou-me de si.
Que conveniente, disse Owen. Espero que no lhe tenha dado pormenores errados a meu respeito.
No foi nada disso. A Lenore e eu... eu no sou seu concorrente. A Lenore e eu no somos amantes. Nunca fomos amantes. A nica coisa que tnhamos em comum era o
Bram.
Ento porqu todo aquele segredo? Porqu tanto mistrio? Por que estava ela a proteg-lo?
A cara de Collier denunciou uma intensa luta emocional e Owen pensou que ele no ia responder, mas por fim disse, Eu estava sem energia e estava cheio de medo e
ela ofereceu-me ajuda. Onde ia encontrar um lugar melhor para me esconder do que a Arcdia? Quem  que se lembraria de ir ali  minha procura?
Eu queria continuar com a minha vida como dantes e enganei-me a mim prprio ao acreditar que se me escondesse, tudo havia de passar e que assim podia ficar com a
minha reputao intacta. Claro que era um sonho impossvel, muito estpido, porque mesmo que no me encontrassem e no se
soubesse a verdade, os jornais publicaram coisas horrveis sobre mim. Eu estava destrudo por falta de comparncia.
Ento continuei a esconder-me por vergonha. E ela encorajou-me a continuar escondido. Se tivesse pensado que podia ajud-la no processo, apresentando-me como testemunha,
teria sido diferente. Mas ela dizia que eu s ia prejudicar a sua situao. Ela no me queria ver na barra das testemunhas. No queria que eu fosse testemunhar.
Espere um minuto, disse Owen. Se no havia nada entre vocs, se no estava apaixonado nem havia desejo sexual, por que  que era preciso proteger a sua reputao?
Mais uma vez se manifestou o esforo na sua cara. Oh, mas eu estava apaixonado, disse ele baixinho. Estava apaixonado pelo Bram.
Owen ficou demasiado aturdido para conseguir falar durante alguns instantes. Quando conseguiu falou sem pensar, Bram Serian era homossexual?
No. No era. E ele no correspondeu aos meus sentimentos. Collier riu com amargura. Est a ver, a minha to discutida queda em desgraa nunca aconteceu. Eu ardi
de desejo no meu corao como dizem, mas no na carne.
No sei o que dizer, confessou Owen, sentindo uma profunda compaixo pelo homem.
No h nada a dizer. Mas eu estava em dvida para com a Lenore por isto. Ela ajudou-me a sobreviver enquanto o Bram era vivo e depois de morrer. Agora ela precisa
de ajuda. Ela queria tanto acreditar em si. Ela precisa de acreditar em algum.
As palavras de Collier tocaram profundamente Owen. Eu no tra a sua confiana. No fui eu quem o denunciou. Agora sei quem foi e sei que fui culpado por falta de
cuidado mas no por traio.
Tem de a convencer disso, Owen Byrne. Tem de mostrar-lhe que ficou algo de bom, que ela estava certa ao confiar em si. Ela julgava que eu era bom no princpio, mas
decepcionei-a. Toda a gente que fez parte da vida dela a tem decepcionado. Agora est quase a perder-se. Uma alma perdida.
O comboio chegou ento  estao fazendo um grande barulho e guinchou ao parar. O senhor tem de ir, disse Collier.
Eu posso ficar por mais algum tempo, props Owen, no querendo romper esta ligao com a Lenore.
No. Eu j disse tudo o que tinha a dizer. Vamos. Eu acompanho-o.
Saram do edifcio e foram para a plataforma juntando-se ao pequeno grupo de passageiros que estavam  espera para embarcar no comboio que fazia a ligao para Manhattan.
Owen agarrou a mo de Collier. Obrigado, disse ele. Obrigado. E apressou-se a entrar no comboio, animado pela esperana renovada, pela determinao renovada.
#22
S depois de entrar no longo caminho de acesso  Arcdia na manh seguinte  que Owen se permitiu pensar no que ia dizer a Lenore. Embora no fosse propositado,
a responsabilidade pela fuga de informao cabia a ele e no podia afirmar que estivesse completamente inocente. De certo modo tinha-a trado com a sua falta de
cuidado e com a sua cegueira pela Holly.
A casa apareceu no horizonte e ele teve a sensao de deslizar para fora de si mesmo. Estava algures num plano superior, a olhar para baixo para si prprio, um homem
inquieto e desesperado, curioso em saber o que o homem ia conseguir dizer.
A Lenore saiu pela porta de entrada logo que ele estacionou. Trazia vestido um casaco de pele por cima de uma saia preta e uma camisola vermelha. Tinha o cabelo
apanhado com uma fita em rabo-de-cavalo, e o estilo salientava os ossos e os ngulos do seu rosto, dando-lhe uma aparncia ferozmente extica.
Sentiu uma dor no peito ao v-la. Queria atirar-se aos seus ps e pedir-lhe que lhe perdoasse, mas em vez disso ouviu-se a si prprio dizer, Obrigado por ter deixado
a sua espingarda em casa.
Ela relanceou-lhe um olhar de arrogncia, depois sentou-se no assento do passageiro do carro alugado e ele ps o carro a trabalhar e comearam a descer pelo caminho
de acesso.
Franoise Newman  o nome dessa mulher e ela diz que tu nasceste em casa dela na Tailndia. As palavras saram-lhe da boca. Contou toda a chamada telefnica para
o Connecticut, sem conseguir parar. Sentia segurana a falar de Franoise Newman. Ele tinha medo da confrontao.
Lenore ouviu atentamente, depois ficou em silncio. A tenso aumentou, enchendo o carro de tal maneira que parecia gs sufocante, venenoso.
Vamos estar juntos durante horas, Lenore. No poderamos fazer umas trguas?
Ela olhou de lado para ele. Era um olhar duro e severo, mas havia um fundo de sofrimento que se repercutiu nele completamente. Encostou o carro  beira da estrada
e voltou-se para ela.
Lenore, eu fui estpido e estava cego e no te protegi como devia. Peo desculpa. Peo imensa desculpa. Se pudesse voltar atrs e fazer tudo de forma diferente,
era o que faria.
O que  que o gabinete do ministrio pblico te deu por teres denunciado o Jimmy?
Ele abanou a cabea. Eu no o denunciei.
O olhar dela era penetrante e frio. Joe Volpe disse que tinhas de ser tu quem tinha feito isso. E depois telefonaste  tua namorada loira a dar-lhe a informao,
para ela poder ter o seu furo jornalstico. O Joe disse que deves ter negociado com o M.P. para te dar uma entrevista exclusiva depois de terminar o julgamento.
Owen bateu com a palma da mo no volante. O Volpe pode ter pensado isso. Mas est enganado. A louraa, que no  minha namorada e agora nem sequer  amiga, lanou
um olhar furtivo a algumas das minhas notas. Viu a referncia ao nome do Jimmy e da Arcdia e relacionou um com o outro. Eu no soube nada disso at ter voltado
do Kansas e...
Tu estiveste com ela  sada do tribunal hoje ao almoo. Eu vi-te atravs da janela do hotel.
Sim. Ela esteve a explicar-me que tinha feito tudo para o meu prprio bem e eu disse-lhe que no queria o seu tipo de amizade.
Lenore franziu as sobrancelhas. As pontas lisas das suas sobrancelhas quase se juntaram por cima da ponte do nariz. Como  que denunciar o Jimmy podia ser bom para
Owen Byrne?
Porque ia pr em causa a minha relao contigo. Ela queria que parecesse que eu tinha trado a tua confiana para reagires como de facto reagiste.
Comeou a manifestar-se a compreenso nos olhos de Lenore.
Ele ficou a observar, com receio de esperar demasiado. A Holly considera que agarrou a oportunidade de se promover na sua carreira ao mesmo tempo que fazia uma boa
aco libertar-me de ti.
Lenore ficou a olhar para ele. Atravs dele. Para dentro dele.
O Rossner acha que o testemunho de Collier provocou algum estrago? perguntou ele.
Estrago? Devias fazer essa pergunta ao Jimmy.
Lenore... o teu amigo Jimmy no est a ser julgado por homicdio. As suas indiscries so da sua prpria responsabilidade e ele nunca devia ter-te colocado nesta
situao.
Ele estava a ajudar-me mantendo-se calado.
Ele estava a ajudar-se a si prprio. O que eu no compreendo  por que  que tu o encorajaste. Por que receavas tanto o testemunho dele?
A boca dela contraiu-se e ela voltou a cabea para olhar de forma irritada para fora da janela.
Muito bem. No te censuro mais por guardares segredos. Peo desculpa por ter perguntado. Mas devias saber que o Collier seguiu-me ontem at  estao dos comboios
e explicou-me por que estava a esconder-se.
O Jimmy falou-te do... Bram?
Sim.
Ele foi usado pelo Bram, disse ela. O Bram brincou com ele.
Owen voltou-se novamente para a estrada Aps mais dez minutos de silncio desconfortvel, disse, A caixa de fotografias de Milly Corwin est no assento de trs.
No tive a oportunidade de tas mostrar na outra noite, por isso pensei que quisesses dar-lhes hoje uma vista de olhos
Ela ficou completamente absorvida nas fotografias durante o resto da viagem e estavam a aproximar-se de Ridgefield sem que ele tivesse tido coragem de voltar a dirigir-lhe
a palavra
O que achaste das cassetes de Milly Corwin? perguntou ele
Os meus pensamentos so exclusivamente pessoais, disse ela
Muito bem. Est bem. Est mesmo muito bem.
Owen produziu um ritmo dando pancadinhas com os dedos no volante
J estamos no estado de Connecticut? perguntou ela
Sim Estamos mesmo a chegar a Ridgefield
Nunca estive no Connecticut. Esperava que fosse diferente de Nova Iorque
Ridgefield fica mesmo do outro lado da fronteira do estado, disse ele. Como  que podia ser diferente?
Sim Sou mesmo estpida, no sou?
Eu no disse que eras estpida. Tu no s estpida
Ela passou com os dedos pela manga do casaco num silncio nervoso, depois disse numa voz to baixa que era mais um sussurro, Por favor, no digas  senhora Newman
que eu no sei ler Nem que estou ilegal Nem que estou a ser julgada por homicdio
No precisas de me pedir isso Eu nunca mas no pde acabar, porque ia dizer que nunca trairia a sua confiana
Ela olhou para ele, como se soubesse o que estava a pensar. Ele concentrou-se na estrada por algum tempo, depois disse, H mais fotografias no meu saco. Seleccionei
algumas que pudssemos querer mostrar  senhora Newman
Ela acenou com a cabea. Irradiava vagas de nervosismo. Ridgefield era uma regio pitoresca e a casa junto da qual estacionaram era uma casa de campo agradvel que
ficava afastada da estrada no meio de uma extenso de jardim vioso. Ele saiu, levando com ele o saco atafulhado. A Lenore no se mexeu. Ele deu a volta e foi abrir-lhe
a porta. Continuou sem se mexer. Pareceu-lhe que ela estava aterrorizada
No h nada de que ter medo, disse-lhe ele afavelmente. Vais finalmente obter todas as respostas
 disso que tenho medo, disse ela, fazendo um esforo para sair do carro
Owen tocou a campainha, que ressoou dentro de casa. Olhou  sua volta. O dia tinha ficado quente, ainda mais quente do que o dia anterior e ele quase conseguia sentir
o jardim a vicejar. Em breve vai ser primavera, disse ele. Sente-se hoje, no sente?
Ela reagiu com um leve aceno de cabea
Tu no tens de entrar, Lenore Podes ficar no carro e eu fao a gravao para depois poderes ouvir
Ela abanou a cabea negativamente.
A porta abriu-se e eles saudaram uma mulher pesadona com um vestido cinzento que parecia um uniforme. Sem sequer lhes perguntar os nomes, acenou e sorriu-lhes. Sigam-me
por favor, disse ela, num tom jovial caracterstico dos russos.
A senhora Franoise Newman estava no solrio, uma varanda maravilhosa, envidraada, que vinha desde a parte de trs da casa. Era uma mulher de constituio atltica,
com sessenta e tal anos, que aparentava vigor e sade e uma vida inteira ao sol, tirando o facto de estar sentada numa cadeira de rodas com um cobertor a cobrir-lhe
as pernas.
Logo que entraram, os olhos dela fixaram-se em Lenore. Por momentos, Owen pensou que ia haver lgrimas, mas ela rapidamente recuperou o controle. Ah sim, consigo
ver em si feies do seu pai e da sua me.
Lenore afundou-se numa das grandes cadeiras de verga, como se j no se aguentasse nas pernas.
Peo desculpa, disse a senhora Newman. O seu sotaque francs parecia mais marcado do que ao telefone. Estou a esquecer-me das boas maneiras. Sente-se senhor Byrne,
disse ela a sorrir. O que acham de eu trazer ch para todos?
Lenore no pareceu estar capaz de falar, por isso Owen aceitou em nome dos dois. Sem que lhe pedissem, a mulher de uniforme saiu para ir tratar de tudo. Passaram
pelas formalidades da apresentao e concordaram em dirigir-se uns aos outros pelo primeiro nome. Chegou o ch. Havia um bule de prata e chvenas de porcelana e
uma variedade de produtos de pastelaria e pezinhos de pequeno-almoo.
Franoise Newman desviou a sua ateno de Lenore para se voltar com um sorriso para Owen. Obrigado por t-la trazido. Depois voltou-se novamente para a Lenore. Minha
querida, tem estado doente? Parece to exausta.
Lenore lanou a Owen um olhar apavorado.
Ela tem andado sob uma grande tenso, disse Owen. Ficou viva no passado ms de Agosto.
Franoise exprimiu a sua solidariedade.
Que nome usava o meu pai? disse Lenore abruptamente, cheia de impacincia.
O seu pai chamava-se Kit. Kit Corwin. Ou s vezes os amigos chamavam-lhe K.C. Era o alcunha dele. Disseram-me que se referia a Kit Carson, um famoso pioneiro americano
e que era por causa dos notveis talentos do seu pai, como batedor e atirador. Nunca ouvi o seu nome verdadeiro.
A senhora podia, comeou Lenore delicadamente, podia falar-me, aclarou a garganta. Da minha me?
Franoise acenou com a cabea. Tem muitas recordaes da sua vida l?
Quase nenhumas, disse Lenore. s vezes tenho sonhos estranhos, que eu sei que so da minha infncia e s vezes surge subitamente uma imagem na minha cabea, como
um claro de memria, mas se tentar lembrar-me das imagens, fica tudo negro.
J tentou estudar a Tailndia? perguntou Franoise. Tenho a certeza de que ler ia ajudar a estimular as suas lembranas.
Lenore relanceou um olhar assustado a Owen.
Isto pode parecer estranho, disse ele. Mas desde que a Lenore veio para os Estados Unidos, levaram-na a acreditar que tinha sido criada no Vietname. S muito recentemente,
por mero acaso,  que ficou a saber que tinha vivido na Tailndia.
A cara de Franoise adquiriu um ar severo de perplexidade.
Por que no continua a contar a histria, Franoise? sugeriu Owen.
Sim, disse ela.  melhor do que andar aos saltos com todas essas perguntas. Apontou para a estante na sala de estar contgua. Lenore, h ali um livro grande vermelho
sobre a Tailndia. Por que no vai busc-lo e folheia as pginas enquanto eu falo? Talvez as gravuras tenham algum significado para si.
Com alguma relutncia, Lenore foi buscar o livro. Owen esperou que no houvesse outros livros grandes vermelhos na estante a confundi-la.
Ele perguntou a Franoise se podia gravar a conversa, mas ela ignorou-o. A sua ateno estava concentrada na Lenore, que j tinha voltado e tinha-se sentado com
o livro no regao. Era um daqueles livros de tamanho enorme, cheios de fotografias brilhantes e Lenore ficou mais descontrada logo que verificou que tinha muito
pouco texto.
Franoise ainda no tinha respondido ao pedido de Owen para gravar a conversa e ele tinha receio que recusasse, mas finalmente, depois de observar o interesse instantneo
de Lenore pelo livro, ela deu um suspiro e disse, Pode gravar, suponho. J passaram tantos anos... e com o meu marido desaparecido... no me parece que nada disto
possa causar quaisquer problemas agora.
Ele ligou imediatamente o gravador.
Owen...
A voz de Lenore pareceu estranha e quando ele olhou, ela tinha na cara uma expresso de espanto extasiado.
Owen, disse ela novamente, num tom de reverncia e cheio de admirao, Eu sei ler este livro. Conheo a maior parte destas palavras.
Claro que sim, disse Franoise. Eu ensinei-a a ler em francs. No se lembra do livro sobre o pequeno co? Devemos t-lo lido juntas mais de mil vezes.
Lenore olhou para ele. E ele percebeu que, naquele momento, a intensidade dos seus sentimentos era quase avassaladora.
Por favor, Franoise, disse ele, conte-nos tudo. Desde o princpio.
Conheci o meu marido em Frana, depois da Segunda Guerra Mundial. Ele levou-me para a Califrnia, onde acabou o seu curso e depois tornou-se professor na Universidade
da Califrnia do Sul. Eu era feliz l, mas ele era convictamente uma pessoa que gostava de andar de um lugar para o outro e tinha as suas prprias ideias de como
as pessoas deviam viver. Interessou-se
#pelo negcio de importao/exportao. Vivemos em Londres durante um ano e depois na frica do Sul. Nenhum lugar atraa o seu interesse. Soube de Jim Thompson,
o homem da seda, atravs de um amigo mtuo e ficou fascinado com a ideia de ir viver para o Extremo Oriente, por isso contactou Thompson e l fomos ns para Bangkok.
A Tailndia prendeu imediatamente o corao do Howard, mas eu tenho de confessar que no me submeti ao feitio daquele pas durante bastante tempo. Estava demasiado
habituada aos confortos modernos e aos horrios e  eficcia.
A nossa casa, que era bastante boa quando comparada com outras, tinha um sistema elctrico que no era de confiana, no tinha proteco para as janelas e s havia
gua quente uma vez por outra. E no tinha cozinha. Pelo menos no era o que eu considero uma cozinha decente. Atrs da casa, junto do alojamento dos criados, havia
um pequeno edifcio baixo com uma torneira de gua e baldes e um fogo embutido que funcionava a carvo, e aquilo era suposto ser a cozinha. Ser desnecessrio dizer
que fiquei horrorizada. No queria cozinhar naquela cozinha, mas tambm no gostava da ideia de contratar criados, sobretudo para um casal sem filhos. Como se veio
a verificar, j havia um grupo de quatro que vieram com a casa, e como no suportava a ideia de ter de os despedir e de os pr fora dos seus alojamentos, a questo
ficou resolvida. Tnhamos uma cozinheira e um jardineiro e uma lavadeira e uma que era a chefe, quer quisssemos criados quer no.
Tudo me perturbava. A maneira como os criados acenavam com a cabea e como sorriam sem prestar ateno ao que eu queria. As comidas exticas. A falta de pontualidade.
A maquilhagem a derreter-se na cara com o calor. Os nomes impronunciveis das coisas... Benchamabopit e Rajapardit e Yaoivaraj e Chitralada. A falta de instalaes
sanitrias.
Porqu? A primeira vez que fui de barco num klong... so os canais. Bangkok  chamada a Veneza do Oriente porque h imensos canais. Serpenteiam pela cidade como
estradas e as casas so construdas ao longo deles, de tal maneira que se pode encostar o barco mesmo junto da varanda de algum.
Canais. Muito bonitos nas gravuras, mas a realidade daquilo era repugnante. Naquela primeira viagem de barco vi esgotos a serem lanados na gua e pessoas a darem
banho aos ces e mulheres a lavarem a loia e as crianas a molharem as escovas de dentes. Tudo isso na mesma gua do canal! No me importava o facto de eu no ter
de viver naquelas condies, nem de os tailandeses instrudos no viverem daquela maneira. S o facto de aquilo existir mesmo  frente do meu nariz era de causar
arrepios.
E as regras de comportamento! A falta de educao  quase um pecado mortal naquele lugar, esto a ver. Por isso eu tinha de fazer tudo direitinho, porque no suportava
o sentimento de me acharem uma espcie insensvel, farang feio estrangeiro que no queria saber dos sentimentos deles. Tive de aprender a dobrar as pernas exactamente
assim quando fosse visitar tailandeses, porque os ps so ofensivos e nunca devem estar dirigidos para outra pessoa. Tinha de me lembrar de nunca tocar na cabea
nem no cabelo de
ningum, nem estar de p sobre a cabea de ningum, mesmo que estejam sentados, porque a cabea  sagrada.
E depois h todas as regras wai... lembra-se de como se fazia wai, Lenore? Juntam-se as duas palmas das mos juntamente com os dedos quase a tocar no nariz, assim,
e essa  a maneira de saudar toda a gente. S que, precisamente quando eu pensava que j dominava o gesto, soube que havia nveis diferentes de wai. Com os dedos
quase a tocar no nariz era para os nossos pares e mais alto para entidades da autoridade e mais baixo para aqueles que esto abaixo de ns, incluindo os jovens.
Oh, era to complicado. E isso foi antes de comear com a lngua e todas as subtilezas da linguagem da boa educao. Os tailandeses nunca recusam nem discordam de
nada, por isso torna-se uma arte saber o que as pessoas de facto querem dizer quando nos respondem. Eles dizem sempre que sim, mas ns temos de descobrir que tipo
de sim ... absolutamente sim, ou talvez sim, ou de-modo-nenhum sim.
E tive de me habituar aos conceitos Budistas, karma e merecimento e reencarnao e tudo o mais. E toda essa questo de viver e deixar viver... ratazanas na cozinha,
cobras no telhado... passarinhos a voar para dentro e para fora das janelas... nada disso preocupava aquela gente. Por isso informei-me sobre o budismo, tomei conhecimento
dele atravs da leitura de um livro e senti-me muito presunosa, para afinal descobrir que o Budismo em Bangkok tem toda aquela confuso de outras coisas misturadas.
Os deuses de antigamente ou de outras culturas. Cerimnias e rituais que vieram no se sabe donde.
O verdadeiro Budismo no reconhecia os relicrios no ptio das traseiras para os espritos domsticos, nem os smbolos flicos gigantes, nem aquela coisa de quatro
cabeas em ouro junto do hotel, que  suposto trazer boa sorte. Cus, havia dias em que no se podia ir de carro pela Estrada Rama Iff por causa dos cnticos e danas
e festividades em volta daquela esttua de quatro cabeas. E como  que uma pessoa estranha havia de saber tudo aquilo? No se encontrava em nenhum livro.
Lembra-se, Lenore, que a Chit costumava lev-la a rezar pela fertilidade? Em dias especiais ela levava-a de autocarro a um jardim onde havia um enorme santurio
dedicado a Shiva. Eu fui uma vez com vocs e nem queria acreditar no que via... aquele lindo jardim luxuriante estava cheio de centenas de pnis esculpidos. Compridos,
curtos, grandes, pequenos... todos eles muito rgidos, claro. Uma floresta de pnis aos quais se rezava por um beb. Se bem que... como jovem esposa da dcada de
cinquenta, achei aquilo chocante.
E as supersties... as histrias que eu podia contar sobre isso! Astrologia e adivinhao e orculos e amuletos. Meu Deus... no sabia que um povo inteligente,
desenvolvido, pudesse acreditar em fantasmas da maneira que os tailandeses acreditam.
Digo-lhes que aqueles primeiros anos em Bangkok foram para mim um pesadelo. O Howard tinha os seus colegas de negcios e amigos e um escritrio com ar condicionado
e era respeitado como professor naquela altura era professor a tempo parcial na Universidade de Chulalongkorn enquanto que eu
no tinha absolutamente nada. Sentia que nunca ia sentir-me em casa enquanto vivesse ali, nem teria amigos, nem ia compreender aquela cultura. Tinha saudades da
Frana e da Amrica... e daquele sentimento de me dar bem com todas as outras pessoas. Supliquei ao Howard que fossemos embora dali, mas ele no quis. E pouco a
pouco, com o passar dos anos, fui-me adaptando.
Aprendi a lngua e assimilei a maneira de estar e comecei a ficar encantada com tudo aquilo. Quando chegavam novos estrangeiros, eu ficava a ouvir pacientemente
as suas queixas e a encolher os ombros e a dizer-lhes mai pen rai, no pense mais nisso, como uma autntica tailandesa. Deixei de me preocupar com a cintura, e com
a maquilhagem e com a minha educao e tornei-me flexvel. Aprendi a apreciar a procura do divertimento sanuk, como eles dizem na Tailndia e aprendi o significado
da amabilidade. A verdadeira amabilidade.
Os meus amigos tailandeses tornaram-se mais importantes do que os meus amigos estrangeiros e os criados passaram a ser como se fizessem parte da minha famlia. Havia
a Busaba, a cozinheira, cujo nome significava flor. Era velha, com a pele enrugada e verrugas e dentes estragados, mas quando sorria conseguia-se perceber que um
dia tinha sido uma flor. E havia o Vichet, o rapaz jardineiro, que no era capaz de decidir se queria ser monge ou cantor de rock americano. Havia a Chit, a amah
da lavagem, que tinha dezanove anos e andava constantemente a dar risadinhas com a cara tapada pelos dedos. E a Chinda, a chefe deles... to pequenina e elegante,
com uma cara com ar de chinesa e uma postura sria. Orientava a casa como se tivesse nascido para a realeza.
Eles tambm eram a sua famlia, Lenore. Voc tratava-os todos por Tia e Tio. E eles apelidavam-na de Dang. Vermelho. E gostavam muito de si.
Mas j estou a adiantar-me. Estou a perder o fio de como tudo aconteceu.
Estvamos l havia trs anos, quando um dia apareceu uma rapariga  procura de emprego como empregada domstica. Tinha acabado de chegar das montanhas e era encantadora.
Tinha o aspecto de tailandesa genuna, de cabelo negro azeviche e olhos grandes e escuros e um corpo esbelto e gracioso, prprio de uma danarina do palcio. Ns
no precisvamos de mais ajudantes, e mesmo que precisssemos, eu teria achado aquela rapariga demasiado bonita para ser uma boa trabalhadora.
A Chinda levou-a para as instalaes dos criados para lhe dar comida antes de continuar  procura de trabalho, mas no dia seguinte reparei que ela estava l fora
no ptio a ajudar a Chit a dependurar a roupa. No era invulgar os criados terem hspedes. Na verdade nunca sabamos quem estava a viver ali, nem nunca nos importvamos
com isso. Afinal aquela era tambm a casa deles, apesar de estar dentro do nosso complexo.
Mas passada uma semana a ver a rapariga a ajudar as outras em variadas tarefas, perguntei  Chita, A rapariga continua a ir todos os dias  procura de trabalho?
Sim. Sim. No se preocupar, assegurou-me a Chinda, e por isso pensei que a rapariga continuava a sair todos os dias  procura de emprego.
Depois da terceira semana a v-la a dependurar a roupa nas traseiras da minha casa, sa de casa e exigi firmemente que me dissessem se a rapariga ia mesmo  procura
de trabalho. E a Chinda explicou-me com toda a pacincia, No se preocupar, Madame, ela encontrar muito trabalho. Hoje dependurar a roupa lavada. Amanh polir prata.
Todos os dias ela procurar, ela encontrar.
Perante aquilo a rapariga levantou a cabea e dirigiu-me um sorriso to encantador que tudo o que consegui fazer foi dizer que no se preocupasse e voltei para dentro
de casa.
Quando contei ao Howard o que se passava, ele disse-me que deixasse aquilo por conta dele, e chamou a Chinda um dia  noite depois do jantar. Explicou-lhe com toda
a firmeza que no precisvamos nem queramos outra criada e que a rapariga no podia ficar mais ali. A Chinda concordou plenamente com ele. Depois comeou a dizer
que a rapariga era uma rf que tinha vivido durante muitos anos em casa de um tio. Uma vez que j tinha passado a puberdade e no tinha perspectivas de casamento,
o tio, que era pobre, resolveu que tinha de vend-la da prxima vez que viesse da cidade um comprador de crianas. A rapariga, que segundo a Chinda salientou, nunca
tinha sido bem tratada pela famlia do tio e portanto no lhes devia lealdade, fugiu para Bangkok. Como era muito nova e inexperiente, sem papis nem referncias,
nenhuma casa a tinha querido.
Tanto o Howard como eu ficmos consternados com a barbaridade a que aquela rapariga tinha escapado. Quando as famlias pobres que viviam no campo tinham muitos filhos
e no tinham comida suficiente, faziam o que as famlias daquela parte do mundo sempre fizeram ao longo dos sculos vendiam os que estavam a mais. Mas nunca tnhamos
enfrentado tal coisa em primeira mo.
Eu era to ingnua que queria ir participar o caso s autoridades, at que um amigo do Howard explicou como aquilo ia parecer ridculo. As autoridades no tinham
qualquer controle nem interesse em questes como aquela. Porque, ainda hoje em dia, enquanto estamos aqui sentados, h crianas que continuam a ser vendidas para
os bordis em Bangkok. Os meus amigos na Tailndia tm-me escrito a dizer que a prtica est a aumentar e as crianas so cada vez mais novas, com oito e nove anos
de idade, porque os homens de negcios abastados que vo para l de outros pases  procura de sexo, tm medo da SIDA e pagam recompensas pelas pequenas que parecem
estar limpas.
A Chinda terminou a histria contando-nos que a rapariga no falava ingls e no tinha educao nem esperanas de vir a ser contratada em lado nenhum e teria de
voltar para casa do tio ou ir directamente para um bordel em Bangkok. Depois a Chinda encolheu os ombros e disse-nos que a rapariga tinha um karma mau, mas talvez
recolhesse mritos para a prxima vida.
Jamais esquecerei aquele momento. A Chinda saiu de casa, dizendo que ia imediatamente a dizer  rapariga para ir embora. O Howard e eu olhmos um para o outro e
a seguir corremos atrs dela. A rapariga podia ficar, dissemos-lhe, mas s por algum tempo. Apenas para lhe darmos um primeiro emprego e arranjar-lhe algumas referncias
e depois ela teria de ir procurar outro emprego.
Foi assim que a sua me veio para nossa casa, Lenore. Chamava-se Kamsai, que quer dizer luminosa. E ela tornou-se a luz do sol da nossa casa.
Foi uma poca feliz e emocionante. Fiz muitos amigos e tive aventuras maravilhosas. Quando o meu beb nasceu prematuramente e morreu, tentei esquecer a dor, com
a certeza de que a menina no estava destinada a viver, mas que haveria outros para tomar o seu lugar mais tarde. O Howard prosperou e era muito respeitado por tailandeses
muito bem colocados. Depois comearam os ataques.
Sabem qual  a proximidade entre Bangkok e Saigo? Mais ou menos a mesma distncia que h entre San Francisco e Los Angeles. Toda a monstruosa guerra do Vietname
aconteceu mesmo ali  nossa porta.
Tm de compreender... tm de se imaginar naquele tempo. As coisas eram diferentes naquela altura. Tanto sangue inocente que foi derramado. E ali estvamos ns, suficientemente
prximos para sabermos a verdade do que estava a acontecer, antes de o pblico americano ter acesso  informao.
O meu marido tinha servido o seu pas na Segunda Guerra Mundial. Perdeu um olho a lutar, porm nunca teve nenhuma expresso de amargura por isso, nem deixou de ser
patriota. O Vietname foi diferente. No havia causa justa, no havia bondade subjacente.
O Howard associou-se a um grupo de oposio  guerra, iniciado por uns franceses. No princpio eram apenas cartas e peties e artigos para a imprensa, mas uma coisa
levou a outra e foram apanhados naquela onda de mar que avanava cada vez mais depressa. Quem sabe no que todos eles se envolveram. Foi uma poca terrvel e ns
as mulheres deles no devamos ter conhecimento de nada... Se bem que, posso-lhes dizer, era difcil ignorar casos de fornecimentos de medicamentos na nossa sala
de estar, ou homens armados a entrar na sala de trabalho do meu marido, ou refugiados vietnamitas a aparecerem subitamente  nossa porta a meio da noite.
Bangkok transformou-se numa cidade violenta,  medida que a guerra escalava. Era invadida por soldados que estavam de partida e vigaristas que andavam  procura
do dinheiro dos soldados. Todas as noites abriam novos bordis. A Chinda, a Kamsai, a Busaba, a Chit e eu permanecamos mais no interior do complexo do que antes.
Toda a gente estava preocupada porque havia rumores de bandos de soldados bbados que molestavam as mulheres nas ruas.
O grupo de Howard fazia parte de uma rede clandestina de caminhos de ferro naquela altura. Escondiam os refugiados polticos e depois levavam-nos s escondidas para
outros pases. Havia noites em que tnhamos refugiados escondidos no quarto da lavandaria ou a dormir por baixo da mesa. E s vezes tnhamos soldados americanos.
Apenas rapazes, a maior parte deles. Rapazes desorientados e cheios de saudades de casa.
A ns as esposas era-nos dito que aqueles eram rapazes que tinham sido dispensados, mas eles estavam to desorientados com a guerra que no conseguiam ir para casa.
Acho que era verdade para alguns deles. E sei que ainda h ex-soldados americanos que vivem em Lampang e Chiang Mai e Nakhon Ratchasima, portanto alguns nunca voltaram
para casa. No
entanto, cheguei  concluso de que a maior parte dos rapazes-soldados americanos que passaram pela nossa casa no iam apenas  procura de uma ajuda tranquila, eles
estavam a esconder-se. Alguns eram desertores. Alguns eram homens que estavam envolvidos nas suas guerras pessoais contra toda aquela mquina de guerra.
Um dia o Howard trouxe um jovem vestido com roupa camuflada e disse-me que ia ficar a dormir no cho da sala de trabalho durante algumas semanas. Era um jovem simptico,
alto e elegante, mas quando olhei para a cara dele, soube que ele tinha visto o inferno. Os seus olhos estavam to assombrados que deviam ter ficado apavorados,
s que ele transparecia tanta suavidade.
Como havemos de lhe chamar? perguntei-lhe. Nunca eram revelados os nomes completos, mas uma vez que aquele homem ia ficar em minha casa durante vrias semanas,
precisava de me dirigir a ele de alguma maneira.
Chame-me Kit, disse ele. E foi assim que conheci o seu pai.
O Kit ficou bastante mais do que algumas semanas. Perguntei ao Howard o que se passava e foi-me dito que o Kit tinha resolvido trabalhar com o grupo deles em alguns
projectos especiais.
Fomo-nos todos habituando a ter o Kit na nossa casa. Ele era engraado naquela altura. Falvamos uma mistura de francs e tailands com gria americana pelo meio,
e ele fazia-nos rir a todos, com as suas tentativas em participar e com a sua pronncia esquisita. E quando estava em casa era muito atencioso e sempre pronto a
ajudar toda a gente. Quando morreu o meu beb com duas semanas, foi o Kit quem se sentou ao p de mim e me pegou na mo nos momentos difceis. O Howard andava to
ocupado, esto a ver, e a maneira de ele enfrentar a dor foi envolver-se em mais ocupaes.
No sei quando foi que a Kamsai e o Kit se apaixonaram. Subitamente o amor surgiu simplesmente ali, nos seus olhos. E cresceu e cresceu at que eles ficaram completamente
absorvidos por ele. Eu achei bonito que um amor assim pudesse acontecer no meio de todo aquele horror e morticnio. A velha Busaba assegurava que eles tinham sido
amantes numa outra vida e que j era um amor antigo. Destinado a ser.
A Kamsai ficou grvida da Lenore e fizemos o casamento em nossa casa. A Chinda preparou tudo. Com a ajuda de um astrlogo, escolheu-se um dia de sorte, depois o
Vichet fez um arranjo no jardim. Vieram dois monges para entoar cnticos antes da cerimnia. O Howard tratou de arranjar muitos presentes para os monges... era a
tradio... as famlias do casal deviam dar ofertas aos monges para obter boa sorte para o casamento, e ns considervamos que ramos a famlia dela. Pensvamos
que seria uma cerimnia simples, mas vieram os vizinhos e vieram alguns membros do grupo do Howard e o marido e a cunhada da Chit e as famlias da Busaba e da Chinda
e as irms do Vichet e aquilo transformou-se numa multido.
A Chinda tinha insistido que tanto o Kit como a Kamsai fossem vestidos de branco, uma coisa com que todos os homens americanos implicavam, e que a Kamsai usasse
grinaldas com flores de jasmim no cabelo. Tirmos fotografias. Eu sei que tirmos. Mas simplesmente no sei o que lhes aconteceu. No encontrei nenhumas fotografias
da Tailndia.
O casamento tailands no  realmente uma cerimnia religiosa. Muitos casais vo simplesmente entregar os papis oficiais e fica tudo resolvido. Mas ns queramos
dar  Kamsai e ao Kit a percepo da famlia e o mais auspicioso comeo de um com o outro, por isso fizemos uma bonita cerimnia tradicional a maneira antiga. O
casal nupcial ajoelhou-se e o pai da Chinda procurou sinais de boa fortuna nas suas testas. Depois estenderam as mos sobre um recipiente de ouro e todos ns, um
de cada vez, derrammos gua purificadora nas suas mos unidas com uma concha de bzio. Depois fizemos uma festa.
Toda a gente que podia deu a sua contribuio para mandar o casal para o Erawan Hotel a passar a sua noite de npcias. Eu estava preocupada com eles, com o seu futuro,
mas convenci-me de que tudo havia de se resolver da melhor maneira.
E fosse o que fosse que o Kit andasse a fazer, estava a render-lhe bastante dinheiro, porque ele de repente disse  Kamsai que podia comprar-lhe uma pequena casa.
Mas a Kamsai suplicou-lhe que a deixasse ficar connosco nas instalaes dos empregados. No queria estar sozinha com o beb a chegar e ele no podia prometer-lhe
que ficava em casa com ela. Ningum lhe perguntou o que andava a fazer para ganhar dinheiro. Acho que tnhamos medo de saber.
O seu nascimento foi um dia de jbilo na nossa casa, Lenore. Toda a gente a enchia de afecto. Eu fiquei um pouco triste porque no tinha nenhum beb meu para pegar
nos braos, mas isso logo passou e dediquei a si todo o meu amor maternal. Voc era uma beb to amorosa e to bonita. Nunca chorava. E por que havia de chorar?
Havia sempre algum ansioso por pegar em si e para a embalar e para cantar para si.
O Kit deu-lhe o nome de Lenore porque dizia que esse nome tinha um grande significado para ele e era importante para as pessoas com quem ele se preocupava. A Kamsai
tinha dificuldade em pronunci-lo, porque os tailandeses no conseguem pronunciar bem o som r, e por isso s vezes chamavam-lhe Dang. Vermelha. Porque voc gostava
muito de coisas vermelhas.
Quando voc ficou crescida e adquiriu as suas prprias feies, a Busaba e a Chit e a sua me costumavam ficar a observ-la, maravilhadas com a maneira como se parecia
com elas e no entanto no era parecida com elas. Os tailandeses so muito conservadores no que diz respeito  aparncia, e a Kamsai comeou a ficar preocupada, com
receio de que voc no fosse bem aceite pelas outras crianas.
Apesar de eu no a querer perder, nem os seus pais, cheguei  concluso de que s havia uma soluo. O Kit devia voltar para os Estados Unidos e levar consigo a
sua pequena famlia. Disse isso ao Kit e ele ficou muito zangado comigo. Apelei ao Howard, com a certeza de que o meu marido concordaria em ajudar-me a convencer
o Kit. Foi quando o Howard me confessou que o Kit tinha muitos problemas e era considerado pelo exrcito como um criminoso.
Passei por um perodo de tempo pessoalmente difcil. Queria desesperadamente tentar ter outro filho, mas no queria que nascesse na Tailndia.
#Queria ir para a Frana ou para os Estados Unidos, onde o meu beb pudesse ter todas as vantagens dos cuidados mdicos mais modernos, mas o Howard disse-me que
ainda no estava preparado para deixar a Tailndia. Entrei numa depresso e a nica coisa que me animava era voc, Lenore.
Ignorei o que estava a acontecer com o seu pai. Disse  Kamsai que no se preocupasse com os seus silncios prolongados, nem com os maus sonhos que ele tinha durante
a noite, porque eu j estava saturada com o meu prprio desespero para suportar ver mais algum desesperado.
Oh, mas voc era uma alegria permanente para todos ns, Lenore. Os seus primeiros passos... as suas primeiras palavras... as suas risadas... faziam de cada dia um
dia especial. E depois tivemos o casamento da Chit e a promessa de mais bebs. E a Chinda tornou-se av.
Nunca esquecerei a noite que idade devia ter voc? Talvez trs ou quatro anos? Voc falava tailands e francs razoavelmente. Nunca me esquecerei... Levmo-la para
a gua, no para um klong mas para o Rio Cho Phia, ao festival das Luzes Flutuantes, e o Vichet tinha-lhe feito o seu pequeno krathong de bambu e papel colorido.
E todos ns ajoelhmos e deixmos que fosse voc a acender a vela e o incenso. Depois ajudei-a a lanar a sua honra aos espritos do rio, e todos nos sentmos na
margem a olhar para ela a ser arrastada pelo rio e a misturar-se com as outras luzes que flutuavam na gua, e voc levantou os olhos para mim com todas aquelas luzinhas
a encher os seus olhos e disse Mam Fanny, esta foi a minha melhor noite de sempre.
O comportamento do Kit tornou-se cada vez mais inconstante. Num dia podia estar entusiasmado em mandar a filha para uma escola em Paris, e logo no dia seguinte j
se tinha esquecido disso e estava todo entusiasmado a dizer que a Tailndia era um ptimo lugar para criar um filho.
Depois o Kit foi-se embora e ficou fora durante muito tempo. Tanto tempo que estvamos todos j muito preocupados. Supliquei ao Howard que fizesse alguma coisa,
que fosse pelos canais, que cobrasse favores, qualquer coisa para conseguir notcias do Kit. O Howard concordou que ia tentar. Mas disse que sabia que Kit Corwin
nem sequer era o nome verdadeiro do homem.
O Howard nunca revelou o que sabia. Subitamente, um dia o Kit voltou para casa. O Howard chamou-o imediatamente  sua sala de trabalho, ainda antes de o Kit ter
ido ver a mulher e a filha. Quando o encontro terminou, o Kit saiu e anunciou que ia levar a Kamsai para a sua prpria casa.
Fiquei magoada com aquilo, claro, pois para mim a Kamsai nunca tinha sido uma empregada e no queria que nem ela nem a Lenore ficassem longe de mim. Supliquei ao
Howard que intercedesse e mudasse o propsito do Kit, mas o Howard ficou insensvel e disse que a separao era inevitvel.
Todos chormos quando ele as levou, a si e  sua me. Tinha encontrado uma casa sobre estacas, com dois quartos, ao longo de um dos klongs menos superlotados. Era
o gnero normal de casa de klong, feita de madeira de teca, com um telhado de chapa de lata ondulada, mas estava construda no meio da sua prpria pequena cortina
de folhagem e havia nela uma tranquilidade exuberante.
A Kamsai tinha emoes muito confusas sobre a mudana de casa. Estava orgulhosa por ter uma casa prpria, mas muito triste por deixar o complexo e ter de levar a
Lenore para longe de ns. Quando se mudaram, o Kit ficou em casa durante alguns meses, mas depois passou a ficar fora mais do que nunca. O Howard disse que o Kit
era uma pessoa que se devia evitar, mas no deu explicaes, e eu no o pressionei para dar pormenores. Pareceu-me que ele e o Kit tinham tido um desentendimento.
A Chinda ensinou a Kamsai a viajar de autocarro, e logo que o Kit se ia embora, ela pegava na Lenore e vinha para junto de ns. Passava todo o dia connosco, depois
fazia aquela longa viagem para ir dormir em casa, porque o Kit queria que a mulher e a filha dormissem  noite nas suas camas. O Kit era inflexvel em relao a
isso. A primeira vez que soube que a Kamsai e a Lenore tinham dormido no complexo ficou furioso.
A tenso entre o Howard e o Kit aumentou, at que o Howard se recusou a voltar a falar do Kit e proibiu que o Kit viesse a nossa casa. Foi horrvel. O Kit retaliou,
proibindo a Kamsai de ir visitar-nos, ao que o Howard respondeu que estava muito bem porque ele no queria nenhum deles por ali. Ainda no tinham passado duas semanas
e j estvamos a transgredir aquela proibio. No imaginam o que todos passmos, agindo disssimuladamente, escondendo-nos tanto do Howard como do Kit.
Voc fez cinco anos, Lenore, e era muito, muito esperta. Sabia que nunca devia mencionar ao seu pai as visitas ao complexo, mesmo sem ns lhe explicarmos. Aprendia
to depressa... era como uma pequena esponja. Comecei a ensin-la a ler em Francs e a sua me, que nem sequer sabia ler, estava a ficar toda entusiasmada por ter
uma filha instruda.
Depois eu soube que estava grvida de novo. No conseguia pensar em mais nada seno em ter um beb saudvel, por isso disse ao Howard que me ia embora para o ter,
quer ele estivesse de acordo quer no. A irm dele, que vivia no Connecticut, ofereceu-me a casa dela e eu disse ao meu marido que ia para l e ele podia continuar
na Tailndia se quisesse.
Fiquei muito magoada quando aceitou o acordo e me mandou sozinha para o Connecticut, mas eu depressa deixei de ligar a isso. O beb era a nica coisa importante
para mim.
O Howard insistiu para que eu continuasse com ele na Tailndia o mais tempo possvel, por isso estava no princpio do meu stimo ms quando finalmente comprei o
bilhete de avio para os Estados Unidos. A Kamsai, que tambm estava novamente grvida, desafiou o Kit e levou a Lenore  minha festa de despedida. Toda a gente
em casa estava lavada em lgrimas, e voc, Lenore, no parava de se agarrar a mim e de olhar para a minha cara, como se estivesse a procurar memorizar cada linha
do meu rosto, mas eu prometi-lhe que voltaria logo que o beb fosse grande e forte e achasse que no havia qualquer problema em fazer a viagem de volta.
As dores de parto comearam quando estava a quatro horas de Nova Iorque. Ao princpio tentei fingir que no era nada, mas o meu parto anterior tinha sido prematuro
e, aps uma hora de contraces regulares, tive de enfrentar o que estava a acontecer. Disse  hospedeira de bordo e toda a gente
foi muito simptica. Desobstruram uma rea na parte de trs e um mdico, um especialista dos olhos do Ohio, foi ficar ao p de mim.
Dei  luz com facilidade. Um beb de sete meses  muito pequenino, sabem. O mdico foi maravilhoso no meio de tudo aquilo e a hospedeira de bordo estava sempre a
vir a contar-me as novidades: primeiro, que o avio tinha o espao livre para aterrar imediatamente, depois voltou novamente para me dizer que estava uma ambulncia
e um mdico  minha espera para se dirigirem logo para o avio mal tocasse no solo. Eu segurei o meu filho pequenino bem junto a mim enquanto aterrvamos. Estava
com dificuldades em respirar e no havia nada que o pobre mdico dos olhos pudesse fazer.
Eu ainda estava consciente quando morreu. Depois perdi os sentidos. Recordo-me vagamente da sirene de uma ambulncia. Quando recuperei os sentidos, estava metida
numa cama de hospital, fora de perigo, com a irm do Howard a chorar ao meu lado. Toda a gente dizia a mesma coisa, que logo havia outros bebs e que eu tinha sorte
em ter conseguido sobreviver.
A partir dali foi um nevoeiro para mim. Depresso clnica  o termo. Foram dois anos. A minha querida cunhada tratou de tudo e certificou-se de que eu recebesse
os devidos cuidados. O Howard voou para o Connecticut uma ou duas vezes, mas eu mal me lembro da sua presena.
Quando finalmente fiquei boa e forte, o Howard veio ver-me e contoume as novidades da Kamsai. Tinha evitado contar-me antes com medo que me pudesse fazer mal.
Disse que tambm no me tinha contado a verdade sobre o Kit. Quando eu lhe tinha pedido para se servir dos seus conhecimentos para encontrar Kit Corwin, ele tinha
tomado conhecimento de coisas horrveis sobre aquele homem. O Kit tinha-se feito passar por desertor, mas na verdade Kit Corwin tinha estado sempre em misso militar.
Pertencia a uma espcie qualquer de um ramo especial de homens altamente treinados que faziam misses secretas... assassnios e sabotagens na maior parte das vezes...
e a sua misso militar tinha sido infiltrar-se no grupo do Howard e espi-los.
O Howard confessou que no achava que o Kit lhes tivesse feito mal e que, na verdade, havia provas que demonstravam que o Kit os tinha, de certa forma, protegido,
mas para o Howard o facto de o Kit ser espio era imperdovel. O Howard contou ao seu grupo o que se passava com o Kit. Aqueles homens contaram a outros, evidentemente.
E de repente o Kit tinha inimigos por toda a parte. Estavam aniquiladas todas as suas misses secretas.
Eu soube tudo isso pelo Howard. Mas quanto ao resto da histria... no vou contar a verso do Howard porque soube mais tarde que no era totalmente verdadeira. O
Howard estava demasiado envergonhado para me contar a verdade. Portanto o resto da histria  a verso da Chinda, que eu soube muito mais tarde.
A Chinda disse que o Kit foi l a casa num estado de grande inquietao. Disse que estava em perigo e que os seus superiores lhe tinham ordenado que voltasse imediatamente
para o seu quartel-general. Suplicou ao Howard que autorizasse a sua mulher e filha a irem ficar no complexo para estar em segurana, at que ele conseguisse organizar
a sua sada do pas.
Suplicou ao Howard que as protegesse. Mas o Howard recusou. O Howard disse ao Kit que devia ter pensado nas consequncias antes de se envolver em esquemas to srdidos.
A Chinda ouviu tudo e ficou muito preocupada. Depois de o Kit se ir embora, perguntou ao Howard se podia ir ela buscar a Kamsai e a Lenore. O Howard disse que, se
o Kit no organizasse as coisas para elas irem embora numa semana, ento autorizaria a Chinda a ir busc-las. Mas disse-lhe que considerava aquilo desnecessrio,
porque ningum teria qualquer ressentimento contra uma mulher e uma criana inocentes. Era apenas o Kit que estava em perigo.
Passaram trs dias e a Chinda no pde esperar mais tempo e apanhou o autocarro para ir a casa da Kamsai. Entrou em casa e encontrou a Lenore no meio do cho, com
as mos na cabea da me. Havia sangue nas paredes e no cho. Tanto a me como a criana estavam cobertas de sangue e havia moscas por toda a parte. A Lenore no
se mexeu e, embora estivesse sentada, estava to imvel que a Chinda primeiro receou que estivessem mortas as duas.
Mas quando se deu banho  Lenore, no havia nela uma nica marca ou ferida. As feridas estavam todas escondidas. Ela olhava fixamente como se fosse cega e no falava
absolutamente nada. A polcia disse que a Kamsai tinha sido espancada at  morte durante a noite e dava a impresso que a Kamsai tinha ouvido os intrusos a entrar,
a tempo de poder esconder a Lenore. No havia maneira de saber se a criana estava num lugar onde se visse alguma coisa, mas era certo que tinha ouvido a me a ser
torturada e assassinada.
A Chinda levou a criana para casa, para o complexo, e organizou o funeral da Kamsai. O Kit apareceu, mas a Chinda disse que ele estava demasiado desesperado para
pensar com clareza sobre alguma coisa. Desapareceu sem fazer quaisquer preparativos para algum cuidar da filha. A Chinda e a Chit tomaram conta de si no complexo,
Lenore, e procuraram sarar o seu esprito com muito afecto.
Com o remorso, o Howard contratou mdicos para a ajudarem, mas nenhum teve sucesso. O seu pai ia visit-la. A Chinda disse que eram sempre surpresas breves durante
a noite e que no lhe devem ter parecido mais do que sonhos. O Kit ficou completamente destroado com a morte da Kamsai, sentindo-se responsvel por ela e alternando
entre a raiva e o silncio estuporoso. Receava desesperadamente pela sua segurana, Lenore, mas era completamente irracional quanto a tomar providncias. Com o passar
dos meses tornou-se progressivamente imprevisvel e perturbado de tal maneira que a Chinda e a Chit tinham medo dele e tinham medo de a deixar sozinha com ele. Depois
deixou de aparecer.
A Chit e o marido tinham planeado mudarem-se para o campo para viver com familiares e acharam que o campo podia oferecer-lhe alguma paz, Lenore, por isso levaram-na
com eles. O seu pai tinha deixado uma direco em Saigo para ser usada em caso de emergncia. A Chinda mandou uma mensagem para essa direco, em que lhe comunicava
para onde ia a filha dele. Nunca houve nenhuma resposta.
Depois, Saigo caiu e o exrcito americano meteu o rabo entre as pernas e voltou para casa, e o Howard ouviu dizer que o Kit tinha sido morto.
Franoise Newman inclinou-se para a Lenore e estendeu-lhe as mos.
Oh Lenore, no consigo dizer-lhe como me senti quando soube de tudo isso. Perder a Kamsai de uma maneira to insensvel e brutal j era muito mau... mas pensar que
a tinha desiludido daquela maneira. Voc precisou de mim e eu no estava l para a ajudar. Em vez disso, estava na cama, no Connecticut, a cuidar da minha prpria
estpida dor.
Reservei imediatamente uma passagem area e enviei uma mensagem ao Howard dizendoque ia ter com ele a Bangkok. Eu sabia que ele ia ficar satisfeito e deixei-o ter
a sua satisfao no lhe disse que voc, Lenore, era o nico motivo por que eu voltava. Estava decidida a procur-la e a adopt-la como minha filha.
Cinco dias depois da minha chegada a Bangkok, a Chinda e eu viajmos at aos campos de arroz para onde a Chit e o marido a tinham levado. Mas voc tinha desaparecido!
Tinham ido l soldados americanos para a levar, disseram eles. A Chit ainda tentou fugir consigo para a floresta, mas os soldados perseguiram-na e apanharam-na.
Um deles bateu-lhe na cabea com a espingarda e ia continuar a bater-lhe, mas a Chit disse que voc se transformou num tigre, mordendo-o e arranhando-o para salvar
a Chit.
Juntas, a Chinda e eu investigmos e questionmos toda a gente e seguimos pistas na tentativa de a encontrar. Falmos com centenas de pessoas de organizaes civis
e militares. Visitmos com frequncia campos de refugiados. Ningum sabia de nada e o exrcito negou qualquer envolvimento. Mas eu continuei a procurar. Durante
anos e anos.
O Howard resolveu reformar-se cedo e continuar os seus estudos sobre as borboletas, visto que tinha os meios para o fazer. Abandonmos o complexo em Bangkok. O Vichet
fez-se monge e a Chinda foi viver com a filha. Convenci o Howard a comprar esta casa em Ridgefield porque eu gostava disto aqui.
E assim acaba a minha histria... ou pelo menos assim me parecia, at receber o telefonema do Owen e ouvir o nome Lenore.

O sol ainda brilhava. Estavam ainda no Connecticut e era ainda sbado. O fim repentino da histria de Franoise Newman fez Owen voltar ao presente com um baque.
Lanou um olhar para Lenore. Estava de olhos fixos e inexpressivos, ou profundamente arrebatados, ou num perfeito estado de choque.
 tudo quanto sei, disse Franoise suspirando, como se acabasse de se sentir aliviada de um pesado fardo.
Owen esperou pela reaco de Lenore. O que estaria ela a pensar? Depois de tantos anos de incerteza angustiante, como iria enfrentar aquela terrvel verdade?
Uma nica lgrima caiu-lhe do canto do olho. Por que  que eu no me lembro, Franoise? Por que tenho toda esta escurido dentro de mim?
Fiz-lhe recordar alguma coisa? perguntou Franoise. Alguma coisa do que eu disse lhe tocou em alguma corda?
Sim. Nomes. Mam Fanny. Tia Chit. Tia Chinda. E pequenas coisas... fragmentos. As luzes na gua. Flores num altar com uma imagem de ouro de quatro cabeas. Sentir-me
em segurana junto de algum num autocarro cheio de gente. Mas no consigo obter imagens mentais estveis.
E o livro... as fotografias foram de algum modo significativas?
Algumas... sim. Lenore abriu o livro. Esta fotografia dos vendedores nos pequenos barcos, a vender comida de porta em porta ao longo do canal. Lembro-me de ficar
entusiasmada... a correr pelas escadas abaixo para a gua, para escolher alguma coisa doce. Folheou as pginas at chegar a um templo magnfico e maravilhosamente
decorado. Esta fotografia do Deus Lua no Templo da Aurora. Eu conheo-o. Fui l muitas vezes com algum e rimo-nos no caminho e levmos-lhe oferendas. Fechou o livro.
E tenho sonhos, Franoise. Sonhos estranhos que me tm assustado, porque no consigo compreend-los. Sempre tive alguns, mas desde que morreu o meu marido, o meu
sono est cheio deles.
Fale-me deles, insistiu Franoise.
Geralmente incluem qualquer coisa de mstico caras de deuses esculpidos que falam e adivinhadores que conseguem ver atravs de mim. E fantasmas. Muitos fantasmas.
#Voc  uma verdadeira tailandesa, Lenore. Franoise sorriu suavemente.
Sim. Agora percebo isso. E as pessoas que aparecem nos sonhos so as minhas tias ou as minhas mams. Sei sempre quem so, mas nunca consigo ver bem as suas caras.
Ou porque sou muito pequena nos sonhos, ou a pessoa est nas zonas escuras.
Li muito sobre traumas infantis ao longo dos anos, disse Franoise. Estou convencida de que  frequente bloquearem recordaes que so assustadoras ou perturbadoras.
 um mecanismo de proteco das crianas. Observou Lenore com tristeza. Andei to preocupada com o que lhe aconteceu e como foi a sua vida e se alguma vez voltaria
a falar, e suponho que continuei a ler para tentar convencer-me de que as coisas podiam ter resultado bem para si.
Lenore lanou um olhar para Owen.
Queres que eu saia? perguntou ele, inclinando-se para a frente para desligar o gravador.  claro que no me importo de ir dar um passeio se vocs as duas quiserem
ter uma conversa privada.
Franoise observou Lenore. Owen ficou  espera. Lenore baixou os olhos para o livro. Finalmente olhou para Owen e disse, No. Fica.
Podamos encontrar-nos noutra altura, sugeriu Franoise. Isto foi um grande choque... ouvir tudo assim de uma s vez. E Deus sabe como eu tenho tempo para receber
visitas. Nestes dias no tenho feito outra coisa que no seja esperar que o meu joelho fique curado, depois da interveno cirrgica.
A cara de Owen deve ter manifestado surpresa porque ela riu-se. Julgava que eu era incapacitada? Eu no. Quando menos esperarem, vou estar de p a fazer treino de
corrida. Tenciono desfrutar ao mximo a minha viuvez. Parou e mordeu o lbio. Desculpe, Lenore. Fui to insensvel. Esqueci-me por momentos...
No faz mal, Franoise. No faz mal. Lenore fechou os olhos. Cada linha do seu corpo parecia fraquejar, e por momentos Owen receou que ela pudesse desmaiar.
Sente-se bem? perguntou Franoise; depois virou a cabea para chamar, Vera! Vera!
A mulher apareceu quase instantaneamente.
Quer mais ch, Lenore? Ou caf, ou gasosa? Ou talvez alguma coisa alcolica? Inclinou-se para a frente para pegar nas mos de Lenore. Parece estar exausta. Est
com fome? Quer uma banana? Potssio e acar natural podem ajudar.
A Vera apressou-se a sair e voltou com um cesto de fruta, um prato de biscoitos de farinha de aveia, trs garrafas de gasosa natural e palhinhas.
Obrigada... a todos, disse Lenore. Sorriu levemente, No estou habituada a ser apaparicada desta maneira.
A Vera abriu a ponta de uma banana, descascou-a at ao meio e entregou-a a Lenore. Franoise abriu uma garrafa, introduziu uma palhinha e colocou-a na mesa que estava
em frente de Lenore.
Lenore riu-se. Mas tinha os olhos cheios de lgrimas e os cantos da boca voltados para baixo. Deu algumas dentadas e bebeu um pouco, mais para lhes agradar do que
para se servir; depois ficou tensa e respirou fundo.
S me lembro de estar em cima do bfalo-de-gua. Com pessoas  volta.
Chegaram os soldados americanos e perseguiram-me e ouvia-se muita gritaria e tive a certeza que me ia acontecer alguma coisa m, mas no aconteceu de facto. Fui
simplesmente trazida para a Amrica.
Franoise abanou a cabea. Quem eram esses soldados?
No sei realmente. Mas agora penso...  confuso, porque tenho de esquecer aquilo em que me ensinaram a acreditar. Sempre me disseram que eu estava em perigo por
causa da guerra e que tinha sido salva, mas isso no era verdade, pois no? Estava em total segurana e era bem cuidada. Mais parece que fui raptada.
Mas quem teria feito uma coisa dessas? disse Franoise. O seu pai j estava morto e voc no significava qualquer ameaa para ningum.
Lenore olhou para Owen e ele vislumbrou reflexos de raiva nos olhos dela. Acho que agora consigo imaginar quem esteve por detrs do meu rapto... Mas isso j no
 importante, pois no? As mos de Lenore estavam to apertadas uma na outra que os ns ficaram brancos. S quero saber do meu pai e da minha me. Quero lembrar-me
deles. Quero lembrar-me de todas aquelas pessoas que me amavam! Por que  que no consigo lembrar-me?
Quer ver algumas fotografias que trouxemos? perguntou Owen, esperando aliviar a tenso. Temos muitas fotografias, mas no sabemos se o pai da Lenore est em alguma
delas.
Com certeza. Franoise meteu a mo no bolso do vestido e tirou um par de culos elegantes para ler.
Owen mostrou-lhe todas as fotografias possveis que tinha encontrado na caixa, fotografias em que se viam grupos de homens a trabalhar no campo. Uma fotografia instantnea
de jovens num piquenique. Fotografias individuais de homens no identificados. No havia assim tantas. A Tia Milly tinha dito que duvidava que houvesse alguma fotografia
de Luther Bachman na caixa, e tinha razo.
Depois Owen entregou-lhe o desdobrvel com as fotografias antigas do Bram e do Al. Eu estava a pensar se algum destes homens teria aparecido alguma vez  procura
de Kit Corwin, ou se alguma vez os ter visto com o Kit.
Franoise abriu o desdobrvel e de repente os olhos dela ficaram surpreendentemente dilatados.
Mas, ele est aqui. Kit Corwin est mesmo aqui.
Lenore saltou do seu assento para olhar por cima do ombro de Franoise e Owen aproximou-se mais.
Este  o seu pai, Lenore. Este aqui.
Estava a apontar exactamente para Abe Hanselmann... Al... o adoptado. O primo/irmo perturbado. O homem que tinha vivido como um eremita no estdio de Bram Serian.
No! gritou Lenore. Owen ia pegar-lhe no brao, mas ela sacudiu-o e fugiu.
Foi rpida e teve o elemento da surpresa a seu favor. Por fim, depois de atravessar o extenso relvado, ele apanhou-a. Ela bateu cegamente com as mos fechadas e
ele agarrou-a com fora, envolvendo-a com os braos, at que ela deixou de lutar.
Posso largar-te? perguntou ele hesitante.
Sim, disse ela num som sibilante. Mas no posso voltar a v-la. Agora no. Ainda no.
Est certo. A Franoise h-de compreender. Vai para o carro que eu vou l a casa buscar as nossas coisas e despedir-me.
Franoise estava mesmo junto da porta de entrada, presa na sua cadeira, absolutamente perturbada. A Vera estava atrs dela retorcendo as mos e murmurando em russo.
O que  que eu fiz, Owen? O que  que eu fiz?
No se culpabilize, Franoise. Isto era uma coisa que ela queria saber e ia com certeza descobrir de uma maneira ou de outra.  apenas um choque. Eu...  uma histria
muito comprida e complicada para lhe contar, e no  minha.  da Lenore, e tenho a certeza que ela vai querer contar-lha no seu devido tempo. D-lhe tempo.
Ela sabia quem era ele, no sabia? O Kit est vivo?
Sim. Presumivelmente. E ela conheceu-o de facto, mas nunca suspeitando que era o pai dela. Acho... acho que o pior de tudo isto  que ela sempre imaginara o pai
como algum perfeito e maravilhoso que havia de proteg-la se pudesse encontr-lo. E o homem naquela fotografia  incapaz de proteger seja quem for.
Franoise estendeu o brao para lhe agarrar a mo. No quero voltar a perd-la, Owen. Acha que tenho alguma hiptese? Ser que ela consegue aceitar-me como amiga?
Franoise, a vida dela est muito complicada neste momento.
Sim. Eu sei.
H mais coisas. Mais coisas para alm de ter ficado viva. No depende dela.
Sim, Owen, disse ela firmemente. Eu sei. Ele ficou a olhar para ela.
Eu sei, insistiu ela. Percebi quem era ela. A fotografia do jornal. O nome Lenore. E voc perguntou-me se conhecia algum da famlia Serian. Logo que a vi, tudo
se ajustou.
Ela no queria dizer-lhe. Est muito preocupada com o que voc possa pensar dela.
Franoise suspirou. Para mim ela continua a ser a beb da Kamsai.
Tenho a certeza de que ela vai querer voltar a v-la em breve. Est muito sozinha.
Tambm eu, disse Franoise. Por favor, por favor, diga-lhe por mim ela  como se fosse minha filha. Hei-de sempre am-la... acontea o que acontecer.
Owen conduziu o carro pela cidade de Ridgefield sem destino, parou para meter gasolina e depois continuou a conduzir. Uma acumulao de nuvens assinalou uma escurido
adiantada. Ele continuou  espera de um sinal de Lenore, mas ela estava mergulhada num silncio distanciado. Finalmente estacionou em frente de uma velha estalagem
acolhedora.
Vamos jantar, anunciou ele.
Ela mexeu-se um pouco. No tenho fome. Vai tu. Eu fico aqui.
So horas de jantar. Ambos precisamos de comer e a nica alternativa  voltar directamente para a Arcdia e atirarmo-nos  comida congelada.
Mas eu no estou mesmo com fome. Pareceu to categrica que ele quase desistiu, mas ento ela mexeu o brao e ele reparou no seu pulso delgado.
No quero saber se ests com fome. Bolas, Lenore! O que ests a tentar fazer? Queres morrer  fome? Achas que isso te vai ajudar em alguma coisa?
Eu como, disse ela teimosamente.
 bvio que no o suficiente. Pareces um esqueleto.
Ela endireitou-se e olhou para ele com ar irritado. Pelo menos provou que ainda lhe restava algum nimo.
Ele continuou a insistir com ela.  uma indelicadeza da tua parte esperar que uma pessoa tenha vindo a conduzir desde Manhattan e que tenha ido buscar-te a casa
e te tenha trazido ao Connecticut e depois faa a viagem de volta sem tomar uma refeio decente em todo o dia.
O olhar furioso intensificou-se. Eu no sou indelicada.
Talvez no. Talvez penses apenas que no mereo a tua considerao. Ela abriu a porta com fora e saiu do carro. Ele ficou impressionado com a sua elegncia. Mesmo
estando cheia de raiva, cada movimento do seu corpo tinha uma graciosidade fluida.
O restaurante era to agradvel do lado interior como prometia o exterior. Sentaram-se e Lenore recebeu a ementa com uma reserva glacial. O estalajadeiro fez uma
vnia e ficou desajeitado, claramente intimidado por ela.
Ela olhou para a ementa como se conseguisse l-la.
Eu vou ser um chauvinista e vou escolher o teu prato, disse Owen, tirando-lhe a ementa das mos.
Eu no quero nada, obrigada.
Eles no permitem isso em lugares como este. No podes ocupar uma mesa sem mandar vir comida.
Ela franziu levemente as sobrancelhas e os seus olhos dardejaram um olhar  volta da sala.
Ningum sabe, Lenore. Ningum aqui vai alguma vez adivinhar que no consegues ler a ementa.
Ela observou-o com os olhos ligeiramente diminudos.
Ento agora consegues ler os pensamentos das outras pessoas? Talvez sejas tambm um adivinho?
Ele abanou a cabea e riu-se.
Depois de ele ter feito o pedido, ela olhou pela janela para as nuvens que estavam a ficar escuras.
Vem a chuva, disse ele.
Ela acenou com a cabea abstractamente. Custa tanto a aceitar isto. Ele nunca foi um pai para mim. Nunca. Quando eu era mais nova, assustava-me com ele. E mais tarde
comecei a sentir mais compaixo do que afecto por ele.
Eu nunca teria adivinhado, disse Owen. O Bram era irmo dele... era adoptado, claro, mas era irmo dele. Como  que ele pde... casar contigo?
Ela baixou os olhos. Eu ouvi por acaso uma discusso entre o Al e o Bram. A certa altura o Bram comeou a gritar sobre tudo o que tinha feito pelo Al... tudo o que
tinha sacrificado pelo Al. No consegui ouvir a resposta do Al, mas depois o Bram disse, Vai sempre tudo a dar  Lenore. Estou saturado de ouvir falar da preciosa
Lenore.
Ao ouvir aquilo, o meu corao parou. Por que teriam introduzido o meu nome na discusso? O que  que eu tinha a ver com o Al? Mas c no fundo, receava saber.
Estavas ansiosa por que eu te provasse o contrrio, no  verdade? perguntou Owen.
Ela hesitou. Sim. Eu recusava-me a acreditar. O que ouvi podia ter significado qualquer outra coisa, por isso queria convencer-me de que significava essa qualquer
outra coisa. Estava decidida a encontrar o pai que eu desejava.
E desejavas que fosse Luther Bachman.
Ou outra pessoa qualquer, mas no o Al! Como podia querer que fosse aquela pattica amostra de homem? E foi quando ainda pensava que ele era apenas primo do Bram.
E j era bastante mau. Depois, quando soube que eram irmos...
Ele era adoptado, acrescentou Owen imediatamente. No havia qualquer relao de consanguinidade.
Mas no deixa de ser desprezvel, mesmo assim. Tu mesmo o disseste momentos atrs... como pde o Bram casar comigo?
E porqu, exactamente? perguntou Owen. Por que o teria feito? Lenore assumiu uma atitude rgida. Agora no quero falar mais nisso.
Est bem. Muito bem. Mas alguma vez vais ter de enfrentar isso. Talvez fosse melhor falar com um psiclogo.
Achas que estou doida?
No. Apenas penso que  difcil lidar com tanta coisa sozinha. Seria para qualquer pessoa. Acho que o meu irmo ainda estaria aqui se tivesse ido pedir ajuda a algum.
O teu irmo? Porqu? Ele...
Enforcou-se. Da nica rvore que ali existia, capaz de suportar o corpo dele.
Ento ela ficou calada, mas os seus olhos estavam cheios de compaixo.
No costumo contar isto s pessoas. Peo desculpa se te deprimi com isso.
Fico contente por me teres contado. Fico contente por quereres contar-me.
Quero contar-te tudo o que quiseres saber sobre mim, Lenore.
Ests a brincar comigo? perguntou ela.
No. Pareceu-te que estava?
Ela inclinou a cabea, divertida, provocadora, misteriosa, com a mais leve sugesto de um sorriso a brincar-lhe nos lbios. O olhar provocou qualquer coisa dentro
dele. No propriamente um sobressalto... mais parecido com uma sensao de queda... uma queda livre. Cruzou os braos em frente do peito e engoliu com dificuldade.
J alguma vez te disse, disse ela, que gosto da maneira como falas?
No conseguiu pensar numa resposta.
Ento chegou a salada e ele agradeceu ao empregado com um agradecimento to sentido que o homem deu um passo atrs.
Foram cuidadosos um com o outro durante o resto do jantar, procedendo com delicadeza atravs dos diversos campos de minas verbais, evitando o passado e o julgamento
e o futuro, optando por uma alternativa com comentrios impessoais sobre a comida e o ambiente. E sobre a chuva, quando esta comeou a cair.
Enquanto estava a pagar a conta, Owen no resistiu a contar-lhe a sua novidade. Lenore, falei com a minha agente ontem  noite. Consegui o contrato com DeMille.
Eles querem o meu livro. Para te dizer verdade, esto agora a negociar o preo. A minha agente pensa que agora vale muito mais.
Agora que tens tantas revelaes feias para incluir nele?
Eu no tencionava introduzir tudo. Tu sabes disso.
Sei?
Ela dirigiu-lhe um olhar severo por momentos, depois desviou os olhos e disse, Fico contente que o teu livro seja publicado. Tenho a certeza de que a tua famlia
tambm vai ficar entusiasmada. J lhes contaste?
Ainda no.
O que queres dizer com isso? Quando voltas para o Kansas? perguntou ela com indiferena.
No sei. Tenho de ver como vai continuar o meu livro, respondeu ele cuidadosamente.
Foram a correr juntos do restaurante para o carro. A chuva miudinha transformou-se numa chuvada forte quando viraram para a auto-estrada, mantendo-os fechados no
interior acolhedor do carro. Na escurido, ele proferiu abruptamente a pergunta que no lhe saa da cabea. Tu amava-lo?
Quem?
O teu marido.
Por que me perguntas isso?
Lenore, eu sei que s tinhas quinze anos quando casaste com ele. Como posso deixar de imaginar como te sentias?
Que diferena faz em ficares a saber como o amei ou quando o amei ou se alguma vez o amei? Agora est morto.  um fantasma.
Mas tu ests viva. Quero saber o que ele era para ti. Quero saber o que significou para ti a sua morte.
Ela ficou calada durante tanto tempo que ele pensou que no ia responder. Mas ento a voz dela saiu da escurido, calma mas intensa. O que tu queres de facto saber
 se eu o matei.
#No, disse ele muito srio. Nunca te perguntaria tal coisa. Mas era verdade. Tambm aquela pergunta tinha andado a tortur-lo. Porque quanto mais Owen sabia, mais
motivos via para ela ter morto Bram Serian. No, Lenore. Diz-me s, casaste com ele por questes de segurana ou amava-lo realmente?
Eu amava-o, disse ela. Mas no da maneira que tu compreenderias.
Owen no conseguiu conter-se. Insistiu, embora soubesse que no era aconselhvel. Nunca esclareceste. Como o conheceste? Onde vivia? Como  que ele se aproximou
de ti?
Porqu? O que  que isso interessa? Acabou e ele est morto e eu estou aqui contigo. Isso no  suficiente para ti?
Sim, respondeu ele. Mas no era.
Durante todo o caminho para a Arcdia, ela no disse mais nada. Os pensamentos de Owen fragmentavam-se numa cacofonia silenciosa, e atravs das fascas provocadas
pela frico ouviu uma voz a sussurrar-lhe que talvez devesse virar para o Norte e continuar a conduzir at ter passado Lenore Serian pela fronteira do Canad e
ficar em segurana com ele. Mas virou para a estrada de campo como era suposto e a seguir atravessou o porto da Arcdia e seguiu pelo caminho sinuoso e escuro que
conduzia  casa. Parou mesmo em frente da porta da casa para a deixar sair, supondo que ela no ia convid-lo a entrar. Havia algumas luzes exteriores que tinham
acendido automaticamente ao anoitecer, mas a casa propriamente dita tinha as janelas desertas e escuras.
Ela ficou sentada no carro, olhando para a chuva atravs da janela, o que ele considerou ser por relutncia.
Desligou o motor. Eu acompanho-te at l dentro, se quiseres. Para te ligar algumas luzes...
Ela dirigiu-lhe um olhar insinuante de lado. Queres entrar?
Ele olhou para ela, sabendo exactamente o que estava a pedir.
Sim, disse ele em voz baixa.
Nenhum deles se mexeu. A chuva caa torrencialmente nas janelas e o carro balanou levemente com uma rabanada de vento.
Puxou-a avidamente para os seus braos e beijou-a na boca. Os dedos envolveram-lhe o pescoo delgado, to frgil e indefeso; depois beijou-a na concavidade da base
da garganta e deslizou as mos para o calor debaixo do casaco. Explorou pelo tacto, observando-lhe a cara no escuro, enquanto procurava a curva dos seios e os mamilos
entumecidos. As costas dela arquearam e ele sentiu o bater acelerado do seu corao.
Owen... murmurou ela, Owen... e o som do seu nome nos lbios dela agitou-o profundamente.
Correram  chuva, agarrados um ao outro, como se receassem perder o contacto. Ele tentou desajeitadamente abrir a porta enquanto ela tratou do alarme. Desfizeram-se
dos sapatos molhados  entrada e deixaram cair os casacos no cho do trio, beijando-se e tocando-se enquanto continuavam a andar.
Subitamente, ele tomou conscincia de que ele prprio continha dois seres, o Owen sensato e racional que sempre tinha sido e um novo Owen, selvagem e incontrolvel.
O novo Owen rasgou a blusa de Lenore Serian e chupou-lhe os mamilos por baixo da renda do soutien. Ela gemeu e passou os dedos pelo cabelo dele e inclinou-se para
trs contra a parede e o novo Owen deslizou as mos pelas coxas acima, to sedosamente quentes e nuas at sentir as cuecas hmidas e ouvi-la gemer novamente.
O novo Owen lambeu-lhe a boca e o pescoo enquanto deslocava os dedos por dentro das cuecas, acariciando e explorando o calor hmido dela at que a respirao acelerou
e a boca dela ficou to voraz como a dele. E o novo Owen puxou-lhe as cuecas para baixo e abriu o fecho das calas e levantou-a para ela o envolver com as pernas.
E introduziu o seu pnis erecto dentro dela mesmo ali, de p, com as costas dela encostadas  parede, a pensar minha minha minha e desejando poder empurrar suficientemente
longe dentro da escurido dela, para lhe tocar no corao.
Mais tarde, quando o velho Owen recuperou o controle, ficou espantado e confuso. Sentia-se como se a sua camada civilizada tivesse sido removida temporariamente,
expondo uma essncia primria que ele no sabia que existia. E oscilou entre a satisfao, o medo e o constrangimento.
Meu Deus, disse ele. Estava deitado com ela num sof, para o qual no se lembrava de ter ido. Sentou-se. Desculpa.
Ela apoiou-se no cotovelo para olhar para ele.
Fui demasiado grosseiro? Eu... Ps a mo na testa. No sei o que dizer.
Pra, disse ela, tocando com um dedo nos lbios dele. Foste excelente. A boca dela curvou-se num lento sorriso sensual. Vem. Vem comigo.
Pegou-lhe na mo e conduziu-o pela casa, parando para ligar apenas o mnimo de luzes necessrias. Passaram pela sala de estar e andaram pelo labirinto at subirem
as escadas que conduziam ao seu santurio de vidro e espelhos. O quarto era negro. No conseguia ver nada, mas lembrava-se perfeitamente dele a parede espelhada,
a mesa comprida, a cama estreita.
A chuva batia contra o vidro e o vento fazia tremer os painis de vidro. Ela deixou cair a mo e afastou-se dele. Ele ouviu o assobio de um fsforo a acender, depois
viu o perfil dela no brilho tnue da chama. Ela estava debruada sobre uma mesa cheia de velas em cilindros de vidro altos, mas acendeu apenas trs.
Voltou-se para ele. A luz das velas reflectiu-se nas janelas escuras e danou no cabelo escuro dela e brilhou nos seus olhos negros. Lentamente, despiu-se. Observando
a cara dele enquanto olhava para ela.
Nunca deixarei que me toquem nesta sala. Disse ela. Aqui perteno s a ti.
Acordou com as costas quentes dela encostadas ao seu peito. Estavam ambos enroscados por baixo dos cobertores na cama estreita dela. Era domingo de manh. Do lado
de fora das janelas, a chuva caa suavemente atravs de um denso nevoeiro.
Naquela luz cinzenta ele pde ver claramente a sua coleco de velas. Tinham todas o mesmo tamanho e estavam todas em cilindros de vidro, mas cada uma tinha qualquer
coisa de diferente pintada no vidro. Havia signos do zodaco, e smbolos de dlares, e cruzes, e pirmides com olhos, e coraes a pingar sangue, e smbolos familiares
que ele no se atrevia a lanar-se a adivinhar. Tambm havia expresses. Que a Sorte Venha Depressa, Morte ao Inimigo, Sonho, Esprito Mgico, Boa Fortuna, Eliminador
do Azar. Se no fossem to perturbadores, alguns deles teriam sido de facto divertidos.
Moveu-se ligeiramente e ela acordou, sentando-se num sobressalto. Perscrutou a sala como se estivesse  procura de algum intruso.
Bom dia, disse ele, tocando-lhe no cabelo. Ela afastou-o, saiu debaixo do edredo e correu para a porta fechada e encostou o ouvido  escuta.
O que se passa, Lenore?
Ela abanou a cabea; depois cingiu-se com os braos e estremeceu com arrepios.
Os olhos dele foram novamente atrados pelas velas. Quais acendeste ontem  noite?
O olhar que ela lhe dirigiu fez-lhe eriar o cabelo na nuca.
Ela abriu um armrio e tirou dois roupes de tecido aveludado. Ests com frio, disse ela, dando-lhe um.
O distanciamento dela era desorientador. Tinha feito a noite passada parecer um sonho, irreal. Ela levou-o para uma casa de banho com escotilhas envidraadas e uma
cabina de chuveiro envidraada completa com dois chuveiros e um banco embutido. Logo que a gua ficou cheia de vapor dentro do cubculo, ela entrou nele, indicando-lhe
com um gesto para a seguir e a rea genital dele estimulou-se ainda antes de a mo ensaboada dela o alcanar.
A gua quente correu sobre ele e ele encostou-se aos azulejos frios, embalado por ondas de sensao. Quando estava  beira da ruptura, reagiu e chegou-se a ela,
desejoso de lhe tomar o sabor e de a sentir, querendo lev-la  mesma ruptura para poderem cair juntos.
No! Ela fez um movimento para se libertar dele, com a pele escorregadia cheia de gua. No me toques, ordenou ela, e ele ficou magoado e perplexo, mas a mo escorregadia
dela tinha-o encontrado de novo, deixando-o indefeso, prendendo-o na sua prpria fraqueza.
Quando terminou e a gua foi desligada, ele sentou-se no banco molhado e ficou a olhar para ela. De algum modo ela tinha usado o seu desejo para se separar dele.
Para originar uma distncia maior entre eles. Observou-a a inclinar-se para limpar o longo cabelo preto e compreendeu que ela era uma estranha para ele. Ele nunca
a conheceria.
Ela endireitou-se e olhou-o. E ele queria deixar-se arrastar por aqueles olhos. Aqueles olhos escuros e imperscrutveis. Queria desvend-la toda e
descobrir a verdade, depois gravar-se no seu crebro e no corao e no centro quente e escuro dela, para que ela nunca mais pudesse desembaraar-se, nunca mais distanciar-se,
nunca mais ficar completamente separada dele.
Agora tens de ir, disse ela, apertando o robe e dirigindo-se para o corredor.
Porqu?
Porque tens de ir.
Ele agarrou-a pelo brao e f-la rodopiar para o enfrentar. Por que ests a tentar afastar-me?
Ela levantou uma sobrancelha friamente. Por que ests a tentar ficar quando no s desejado?
Lenore... Eu sei que tu sentes alguma coisa por mim. Ontem  noite, quando fizemos amor...
Ela libertou o brao da mo dele. Foder no significa nada, sussurrou ela. Sabes com quantos homens j estive? Quantos caralhos j tive dentro de mim? Quantas vezes
fingi que me vinha? enquanto falava, observando a cara dele, vendo os estragos que as suas palavras estavam a fazer, um brilho surgiu nos seus olhos e um sorriso
triunfante brincava nos seus lbios.
Queres que te diga todos os nomes? Queres ouvir o que eles me imploraram ou o que gritaram quando se vieram dentro de mim?
Ele bateu-lhe. Deu-lhe uma bofetada com um movimento sbito e rpido que lhe fez virar a cabea e o espantou. Sacudiu-o. Destruiu a ltima coisa do que ele tinha
sido e em que tinha acreditado. Olhou para a mo. A mo ainda estava dolorida de ter batido na cara de um homem apenas alguns dias antes. E estava enojado. Envergonhado
para alm das palavras.
Ela voltou-se e foi embora.
Ele ficou ali durante muito tempo. Demasiado perdido para se mexer. Depois saiu para o corredor e voltou para o quarto dela. A cama estreita tinha sido feita de
maneira que no havia qualquer vestgio do que tinha ali acontecido. Ele pegou na sua roupa do cho e vestiu-se. Enquanto estava a abotoar a camisa, notou que algumas
das velas tinham pequenas chamas a crepitar. O pensamento de que ela o tinha deixado depois da cena na casa de banho e tinha ido para ali acender velas f-lo ficar
a ferver de raiva, e s lhe apetecia atir-las para o cho e esmag-las todas. Aproximou-se mais. As velas que estavam a arder estavam decoradas com vrios smbolos
pictricos e com legendas Boa Fortuna, Muita Sabedoria e Amor Inseparvel pela Morte.
Ficou a olhar para elas, comovido at s lgrimas, por emoes que no conseguia especificar nem explicar. Depois partiu  procura dela.
Ela estava vestida com uns jeans velhos e uma camisola de tamanho exagerado, ao fogo a fazer panquecas. Pus-lhes mirtilo congelado, disse ela, sem levantar os olhos.
A situao era to natural que o fez questionar a sua prpria sanidade mental.
Gostas de mirtilo, no gostas? perguntou-lhe ela.
Sim, respondeu ele.
Ele sentou-se com ar aborrecido e dobrou os braos em cima da mesa e inclinou-se para a frente para pousar a testa nos braos. Quando ela trouxe as panquecas para
a mesa, endireitou-se.
O que significam as velas? perguntou ele.
Cada uma delas significa uma coisa diferente.
Acendeste o Amor Inseparvel pela Morte para o Serian?
As minhas velas so pessoais, disse ela. Agora come as panquecas e diz-me o que achas.
Mecanicamente, ele comeou a comer.
So boas? perguntou ela.
Sim.
Ela sorriu. Foi a Geneva que me ensinou a faz-las, disse ela. So a nica coisa que realmente sei cozinhar.
A Geneva? O nome deixou-o num estado entorpecido e exausto. Geneva Johnson... a amante do Serian... ensinou-te a fazer panquecas?
Instantaneamente, os olhos de Lenore ficaram ensombrados e ela recolheu os pratos e levou-os para o lava-loia.
Tu e a Geneva Johnson foram amigas? Eu no... Estas peas no se encaixam, Lenore.
Ela ficou junto do lava-loia com as costas voltadas para ele. No quero mais perguntas, disse ela. O nosso caso terminou. Tens o que querias e eu tenho o meu passado.
Agora estamos quites.
O que queres dizer com isso?
Ela voltou-se e dirigiu-lhe um olhar srio. Quer dizer adeus. No te quero mais aqui. Podes encontrar o teu prprio caminho para a porta. Ele saiu.
Owen conduziu furiosamente, fazendo as curvas demasiado depressa, resmungando e desviando-se dos condutores mais lentos. Geneva Johnson. A modelo artstico tornara-se
proprietria de uma loja. O amor de Bram Serian at ao casamento com a Lenore.
Como  que tudo aquilo se encaixava? Como tinha sido a relao entre a Geneva e a Lenore?
Tinha de encontrar Geneva Johnson. Tinha de a obrigar a falar com ele.
#24
Owen localizou imediatamente Geneva Johnson no caf. Estava novamente brilhantemente vestida, mas desta vez parecia uma cigana.
Ol, disse ele, sentando-se no assento em frente dela,  pequena mesa de canto.
O senhor no traz por acaso escondida uma daquelas coisas que gravam cassetes, colada aos tomates ou em qualquer outro stio, pois no? perguntou ela sem mais prembulos.
No. Eu... Ele debruou-se para abrir o saco de transporte e mostrou-lhe o gravador que estava l dentro. S tenho este e, como pode ver, no est ligado.
No o ligue, ordenou-lhe ela, e ele voltou a enfiar o gravador dentro do saco para demonstrar a sua concordncia.
Ainda lhe custava acreditar que ela tivesse concordado encontrar-se com ele. Nem sequer tinha ficado surpreendida com o seu telefonema.
Como conseguiu o meu nmero que no vem na lista? perguntou ela.
Um pirata de computadores conseguiu-mo em cinco minutos.
Ela pareceu ficar aborrecida por instantes, mas depois encolheu os ombros. Eu ia telefonar-lhe de qualquer modo.
Ia?
Sim. Dirigiu-lhe um olhar hostil e muito determinado. Por causa da Lenore.
Owen olhou para ela e ficou  espera. Uma parte dele queria levantar-se e fugir porque tinha medo que aquela mulher fosse contar-lhe qualquer coisa de terrvel,
que fosse confirmar que a Lenore era de facto uma assassina, entre outras coisas. A outra parte estava ansiosa,  espera, a pensar que finalmente ia saber tudo.
Vai ter as suas histrias, escritor. Vai ter muitas. Mas agora vai deix-la em paz. Est a entender-me? Deixe-a em paz.
Owen ficou estupefacto.
Geneva endireitou-se e levantou o queixo. Venho fazer-lhe uma proposta, Byrne. Voc deixa a Lenore em paz e eu conto-lhe alguma coisa sobre os primeiros anos do
Serian em Nova lorque.
Quem diabo pensa voc que ? perguntou ele. O facto de eu me encontrar com a Lenore no  nada da sua conta.
Os olhos dela diminuram e a sua boca esboou um sorriso pouco agradvel. Se no  nada da minha conta, ento por que  que a Lenore me telefonou logo que voc saiu
da Arcdia esta manh? Por que  que eu sei cada uma das palavras que voc lhe disse?
Owen afundou-se na cadeira. Mais uma vez ficou estupefacto.
Geneva acenou com a cabea. Logo que voc partiu no carro, ela foi a correr a telefonar-me.
No compreendo, disse ele.
Exactamente! Um pequeno vislumbre de triunfo brilhou nos olhos de Geneva.  isso que estou a tentar meter nessa sua cabea dura de homem... voc no compreende.
Voc no sabe o que est a fazer.
Tanto a Lenore como eu somos ambos adultos...
 a que est redondamente enganado, Byrne.
O que est a tentar dizer-me?
Acho que  perfeitamente claro. Deixe a Lenore em paz e eu dou-lhe os primeiros anos do Bram.
Sim. Compreendo essa parte. Mas quem  voc para a Lenore?
Sou amiga dela. Sou... A Lenore  como se fosse a minha irm mais nova.
Isso custa-me muito a acreditar, disse ele. E de facto se Lenore no tivesse feito aquele comentrio de a Geneva a ter ensinado a fazer panquecas, Owen ter-se-ia
rido com a afirmao daquela mulher.
Pode acreditar, meu caro.
Digamos, por enquanto, que acredito. Por que acha que sou to mau para a Lenore?
Ela deu uma risada breve e desagradvel. Agora vamos ser realistas. Ambos sabemos o que voc queria da Lenore... todos aqueles segredos interessantes... juntamente
com algum prazer ertico para condimentar a sua investigao. Bem, no descobri a tempo de o impedir, portanto obteve tudo o que queria. Agora, estou a ordenar-lhe
que se afaste. Pare de lhe foder o juzo. Ela no aguenta mais homens que s querem us-la e aproveitar-se dela.
Mas eu no quero mago-la.
Geneva riu-se novamente. Sim. Isso  o que todos dizem. S que para si a ideia de no a magoar provavelmente  que est a ter sexo seguro e no lhe vai partir os
dentes, mas para ela a ideia de ser magoada : Ser que ele me vai deixar? Ele estar a mentir-me? Ele  srio em tudo o que diz? Est a ver a diferena?
Owen ficou a olhar para ela. A sua cara orgulhosa e os olhos astuciosos eram to severos, que lhe passou pela cabea que a beleza impressionante daquela mulher no
lhe deve ter trazido outra coisa que no fosse sofrimento.
No sei o que a Lenore lhe contou nem sei qual  o tipo de relao que h entre vocs as duas. Mas voc compreendeu-me mal. E fez-me pensar se isto no ser para
si um estratagema para uma espcie de vingana doentia. Que talvez queira afastar-me para a castigar porque foi com ela que o Serian casou em vez de casar consigo.
Geneva ficou a olhar por instantes para a chvena de caf que estava  sua frente, depois levantou os olhos para se cruzar com os de Owen. Eu nunca quis castigar
a Lenore. Toda a sua vida com aquele homem foi um castigo. Era ele que precisava de ser castigado. E haja algum que me leve a melhor nisso.
Owen olhou para ela cheio de perplexidade. No posso prometer-lhe que vou deixar a Lenore em paz, confessou ele calmamente. No  uma promessa que eu possa fazer...
ou queira fazer... por motivo nenhum.
Muito bem... Geneva suspirou profundamente. Talvez voc no seja um tipo assim to mau. A Lenore tem andado a querer convencer-se de que voc no  m pessoa. Eu
estou sempre a avis-la, mas ela ... a mulher abanou a cabea com ar triste. Vou contar-lhe umas coisas. Um pouco sobre o Bram e sobre mim. Um pouco sobre a Lenore.
Para voc perceber o que se passa aqui. Mas isto  absolutamente confidencial, Byrne, e a maior parte no pode ser provada e eu negarei ter dito uma nica palavra
sobre isso. Est a compreender?
Sim.
Era uma vez uma rapariga negra. Era uma parva. Deixou a sua mezinha e a sua linda cidadezinha e partiu para a cidade de Nova Iorque para se tornar uma estrela.
Ser modelo. Era o que ela queria ser. Tinha sido sempre muito grande e muito negra e muito magra e toda a gente tinha feito pouco dela quando era pequena, por isso
ia-lhes fazer ver. Ia conseguir ter sucesso.
Estava cheia de ideias na cabea. Donyale Luna tinha conseguido entrar numa revista nacional de moda e pensou, hei... a barreira da cor caiu e o momento  perfeito.
Errado. Oh, era suficientemente alta e suficientemente magra, mas todas as agncias lhe diziam que era muito negra.
Bem, ela nem sequer tinha um diploma do ensino secundrio e no conseguia encontrar emprego que lhe desse para viver e sentia imensa vergonha de voltar de rastos
para casa. E foi ficando cada vez mais desesperada e, mais depressa do que esperava, conheceu um homem mau. S que ele era to persuasivo e agradvel que ela no
sabia que era malvado. O Smokey vai tomar conta de ti, disse-lhe o homem, e ela era to nova e estpida que acreditou nele.
O Smokey prometeu que ia arranjar-lhe todo o tipo de empregos como modelo. E de facto arranjou. Oh, se fez de modelo! Todos os dias posava nua numa sala suja, onde
todo o tipo de palermas pervertidos podiam entrar e tirar fotografias. Volta-te para aquele lado, mida. Pe ali a mo. Mostra-me mais um pouco disso.
E s vezes um dos pervertidos ficava to entusiasmado com as poses dela que estava disposto a pagar dinheiro extra para fazer mais do que apenas posar. Ela escondeu
algum dinheiro e fugiu, mas o Smokey apanhou-a e fez uns pequenos desenhos nela com um cigarro aceso para a ensinar a nunca mais voltar a tentar fugir.
Aconteceu que estava uma noite com o Smokey num bar. Ele estava a falar com ela sobre o futuro e sobre os planos que tinha para ela ser uma
estrela em espectculos. Espectculos particulares em que os homens pagavam para a ver a fazer coisas com outros homens e com mulheres e com qualquer criatura nesta
terra de Deus que ficasse quieta. Coisas de que ela nunca tinha ouvido falar antes.
Ela no gostou dos planos do Smokey e ficou perturbada, por isso o Smokey deu-lhe umas bofetadas para a calar... como sempre fazia. S que desta vez um indivduo...
completamente estranho... aproximou-se e disse ao Smokey, Isso no so maneiras de tratar uma mulher.
O Smokey achou que aquilo era mesmo esquisito. Aquele grandalho branco a chegar ali como se fosse John Wayne e dizer uma coisa daquelas a um gajo mau como o Smokey.
Tentou fazer daquilo uma piada. Mas o indivduo branco estava mesmo muito srio. E o Smokey agarrou-me o brao e disse, Eu j lhe mostro como se trata uma cabra
destas. Olhe para isto! e esmagou o cigarro aceso na minha pele e eu dei um grito.
Foi como se uma bomba tivesse rebentado ou coisa assim. O indivduo branco, que era maior do que o Smokey, agarrou-o da cadeira do bar e atirouo ao cho... na verdade
atirou-o para o meio de umas mesas, tal como se v no cinema. O Smokey puxou da sua faca, mas o empregado de bar j tinha nas mos um taco de basebol, por isso o
Smokey teve de ficar quieto, enquanto aquele John Wayne me perguntava, Queres ficar com ele? e eu respondi, No. E ele levou-me dali para fora e meteu-me num
txi com ele e o amigo dele, ignorando o Smokey, que ficou a gritar que havia de apanh-lo e de mat-lo e a seguir havia de me matar a mim, e ignorando o amigo que
estava a dizer-lhe, Ests doido, Bram. Tens de te livrar desta mulher. Tu s maluco.
Foi assim que Bram Serian e Gena Ray Johnson se conheceram.
Levou-me com ele para casa, para as suas guas-furtadas e deu-me um lugar para dormir. No dia seguinte comprou-me alguma roupa e deu-me comida. E comeou a dizer
que talvez conseguisse arranjar-me algum trabalho como modelo artstico.
Com certeza, pensei eu. J ouvi essa conversa antes. S que aquele tipo parecia ser diferente. Ainda no me tinha tocado. No me tinha pedido nada.
O seu companheiro de quarto reclamava e queixava-se por eu estar ali, mas o Bram no lhe ligava. Passaram algumas semanas. Arranjou-me um pequeno trabalho. Eu s
tinha de ficar sentada durante alguns dias, enquanto um indivduo fazia desenhos do meu rosto. E pagavam-me para fazer aquilo.
Fiquei muito agradecida ao Bram. E fiquei... Parece-me que se pode dizer que tive subitamente uma grande paixo por ele. Agora acho muito engraado, quando penso
naquilo, porque finalmente eu tinha um indivduo com quem queria fazer amor e ele agia como se eu fosse invisvel ou coisa parecida.
Pensei em todo o tipo de coisas. Que talvez ele no me quisesse porque eu era negra, ou talvez no me quisesse porque sabia de todas as coisas horrveis que eu tinha
feito com outros indivduos. Cheguei a sentir-me mesmo frustrada, mesmo desapontada comigo prpria, e ele encontrou-me a chorar, e acabei por ter com ele uma daquelas
conversas em que revelamos tudo o que nos vai no ntimo. Verificou-se que ele era muito ingnuo e no suspeitava
minimamente que eu tinha sido uma prostituta. Apenas pensava que o Smokey tinha sido um pssimo namorado.
Depois daquilo, tudo mudou. De repente ele ficou to apaixonado por mim que mal conseguia manter as calas vestidas. Queria ouvir histrias de coisas que eu tinha
feito antes... coisas que tinha sido obrigada a fazer... e ficava mesmo muito excitado com aquelas histrias.
Tinge dizia ele, finge que eu sou um joozinho e que ests furiosa comigo. Que ests a castigar-me enquanto o fazemos.
De qualquer forma... est a ver o filme.
Ele apontou ao colega de quarto a porta de sada e eu fui para ficar. O Bram arranjou-me mais trabalho como modelo, e passado pouco tempo comecei a arranjar trabalho
sozinha.
Vivemos juntos durante muito tempo. Esforcei-me muito por ser respeitvel e quanto mais respeitvel ficava menos ele se interessava por mim. Mas foi sempre bom para
mim, sempre generoso. Como se sentisse que tinha a obrigao de tomar conta de mim, mesmo depois de ter perdido todo o desejo por mim.
Andava sempre envolvido com outras mulheres. No era do tipo de se manter fiel. Nem sequer fingia que era. A maior parte das vezes era com prostitutas, ou com mulheres
como aquela cabra agente, Edie Norton, que no ntimo eram prostitutas. Mas nunca me senti ameaada. A nica coisa de que alguma vez senti cimes, foi da sua arte.
Depois, de repente ficou muito estranho e reservado e foi comprar aquela quinta. Deu-me a conhecer aquilo repentinamente, como uma completa surpresa, quando um dia
me disse simplesmente que ia passar a ficar muito tempo na sua quinta.
Qual quinta? perguntei-lhe.
A casa que comprei no norte do estado disse ele. Estou a transformar o celeiro num estdio. Tenho l o meu primo a ajudar-me.
Ca completamente das nuvens, porque o Bram nunca tinha feito sequer meno de que gostava do campo. E nunca tinha dito nada sobre a sua famlia nem sobre ter um
primo. Depois disso ficava fora muitas vezes e nunca me convidava para o acompanhar e comecei a ficar mesmo com cimes da quinta e tambm do primo.
Depois ficou famoso. Bingo. Tudo mudou. No sei se ele tinha sempre sentido aquele temor ao longo do tempo, ou se o facto de ficar famoso provocou nele aquelas mudanas.
Mas a verdade  que ele mudou completamente. Aquele seu pequeno sinal caracterstico de parania ficou anormal e comeou a desconfiar de toda a gente e de tudo.
Pensava que o telefone estava sob escuta e achava que havia pessoas completamente estranhas que estavam a fazer insinuaes sobre ele. Achava que estava constantemente
a ser seguido. Imaginava que via agentes do FBI escondidos por todos os cantos.
Sempre que era obrigado a ir ao mdico ou ao dentista, inventava um novo nome para usar e nunca ia ao mesmo mais do que umas poucas de vezes. E no era s a parania.
Tornou-se muito manipulador. Eu era como um
jogo para ele.
Tivemos aquela exploso de uma discusso e eu disse-lhe que no entrava nos seus jogos, portanto era melhor ele no se meter comigo, e ele riu-se. Disse-me que achava
fascinante tentar controlar as pessoas ou manipular o seu comportamento... sem elas se aperceberem do que estava a acontecer... porque o resultado era como a arte.
Porque quando trabalhava com a mente das pessoas os resultados eram to imprevisveis e criativos e compensadores como a arte.
Para mim bastou. Comecei a ficar muito desgostosa com ele e estava disposta a terminar a nossa relao. Depois, de repente disse que precisava da minha ajuda.
Aquilo foi um choque. Bram Serian nunca precisou da ajuda de ningum. Disse que eu era a nica mulher em quem podia confiar. O que tornou aquilo um choque ainda
maior... que ele confiava em mim. E fiquei muito sensibilizada e eu tambm estava muito em dvida para com ele, por isso disse-lhe que era evidente que ia ajud-lo.
Ele ficou com um ar muito misterioso, mas disse-me que fizesse as malas para sair por uns dias, porque ia levar-me para a sua quinta.
Meu Deus... Ainda me lembro de ter sado do carro e de ver aquela pequenina coisa esqueltica a espreitar-me por baixo da varanda de madeira, como se fosse um co
da rua ou coisa parecida. Dei um grito quando a vi e ela fugiu e o Bram ficou furioso comigo.
Que espcie de me  que tu vais ser? disse ele, e eu disse-lhe que no tencionava ser espcie nenhuma de me, a no ser que fosse do meu prprio beb.
Ento mandou-me sentar e disse-me que tinha andado a tratar de levar para casa uma rf da Guerra do Vietname. Uma criana filha de um soldado morto. E tinha-a ali,
onde tentava tomar conta dela, mas nada corria bem e precisava do toque de uma mulher.
Fiquei fula. Estava furiosa! Fiquei como se ele me tivesse enganado e no queria saber de cuidar maternalmente de uma pessoa perdida e disse-lhe isso mesmo. Mas
ele estava determinado, por isso instalei-me ali para passar uns dias no campo. Algum tempo depois estava sentada l fora na varanda e vi a mida a sair sorrateiramente
de casa e o Bram saiu a correr a apanh-la. Era o que ele tinha de fazer... ir atrs dela e apanh-la como se fosse um daqueles ces teimosos que fogem de casa cada
vez que a porta se abre. Ela no resistiu nem barafustou ou coisa assim e ele no usou mais fora do que a necessria para a segurar. Ela no parecia violenta...
estava apenas descontrolada.
Ele trouxe-a de volta e deu-lhe umas palmadas mesmo  minha frente e foi muito desagradvel. O cabelo dela estava todo desgrenhado e ela estava toda suja e as suas
roupas eram autnticos trapos. Mal podia acreditar! Ela parecia uma figura como as que se vem nos anncios de apoio s crianas da ndia ou do Mxico ou de outro
pas qualquer.
Tu no podes ter uma criana nestas condies! disse-lhe eu, mas ele disse que ela no sabia cuidar de si e ele no se sentia bem a tentar obrigar uma rapariguinha
a despir-se e a tomar banho.
#Bem, eu no podia ficar ali sentada, por isso concordei que ia tentar que ela ficasse asseada e met-la no caminho certo... mas apenas por uns dias. Depois queria
voltar para Manhattan. O Bram concordou. A mida estava s a olhar para ns. No disse uma palavra. No se sabia ao certo quanto ela conseguia compreender ou se
porventura era atrasada mental ou apenas atrasada no seu desenvolvimento. Ele disse-me que ela nunca tinha dito uma nica palavra, mas tinha-a visto mesmo muito
zangada e sabia que era capaz de fazer barulho.
A primeira coisa que fiz foi lev-la para a casa de banho e met-la na banheira. Lavei-lhe a cabea. O emaranhado do cabelo estava de tal maneira mau que tive de
lho cortar curtinho. Ela no ops resistncia, mas pareceu-me que no estava a gostar do que eu lhe estava a fazer. Mostrei-lhe como tudo funcionava e procurei faz-la
compreender que ela devia tomar banho sozinha. No me deu qualquer sinal de que estava a perceber.
No havia roupa decente para ela, por isso vesti-lhe uma T-shirt das minhas. Uma T-shirt branca com uma gravura pintada na frente. Era bastante comprida, de maneira
que lhe ficava como se fosse um vestido, e ela at ficou bonita ali de p a admirar-se como se achasse que tinha um vestido de baile. Levei-a at ao espelho que
estava no lado de trs da porta da casa de banho para ela se mirar. O que a ocupou durante uns bons quinze minutos. Mirou-se toda e observou o cabelo curto e passou
com a mo para um lado e para o outro pela gravura pintada na T-shirt.
Disse ao Bram que ia lev-la  cidade comprar-lhe roupa e ele ficou em pnico. Primeiro tinha medo que ela pudesse fugir na cidade. Depois disse que Stoatsberg era
uma cidade pequena e as pessoas eram mexeriqueiras e ela no estava legalmente no pas e que tnhamos de ter muito cuidado, seno as autoridades levavam-na e deportavam-na
de volta para o Vietname, onde seria torturada e executada.
Naquela altura j nada me chocava, por isso disse-lhe que estava bem. Que ia fazer o melhor que podia para a medir e depois iria sozinha comprar-lhe umas coisas.
Bem, mesmo assim ele ficou nervoso. Disse que eu ia dar nas vistas naquela cidade pequena e toda a gente ia ver-me a conduzir o carro dele e iam relacionar-me com
ele e depois iam ver-me a comprar roupas de criana e iam andar a fazer perguntas e ele no queria dar azo a essas coisas. Acabei por ter de ir de carro at White
Plains para fazer compras para ela, e mesmo assim o Bram continuou a chamar-me a ateno para que me certificasse que no era seguida no caminho de regresso.
Arranjei-lhe a cama e meti-lhe as roupas na cmoda. Queria mostrar-lhas, mas ela recusou-se a v-las, e quando tentei tirar-lhe a minha T-shirt ela fugiu a esconder-se.
E eu pensei, muito bem, e continuei o meu trabalho, a lavar os lenis dela. Naquela noite encontrei-a a dormir em cima de um monte de toalhas na sala da lavandaria,
peguei nela e levei-a de volta para o quarto e meti-a na cama. Ela acordou e ficou assustada e tive de a segurar na cama. Por fim ficou calma e eu fiquei ali sentada
 beira da sua cama durante alguns minutos e veio-me  cabea uma antiga cano de embalar, por isso cantei-lha, e sabe uma coisa... ela voltou a adormecer.
Cheguei  concluso que afinal o Bram j tinha ali aquela criana havia seis meses! Tinha comprado roupas para ela quando a trouxe para ali e depois tinha ficado
 espera que ela tratasse da sua prpria vida e tomasse conta de si prpria, como se fosse uma adulta em miniatura. E no conseguia compreender que ela no fizesse
como ele esperava.
Dediquei-lhe muita ateno na manh seguinte, mas parecia que aquilo s fazia piorar as suas atitudes. Ela desviava o olhar de mim quando eu estava a falar e mal
eu voltava as costas ela fugia. Por isso resolvi ignor-la. Descascava uma laranja e pousava-a em cima da mesa e afastava-me... coisas assim. Quando estava a fazer
a limpeza, fingia que no reparava que ela estava a observar-me. Naquela noite tive de a levar novamente para a cama e ficar a guard-la. Tambm voltei a cantar
para ela, pensando que no podia fazer mal nenhum.
Na terceira manh estava a preparar-me para me ir embora e estava decidida a recuperar a minha T-shirt e a vestir-lhe roupa prpria para brincar. Depois de tomar
o meu pequeno almoo e de ela ter comido a torrada e a ma que lhe tinha preparado, levei-a para o quarto e tirei-lhe  fora a minha T-- shirt. Foi como se lhe
tivesse morto o seu animal de estimao preferido ou coisa parecida. Enroscou-se toda a um canto, com as mos a segurar o estmago e a gemer. Foi a primeira vez
que lhe ouvi um som.
Ento fiquei furiosa e atirei-lhe a T-shirt. Disse-lhe que podia ficar com o raio daquela coisa, mas no podia us-la todos os dias. Tinha de usar tambm as outras
roupas. Para minha surpresa, ela agarrou naquela T-shirt, segurando-a mesmo junto a si, como se fosse alguma coisa preciosa e depois levantou-se do cho e aproximou-se
de mim e deixou que a vestisse. Ela sabia o que eu estava a dizer! Ela compreendia.
Depois daquilo, ela tratava a minha T-shirt como se fosse um animal embalsamado, uma manta de beb, levando-a para todo o lado e acariciando-a, dormindo com ela
encostada  almofada.
Senti-me um pouco culpada quando me fui embora naquele dia, mas era evidente que no ia permitir que o Bram me convencesse a ficar a viver naquele chiqueiro e a
fazer de educadora de infncia para ele.
A partir de ento ia l com muita frequncia, e passava l vrios dias por semana. Conheci o primo esquisito e comecei a pensar que o carcter cada vez mais estranho
do Bram talvez fosse gentico. O Bram andava envolvido naquela altura na construo do seu estdio e tanto ele como o Al trabalhavam nele dia e noite.
O Bram e eu tnhamos terminado definitivamente como casal naquela altura. Eu ainda estava a viver nas guas-furtadas, mas era mais como modelo particular do que
como uma antiga amante. Comecei a encontrar-me com outros homens. E apaixonei-me por um indivduo. Mas continuei a ir l para ver a Lenore. No podia virar-lhe as
costas sem mais nem menos.
Passei a agir mesmo muito dissimuladamente. O Bram saiu da cidade durante uma semana, e enquanto esteve fora, levei a Lenore a consultar um mdico e ao dentista
para lhe tratar dos dentes. Recomendei-lhe que nunca dissesse ao Bram, mas no havia grande perigo, pois ela ainda no falava.
Comunicava com as mos e por meio de gestos, mas no falava. O mdico a quem a levei disse que no havia nenhum problema fsico e que ela devia ir a uma consulta
de um psiquiatra infantil... Mas claro que aquilo estava fora de questo. O Bram nunca permitiria tal coisa.
O que no quer dizer que no se preocupasse com ela. Preocupava-se de uma maneira estranha. Estava muito interessado com a ideia de ela... quase espantado com ela.
Continumos assim durante muito tempo. O estdio ficou pronto e o Bram comeou a tentar consertar a casa. Claro que a Lenore no podia ir  escola, porque ento
as pessoas iam descobrir tudo sobre ela, por isso tentei ensinar-lhe coisas. Ensinei-a a costurar e a danar. E levei-lhe vdeos. Manifestaes da natureza e filmes
de histria e de desenhos animados da Disney. O Bram detestava ver televiso, mas tinha um daqueles equipamentos com um gravador de vdeo ligado a um monitor. Era
um brinquedo muito caro naquela altura, mas o Bram adorava brinquedos.
Agora sei que devia t-la ensinado tambm a ler, mas naquela altura no me pareceu que fosse importante. Quero dizer, a pobre criana nem sequer conseguia falar.
Nunca pensei que viesse a ser normal. E, tenho de admitir... eu prpria no lia muito.
O meu caso amoroso intensificou-se e durante algum tempo vivi no meu pequeno mundo de fantasia, pensando que um dia havia de ir a caminhar pelo corredor central
da igreja, vestida de branco e ir at ao fim. As minhas visitas  quinta foram sendo cada vez mais espaadas. A Lenore estava a ficar crescida. Calculvamos que
devia estar com quase doze anos ou coisa parecida. Eu tinha-me convencido de que ela j no precisava tanto de mim porque j era mais crescida e porque tinha ficado
muito apegada ao Bram. Simplesmente adorava-o. No importava que ele a ignorasse, ela ficava a olhar para ele como se fosse uma pequena boneca. Ento um dia tocou
o telefone e era o Bram e disse-me, Acho que a mida tem saudades tuas. Arrastou-me para o telefone e fez uma pequena charada para me convencer a telefonar-te.
Queres dizer-lhe algumas palavras?
Eu disse que sim, sentindo-me muito culpada por no ter ido v-la durante muito tempo, e ouvi o rudo do telefone a ser passado para as mos dela,  espera de comear
a falar s quando soubesse que era ela quem estava ao auscultador. Ento de repente aquela pequena voz disse com uma pronncia engraada, Geneva, vem ver-me.
A partir de ento ela comeou a falar. No princpio no falava muito bem. Mas esforava-se. E ajudei-a a praticar a pronncia. E ela praticava como se a sua vida
dependesse disso, e quando eu no estava l, ela telefonava-me para as guas-furtadas para praticar comigo ao telefone. No tinha muitas oportunidades de ouvir as
pessoas a falar. O Bram nunca tinha muitas coisas para lhe dizer e o primo dbil mental no falava com ningum, e como ela era um grande segredo, o Bram mantinha-a
escondida sempre que tinha pessoas l em casa. Tinha-a muito assustada, dizendo-lhe a toda a hora que os homens maus iam aparecer para a levar, se algum descobrisse
que estava ali. Naquela altura j ele tinha reservado uma pequena rea s para ela, com um
quarto e uma casa de banho, de maneira que ela podia fechar-se e ficar escondida sempre que ia l o servio de limpeza ou quando tinha visitas.
Eu achava que aquilo era um exagero, mas no estava em condies de poder fazer fosse o que fosse.
Cerca de um ano mais tarde, logo depois de a Lenore comear a ser menstruada e de eu lhe explicar os factos da vida, fiquei grvida. Pensei muito e por muito tempo
e decidi que se queria mesmo ter um beb na minha vida, ento devia provavelmente tomar uma deciso e aceitar aquele. E decidi-me, o meu Senhor Maravilhoso fez as
malas e ps-se a andar. Disse que eu no era o tipo de mulher com quem ele queria assentar.
Bem, aquilo destruiu o mundo de fantasia em que eu vivia e compreendi que nunca ia usar o vestido branco, mas decidi que, graas a Deus, ia ter a minha criana e
constituir a minha prpria famlia. E ia criar aquela criana da maneira mais saudvel possvel.
Disse ao Bram que ia sair das guas-furtadas e que ia viver para os subrbios, e expliquei-lhe porqu. Ele perguntou-me como pensava que ia sustentar a minha pequena
famlia normal e eu confessei que no sabia bem como.
Em poucos dias ele tinha resolvido toda a minha vida. E at tinha feito tudo legalmente. Eu ia ter uma casa e um cheque dele todos os meses para o resto da minha
vida, se concordasse em continuar a ir ver a Lenore periodicamente e nunca falar dele, nem da minha relao com ele, nem de nenhum dos seus segredos com ningum.
Eu aceitei o acordo.
Enquanto a minha filha era ainda beb, levava-a comigo sempre que fazia uma visita  Arcdia. A Lenore era louca por ela. Mas depois, quando ficou mais crescida,
deixei de a levar porque no queria que ela tivesse nenhumas recordaes daquela parte da minha vida. Queria que ela crescesse pensando que eu era uma me normal
que sempre tinha vivido nos subrbios.
A Lenore tinha saudades dela, mas eu tinha de fazer uma escolha. Tinha de colocar o bem-estar da minha filha  frente da Lenore. Naquela altura a Lenore j tinha
quinze anos e compreendia tudo. Tinha aquela maneira de olhar directamente para as pessoas e de ver para alm de todas as lrias que ouvisse.
O Bram tinha decidido deix-la ficar fora do quarto quando iam pessoas l a casa e divertia-se a inventar histrias  toa sobre quem ela era. A Lenore ficava confundida
com tudo aquilo. Era muito curiosa em relao s outras pessoas, mas no sabia como devia agir na presena de pessoas desconhecidas. O Bram no se preocupava com
isso, pois ficava entusiasmado com o efeito que produzia entre os seus amigos.
Tinha quinze anos, a caminho dos dezasseis, quando me telefonou num dia  noite e me disse que o Bram a tinha levado numa longa viagem e se tinham casado. Disse
aquilo como se fosse a coisa mais natural do mundo e eu quase tive um ataque cardaco. Deixei tudo e corri imediatamente para a Arcdia.
Quando l cheguei e critiquei severamente o Bram, ele tratou-me como se eu estivesse maluca. No parava de dizer que eu estava a reagir de forma
anormal. Ficou zangado com a Lenore por me ter contado e ordenou-lhe que fosse para o quarto como castigo.
O que  que tu ests a pensar, Bram? gritei-lhe eu. Tu no lhe tocaste, pois no? Eu mato-te se lhe tiveres tocado!
Tira da essa ideia, Geneva.  evidente que no lhe toquei. Essa ideia -me absolutamente repugnante.
Ento por que fizeste uma coisa dessas?
Se fores capaz de controlar a tua histeria, eu posso explicar-te.  muito simples. Precisava de ter uma relao legal com a Lenore. Uma maneira de explicar o motivo
por que ela vive comigo. No tinha possibilidade de a adoptar, por isso tive esta ideia do casamento.  realmente perfeita, porque tambm a vai proteger dos homens.
Os homens j comeam a lanar-lhe olhares furtivos, sabes.
Tentei dizer-lhe que estava completamente errado e que aquilo era muito prejudicial para a Lenore. Recusou-se a ouvir tudo o que eu lhe dizia. Disse que ia tudo
funcionar na perfeio e que um dia, quando a Lenore fosse mais velha e pudesse tomar conta de si prpria, divorciavam-se e ele concedia-lhe uma boa penso e ento
ela podia viver a sua vida.
Obrigou-me a partir sem ver a Lenore. Para a castigar. O que  que eu podia fazer? Fui para casa tratar da minha vida e da minha filha e agradeci a Deus por a minha
filha no ter quaisquer ligaes com Bram Serian. E acendi as minhas velas e rezei para que a Lenore de alguma maneira sobrevivesse.
Depois daquilo, a Lenore foi-se afastando gradualmente de mim. Tenho a certeza que em parte foi apenas pelo facto de ela ser uma adolescente. Mas havia outras coisas...
coisas que no compreendi naquela altura, mas que acabei por compreender mais tarde. A Lenore estava a ficar uma mulher e as suas emoes estavam muito confusas.
Ali estava aquele homem que ela tinha adorado durante muitos anos e agora, de repente estava casada com ele. Ele apresentava-a s outras pessoas como sendo a sua
mulher.
Que Deus nos salve a todas as mulheres, porque bem o precisamos. E a Lenore no era excepo. Levei-lhe alguns vdeos e ela tinha a cabea cheia de fantasias como
A Bela Adormecida e A Cinderela e toda essa trampa dos contos de fadas, tal como muitas outras raparigas. E no meio de toda a sua confuso, transformou o Bram da
imagem de pai no seu Prncipe Encantado.
Meu Deus, mas que confuso aquela. Ela tornou-se muito ciumenta e possessiva e eu era para ela uma ameaa, porque no concordava nada com todo aquele esquema. E
sentiu-se frustrada, porque queria que o Bram comeasse a trat-la como se fosse a namorada dele e isso ele no queria de modo nenhum.
Passaram alguns anos e ela tornou-se uma mulher atraente para os homens. E o Bram apercebeu-se de repente que tinha nas mos uma mulher realmente viva e telefonou-me
em pnico, porque tinha acabado de lhe ocorrer que ela podia vir a ter uma paixo sbita por homens que ele lavava l a casa e que podia comear a ter relaes sexuais.
Estava mesmo inquieto.
Eu disse-lhe que devia ter pensado antes nessa hiptese. E sugeri-lhe que fizesse agora o divrcio como tinha pensado e mandasse a Lenore viver comigo. Disse-me
que ia pensar nisso. Mas passaram meses sem que ouvisse uma palavra dele.
Procurei falar com a Lenore ao telefone, mas ela era to fixe comigo que no consegui dizer-lhe nada do que se estava a passar. Fui visit-la mas tambm no fiquei
a saber mais nada.
O Bram telefonou-me a dizer que eu estava a perturbar a Lenore e que j era tempo de nos desligarmos uma da outra. Fiquei magoada, mas concordei que me ia manter
afastada. Alguns meses mais tarde, no pude aguentar mais e tentei telefonar  Lenore e soube que o nmero tinha sido alterado e no estava na lista.
Ento virei as costas. Agradeci a Deus por ter uma vida normal e uma filha maravilhosa e desliguei-me de Bram Serian e do meu passado desagradvel. E da Lenore tambm.
Afastei a minha culpa e a minha cobardia, mas lembrava-me sempre da Lenore quando acendia as minhas velas e dizia as minhas oraes.
E ento um dia peguei no jornal e li sobre a morte do Bram e sobre o facto de a Lenore ser acusada de homicdio. E meti-me no carro e fui  Arcdia decidida a ficar
 espera ao porto at conseguir v-la.
E agora estou a tentar preparar as coisas para a deixar em paz, estou a tentar fazer com que ela no volte a ficar magoada.
As coisas que ela me contou dos anos que esteve com ele... e ainda pior... as coisas de que ela no foi capaz de falar, fazem-me ter pena de no ter sido eu prpria
a matar aquele homem.
E agora aqui tem, Senhor Escritor de Livros. E ela sabe que no pode confiar em si e sabe que no pode acreditar em si, mas voc continua a importun-la. E ela no
aguenta mais que a magoem. No  suficientemente forte para aguentar as situaes por que voc vai faz-la passar. Por isso imploro-lhe. Se  realmente to honesto
como parece ser... ento deixe-a em paz.
Owen andava desvairado pelo apartamento, atirando com as coisas para dentro de caixas. Juntando tudo o que era dele. A histria de Geneva Johnson tinha respondido
s perguntas que a Lenore nunca lhe ia responder. Agora sabia como Bram Serian tinha descido muito baixo e agora compreendia os demnios e os fantasmas que controlavam
as mudanas repentinas de carcter da Lenore.
Meteu tudo no carro alugado, enchendo a mala e o banco traseiro com todo o papel que tinha amontoado e com os livros, assim como todos os seus bens pessoais. Depois
saiu de Manhattan.
J estava escuro quando parou junto do porto da Arcdia. Lenore tinha-o obrigado a devolver a chave, por isso no podia entrar, mas estava decidido a ficar a carregar
naquele boto do intercomunicador at ela falar com ele.
Quem ? perguntou ela.
Sou o Owen. Trago tudo o que tenho no carro e gostava de ficar aqui. Se no me queres de outra maneira, ento aceita-me como um amigo. Preciso de estar contigo,
Lenore. E preciso de saber que no ficas aqui sozinha todas as noites durante o julgamento.
No se ouviu qualquer resposta no intercomunicador. Por instantes pensou que ela ia simplesmente ignor-lo. Depois, devagar, o porto abriu-se.
25
Segunda-feira Dcimo quarto dia de O Povo contra Lenore Serian. Lenore pediu que Owen ficasse com a equipa da defesa no hotel e depois se sentasse com Jacowitz,
Volpe e Riley no banco imediatamente atrs da mesa da defesa. A ideia desagradou a Rossner, mas acabou por concordar com ela.
Mas no lhe toca, Rossner advertiu Owen. Nem lhe fala ao ouvido. Nada de chamar a ateno quando estamos em pblico, e comporte-se como se fosse o raio de uma esfinge
enquanto estivermos no tribunal. Comporte-se como um elemento da equipa. A ltima coisa que precisamos  que o jri chegue a pensar que ela tem um namorado a consol-la.
Por isso Owen procurou apresentar um aspecto muito srio e profissional enquanto estava ali sentado  espera que o jri fosse chamado. Teve um vislumbre da cara
da Holly e pensou para consigo com uma sensao de ironia sinistra, que a expresso dela parecia a de uma assassina. Que ela merecia  mais ser castigada do que
a Lenore.
Queria levantar-se e contar ao jri toda a verdade nua e crua, para que eles compreendessem o que tinha sido a vida de Lenore e tivessem compaixo dela e demonstrassem
clemncia por ela. Para que a absolvessem e lhe dessem uma segunda oportunidade. Uma primeira oportunidade na realidade, pois ela ainda no tinha tido nenhuma.
No hotel, naquela manh, tinha falado com Rossner em particular e tinhalhe dito que havia muito mais a dizer do que algum sabia. Que o Serian tinha casado com ela
quando tinha apenas quinze anos e a legalidade da unio era duvidosa. E que o Serian nunca tivera a inteno de ser para ela um verdadeiro marido.
Rossner tinha levantado imediatamente a mo, detendo Owen antes que pudesse dizer mais alguma coisa sem pensar.
Para que est a contar-me esse tipo de coisas? tinha-lhe perguntado Rossner incrdulo. J se apercebeu que isso a faz parecer muito mais culpada? Que isso lhe d
um motivo muito mais forte?
O oficial de diligncias chamou a sala  ordem. O Povo contra Lenore Serian! gritou ele mais uma vez e Owen sentiu um n apertado no estmago.
Com um ar solene de confiana, Rossner dirigiu-se para o lugar do juiz e apresentou ao juiz documentos em papel azul. Era uma moo de dissoluo. O juiz examinou
a moo, depois deu incio a uma discusso que envolveu tanto Brown como Rossner. Owen ficou surpreendido que a discusso fosse conduzida abertamente e no em privado.
A discusso rapidamente se deteriorou num debate com Rossner indignado e Brown a repetir afirmaes que conseguiam ser interpeladoras e justificativas ao mesmo tempo.
O Povo demonstrou claramente que se trata de um caso legalmente suficiente, Meritssimo. Foram demonstraes de motivo, oportunidade...
Sim, Dr. Brown. Obrigado. O juiz chupou as bochechas e tirou os culos para ler. A sua fisionomia estava oculta pelas pregas da toga. Moo rejeitada. O Povo apresentou
um caso legalmente suficiente.
Owen apoiou-se contra o encosto do banco de madeira. Jacowitz tinha dito que a moo provavelmente no ia dar resultado, mas mesmo assim... Owen tinha tido esperanas.
Que entre o jri! disse alto um oficial de diligncias. Era isso. O incio da defesa de Rossner.
A primeira testemunha pareceu to frustrantemente superficial a Owen que s lhe apetecia gritar, V em frente com isso! Mostre-lhes alguma coisa importante! Mas
ele ficou ali sentado com todo um ar de profissional, tomando notas enquanto ouvia Charlie Rossner a fazer perguntas a um empregado de uma empresa de fechaduras
sobre as diferenas subtis entre chaves feitas numa fbrica e cpias feitas numa loja de ferragens. Depois obrigou o homem a fazer um relatrio longo e aborrecido
sobre como tinha inspeccionado todas as chaves que estavam nas argolas dependuradas junto da porta das traseiras da casa dos Serians e verificara que havia pelo
menos sete cpias da chave do estdio de Serian dependuradas mesmo ao lado da porta das traseiras, s quais qualquer pessoa podia ter acesso.
Brown prescindiu do contra-interrogatrio e Rossner chamou a sua prxima testemunha, um homem pequeno e engelhado chamado Frangos, que tinha uma daquelas lojas de
esquina onde h de tudo, em Manhattan, perto das guas-furtadas de Serian.
O senhor Frangos contou que Bram Serian tinha sido um bom cliente durante quase vinte anos e que uma das coisas que ele fazia com frequncia era mandar fazer cpias
das suas chaves. Tambm contou que Serian lhe tinha dito que era perigoso mandar fazer chaves na pequena cidade perto da Arcdia, porque l estava sempre a ser observado
e porque o homem das ferragens de l podia fazer cpias extra para os inimigos do Bram. Brown tentou fazer o contra-interrogatrio quela testemunha mas no conseguiu
nada.
Em seguida Rossner chamou um especialista em acelerantes para falar sobre o perigo que havia em fumar junto de petrleo de candeeiro derramado ou de diluente de
tinta. Brown fez um contra-interrogatrio desinteressante e a seguir o Juiz Pulaski declarou que eram horas de ir almoar.
Est um dia maravilhoso l fora, disse ele ao jri. Eu sugeria-lhes que fossem dar um passeio ao sol depois de almoarem. Todos os jurados
#acenaram com a cabea e sorriram e Owen tinha vontade de gritar que aquilo no era um piquenique. Aquilo no era um jogo. Estava em causa a vida de uma mulher.
Foi entregue no hotel uma pizza para o almoo deles. Havia alguma tenso na disposio de todos eles, mas perfeitamente controlada. Lenore estava calada. Depois
de acabarem de almoar, Rossner levou Lenore para o quarto para uma conversa em privado. Owen andou de um lado para o outro com passos nervosos, perguntando-se qual
seria o tema da conversa. Perguntando-se por que Rossner no estava a fazer mais. Por que  que as suas testemunhas eram to desinteressantes.
Riley estava a tirar uma soneca num sof. Volpe estava a fazer o jogo de pacincias a um canto. Apenas Jacoowitz, que estava a trabalhar com um monte de folhas,
parecia estar a fazer alguma coisa de produtivo.
 melhor voc poupar-se, preveniu-o Jacowitz. Temos ainda pela frente alguns dias de julgamento e a seguir temos de passar por um sem fim de deliberaes.
Owen parou de caminhar e olhou para ele. Alguns dias? Jacowitz puxou os seus culos de aros metlicos para cima do nariz e encolheu os ombros. Mais coisa, menos
coisa... sim.
Meu Deus, Paul, quer dizer que o Rossner no tem mais do que isso, testemunhas para apenas alguns dias? O Brown passou doze dias a fazer tudo para que ela parecesse
ser culpada e agora o Rossner vai ter apenas uns dias para a defender?
Tenha calma, homem. Tudo isto  um procedimento normal num caso como este. A maior parte do trabalho da defesa j foi feito nos contra-interrogatrios s testemunhas
de acusao. Agora estamos apenas a fazer o reforo do que j foi demonstrado. ^
Owen deixou-se cair na cadeira ao lado de Paul. No h mais nada que possamos fazer? Qualquer coisa importante e conclusiva?
Jacowitz olhou para Owen com uma expresso que combinava compreenso e desapontamento. Isto no  o Perry Mason, Owen. Ningum vai sucumbir na barra das testemunhas
e confessar. Ningum vai saltar da seco dos espectadores a gritar, Foi a governanta que o matou! Estamos no mundo real e no sistema legal autntico, e o mais que
podemos esperar  que consigamos introduzir tantas dvidas nas mentes dos jurados que eles no consigam chegar a um consenso para a condenar.
Tome, Jacowitz entregou-lhe um monte de papis. Ajude-me a examinar esta transcrio e procurar as declaraes sobre o comportamento da Lenore na noite do incndio.
Sublinhe tudo o que encontrar com esse marcador verde. E escute... o melhor que pode fazer pela Lenore neste momento  ficar calmo. Ela j tem porcaria que chegue
a cair-lhe em cima para agora ter ainda de se preocupar consigo a descontrolar-se.
Passaram vinte minutos e por fim Rossner saiu do quarto com um ar agitado. No consigo nada dela, disse ele ao Owen. V l voc se quiser.
O que aconteceu? O que se passa? perguntou Owen imediatamente.
No h nada de novo que esteja mal, disse Rossner. Ela est
simplesmente a ser to inflexvel e intratvel como estava no princpio.  s isso.
Como?
Eu queria cham-la a depor mas ela simplesmente recusa-se. Mas isso  uma prerrogativa a que ela tem direito. A lei diz que a arguida no  obrigada a prestar declaraes.
Mas eu acho que ela devia faz-lo. S que ela diz que no. Rossner levantou as mos e fez uma careta de resignao. Desde o princpio que ela se recusa a cooperar.
Depois fez aquela proeza para me impedir de fazer um interrogatrio cerrado quela mulher chamada Johnson quando esteve no lugar das testemunhas... sem nunca dar
qualquer explicao. Mas, eh p, ela  que manda.
Owen entrou no quarto e encontrou a Lenore toda enroscada na cama. Sentou-se  beira da cama e afagou-lhe o cabelo. O Rossner esteve a tornarte a vida difcil? perguntou
ele docilmente.
Ela acenou com a cabea.
Ele est apenas a tentar ganhar esta coisa para ti. Est a tentar libertar-te. Compreendo que no o tivesses deixado atirar-se  Geneva, mas isto  diferente. O
Rossner acha que devias ir depor. E quem  que podia fazer-te mal por ires testemunhar?
Ela colocou-se na posio de sentada, de tal modo que os seus olhos ficaram  mesma altura dos dele. No te atrevas, Owen. Tenho as minhas razes. Por favor, no
me questiones.
Mas isto  de doidos, Lenore. Tens de falar com o Rossner e ser honesta com ele. Meu Deus, se pudesses dizer-lhe simplesmente que no sabes ler nem escrever... Ele
podia fazer cair imediatamente o argumento do candeeiro na lista de compras! E se lhe contasses...
Owen... Trata-se da minha vida. Do meu julgamento. Por favor...
Ele envolveu-a nos braos e apertou-a contra o peito, apoiando o queixo no cabelo dela e rezou a todos os deuses que tomassem conta dela: aos deuses e fantasmas
da Tailndia, ao deus das velas estranhas e ao Deus que o Irmo James Collier tinha perdido l na Arcdia. Rezou para que fosse salva.
Depois do almoo Rossner chamou Stanley Cantor  barra das testemunhas. Stanley, o homem da distribuio que mantinha a Arcdia fornecida de tudo, desde morangos
at produtos de limpeza da casa de banho e preservativos.
Stanley era um homem baixo e bem constitudo, com o pouco cabelo que tinha penteado sobre a cabea lustrosa. Tinha os olhos brilhantes e a rapidez de algum que
tinha nascido para um optimismo enrgico.
Rossner obrigou-o a explicar exactamente qual era o seu negcio e Stanley descreveu-se como sendo um fornecedor extraordinrio, um abastecedor de coisas raras, um
homem cujo lema de negcio era Deixem que o Stanley se preocupe com isso.
Durante quanto tempo fez entregas na Arcdia, senhor Cantor?
Comecei h doze anos e ainda continuo a fazer entregas de produtos.
Quantas vezes por semana ia  Arcdia enquanto o Bram estava vivo?
Geralmente uma vez, s vezes duas ou trs, conforme eles tinham muitas visitas ou no.
Durante doze anos a fazer essas visitas frequentes, chegou a conhecer Bram e Lenore Serian?
Com certeza. Eu sou um tipo extrovertido. Gosto de travar conhecimento com os meus clientes. O que tambm  bom para o negcio, pois assim posso prever o que eles
podero querer e fazer-lhes surpresas.
Qual era a sua opinio sobre Bram e Lenore Serian?
Ele era fundamentalmente um osso duro de roer. Uma pessoa insistente ao pormenor e muito exigente. Agora ela tem sido sempre precisamente o oposto. Nunca me diz
se levei alguma coisa que ela no queria, porque no quer criar-me problemas ou ferir os meus sentimentos. Estou sempre a dizer-Lhe que devia falar comigo no caso
de eu lhe levar alguma coisa de que ela no gosta. Mas ela no faz nada disso.
Lenore Serian alguma vez foi antiptica com o senhor ou o desconsiderou?
Est a brincar? Nunca. Ela  mesmo um tipo de pessoa muito discreta, sabe. No  muito conversadora. Mas era ela que insistia sempre comigo para que tomasse uma
bebida quente nos dias frios ou uma bebida fresca nos dias quentes. E era ela que me perguntava pela minha famlia. O Bram nunca podia ser incomodado com pequenas
coisas como isso. E aquela Natalie, a governanta... no era simptica para ningum quando eu estava l, a no ser que fosse algum com quem ela quisesse namoriscar.
Protesto, Meritssimo, gritou Brown num tom arrogante.
Indeferido. Continue, Dr. Rossner.
Rossner aclarou a garganta e sorriu para Stanley Cantor. Para alm dos produtos para a casa e bens alimentares e gneros diversos, o senhor tambm leva objectos
pessoais s pessoas, no leva?
Com certeza. Voc precisa, Stanley leva.
Alguma vez lhe levou uma boneca?
Sim, levei. Ela encomendou-me uma boneca negra especial. Queria-a para a filha de uma amiga.
Alguma vez lhe perguntou se a filha da amiga tinha gostado da boneca?
Perguntei. E ela disse que tinha acontecido qualquer coisa e no pde dar a boneca  rapariga. Perguntei-lhe se queria devolv-la porque era uma boneca cara. Ela
disse que no, que j tinha feito qualquer coisa com ela.
Ela disse-lhe que a tinha queimado?
No! Ela queimou aquela boneca carssima?
O juiz conteve um sorriso. Por favor, deixe o advogado fazer as perguntas, senhor Cantor.
Com certeza, Meritssimo... senhor doutor juiz.
Ela disse-lhe mais alguma coisa sobre a boneca?
Agora que menciona isso, ela ficou um bocado perturbada quando lhe perguntei pela boneca. E ela continuou a dizer que no tinha pensado bem e que lamentava no me
ter dado a boneca para uma das minhas filhas.
Houve algo esquisito que a Lenore lhe tivesse pedido para lhe levar? Stanley Cantor deu um riso abafado. Vou falar-lhe de coisas esquisitas!
Uma vez levei uma zebra beb a uma pessoa. Doutra vez algum pediu-me se podia arranjar-lhe alguma roupa interior do General Patton. E doutra vez...
Obrigado, senhor Cantor, por essas revelaes, disse o juiz, permitindo-se dar um pequeno sorriso. Mas temos de continuar.
Com certeza. Com certeza, senhor doutor juiz... Meritssimo.
Alguns dos pedidos da Lenore eram esquisitos?
No. No me recordo de nenhum pedido esquisito.
E as velas? O senhor no levava a Lenore Serian velas voodoo? Houve um suspiro colectivo na sala de audincias e os olhos de Spencer
Brown dilataram-se. Parecia que Rossner estava a difamar a sua prpria cliente.
Velas voodoo? perguntou Stanley com um sorriso de descrena.
Velas em vasos de vidro que tm coisas escritas como Boa Sorte para Todos os Amigos?
Oh, essas velas... Com certeza, levava-lhas a toda a hora.
O senhor no as considerava velas voodoo?
Com os diabos... quero dizer, bolas! No. Essas coisas so inofensivas. H imensa gente que gosta delas. So feitas mesmo em Brooklyn, numa pequena fbrica familiar
e eu vou l busc-las.  o mesmo lugar onde se fazem as velas sabticas que levo  minha mulher. Voltou-se para o juiz. So para o sbado judeu, Meritssimo.
O juiz acenou com a cabea e levantou uma sobrancelha, mas os seus olhos reflectiam a diverso constante com Stanley Cantor.
A Lenore disse-lhe alguma vez por que gostava das velas ou por que eram importantes para ela?
Disse umas coisas. Uma vez disse que se tinha habituado a us-las com uma amiga cuja me era originria das Carabas. Acho que l so muito populares. Doutra vez,
quando estvamos a discutir as inscries que estavam disponveis, ela disse que as velas faziam-na sentir-se como se estivesse a concentrar todos os seus pensamentos
e as suas boas energias na direco certa. Porm os seus olhos esto mal, sabe, e parece-me que ela se envergonha de usar culos, porque tenho de lhe ler sempre
as mximas quando lhas levo.
Mesmo  sua frente, Owen viu Lenore baixar os olhos e viu um rubor de vergonha percorrer-lhe as faces. Teve de se controlar e ficar sentado e no tentar confort-la.
Alguma vez considerou aquelas velas ms ou prejudiciais, senhor Cantor?
Est a brincar? No so piores do que uma ferradura numa porta ou uma pata de coelho num porta-chaves ou um daqueles calendrios que nos do um motivo de reflexo
para cada dia.
Rossner agradeceu a Stanley Cantor e voltou para a mesa da defesa. Brown colocou-se em posio com uma expresso cptica na cara.
Senhor Cantor, est a dizer que pensa que o voodoo  inofensivo? Stanley Cantor puxou a orelha enquanto pensava. Para lhe dizer a verdade, senhor advogado, eu no
sei nada de voodoo.
No tem uma opinio baseada na percepo popular?
Bem, eu gosto de ver filmes de terror. Os zombies e os lobisomens tambm so voodoo, ou o voodoo  s aquela coisa em que espetam alfinetes em pequenas figuras?
Creio que os alfinetes espetados so voodoo e provavelmente os zombies so voodoo e parece-me que matar galinhas salta mesmo  vista... disse Brown com um ar absolutamente
srio. E est a dizer que no v nada ofensivo ou censurvel em tudo isso?
Gosto de ver isso nos filmes.
Aqui no estamos a discutir filmes, senhor Cantor.
Ento o que estamos a discutir exactamente?
Estou a chamar-lhe a ateno para as velas da senhora Serian e a perguntar-lhe se  capaz de dizer honestamente a este tribunal que no as acha bizarras, ofensivas
e censurveis.
No, no acho. E sou um homem religioso. Diria que sim, se achasse que eram ms.  possvel que as levasse mesmo assim, mas pode ter a certeza que lhe diria o que
pensava disso.
Brown sabia quando estava em desvantagem. Desistiu completamente das velas e fez-lhe perguntas sobre a Lenore, tentando obter qualquer coisa de negativo. Mas Stanley
era muito esperto ou adorava francamente Lenore Serian. Por fim, Brown desistiu e foi sentar-se. E um Stanley Cantor sorridente apressou-se a sair da sala de audincias.
A seguir foi o Dr. Bertram Aldrich, o mdico que tinha tratado das queimaduras da Lenore depois do incndio. Apresentou as suas credenciais de mdico, explicou que
era ginecologista e que tinha ido  Arcdia uma vez por ano para examinar a Lenore e que tinha feito aquilo durante oito anos. Disse que a Lenore lhe tinha telefonado
s oito horas da manh do incndio e lhe tinha pedido que fosse l.
O que lhe pareceu, Doutor, quando viu Lenore Serian?
Achei que estava angustiada fsica e emocionalmente.
Podia fazer-nos uma descrio, Doutor?
Ela estava extremamente desesperada. Tinha uma queimadura do segundo grau por baixo do brao direito e queimaduras do segundo grau nos dedos e na palma da mo esquerda.
Tambm tinha queimaduras superficiais nos braos e nas mos.
At que ponto  grave uma queimadura do segundo grau?
Requer tratamento, embora no destrua completamente as camadas de tecido, como acontece com as queimaduras do terceiro grau. E ao contrrio de uma queimadura do
terceiro grau, em que o tecido foi destrudo e deixou de haver sensibilidade, a queimadura de segundo grau  mais dolorosa.
Esse  o tipo de queimadura que se tem quando uma pessoa toca acidentalmente na pega de uma panela quente?
Parece-me que o que o senhor est a referir  uma queimadura do primeiro grau, que  o tipo de queimadura vulgar que as prprias pessoas tratam em casa.
O gnero de coisa em que a minha av costumava pr manteiga? O mdico sorriu. No era um bom remdio, mas sim,  isso.
Ento as queimaduras da Lenore eram mais graves do que isso?
Sim. Ela tinha queimaduras tanto do primeiro como do segundo grau.
A julgar pela localizao das queimaduras dela, pode dizer-nos, com um grau razovel de certeza mdica, em que posio poderiam estar as suas mos e braos?
Acho que posso. O mdico levantou o brao direito e flectiu-o com a palma da mo para fora, de tal modo que o seu antebrao estava a proteger o rosto. Depois estendeu
o brao esquerdo como se pretendesse tocar em alguma coisa. Rossner pediu-lhe que descrevesse as posies para que tudo ficasse registado.
As queimaduras desse tipo podem provocar choque, Doutor?
Absolutamente.  muito perigoso. At existe uma expresso para isso... choque de queimadura.
Existem nveis diferentes de choque?
Com certeza. Em que o pior deles  fatal.
Quais so os sintomas do choque?
Palidez, suor, sede, nuseas, inquietao, perturbao, inrcia, desorientao, fraqueza, inconscincia.
Uma pessoa pode t-los todos ou apenas alguns desses sintomas? Sim. Conforme a gravidade do choque, os sintomas mudam.
A Lenore estava em choque quando o senhor a viu?
Permita-me que corrija o conceito errado. O termo choque compreende numerosos sintomas e condies devido  deficiente circulao do sangue. O choque primrio 
to simples como o desmaio. A hemorragia interna ou a perda de plasma devido a queimaduras graves pode criar uma situao em que o corao  incapaz de bombear sangue
suficiente atravs do corpo e, se no for revertida, essa situao pode ser fatal.
Agora em medicina referimo-nos a um paciente como estando em choque, sempre que exista palidez e um padro de comportamento suspeito, como por exemplo perturbao.
Isso no indica necessariamente que a pessoa esteja tecnicamente em choque naquele momento, mas isso  se houver alguns sintomas que tratemos imediatamente para
evitar o choque.
Est bem, ento o que o senhor est a dizer  que uma pessoa pode ter sintomas e ter uma ameaa de choque, mas no necessariamente estar j em choque?
Basicamente. Sim.
Ento, qual era a situao da Lenore?
Ela estava perigosamente a entrar em choque e transportei-a para o hospital para restituir os fluidos intravenosos e evitar o choque.
Teria de a levar para o hospital para lhe tratar as queimaduras se o choque no fosse um factor?
No. Eu sabia que ela tinha queimaduras e tinha levado equipamento para poder trat-las.
- O comportamento dela podia ter sido afectado por estar no que o senhor designou por quase em choque?
Absolutamente.
E quanto tempo pode durar essa situao de estar quase em choque, antes de entrar realmente em choque?
Pode durar horas.
A Lenore podia estar quase em choque, com a consequente perturbao e desorientao, pouco depois de ocorrerem as queimaduras?
Com certeza.
Nessa situao, ela podia ter ainda continuado a funcionar em alguns nveis, comunicando com as pessoas e parecendo quase normal?
Absolutamente. Um dos aspectos mais perigosos do choque  que ele pode surgir sem ser notado pelas outras pessoas e evidentemente tambm pelo paciente.
Na altura em que tratou a Lenore e ela se encontrava naquele estado de fraqueza, ela disse-lhe alguma coisa sobre como se tinha queimado?
Disse que tinha tentado entrar no estdio porque o marido estava l dentro a arder.
O senhor tinha algum motivo para no acreditar nela?
Absolutamente nenhum.
Obrigado, Doutor.
Rossner terminou e Spencer Brown dirigiu-se com ar arrogante para a sua posio. A primeira coisa que fez foi levar o mdico de volta s suas credenciais.
Dr. Aldrich... corrija-me se estiver enganado, mas a especialidade de ginecologia no se limita ao tratamento do sistema reprodutivo feminino?
No sentido mais restrito,  essa a definio; porm, um ginecologista passa por uma formao mdica geral, para alm da formao na sua especialidade, e hoje em
dia  vulgar uma mulher solicitar ao seu ginecologista a prestao de cuidados primrios. ^
Quer dizer que uma mulher podia procurar os seus servios para tratar uma dor de garganta?
Algumas das minhas pacientes fazem precisamente isso.
Uma mulher iria ter com o senhor para tratar um brao partido?
Normalmente no, porque quando h uma fractura, a pessoa ou a reconheceu como fractura e foi directamente a um ortopedista ou foi ao banco de urgncias.
Ento por que teria a senhora Serian, que deve ter tido conscincia de que o seu problema era uma queimadura, chamado o senhor, em vez de ir ao banco de urgncias?
Porque no sabia qual seria o tratamento para o caso dela e porque tinha confiana em mim.
Ahhh. Ela sabia que podia confiar no senhor?
Espero bem que sim.
Ela sabia que o senhor teria em considerao sobretudo os interesses dela?
Espero que tambm isso fosse verdade.
Por que  que o senhor no chamou outro mdico mais qualificado para aquele caso, uma vez que a tinha no hospital?
#Porque me considerei qualificado para cuidar dela.
Mesmo estando rodeado de especialistas?
Sim. Considerei que era capaz de tratar do tipo de queimaduras que ela tinha.
E de tratar a sua situao de choque que podia ameaar a vida?
Com certeza. O choque pode ser provocado por muitas coisas. At pelo parto. Todos os mdicos tm de estar preparados para prevenir e tratar situaes de choque.
Portanto o senhor era o nico mdico autorizado a tratar dela, ou a aproximar-se dela, ou a falar com ela durante o tempo em que esteve no hospital.
Eu era o seu mdico acompanhante.
De acordo com os seus esclarecimentos relativamente ao tratamento mdico necessrio, o primeiro mdico que foi chamado  Arcdia podia ter tratado as queimaduras
dela, no podia?
Suponho que sim.
E se ela estivesse numa situao de pr-choque, ele podia ter diagnosticado esse estado e tratado dele... podia t-la transportado para o hospital se considerasse
que era necessrio.
Espero bem que sim... se ele for de facto qualificado em medicina.
Ento por que... se ela tinha tantas dores e estava angustiada, por que teria ela recusado os servios daquele mdico que j se encontrava no local do acontecimento,
e teria esperado pela chegada do senhor?
Porque, como j referi, ela me conhecia.
Sabia que o senhor seria compreensivo com ela. Brown pronunciou a palavra compreensivo num tom desagradvel.
Eu sou compreensivo com todos os meus pacientes.
Ela sabia que podia confiar no senhor. Brown fez com que a palavra confiar parecesse uma coisa m.
Sim, respondeu o mdico, claramente desconcertado com a hostilidade e com a sugesto de conduta desonesta.
A Owen s apetecia atirar-se a Spencer Brown e agarr-lo pela garganta por causa da maneira como insinuava e distorcia as coisas. E estava tambm furioso com Rossner
e o juiz, por permitirem que ele fizesse aquilo impunemente. Ser que no viam o que Brown estava a fazer?
Depois de mais algumas picadas, terminou o contra-interrogatrio e o mdico foi posto em liberdade.
Senhoras e senhores, disse o juiz ao jri, esto dispensados por hoje. Apreciem o vosso tempo em casa e comecem a fazer os vossos preparativos para as deliberaes,
quando ficarem isolados. Muito obrigado e tenham um bom dia.
Owen levou a Lenore de carro naquela noite, com grande descontentamento de Volpe e de Rossner. S nos falta, Rossner tinha-os prevenido, que algum dos meios de
comunicao veja vocs os dois a irem juntos
num carro. Porque no brinquem com vocs prprios. Se aparecer alguma coisa nas primeiras pginas dos jornais, alguns daqueles jurados vo ver e ouvir falar disso.
Por isso eles comportaram-se como se fossem personagens de um filme de espionagem. Volpe levou a Lenore no carro, como sempre, mas depois encontrou-se com Owen fora
da cidade para ela poder mudar para o carro dele. Na manh seguinte fariam o contrrio.
Sinto-me to impotente, disse-lhe Owen quando iam os dois no carro. Estou apenas ali parado e a ver tudo isto a acontecer.
E o que  que podias tu fazer? perguntou ela.
Podia arrancar a lngua quele delegado do ministrio pblico desclassificado e sem princpios, para comear.
Ela riu-se. No faas isso. O Paul diz que a lngua de Spencer Brown est a prejudicar mais a acusao do que o Rossner.
27
- Ol - Bernie... sou eu, o Owen.
- Bom dia. Mas por que no est no julgamento?
- E estou. - Owen olhou  sua volta para se certificar de que no havia ningum ali perto da cabine telefnica que estivesse ao alcance da sua voz. Tinha escolhido
um telefone do piso inferior, mas mesmo assim tinha de ter cuidado. - Estou no tribunal. Houve um atraso. Uma senhora que faz parte do jri teve um problema com
o carro esta manh e esto  espera que ela chegue.
- Esperava ter novidades para lhe dar esta manh, Owen, mas ainda no temos nenhuma resposta de DeMille. Vou telefonar para l dentro de uma hora.  ridculo que
se tenham comprometido a comprar o livro mas ainda no tenham chegado a um acordo quanto  quantia a pagar como adiantamento. Esta no  a forma normal de procedimento.
- Riu-se. - Mas, bem vistas as coisas, todo este processo tem sido uma grande confuso desde o princpio, no  verdade?
- Por que  que eles esto a protelar, Bernie? Que mais querem de mim?
- Bem, no  a sua editora, posso garantir-lhe. A Arlene est ansiosa por chegar a uma concluso. A demora vem mais de cima. A minha suposio  que isto j demorou
tanto que agora esto  espera para ver como vai o julgamento. Se conseguissem atrasar at haver um veredicto, podiam recorrer a qualquer motivo para lhe pagar menos
como adiantamento.
- Porqu?
- Porque se Lenore Serian for considerada inocente, o livro ter menos valor. Voc ficaria com um crime por resolver, uma provvel diminuio do interesse do pblico
e, o que  ainda mais importante, as delicadas dificuldades legais do que se pode e no se pode dizer de uma pessoa inocente. Os criminosos condenados so jogo limpo,
mas o mesmo j no  assim para quem fica absolvido. Vamos esperar que seja um veredicto de culpada.
- A Bernie quer que ela seja considerada culpada? - perguntou OWen incrdulo. - DeMille quer que ela seja considerada culpada? Para o livro ser mais fcil de publicar?
Se as coisas so assim, Bernie, ento pode dizer a DeMille para pegar no contrato e enfi-lo pelo cu colectivo acima!#Owen bateu com o receptor ao coloc-lo no descanso.
Encostou a testa  parede e respirou fundo vrias vezes, depois subiu as escadas a correr e voltou para a sala de audincias nmero 6.
Foi chamada uma testemunha que j tinha ido a depor. O xerife adjunto Kenneth Havlik subiu para a barra das testemunhas, no menos nervoso do que da primeira vez
que fora testemunhar. O que podia o Rossner querer de Havlik, interrogou-se Owen.
Delegado Havlik... Rossner sorriu. O senhor afirmou que tinha sido acordado pelos seus ces na noite... desculpe... na manh do incndio.
Sim, senhor.
Rossner levantou uma folha para ele poder ler nela. O que queria dizer quando afirmou que os seus ces tinham comeado de novo a fazer barulho?
Que no era a primeira vez que os meus ces faziam barulho naquela noite.
Quantas mais vezes tinham ficado desassossegados?
Ao princpio da noite, tinham estado mesmo agitados e a ladrar durante cerca de uma hora.
Conseguiu saber qual era o motivo?
Sim, senhor. Foi quando alguns carros cheios de gente passaram por ali na direco da casa dos Serians. Os meus ces esto presos mesmo junto  estrada e ficam muito
agitados com o trnsito.
Ento devem estar muitas vezes agitados.
No. A nossa estrada raramente tem trnsito. Sobretudo  noite. Para alm da minha casa, s h a Arcdia e depois a estrada acaba.
Ento os seus ces estiveram agitados durante cerca de uma hora em que estiveram a chegar os convidados que iam atrasados para a festa?
Sim, senhor. Houve trs carros diferentes.
Tem a certeza disso?
Sim, senhor. No h nenhumas rvores entre a minha casa e a estrada. Mesmo que no veja o trnsito, consigo ouvi-lo. A no ser que esteja a tomar duche ou coisas
assim.
Ento os ces reagiram quando os trs carros passaram a caminho da festa ainda cedo. E ficaram muito desassossegados com a passagem de todos os bombeiros e dos camies
que comearam por volta das quatro e meia da manh.
Sim, senhor.
Houve mais alguma coisa que os incomodasse durante a noite?
Sim, senhor. Acordaram-me mais duas vezes.
E pode dizer porqu?
Pareceu-me ter ouvido um carro na estrada em ambas as vezes.
E a que horas foi isso?
A primeira vez foi s duas e qualquer coisa. Talvez duas e dez. Da segunda vez fiquei irritado porque tive a impresso de que tinha acabado de voltar a adormecer
e por isso olhei para o relgio e eram trs e cinquenta e sete.
-  capaz de dizer se o carro ia para a casa dos Serians ou se estava a voltar de l?
- No, senhor.
- Mas passou um carro na estrada por volta das duas e dez da madrugada e outro s trs e cinquenta e sete daquela manh?
- Sim, senhor.
Brown levantou-se de um salto ainda antes de Rossner ter voltado para o seu lugar. - Agora Kenneth... Delegado HavIik... viu de facto um veculo na estrada s trs
e cinquenta e sete da manh do dia sete de Agosto?
- No.
- Ouviu claramente algum carro a passar na estrada?
- No. Mas ouvi os ces e...
- So ces de caa, no so?
- So.
- Ces que seguem trilhos... ces de perseguio, no  verdade?
- Uns so, outros no. So misturados.
- o que fariam aqueles ces se, por exemplo, um guaxinim andasse na estrada junto dos canis?
- Comeariam a ladrar, com certeza. Provavelmente derrubariam o canil.
- No  verdade que aqueles ces fazem barulho por outros motivos para alm da passagem de veculos na estrada e que eles podiam estar a reagir a outros estmulos
possveis na manh em questo?
HavIik franziu as sobrancelhas e coou o pescoo.
-  possvel, parece-me.
Rossner trouxe uma enfermeira de um banco de urgncias  cadeira das testemunhas para verificar o estado de Lenore quando o Dr. Aldrich a levou para o hospital para
ser tratada. Quando submetida ao contra-interrogatrio de Brown, a enfermeira admitiu que no tinha passado muito tempo com a Lenore e que o Doutor Aldrich tinha
andado  volta dela e tinha sido muito protector da sua paciente. Brown fez com que isso parecesse muito suspeito
- que um mdico fosse muito atencioso e solcito.
Owen teve dificuldade em concentrar-se no testemunho. Observou as pessoas, vendo os seus movimentos e tiques faciais e gestos nervosos em pormenor, mas as palavras
que diziam pareciam-lhe to sem sentido que ele podia muito bem ser surdo. Apercebeu-se de que conhecia de cor a parte de trs de todas aquelas cabeas. Spencer
Brown tinha um corte de cabelo recente. A caspa de Dapolito era menos perceptvel. Rossner tinha adquirido uma mancha negra vermelha atrs de uma orelha.
A enfermeira desapareceu e o Dr. Wallace TeIner, um psiquiatra e especialista em fobias, tomou o lugar dela na barra das testemunhas. Ridicularizou tudo o que o
psiquiatra da acusao tinha dito sobre o facto de Bram Serian ser um pirfobo. Brown contraps, insinuando que o Dr. TeIner tinha menos experincia com pirfobos
do que a testemunha anterior.
Brown sentou-se depois do contra-interrogatrio. A testemunha saiu. Rossner levantou-se. - A defesa d por terminada a sua argumentao, meritssimo.
Era tudo. o fim. o julgamento tinha simplesmente perdido a fora de impulso e parado como um velho relgio de corda.
-  Senhoras e senhores, - disse o juiz Pulaski, girando a sua cadeira na direco da bancada do jri, - o Dr. Brown e o Dr. Rossner agora precisam de organizar a
preparao das suas alegaes finais e eu preciso de me reunir com ambos.
- Em breve iro comear as vossas deliberaes e, como j antes os preveni, vocs tm de fazer os vossos preparativos pessoais. Tm de fazer os preparativos para
os vossos animais de estimao, membros da famlia, plantas da casa, etc., partindo do princpio que vo ficar fora de casa por alguns dias.
- o juiz sorriu com um ar paternalista.
- Uma vez que comece a deliberao, vo permanecer sempre juntos. Tero de deliberar na sala do jri e sero levados para um hotel todas as noites, onde jantaro
s custas do estado e sero alojados em quartos de duas pessoas, tambm s custas do estado. Haver um oficial de diligncias em servio durante toda a noite. De
manh tomaro o pequeno almoo no hotel e a seguir sero transportados pelos oficiais de diligncias de volta para a sala do Juri.
-  Amanh ouviro as alegaes finais. Depois disso darei as minhas instrues e a seguir comearo as vossas deliberaes.
- Devo preveni-los... no permitam qualquer exposio aos noticirios nem a opinies de qualquer outra pessoa.
- A sesso est encerrada at s duas e meia.
Mandaram vir sanduches de uma loja de pronto a comer para o almoo e comeram separadamente, espalhados pela sala. Rossner sentou-se a uma mesa e debruou-se sobre
blocos de notas do tribunal cheios de apontamentos enquanto comia. Volpe e Riley puxaram duas cadeiras para uma mesa de canto e puseram-se a jogar pquer calmamente.
Lenore enroscou-se numa cadeira, a olhar para fora da janela, a observar a praa do tribunal, sem tocar na sanduche. Owen andava de um lado para o outro em desassossego,
incapaz de ficar sentado por muito tempo no mesmo lugar. o seu almoo tinha desaparecido, mas no se lembrava de o ter comido.
- Vamos, - disse Jacowitz, caminhando para a porta. - Vista o casaco e venha comigo a buscar mantimentos.
Andaram um quarteiro e meio at uma pequena mercearia.
- Ento e o que vai acontecer agora? - perguntou-lhe Owen.
- o juiz vai fazer a discusso das recomendaes depois do almoo. Sabe alguma coisa sobre isso?
Owen abanou a cabea.
-        Fundamentalmente as instrues do jri, ou recomendaes ao jri, so um conjunto de directrizes ou regras para a deliberao. Amanh o juiz e as duas partes
comearo a iscutir
-        sobre o que dever fazer parte das recomendaes
-        e sobre como sero redigidas. Em seguida, depois das alegaes finais, o juiz vai ler as recomendaes ao jri, uma sesso que  quase to emocionante como
observar a erva a crescer.
Owen abriu a porta para a pequena loja e segurou-a para o Jacowitz entrar.
-  Se pensa que j tem o estmago a revirar-se, ainda no viu nada, Jacowitz preveniu-o enquanto entrava pela porta. - Espere s at estarmos todos sentados a imaginar
o que estar a fazer aquele jri. Pode levar dias, sabe. Pode levar uma semana inteira, at aquelas doze pessoas concordarem com um veredicto.
Depois do almoo a atmosfera era completamente diferente do que costumava ser o julgamento a que Owen se tinha habituado. S havia cinco pessoas na seco dos espectadores
e Jacowitz disse que conseguia identific-las todas como advogados ou estagirios de direito. Na seco da imprensa encontravam-se apenas a Holly, a Marlyn e a
Pat.  claro que a bancada do jri estava vazia.
Rossner apresentou a sua proposta escrita para as instrues do jri, entregando uma cpia  defesa, assim como ao juiz. E a seguir Brown fez o mesmo, entregando
a sua proposta ao juiz e uma cpia a Rossner. Os homens agiam informalmente uns com os outros e de vez em quando ouviam-se uns gracejos e havia um ar de camaradagem,
de tal maneira que parecia a Owen que o debate se transformara numa espcie de uma reunio de um clube. Pulaski discutia os planos para as suas prximas frias com
Brown e Dapolito, e Rossner dava sugestes de viagens.
A seguir os intervenientes sentaram-se a ler. As mesas e os bancos encheram-se de livros de direito abertos, papis e copos de gua. Os oficiais de diligncias recostaram-se,
meio a dormir, nas cadeiras laterais. No se ouvia qualquer som para alm do rudo dos papis e de algum a tossir ou a pigarrear de vez em quando.
Aps trinta minutos a ler as propostas, todos concordaram que deviam ter mais trinta minutos para ler e rever os casos citados em cada proposta. Os minutos pareciam
horas.
Finalmente, o juiz anunciou que deviam comear por rever a proposta do Dr. Brown ponto por ponto e comearam as argumentaes verbais. Criou-se uma atmosfera de
bom humor mas usavam tantos termos de gria que Owen mal conseguia compreend-los.
Lenore parecia estar imvel no seu lugar. Owen tentou imaginar o que passaria pela cabea dela. Ser que se permitia ter medo? Teria algumas mgoas? Ser que se
sentia frustrada ou aborrecida por ter ficado reduzida a um objecto passivo, obrigada a assistir em silncio, enquanto a sua vida pessoal era dissecada e o seu destino
era arremessado para trs e para diante - o prmio neste torneio verboso?
Continuaram a discutir o que o juiz devia dizer ao jri sobre coisas especficas, como o acordo de imunidade feito com Natalie Raven e outras questes
mais amplas: os dois elementos da inteno de matar e o assassinato, o fardo das provas, provas circunstanciais e dedues e grficos de deduo e a presuno de
inocncia.
o juiz Pulaski fez uma pausa para beber um grande copo de gua e depois disse, - Agora, meus senhores, chegamos ao terrvel problema da certeza moral. Sempre considerei
a certeza moral e a dvida razovel como dois nveis diferentes. Mas agora o IPJ vem dizer-nos que as duas so idnticas. Eu no concordo.
- Nem eu, juiz, - disse Spencer Brown. - E o problema de usar a certeza moral nas recomendaes ao jri  que, como leigos no assunto, eles simplesmente no conseguem
compreender como  que estes dois conceitos de moral se associam. No seu limitado ponto de vista, eles vo pensar que sabem o que significa o termo moral e vo pensar
o que significa o termo certeza, mas...
Owen inclinou-se para Jacowitz para lhe perguntar ao ouvido, - o que  o IPJ?
- Instrues Penais ao jri.  a biblia, - respondeu-lhe Jacowitz. Rossner entrou ento na discusso. - A linguagem da certeza moral vem de um caso que  ainda uma
boa lei e ainda est a ser utilizada. No  com certeza mais contraditria do que a dvida razovel, a qual  em si uma contradio mista, Meritssimo.
- Mas eu sempre me senti  vontade com a dvida razovel, como uma dvida para a qual uma pessoa pode indicar uma razo, - contraps o juiz.
- Enquanto que a certeza moral implica a certeza absoluta, e quantas coisas neste mundo so absolutamente certas? Moral  uma palavra vaga e facilmente mal interpretada,
enquanto razovel tem um significado imediato de racional.
- A deciso  sua, juiz, - disse Spencer Brown impacientemente, obviamente confiante de que Pulaski estava a inclinar-se na direco que Brown pretendia que fosse.
- Contudo, ns sentimos que a linguagem da certeza moral  de difcil compreenso para os jris e se fssemos para a certeza moral, essa linguagem no seria uma
forma correcta de apresentar as recomendaes ao jri.
o juiz pareceu ficar a ruminar por momentos. - Meus senhores, esta  a questo legal mais importante neste caso. E o corao, por assim dizer. o IPS permite ambas
as formas ao juiz do julgamento. Se no  requerida a certeza moral, ento a acusao tem o direito de exigir que seja retirada.
- Meritssimo, temos o Tribunal de Recurso a usar a certeza moral como norma, - disse Rossner.
- Sim, tenho conscincia de que o Tribunal de Recurso poderia dizer, o que se passa com este juiz... ele sabia que ns usmos recentemente a linguagem da certeza
moral. Mas um juiz tem de basear as decises no s no que tem sido feito no passado mas no que os tribunais apelatrios vo fazer no futuro. E isso d-nos muito
que pensar.
-        Dada a natureza circunstancial deste caso, meritssimo, - argumentou Rossner, - a certeza moral proporciona uma via que nos conduz atravs das
-        dedues. A certeza moral mantm o nvel de pensamento dedutivo centrado no caso.
- Concluso sobre concluso, o que acham disso? - atirou-lhes o juiz. - E o que acham do IPJ? - era evidente que Pulaski tinha ouvido o suficiente sobre certeza
moral para tomar a sua deciso, embora no fosse claro qual seria a deciso.
- Cada concluso tem de ser fundamentada na evidncia e em factos. Certas concluses podem ser deduzidas da evidncia mas no se pode usar a conjectura, - insistiu
Brown. - Quase todo o raciocnio  baseado em factos deduzidos de outros factos.
- Vamos ento riscar esta terceira frase no segundo pargrafo da primeira pgina do Dr. Brown, est bem? - sugeriu o juiz e Owen verificou que eles podiam at estar
a falar uma lngua estrangeira pois ele no fazia ideia do que tinha sido decidido, nem que parte favorecia. E desistiu de todo de procurar acompanh-los.
- o Rossner disse como pensava que ia a discusso das recomendaes? Ele est a marcar pontos? - perguntou Owen a Lenore quando iam a caminho da Arcdia naquela
noite.
- No quero falar sobre o julgamento, Owen.
- Como consegues no falar dele? Como consegues falar sobre qualquer outra coisa?
Desviou a cabea dele para olhar pela janela.
- Muito bem, - suspirou ele. Aps alguns minutos de silncio disse, - E se no fssemos j para a Arcdia? Vamos jantar fora.
- Estou muito cansada para fazer a viagem para Manhattan.
- Eu no estava a pensar em Manhattan. o oficial de justia esteve a falar com o Rossner sobre um pequeno restaurante francs no campo. Vagamente iluminado e muito
discreto, disse ele. At h celebridades que vo l.
- Onde ?
- No tenho bem a certeza, mas sei o nome da cidade que fica perto. Podemos ir at l e perguntar a direco numa estao de servio.
Ela sorriu com um ar triste. - Sempre tive muito medo de deixar a Arcdia. o Bram tinha-me muito assustada... convencida de que os oficiais da emigrao iam logo
agarrar-me se mostrasse a cara em algum stio.
-   difcil habituar-me a ser livre. De certo modo sinto-me como se estivesse a fugir da priso que o Bram criou para mim. E estivesse a dirigir-me para outra espcie
de priso.
- No fales dessa maneira.
- Estou a ser realista. Eu sei que no tenho ar de inocente para aquelas pessoas do jri.
- Mesmo que isso fosse verdade, Lenore, no  importante. Toda aquela complicao de hoje era sobre os conceitos legais que fazem com que a sua opinio pessoal sobre
ti seja irrelevante.#Ela deslizou a mo e tocou na coxa dele. - Estou contente por te ter conigo, - disse ela.
o toque dela enviou uma onda de calor que lhe percorreu todo o corpo, mas foi seguida imediatamente pela angstia, ao pensar que de facto a podia perder.
Mais tarde, depois de terem danado e passado horas a explorar cada centmetro um do outro, levou-a para a cama, mas nenhum dos dois conseguia dormir.
- Owen, - disse ela no escuro, - quando te disse que tinha estado com outros homens... era s para te fazer ir embora... mas em parte era verdade. Estive com homens
quando era mais nova. Homens diferentes. Homens que no tinham qualquer interesse para mim.
- Foi ideia do Serian? - perguntou ele, contendo a sua raiva contra o homem morto.
- Como  que sabias?
- Adivinhei. Atravs de coisas que soube sobre ele.
- Ele nunca me quis... fisicamente... como esposa... o que agora compreendo... mas quando tinha dezoito anos de idade e era supostamente uma mulher casada e ainda
nem sequer tinha sido beijada, no compreendia nada.
- Tu s um milagre, Lenore. Como  que conseguiste sobreviver?  uma coisa que me ultrapassa.
A voz dela parecia mecnica no meio da escurido. - Era ele que os escolhia. Os homens. E depois preparava tudo. Fazia a coreografia. Dizia-me o que devia fazer.
Passado algum tempo, descobri que tinha preparado tudo de maneira a poder ficar a observar s escondidas.
- Aquilo funcionou durante dois anos. Sempre que acontecia, eu sentia-me cada vez mais perturbada e vazia. Mas continuei a faz-lo para lhe agradar. Para fazer com
que ele me amasse. Depois chegou um homem que vinha trabalhar no vidro.
- Guy Demaree? - perguntou Owen.
- Sim. Tornmo-nos amigos. E esteve l tempo suficiente para se aperceber do que estava a acontecer. Na verdade, o Bram at me ofereceu a ele. Guy ficou muito zangado
e aborrecido com o Bram e abriu-me os olhos... deu-me coragem para enfrentar o Bram e dizer no. Isso foi h oito anos. Eu tinha vinte anos naquela altura.
- Todos os amantes que tive desde ento apenas foram nas minhas fantasias. At tu apareceres.
- Lenore... - sussurrou ele, apertando-a contra si. Na escurido no se viam as lgrimas que lhe corriam dos olhos.
 meia-noite tocou o telefone. Owen ouvia-o mas no conseguia encontr-lo. Lenore alcanou-o primeiro e atendeu. Ele ficou a ouvir o que ela dizia.
-        Ol Paul.
-        - No, no vimos nada na televiso.
- o qu?
- No!
Era evidente a raiva que ela sentia, enquanto estava a ouvir o resto do que Paul Jacowitz tinha para lhe dizer.
- Est bem, - disse ela laconicamente. - Ento vou com o Joe amanh de manh.
- o que foi? - perguntou Owen logo que ela desligou.
- Era o Paul. Holly Danielson fez um exclusivo esta noite sobre o facto de eu ter seduzido um homem em pleno tribunal. Mostrou imagens de ns dois a beijarmo-nos
no parque de estacionamento do restaurante antes do jantar. o Paul disse para contar com cabealhos desagradveis nos jornais amanh de manh.
Owen deu um murro na cama. - Aquela cabra maldita. No tem limites.#27
Na manh seguinte os cabealhos dos jornais eram horrveis. Rossner e Jacowitz tinham comprado cpias de todas as publicaes nos quiosques dos jornais em Manhattan
e tinham-nas trazido para o hotel. Duas delas tinham artigos de primeira pgina com cabealhos em letras colossais. VIVA NEGRA TECE TEIA NA SALA DE AUDINCIAS e
VIVA SEDUZ ENQUANTO o JRI DEDUZ.
Todos os artigos eram imitaes da histria da Holly, a qual, segundo a descrio pormenorizada de Jacowitz, parecia longa em sugesto e curta em factos. Mas a Holly
tinha uma cassete do casal a abraar-se no parque de estacionamento do restaurante Francs e combinava aquilo com imagens de Owen no trio do tribunal e imagens
de Lenore a sair do tribunal com a sua capa negra com capuz, de tal maneira que a pea conseguia parecer muito credvel. A Holly, depois deve ter vendido imagens
estticas s publicaes sensacionalistas, para que cada uma delas pudesse ter uma fotografia granulada a preto-e-branco do abrao no parque de estacionamento para
publicar, juntamente com uma fotografia da cabea de Owen, que tambm tinha de ser obra da Holly. Estas estavam misturadas com fotografias de Lenore com a capa e,
claro, a fotografia original de Lenore a sair do carro, quando foi pela prmeira vez apelidada de Viva Negra.
Owen explodiu. - Como podem fazer uma coisa destas? Como Podem ficar imunes!
Rossner riu-se. A sua raiva disciplinadamente controlada era disfarada pelo sarcasmo. - o escritor no gosta de ver o seu nome nos jornais, heim? Sente-se como
se tivesse sido violado--- talvez abusado?  esse o nome do jogo, Byrne. E no se esquea, voc tambm est a jogar. Ou no vai o seu livro incluir pessoas autnticas?
Owen separou-se voluntariamente da defesa, deixando-os ir  frente para o tribunal e depois saindo do hotel pela porta de servio das traseiras para se dirigir para
o tribunal. Quando chegou s escadas, os operadores de cmara descobrram-no e avanaram todos para ele. Ele passou a correr pelo meio
deles e refugiou-se na segurana do trio do tribunal, desejando ter um disfarce para se esconder. Ou talvez a sua prpria verso da capa negra.
Quando ia a meio das escadas ouviu uma voz feminina a cham-lo e apressou o passo. Conseguia ouvir a sua perseguidora nas escadas atrs dele, por isso percorreu
o resto do caminho a correr e voltou rapidamente para o corredor.
- Owen! Sou a Bernie!
Parou e voltou-se, depois esperou por uma Bernadette Goodson sem flego para o apanhar.
- Desculpe, Bernie.  que tive de abrir caminho pelo meio dos operadores de cmara  entrada e fiquei um pouco nervoso.
Ela encostou uma mo  parede e pousou a outra no peito enquanto recuperava a respirao. - Estou to em baixo de forma, - disse ela. - Isto  embaraoso.
Owen ficou  espera. Ele prprio a sofrer de constrangimento. o seu ltimo contacto com a Bernie tinha sido quando lhe tinha desligado o telefone na cara no dia
anterior.
- Esta manh parei para comprar um jornal quando ia para o escritrio e estava l tudo. Fui imediatamente apanhar o comboio e vim para aqui. Deu um suspiro. - H
alguma verdade em tudo isto?
Owen olhou  sua volta para se certificar de que no havia por ali ningum  escuta, mas no havia ningum no corredor.
- Owen, voc anda envolvido com essa mulher?
- Sim. E agora estou a viver com ela na Arcdia.
Berne ficou a olhar para ele por instantes sem querer acreditar, depois desanuviou a mente e riu-se. - Parece-me que no precisava de me preocupar a arranjar uma
casa para si em Nova lorque.
Owen esboou um sorriso.
- Isto tem sido tudo muito difcil, no tem? - perguntou a Bernie numa atitude de compreenso.
- Voc no sabe metade da histria, Bernie.
- Agora compreendo por que ficou to perturbado com a nossa conversa telefnica de ontem.  evidente que no quer ouvir o destino dessa mulher a ser discutido em
termos to insensveis.
- No devia ter feito essa viagem para vir aqui, Bernie. Eu sei como anda ocupada.
- No conseguia encontr-lo de outra maneira e queria esclarecer as coisas. Sei que voc realmente no quer perder este contrato. Sei que o livro  importante para
si. No transmiti a sua mensagem a DeMille. Tanto quanto lhes diz respeito, voc continua a ser o autor ansioso,  espera de saber os resultados das negociaes.
Fez uma pausa e examinou a cara dele. - Ainda quer este contrato, no quer, Owen?
Ele inclinou a cabea para trs e fechou os olhos por instantes, depois tomou uma atitude e enfrentou os olhos perscrutadores dela. - Sim, - confessou. - Nem imagina
como quero escrever este livro. S que agora vai ser muito diferente do que o imaginava originalmente.
- Dadas as circunstncias, acho que no se esperava outra coisa.
- Vai ficar aqui? Quer vir comigo assistir ao julgamento?
- Sim. Estava a pensar em voltar  hora do almoo. Tenho de admitir que ir assistir ao julgamento de um homicdio verdico deve ser emocionante. Owen retraiu-se
com as palavras dela.
- Peo desculpa, - disse logo ela.
- No. - Ele abanou a cabea. - No pea desculpa. o que est a dizer  simplesmente normal. Eu prprio pensava a mesma coisa quando aqui cheguei pela primeira vez.
Ela acenou com a cabea e tirou um papel dobrado. - Isto  do Alex. Owen passou por ele uma vista de olhos.
o Cliff tinha descoberto que os registos militares de Abe Hanselmann estavam selados e no havia quaisquer indcios de que o Abe tivesse pertencido a uma das unidades
secretas. No entanto, tinha conseguido descobrir que o Abe tinha desaparecido no princpio dos anos setenta e supostamente tinha desertado.
Owen dobrou a folha e guardou-a. Abe Hanselmann era um desertor. o homem no tinha apenas ficado transtornado. Tinha-se feito passar por primo de Bram Serian com
o nome de AL e escondera-se naquele estdio na Arcdia por muito boas razes.
Talvez fosse aquilo que o Bram sempre receara... que o seu irmo fosse apanhado. E talvez fosse em parte o motivo por que mantinha a Lenore isolada e assustada.
Talvez pensasse que ela podia de alguma maneira levar as autoridades a perseguirem o seu irmo fugitivo.
Comearam a seguir juntos pelo corredor.
- Fiz DeMille prometer que concluiremos a discusso do preo ao fim da tarde, - disse-lhe ela.
- Como conseguiu?
- Ameaas. Insinuei que havia outro editor que estava interessado.
-  verdade?
Ela sorriu. - Digamos que h nisto um elemento de verdade. o facto  que, Owen - hesitou por instantes e relanceou o olhar para ele com alguma apreenso - esta questo
da exposio, dolorosa e perversa como , pode ter duplicado o seu valor da noite para o dia.
Owen conseguiu levar a Bernie com ele para a dcima fila da seco da imprensa. As pessoas voltaram a cabea para ele, mas ningum se atreveu a incomod-lo, porque
o juiz estava a falar para o jri, a dizer-lhes que, depois das alegaes finais, dar-lhes-ia as instrues do jri e falar-lhes-ia sobre o processo altamente disciplinado
que um jri tem de usar para chegar a um veredicto.
o juiz Pulaski voltou ento a cabea para a frente e percorreu a sala de audincias com uma expresso carregada. - Vamos agora dar incio s alegaes finais. A
porta ser fechada e qualquer perturbao ter como resultado a imediata expulso.#- Dr. Rossner, est pronto para comear as suas alegaes finais? Rossner levantou-se
e toda a sala de audincias susteve a respirao na expectativa.
- Senhoras e senhores do jri, esta  a minha ltima oportunidade de lhes falar em defesa de Lenore Serian. Espero que estas minhas ltimas palavras faam justia
a esta mulher... tenham como resultado que seja feita justia.  para isso que aqui estou. Para conseguir obter justia para ela.
Rossner movimentava-se com -vontade em frente do jri. Estava descontrado e simptico, era franco e sincero.
- Se ela pudesse falar por si prpria, era o que faria. Mas no est habilitada a representar-se a si prpria perante os senhores, tal como no est hablitada a
fazer uma cirurgia ao corao nem a projectar uma ponte. o nosso sistema legal tornou-se demasiado complexo para uma pessoa sem formao ser capaz de avanar e fazer
a auto-defesa.
- No me interpretem mal! No estou a criticar o nosso sistema legal, estou apenas a especificar os factos. o nosso sistema legal  o melhor do mundo. o melhor!
E sabem qual o corao do nosso sistema... a presuno de nocnca. Lenore Serian  presumida inocente a no ser que o Dr. Brown consiga demonstrar o contrrio.
- Neste grande pas que so os Estados Unidos da Amrica, todos ns somos considerados inocentes a no ser que haja provas de culpa. No at mas a no ser que. Esto
a ver a diferena? At faz com que parea que todos ns andemos com uma hora limite a fazer tique-taque e que s nos resta o tempo at que algum nos declare culpados
de alguma coisa. A no ser que, a expresso a no ser que... d quela grande frase o seu sentido verdadeiro e legal. Considerados inocentes a no ser que existam
provas de culpa. o que garante que todos e cada um de ns est inocente segundo a lei, desde o dia em que nascemos at ao dia em que morremos, a no ser que algum
apresente um processo slido que prove perante um jri que somos culpados para alm de toda a dvida razovel. Essa  a pedra angular na qual o nosso sistema se
fundamenta.  esse o direito com que cada um de ns nasce nesta grande nao.
- Considerados inocentes a no ser que existam provas de culpa. Provas de culpa apresentadas por quem? - Rossner voltou-se e fez um aceno de cortesia para a mesa
de Brown e Dapolito. - Os promotores de justia. Ali o Dr. Brown e o Dr. Dapolito.  o trabalho deles.  para isso que todas as manhs se levantam e vo trabalhar.
Para tentar provar que as pessoas so culpadas de fazer coisas. Para tentar provar que Lenore Serian  culpada de ter morto o marido. Mas porque a Lenore, tal como
cada um de ns, tem uma presuno bsica de inocncia, os promotores no nosso sistema tm aquilo a que se chama o nus da prova.
- o nus da prova.
- Colocado de forma simples, o que isso significa  que Lenore Serian no tem de levantar um nico dedo para se defender. A lei diz que ela est inocente a no ser
que o Dr. Brown e o Dr. Dapolito consigam provar, para alm de toda a dvida razovel, que ela  culpada.
Rossner voltou-se para lanar um olhar penetrante a Brown e Dapolito. - Mas a acusao tem procurado distorcer as coisas neste julgamento. Eles tm um caso to circunstancial,
um caso to irracional, ilgico, cheio de buracos, que tiveram de usar de evasivas. Dizem que a Lenore comprou um candeeiro que podia provavelmente ter desempenhado
um papel na morte de Bram Serian, e ela estava na Arcdia quando Bram Serian morreu, e foi ouvida a discutir com ele por vrias vezes no decurso dos seus treze anos
de casamento, portanto... a no ser que ela consiga provar que no o matou, ento ela tem de ser culpada. Levantou as mos.
- Alto, a! Esperem um minuto. No  assim que funciona no nosso pas, minha gente. o acusado no tem o nus da prova.  a acusao quem tem o nus da prova. Eles
no podem, assim sem mais nem menos, acusar as pessoas de crimes e depois dizerem, Est bem... agora procure provar que est inocente, como podem fazer as autoridades
em alguns pases. No podem, sem mais nem menos, espezinhar os direitos da pessoa no nosso sistema. Se fazem uma acusao a um cidado, ento eles tm a responsabilidade
de provar essa acusao. E no podem limitar-se a insinuar a culpa. Eles tm de provar-lhes que Lenore  culpada para alm de toda a dvida razovel.
Parou como que para reconsiderar a expresso.
- Agora h uma outra das nossas preciosidades legais. Dvida razovel. o juiz Pulaski falou-lhes um pouco sobre a dvida razovel no princpio deste julgamento,
e vai falar-lhes novamente sobre isso mais tarde. Trata-se de um conceito muito importante. Especialmente num caso circunstancial como este. Para declararem a Lenore
como culpada, vocs, o jri, tm de ficar absolutamente convencidos por parte da acusao, que no lhes resta na mente qualquer dvida razovel. Nenhuma dvida razovel.
Nem uma nica dvida razovel que possa lev-los a discuti-la com outro membro do jri. Porque, esto a ver, neste grande pas que  o nosso, damos ao arguido...
damos a todo e qualquer cidado... o benefcio da dvida.
Rossner foi ao pdio para beber um gole de gua; depois deu um puxo  orelha por instantes, como se estivesse a reflectir nas coisas.
- Vamos olhar para as circunstncias neste caso e ver como se ajustam estes excelentes conceitos legais. Primeiro, temos o candeeiro. No h dvida que Lenore Serian
entrou no armazm de ferragens do senhor Fugate e entregou-lhe umas listas de compras, uma que inclua um candeeiro de vidro a petrleo, juntamente com um fornecimento
de petrleo para candeeiros. Isso  um facto. A acusao fez o seu dever, assumiu o nus da prova e provou esse facto... que nunca contestmos.
- Mas ser que a acusao provou alguma coisa para alm disso? No. George Fugate acha que se lembra que a lista com o candeeiro no estava escrita com a letra de
Natalie Raven. Uma vez que essa lista j no existe e ningum a viu para alm de George Fugate, nunca saberemos se ele  bom a identificar a caligrafia de um comprador
ou at que ponto ele tem boa memria. Talvez no seja muito boa. Mas vamos, considerar, s para avanarmos, que George Fugate  um autntico gnio a fazer anlise
de caligrafias e tem uma memria de catorze quilates... o que  que ficou provado?
- E se foi a Lenore que escreveu a lista? Ser que o facto de incluir um candeeiro numa lista de compras e de ir a um armazm de ferragens prova que ela queria matar
o marido? Definitivamente no!  absurdo insinuar tal coisa.
- Que provas nos foram dadas de que a lista de compras no estava escrita com a caligrafia de Bram Serian? George Fugate no disse que o Serian costumava fazer as
suas compras pessoalmente, sem usar nenhuma lista? E que o Serian nunca pagava com cheque nem teve a oportunidade de escrever ao senhor Fugate uma nota ou letra?
Donde se conclui, nesse caso, que apesar dos grandes conhecimentos que o senhor Fugate tinha de caligrafias, isso no inclua qualquer familiarizao com a caligrafia
de Bram Serian. Portanto, se essa lista existiu, e se de facto no estava escrita com a letra de Natalie Raven, a acusao provou que a lista no tinha sido escrita
pelo prprio Bram Serian? No! Nem isso conseguiram provar! No conseguiram provar que Bram Serian no entregou uma lista  sua mulher e lhe disse, vai buscar-me
isto se fores  cidade, querida.
- E todas aquelas implicaes sinistras... - Rossner fez uma careta de incredulidade indignante. - Todos esses disparates inventados que Natalie Raven engendrou-
Vamos observar atentamente tudo isto. Natalie Raven queria fazer-nos acreditar que havia qualquer coisa de errado no facto de a Lenore comprar aquele candeeiro.
Ela queria fazer-nos acreditar que havia alguma coisa de traioeiro naquilo. E como  que ela justificou a sua interpretao da compra do candeeiro? Porqu, o facto
de ela conhecer Bram Serian melhor do que a prpria esposa? Esperem um minuto!
- o que  que a acusao provou com o testemunho de Natalie Raven relativamente  compra do candeeiro? Nada! Excepto, talvez, que Natalie Raven era possessiva em
relao a Bram Serian e tinha cimes da Lenore. Ah! Diro vocs... parece que Natalie Raven tinha motivos para cometer um assassnio. - Levantou uma sobrancelha
com ar pensativo e deixou que a insinuao fosse absorvida.
- Portanto o candeeiro chega a casa e fica na carrinha e Natalie Raven ordena a Tonny Kubiak que v devolv-lo, mas ento simplesmente desaparece. Para onde foi
levado? Algum viu a Lenore com ele? No. Natalie Raven viu a Lenore lev-lo para casa? No. Bram Serian podia t-lo levado para o seu estdio? Absolutamente.
- E aqui mais uma vez, senhoras e senhores, aqui mais uma vez estamos numa situao em que podemos dizer... est bem... e depois? A Lenore no descarregou o candeeiro
do carro, mas mesmo que o tivesse feito, e depois? Um candeeiro a petrleo no  uma arma perigosa. Um candeeiro a petrleo no  uma espingarda, nem uma faca de
ponta e mola, nem uma bomba! Na verdade, um candeeiro a petrleo  uma coisa utilizada vulgarmente no campo e j havia uma quantidade de candeeiros a petrleo nas
instalaes da Arcdia. A prpria Natalie Raven confessou que tinha comprado alguns. Algum testemunho da compra deste candeeiro provou uma parcela mnima de culpa?
No! Definitivamente no!
Rossner levantou as mos como se sem saber o que fazer perante tamanha absurdidade.- Como sabemos que Bram Serian no tinha uma coleco de candeeiros a petrleo
naquele seu estdio? No sabemos, porque nunca ningum viu o interior daquele estdio. Temos apenas o testemunho de Natalie Raven, que afirmou que ela sabia tudo
o que Bram Serian fazia e no fazia, e portanto se ela diz que ele no tinha l um candeeiro a petrleo, ento  suposto que todos ns tomemos isso como se fosse
o evangelho. Bem, vou at  janela verificar se h sol, como me disse a Natalie Raven.
Rossner estava todo lanado no seu discurso e toda a sala de audincias estava fascinada, Passou de Natalie Raven e o candeeiro para o testemunho de Tonny Kubiak
sobre Lenore a queimar coisas. Salientou que seria muito fcil para uma pessoa jovem e sem experincia como o Tommy interpretar mal as atitudes de outra pessoa.
Depois lembrou o jri que Stanley Cantor tinha apresentado as histrias de voodoo e de queimar velas pelo que eram completos disparates de ignorncia.
Em seguida Rossner deu ao jri uma mini-lio sobre religio oriental e falou sobre a tradio de queimar coisas que pertenciam a uma pessoa que morreu e sobre como
essa tradio se tem modificado, de modo que agora as pessoas queimam representaes em papel daqueles pertences. E falou sobre o facto de Lenore se lembrar evidentemente
de ver aquelas tradies durante a infncia, e sobre o facto de cada um reconstituir os rituais da infncia de vez em quando por nostalgia.
A seguir Rossner dedicou a sua ateno s pretenses de Natalie Raven de o Bram querer um divrcio. Descreveu Raven como uma mulher frustrada e infeliz, que queria
Bram Serian para si prpria e no aceitava que o artista amasse a esposa. Rossner falou sobre as discusses que a mulher afirmava ter ouvido, salientando que apenas
uma daquelas afirmaes tinha sido corroborada. Depois examinou as discusses palavra por palavra, mostrando como podiam ser interpretadas de maneira diferente.
Mostrando que o Bram e a Lenore podiam ter estado a discutir sobre uma quantidade de assuntos.
Sugeriu que se Bram Serian tinha importunado Natalie Raven com uma discusso sobre o divrcio, isso no queria dizer que o artista estivesse a considerar o divrcio
ou que porventura tencionasse divorciar-se da esposa. E tornou claro que nenhuma outra testemunha podia corroborar a pretenso de Natalie Raven, de que Bram Serian
queria o divrcio.
Owen procurou tentar esquecer tudo o que sabia e ouvir apenas o que o jri estava a ouvir. o que estariam aquelas doze pessoas a pensar? Estariam a compreender o
Rossner? Estariam de acordo com ele? Os doze rostos estavam absolutamente impassveis e tudo o que Owen podia ter por certo, era que eles estavam a ouvir com toda
a ateno.
Rossner continuou dizendo que vrias pessoas tinham procurado insinuar que a Lenore era estranha ou mesmo anti-social, e depois apresentou um argumento inflamado
sobre a compreenso entre os diferentes povos do mundo, Lenore Serian foi criada numa cultura diferente, disse ele, criada com um conjunto diferente de regras sociais,
por isso era evidente que ela devia parecer diferente s pessoas que tinham tido a sorte de ter sido criadas nos Estados Unidos, mas certamente, disse ele, certamente
as pessoas com bomsenso e alguma sensibilidade teriam percebido qual era a origem da sua insegurana e dificuldades sociais. E pessoas como Stanley Cantor que tinham
tido a preocupao de se aperceber das suas diferenas e da sua reserva inata, tinham achado que ela era uma pessoa bondosa e afectuosa.
- E h s mais uma coisa que gostava de apresentar antes de terminar, disse Rossner, - antes que os senhores, pessoas boas e pacientes, caiam para o lado por falta
de almoo, e  o episdio desse James Collier.
- Acho-o chocante. Acho que  uma atitude pouco escrupulosa por parte da acusao, quando fez tantas insinuaes indecorosas sobre a conduta de Lenore Serian com
este homem do clero.
A seguir Rossner comentou a natureza platnica da relao entre Lenore e Collier. Lembrou os jurados que este homem de Deus tinha colocado a sua mo sobre a Bblia
e jurado que estava a dizer a verdade, tinha jurado que no teve relaes fsicas com a Lenore.
Owen susteve a respirao, perguntando-se at que ponto Rossner conhecia a verdade.
Depois de uma pausa dramtica o advogado disse, - o Irmo James Collier era um homem que se tinha dedicado a uma vida religiosa e de ensino, uma vida calma e contemplativa.
Portanto, quando James Collier conheceu Bram Serian, no estava apenas a conhecer um homem, mas um novo mundo deslumbrante e emocionante. E foi este mundo que seduziu
o Irmo James. Foi o mundo de Bram Serian.
Rossner voltou-se para o juiz e acenou-lhe. Eram 12:45. o Juiz Pulaski ordenou uma interrupo de uma hora para o almoo, e toda a sala irrompeu num zumbido daquela
massa de gente em movimento.
- Bemnmm... - A Bernie respirou fundo. - No h dvida que ele  muito bom. - Franziu as sobrancelhas, como se estivesse exasperada. - Todo aquele espalhafato sobre
as velas  realmente absurdo. A minha recepcionista gosta daquelas mesmas velas e com certeza que no  uma m pessoa.
Owen sorriu. - Obrigado por ter vindo, Bernie. - Olhou  sua volta. Havia dezenas de rostos com os olhos fixos nele. - Provavelmente  melhor voc levantar-se e
sair sozinha. Eu posso ter de me esquivar a enfrentar algumas perguntas. Sabe o caminho para a estao dos comboios?
Ela acenou com a cabea e deu-lhe um breve aperto da mo. - Desculpe ter de o deixar... Boa sorte... para vocs os dois. E telefone todos os dias.  uma ordem.
Owen conseguiu chegar ao hotel depois de uma elaborada srie de estratagemas para despistar os jornalistas. Bateu  porta da sala principal e Riley deixou-o entrar
e avisou-o que falasse em voz baixa. Rossner e Jacowitz estavam no quarto a rever o resto das alegaes finais.
Owen sentou-se com a Lenore ao canto a comer o almoo.
- Achas que o jri acredita nele? - perguntou ela.
Ele pegou-lhe na mo. - Sim, - disse ele, procurando transparecer segurana na sua voz.Depois do almoo Rossner foi directo  morte de Bram Serian. Imaginou cenrios
apoiados por citaes de vrias testemunhas, segundo as quais a morte de Serian podia ter sido completamente acidental. Andando aos tropees a cair de bbado, com
um cigarro nas mos, derrubando o candeeiro a petrleo, escorregando em seguida no petrleo derramado e batendo com a cabea nos tijolos enquanto o cigarro aceso
caa no meio do petrleo pegandolhe fogo. Ou caindo com o cigarro e derrubando o candeeiro enquanto caa. Ou ainda tentando trabalhar - bbado e a fumar - derramando
algum lquido voltil e ncendiando-o com o cigarro, depois tentando apagar o fogo com o machado, escorregando e batendo com a cabea.
Ou, disse Rossner, o machado podia no ter absolutamente nada a ver com a morte. Podia simplesmente estar ali junto do fogo por qualquer motivo. Tendo em conta
o costume de Serian de incluir objectos nas suas esculturas, o machado podia ter estado  mo para ser utilizado em alguma pea de arte. Ou podia ter sido um acessrio,
colocado ali junto do falso fogo a lenha, para dar a iluso de a lenha ter sido cortada.
- Uma vez que o Xerife Bello apanhou a cabea do machado, - Rossner disse ao jri, - e andou com ele por ali a mostr-lo s pessoas, dizendo Parece que o gajo estava
a tentar combater ele mesmo o incndio... uma vez que o bom do xerife perturbou a cena, sem respeitar quaisquer procedimentos formais de recolha de provas, no
temos maneira de saber onde estava de facto o machado no edifcio.
- Tal como no temos maneira de saber quem esteve no local quando chegou o xerife, porque ningum fez uma lista, nem tentou contar sequer as pessoas presentes.
Rossner deteve-se. - Est bem, - disse ele, usando as mos para fazer um sinal de concesso. - Para podermos continuar, vamos supor que a morte de Bram Serian no
foi acidental. No existem provas disso, mas vamos simular e continuar a partir da. Vamos ver o que foi feito para apanhar o homicida.
- o Xerife Bello no suspeitava de crime, por isso no fez qualquer registo das chapas de matrcula dos veculos que foram retirados da lama. No tomou nota das
pessoas que se amontoaram no carro de Bram Serian e foram nele at  estao dos comboios para voltar para Manhattan. Nem sequer sabia que era o carro de Bram Serian.
E, mais tarde, nem uma vez pensou em perguntar o que tinha acontecido ao carro de Bram Serian.
- o que fez o xerife? Em que consistiu a sua investigao do homicdio? Alguns dias mais tarde foi at l  procura de rastos de pneus e beatas de cigarros. Rastos
de pneus e beatas de cigarros! Numa rea que tinha sido percorrida por camies dos bombeiros, veculos da polcia e vizinhos curiosos... uma rea que tinha sido
transformada num mar de lama depois da morte de Serian, devido  gua que tinha sido lanada para apagar o incndio.
- o prprio delegado do xerife ouviu o trfego na estrada s duas e dez e s trs e cinquenta e sete, mas isso nunca foi investigado. Nem sequer foi tido em considerao.Mandou
um grupo de pessoas para fazer uma busca  Arcdia e recolher provas contra a Lenore, mas ningum olhou para as argolas de chaves dependuradas bem  vista junto
da porta das traseiras. Ningum examinou aquelas chaves para ver se faltava alguma chave da porta do estdio em alguma daquelas argolas e, caso isso acontecesse,
verificar se naquela argola havia algumas impresses digitais.
E o que dizer da chave do estdio? A chave que o Xerife Bello tirou da porta na manh do incndio. A chave que tinha uma enorme impresso do polegar do Xerife Bello.
Alguma vez ele procurou indagar donde tinha vindo aquela chave e por que estava separada, quando Bram Serian guardava todas as suas chaves em conjuntos, e se era
uma cpia feita numa loja de ferragens ou uma chave original da fechadura? Alguma vez procurou saber alguma coisa sobre a origem daquela chave? No!
E por que  que Vincent Bello conduziu uma investigao de to m qualidade? Ser que ele  incompetente? Provavelmente. O xerife no se apercebeu de que tinha nas
mos uma morte problemtica. Depois, quando tomou conscincia do grave erro que tinha cometido, optou pelo caminho mais fcil. Foi  procura do possvel suspeito
que era mais fcil.
No queria enfrentar toda a m publicidade de ter a morte de uma celebridade por resolver e ser questionada a qualidade do trabalho da sua polcia. E havia a governanta,
Natalie Raven, aos berros, dizendo, que a viva era quem tinha feito aquilo. A telefonar todos os dias para o seu escritrio, a gritar que a viva era quem tinha
feito aquilo. E havia a viva, uma escolha muito conveniente para uma suspeio de recurso, porque ela no tinha familiares nem amigos importantes que ficassem furiosos
se ela fosse acusada, e ela era diferente... uma pessoa estranha... ela era o bode expiatrio perfeito.
E a imprensa adorou! O Xerife Bello foi o heri dos meios de comunicao social por ter responsabilizado a Lenore pela morte do marido.
Rossner fez uma pausa.
Agora vamos olhar para o que o xerife teria visto se tivesse aberto os olhos e tivesse realmente investigado este caso. Vamos dar uma vista de olhos  festa daquela
noite. Temos Natalie Raven, que era ciumenta e possessiva em relao ao seu patro, que era obrigada a v-lo feliz na companhia de pessoas que para ele eram muito
mais importantes do que ela. Temos o Irmo James Collier, que sem dvida se sentia humilhado com o seu prprio comportamento e possivelmente culpava o Serian por
esse facto. E temos vrios personagens como Lance Zabel, que gostava de seguir a Lenore Serian e espreit-la, e Dar Quintana, que queria ser o amigo especial de
Bram Serian. Depois temos um homem desconhecido a falar com Bram Serian s escuras, fora do crculo da festa, pouco tempo antes de o Serian ser morto.
Senhoras e senhores, pergunto-lhes. Mesmo uma pessoa que no tenha experincia na aplicao da lei pode ver as diferentes possibilidades. E isso sem ter em conta
os carros a que reagiram os ces do Delegado Havlik na estrada s duas e dez e s trs e cinquenta e sete. O que coloca a questo se o assassino podia ser algum
que nem sequer apareceu na festa. Ou algum convidado
#da festa que partiu imediatamente a seguir ao homicdio, mas cuja ausncia nem sequer foi notada, devido  falta de vigilncia por parte do xerife. Rossner deu
uma volta para ir beber um pouco de gua e depois voltou para falar sobre as pinturas que foram encontradas l fora e como aquilo podia indicar que o assassino tinha
sido um ladro que estava a tentar roubar obras de arte e foi apanhado em flagrante pelo Serian. Falou sobre as queimaduras de Lenore e de como estavam perfeitamente
de acordo com a sua tentativa de entrar para ir ajudar o marido.
Charles Rossner fez uma pausa e baixou a voz para um tom mais solene, para se dirigir ao jri quanto ao dever que tinham  sua frente. Mais uma vez falou do nus
da prova e da presuno de inocncia. Mas a sua nfase era agora na dvida razovel e mais uma vez esboou todas as dvidas razoveis que o caso apresentava.
- Bram Serian est morto, - disse ele em concluso. - Nada vai traz-lo de volta. Certamente no o castigo de uma mulher inocente.
- Ns... e quero dizer todos ns... temos de ser capazes de dar um passo atrs e dizer: No sabemos o que aconteceu. Talvez ento o caso da morte de Bram Serian
seja reaberto e as verdadeiras respostas sejam encontradas.
- A tarefa que os espera no  fcil, senhoras e senhores.  uma das mais difceis que provavelmente alguma vez enfrentaram. Mas lembrem-se, enquanto esto a deliberar,
que fazem parte de um grande sistema de justia. E neste sistema no h vencedores nem vencidos. Isto no  um concurso da acusao contra a defesa. Quando prevalece
a justia somos todos vencedores.
- Obrigado.
Owen e Lenore ficaram sentados toda a noite a olhar para o fogo a arder na lareira numa das salas de estar. Nenhum deles falava. Estavam cheios de medo.
Para discutir as alegaes finais de Rossner, teriam de reconhecer as inconsistncias e as inverdades que continha. E fazer isso parecia um convite ao desastre.
Por isso agarraram-se um ao outro, em silncio, desesperadamente, e esperaram que amanhecesse.
Spencer Brown caminhou presunosamente para o lugar no pdio na manh seguinte, com uma mo cheia de folhas dactilografadas. Organizou as folhas e cumprimentou os
jurados, agradecendo-lhes pelo seu tempo e pacincia.
Disse-lhes quanto respeitava o seu sacrifcio com o objectivo de servir no dever do jri e falou sobre como o julgamento por jri era o conceito legal mais importante
na histria da nao.
- o que tm perante vs, senhoras e senhores, so os depoimentos das testemunhas, que em conjunto formam uma descrio de um homicdio. Como jurados, os senhores
vo pesar esses depoimentos. Vo considerar apenas as provas que provm do testemunho naquela cadeira das testemunhase apenas os documentos oficiais que foram apresentados
como provas. Vo analisar tudo isso atravs do uso de um processo sistemtico, examinando as formas em que um elemento de prova complementa outro e conduz  concluso
final. E como vo chegar a essa concluso final? Atravs do vosso bom senso, senhoras e senhores. No existe nenhum mistrio para chegar a um veredicto. Tudo o que
 preciso  ter bom senso.
Em seguida Brown apresentou o caso, refutando os argumentos de Rossner. Apesar das frases complicadas de Spencer Brown, o quadro que ele pintou era simples e lgico.
Bram queria o divrcio. Lenore Serian era uma pessoa com agorafobia possessiva e anti-social, que no suportava ser expulsa do seu ninho confortvel e ter de tratar
da sua prpria subsistncia.
Ela comprou o candeeiro e o petrleo algumas semanas antes da festa, certa de que podia convencer o marido a coloc-lo no estdio, para que depois pudesse ter uma
forma segura de atear um fogo e fazer com que parecesse acidental. O fogo era um meio natural para ela, uma vez que tinha sido sempre fascinada pelo fogo e por queimar
coisas.
Escolheu precisamente a festa, porque era catica e havia menos hipteses de algum questionar o que tinha acontecido. Tambm porque tinha provavelmente contado
com a demasiada complacncia do marido, devido ao lcool tomado durante a festa, sabendo que seria mais fcil surpreend-lo e bater-lhe na cabea enquanto estava
em tal estado. A festa era a sua camuflagem e a nica ocasio em que sabia que a ateno de Natalie Raven estaria distrada.
Ela bateu na cabea do marido com o machado, com a inteno de o deixar inconsciente, para que o incndio o pudesse matar; depois partiu o candeeiro ao lado dele
para fazer parecer tudo acidental. Provavelmente tencionava levar mais do que os trs quadros que foram encontrados encostados  rvore, mas a rapidez e a fora
do fogo provocado pelo petrleo do candeeiro confundiu-a. Queimou-se e foi surpreendida pelo seu prprio trabalho artesanal. Foi nessa altura que Natalie Raven a
avistou e lanou o alarme, interrompendo o plano de Lenore Serian.
Ento a senhora Serian no teve tempo de fechar a porta e tirar a chave. Nem de esconder os quadros. Por isso ela ficou simplesmente ali e tentou apresentar-se como
inocente.
Brown falou de como era fcil a um advogado de defesa de discurso fcil retirar um depoimento de uma testemunha, mas preveniu o jri que no se deixasse enganar
com esse tipo de processos. Falou de como era fcil ridicularizar os factos do caso se os separasse e os examinasse individualmente, mas explicou que num caso como
este os factos no deviam ser considerados separadamente. Deviam ser examinados como um todo.
Disse ao jri que um caso circunstancial era to consistente, se no mais consistente, como um caso baseado inteiramente em provas concretas. Em seguida examinou
passo a passo o relato dos acontecimentos na noite e na manh da morte de Serian e defendeu os agentes da polcia envolvidos, dizendo que estavam a considerar as
provas e as circunstncias e estavam a usar o
bom senso que Deus lhes deu. Ridicularizou muitas verses dos acontecimentos apresentadas por Rossner.
s 13:45, quando toda a gente na sala j estava a ficar irrequieta, Brown disse, - Os senhores tm um conjunto de evidncias para examinar, senhoras e senhores.
Usem o vosso bom senso. No se deixem influenciar por distraces e prestidigitao e conversa verbosa. A arguida no manifestou qualquer remorso nem arrependimento.
No permitam que ela saia impune deste julgamento. Em nome do povo do Estado de Nova lorque, peo-lhes que declarem o nico veredicto justo e lgico que  possvel...
peo-lhes que declarem a arguida culpada,
Depois de um pequeno intervalo para o almoo, toda a gente voltou para os seus lugares, se bem que a seco da assistncia tivesse diminudo consideravelmente, agora
que o dramatismo das alegaes finais tinha chegado ao fim.
o juiz Pulaski mandou entrar o jri.
- Senhoras e senhores, - disse-lhes ele, - esto a desempenhar uma funo numa grande tradio legal honrosa. Felicito-os a todos. Respeito-os e admiro-os pelo vosso
servio paciente e cuidadoso e pelo vosso difcil trabalho. Porque servir num jri  um trabalho difcil. Requer dedicao, perseverana e extrema ateno aos pormenores
e aos procedimentos.
-Agora vo retirar-se para a sala do jri para um ltimo teste  vossa persistncia - para decidir o destino da arguida. Pensem na tarefa que est  vossa frente!
Pensem no que ela significa! Vocs os doze, desconhecidos antes de se sentarem nessa bancada, agora vo abordar as questes fundamentais.
- Vou agora fazer as recomendaes ao jri... as vossas instrues... aps o que Pulaski virou as pginas que estavam  sua frente, que eram o resultado da interminvel
discusso das recomendaes ao jri dos dias anteriores, e comeou a ler na entoao mais montona que se possa imaginar.
- Um jri tem de seguir um procedimento altamente disciplinado...
E continuou naquele tom monocrdico. De vez em quando, uma ou outra frase chamava a ateno de Owen. Cada um dos senhores deve seguir o seu prprio caminho. No
tm de concordar em tudo, mas tm de concordar nos factos materiais. Usem o vosso bom senso. Todas as decises tomadas devem ser conseguidas atravs de raciocnio
lgico, embora possam tomar caminhos dedutivos diferentes. No devem ter em considerao tudo o que foi eliminado dos registos ou que no foi aceite como prova.
Owen. observou o jri a esforar-se por compreender, a esforar-se por manter a ateno concentrada e finalmente, passada uma hora, a esforar-se por manter os olhos
abertos.
Por fim, o juiz deu-lhes algumas explicaes sobre a dvida razovel. - Para chegarem ao veredicto, devem empregar o conceito de dvida razovel. Uma dvida razovel
 uma dvida em que podem mencionar um motivo, tanto para vs prprios como para os vossos colegas jurados. Para pronunciarem a arguida culpada, cada um de vs tem
de estar convencido da sua culpa, para alm de qualquer dvida razovel. Por outras palavras, no devem ficar com qualquer dvida razovel na vossa mente.Dvida
razovel. Rossner tinha aparentemente perdido na sua tentativa para conseguir a certeza moral. Owen observou os rostos dos jurados e rezou para que compreendessem
o conceito. Rezou para que ficassem cheios de dvidas.
Depois o jri desfilou para sair da sala e comear as deliberaes, e a tenso abrandou na sala de audincias. Os espectadores que permaneciam na sala foram saindo
pouco a pouco. Spencer Brown debruou-se na balaustrada de madeira e disse a Holly Danielson qualquer coisa que a fez rir. Owen cerrou os dentes e tentou ignor-los.
L na frente um oficial de justia subiu os degraus at ao lugar do juiz e entregou-lhe uma tira de papel dobrado. Toda a gente prestou ateno.
Tenho aqui um bilhete do jri, anunciou o juiz. Solicitam uma cpia escrita das instrues do jri, ou a leitura de algumas partes das instrues.
Rossner reagiu imediatamente, dizendo, Acho que devamos fornecer-lhes o documento, Meritssimo.
Brown levantou-se para discordar, e deu-se incio a uma argumentao em surdina. Owen tentou imaginar os jurados sentados  volta de uma mesa na limitada sala de
deliberaes,  espera de uma resposta imediata. Mal eles sabiam a discusso que o seu simples pedido tinha provocado.
Jacowitz tinha razo, a espera era a parte mais difcil. Toda a gente andava de um lado para o outro sem objectivo. Os reprteres entravam e saam da sala, correndo
pelas escadas abaixo para conversarem uns com os outros, ou para tomar caf junto das mquinas automticas de venda, depois subiam novamente a correr para ver como
estavam as coisas. Tanto Rossner como Brown estavam descontrados. O juiz desejou um feliz aniversrio a um dos oficiais de diligncias, depois comeou novamente
a falar sobre os planos para as suas frias. Apenas Lenore ficou quieta no seu lugar.
Vieram mais dois bilhetes do jri. Queriam ver os diagramas do projecto do soalho do estdio. Foi-lhes mandado o pster com uma nota escrita do juiz a esclarecer
que todos os documentos solicitados teriam de ser devolvidos  guarda do tribunal todas as noites quando suspendessem os trabalhos. O juiz leu a nota em voz alta
antes de a enviar ao jri.
Owen estava com as costas arqueadas, mergulhado na sua angstia, quando se apercebeu de visitantes. Levantou os olhos e viu que a Marilyn e a Pat se tinham mudado
para o banco atrs dele e estavam a debruar-se para a frente para falar com ele.
Lamentamos deveras... comeou a Pat a dizer. No fazamos a mnima ideia de que a Holly ia fazer uma coisa dessas.
Ns tambm ficmos chocadas, confirmou a Marilyn. S queramos que soubesse que no tivemos nada a ver com isso.
Eu sabia que ela era ambiciosa. A Pat abanou a cabea. Mas nunca imaginei...
Aquilo no foi s por ambio, disse a Marilyn, com uma expresso
de quem sabe de tudo, - o Owen provavelmente compreende melhor do que qualquer uma de ns, o que uma pessoa  capaz de fazer, no  verdade, Owen? Seja como for,
apenas queramos que soubesse... ns no somos o inimigo.
- Obrigado, - disse-lhes Owen.
A Marilyn riu-se com ar malicioso. - No tem nenhuma declarao que gostasse de fazer  imprensa, pois no?28
O segundo dia de deliberaes foi ainda mais aborrecido do que o primeiro. De vez em quando os jurados solicitavam que lhes fosse lida uma pequena passagem de um
depoimento, e havia ento uma agitao de movimentos enquanto eram escoltados para voltarem para a bancada do jri e o escrivo lhes lia o excerto solicitado no
seu tom montono caracterstico. A questo das instrues escritas tinha sido finalmente resolvida e tinha-lhes sido enviada uma cpia. Owen perguntou-se se estaria
a ajudar ou a afectar as hipteses de Lenore.
Jacowitz disse a Lenore que estava autorizada a esperar no quarto do hotel, mas ela recusou e permaneceu no seu lugar  mesa da defesa. Owen alternava perodos em
que no podia estar parado com perodos de quase sonolncia. No havia um verdadeiro alvio. No conseguia concentrar-se o suficiente para ler um livro e no estava
interessado em ler os jornais. Riley deu-lhe umas palavras cruzadas para passar o tempo, mas ele no conseguia concentrar-se a procurar a palavra de duas letras
para multido. Por fim Jacowitz entregou-lhe uma pilha de transcries dactilografadas do julgamento.
- Tome, - disse a Owen. - Leia isto. Tome notas para o seu livro ou o que quiser.
Owen tomou aquilo como uma brincadeira, mas passado pouco tempo estava completamente absorvido na leitura. Ao ler os depoimentos, era possvel reparar em pequenas
coisas que lhe tinham passado despercebidas no momento em que as testemunhas estavam a depor. Terminou a parte que dizia respeito a James Collier e verificou que
os seus pensamentos estavam de novo mais concentrados no mistrio do que na situao difcil de Lenore. Era possvel que nunca se chegasse a saber toda a verdade,
que nunca houvesse um esclarecimento nem a resoluo daquilo que o preocupava.
Teria Bram Serian morrido por acidente? No. Owen no podia aceitar que um homem to vigoroso e carismtico e cruel como era Bram Serian um homem que era amado e
odiado at ao limite - pudesse ter uma morte to simples, quase estpida.
No seu ntimo tinha a certeza que Bram Serian tinha sido assassinado. Mas por quem? Podia ter sido o homem com que Bram Serian tinha estado a falar#no escuro junto
s mesas com comida? Seria o assassino que James Collier tinha visto com Bram naquela noite?
Owen sentiu um arrepio a percorrer-lhe a espinha dorsal. Se isso fosse verdade, ento a Lenore tambm o tinha visto, porque a Lenore tambm tinha estado l fora
ao escuro naquela noite, a observar o Bram das rvores. De repente Owen endireitou-se no banco.
Lenore! Meu Deus! Como ele tinha estado cego. A Lenore tinha estado a proteger algum! J tinha sentido aquilo antes, mas tinha deixado de ligar quando teve conhecimento
da verdade sobre o Collier. Agora sabia que era verdade. A Lenore tinha visto o Bram encontrar-se com o seu assassino. At podia t-lo voltado a ver quando seguiu
o Bram para o estdio. E a Lenore tinha estado a proteger aquele assassino de todos eles.
Naquela noite, na segurana da privacidade da Arcdia, Owen perguntou-lhe - Quem escreveu a lista de compras para o candeeiro, Lenore? Ela hesitou por instantes.
- Foi o Bram que ma deu. Escreveu-a e pediu-me para a trazer porque, disse ele, no queria pedir  Natalie.
Owen pensou naquela informao. - Alguma vez pensaste em quem ter assassinado o Bram? No que se ter passado no estdio naquela noite?
- No, - respondeu ela rispidamente.
- Por que no? Ests assim to convencida de que foi um acidente?
- No quero falar sobre isso, Owen.
- Est bem, mas eu quero, Lenore. Acho que finalmente compreendi tudo isto.
Ela levantou-se de um salto e saiu da sala, mas ele agarrou-lhe o brao.
- Fala comigo, Lenore. Quem foi que viste com o Bram naquela noite? Quem estava l fora no escuro  espera dele?
o rosto dela ficou impassvel, desprovido de expresso, mas os seus olhos verteram lgrimas que correram pela cara. Ele sentiu um aperto no corao ao v-la chorar,
esta mulher que nunca se permitia derramar lgrimas. Que nunca se permitia ter fraquezas.
- Lenore... quem poder ser to importante para ti? Quem ests a querer proteger?
Mas naquele momento percebeu. E a ltima pea do quebra-cabeas encaixou-se suavemente no seu lugar.
- Foi o AL, no foi? o AL voltou naquela noite. E o que tu me disseste sobre teres ouvido por acaso uma discusso entre o Bram e o AL que te levou a desconfiar que
o AL era o teu pai... foi quando os ouviste. Estou certo? Tu nunca os ouviste a falar de ti antes de o AL se ir embora. Naquela altura no desconfiavas que o AL
era o teu pai. Tu nunca desconfiaste at quela noite. Precisamente naquela noite.
- Estou certo, no estou?
o seu aceno de cabea foi quase imperceptvel.
- Defrontaste-te com o Bram quando o apanhaste no caminho para o estdio? Foi essa a discusso que as pessoas ouviram?No. No o enfrentei porque sabia que ele nunca
me contaria a verdade. Ia esperar para perguntar ao Al.
Ento qual foi o motivo da vossa discusso?
O Bram confessou-me que havia alguns meses tinha entrado em contacto com o Al e estava a tentar convenc-lo a voltar. O seu plano era voltar a fechar o Al dentro
do estdio e obrig-lo  fora a tomar os medicamentos. E queria que eu o ajudasse. Eu disse-lhe que no. E disse-lhe que no ia permitir que voltasse a manter ali
o Al prisioneiro.
E depois, o que aconteceu?
Esperava-se que o Al se encontrasse com o Bram no estdio, mas ele no apareceu. O Bram disse que provavelmente eu o tinha afugentado. Que ele devia estar a observar
algures no meio das rvores e que eu devia ir para dentro de casa e que podia ver o Al no dia seguinte, depois de toda a gente se ter ido embora.
Ento pensei em gritar. Em correr pelo meio das rvores a gritar para o Al se afastar, para que o Bram no o apanhasse. Mas tinha medo que, se fizesse isso, o Al
fugisse novamente e desaparecesse, e nesse caso nunca teria oportunidade de lhe perguntar se era o meu pai.
Viste o Al a entrar no estdio?
No. Para persuadir o Al a sair das rvores, o Bram entrou no estdio e desligou todas as lmpadas do ptio, tornando impossvel ver da casa a porta do estdio.
Eu estava na cozinha,  espera. Tinha dito ao Bram que ia para a cama, mas no fui. Estava determinada a voltar l, logo que tivesse a certeza de que o Al estava
l dentro. Esperei durante muito tempo sem conseguir ver nada. Depois devo ter dormitado durante algum tempo, porque de repente sentei-me e consegui ver que a porta
do estdio estava aberta. E havia luminosidade a sair do estdio.
Corri para fora. E foi quando vi que havia um incndio.
E o Al j tinha desaparecido? Ela acenou com a cabea.
Owen respirou fundo e examinou os olhos dela. Portanto havia mais motivos para no conseguires aceitar a ideia de que o Al era o teu pai... mais do que o facto de
ele ser um homem perturbado que nunca tinha demonstrado amor por ti em todos os anos que viveste com ele na Arcdia. Havia mais motivos para a tua rejeio... no
havia? Estavas desesperada por acreditar que o teu pai era outra pessoa, porque se fosse o Al, isso significava que ele tinha voltado a abandonar-te, ao deixar-te
enfrentar o julgamento no lugar dele, por homicdio.
Ela debruou-se ento, e teria cado ao cho se Owen no a tivesse segurado. Abraou-a com fora, desejando isol-la de tudo o resto. A necessidade que sentia em
proteg-la era to grande que o encheu de ferocidade primria.
Porqu? Por que te mantiveste calada? Achas que ele merecia que a tua vida fosse destruda?
Eu no podia denunci-lo, murmurou ela. Mesmo sabendo que havia uma hiptese muito remota... E agora tenho a certeza... como posso destruir o homem que a minha me
amou?Owen abraou-a ainda com mais fora. - Se fores condenada, no vou ficar calado, - prevenu-a. - No posso ficar calado. Vou contar-lhes a verdade.
Sbado foi o terceiro dia de deliberaes. A atmosfera conseguia ser ao mesmo tempo de indolncia e de tenso. Ambos os advogados conversavam muito um com o outro,
discutindo o caso e contando histrias divertidas de casos anteriores. o juiz estava no seu lugar a trabalhar a um computador porttil. Por todo o tribunal as pessoas
andavam sem fazer nada, ou liam, jogavam cartas, tricotavam, desenhavam, escreviam cartas. Qualquer coisa para passar o tempo. Owen confinou-se ao segundo andar,
para estar junto de Lenore, que persistia em ficar sentada  mesa da defesa, e tambm para evitar a Holly, que estava na conversa ao fundo das escadas, junto das
mquinas de venda automtica.
s 11.20, o jri emitiu a nota nmero 17, pedindo para ouvir novamente o depoimento do Xerife Bello.
Dapolito lamentou-se em voz alta. - o que se passa, Tony? - perguntou-lhe Spencer Brown.
- Estava com esperana que houvesse um veredicto antes do intervalo do almoo. Estou farto de comer pizza.
Os intervalos para o almoo eram to curtos que toda a gente encomendava pizzas. Ao meio-dia todo o tribunal cheirava a comida como se fosse um restaurante italiano.
o jri entrou na sala para a leitura do depoimento de Bello. Alguns reprteres mais activos vieram observar os jurados enquanto ouviam a leitura do depoimento, procurando
descobrir pelas suas expresses para que lado estavam inclinados.
s 11:48 foi emitida mais uma nota e Dapolito lamentou-se mais uma vez.
- o que foi agora? - perguntaram vrias pessoas a rir.
- Agora vo pedir uma leitura completa, o que vai atrasar a minha pizza,
- queixou-se Dapolito.
o juiz leu o bilhete, endireitou-se e fechou o computador porttil. Imediatamente toda a gente na sala de audincias ficou em tenso. Alguma coisa estava a acontecer.
- Temos um veredicto, - disse o juiz Pulaski formalmente.
As pessoas apressaram-se a ir para os seus lugares. Owen hesitou, sem saber ao certo qual era o seu lugar, depois dirigiu-se para a frente ao lado de Jacowitz e
atrs de Lenore. Tocou-lhe no ombro e ela vrou-se e olhou para ele. Notava-se nos olhos que estava cheia de medo.
No espao de cinco minutos, toda a gente no tribunal, incluindo os funcionrios do tribunal que estavam no intervalo do almoo, tinham acorrido  sala de audincias
nmero 6 para ouvir o veredicto final. Os jurados entraram em fila e ocuparam os seus lugares, olhando nervosamente  sua volta.
Rossner e Lenore levantaram-se enquanto o jri estava a entrar, por isso no foi necessrio o juiz pedir  arguida que se levantasse. Owen viuRossner fechar a mo
por baixo do cotovelo dela. Lembre-se, sussurrou Rossner, se acontecer o pior... ainda podemos apelar... h outras coisas que podemos fazer.
O oficial de justia fez o registo oficial, tomando nota da presena de todos os jurados.
Chegaram a um veredicto? perguntou solenemente o Juiz Pulaski.
O presidente do jri, um homem velho e magro, levantou-se e disse. Chegmos, Meritrssimo. Inclinou-se para a frente enquanto falava, para se agarrar ao corrimo
que estava  volta da bancada do jri, como se tivesse medo de cair.
E como declaram a arguida?
Meritrssimo, declaramos a arguida Livre de Culpa.
Fez-se um silncio absoluto por instantes. Depois a sala encheu-se de rudo. Lenore ficou como uma esttua. Rossner deu-lhe um abrao. Jacowitz debruou-se do corrimo
e deu-lhe um abrao. Volpe e Riley abraaram-na.
Estou livre? perguntou ela a murmurar estonteada, e toda a gente se riu. Apenas Owen compreendeu.
Mais tarde depois de o juiz e os dois advogados terem feito discursos de agradecimento ao jri, depois de a Lenore se ter recusado a participar na conferncia de
imprensa em que iam falar Brown, Rossner e todos os jurados, depois de terem passado pelo meio dos reprteres para sair do edifcio, parando apenas o tempo necessrio
para Owen privilegiar a Marilyn e a Pat com uma declarao em nome da Lenore, Isto tem sido um pesadelo, mas a verdade saiu vitoriosa, e depois de Lenore ter dito
a Joe Volpe que podia deitar fora a capa definitivamente foram directamente para a Arcdia. Naquela noite estava previsto um jantar comemorativo em Manhattan com
Rossner e a esposa, Jacowitz, Volpe, Riley e a esposa de Riley.
Cautelosamente, Owen introduziu a ideia de ficarem em Manhattan depois do jantar. Lenore olhou para ele de sobrancelhas carregadas, como se tivesse feito uma sugesto
irresponsvel.
Por que no, Lenore? O que te faz permanecer na Arcdia agora? Por que no atiramos com o meu trabalho e algumas peas da tua roupa para dentro do carro e ficamos
em Manhattan o tempo que nos apetecer? Considera isso como umas frias.
Ela continuou a olhar para ele, mas ele conseguiu perceber que a ideia estava a apoderar-se da sua mente. Achas que devo?
Podes ter a certeza que sim. Vamos comer boa comida e ver algumas coisas dignas de se ver. E tu podes saborear o que  ser uma mulher independente da cidade.
Ela riu-se, mas ele ficou com a impresso de que ela estava apreensiva. Sabes, Owen, o Bram nunca me levou a Manhattan. Ningum me levou. Aquela noite contigo foi
a nica vez que estive l.
Hei, achas que sou um nativo? Se eu sou capaz de lidar com a cidade, qualquer pessoa tambm  capaz.
- Mas ficar... - PS a mo na boca e olhou para ele com nervosismo. Nunca passei uma noite fora da Arcdia. Nunca, desde que fui levada para l.
- Est ento resolvido. o apartamento em Manhattan no  propriamente como se fosse Arcdia na cidade, mas  onde vais dormir comigo esta noite. E no h mais discusso.
Lenore telefonou a Geneva Johnson, Franoise Newman e James Collier a dar-lhes a notcia, para o caso de ainda no terem ouvido as notcias. No dia seguinte Geneva
Johnson foi bater  porta do apartamento.
Lenore estava a dormir, por isso Owen deixou entrar a Geneva e falaram baixinho. - Venho c para lev-la a almoar fora. Para comemorar, - explicou a Geneva.
- j comemormos durante toda a noite, - disse-lhe Owen. -  por isso que ela ainda est a dormir.
A Geneva puxou uma cadeira e sentou-se  mesa. - Mas o que julga que est a fazer, Owen? Como imagina que isto vai acabar?
Ele olhou para a Lenore. Estava deitada de lado, com o cabelo ondulando nas costas dela numa longa trana. o seu rosto estava tranquilo. A bela adormecida. Como
aquele nome se lhe ajustava perfeitamente. Aprisionada num castelo sombrio at agora.
- Geneva, ela gosta muito de si. E eu sei que voc gosta muito dela. No estou a querer depreciar isso de modo algum. Mas voc pode no saber o que  conveniente
para ela.
As narinas da Geneva dilataram-se com a raiva. - Essa rapariga tem sido to lixada... ela precisa de uma equipa de terapeutas e de dez anos a viver no mundo real,
antes de provavelmente ter fora suficiente para ter uma relao com um homem. No consegue ver isso?
- Comigo ela no precisa de ser forte. Eu posso proteg-la, gui-la, ajudla a aprender. Quem mais consegue fazer isso por ela? Em quem mais pode ela confiar to
totalmente como pode confiar em mim?
- A  que est o problema. Voc vai tornar-se tudo para ela. Professor, amigo, amante. E depois o que acontece quando quiser deix-la? Pensa que nessa altura ela
j ser uma rapariga moderna e que no vai dar grande mportncia a isso? No!  melhor dizer que vai ser uma desgraa. Vai destru-la completamente. E a nica maneira
de impedir isso  libert-la agora antes de voc a afundar mais.
- E at que ponto acha que eu estou afundado? o que  que eu fao?
Naquela tarde Owen ficou sozinho no apartamento. A Geneva tinha levado a Lenore a almoar fora e a fazer o que a Geneva chamou de - uma vista de olhos feminina 
cidade. - Owen mergulhou no trabalho, organizando o enorme volume de material que tinha e tentando ver de que maneira podia transform-lo num livro. As horas passaram.
Era domingo, por isso no podia telefonar  Bernie. Mas sentiu necessidade de telefonar a algum.Foi a Ellen que atendeu o telefone.
Ol, irm. Como vo as coisas por a?
Est tudo bem. Foi toda a gente ver os pais do Rusty, portanto tenho toda a casa por minha conta.
Viste alguma coisa no noticirio sobre o veredicto?
Qual veredicto?
No julgamento do homicdio em que tenho estado a trabalhar.
Oh... no. Porqu, j terminou?
Ontem. Declararam-na inocente.
Oh. Isso  bom ou mau para o teu livro?
 bom para ela e  s isso que me interessa.
Ummm. Diz-me l, por que  que no me disseste que tinhas acabado com a Mike? No posso acreditar que no tenhas dito uma nica palavra. Ficou completamente desfeita.
Sinto muito saber disso.
Eu sabia que ias ter pena dela. Conhecendo-te como te conheo, vais ter calma e fazer as pazes com ela logo que voltes para casa.
Ele ficou a olhar para o telefone de moedas de aspecto maltratado. Eu no vou voltar para casa, Ellen. Pelo menos nos tempos mais prximos. E quando for, ser apenas
de visita.
Ela ficou em silncio por momentos. Bem, espero que saibas bem o que ests a fazer, Owen.
Acho que sei.
Ela comeou a chorar. Pra com isso, disse-lhe ele afavelmente. Tu disseste que tambm ias embora e que ias refazer a tua vida, lembras-te?
Eu sei. Mas  uma tristeza. Nunca mais ser a mesma coisa. Nunca mais voltaremos a ser uma famlia.
Penso que deixmos de ser uma famlia quando a me morreu, Ellen. Era ela que fazia de ns uma famlia.
Queres que diga ao pai que no vais voltar?
Com certeza. Podes dizer. Duvido que ele diga alguma coisa.
Ele no devia ter feito o que te fez, Owen.
Talvez. Mas estou a comear a pensar que me fez um raio de um grande favor. Fui salvo, Ellen. Nunca me vou transformar no Clancy. Nem no Gus. Nunca vou ser o rei,
e diabos me levem se no estou contente por isso.
O qu?
No penses mais nisso. No  importante. Tenho umas coisas dentro de caixas na antiga casa dos trabalhadores. Importas-te de mas enviar quando eu estiver instalado?
Claro que no.
Quando o dinheiro do meu livro chegar, vou ter dinheiro para poderes estudar, Ellen. E un bilhete para vires para Nova Iorque.
O qu?
Vens visitar-me. Tens uma cidade fabulosa para conhecer. E tambm
uma pessoa.
#o qu?
 tudo o que posso dizer-te por enquanto. Gosto muito de ti, minha irm. Aguenta-te por a.
Voltou para cima para comear a trabalhar e ficou to absorvido que no se apercebeu das horas. Fora da janela a luz comeava a ficar fraca e a seguir caiu na cidade
a semi-escurido. Esticou os msculos das costas aqueceu caf e andou pelo quarto.
Pegou na almofada em que a Lenore tinha dormido. Tinha um leve cheiro a jasmim. Enterrou a cabea nela e respirou fundo.
Tinha lido uma vez que o crebro e possivelmente at os cromossomas se alteravam por cada competncia dominada. Que o tecido do crebro, depois de aprender a lngua
era fisiologicamente diferente do que era antes de falar e que o mesmo era verdade para gatinhar e andar e ler e andar de bicicleta. Cada novo passo ficava gravado
para sempre dentro de ns. Seria o mesmo verdade para o amor?
Baixou-se para abrir a mala da Lenore. Sentiu mais uma vez a fragrncia subtil de jasmim e mais alguma coisa mais extica. Reconheceu algumas das peas de roupa
como coisas que ela tinha usado na Arcdia e perguntou-se se eram das suas preferidas. Havia tantas coisas que no sabia sobre ela. Tantos pormenores por completar.
Fechou a mala e abriu o pequeno saco. Continha champ e loo, escova de cabelo e escova de dentes. o aroma de jasmim era excitante. Sentou-se ali no cho, a beber
o seu caf e a tocar nas coisas dela e a inalar o aroma de jasmim.
Onde o levaria ela agora, perguntou-se. Iriam  procura do pai dela que estava perdido? Seria ela capaz de deitar tudo para trs das costas?
- o que est a fazer? - perguntou a Geneva quando entrou pela porta. Trazia um enorme saco de compras.
- Onde est a Lenore? - perguntou ele, pondo-se de p num salto.
- Tenha calma. Ela tem uma surpresa para si. Est preparado?
- Com certeza.
A Geneva afastou-se da porta, estendeu o brao e disse, - Ta-da! - e a Lenore entrou, segura de si, mas com um sorriso nervoso. o seu cabelo de cor obsidiana estava
cortado pelo queixo.
Owen ficou de boca aberta. - o teu cabelo! Como pudeste fazer uma coisa dessas?
A Lenore no resistiu e correu para a casa de banho. A Geneva bateu a porta com fora e bateu com a mo no peito de Owen.
- Essa foi sensacional, - disse ela. - Um ptimo comeo para o seu programa de recuperao.
- Bolas! - murmurou Owen, - fiquei surpreendido. julgava que o cabelo era importante para ela.
- No, no era. o Serian nunca permitiu que ela o cortasse. Gostava que ela parecesse uma indgena. o facto de o cortar foi a sua grande afirmao de independncia.Oh,
meu Deus...
Houve um rudo de vidro a partir-se e Owen precipitou-se para a casa de banho com a Geneva atrs dele. A maaneta da fechadura no funcionava bem e Owen deitou a
porta abaixo com um empurro do ombro.
Lenore!
Ela estava ajoelhada no cho a varrer os fragmentos do espelho partido com as mos desprotegidas. O sangue que lhe corria dos dedos manchou os ladrilhos brancos.
Desculpa, disse ela, deixando cair uma mo cheia de vidros no cesto do lixo, esquecendo-se do mal que estava a fazer a si prpria.
Owen levantou-a e a Geneva abriu a torneira da gua fria do lavatrio e ele segurou-lhe ambas as mos na gua a correr.
Owen enxugou-lhe as mos o mais suavemente que pde e envolveu-lhas em toalhas limpas. A Geneva saiu para ir comprar ligaduras e desinfectante e Owen levou a Lenore
para o sof, mantendo-a bem apertada contra ele, com medo de que acontecesse mais alguma coisa. Mas ela ficou dcil e sentou-se quietinha com as mos envolvidas
pela toalha no colo.
Preciso de ir para casa, disse ela.
Para casa?
Ela fez um breve movimento com a cabea e os seus olhos ficaram reduzidos a pequenas fendas. Sim. Ainda tenho uma casa.
Lenore, disse ele, envolvendo-a nos braos, ignorando a sua teimosia. Encostou a sua cara  tmpora dela. Lenore... temos tanto para aprender um sobre o outro e
ambos vamos cometer erros. Eu no tinha inteno de te magoar. At podes rapar o cabelo se quiseres. Apenas fiquei surpreendido, foi apenas isso.
Pouco a pouco, ele sentiu que a tenso dela estava a aliviar.
No tinha inteno de te partir o espelho, disse ela. S que vi a minha cara reflectida nele e no suportei olhar para mim prpria e de repente reparei que... estava
despedaado.
Porqu? Por que no suportaste olhar para ti prpria?
Porque... a minha cara ainda tem fantasmas. Estar aqui contigo... estar em liberdade em Manhattan... cortar o cabelo, que o Serian no permitia... nada faz desaparecer
os fantasmas.
29
Durante trs dias aps o incidente com o espelho, a Lenore no quis ver outras pessoas, por isso ficaram no apartamento, encomendando comida feita e fazendo amor.
Owen tinha uma percepo dela to intensa que era quase dolorosa. No se cansava de olhar para ela e tinha a sensao de que era capaz de ver atravs da sua pele,
de observar-lhe o corao e os ossos e as correntes sanguneas. E mesmo assim, ela continuava a ser para ele um mistrio. Continuava a ser surpreendente.
s vezes sentia que ela estava por sua vez a olhar para ele. A observ-lo. Uma vez ouviu a sua respirao parar, depois recomear, depois parar novamente. - o que
foi? - perguntou ele, e ela franziu um pouco as sobrancelhas. - Estou a tentar respirar contigo.
Passados trs dias, ele disse-lhe que tinha de sair e persuadiu-a a descer as escadas para apreciar um dia primaveril maravilhoso. Caminharam durante horas, da East
Village at  West Village e depois foram at aos Twenties, para almoar comida das Caraibas no Vernons jerk Paradise. Nunca a comida tinha sido to saborosa. Nunca
o tempo tinha estado to agradvel. o roxo e o amarelo dos aafres nunca tinham sido to maravilhosos.
Foram de metropolitano at s Quinquagsima Nona e Quinta Avenidas, onde o Plaza Hotel estava esplendoroso, com a fonte de repuxo restaurada e as bandeiras hasteadas.
Carruagens puxadas por cavalos estavam alinhadas na estrada para o Central Park e os artistas de animao de rua faziam representaes para grupos de turistas ao
sol. A Lenore interessava-se por tudo, fazendo perguntas, mergulhando na cidade como se estivesse sequiosa por absorver cada pormenor.
Atravessaram para a Grand Army Plaza e ela ficou a olhar para a esttua dourada. Owen leu-lhe o nome do escultor.
- Saint-Gaudens, - murmurou ela respeitosamente. - j vi fotografias dos seus trabalhos nos livros de arte do Bram. Gostava de saber mais sobre ele.
-  Logo que domines a leitura, at podes querer assistir a algumas aulas,
- sugeriu Owen. - Li algures que do aulas muito boas nos museus. Ou podias tirar um curso numa das escolas superiores que aqui h.Posso fazer isso sem ter uma certido
de nascimento?
Tenho a certeza que sim. Mas essas questes legais tm de ser resolvidas de uma vez por todas, Lenore. Tens de falar com os advogados sobre essas tuas preocupaes.
Com o nmero de anos que j viveste aqui na Amrica e o facto de seres legalmente casada com um americano, tenho a certeza de que vai ser bastante fcil demonstrar
a tua cidadania.
Ela hesitou. Esses advogados... trabalharam por causa do Bram e agora trabalham por causa da herana. No me parece que gostem de mim.
Mas eles no tm nada que gostar de ti.
No. Quero dizer... acho que o Bram deixou as coisas de maneira a funcionarem contra mim. O seu testamento pressupunha que o Al estivesse presente como herdeiro,
sabes.
Lenore, eu no sei nada sobre como funciona a lei das sucesses. Mas sei isto. Precisas de algum do teu lado. Telefona a Charles Rossner e pede-lhe que te recomende
algum em quem possas confiar.
Ainda tenho muito dinheiro do que estava no cofre.
Sim, disse Owen, e ainda sobrou algum do monte de notas que me deste.
No preciso que mo devolvas.
No  essa a questo.  teu, no  meu.
Todo esse dinheiro... no achas que j me chega? Por que hei-de precisar mais da herana?
No estou a perceber-te.
Por que hei-de passar por tudo isso com os advogados e os contabilistas? Por que no posso dizer-lhes simplesmente que no quero nada e que me deixem em paz?
Lenore... Eu no pretendo envolver-me nisso, mas s quero que me prometas que no vais fazer nada... mesmo nada... at falares com o teu prprio advogado e ouvires
os seus conselhos. Prometes?
Prometo. Mas no quero a Arcdia e no quero as coisas do Bram.
Muito bem. Ento faz uma doao de tudo a uma fundao de arte.
E posso fazer uma coisa desse gnero?
Para te dizer a verdade, no sei. A soluo  arranjares um advogado para saberes isso.
A questo das finanas da Lenore preocupava Owen, porque sabia que ela no estava preparada para lidar com o sistema, mas ele estava decidido a no se envolver.
Queria que os problemas da Lenore fossem resolvidos por ela mesma.
Foram na direco do parque, passaram pela casa de arrumao dos barcos e pararam a olhar para as crianas a subir para a esttua de bronze da Alice no Pas das
Maravilhas. A Lenore pegou-lhe no brao e encostou a cara ao ombro dele, e ele sentiu-se a ser arrastado por uma onda de emoo. Sentiu-se ao mesmo tempo carinhoso
e selvagem, fraco e forte, protector e destruidor mais e menos do que alguma vez tinha sentido.
Chegaram ao Passeio dos Poetas e ele apercebeu-se de que tinham passado
#quase uma hora em silncio. Subitamente, ficou preocupado com os pensamentos dela.
- Ests preocupada por causa do encontro com a Bernie e o Alex? - perguntou ele. Algum tempo antes tinha-a convencido a deix-lo aceitar um convite da Bernie para
jantar naquela noite.
- Sim, - confessou ela. - Mas no  nisso que estou a pensar.
- Em que ests a pensar? - perguntou ele.
Ela tinha estado a observar os bustos dos poetas e voltou-se para olhar para ele. o cabelo oscilava-lhe  volta da cara como se fosse seda preta transparente, pendendo
ligeiramente de lado sobre um olho. E quando se voltou, sorriu-lhe, deixando-o surpreendido.
- Tu contas-me todos os teus pensamentos? - perguntou ela apenas por perguntar,
- Bem...
- Os pensamentos no interessam, - disse ela. - S  importante o que fazemos.
- Sabedoria do ptio da escola? - disse ele para a provocar.
o sorriso desvaneceu-se e ela ficou com ar triste. - Esqueces-te que eu nunca estive num ptio da escola. No,  uma lio que aprendi de Bram Serian. Sabes, ele
tinha pensamentos de muita generosidade. Pensamentos muito decentes. Era muito dedicado ao irmo e estava decidido a proporcionar-me uma vida agradvel e amava a
Geneva e o que mais queria era que o deixassem em paz para produzir a sua arte e criar a sua Arcdia. Mas magoou-nos a todos repetidas vezes. As suas intenes no
interessavam. No interessava quais eram os seus pensamentos.
- Talvez os seus pensamentos no fossem assim to generosos, - fez notar Owen.
Ela franziu a zona escura de uma sobrancelha com ar interrogador.
- No tenho assim tanta certeza das suas boas intenes, - insistiu Owen. - Acho que ele manteve o AL fechado como numa priso, em parte porque no suportava o pensamento
de o irmo o deixar. Acho que casou contigo para ficar contigo e desse modo controlar o irmo. Acho que foi generoso com a Geneva simplesmente para a controlar.
E acho que se fez amigo de James Colher e o induziu em erro, com a inteno de fazer um teste  f do homem... como se fosse um jogo.
Ela ficou em silncio.
- Desculpa. No tinha inteno de ser to deprimente. Ela pegou-lhe na mo. - Vamos falar de outras coisas.
- Est bem... vamos voltar a discutir os maus pensamentos, - sugeriu ele em tom provocador.
- Tu tens maus pensamentos? - perguntou ela.
- Umm, estou agora mesmo a sentir que est um a chegar.
Os lbios dela curvaram-se num sorriso lento e sensual. - ptimo, - disse ela. - Vamos para casa.Na manh seguinte, quando Owen acordou, sentiu necessidade de voltar
ao trabalho. Durante o jantar na noite anterior, a Bernie tinha manifestado um grande entusiasmo pelo livro e tinha-o contagiado. DeMille tinha finalmente concordado
em pagar-lhe uma grande quantia antecipadamente e tinha aprovado a sua viso do livro como o mistrio e a tragdia da vida de Bram Serian, em vez de apenas o fim
sensacionalista que teve.
Owen esteve preocupado durante o pequeno almoo a tentar arranjar uma estratgia diplomtica para explicar a Lenore.
O que se passa? perguntou ela por fim. J te cansaste de estar comigo?
No! Evidentemente que no. Simplesmente tenho de voltar ao trabalho.
Ela soltou um suspiro e apoiou o queixo na palma da mo. Quem me dera ter alguma coisa que tivesse tanto significado para mim como a tua escrita tem para ti.
Oh, Lenore, tens tanta coisa  tua frente. Vais ficar toda entusiasmada. Tantas coisas novas para fazeres e para veres... todos os livros que no leste e os lugares
em que no estiveste... Meu Deus! Que fantstica aventura tens  tua frente. S espero que no me deixes para trs.
Ela riu-se.
Est bem, disse ele. Vamos fazer assim. Eu vou trabalhar at ao meio-dia. Tu vais at l abaixo a fazer sozinha um pouco de explorao. No, no fiques com esse
ar horrorizado. Tu consegues fazer isso. Vais apenas conhecendo um quarteiro de cada vez. Depois eu fao uma interrupo e vamos almoar e a seguir vamos a uma
livraria que tenha uma boa seco de livros para crianas. Porque vais aprender a ler. Na verdade, o nosso objectivo  que, quando eu tiver acabado de escrever o
livro, tu sejas capaz de o ler e de ajudar-me a edit-lo.
Um sorriso sombrio fez-lhe curvar os cantos da boca. Sim, disse ela com ar pensativo. O facto de cortar o cabelo no deu resultado, mas talvez aprender a ler resulte.
Owen no teve de lhe perguntar o que queria dizer. Ele sabia. Ela ainda estava a tentar afastar o fantasma de Bram Serian. Mesmo ali naquele apartamento estranho
ficava  escuta da voz de Serian e dos seus passos e s vezes jurava que os ouvia.
Habituaram-se a uma rotina em que Owen fazia o pequeno almoo e comiam juntos; depois ele trabalhava no seu livro, enquanto ela passava a manh com os auscultadores,
cassetes e um livro de exerccios, praticando o alfabeto e os sons dos conjuntos de letras. Ela tratava do almoo, descendo para ir a uma loja que vendia comida
de pronto-a-comer. Depois,  tarde, Owen debruava-se sobre o seu trabalho e a Lenore, a insistncias de Owen, saa sozinha para ir explorar a cidade, alargando
diariamente a confiana em si prpria de quarteiro em quarteiro.
s cinco, por mais absorvido que estivesse no seu trabalho, punha-o de parte. Cada noite era uma aventura. Exploraram restaurantes. Passearam pela Ponte de Brooklyn.
Foram ao teatro. Foram a livrarias para ela poder exibir-se
e ler-lhe os ttulos. E depois voltavam para o apartamento para se explorarem um ao outro.
Houve ainda momentos em que ela ficava calma de repente, ou dizia qualquer coisa enigmtica, ou mergulhava num dos seus misteriosos transes interiores e as pequeninas
flechas da incerteza atingiam Owen. Mas ele guardava-as para si prprio.
Passou um ms. Charlie Rossner deu a Lenore o contacto de um advogado e Owen convenceu-a finalmente a ir consult-lo. Quando voltou  tarde, ela parecia estar inquieta
mas satisfeita.
- Como  que correu? - perguntou Owen.
Ela lanou-lhe um olhar malicioso. - o advogado disse-me que no devia confiar muito em ti e devia fazer um acordo escrito contigo sobre o que podes usar no teu
livro.
- Muito bem. Disseste-lhe que fui eu que insisti para o contratares?
- oh, - disse ela. - o meu novo advogado  uma ela. Claudia Lai.
- Uma mulher asitica?
- Sim. E muito inteligente.
Owen sorriu, a pensar que Charlie Rossner era de facto um gnio. Sabia exactamente o que a Lenore precisava - uma pessoa que fosse um modelo forte. - Ela pode ser
muito inteligente quanto a tudo o resto, - disse ele, mas no sabe absolutamente nada sobre mim.
A Lenore sorriu com um dos seus sorrisos misteriosos, desviou-se dele e comeou a meter coisas na mala.
- o que ests a fazer? - perguntou ele, com o corao subitamente na garganta,
- No te preocupes. A Claudia quer que v para a Arcdia durante alguns dias e faa um inventrio. Quer que eu compre uma daquelas mquinas fotogrficas instantneas
e um rolo de pelculas e fotografe os quartos e as obras de arte. - Atravessou o quarto para ir ao armrio buscar mais coisas dela. - No quero que pares de trabalhar.
A Claudia deu-me um nmero de telefone de uma praa de txis para me levarem.
Estava a levar demasiadas coisas. Muito mais do que precisava para passar alguns dias. Sobretudo se considerasse que ia voltar para a sua prpria casa, onde ainda
estavam todas as suas coisas.
- No h problema, - disse ele, pegando no telefone. - o meu trabalho  transportvel. Alugamos um carro e vamos juntos.
No conseguiu ver a cara dela porque estava voltada para o outro lado, mas viu-a hesitar, notou que ela ficou calada por instantes.
- A mudana de ambiente vai fazer-me bem, - apressou-se ele a dizer.
- E onde  que existe um lugar melhor do que a Arcda para escrever sobre Bram Serian?
Atenderam da agncia de aluguer de automveis e ele comeou a fazer os preparativos. Ela voltou a cabea para olhar para ele mas ele no conseguiu ver a expresso
do seu rosto, mas sentiu um arrepio,Era tarde quando chegaram  Arcdia. Ela ajudou-o a arranjar espao numa sala agradvel, com uma janela e uma pequena lareira,
e ele passou o resto da noite a organizar os livros e as caixas de pastas de arquivo. Quando acabou, vagueou pela casa e encontrou-a na sala de estar principal.
Estava a olhar para uma lareira a arder intensamente.
J est a terminar a poca em que se acende a lareira, disse ele  entrada da sala.
Ela deu um salto. Oh, Owen... no dei conta de chegares.
Desculpa. Atravessou o espao amplo e sentou-se ao lado dela. Junto dos seus ps viu a coronha da espingarda que estava por baixo do sof. Parece que hoje ests
nervosa, heim?
Esteve aqui algum enquanto estive fora, limitou-se ela a dizer.
Como  possvel? disse ele no seu tom mais calmo e razovel possvel. Esta casa tem um sistema de alarme mais complexo do que a Casa Branca. Ningum conseguia entrar
aqui sem ser detectado.
Ela envolveu-se nos prprios braos e concentrou-se no fogo.
Est bem... talvez fossem os advogados do Bram. Ou algum da empresa de alarmes.
Ela abanou a cabea em sinal negativo. Eu telefonei-lhes. Ningum veio c.
Ele olhou  volta da sala. Desapareceu alguma coisa?
 difcil explicar, mas sabes que, quando se vive sozinho, tem-se um sentido exacto das coisas. Como ficaram os pratos arrumados e como se deixaram os estores e
de que tamanho era a barra de sabo que estava ao lado do lava-loia. Bem... as coisas esto diferentes.
Ele ps o brao em volta dos ombros dela. Tinhas acabado de passar por uma horrvel experincia na ltima vez que aqui estiveste. E eu estava contigo. Podia ter
mudado algumas coisas sem que tu te apercebesses e agora que voltas calma, ests a ver as coisas de maneira diferente.
Ela deu um suspiro e encostou a cabea a ele. Tenho mais que fazer aqui para alm de tirar fotografias. A Claudia descobriu muitas coisas para mim. Est tudo muito
intrincado e ela diz que com o patrimnio que est envolvido e com o Al desaparecido, isto pode arrastar-se indefinidamente. O testamento do Bram tinha o Al como
herdeiro principal.
Eu disse  Claudia que no posso mais viver aqui, por isso ela est a tomar providncias para eu mudar para as guas-furtadas do Bram durante algum tempo. Eu nunca
estive numas guas-furtadas, e tu j estiveste? Inclinou a cabea para olhar para ele.
No. Nunca estive numas guas-furtadas. Sentiu o medo a crescer-lhe na barriga e queria-lhe perguntar o que significava tudo aquilo. O facto de se mudar para as
guas-furtadas era a sua maneira de o deixar? Mas no conseguiu perguntar. Tinha medo das respostas. E receava que, ao exprimir os seus medos por palavras, pudesse
fazer com que se realizassem.
Portanto, disse ela, tenho tambm de seleccionar umas coisas e decidir o que hei-de levar comigo e o que hei-de deixar para trs.
Eu posso ajudar-te, ofereceu-se ele de imediato.
- No. Tu tens de trabalhar. E eu tenho de fazer isto sozinha.
- Est bem. Nesse caso eu fico no meu pequeno quarto e tu vais fazer o que tens a fazer. A no ser que... queres que eu me v embora? Sentes-te sufocada por mim?
Ela segurou-lhe na camisa, retorcendo o tecido na mo. - Eu no queria que viesses, - disse ela. - Queria fazer isto sozinha. Para provar a mim prpra que sou capaz.
Mas agora que ests aqui, estou contente.
Ele abraou-a com fora, deu-lhe um beijo no pescoo e na orelha e nas plpebras fechadas e sentiu a reaco do seu corpo excitado. Mas bruscamente ela afastou-se
para trs.
- No, - murmurou ela. - Aqui no. - E conduziu-o para um quarto de dormir estreito e sem janelas na ala sul.
- Este quarto foi feito para um artista famoso com um grave problema de cocana, - explicou ela. - A droga tornou-o paranico, por isso o Bram arranjou isto para
ele, com uma porta de ao e uma fechadura com ferrolho.
Owen olhou para dentro da casa de banho contgua e viu que tambm no tinha janelas.
- o Bram chamava-lhe a cave abrigo, porque dizia que lhe fazia lembrar um abrigo para tomados.
Owen riu-se e falou-lhe da cave abrigo da sua prpria experincia, mas ele estava mais do que um pouco desconcertado pelo medo dela de poder ser observada. Deslizou
o ferrolho para trancar a porta.
- Parece-me que viemos para aqui para passar a noite, - disse ele.
- Vou fazer com que nunca queiras ir embora, - prometeu ela, desabotoando a blusa com um leve sorriso.
No havia relgio no quarto, por isso no sabia que horas eram quando a Lenore deu um grito. Sentou-se direito naquela escurido cerrada, estendendo as mos para
ela com o corao a bater contra as costelas.
Ela estava confundida e a tremer.
- Ouviste? Ouviste-o a tentar entrar pela porta? Oh no... no... no trouxe a espingarda. No tenho a espingarda.
- Foi apenas um sonho mau, - sussurrou Owen, puxando-a para os seus braos.
Acariciou-lhe as costas suavemente e ouviu-a a respirar lentamente, at que finalmente pensou que tinha voltado a adormecer.
Subitamente ela sussurrou no escuro, -  o fantasma do Bram. Ele sabe que estou a fazer as malas para ir embora.
- No foi nada, - disse Owen com firmeza. - Estavas a ter um pesadelo. Agora eu estou aqui e tu ests segura e nem mesmo um fantasma consegue entrar por aquela porta,
portanto tenta voltar a adormecer.
Na manh seguinte ela parecia estar ptima. Fizeram o pequeno almoo juntos e Owen retirou-se para o seu espao de trabalho. Por volta da uma e meia sentiu fome
e saiu e reparou que ela tinha tirado os quadros da parede por toda a casa e tinha-os alinhado em frente da parede. Ests a tentar fotograf-los por conjuntos? perguntou
ele.
No. Estava... Voltou-se para trs, para a fila de quadros. Olha para estes e diz-me o que te parece.
Ele observou as telas. So do Serian. Representativos de diversos estilos.
Sim. Ela sorriu. Ests a aprender. A Claudia disse-me para os fotografar individualmente e depois agrup-los de acordo com o seu valor. Mas eu no sei qual  o valor
deles. E comecei a perguntar-me que fotografias poderias querer para o teu livro. Queres que tambm tire fotografias para ti?
No me parece que as fotografias Polaroid possam servir para serem reproduzidas, disse-lhe ele. Mas se tirasses um conjunto delas para mim, podia us-las mais tarde
no decurso da seleco.
Agradou-lhe a ideia de poder ajud-lo e ao almoo parecia estar muito animada. Os fantasmas tinham sido afastados.
Saram pela porta da frente para ir dar um passeio  luz do sol de um dia fresco de Maro. As rvores j estavam a brotar e havia pequenos rebentos verdes a aparecer
por entre o denso tapete de folhas mortas.
A primavera  to bonita aqui, disse a Lenore. Os bosques esto cheios de cornizos e  volta da casa h forstia e ris e narcisos. O Bram deixava-me encomendar
tudo o que quisesse dos catlogos de jardim todos os anos.
No vais ter saudades disto?
Sim.
Parece-me que, de muitas maneiras, ir embora daqui ser como quebrar a ligao com a casa da tua infncia.
Ela acenou que sim com a cabea. Aqui foi onde enterrei o meu co. Logo ali mais  frente est a casa de brincar que o Al fez para mim. Este espao aberto  um campo
de basebol quando a relva est cortada. E aquela rvore grande ali  esquina da casa  onde costumava estar o meu baloio.
Ela fez perguntas a Owen sobre a sua infncia e ele falou-lhe da quinta e sobre a mudana para os Flint Hills.
Olha para isto, disse ela, parando de repente para olhar para um monte de terra fresca. Algum esteve a cavar aqui.
Ou algum animal. Talvez ces ou coiotes. Ajoelhou-se para examinar a pequena cova que tinha sido feita. Fosse o que fosse, foi feito propositadamente. Este cho
ainda est bastante gelado.
Ela abraou-se com fora e espreitou para a mata.
Onde nos encontramos em relao  casa? perguntou ele, ainda demasiado um rapaz do Kansas para manter o sentido de direco no meio de tantas rvores.
Estamos exactamente por detrs do estdio, ou onde costumava ser o estdio, e se no fosse aquele conjunto de cedros, conseguiramos ver as runas e o acesso  casa.
Queres marcar o lugar para podermos vir verificar de novo dentro de alguns dias?
No preciso de o marcar, disse ela. Olha  tua volta.  uma clareira natural.  fcil de lembrar.
#Subitamente ela voltou-se e correu para casa.
- Lenore! - chamou ele, mas depois desistiu e correu atrs dela.
Ela no parou at estarem os dois no trio da entrada, iluminado pela luz aqutica.
- o que  que se passa?
Ela ps o dedo nos lbios. - Fala baixinho, - disse ela.
- o qu?
- No sentes? Estamos a ser observados. Estamos a ser ouvidos.
- Preciso de te tirar desta casa. Quanto falta fotografar?
- Vou mostrar-te o que fiz at agora, - disse ela e pegou-lhe na mo.
As caixas de fotografias estavam em cima da mesa comprida da cozinha. Owen passou uma vista de olhos pelo conjunto, mas no ficou com nenhuma ideia de quanto faltava
fazer.
- Eu ajudo-te. Vamos acabar isto o mais depressa possvel.
Ela acenou que sim com a cabea. Os seus olhos viravam-se para um lado e para o outro, a verificar as diferentes entradas.
- Vamos. Vamos trabalhar.
Ela pegou na mquina fotogrfica e comeou a andar em volta da mesa, depois parou e voltou para trs. - o que fizeste com as nossas fotografias?
- Hummm? - disse ele, pegando na embalagem do filme no utilizado.
- As fotografias que tirmos um ao outro quando estivemos aqui pela primeira vez.
- Eu no as tenho.
Ela inclinou-se para olhar por baixo da mesa. Ele examinou o resto do cho da cozinha e os tampos dos balces. Ela pegou em cada uma das caixas e olhou por baixo
delas. Folheou as cpias fotogrficas, com os movimentos a tornarem-se cada vez mais agitados  medida que avanava. Quando acabou, endireitou-se e disse muito alto,
- Oh, provavelmente ficaram misturadas com algumas destas aqui.
Owen olhou para o tecto como se conseguisse ver qualquer pessoa que ela imaginasse estar a escutar.
- Pega no filme, - disse ela, apesar de ele j o ter na mo. - Vamos acabar a ala norte.
Levou-o para um pequeno corredor e sussurrou, - Podemos falar aqui.
- Achas que as fotografias desapareceram realmente? - perguntou ele, procurando no manifestar descrena na sua voz.
- Eu deixei-as mesmo na ponta daquela mesa.
- Pelo menos sabes que no  um fantasma, - disse ele com pouca convico, sem saber como acalmar os medos dela. - Os fantasmas no roubam fotografias nem cavam
buracos.
- Como sabes o que fazem os fantasmas? - perguntou ela.
- Lenore... - Tentou envolv-la nos braos mas ela deu um passo atrs. o seu rosto ficou reduzido a uma mscara com buracos incandescentes em lugar dos olhos. -
Tu no podes proteger-me de coisas que no conheces, Owen.
- Vamos mas  fazer este inventrio e sair daqui, - disse ele. - Por favor.450 DARIAN Trabalharam sem dizer quase nada um ao outro, andando de uns quartos para os
outros. Fazia-se click, o flash acendia, seguido de um rudo semelhante a um zumbido, e saltava outra fotografia. Fotografias de salas inteiras. Fotografias de pequenos
objectos de arte. Fotografias de janelas com vitrais. O monte foi crescendo e deixaram para trs um rasto de caixas de filmes vazias.
Quando chegou a hora de jantar ele no queria parar, mas ela insistiu, por isso puseram comida congelada no micro-ondas. Ela foi buscar velas, bases individuais
de mesa em pano de linho e guardanapos a condizer, preparando a extremidade da mesa de jantar como se fosse uma ocasio cerimoniosa.
Esta pode ser a ltima refeio que tomo aqui, disse ela.
Ele tinha muita dificuldade em descontrair-se mas tentou. No eram os fantasmas que o preocupavam mas sim o estado mental dela.
O que achas de acabarmos por esta noite e voltarmos para Manhattan? Depois podamos voltar amanh e acabar de arrumar as coisas durante o dia.
Ento tu tambm ests com medo?
Apenas receio por ti.
Ela arrastava a comida de um lado para o outro no prato, absorta em pensamentos sobre alguma coisa. Nunca me disseste como morreu o teu irmo, disse ela.
Terry? Sim, eu contei-te. Suicidou-se.
Isso sei eu. Mas como fez ele isso exactamente?
Owen parou de comer. Tambm te contei isso. Conduziu o carro at uma rvore isolada no meio da pastagem. E depois enforcou-se.
Mas o que eu quero saber , como fez ele isso? Deixou algum bilhete?
No.
Tiveste algum aviso? Quando olhas para trs, consegues ver alguma coisa que devia ter-te avisado?
Eu prprio me coloquei essa mesma questo uma centena de vezes. Eu estava fora na universidade naquela altura... mesmo no fim do meu segundo ano. A Ellen estava
casada e a viver no Texas. Por isso nenhum de ns o tinha visto durante algum tempo.
Eu estava a viver num apartamento com mais trs indivduos e um dia recebi uma encomenda. Duas caixas de papel higinico. Eram caixas enormes que tiveram de ser
transportadas num carrinho. Pensei que houvesse algum engano, mas o homem que fez a entrega mostrou-me a folha e eram para mim, do Terry. Um dos meus companheiros
de quarto lembrou-me que estvamos sem papel higinico quando o Terry nos tinha visitado e tnhamos discutido sobre quem devia ir compr-lo. Eu tinha-me esquecido
completamente.
Tudo aquilo pareceu-me to invulgar e esquisito que telefonei  Ellen a perguntar-lhe o que achava e ela disse que tambm tinha recebido um presente do Terry. Uma
caixa de sacos de plstico para o lixo. Rimo-nos daquilo e concordmos que, uma vez que eu no tinha fundos para fazer chamadas interurbanas, ela telefonaria para
casa naquela noite para saber qual era o motivo para aqueles presentes. Depois telefonava-me para me dizer.
Quando finalmente obteve uma resposta de casa naquela noite, j tinham encontrado o corpo dele.
Lenore apoiou o queixo na palma da mo e olhou para ele com uma expresso de intensa compaixo. - No podias ter sabido, - disse ela.
-  o que tento dizer a mim prprio.
- A morte da tua me deve t-lo afectado muito.
- Afectou-nos muito a todos.
- Mas ele  que foi esquecido, no foi?
- Sim.
- Mas no estava zangado contigo.
- Queres dizer... que l porque nos mandou presentes achas que isso mostra que no estava zangado?
- No. Porque ele no te assombrou.  quando isso acontece, sabes. Quando morrem zangados.
Owen bateu com os punhos na mesa, fazendo tremer tudo o que estava em cima. - Isso  tudo uma treta prpria da ignorncia!
Ela levantou-se, com uma atitude de indiferena e movimentos mecnicos e comeou a limpar a mesa.
- Est bem, - disse ele desesperado, - se o Serian queria aterrorizar-te... por que esperou tanto tempo para comear? Por que no comeou logo?
- Estava  espera de saber o que acontecia com o julgamento.
- Ests a brincar? Os fantasmas no se importam com a justia dos mortais, eles tm o seu prprio cdigo de vingana. E onde esteve ele durante todo este tempo?
Achas que os fantasmas podem simplesmente vaguear para dentro e para fora da condio de fantasmas?
Ela fixou os olhos nele com um franzir de sobrancelhas directo e pensativo e Owen continuou a falar sem parar, utilizando a sua imaginao de escritor de fico
nos seus raciocnios.
- Que tipo de pessoa era o Serian, afinal? Controlador, impetuoso e muito criativo, no  verdade? Achas que uma alma assim ia andar a brincar, a esconder fotografias
e a abrir estores das janelas e a cavar buracos no cho? Raios, no! Se ele quisesse assustar-te, havia de fazer tremer toda esta casa com a sua raiva e havia de
usar imensos efeitos especiais.
Ela no respondeu por instantes; depois disse, - Se no  o fantasma do Serian, que fantasma  ento?
- No  nenhum fantasma.  um bando de midos a pregar partidas ou mais reprteres de meia tigela  procura de uma histria. Ou... talvez no seja nada. Talvez estejamos
ambos muito nervosos e a imaginar coisas.
Ela aceitou tudo at  ltima linha. Depois reagiu com firmeza. - Eu no estou a imaginar coisas. Os estores estavam diferentes. Os quadros desapareceram. E aquele
buraco, o que achas daquele buraco? Tu tambm o viste.
- Est bem, com os diabos. Vamos l fora e vamos ver aquele buraco outra vez.
-Agora? H horas que est escuro.
- Temos lanternas elctricas, no temos? Vamos l fora e damos outra vista de olhos quele buraco. Aposto que, se verificarmos mais atentamente, havemos de ver marcas
das garras de algum animal. Os animais fazem coisas malucas quando lhes d a febre da primavera.A Lenore ficou relutante, mas Owen obrigou-a a vestir um casaco e
saram por uma das portas traseiras. As obras do terrao nunca tinham sido completadas daquele lado e havia um bloco de cimento partido a fazer de degrau e depois
uma extenso de terra que tinha sido marcada para construo.
Havia lua cheia no cu e andaram o caminho sem ligar as lanternas elctricas, guardando alguma distncia entre eles e o rectngulo negro das runas do estdio. Estavam
a aproximar-se da zona das rvores, medonha e cerrada  luz da lua, e ocorreu a Owen que, se existiam espritos, por certo viviam ali. Onde ele tinha sido criado,
em campo aberto, a noite era quase to natural como o dia, e ele nunca tinha conhecido o poder misterioso que vinha com a escurido na floresta. Era uma coisa primria.
Original. Primitiva. Perversa. As associaes estavam ali nos seus pensamentos, embora no admitisse tal coisa perante a Lenore.
Ligaram as lanternas elctricas e ela conduziu-o para o meio das rvores. As folhas secas estalavam ao serem pisadas e uma brisa fez abanar os ramos das rvores.
Ele sentiu um desejo repentino de se deslocar furtivamente de rvore em rvore, mas manteve o foco de luz com firmeza  sua frente e caminhou com segurana, segurando
a mo de Lenore de maneira que ela seguia o rasto dele. Mesmo no escuro, ele reconheceu a clareira quando l chegaram.
Agora, disse ele, vamos s dar uma vista de olhos com mais ateno a esta coisa e aposto que vamos encontrar provas de que foi feita por algum animal, ou pelo menos
que j foi feito h vrios meses. E depois podemos ambos...
Parou to abruptamente que a Lenore chocou contra ele e deixou cair a lanterna elctrica. Numa reaco reflexiva, ela baixou-se para a apanhar, mas ficou imvel
ao olhar para a frente.
O buraco estava mesmo ali, iluminado pela luz da lanterna de Owen. S que j no era apenas uma mera tentativa de fazer um buraco. Agora tinha quase um metro de
profundidade, com uma forma semelhante a uma sepultura tosca, e havia uma picareta, uma p e uma escavadeira de fazer buracos no cho ali ao lado. Ele virou a lanterna
para cima e procurou fazer um arco em volta deles; depois prevaleceu o seu bom senso e desligou a luz da lanterna.
O que  que ests a fazer? perguntou a Lenore.
Shhh. Se ele ainda estiver aqui, no quero que consiga ver-nos.
Ela recuperou a sua lanterna do cho, desligando-a quando a apanhou, e ficaram ambos quietos por instantes, enquanto os seus olhos se adaptavam  escurido.
Vamos voltar para casa e chamar a polcia, sussurrou ele.
Ela ignorou-o e avanou lentamente para a clareira. Meio-cego, ele seguiu atrs dela aos tropees. Lenore... no...
Ela ajoelhou-se  beira do buraco e debruou-se sobre ele. H aqui qualquer coisa enterrada, disse ela. E de metal... como uma tampa.
Ele segurou o brao dela com a mo e puxou-a para cima. Instintivamente, agachou-se, sentindo um formigueiro na pele como pressentimento de qualquer coisa que estava
escondida nas sombras e arrastou-a com ele atravs das rvores e em volta das runas do estdio e atravs do espao aberto, ganhando
velocidade  medida que se aproximavam de casa. Abriu rapidamente a porta e a seguir fechou-a com fora e trancou-a.
- Temos de chamar a polcia. Meu Deus! Onde est aquela espingarda? Lenore... vamos!
A expresso dela mudou de medo para perplexidade, para manifestao de espanto.
- Lenore!
-  o AL, - disse ela. - No o sentes, Owen? o meu pai voltou!
Ela destrancou a porta das traseiras, abriu-a e olhou para fora, para o meio da noite. - Achas que ele ainda est ali ou achas que voltou para casa? Sem esperar
pela resposta, ela voltou-se e drgiu-se para o corredor. Owen seguu atrs dela sem saber o que fazer. o que ela dizia tinha lgica. Quem mais podia conhecer as
sequncias do sistema de alarme e ter as chaves de casa? Quem mais  que conhecia a casa to bem, que conseguia manter-se perfeitamente escondido? Quem mais podia
ter enterrado aqui alguma coisa?
Ela parou na cozinha. - Se ele no quer ser visto, duvido que consigamos encontr-lo, - disse ela.
- Temos de sair daqui, Lenore, Ele pode ser perigoso. J matou uma vez.
- Ele no  perigoso! Fez mal ao Bram apenas para se proteger a si prprio, e eu sei que no tinha inteno de matar. Estava apenas a tentar afastar-se.
- Lenore...
- No! o meu pai voltou. No vou perder outra vez a minha oportunidade com ele. - Subitamente ela tinha tomado uma atitude decidida. Determinada. -  de ti que ele
est a esconder-se, Owen. Para ele tu s um estranho. Tens de ir embora.
- No vou deixar-te sozinha!
- Vais, sim senhor. Esta casa  minha e eu quero estar com o meu pai. Tens de ir embora.  a nica maneira.
Pegou nas duas mos dele, apertou-as com fora, depois inclinou a cabea para lhe dar um sorriso amvel e carinhoso. - Por favor, - disse ela. - H tantas coisas
que preciso de lhe perguntar.  o meu pai, Owen. No corro nenhum perigo. Por favor, no me obrigues a zangar-me contigo. No me obrigues a pr-te fora daqui...
porque  isso que vou fazer, se for preciso. No posso voltar a perder o meu pai.
Ele no se mexeu, mas ela deve ter lido os pensamentos conflituosos nos olhos dele.
- Prometo-te que no corro qualquer perigo do AL. Se isso te faz sentir melhor, vou ficar com a espingarda junto de mim durante toda a noite.
Ela dirigiu-se para o armrio estreito ao lado do frigorfico e tirou a espingarda. Depois voltou-se para Owen com a arma encaixada no brao. Assumiu um olhar duro,
- De que tens medo? Que goste mais dele do que de ti? Que no precise mais de ti?
Compreendeu que era intil discutir. - Eu saio pela frente, - disse ele com relutncia.Ela acompanhou-o, com a espingarda suspensa ao seu lado. Quando chegaram 
porta, ele parou para enfiar rapidamente o casaco. Ento ela olhou para ele e os seus olhos brilharam com uma incandescncia intensa que lhe fez sentir dores no
seu ntimo.
Tu amas-me, no amas? perguntou-lhe ela.
Sempre te amei, disse ele. Sempre.
Ela pousou levemente uma mo no ombro dele e elevou-se para lhe dar um beijo na boca. Depois ele voltou atrs e saiu. Chegou ao carro, entrou e ligou o motor sem
se permitir pensar. Depois esfregou a cara com as mos e fez um grande esforo para decidir o que fazer a seguir.
O carro levou um minuto a aquecer e ele acelerou o motor constantemente. Queria que ningum ficasse com dvidas de que ia embora. Ao longo de todo o caminho de gravilha,
a sua mente no parou de pensar concentradamente. O Al era pai dela. Mas o Al tinha perturbaes mentais. O Al tinha sido perigoso no Vietname. O Al tinha morto
o Bram.
O porto j estava aberto quando chegou junto dele. Passou o porto, activando o interruptor electrnico. Acelerou o carro pela estrada e desviou-o para a valeta,
travou a fundo, desligou o motor e retirou a chave e correu, conseguindo voltar a entrar mesmo quando o porto estava a acabar de se fechar.
Caminhou a passos rpidos. Se algum verificasse a luz do porto, ficaria convencido de que ele tinha passado com o carro. Isso era o que ele tinha planeado. Mas
ficara-se por ali. Ainda no sabia o que faria quando voltasse a aproximar-se da casa.
 sua frente, o caminho de gravilha serpenteava como uma fita prateada atravs das pastagens escuras e das rvores ainda mais escuras. Manteve os olhos fixos no
caminho um pouco  frente dos ps e concentrou-se a caminhar. No devia ter levado mais de vinte minutos a percorrer a distncia, mas pareceram-lhe horas at chegar
ao cimo da elevao e olhar para baixo para a Arcdia de Bram Serian. Nada parecia estar diferente. Estavam acesas as mesmas luzes na casa que estavam quando tinha
sado. Aproximou-se da beira do ptio, depois desviou-se para trs de uma fila de cedros e ficou a observar. No havia nada para ver, mas mesmo assim ficou a observar.
A lua movia-se no cu e os seus ps ficaram entorpecidos com o frio, mas continuou a observar.
O que estava ele a fazer ali? Escondido da mulher ali fora da casa, quando ela lhe tinha ordenado para se ir embora?
Respirou fundo e atravessou o ptio para a sombra das paredes da Arcdia. E agora? Ia espreitar pelas janelas? Movendo-se sorrateiramente at quela porta das traseiras
que no estava trancada para a espiar?
Baixou-se gradualmente e sentou-se nos calcanhares, com as costas encostadas  pedra tosca e perguntou-se mais uma vez, o que havia de fazer a seguir? Tocar a campainha?
Perguntar por favor se agora podia conhecer o seu pai? Oh, Deus... o que havia de fazer? O que devia ter feito seria talvez esperar junto do porto durante algum
tempo e depois ligar pelo intercomunicador e falar com ela. Talvez ela no ficasse muito zangada e talvez o deixasse voltar para a casa.
o plano definiu-se na sua mente e ele apoiou-se na parede para se levantar. o intercomunicador era a melhor ideia. No ia conseguir nada ali agachado junto  parede.
Bateu levemente com os ps, silenciosamente, para fazer activar a circulao do sangue. S que no era silencioso, houve um barulho e por momentos pareceu-lhe que
tnha sido provocado pelos seus ps. Depois correu. Antes de ter tempo para pensar, correu. o barulho tinha sido de um tiro de espingarda.
Precipitou-se pela porta destrancada das traseiras e entrou na cozinha. A casa estava num silncio de morte. - Lenore? - chamou ele baixinho, rezando em silncio...
por favor, por favor, por favor...
Correu pelo corredor e entrou na sala de estar colossal. Havia uma lareira a arder. Os cavacos verdes davam estouros e a luz do fogo reflectia-se nas paredes. -
Lenore? - chamou ele suavemente. - Sou o Owen.
Ela estava sentada perto do lume, a olhar para ele. No cho ao lado dela estava a espingarda. A alguma distncia um corpo ensanguentado de um homem estava esparramado
sobre uma carpete Navajo.
- Lenore?
o tempo parou e ele estava a mover-se sem se mover. Estava a ver-se a si prprio a caminhar para ela.
- Lenore?
Lentamente, como se se tivesse transformado em vidro, ela levantou os olhos para ele. Ele ajoelhou-se em frente dela. Tinha a cara lisa e as mos compridas e graciosas
e a saia de seda branca salpicadas de sangue.
A sua expresso foi primeiro confusa, depois vagamente perplexa, depois disse subitamente, - Tu amas-me, no amas?
Owen acenou que sim com a cabea e a cara dela ficou desfocada at que ele pestanejou vrias vezes para a recuperar.
- Eu disse-lhe que tu me amavas, mas ele riu-se.
Owen fez um esforo para caminhar para a carpete Navajo. Agachou-se, desviando os olhos e pressionou com os dedos o pescoo para verificar a pulsao. No havia
pulsao. No havia vida no corpo destroado. Owen conteve a nusea e a repugnncia que o ameaavam. Endireitou-se, pensando que devia ir buscar um cobertor para
tapar aquele rosto morto sem vista e s ento se revelou na sua mente entorpecida.
- Lenore... - voltou-se para ela chocado e incrdulo, depois voltou-se para trs a olhar para o homem morto. Mesmo sem a marca do bigode e barba, percebeu que aquele
era o corpo de Bram Serian que estava deitado no cho.
Ento ela falou num tom surdo e distante.
- Durante todo este tempo pensei que estava livre, mas no estava. Agora... estou livre.30
Owen sentou-se  janela do seu apartamento a olhar para o pequeno jardim rectangular rodeado de muros. Tinha colocado l um comedouro quando chegou o tempo frio,
por isso o lugar estava sempre cheio de aves e esquilos. Sempre que o comedouro estava vazio ele voltava a ench-lo, sentindo ao mesmo tempo prazer e tristeza, vendo
naquela ocupao a sua tarefa de tratar do gado.
o sol subiu suficientemente alto para a sua luz passar entre os edifcios e chegar ao jardim coberto de neve, fazendo-o ficar vesgo perante tanta luminosidade. Mais
um dia. Acabou de beber a chvena de caf e pensou em levantar-se para fazer mais. Mas no tinha pressa. Tinha muitas horas pela frente. Horas sem fim. E no queria
apress-las. Queria prolong-las o mais possvel e retardar a investida da noite. Porque as noites eram as mais difceis.
 noite era quando sentia mais a falta da Lenore. Quando ansiava pelo calor dela na cama junto de si, o aroma do seu cabelo e o ritmo suave da sua respirao.
Lenore. Bastava o nome dela, murmurado silenciosamente nos seus pensamentos, para despertar nele um profundo anseio em que se sentia apanhado, encurralado, momentaneamente
enrolado.
o seu sono estava cheio de sonhos com ela, mas mesmo nos seus sonhos ela estava perdida para ele, por isso as suas noites eram, na melhor das hipteses, agridoces.
E na pior das hipteses... na pior das hipteses as suas noites traziam vises horrveis que lhe faziam bater o corao. Acordava com frequncia e no apenas antes
de amanhecer, a tremer e a suar e a fechar desesperadamente os olhos perante as imagens do sonho que ficavam suspensas na escurido, tentando sair a todo o custo
dos pesadelos com Serian.
Naquela manh ele tinha tido um sonho em que a Lenore estava aos gritos e ele estava preso por baixo do cadver de Bram Serian, sufocando no derramamento de sangue
daquelas feridas horrveis. Tinha-se sentado e olhado para o mostrador iluminado do relgio para escapar ao domnio arrepiante daquela viso. Eram quatro horas da
manh, mas mesmo assim levantou-se e#vestiu-se. Depois de um daqueles pesadelos, raramente conseguia voltar a dormir, por isso tinha desistido de tentar.
Olhou para o relgio de pulso. Embora tivesse estado a olhar para o jardim durante quase cinco horas, ainda era cedo. Demasiado cedo para a Bernie ou a sua editora
estarem no escritrio. Demasiado cedo para o telefone tocar. Eventualmente poderia chegar uma chamada e ele ouviria qualquer coisa emocionante sobre o seu livro.
Bram Serian: a Lenda e o Mto tinha acabado de ser publicado, e todos os dias a Arlene ou a Bernie lhe telefonavam com uma crtica positiva ou um pedido para a sua
comparncia em alguma actividade. o livro era a sua tbua de salvao. Tinha-o levado a continuar... tinha-o ajudado a sobreviver.
l devia ter comeado de novo a trabalhar em alguma coisa, mas no tinha conseguido. Com base no seu sucesso, a Berre tinha vendido os seus velhos manuscritos e
ele tinha pensado racionalmente, dizendo a si prprio que andava muito ocupado com negociaes contratuais e revises para pensar em alguma coisa nova. A verdade
subjacente a toda a racionalizao era que no tinha sido capaz de esquecer o livro sobre Serian. Ainda preenchia os seus pensamentos. Absorvia as suas energias.
De tal maneira que nada mais conseguia ganhar razes e crescer.
A tragdia de Serian... o mistrio de Serian... os fantasmas de Serian... estavam ainda todos com ele, ulcerando-lhe o crebro. E no podia tentar expiar-se escrevendo
sobre eles porque tudo o que faltava contar eram as partes que no podia nem queria contar de forma alguma. Que no se atrevia a transpor para a escrita.
Um cardeal vermelho vivo apareceu a roubar sementes do comedouro. Atrs dele veio a sua companheira, de um vermelho menos vivo mas mesmo assim bonita no meio da
neve. Como sangue no meio da neve.
Sangue. Encostou-se para trs na cadeira e fechou os olhos. E l estava, pronto para se revelar pela centsima vez. Os olhos fixos da Lenore como buracos negros
no seu rosto muito plido e o corpo ensanguentado e inanimado de Bram Serian.
Jamais esqueceria o peso daquele corpo ao arrast-lo para fora da casa na carpete Navajo. o seu torpor. A maneira como os braos pendiam e batiam na moblia. E o
cheiro dele. Aquela mistura de sangue e intestinos desfeitos e fezes de cheiro acre, que provocavam vmitos e sufocavam.
Depois ele tinha atado a carpete, tentando embrulhar o contedo e neutraliz-lo. De tal modo que j no era um cadver quando o arrastou para a floresta com o tractor.
De maneira que no era um cadver quando o empurrou para o buraco de onde ele e a Lenore tinham tirado a enorme caixa de metal.
No era um cadver, mas ele teve de afastar-se dele mesmo assim. Tinha caminhado para o meio das rvores para descansar um minuto. Para ficar afastado daquela coisa
que no era um cadver. Para descansar s um minuto antes de pegar na p e encher o buraco de terra. o buraco que o prprio Bram Serian tinha estado a cavar apenas
algumas horas antes.
Quando se voltou para trs, viu fogo no meio das rvores e correu para a Lenore que estava de p por cima da sepultura. Sentiu-se sufocado por umintenso cheiro pestilento,
enquanto as chamas devoravam a carpete, fazendo arder completamente a l com motivos decorativos, de tal modo que o rosto ficou visvel. O rosto de Serian. O rosto
do fantasma.
O que ests tu a fazer? gritou-lhe ele.
Ela j tinha deixado cair a lata de fluido para isqueiros e a caixa de fsforos e estava a olhar fixamente. A observar o fogo.
Foi isto que ele fez ao meu pai, disse ela.
Foi quando Owen ficou a saber com toda a certeza que tinha sido o Al quem tinha morrido no estdio. Bram Serian tinha morto o irmo e pegado fogo ao estdio para
encobrir o crime. Bram Serian tinha fugido e deixado a Lenore a enfrentar a acusao de assassnio. A Lenore no tinha sido culpada de nada.
At puxar o gatilho da espingarda e matar o seu fantasma. O seu traidor. O seu atormentador.
Owen pegou na p e deitou terra para cima do fogo e da carpete e do rosto a desfazer-se. Encheu tudo de terra. Enterrando a verdade por ela. Cobrindo-a com terra
e folhas e galhos secos, de maneira que no ficasse nada que evidenciasse o local. De maneira que Bram Serian tinha desaparecido novamente, para sempre desta vez.
E a Lenore ficava a salvo do Xerife Bello e de Spencer Brown e de Holly Danielson e de Natalie Raven e de todos os outros que teriam vindo atrs dela e a destruiriam.
A Lenore estava a salvo. E estava certo. Tinha mais justia e moralidade do que todas as leis e a justia dos tribunais que ele tinha visto.
Owen levantou-se da cadeira de repente, assustando as aves de cor vermelho vivo que fugiram, afastando as recordaes. E ele foi para a cozinha fazer mais caf.
Era uma cozinha bonita. Uma pequenina jia de cozinha. Tinham escolhido tudo e organizado as coisas juntos. Tinham aprendido juntos a cozinhar nela.
Havia recordaes dela por toda a cozinha. Havia recordaes por todo o lado. O fantasma de Serian esperava que ele adormecesse, mas a Lenore estava sempre com ele.
s vezes parecia a Owen que ele era agora to assombrado como ela tinha sido. E viu naquilo um humor negro quando pensava que impresso daria aos outros, vivendo
com os seus fantasmas, parando s vezes para escutar, convencido de ter ouvido os passos dela fora da sua porta. E que dizer das velas que acendia? A vela Amor Inseparvel
pela morte e a vela Corao Seguro, Garantiam Manter a Pessoa Amada em Segurana para Alm de Qualquer Distncia. Tinha encontrado uma pequena taberna onde se vendiam
e comprava velas novas todas as semanas para queimar por ela.
Com a chvena cheia de caf, voltou a sentar-se junto da janela. Uma pequena ave rechonchuda, com um peito amarelo plido e uma cabea negra com uma crista, desceu
a voar para o comedouro. Um destes dias havia de ir a uma livraria para comprar um guia de aves. Um destes dias, quando lhe apetecesse fazer isso.
Lenore. Lenore. Lenore.
Ela tinha gostado muito do jardim e dos passarinhos. Quando se mudaram para l, ela tinha querido tomar o pequeno almoo l fora todas as manhs.
Ela ainda tinha uma atitude aptica e silenciosa na altura em que ele encontrou o apartamento e se mudou com ela para l. Depois a apatia evoluiu para a melancolia
e finalmente o silncio foi quebrado. Foi no jardim que ela finalmente lhe disse que tinha disparado sobre o Bram.
Contou-lhe que tinha percorrido a casa a chamar pelo AL, para que aparecesse. Como depois tinha esperado, tinha acendido a lareira e tinha esperado pelo pai na sala
de estar. Como tinha ficado a olhar para o lume, a pensar em todas as coisas que finalmente ia conseguir dizer. Todas as coisas que finalmente ia conseguir perguntar.
Ouviu um rudo e voltou-se. Mas no era o seu pai que estava ali. Era Bram Serian.
- Tu ests vivo? - Perguntou ela. Ele riu-se. o fantasma riu-se.
- No h nada que me possa matar, Lenore. Foi o AL que morreu no estdio.
- o AL? Oh meu Deus... Oh meu Deus... Tu mataste o AL? Tu mataste o teu irmo? Tu mataste o meu pai?
Bram suspirou. - Eu no tinha inteno de o matar. Estava a tentar faz-lo compreender como tinham de ser as coisas. Que ele tinha de ficar comigo e comear a pintar
de novo.
- A pintar?
- Ele ajudava-me a pintar, Lenore. Ele dava-me assistncia.
- Ele ajudava-te a pintar ou ele pintava?
-  a mesma coisa. Era a mim que as pessoas queriam. Eu dei vida s obras do AL. Orientei-o e ensnei-o. Eu crei-o!
- Eu salvei-o do seu purgatrio naquele lugar infernal e salvei a sua pequena filha, uma fedelha, e recuperei-o e transmiti-lhe dignidade. E como  que ele me retribuiu?
Fugindo! Tentando roubar o talento que eu tinha desenvolvido nele.
- Levou quase dois anos ao meu detective a seguir a sua pista e depois eu levei meses a fazer-lhe ver que tinha de voltar. Ele prometeu que ia voltar para casa.
Prometeu trazer novos quadros quando voltasse.
- Mas depois, quando apareceu naquela noite, ele tinha percebido tudo mal. Pensava que de repente podia ser ele a ganhar prestgio. Que a arte podia ser dele. Ele
no compreendia. As pinturas s eram importantes para as pessoas, desde que fossem minhas.
A Lenore abanou a cabea de incredulidade. - Foi tudo uma mentira? Tudo aquilo em que eu acreditava foi uma mentira?
- Ainda andas  procura da verdade, heim, Lenore? Bem,  um conceito relativo, sabes. Um conceito que pode ser moldado e definido. Como uma obra de arte.
- No, Bram. j no. Descobri todos os teus segredos. Agora conheo a verdade autntica. Sei o que fizeste ao teu pai. Sei que me afastaste da minha vida na Tailndia.
Sei como me perverteste e me defraudaste e me enganaste. E agora sei como intrujaste e usaste o teu irmo. E como o mataste.
- Estou a ver. Isso altera de algum modo as coisas. Mas no muito. Porque tu s fraca, Lenore. Tal como o AL. Sem mim tu no s nada. Sem mim
a tua vida  pequena e inconsequente. Mas agora estou de volta e vou tomar conta de ti.
Tenho planos para me fazer ressuscitar. Ests a ver, quando tudo isso aconteceu eu fiquei em pnico. Pensei que tinha a minha vida desfeita. O Al estava morto e
as pessoas iam querer entrar no estdio para investigar e iam ver que no havia l obras de arte prontas para uma grande exposio. Eu no tinha l nada. Nem sequer
obras de escultura ou talha. Desde que o Al se foi embora que fiquei bloqueado. No saiu nada das minhas mos. O Al trouxe consigo algumas pinturas para me mostrar,
mas no eram suficientes para fazer uma exposio.
As pinturas que o Al trouxe... eram as que foram deixadas encostadas  rvore?
Sim! Muito bem, Lenore. Tencionava lev-las comigo. Levei-as para fora e coloquei-as junto do carro do Al, mas depois, quando fui embora, estava com tanta pressa
que me esqueci delas.
Ests a ver, provoquei o incndio para ocultar o crime. Tive de destruir o estdio para que ningum descobrisse que estava vazio. E estava to apavorado que pensei
que tinha de desaparecer. Antes que algum pudesse humilhar-me e fazer-me perguntas. Coloquei as minhas peas de joalharia no Al e derramei todo aquele petrleo
na cara dele, na esperana de que as pessoas pensassem que era eu. E deu resultado!
Pegaste no carro em que o Al veio e fugiste.
Isso devia ser bvio, Lenore. O problema foi eu no ter planeado antecipadamente.  evidente que me livrei de mim prprio, mas agora quem  que devo ser? S agora
estou a tomar conscincia de como hei-de ser.
Entretanto veio-me uma ideia  cabea. Tenho muito dinheiro guardado... vou mandar fazer uma interveno cirrgica ao meu rosto, pintar o cabelo de cor castanha
e depois volto para a Arcdia como sendo o Al. Quem vai desconfiar? No h por a nenhumas fotografias dele e ele j se foi embora daqui h mais de dois anos. Quem
 que se vai lembrar exactamente de como era ele?
E vou ter-te a ti para confirmar a minha identidade, no  verdade? Vai ser perfeito. Como Al vou herdar a Arcdia. Como Al vou desenvolver um talento pela arte.
Sorriu e estendeu as mos para mostrar como era tudo muito simples.
Vou livrar-me desse indivduo que tu trouxeste para aqui e depois vamos ter novamente a casa s para ns.
Deixa o Owen fora disto!
Oh, por favor, Lenore... no me digas que pensas que ele te ama. Tu no s digna de ser amada, Lenore. Tu s uma bruxa. A nica coisa que ele quer  o meu dinheiro
e a minha casa.
Eu odeio-te, Bram. Desprezo-te. Eu nunca, nunca mais vou voltar a viver contigo, nem fazer parte das tuas mentiras.
Mas vais mudar de opinio. Ns somos uma famlia, Lenore. Eu sou toda a tua famlia.
Eu vou-me embora com o Owen. E espero que apodreas nesta casa. Melhor ainda, espero que ardas nela.
- Ir embora com o Owen? Deves estar a brincar. Achas que vou alguma vez, deixar-te sair daqui? - Riu-se de novo. - E com tudo o que esse teu amante sabe... achas
que vou deix-lo ir, para ele poder denunciar-me?
- No, Lenore. Tu s mais esperta do que isso. Tu sabes bem o que tenho de fazer. o que ns temos de fazer. Tu vais voltar a atrair aqui o teu amante e depois encarregar-nos-emos
de resolver o problema. Podemos usar aquele lindo buraco que estive a cavar para o fazermos desaparecer de uma vez por todas.
o Bram sorriu e comeou a caminhar na direco dela. Ela levantou a espingarda que estava ao seu lado no sof. Levantou-a. E ele sorriu como se ela estivesse a ser
estpida. E estendeu as mos para ela, a sorrir, to absolutamente confiante em si prprio e nela... estendeu as mos para lhe tirar a espingarda. E ela disparou.
Owen verificou novamente o relgio de pulso - nove horas da manh em Nova Iorque significavam oito horas da tarde na Tailndia. o que estaria a Lenore a fazer? Com
quem estaria ela? Estaria a pensar nele, a desejar que estivesse na sua cama, a sentir a falta do seu sorriso ou dos seus braos a abra-la? Ou para ela ele faria
j parte do passado, algum que ela recordava apenas com um carinho distante?
Tinha tido notcias dela apenas uma vez nos trs meses que tinham passado desde que tinha ido embora, No pelo telefone, em que teria a oportunidade de conversar
com ela ou implorar-lhe, ou mesmo dizer-lhe que a amava, mas atravs de uma carta que ela tinha escrito com dificuldade na sua caligrafia infantil.
Meu querido Owen,
Lamento que tenhas ficado to perturbado com a minha partida. Eu sabia que ias sofrer e foi por isso que esperei at ao ltimo minuto para te dizer que tinha de
ir embora. Queria que o tempo que nos restava juntos fosse de felicidade.
A Tailndia para mim  como entrar num sonho. Onde quer que v, existem cheiros e vistas e sons que me provocam um sentimento de dj vu, mas eu sei que so recordados
por alguma parte de mim l bem no fundo. Encontrei a Chinda e ela est a ajudar-me a procurar a Chit. A Chinda conseguiu contar-me tantas coisas sobre a minha me.
Tantas pequenas coisas que para mim trazem a Kansai de novo  vida. E ela tem uma fotografia da minha me, assim tenho finalmente um rosto para conservar na memria.
Ela diz que os familiares da minha me eram Chao Bom, que  uma tribo antiga e que vivem nos arredores de Chaiyahum. (Estou a contar-te isto porque sei como tu gostas
de procurar coisas nos teus livros). Embora a minha me tivesse ficado rf muito nova e as minhas hipteses
de encontrar alguma famlia directa so provavelmente diminutas, estou mesmo assim a planear viajar para Chaiyahum e passar l algum tempo.
Eu sei que tu no compreendeste a minha partida, ou a minha recusa em deixar-te vir comigo, mas espero que agora j compreendas melhor, depois de teres todo este
tempo sem mim para reflectires. Somos duas pessoas de mundos diferentes, Owen. O facto de estarmos juntos no nos liberta do nosso passado nem o apaga.
Esta viagem  minha. Tu no podes fazer parte dela e no podes ajudar-me nem proteger-me. No sei o que vou descobrir nem quem vou encontrar. E tinhas razo em desconfiar
que eu podia no voltar para ti. Eu no queria admitir isso a mim prpria nem a ti enquanto te olhava nos olhos, mas  verdade.
Se eu no regressar,  porque  melhor assim. Tens de acreditar nisso. Significar que eu falhei e que no tenho nada para levar e para te dar. Nesse caso tens de
esquecer-me definitivamente.
Mas esse no  o resultado que eu desejo. Espero enterrar os meus fantasmas e encontrar a paz. A Chinda diz que eu ando  procura da criana que deixei aqui. Talvez
seja verdade. No sei. Mas se eu puder recuperar a calma, se puder encontrar a paz, se puder encontrar alguma parte de mim prpria que valha a pena dar, ento eu
vou regressar e vou dar-ta. O teu amor  o mais profundo e mais verdadeiro que eu alguma vez conheci. Vou guardar-te para sempre no meu corao.
Lenore
E por isso ele ficou  espera. Ficou  escuta dos passos dela, do som da sua chave na fechadura. Observou o seu jardim pequenino, tomou o seu caf, acendeu as suas
velas e pensou no passado imutvel. Pensou na sua vida. E esperou.
Mas ao olhar para trs, reparou que tinha estado sempre  espera dela.  espera de ser abraado. De ser absorvido pela escurido dos seus olhos.
Ela trazia a queda febril, o mpeto intenso que eliminava tudo o que ele tinha sido e o deixava a saborear a cinza. Mas agora sabia, ao olhar para trs, que sempre
quisera isso.
Que sempre estivera  espera.
